Os 25 anos de Arquivo X: A verdade ainda está lá fora

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Há 25 anos, às 21 horas de sexta-feira, 10 de setembro de 1993, Arquivo X, a série mais popular e de maior sucesso em todos os tempos, estreava na Fox Television, de propriedade do magnata Keith Rupert Murdoch. No Brasil, o piloto só fez o seu debut mais de um ano depois, às 19 horas de um domingo, 4 de dezembro de 1994, na Rede Record, de propriedade do bispo evangélico Edir Macedo, fundador e líder da Igreja Universal do Reino de Deus.

Criada por Chris Carter, um escritor com pinta de surfista e cabelos precocemente brancos, a série logo arrebanhou uma legião de fãs e atiçou o ânimo dos ufólogos por abordar no piloto e no primeiro episódio, abduções, implantes e testes em naves com tecnologia alienígena. A premissa era a principal promessa de que não iríamos ser brindados com um mero entretenimento: “A história que verão a seguir é baseada em documentos reais”. E os emblemáticos slogans ao fim da antológica abertura, davam o tom: “The truth is out there” (“A verdade está lá fora”) e “Trust no one” (“Não confie em ninguém”).

Se parecia que a série se ocuparia apenas de OVNIs, fenômenos paranormais e conspirações governamentais, logo surpreenderia pela sua inesgotável versatilidade ao mostrar mutantes genéticos que se alimentavam de fígados humanos, monstros, seres deformados, seres com caráter e alma deformados, paranormais, psicopatas, serial killers, canibais, espíritos, fantasmas, lobisomens, vampiros, reptilianos, transmorfos, seitas religiosas, cultos satânicos, bruxaria, experiências genéticas (como a injeção de DNA alienígena em bebês), vírus alienígenas, entre outras amenidades.

Pôster que acompanha o CD “The X-Files – Songs In The Key Of X”.

A grande inspiração de Chris Carter, que escreveu 16 dos 50 roteiros filmados nos dois primeiros anos e dirigiu alguns episódios, veio da maldita e cultuada série dos anos 70: Kolchak: The Night Stalker (Kolchak e os Demônios da Noite, criado por Jeffrey Grant Rice), que ficou no ar por apenas uma temporada incompleta (20 episódios entre 13 de setembro de 1974 e 30 de agosto de 1975). Em Kolchak, o repórter Carl Kolchak, interpretado por Darren McGavin – que faria participações especiais em Arquivo X como o agente do FBI que criou os Arquivos X nos anos 50 -, já se via às voltas com psicopatas, criaturas sobrenaturais, monstros e alienígenas.

Se Kolchak amargou baixa audiência em uma época pós-hippie (os hippies, aliás, eram o público principal, mas que não consumia), Arquivo X explodiu em uma época pós-yuppie e pré-internet. Foi Arquivo X que difundiu o gosto e a aceitação, como nenhuma outra, pelos microcomputadores, pelos notebooks, pelo telefone celular e pela própria internet.

Indistinguível da realidade difusa e confusa do começo dos anos 90, Arquivo X definiu a sua estética, os seus paradigmas e o seu clima, sempre regido pelo par central do seriado, os qualificados e obsessivos agentes especiais do Birô Federal de Investigações [Federal Bureau of Investigation (FBI)], Fox “Spooky” Mulder (David William Duchovny) e Dana Scully (Gillian Anderson). Ao mesmo tempo antitéticos e complementares em suas posturas e crenças distintas, por vezes invertiam posturas e crenças, como se pudessem circular pelo mesmo fio condutor. O contrabalanço pendia ora pela crença e certeza, ora pela dúvida e incerteza, em disposições atávicas e latentes, regadas por uma boa dose de especulação e corroboradas por rigorosas explanações científicas, no limite mórbido do realismo fantástico, da beleza macabra e do terror explícito.

Os roteiristas e produtores de Arquivo X não só capturaram magistralmente os elementos que compunham o substrato do imaginário coletivo e temores dos anos 90, como conseguiram dar precisão ao impreciso, realidade ao irreal, processo que na literatura é chamado de poiesis, a marca registrada do poeta e escritor norte-americano de literatura policial fantástica Edgar Allan Poe (1809-1849). O temor do desconhecido, daquilo que o homem não consegue explicar, já percorria toda a prosa clássica de Poe, cheia de imagens lúdicas e estranhas, como que tocadas por um cálido sopro de tragédia. Os personagens de Poe caminham no estreito limite entre a realidade e a fantasia, artimanha para que o leitor não se sinta impossibilitado de penetrar na história. Uma invenção sim, mas passível de acontecer com qualquer um. Para tanto, os personagens de Poe estão sempre alterados pela febre, pela bebida, em crise nervosa e alucinatória, deixando o leitor sempre na dúvida se tudo aconteceu realmente, tal como se veria em Arquivo X.

No clímax pós-moderno da celebrada Era da Informática e da cibernética, da reengenharia, os produtores de Arquivo X trouxeram de volta o temor ao desconhecido, àquilo que o homem não consegue explicar, ao mais primitivo. No extremo das exacerbações e das inquietações humanas, das inquirições metafísicas e filosóficas, os personagens de Arquivo X se viam às voltas com inimigos que podiam estar em qualquer lugar e assumir diferentes formas, inimigos do além ou deste ordinário mundo. Podiam vir da floresta ou bem ali da esquina, de dentro do computador ou ser seu familiar mais próximo. Não existiam mais lugares seguros, mesmo porque a maioria dos monstros e aberrações que Mulder e Scully enfrentava não era definitivamente liquidada e ainda continuava lá fora, bem viva, podendo voltar a atacar a qualquer momento.

O “Canceroso”, interpretado por William Bruce Davis.

Sociedades secretas inomináveis em atuação dentro dos altos escalões das agências governamentais, seguiam e seguem cumprindo placidamente a sua agenda e nada pode pará-las e aos seus membros. O obscuro personagem sem nome do “Sindicato” ou alto escalão do “Governo Invisível” que fumava compulsivamente, apelidado de “Smoking Man” (“Canceroso”, interpretado por William Bruce Davis), enunciou que se as pessoas soubessem tudo o que ele sabia, “o mundo desmoronaria”. Mulder foi ajudado no primeiro ano da série por um personagem não menos sinistro e manipulador, apelidado de “Garganta Profunda” (Jerry Hardin), inspirado no informante (o ex-vice-diretor do FBI William Mark Felt) do Caso Watergate.

Homens poderosos que constituem a “antirraça humana” teriam feito alianças com ETs nefastos, os quais atuam ostensivamente, dando andamento a uma grande conspiração universal para escravizar e subjugar definitivamente a humanidade e transformar os remanescentes numa raça híbrida tipo formiga, abelha ou termita. Para tanto, os ETs nefastos, mais o Governo Invisível e submissos dos governos oficiais, levam a cabo experiências tenebrosas em bases subterrâneas como Dulce, na Área 51, raptando e mutilando ininterruptamente animais e seres humanos, entre eles crianças e mulheres indefesas.

Jerry Hardin, o “Garganta Profunda”, presente na London Expo de 2003.

O sucesso de Arquivo X gerou uma propensão repentina nos produtores de tevê em investir em séries paranoicas, assustadoras, sombrias e realísticas. A temporada de tevê nos Estados Unidos em 1996 viu a estreia de séries como The Pretender, Profiler e Dark Skies. O próprio Carter lançou Millennium (1996-1999), ainda mais sombria e violenta do que Arquivo X, com um detetive paranormal angustiado e várias referências ao ocultismo, ao satanismo, à bruxaria, às profecias de Nostradamus e ao Apocalipse.

Frank Black (Lance Henriksen), agente aposentado do FBI, consegue penetrar na mente e ler os pensamentos dos criminosos que persegue, dom nada agradável quando se trata de serial killers e psicopatas. Ele integra o grupo Millennium, uma sociedade secreta cujo objetivo é combater a violência e o mal, venha ela de onde vier e na forma que for.

No episódio piloto, Black enfrenta um assassino que decapita e corta os dedos de suas vítimas. Com o tempo, ele descobre que o serial killer está fazendo testes com o sangue das pessoas que mata. Ao longo do episódio, vão aparecendo uma sucessão de inscrições com a palavra “peste”, numa referência indireta à AIDS. Noutro episódio, inocentes vítimas são enterradas vivas depois de terem suas bocas costuradas. No episódio seguinte, Frank e seus colegas caçam um grupo terrorista que tem conexões com a Aum Shinrikyo, a seita japonesa que soltou gás venenoso no Metrô de Tóquio. Há cenas de membros decapitados e bastante sangue. Nada, no entanto, que passe dos limites do bom senso e da atenção redobrada dos censores da rede Fox. Obviamente procurando distanciar-se da frieza oficial do FBI para o qual os personagens de Arquivo X trabalham, Carter tentou humanizar Black dando-lhe uma mulher, filha e uma pacata vida de classe média.

Série derivada (spin-off) do sucesso de The X-Files (Arquivo X), criada por Chris Carter, The Lone Gunmen (Os Pistoleiros Solitários), em seu episódio piloto levado ao ar pela Fox em 4 de março de 2001, foi o que antecipou de forma mais direta, explícita e indubitável os atentados ao WTC que ocorreriam pouco mais de seis meses depois.

A série criada por Carter, Vince Gilligan, John Shiban e Frank Spotnitz (roteiristas, produtores e diretores de Arquivo X), gira em torno do trio geeky de teóricos da conspiração Melvin Frohike (Tom Braidwood), John Fitzgerald Byers (Bruce Harwood) e Richard Langly (Dean Haglund), editores da revista The Magic Bullet (A Bala Mágica), que em Arquivo X costumavam pôr as suas habilidades hackers a serviço dos agentes Mulder e Scully.

Neste pouco ou nada sutil episódio de estreia, uma obscura facção do Departamento de Defesa coloca em ação o “Cenário 12D”, um avançado software que permitia tomar por controle remoto os comandos de um Boeing 727 em pleno voo – embora na época a maioria dos 727s ainda não fossem equipados com sistemas computadorizados digitais e os computadores analógicos não eram passíveis de serem utilizados para controlarem remotamente tais aeronaves. A finalidade era simular um “ataque terrorista a um voo de linha aérea doméstica” e com isso jogar a culpa em “terroristas estrangeiros” de modo a forçar o aumento dos gastos do governo com a indústria armamentista.

Na cabine de comando do Boeing, o piloto vê surgir na tela a mensagem “acesso remoto detectado”, ao que vai perdendo o controle do avião que ruma precisa, direta e perigosamente para as Torres Gêmeas do WTC. Em uma das cenas, Bertram Byers, egresso do Departamento de Defesa, diz ao seu perplexo filho John Fitzgerald Byers: “A Guerra Fria acabou, John. Mas sem inimigos declarados que justifiquem o comércio de armas, o mercado fica estagnado. Mas derrube um 727 com o tanque cheio sobre a cidade de Nova York e você irá descobrir uma dúzia de ditadores espalhados pelo mundo clamando para assumir a responsabilidade e suplicando para que os ataquem. […] Eles vão jogar o avião contra o World Trade Center.”

A “premonitória” série foi cancelada ainda na metade do primeiro ano e teve apenas treze episódios, o último deles levado ao ar em 1º de junho.

Já o último episódio de Arquivo X, “The Truth II”, foi levado ao ar em 19 de maio de 2002. Ao todo foram nove temporadas e 202 episódios.

Dois longas foram feitos, o primeiro, em 1998, no auge da popularidade da série, chamado The X-Files: Fight The Future, e o segundo dez anos depois, que passou praticamente batido: The X-Files: I Want to Believe.

Em 2016, Arquivo X foi reavivado por Chris Carter que trouxe de volta o par central e alguns dos principais personagens para uma 10ª temporada em forma de minissérie com seis episódios recheados de referências à mitologia original e abordagens a temas conspiratórios atuais. Em 2018, Chris Carter insistiu com uma 11ª temporada que estreou em 3 de janeiro com o episódio “My Struggle III” (Minha Luta III) e se encerrou em 21 de março com “My Struggle IV” (Minha Luta IV), em um total de dez episódios.

Exclusivo – Entrevista de David Duchovny publicada na edição de outubro de 1995 da revista Details: