Wilhelm Reich: Cloudbuster para subtrair a energia orgônica dos OVNIs

Os 120 anos do nascimento e os 60 anos da morte de Wilhelm Reich

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Wilhelm Reich em 1900

Nascido em 24 de março de 1897 em Dobrzcynica, na Galícia (anexada à Polônia), fronteira do Império Austro-Húngaro, Wilhelm Reich passou a infância e o início da juventude em uma fazenda em Jujinetz, na Bucovina. O pai, de origem judaica, contratou um preceptor para ministrar-lhe educação secular. Em 1911, sua mãe suicidou-se quando seu pai descobriu que ela o traía com um de seus professores. Três anos depois, o pai morreu tuberculoso. O trauma sugere uma ligação entre o homem e a obra: a obsessão pela liberdade sexual seria um modo de expiar a culpa (inexistente) que sentia pela morte dos pais.

Reich serviu como oficial do Exército Austríaco na Primeira Guerra Mundial e em 1918 ingressou no curso de direito da Universidade de Viena, mas logo se aborreceu e se transferiu para o de medicina. Aluno superdotado, completou o curso de seis anos em apenas quatro. Em 1919, época em que as teses de Freud ainda estavam longe de serem reconhecidas, Reich já se convencia de que a sexualidade é o centro em torno da qual gravitam a vida social e inconsciente das pessoas. Atribuindo uma origem sexual às neuroses, ele se interessa pelas condições sociais dos pacientes cujos problemas atribui a uma “couraça” ou “armadura” fisiológica, conjunto de estruturas que obstruem a energia sexual e impedem sua livre expansão.

No seu mais célebre livro, A Função do Orgasmo, de 1927, escreve que o único fim da análise é a quebra de defesas e a liberação de energias: “Para dominar a neurose coletiva e o irracionalismo na vida social, isto é, para efetuar uma verdadeira higiene mental, é necessária uma estrutura social que deve, antes de tudo, eliminar a miséria material e salvaguardar o livre desenvolvimento das energias vitais em cada um e em todos os homens. Essa estrutura social só pode ser a verdadeira democracia.”[1]

No mesmo ano, Reich inscrevera-se no Partido Comunista Austríaco, o que soava como uma provocação. Abriu clínicas populares de orientação sexual e ousava tratar as neuroses dos proletários. Para Freud, a civilização é necessariamente repressiva e a sublimação dos instintos sexuais é indispensável para que a energia humana seja sublimada e dirigida ao trabalho. Para Reich, a “miséria sexual” é o coroamento de toda repressão, e defender a vida é reconhecer os direitos do sexo.

Perseguido pelas autoridades governamentais e pelos setores ortodoxos do Partido Comunista, em setembro de 1930 Reich deixa Viena – onde suas posturas são rechaçadas pelos psicanalistas que veem a militância política como indigna para um cientista – e segue para Berlim. À revelia, Reich funda a Associação Alemã de Política Sexual Proletária (Sexpol), entidade dedicada a campanhas de esclarecimento público, e continua desenvolvendo trabalhos psicopolíticos.

Publica A Irrupção da Moral Sexual [em que analisa a obra do antropólogo polonês Bronislaw Malinowski (1884-1942), autor de A Vida Sexual dos Selvagens do Noroeste da Melanésia (1929)] e A Luta Sexual dos Jovens e Psicologia de Massas do Fascismo, este último já no exílio na Dinamarca, em decorrência da ameaça nazista. Escorraçado por escrever um artigo sobre o movimento nudista, Reich vai à Suécia onde cria em 1934 a revista Psicologia Política e Economia Sexual, ano em que seria expulso tanto do Partido Comunista como da Sociedade Psicanalítica.

O único grupo que o apoia é o do norueguês Ola Raknes (1887-1975), que se tornaria um dos seus mais fiéis colaboradores. Os demais psicanalistas iniciam uma campanha difamatória contra Reich espalhando o rumor de que estaria mentalmente desequilibrado. Ele prossegue com suas experiências bioelétricas no laboratório da Universidade de Psicologia de Oslo, na Noruega, e publica os resultados decorrentes nos artigos “O orgasmo como descarga eletrofisiológica” e “A função elétrica da sexualidade e a angústia”. Em 1936, foi nomeado membro da Sociedade Internacional de Plasmologia graças a descoberta dos “bíons” ou vesículas de energia vital. O trabalho “Os bíons”, escrito junto com Roger du Teil, professor da Sorbonne, aumentam os rumores acerca de sua loucura. As bases da chamada “vegetoterapia caracteroanalítica” se desenvolvem sob um novo conceito, o da “organoterapia”.

O acumulador de energia orgônica

A fase mais produtiva de Reich se passaria nos Estados Unidos. Em 1939, a convite de T. Wolfe, especialista em psicossomática, radica-se em Nova York na qualidade de professor de análise do caráter na New School for Social Research, onde permanece até 1941. Reich foge da Escandinávia apenas dois meses antes da invasão nazista e retoma as pesquisas iniciadas na Noruega. Com sua imaginação prodigiosa, inventa máquinas que isolariam a energia sexual na forma de um fluido azul, batizado de “orgônio”.

A fim de demonstrar cientificamente a presença do orgônio, pesquisar suas leis e desenvolver instrumentos para restabelecer a harmonia nos corpos enfermos equilibrando a energia degenerada, Reich reúne equipes de colaboradores tanto na Europa como nos Estados Unidos.

Cansado da vida nômade, apesar de ser procurado pelo FBI fixa-se em 1941 na propriedade rural que adquirira em Rangeley, no estado do Maine, local em que instala um laboratório e um centro de estudos que denomina de Orgone Institute.

Um de seus acumuladores de energia orgônica, exibido aqui em 1956 pela Food and Drug Administration dos EUA

Fabrica o “condensador de orgônio”, uma cabine metálica eletrificada voltada para a cura da impotência sexual e de outros males. O aparelho alcança enorme sucesso comercial. Reich logo é perseguido por processos judiciais e preso acusado de não possuir autorização para vender seus acumuladores de orgônio. Em pleno território americano, seus livros e equipamentos são incinerados, tal como na Alemanha Nazista.

Enquanto foi-lhe permitido, Reich aprofundou-se na abordagem da psicose e da esquizofrenia, definindo o conceito de impotência orgástica e as consequências da pressão emocional durante a primeira infância. Desenvolveu um teste sanguíneo para prevenir e diagnosticar os processos cancerígenos e biopáticos.

Desenhou o “cloudbuster”, aparelho com que pretendia interferir sobre os fenômenos atmosféricos, proporcionando chuva ao deserto, por exemplo. As experiências “Oranur” visavam anular os efeitos mortíferos da radiação nuclear através da energia orgônica. “Toda a minha existência científica e pessoal se apoia nas experiências Oranur”, declararia.

Reich manejando o seu Cloudbuster

Em 1951, uma pequena quantidade de radium colocada no acumulador de orgônio trouxe problemas para a região em torno do sítio. A atmosfera foi contaminada por uma energia nociva, que Reich denominou de “Deadly Orgone Energy” (DOR). Os animais morreram, exceto os ratos que permaneceram dentro do acumulador. Reich e seus colaboradores sofreram sequelas físicas e psíquicas que duraram anos. Os organismos oficiais norte-americanos agiram de pronto, apreendendo o acumulador de orgônio e os documentos com os resultados da malfadada experiência.

A partir de então, o governo apertou o cerco contra Reich. A Justiça interpelou-os em 1954 por especular fraudulentamente com a “inexistente” energia orgônica e comercializar os acumuladores sem autorização. Reich não se apresentou ao tribunal, que tomou a atitude como um desacato. Na verdade, eles não vendiam os aparelhos, mas cediam gratuitamente aos pacientes a título experimental. Julgado à revelia em 1956, uma ordem judicial do Manie e de Nova York determinou a destruição de seus livros e materiais científicos. Manuscritos inéditos desapareceram. Sua filha Eva consegue salvar e microfilmar alguns. Reich e seu colaborador Michael Silvert – que aparentemente se suicidara poucos meses depois de cumprir a pena – são condenados a dois anos de reclusão, um veredicto severo, mesmo para um ex-comunista vivendo nos Estados Unidos da Era Macartista. Reich advertiu que morreria caso fosse encarcerado.

Em 3 de novembro de 1957, apenas dois dias antes de ser libertado da prisão de Lewisburg, Pensilvânia – que dispunha de assistência psiquiátrica –, onde o trancafiaram por oito meses, Reich sofre um ataque cardíaco fulminante e morre sendo chamado de “paranoico”. Conforme suas instruções, é enterrado em Orgon, local em que foi construído um museu em sua homenagem.

Os seguidores mais próximos sofreram uma série de represálias. Alguns foram expulsos de centros de pesquisas e proibidos de prosseguirem as experiências. A primeira revista reichiana só irá aparecer em 1968. Estudantes e intelectuais participantes da Rebelião de Maio lembraram que os textos panfletários e libertários de Reich haviam sido escritos em Berlim, no alvorecer do nazismo. Os movimentos revolucionários recuperaram parte da obra, sobretudo os escritos sócio-políticos que defendem a tese de que não há revolução social sem revolução sexual.

Para o filósofo e historiador francês JeanMichel Palmier (1944-1998), biógrafo de Reich (autor de Wilhelm Reich: Essai sur la Naissance du Freudo-Marxisme, publicado em 1969), os primeiros trabalhos, entre eles A Revolução Sexual,[2] parecem obras de um gênio, já os últimos, entre os quais O Assassinato de Cristo – em que identifica Deus como criador do orgônio e Jesus como fundador de uma religião erótica, morto por recalcados “fascistas vermelhos” (os comunistas de então) – parecem obras de um insano.

No seu artigo Contact With Space (Contato Com o Espaço), de 1957, resultado de seis anos de intensa pesquisa e trabalho de campo [que incluiu uma expedição científica ao sul do Arizona (1954-1955)], Reich fala sobre uma de suas derradeiras paixões, os discos voadores. Segundo ele, as naves funcionariam com uma energia denominada “Cosmic Orgone Energy” (Core). Os seus pilotos seriam capazes de acarretar graves problemas à vida humana através de uma substância chamada “melanor”. O Cloudbuster poderia ser usado como arma para subtrair a energia orgônica dos OVNIs e afastá-los.[3]

Notas

[1] Reich, Wilhelm. A Função do Orgasmo, 5a edição, São Paulo, Brasiliense, 1979, p.21.

[2] IDEM, A Revolução Sexual, São Paulo, Círculo do Livro, s.d.

[3] Serrano, Xavier. “Da revolução sexual à energia cósmica”, in Ano Zero, Rio de Janeiro, julho 1991, no 3, p.71.

Extras

Dispositivo de cura pela energia orgônica. FDA.
Wilhelm Reich
Wilhelm Reich tentando derrubar discos voadores com o campo disruptor de seu cloudbuster