Os 30 anos do desembarque dos ETs gigantes na Rússia: o Caso Voronezh

Em plena Perestroika (“reestruturação”), um OVNI esférico e achatado, de uma cor vermelha escura brilhante, surgiu sobre o Parque de Voronezh, a 500 quilômetros a sudeste de Moscou, no anoitecer de 27 de setembro de 1989. A escotilha se abriu e através dela saltaram três gigantes humanoides de mais de 3 metros de altura, cabeças muito pequenas e três olhos luminosos acompanhados de um pequeno robô. Um dos gigantes, empunhando uma “pistola”, “desintegrou” um rapaz de 16 anos, que voltou a materializar-se assim que a nave partiu. 

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Sonhava-se muito na Moscou pré-Gorbatchev de Iúri Vladimírovitch Andropov (1914-1984, líder de 1982 a 1984) e Konstantin Ustínovitch Chernenko (1911-1985, líder de 1984 a 1985), este um legítimo representante da “velha guarda” do partido, cujo mandato, o mais curto da história da União Soviética – apenas treze meses –, foi marcado pelo imobilismo em levar adiante as reformas internas iniciadas pelo seu antecessor. Visões de discos voadores sobre os Urais, entretanto, raramente escapavam à censura da KGB.[1]

Para um país que cultivava o realismo socialista, o máximo que se podia esperar em termos de ficção científica eram obras como Solaris, do ensaísta, filósofo e escritor polonês Stanislaw Lem (1921-2006), transposta às telas pelo cineasta russo Andrei Arsenyevich Tarkovski (1932-1986) em 1972. Nesse filme perturbador, com ritmo lento e resultados fascinantes – que em 2002, ou seja, trinta anos depois, ganharia uma versão hollywoodiana sob a direção de Steven Soderbergh –, uma estação orbital russa envia ao centro de controle estranhos relatórios sobre a ocorrência de alucinações que levam alguns de seus tripulantes à morte ou ao suicídio. Por conta disto, o psicólogo Kelvin – conhecido de um dos cientistas e amigo de um dos tripulantes – é mandado à estação para averiguar a situação e lá descobre que tais alucinações dizem respeito a fantasmas e culpas do passado de cada um, materializadas por influência do planeta em torno do qual orbitam, Solaris, que vinha sendo constantemente estudado há décadas, e cujo mistério sobre seu oceano e seus efeitos ainda não havia sido esclarecido. Solaris, mais que um planeta, seria um espelho da alma.

Os mais brincalhões diziam que os extraterrestres haviam aterrissado na União Soviética para conhecer de perto a “perestroika” de Gorbatchev. Os cépticos, que tudo não passava de uma tática do PC para desviar a atenção do povo para os problemas de desabastecimento. A agência oficial de notícias Tass (Agência Telegráfica da União Soviética no Gabinete de Ministros) assegurava que tudo era verdade.[2]

O corresponde da Folha de S. Paulo em Moscou, José Arbex, escreveu na ocasião: “O aspecto mais importante da ‘onda extraterrestre’ na União Soviética é o debate público que percorre o país. Isso é algo novo na União Soviética, resultado da abertura permitida pela perestroika. Do ponto de vista de seu impacto na sociedade, o atual debate pode ser comparado ao que existiu em abril de 1986, quando a imprensa revelou o desastre na usina atômica de Chernobyl. Ou, ainda, ao debate político que cercou as eleições para o Congresso dos Deputados do Povo, em março de 1989. Quando a agência Tass divulgou a notícia pela primeira vez, em 9 de outubro, o resultado foi uma comoção na imprensa internacional. Ninguém sabia ao certo o que estava por trás do despacho da Tass. Nos dias seguintes, os meios de informação soviéticos deram destaque à notícia. Pela primeira vez, um tema ‘transcendental’ ganhava espaços tão amplos neste país. A ‘transparência’ (glasnost) informativa foi total, e chegou ao ponto do Pravda, como órgão do partido, voltar-se publicamente contra os outros meios, para alertar sobre o risco de pânico. Uma sociedade em transformação, como é a soviética, sempre é receptiva a tudo que pode representar o ‘novo’. Mas o mais importante é que o debate é um sinal saudável de uma sociedade em que os meios de divulgação começam a voltar-se para a opinião pública.”[3]

Um OVNI esférico e achatado, de uma cor vermelha escura brilhante, surgiu sobre o Parque de Voronezh, cidade de grande atividade industrial e com cerca de 886.844 habitantes, a 500 quilômetros a sudeste de Moscou, por volta das 18h30 de quarta-feira, 27 de setembro de 1989. A escotilha se abriu e através dela saltaram quatro figuras: três apresentavam formas humanas, mas eram extremamente altas para os padrões humanos – 3 ou 4 metros de altura, segundo as testemunhas – e possuíam cabeças muito pequenas. A quarta figura parecia um pequeno robô. A cerca de 12 metros, o OVNI afastou-se por alguns momentos, e quando voltou, aterrissou próximo onde várias crianças jogavam futebol a algumas dezenas de metros de um ponto de ônibus onde entre 30 e 40 pessoas aguardavam.

As testemunhas, em sua maioria crianças, observaram uma escotilha abrir na parte inferior do OVNI, que ficou a flutuar a uma baixa altura, e dele sair um ser gigante atarracado com cerca de três metros de altura, sem pescoço, com uma cabeça muito pequena e três olhos luminosos. O olho central era um pouco mais alto que os outros dois (de cor branca) e brilhava com uma luz vermelha. O ET gigante usava uma roupa prateada e botas cor de bronze, além de portar um objeto em forma de disco no peito. A entidade explorou gradualmente o terreno antes de retornar ao interior do disco e fechar a escotilha.

Algumas das crianças que testemunharam e protagonizaram o Caso Voronezh.
Folha de S. Paulo, 16 de outubro de 1989. Fonte: Arquivos de Cláudio Suenaga.

O OVNI começou a descer lentamente, chegando a tocar um álamo, que se curvou. A cerca de um metro e meio do solo, quatro suportes (três de acordo com outros testemunhos) emergiram do OVNI, que pousou suavemente. O ET gigante reapareceu de dentro da nave, mas desta vez acompanhado de dois outros seres e algo parecido com um pequeno robô com botões no peito. Uma das entidades ajustou algo no peito do robô, fazendo com que ele se movesse de maneira mecânica. O grupo inteiro caminhou perto do OVNI, examinando o solo e, aparentemente, colheu amostras de solo. Uma das entidades emitiu sons que pareciam ordens e, de seu peito, um raio de luz atingiu o chão, delineando uma série de retângulos luminosos de cerca de 30 cm x 50 cm que desapareceram logo em seguida.

Durante o incidente, um garoto gritou de medo, ao que uma das entidades o paralisou com um raio de luz que saiu de seus olhos. Todas as testemunhas começaram a gritar, e nisso as entidades e o robô desapareceram instantaneamente.

Cinco minutos depois, o OVNI e as entidades reapareceram novamente. Desta vez, um dos ETs trazia um tubo com cerca de 50 centímetros de comprimento que emitiu um feixe de luz que atingiu um garoto de 16 anos e o fez desaparecer instantaneamente. As entidades reentraram novamente no OVNI, que voou para longe, aumentando gradualmente sua velocidade. O adolescente reapareceu minutos depois, sem sofrer aparentes sequelas.

O relato seria simplesmente ridicularizado se não viesse acompanhado de um laudo científico assinado por pesquisadores do Laboratório de Geofísica de Voronezh, que examinaram a área aplicando um “sistema de bilocação”. Genrykh Silanov, diretor do laboratório, declarou à Tass: “Encontramos um círculo de 20 metros de diâmetro, no qual se viam quatro marcas de 4 a 5 centímetros de profundidade e de 14 a 15 centímetros de diâmetro cada, situadas em quatro pontos equidistantes. Também recolhemos uma misteriosa pedra de cor vermelha escura.” De acordo com outros fontes, uma série de rochas estranhas azul-avermelhadas foram recolhidas, mas acabaram se revelando de origem terrestre.

Esboços adicionais feitos pelas crianças mostram um emblema luminoso de um lado do OVNI e no “cinturão” das entidades, a letra “zhe” (Ж) no alfabeto cirílico (chamada em russo), a oitava do alfabeto russo e a sétima dos alfabetos búlgaro e bielorrusso, o que levou muitos a associar o tal emblema ao símbolo ummita, estampado na parte inferior do disco voador fotografado em San José de Valderas (nas cercanias de Madrid, no bairro de Los Castillos de Alcorcón, ao norte do centro urbano) no dia 1º de junho de 1967, uma das que mais ressonaram no imaginário ufológico. Ocorre que esse símbolo, em forma de H estilizado cortado verticalmente, foi pintado com tinta spray no pequeno modelo suspenso por um fio, como ficou comprovado (para mais detalhes sobre o Caso Ummo, ver meu livro Contatados: Embaixadores das Estrelas, Arautos de uma Nova Era ou a Quinta Coluna da Invasão Extraterrestre? (Campo Grande, CBPDV, Biblioteca UFO, 2007).

Esboços adicionais feitos pelas crianças mostram um emblema luminoso de um lado do OVNI, a letra “zhe” (Ж) no alfabeto cirílico (chamada em russo), a oitava do alfabeto russo e a sétima dos alfabetos búlgaro e bielorrusso, o que levou muitos a associar o tal emblema ao símbolo ummita.

A famosa sequência de seis fotos espantosamente nítidas mostrando um disco voador com um notável símbolo gravado em sua parte inferior – um H estilizado cortado verticalmente – estampada um sem número de vezes em um sem número de publicações ufológicas desde que foi obtida no dia 1º de junho de 1967 em San José de Valderas.

Alguns moradores de Voronezh que foram entrevistados afirmaram mais tarde que haviam observado esse OVNI não apenas durante o incidente descrito acima, mas também muitas outras vezes durante 21 de setembro, 23, 29 e 2 de outubro, sempre entre as 18 e as 21 horas. Alguns desses incidentes envolviam uma entidade diferente: um ser pequeno, com um rosto verde-acinzentado, que usava um casaco azul semelhante a uma capa de chuva solta. A Tass descreveu os detalhes do incidente, que foi oficialmente investigado pelo governo soviético da época e por agências privadas, a pedido do prefeito de Voronezh e do deputado parlamentar local. Foram encontradas marcas profundas correspondentes às quatro pernas do OVNI, que tinham um arranjo romboide. Várias anomalias também foram medidas no campo magnético local e alguma radiação residual, embora esses testes sejam circunstanciais, uma vez que este parque foi construído em um antigo depósito de lixo. No local de pouso do OVNI, apareceu uma série de rochas estranhas (azul-vermelho de acordo com várias fontes) que acabaram se revelando de origem terrestre.

Em artigo publicado no Diário Indústria Socialista, A. Kuzovkin, um especialista em OVNIs, afirmou que a aterrissagem de uma nave extraterrestre produzira um círculo de 8 metros de diâmetro num pasto ao sul de Moscou. Para os bombeiros, no entanto, a queimadura devia-se a um monte de ferro que se incendiara. Seguindo o filão aberto pelo Diário, que noticiou com exclusividade o contato da ordenhadora Lubov Medvedev, da região de Perm, Rússia Central, que topara com um ser alto, de pernas curtas e com uma esfera no lugar da cabeça, a Tass assumiu uma postura francamente favorável na cobertura de um caso envolvendo um grupo de crianças da cidade de Vologda, a 400 quilômetros a nordeste de Moscou, que afirmara ter visto, em 6 de junho, um objeto luminoso redondo pousar perto de um rio, deixar uma figura semelhante a um homem e levantar voo em seguida.[4]

De acordo com o que declarou na ocasião o médico e ufólogo Max Berezovsky, fundador e presidente da Associação de Pesquisas Exológicas (Apex), de São Paulo, “desde a Era Moderna há relatos desse tipo. Essa notícia vinda da União Soviética mostra apenas que está havendo lá uma abertura também nessa área.”[5]

A edição de 10 de outubro do jornal Sovietskaya Kultura destacou o testemunho de dez crianças segundo as quais ETs com mais de 3 metros de altura e cabeças pequenas caminharam pelo parque em Voronezh. Um deles, empunhando uma “pistola” – um tubo fino de 1 metro de comprimento – que trazia pendurada ao lado do corpo, “desintegrou” um rapaz de 16 anos, que voltou a materializar-se assim que a nave partiu. A agência oficial Tanjug (Telegrafska Agencija Nove Jugoslavije, ou Telegraphic Agency of New Yugoslavia) informou que pelo menos quatro OVNIs sobrevoaram a União Soviética. O correspondente da Tass, que na segunda-feira noticiara o pouso de um disco voador em Voronezh, admitiu que não vira os extraterrestres gigantes. Vladmir Lebedev, de 59 anos e 20 de profissão na agência oficial, baseara-se no relato de uns doze meninos com pouco mais de 10 anos.[6] O jornalista norte-americano Peter Adams, do Defense News, lembrou que um dos livros favoritos de Lênin falava de um homem levado a Marte onde encontrava a utopia socialista realizada.[7]

A imprensa oficial prosseguiu divertindo os leitores com histórias fantásticas. Em 12 de outubro, um repórter anunciou o que para ele seria o maior “furo” interplanetário do século XX. No último capítulo de sua série publicada no Komsomolskaya Pravda, Pavel Mukhortov contou ter mantido, na noite de 30 de julho, próximo da localidade de Perm, nos Montes Urais (900 quilômetros a leste de Moscou), conversações telepáticas com extraterrestres de 2 a 4 metros de altura e corpos brilhantes. As perguntas eram transmitidas mentalmente e as respostas apareciam no céu em forma de letreiros de cinema. Segundo Mukhortov, os ETs provinham de um planeta da “Estrela Vermelha”, localizado na constelação de Libra. Por “coincidência”, esse era o nome de um jornal do Exército Vermelho.[8]

Folha de S. Paulo, 13 de outubro de 1989. Fonte: Arquivos de Cláudio Suenaga.

O jornal Komsomolskaya Pravda era o órgão oficial da Juventude Comunista e um dos jornais de maior circulação da União Soviética. Criado em 1925, tratava preferencialmente de assuntos que diziam respeito aos jovens soviéticos, como lazer, estudos, esportes e decisões do Konsomol (Federação das Juventudes Comunistas). Por isso ele era considerado mais “leve” que o Pravda, jornal oficial do Comitê Central do PC. O Komsomolskaya Pravda ocupava o posto de segundo jornal de maior tiragem da União Soviética, superado apenas pelo Trud, jornal dos sindicatos. Em 1988, a tiragem do jornal da Juventude Comunista era de 17 milhões de exemplares, a do Trud de 18.200.000 e a do Pravda de 11.300.000.

O Pravda alertou que a veiculação desmesurada de notícias poderia infundir pânico. O jornal condenou o sensacionalismo e pugnou por demonstrar a leviandade daqueles “contatos”. Os cientistas soviéticos, por sua vez, confirmaram em 13 de outubro a detecção de um intenso campo magnético no local onde o OVNI aterrissara em Voronezh. Os moscovitas comentavam acaloradamente o assunto nas ruas, praças e mercados. A agência Tanjug exigiu que o Ministério da Defesa Soviético tomasse medidas concretas contra a invasão. O coronel do Exército Mikhail Rebrov descartou qualquer perigo iminente.[9]

From Russia with love

A onda russa não tardou a engolfar o Ocidente. No Brasil, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) enviou três pesquisadores para examinar um material que, segundo um morador de Goiânia (GO), Celso Machado, teria sido deixado no quintal de sua casa por dois ETs na madrugada do dia 12 de outubro de 1989. Marcos Rey, do INPE do Rio de Janeiro, declarou que o instituto já previa a aparição no centro-oeste. Machado contou que de dentro de uma nave espacial marrom e de forma arredondada saíram dois ETs de baixa estatura e também amarronzados que largaram uma pedra e um pedaço de granizo e partiram em seguida. A nave deixou marcas de queimadura no solo do quintal. O material foi entregue à Universidade Federal de Goiás (UFG), que constatou radioatividade e magnetismo. Para o ufólogo Carlos Scarze, os ETs voltariam a manter contato com o vendedor Celso Machado.[10]

Folha da Tarde, 14 de outubro de 1989. Fonte: Arquivos de Cláudio Suenaga.

Os habitantes da província chilena de Parinacota (extremo norte do país, no altiplano e na cordilheira que une as fronteiras do Chile, Bolívia e Peru) viram, na noite desse mesmo dia, quatro OVNIs luminosos que mudavam constantemente de direção, informou o La Nación, de Santiago.[11] No começo da noite, a Patrulha Aérea Civil de Ottawa, no estado de Oklahoma, centro-sul dos Estados Unidos, comunicou o aparecimento de um objeto extremamente brilhante no céu da região. Os moradores, histéricos, congestionaram os telefones das delegacias. O delegado-chefe da cidade de Commerce, Bob Baine, não acreditava naqueles objetos até que ele mesmo avistou um quando se dirigia a uma casa próxima ao aeroporto, atendendo um chamado.[12]

Na União Soviética, praticamente ninguém quis colaborar com a comissão oficial chefiada por Silanov, que investigava a aterrissagem em Voronezh. Em 14 de outubro, os pais não liberaram seus filhos, temendo repercussões negativas. A única que falou foi Lena Sarokina, de 11 anos, que nada acrescentou ao que já se sabia.[13] As principais redes de tevê e jornais norte-americanos comentavam os contatos imediatos geralmente em tom zombeteiro, atribuindo tudo a um excesso de glasnost. Edwin Diamond, crítico dos meios de comunicação do New York Magazine, condenou a cobertura das agências soviéticas.[14]

Em 17 de outubro, a Folha de S. Paulo dedicou um editorial bem dentro de sua linha gnóstica, iluminista e cientificista intitulado “Discos voadores”:

 “Sob o olhar divertido da imprensa internacional, a União Soviética se entrega a especulações sobre a suposta visita de extraterrestres a uma pequena cidade situada a 400 quilômetros de Moscou. As relações entre o debate originado pela notícia e o clima de liberdade que começa a surgir com a glasnost são relativamente fáceis de traçar; arriscam-se a transmitir, entretanto, uma visão parcial do acontecimento. A liberdade de debate e de informação, condições imprescindíveis do progresso científico e cultural, não parece ter sido capaz até hoje de operar, mesmo nos países mais desenvolvidos, aquele ‘desencantamento do mundo’ próprio ao espírito racional e científico. A sede pelo insólito, pelo milagroso e pelo inexplicável, tão presente como reação à perspectiva assustadora de um mundo governado por leis cegas e acasos da estatística, tem sido vista como sinal de nostalgia pela religião perdida. Talvez fosse o caso de dizer também que reflete uma decepção com a própria ciência – cujas promessas e determinismos, tão extremados no século XIX, cedem lugar a novas incógnitas e novos mistérios. Seu refinamento constante afasta-a do cidadão comum: Darwin e Freud, por exemplo, puderam ser mais ou menos absorvidos pela cultura de massas; Einstein e os novos gurus da astrofísica, nem tanto. Seria trivial considerar que, com a liberalização de Gorbatchev, um espaço maior é admitido para devaneios e fantasias. Videntes já faziam sucesso na Moscou de Brejnev; a onda de misticismo na Iugoslávia não esperou a perestroika para manifestar-se. Se a imprensa soviética dá agora destaque a discos voadores, é obvio que o ambiente de liberdade hoje registrado teve um papel. Mas essa tendência sempre pareceu ultrapassar os limites de um sistema político determinado. E, assim como a visita de extraterrestres alimenta a esperança geral de não estarmos sozinhos no Universo, a recepção dos soviéticos pelo tema pode ser sintoma de que encontra-se, com certa euforia, nas sociedades do Leste a mesma propensão para o misterioso que há nos países do capitalismo avançado. Essa resistência aos rigores científicos que se manifesta na recepção imediata a fato não-comprovados talvez seja, antes de tudo, um sinal de que o Iluminismo ainda é uma frágil conquista.”

Em São José do Campestre, a 145 quilômetros ao sul de Natal, Rio Grande do Norte, dois agricultores, Benedito da Silva, 43 anos, e seu colega João, presenciaram na noite de 24 de outubro uma esfera passar a 30 metros do chão, “soltando uma espécie de brasa”. No local, foi encontrado um círculo de vegetação amassada e chamuscada.[15]

O Selskaya Zhizn, em sua edição de 31 de outubro, divulgou que moradores de Kursk, região central da União Soviética, viram um OVNI e um ET.[16] Na noite de 26 de novembro, meteorologistas húngaros avistaram quatro grandes esferas alaranjadas. Um deles, Gyula Bazso, que trabalhava numa estação meteorológica em Papa, região ocidental da Hungria, calculou que possuíam entre 50 e 100 metros de largura e voavam a 4.200 km/h, próximas da constelação do Grande Urso. Bazso contatou uma base aérea próxima e um piloto saiu ao encalço, confirmando a presença dos objetos a 6 quilômetros de altitude.[17]

Os habitantes de Ulyanovsk, a aldeia natal de Lênin, culparam as reformas empreendidas por Gorbatchev pela alta incidência de OVNIs. A Tass noticiou que na noite do dia 13 de março de 1990, uma “barcaça do espaço” pairou sobre o Rio Volga, piscou luzes vermelhas e amarelas e soltou raios de fogo. Duas semanas antes, um grupo de policias da região observou algo semelhante. Um diplomata ocidental mencionado pela agência Reuters altercou que as aparições se deviam ao ressurgente sentimento religioso do povo soviético, reprimido por décadas.[18]

O governo comunista sempre procurou ocultar ou desacreditar as constantes incursões de OVNIs em seu território, fazendo crer à população de que não passavam de mera propaganda capitalista. Em 1984, as autoridades anteciparam-se à glasnost e criaram dentro da Academia de Ciências Soviéticas uma comissão para investigar o que os russos chamavam de “Fenômenos Atmosféricos Anormais” (“Njeobjasnimi Ljetutsschij Objeki”). Presidida pelo cientista Valeri Troitzkij e pelo cosmonauta e general Pavel Popovich, sua finalidade básica, conforme a edição de 6 de agosto de 1984 do diário Izvestija, consistia “no estudo dos fenômenos e efeitos naturais insólitos que ainda não tinham explicação científica”.[19]

Divulgado em 1990, um relatório elaborado por Felix Zigel, do Instituto de Aviação Ordzhonikidze de Moscou, descrevia quase 200 avistamentos na União Soviética, dos quais 88 referiam-se a objetos parecidos com a Lua e os demais a discoides, retangulares, triangulares e lenticulares. Alguns mencionavam descargas elétricas brilhantes e rastros de fogo. Houve quem testemunhasse objetos translúcidos – permitiam que se enxergasse estrelas através deles e detalhes sob sua estrutura.[20]

Diretor do Departamento Oceanográfico da Academia de Ciências, Vlagymir Gergijevic Azzazsa asseverou que “o fenômeno é uma realidade objetiva que tentamos compreender acima de tudo”. Azzazsa citou um documento oficial atinente a um acontecimento envolvendo forças militares internacionais, cujo teor é o seguinte: “Durante o conflito do Leste, um grande disco voador pairou acima de uma base do bloco atlântico, a poderosa OTAN. Temendo um assalto aéreo, a base disparou um míssil terra-ar. Porém, antes que atingisse o OVNI, este foi envolvido por uma espécie de ‘muralha’ de força invisível, um tipo de campo magnético impenetrável. Por fim, um raio luminoso aniquilou completamente o projétil.”[21]

Notas:

[1] Spinola, Noenio. “Com a perestroika já se pode ver ET”, in O Estado de S. Paulo, 15-10-1989.

[2] “Extraterrestres invadem a União Soviética pra ver o que é que a perestroika do ‘Gorba’ tem”, in Visão, São Paulo, outubro de 1989.

[3] Arbex, José. “Pravda ataca histórias sobre extraterrestres”, in Folha de S. Paulo, 14-10-1989, exterior, p.A-10.

[4] “OVNIs”, in Folha de S. Paulo, 25-6-1989.

[5] “Agência soviética diz que OVNI com robô desceu em parque da Rússia”, in Folha de S. Paulo, 10-10-1989; “Três ETs gigantes na Rússia”, in Jornal da Tarde, São Paulo, 10-10-1989, Espaço, p.28; “Silanov viu o OVNI, diz a agência Tass”, in O Estado de S. Paulo, 10-10-1989; “Disco voador desce perto de Moscou”, in Folha da Tarde, São Paulo, 10-10-1989; “União Soviética afirma ter recebido visita de extraterrestres”, in O Globo, Rio de Janeiro, 10-10-1989.

[6] “Um disco voador para soviético ver”, in Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 11-10-1989.

[7] “Repórter da Tass diz que não avistou OVNI”, in O Estado de S. Paulo, 11-10-1989; “ET desintegra jovem, afirma jornal soviético”, in Folha de S. Paulo, 11-10-1989, exterior, p.A-10.

[8] “Imprensa soviética diverte leitores com histórias sobre extraterrestres”, in Folha de S. Paulo, 13-10-1989.

[9] Arbex, José. “Pravda ataca histórias sobre extraterrestres”, in Folha de S. Paulo, 14-10-1989, exterior, p.A-10; “Pravda diz que visita de ETs pode provocar pânico no mundo”, in Folha da Tarde, São Paulo, 14-10-1989.

[10] “Eles já chegaram a Goiás”, in Folha da Tarde, São Paulo, 14-10-1989.

[11] “Moradores avistam quatro OVNIs no altiplano chileno”, in Folha de S. Paulo, 16-10-1989.

[12] “Objeto estranho aparece nos Estados Unidos”, in Folha de S. Paulo, 13-10-1989.

[13] “União Soviética investiga disco voador”, in O Estado de S. Paulo, 15-10-1989.

[14] Blau, Eleanor. “Glasnost na Tass pode explicar ETs”, in O Globo, Rio de Janeiro, 17-10-1989.

[15] “Agricultores dizem ter visto um OVNI próximo a Natal”, in Folha de S. Paulo, 31-10-1989.

[16] “União Soviética 3”, in Folha de S. Paulo, 2-11-1989.

[17] “Cientistas avistam na Hungria quatro OVNIs”, in Folha de S. Paulo, 27-11-1989; “Visões húngaras”, in Folha de S. Paulo, 04-12-1989.

[18] “Disco Voador visita aldeia natal de Lênin”, in Folha da Tarde, São Paulo, 17-3-1990.

[19] Favero, Gianni. “Casuística ufológica por trás da ‘Cortina de Ferro’”, in Izvestija, Rússia, 6-8-1984.

[20] Equipe da revista UFO Quebec (Canadá). “Contatos extraterrestres na União Soviética”, in UFO, Campo Grande, CBPDV, ano 3, v.3, nº 12, setembro-outubro de 1990, p.15-19.

[21] “Os russos confirmam: não estamos sós no Universo”, in UFO, Campo Grande, CBPDV, ano 3, v.3, nº 12,  setembro-outubro de 1990, p.24.

Mais notícias da imprensa da época sobre o Caso Voronezh, dos arquivos de Cláudio Suenaga.

Folha da Tarde, 10 de outubro de 1989.
O Estado de S. Paulo, 10 de outubro de 1989.
Folha de S. Paulo, 11 de outubro de 1989, p. A-10.
Folha de S. Paulo, 14 de outubro de 1989, p. A-10.

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