Os 35 anos da invasão dos aliens reptilianos de V

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

O estereótipo dos répteis como alienígenas invasores, manipuladores e predadores se firmou no imaginário coletivo com a minissérie V, criada, roteirizada e dirigida por Kenneth Johnson (1942-) e levada ao ar pela rede NBC dividida em duas partes (com duração total de 197 minutos) nos dias 1 e 2 de maio de 1983 (curiosamente na mesma data de fundação da Ordem Illuminati).

Para os cépticos, a ideia para os reptilianos de David Icke adviria de V, que no ano seguinte, devido ao enorme sucesso (quarenta milhões de espectadores), contou com uma continuação em três episódios (com duração total de 272 minutos): V: The Final Battle (Os Extraterrestres na Batalha Final), sem a aprovação do criador Kenneth Johnson e dirigida por Richard T. Heffron. No mesmo ano foi produzida uma série regular chamada V: The Series, que durou uma única temporada de 19 episódios, exibidos entre 26 de outubro de 1984 e 22 de março de 1985.[1] O remake de V, sem o envolvimento de Johnson mas com alguns dos atores originais fazendo participações especiais,[2] estreou na ABC em 3 de novembro de 2009 e os seus 22 episódios foram exibidos em duas temporadas até 15 de março de 2011.[3]

Vemos em V uma raça de alienígenas chegar sem aviso prévio a Terra em uma frota de cinquenta gigantescas naves-mãe em forma típica de disco, que ficam pairando sobre as principais cidades do mundo. O desembarque oficial ocorre no telhado do prédio da ONU em Nova York.

Os aliens são idênticos aos humanos, com a diferença de que precisam o tempo todo usar óculos especiais para protegerem seus olhos e de suas vozes soarem com uma ressonância distinta.

Diana, a bela reptiliana disfarçada de alien com aparência humana, interpretada por Jane Badler.

Chamados de “Visitantes” (V), eles estendem a mão da amizade conclamando ostensivamente por ajuda para obter os produtos químicos e minerais necessários para produzirem substâncias que ajudarão a recuperar o meio-ambiente de seu planeta doente. Em troca, os visitantes prometem compartilhar sua tecnologia avançada com a humanidade.

Os governos da Terra aceitam o acordo, e os visitantes, comandados por seu líder John (Richard Herd) e sua vice Diana (Jane Badler), logo ganham a simpatia da população e começam a ampliar sua influência entre as autoridades humanas.

Tudo parece bom demais até que eventos estranhos começam a ocorrer. Cientistas se tornam objetos de crescente hostilidade da mídia e passam a enfrentar restrições. Aqueles particularmente interessados em examinar os visitantes mais de perto, começam a desaparecer ou são desacreditados.

O cinegrafista e repórter de TV Michael Donovan (Marc Singer) entra sorrateiramente em uma das nave-mãe e descobre que, sob a fachada humana de seus corpos (cobertos por uma pele fina e sintética e lentes de contato), os alienígenas são lagartos carnívoros que se alimentam preferencialmente de seres vivos como roedores e aves. Donovan registra algumas cenas em vídeo e escapa da nave-mãe com as provas, mas momentos antes de exibi-las na televisão, a transmissão é interrompida pelos visitantes que tomam o controle da estação. Donovan se torna um fugitivo e passa a ser caçado tanto pela Polícia quanto pelos visitantes.

Os cientistas, de perseguidos, passam a ser eliminados, já que são a parcela da população humana com maior probabilidade de descobrir os segredos dos visitantes. Indivíduos-chave são submetidos a um processo especial de controle mental chamado de “conversão”, que os transforma em títeres dos visitantes, enquanto outros se tornam objetos de terríveis experimentos biológicos. Alguns humanos colaboram voluntariamente com os visitantes, seduzidos pelo seu poder.

Uma adolescente, Robin Maxwell (Blair Tefkin), filha de um cientista que é obrigado a se esconder, mantém relações sexuais com um dos jovens visitantes chamado Brian (Peter Nelson), que a usa para gerar um bebê híbrido (nascem gêmeos, sendo um deles inteiramente réptil, e uma menina, de aparência humana e fisiologia réptil, batizada apropriadamente de Elizabeth).

Um movimento de resistência é formado, determinado a combater e expor os visitantes. Em Los Angeles, a líder de célula é a cientista Julie Parrish (Faye Grant). Donovan mais tarde se junta ao seu grupo e consegue novamente subir a bordo de uma nave-mãe, onde é informado por Martin (Frank Ashmore), um visitante dissidente, que a  alegação de que precisavam de resíduos químicos era falsa e que o verdadeiro propósito era conquistar e dominar o planeta, roubar toda a água da Terra e usar os seres humanos como alimento ou como escravos e soldados em suas guerras de conquista contra outras raças alienígenas.

Martin, um dos poucos dissidentes entre os visitantes (movimento chamado de Quinta Coluna), promete ajuda à Resistência e dá acesso a Donovan de uma de suas naves, que ele aprende rapidamente a pilotar. Os membros da Resistência obtém suas primeiras vitórias contra os visitantes, enquanto adquirem equipamentos e modernos arsenais militares da Guarda Nacional.

O símbolo da Resistência, concebido por Abraham Bernstein (Leonardo Cimino), sobrevivente do Holocausto, é uma letra V maiúscula (de Vitória), pintada com spray sobre cartazes de propaganda pró-visitantes.

A minissérie termina com os visitantes controlando a Terra e com Juliet e Elias Taylor (Michael Wright) enviando uma transmissão desesperada ao espaço solicitando a outras raças alienígenas que os ajudem a derrotar os visitantes. A alegoria nazista é patente e figura até no emblema que os visitantes usam em seus uniformes, semelhante a uma suástica, e no movimento que recruta jovens chamado de “Amigos dos Visitantes”, uma alusão óbvia à Juventude Hitlerista. A ocupação da Terra pelos alienígenas remete à Europa ocupada durante a Segunda Guerra e aos cidadãos cabendo escolher entre a colaboração e a resistência subterrânea.

Muito antes de David Icke, Kenneth Johnson,[4] assim como John Carpenter, um insider, um “mago negro” de Hollywood, procurou denunciar sem sutilezas, embora já ciente de que não seria levado a sério, a presença reptiliana na Terra. Teria sido por acaso que ele chamou a líder dos visitantes de Diana (o nome da princesa pertencente a uma monarquia cuja linhagem, segundo Icke, seria reptiliana) e a garota híbrida, nascida da união entre uma terráquea e um reptiliano, de Elizabeth (nomes das rainhas Elizabeth I e II e que podem ser decompostas por E-LizardBeth!).

Teria sido por acaso que o remake de 2009 foi protagonizado pela atriz Elizabeth Mitchell (no papel de Erica Evans, uma agente da divisão de terrorismo do FBI que se torna líder da Quinta Coluna), e que a filha de Anna (outro nome de muitas rainhas), a carismática e sedutora líder dos visitantes (interpretada pela atriz carioca Morena Baccarin), foi chamada de Lisa (Lizard!)?

Notas:

[1] No Brasil, as duas primeiras séries foram exibidas como uma única série de dez episódios chamadas de V – A Batalha Final pela Rede Globo em 1984, em pleno horário nobre. A série regular foi exibida pelo SBT em 1986 com o título Os Extraterrestres no Planeta Terra e reprisada pela mesma nos anos 90. Lembro-me do impacto gerado à época (1984) que se refletia em comentários efusivos de vários colegas de classe na escola, impressionados pelo “realismo” do que era mostrado, como se a Terra estivesse de fato sendo invadida por reptilianos.

[2] Com destaques para Jane Badler (que havia interpretado a reptiliana Diana) novamente como Diana, só que envelhecida e mantida prisioneira na nave-mãe pela sua própria filha Anna, e Marc Singer (que havia interpretado o jornalista Mike Donovan) como Lars Tremont (um membro de uma organização ultrassecreta de militares de alto escalão e líder do governo que está se preparando uma reação contundente contra os visitantes e que só aparece rapidamente no último episódio).

[3] Os destaques deste excelente remake ficaram por conta das belas atrizes Morena Baccarin (brasileira, nascida no Rio de Janeiro em 1979), no papel de Anna, a líder dos visitantes, e Laura Dianne Vandervoort (nascida em Toronto, no Canadá, em 1984) no papel de Lisa, filha de Anna. No Brasil, a versão 2009 de V foi exibido pela Warner Channel e pelo SBT.

[4] Johnson foi também o criador das séries The Bionic Woman [A Mulher Biônica (1976-78)], The Incredible Hulk [O Incrível Hulk (1977-82)] e da adaptação para a TV de Alien Nation [Nação Alien (1989)].