As fábricas da morte do Império Japonês

As experiências macabras dos cientistas e militares japoneses com cobaias humanas na Segunda Guerra Mundial para o desenvolvimento de armas de guerra biológicas de destruição em massa e disseminação de epidemias entre populações civis

De 1931 a 1945, em uma busca impetuosa para desenvolver a capacidade de guerra bacteriológica para os militares do Japão Imperial, centenas de médicos, enfermeiras e cientistas japoneses participaram voluntariamente do que era conhecido na época como “o segredo dos segredos”: experiências horríveis conduzida em cobaias humanas, homens, mulheres e crianças – chineses em sua maioria – inocentes. Este foi o trabalho de um grupo de elite conhecido como Unidade 731, liderado pela resposta do Japão a Joseph Mengele, Dr. Shirô Ishii. Sob sua iniciativa, milhares de indivíduos foram mantidos em cativeiro e infectados com cepas virulentas de antraz, peste bubônica, cólera e outras doenças epidêmicas e virais. Aldeias chinesas inteiras foram atingidas por bombas biológicas. Até prisioneiros de guerra norte-americanos foram alvos. Ao todo, mais de 250.000 pessoas foram infectadas e a grande maioria morreu. Mesmo assim, após a guerra, as forças de ocupação dos Estados Unidos, sob o comando do general Douglas MacArthur, firmaram um acordo com esses médicos, protegendo-os e isentando-os de qualquer responsabilidade em troca de seus relatórios científicos. De tão escabrosos, aterrorizantes e chocantes, os crimes da Unidade 731 foram desconsiderados e até declarados impossíveis de terem ocorrido até a descoberta de corpos sob as ruas de Tóquio, o que obrigou o Japão a admitir que usou seres humanos em experiências de armas biológicas em um dos piores crimes de guerra cometidos pelo Exército Imperial Japonês na China e outros países da Ásia em um dos capítulos mais vergonhosos da história huaman. Por que o Ocidente ignorou por tanto tempo estas atrocidades? Você irá saber as respostas a partir de agora em reconstituições históricas minuciosas, alarmantes e assustadoras baseadas em importantes pesquisas originais que atestam que a crueldade e a maldade humanas não têm limites.

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Em 1989, operários que trabalhavam em obras de reurbanização nas ruas de Shinjuku (“Nova Pousada”), um movimentado e famoso bairro comercial e administrativo de Tóquio, iluminado por néon e repleto de bares, restaurantes, animadas discotecas, salas de karaokê e hotéis de luxo, encontraram sob o asfalto centenas de corpos de pessoas que foram usadas em experiências macabras. A notícia dessa descoberta obrigou o governo japonês a reconhecer o mais terrível segredo escondido desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945): a Unidade 731, que se dedicava a experiências para o desenvolvimento de armas de guerra biológicas com cobaias humanas.

Até então, os governos tanto do Japão como dos Estados Unidos negavam essas atrocidades. E com a abertura dos relatórios das experiências biológicas da Segunda Guerra Mundial em 1993, finalmente o segredo oficial tornou-se público, e uma série de relatórios oficiais vieram à tona. Em um arquivo do quartel general Douglas MacArthur (1880-1964), consta que uma investigação sobre a Unidade 731 foi realizada sob ordens da Junta de Chefes do Estado Maior, que ordenou que se guardasse “segredo absoluto na intenção de proteger os interesses dos Estados Unidos e salvá-los do escândalo”.

Muitas vítimas resolveram quebrar o silêncio e dar seus depoimentos sobre a Unidade 731, sendo que muitas delas eram soldados norte-americanos que haviam sido usados como cobaias nas experiências. “Que me matem se não digo a verdade, pois jamais esquecerei!”, declarou furiosamente Joseph Gozzo, antigo engenheiro de aviação, que vivia em San José, na Califórnia. Enquanto esteve preso, foi usado em experiências onde teve bastões de vidro introduzidos no seu ânus. “Não posso acreditar que o nosso governo os tenha deixado livres”, disse.

Shirô Ishii, o Josef Mengele japonês

Shirô Ishii

O jovem general e oficial médico-chefe Shirô Ishii (1892-1959) era um brilhante microbiólogo do Exército. Foi em 1930 que ele propôs pela primeira vez a criação de uma pesquisa biológica e química japonesa após uma viagem de estudos de dois anos ao exterior, sob o argumento de que as potências ocidentais estavam desenvolvendo seus próprios programas. Seu apelo mais forte e quase irresistível era: “A guerra biológica deve ter muitas possibilidades. De outra forma, a Liga das Nações não a teria proibido”.

Quando o Japão invadiu a Manchúria em 1931, Ishii vislumbrou sua oportunidade. Foi em Beiyinhe, onde começou suas terríveis experiências químicas e biológicas. Com uma grande verba anual e 300 homens, sua primeira missão recebeu o nome secreto de “Unidade Togo”.  A Unidade Tōgō foi implementada na Fortaleza de Zhong Ma, uma prisão usada como campo de experimentação em Beiyinhe, uma vila a 100 km ao sul de Harbin na Ferrovia Sul da Manchúria. Conhecidas como “Campo de Prisão Zhong Ma”, as instalações da Unidade 731 foram construídas com mão de obra forçada chinesa. No centro, existia um grande edifício, o “Castelo Zhong Ma”, que mantinha os prisioneiros em um laboratório.

Fortaleza de Zhong Ma
Sadao Araki

Com sua carismática personalidade, Ishii logo atraiu a atenção dos oficiais veteranos e conseguiu uma rápida promoção de posto. Em 1932 era alçado ao comando do Laboratório de Pesquisa de Prevenção de Epidemias, tornando-se o mais jovem oficial a ocupar um alto cargo no Exército Japonês. Aliando-se com ultranacionalistas do Ministério de Guerra do Japão, Ishii fez uma forte pressão a favor do desenvolvimento de armas biológicas. Entre seus protetores estavam alguns dos mais proeminentes representantes do estamento militar, entre eles o ministro do Exército Sadao Araki (1877-1966), general, estadista e líder da facção Kodoha, um grupo ultranacionalista dos anos 1930, e que por sua participação na Segunda Guerra Mundial foi condenado por crimes de guerra e sentenciado à prisão perpétua.

Chikahiko Koizumi

Um dos principais apoiadores de Ishii dentro do Exército era o coronel Chikahiko Koizumi (1844-1945), que mais tarde se tornou ministro da Saúde e do Bem-estar do Japão de 1941 a 1945 sob o gabinete de Fumimaro Konoe (primeiro-ministro de 1937 a 1939, e que cometeu suicídio com a vitória dos Aliados) e do general Hideki Tojo (primeiro-ministro de 1941 a 1944 e líder de fato do país durante a maior parte da Segunda Guerra Mundial), até que ficou sob suspeita de crimes de guerra com a derrota do Japão e cometeu suicídio por seppuku. Formado na Universidade Imperial de Tóquio, Koizumi havia se juntado a um comitê secreto de pesquisa de gás venenoso em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial, quando ele e outros oficiais ficaram impressionados com o uso bem-sucedido de gás cloro pelos alemães na Segunda Batalha de Ypres, onde os Aliados sofreram 15 mil baixas como resultado do ataque químico. Ele se tornou cirurgião-geral do Exército Imperial Japonês em 1934.

Ishii costumava frequentar festas regadas a bebida que duravam a noite inteira, além de ter sido um promíscuo mulherengo, conhecido nas principais casas de gueixas por sua preferência por adolescentes. Ainda não se sabe como Ishii financiava suas atividades “recreativas” com o salário de jovens oficiais. Posteriormente tornou-se um homem rico, exigindo comissões dos empreiteiros que construíram suas diversas “instalações”.

Uma fuga de prisioneiros no outono de 1934 e uma explosão posterior (que se acredita ter sido um ataque) em 1935, levaram Ishii a fechar a Unidade Togo na Fortaleza de Zhongma. Ele recebeu então a autorização para se mudar para Pingfang, a aproximadamente 24 km ao sul de Harbin, para estabelecer uma instalação nova e muito maior.

Em 1936, o imperador Hirohito autorizou, por decreto imperial, a expansão desta unidade e sua integração ao Exército Kwantung como Departamento de Prevenção de Epidemias e Purificação de Água (Kantōgun Bōeki Kyūsuibu Honbu), originalmente ajustada às políticas, ideologias e seções da Kempeitai (Polícia Militar). Foi dividida ao mesmo tempo em “Unidade Ishii” e “Unidade Wakamatsu” com base em Hsinking. A partir de agosto de 1940, todas essas unidades eram conhecidas coletivamente como “Departamento de Prevenção de Epidemias e Purificação de Água do Exército Kwantung” ou “Unidade 731”.

A Unidade 731 em Pingfang, sul de Harbin

Um projeto especial de codinome Maruta usou seres humanos para experimentos. As cobaias eram chamadas eufemisticamente de “tora”. Este termo surgiu como uma piada da equipe porque a história oficial de cobertura da instalação dada às autoridades locais era que se tratava de uma serraria. Em um relato de um homem que trabalhava como “funcionário civil júnior uniformizado” do Exército Japonês na Unidade 731, o termo maruta veio do alemão, significando experimento médico, usado em contextos como “Quantas toras caíram?”

Numerados em ordem crescente até o número 500, as cobaias eram selecionadas para fornecer uma ampla amostra da população e incluíam além de crianças, idosos e mulheres grávidas, criminosos comuns, bandidos capturados e partidários anti-japoneses, prisioneiros políticos e também pessoas presas pelos Kempetai por supostas “atividades suspeitas”. Eram bem alimentados e faziam exercícios regularmente, somente porque sua saúde era vital para a obtenção de bons resultados científicos.

As primeiras experiências centraram-se em doenças contagiosas como o carbúnculo ou antraz e a peste bubônica. O antraz é uma infecção causada pela bactéria Bacillus anthracis que provoca úlceras doloridas na pele, envenenamento do sangue e uma febre que mata nove em cada dez infectados. As experiências consistiam em amarrar as pessoas em estacas e explodir bombas de antraz ao seu lado para ver como se dava a contaminação. Em outros testes, guerrilheiros chineses eram infectados com bactérias Yersinia pestis da peste bubônica. Doze dias depois, os infectados contorciam-se com febres de 40º C. Um desses guerrilheiros conseguiu sobreviver por 19 dias antes que lhe fizessem uma autópsia enquanto ainda estava vivo.

Alguns prisioneiros foram envenenados com gás fosfina e em outros foi aplicado cianureto de potássio. Alguns foram submetidos a descargas elétricas de 20.000 volts. Os prisioneiros que sobreviviam ficavam à disposição para receberem injeções letais ou para serem dissecados vivos.

Quando Ishii necessitava de um cérebro humano para uma experiência, simplesmente ordenava que os guardas obtivessem o órgão. Enquanto o prisioneiro era pego por um dos guardas, que segurava seu rosto contra o chão, o outro quebrava-lhe o crânio com um machado. O órgão era retirado grosseiramente e levado rapidamente ao laboratório de Ishii. Os restos mortais do prisioneiro sacrificado eram lançados no crematório do campo.

O instrumental utilizado pelos médicos da Unidade 731 incluía serras e ganchos. Nenhum “tronco” escapava da morte: os que tinham a sorte de sobreviver às provas da guerra biológica eram submetidos à dissecação ou executados.

O instrumental utilizado pelos médicos da Unidade 731 eram toscos, verdadeiros instrumentos de açougueiros, e incluíam serras e ganchos. Nenhum “tronco” escapava da morte: os que tinham a sorte de sobreviver às provas da guerra biológica eram submetidos à dissecação ou executados. O número de mortos pela Unidade 731 ultrapassa as dezenas de milhares de vítimas.

A qualidade do trabalho, assim como sua personalidade, garantiram a Shirô Ishii um crescente poder. Em 1939, pôde mudar-se para instalações tão grandes quanto o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau da Alemanha nazista. O novo quartel general da Unidade 731 situava-se em Pingfan, capital da província de Heilongjiang, na Manchúria, nordeste da China. O complexo de Pingfan possuía 6 km² e abrigava edifícios administrativos, laboratórios, galpões, uma prisão para indivíduos submetidos aos testes, um edifício de autópsias e dissecação e três fornos crematórios.

Major Robert Peaty, que manteve um diário enquanto esteve detido em Mukden o qual forneceu evidências suficientes de que a Unidade 731 estava usando prisioneiros de guerra como cobaias. (Foto por PA Images via Getty Images)

Um campo de prisioneiros de guerra localizado em Mukden, capital e maior cidade da província de Liaoning, a 563 km de Pingfan, no nordeste da China, detinha os prisioneiros de guerra americanos, britânicos e australianos, que também eram usados nas experiências. De acordo com o major Robert Peaty (1903-1989), da Royal Army Ordnance Corps, que era o oficial britânico sênior em Mukden, médicos da Unidade 731 administravam injeções regulares de doenças infecciosas, disfarçadas de inofensivas vacinações, que eventualmente mataram 186 americanos.

As baixas temperaturas diminuíam o rendimento militar durante os rigorosos invernos da Manchúria. Por esse motivo, experiências sobre congelamento foram especialmente desenvolvidas. Alguns prisioneiros eram deixados nus, ficando submetidos a temperaturas abaixo de zero e seus membros eram golpeados com paus até que se produzissem sons secos e metálicos indicando que o processo de congelamento estava terminado. Em seguida, os corpos eram “descongelados” através de técnicas experimentais.

Com as mãos e os pés amarrados, um trabalhador chinês é dissecado sem anestesia. “Sabia que tudo estava terminado para ele, por isso nem ofereceu resistência”, lembra um legista da Unidade 731. “Porém, quando peguei o bisturi, começou a gritar”. Essa era somente uma das inúmeras experiências realizadas.

Em seu livro Fábricas da Morte (Factories of Death: Japanese Biological Warfare 1932-45 and the American Cover-up, New York, Routledge, 1994), Sheldon H. Harris (1928-2002), historiador e professor emérito da California State University (Universidade Estadual da Califórnia), descreve outras experiências, como a suspensão de indivíduos de cabeça para baixo, para determinar quando morreriam asfixiados. É quase indescritível a prática de injetar ar nos prisioneiros para acompanhar a evolução das embolias. Em outros indivíduos, era injetada urina de cavalo em seus rins.

Cobaias humanas empregadas nas experiências em Manchuko (estado fantoche na Machúria e leste da Mongólia Interior, no nordeste da China, criado por oficiais da antiga Dinastia Qing com apoio do Japão Imperial em 1932, sendo um governo totalmente subordinado aos interesses do Império Meiji), foram transferidas de lá para o laboratório de Ishii em Shinjuku, Tóquio, onde uma escola de medicina e um centro de pesquisa pertencentes à Unidade 731 operavam durante a Segunda Guerra Mundial. Ao término da guerra, os restos mortais dessas pessoas foram enterradas em uma fossa comum e lá permaneceram até serem descobertas em 1989. Em 2006, Toyo Ishii, uma enfermeira que trabalhou na escola durante a guerra, revelou que ajudou a enterrar corpos e pedaços de corpos nas dependências da escola logo após a rendição do Japão em 1945. Em resposta, em fevereiro de 2011, o Ministério da Saúde começou a escavar o local. A China solicitou amostras de DNA de todos os restos humanos descobertos no local, mas o governo japonês rejeitou o pedido.

Sem nenhum sentimento de culpa, Shirô Ishii redigia regularmente documentos nos quais descrevia os resultados de suas experiências. Nestes relatórios, dizia que os testes eram realizados em macacos. O uso de seres humanos como cobaias era mantido em segredo.

Com a invasão russa de Manchuko e Mengjiang em agosto de 1945, Ishii teve que abandonar seu trabalho às pressas. Na tentativa de eliminar todos os vestígios da Unidade 731, Ishii ordenou a destruição de todas as instalações de pesquisa e que todos os membros do grupo “levassem o segredo para o túmulo”, ameaçando encontrá-los se falhassem e proibindo qualquer um deles de trabalhar em obras públicas no Japão. Frascos de cianeto de potássio foram distribuídos para uso pessoal no caso de alguém ser capturado. Ishii e seus homens regressaram para casa no anonimato. Tropas japonesas explodiram o complexo de Pingfan e outras instalações nos dias finais da guerra para apagar as evidências de suas atividades, mas a maioria era tão bem construída que sobreviveram um tanto intactas.

O ocultamento e a anistia dos crimes de guerra japoneses pelo governo dos Estados Unidos em troca dos dados científicos obtidos pela Unidade 731

Em agosto de 1946, os procuradores do Tribunal de Crimes de Guerra de Tóquio ouviram, instigados por David Sutton, assistente do promotor chinês, apenas uma referência aos experimentos japoneses com “soros venenosos” em civis chineses. O conselheiro de defesa japonês Michael Levin argumentou que a denúncia era vaga e não corroborada e esta acabou rejeitada pelo presidente do tribunal, Sir William Webb, por falta de provas. O assunto não foi aprofundado por Sutton, que provavelmente estava ciente das atividades da Unidade 731.

Os prisioneiros de guerra foram coagidos a guardar segredos. Foram oferecidas anistia e imunidade a todos os membros da unidade de Ishii em troca de informações e cooperação. Iniciava-se o mais infame encobrimento da Segunda Guerra Mundial.

Muitos dos cientistas envolvidos na Unidade 731 seguiram carreiras de destaque na política, na academia, nos negócios e na medicina do pós-guerra. Vários deles graduaram-se em medicina e um deles chegou a dirigir uma companhia farmacêutica japonesa. Outros ocuparam cargos que foram desde a presidência da Associação Médica Japonesa até a vice-presidência da Green Red Cross Corporation. Um membro da equipe de congelamento chegou a tornar-se um importante empresário da indústria frigorífica japonesa. Um graduado da Unidade 1644, Masami Kitaoka, continuou a fazer experimentos em voluntários japoneses de 1947 a 1956 enquanto trabalhava para o Instituto Nacional de Ciências da Saúde. Shirô Ishii morreu em 1959 sem mostrar nenhum sinal de arrependimento. Alguns, no entanto, foram presos pelas forças soviéticas e condenados nos Julgamentos de Crimes de Guerra de Khabarovsk; outros se renderam às forças norte-americanas.

Os serviços de inteligência dos Aliados possuíam inúmeros dossiês sobre os principais microbiologistas japoneses. Os estrategistas dos Estados Unidos apreciavam as vantagens táticas da guerra biológica, pois os agentes biológicos podem ser introduzidos inadvertidamente nos campos de guerra, e sabiam que Ishii havia realizado tais práticas em diversas ocasiões na China e em outros lugares.

Destarte, os Estados Unidos estavam ansiosos para obter detalhes das experiências e das técnicas utilizadas por Ishii, já que as informações e experiência adquiridas nos estudos da guerra biológica podiam ser de grande valor e proprocionar grande vantagem para o seu programa de desenvolvimento de armas biológicas. Em particular, procuravam os relatórios das experiências com seres humanos, aos quais atribuíam uma importância supra. No final da guerra, os cientistas de Fort Detrick, Maryland – onde ficavam as instalações de guerra biológica dos Estados Unidos –, iniciaram uma série de entrevistas com os técnicos japoneses. Nenhum deles chegou a considerar as implicações morais e éticas que o assunto envolvia.

Fort Detrick, Maryland

Uma vez constatados os fatos, um cabo informou ao Departamento de Guerra de Washington que “informações posteriores reforçavam a conclusão de que o grupo dirigido por Ishii violou as normas de guerra”, mas fazia a ressalva de que “esta opinião não é recomendação para que o grupo seja acusado”.

De modo a impedir que os soviéticos obtivessem as informações de Ishii, os Estados Unidos fizeram um pacto com o próprio, assim como já tinham feito com centenas de cientistas nazistas. Para tanto, era necessário que as experiências fossem ocultadas, deveriam constituir o “maior dos segredos”, o mais obscuro deles. Os prisioneiros de guerra que regressavam e davam depoimentos sobres as terríveis experiências que haviam sido feitas neles deveriam ser silenciados, caso contrário a opinião pública ficaria indignada e exigiria medidas drásticas. Portanto, havia apenas uma saída: o encobrimento total da verdade.

As forças de ocupação norte-americanas monitoraram as atividades dos ex-membros da Unidade, incluindo a leitura e censura de sua correspondência. Em 6 de maio de 1947, o comandante supremo das Forças Aliadas, Douglas MacArthur (1880-1964), que liderou o processo de ocupação e reconstrução do Japão, escreveu a Washington dizendo que “dados adicionais, possivelmente algumas declarações de Ishii, provavelmente podem ser obtidos informando aos japoneses envolvidos que as informações serão retidas em canais de inteligência e não serão empregadas como evidência de ‘crimes de guerra'”, isso mesmo, ou seja, MacArthur secretamente concedeu imunidade aos médicos da Unidade 731 em troca deles fornecerem exclusivamente aos Estados os resultados de suas pesquisas no campo da guerra biológica. E assim o inquérito foi encerrado em 1948.

A União Soviética, ao contrário dos Estados Unidos, processou doze líderes e cientistas do Esquadrão 731 e suas unidades afiliadas: Esquadrão 1644 em Nanquim e Esquadrão 100 em Changchun, todos no Julgamentos de Crimes de Guerra de Khabarovsk, audiências realizadas entre 25 e 31 de dezembro de 1949 na cidade industrial de Khabarovsk, a maior cidade do Extremo Oriente Russo, perto da fronteira com o nordeste da China, adjacente ao Japão. Os médicos e oficiais do Exército Imperial Japonês que perpetraram as atrocidades do Esquadrão 731 receberam sentenças de 2 a 25 anos de confinamento em campos de trabalho forçados na Sibéria. Entre esses criminosos de guerra estava o general Otozō Yamada (1881-1965), o comandante-chefe de um milhão de soldados japoneses que ocuparam a Manchúria.

Uma longa transcrição parcial dos procedimentos do julgamento foi publicado em vários idiomas no ano seguinte por uma agência de notícias de Moscou em línguas estrangeiras, incluindo uma edição em inglês: Materiais sobre o julgamento de ex-militares do exército japonês encarregados de fabricar e empregar armas bacteriológicas (Materials on the trial of former servicemen of the Japanese Army charged with manufacturing and employing bacteriological weapons, Moscou, Foreign Languages ​​Publishing House, 1950). Este relatório disponível na internet continua sendo um recurso inestimável para historiadores sobre a organização e atividades de tentativas de guerra biológica. Curiosamente, nenhuma das edições em língua estrangeira deste livro continha quaisquer dados sobre o número de sua impressão – apenas a edição russa diz que cerca de 50.000 cópias foram publicadas.

O advogado encarregado do caso nos Julgamentos de Khabarovsk foi Lev Smirnov (1911-1986), que havia sido um dos demandantes soviéticos nos julgamentos de Nuremberg contra médicos nazistas que haviam cometido atrocidades humanas em experimentos semelhantes em campos de extermínio como Auschwitz e Dachau. Os norte-americanos se recusaram a reconhecer a legitimidade dos julgamentos, rotulando-os de mera propaganda comunista. E de certo modo estavam certos, pois a União Soviética acabou construindo uma instalação de armas biológicas em Sverdlovsk usando a documentação capturada da Unidade 731 na Manchúria, ainda que muitos prisioneiros de guerra soviéticos tivessem sido capturados por civis japoneses e russos, incluindo mulheres e crianças, e mortos em experimentos químicos e biológicos pelo Esquadrão 731, junto com chineses, coreanos, mongóis e cativos de outras nacionalidades.

A aceitação do trabalho de Ishii pelos Estados Unidos significou que havia sido ignorado o termo que impedia a utilização de seres humanos como cobaias de experiências científicas, estabelecido no acordo de 1925, na Convenção de Genebra. Os cidadãos dos Estados Unidos e do Reino Unido que haviam vítimas dos japoneses, agora eram novamente, mas desta vez nas cínicas mãos de seus próprios governos.

Os trabalhos da Unidade 731 permaneceram assim inéditos até 1984, quando um estudante que vasculhava uma caixa de velhos documentos em um sebo no distrito de Kanda, nos arredores de Tóquio, descobriu as anotações feitas por um antigo oficial do Exército sobre a Unidade 731. Os documentos continham minuciosos relatórios médicos sobre doenças mentais. Em um deles, aparecia um diagrama que mostrava 21 cobaias humanas amarradas em estacas dispostas em círculos. As notas explicavam que uma bomba biológica de bactérias era explodida no centro do círculo para comprovar a difusão de uma doença quando disseminada com uma bomba. Em suma, os documentos descreviam detalhadamente as experiências biológicas e demostravam cabalmente que as cobaias das experiências de Shirô Ishii e sua equipe eram seres humanos.

Somente a partir dessas descobertas e revelações é que os familiares das vítimas que morreram na Unidade 731 souberam das atrocidades cometidas. Depois de ouvir as narrações dos chineses que foram torturados, muitas famílias passaram a exigir retratações, reparações e indenizações.

Em 1986, o ex-prisioneiro de guerra Frank James relatou suas lembranças a um comitê do Congresso dos Estados Unidos. “Éramos apenas pequenas peças de um jogo, sempre soubemos que existia um encobrimento”, disse James.  Outro ex-prisioneiro, Max McClain, lembra que junto com seu companheiro de cela, George Hayes, eram colocados em filas para receberem injeções. Dois dias depois, Hayes lamentava-se: “Mac, não sei o que esses desgraçados me deram, mas sinto-me muito mal”. Naquela mesma noite, dissecaram Hayes.

A audiência durou apenas metade de um dia e somente um dos 200 sobreviventes foi convocado. O responsável pelos arquivos do Exército declarou que os documentos obtidos de Ishii haviam sido devolvidos ao Japão ainda na década de 50. Surpreendentemente, não havia se preocupado em fazer fotocópias dos documentos.

Arthur Christie, um soldado do Loyal’s Regiment submetido a experiências biológicas, enviou várias cartas ao governo britânico falando sobre as experiências de Mukden, que foram respondidas friamente pelo Ministério de Defesa em 12 de dezembro de 1986: “Contudo, não temos provas que sustentem as alegações de que os japoneses realizavam experiências com prisioneiros de guerra aliados em Mukden, nem tampouco prova alguma que sustente a alegação de que um acordo foi feito para esconder a verdade do que acontecia naquele local. Um ano depois, em uma segunda carta, admitia-se que a Unidade 731 tinha se dedicado à guerra biológica em Pingfan, porém isso “não prova que ocorresse o mesmo em Mukden”.

Guerra biológica: a disseminação propositada de doenças entre os civis chineses

A Unidade 731 e suas unidades afiliadas (Unidade 1644, Unidade 100, etc.) estiveram envolvidas na pesquisa, no desenvolvimento e implantação experimental de armas de guerra biológica que criaram epidemias em ataques contra a população chinesa (civil e militar) durante a Segunda Guerra Mundial.

Prisioneiros foram injetados com inoculações de doenças, disfarçadas de vacinas, para estudar seus efeitos. Para estudar os efeitos de doenças venéreas não tratadas, prisioneiros do sexo masculino e feminino foram deliberadamente infectados com sífilis e gonorreia e depois estudados.

Cientistas japoneses realizaram testes em prisioneiros com cólera, varíola, botulismo e outras doenças.

Prisioneiros foram infestados com pulgas para adquirir grandes quantidades de pulgas transmissoras de peste bubônica com o objetivo de estudar a viabilidade da guerra bacteriológica. Essa pesquisa levou ao desenvolvimento da bomba de desfolhamento de bacilos e da bomba de pulgas usada para espalhar a peste bubônica. Algumas dessas bombas foram projetadas com conchas de cerâmica (porcelana), uma ideia proposta por Ishii em 1938. Pulgas infestadas de peste bubônica, roupas e suprimentos infectados envoltos nessas bombas foram lançados em vários alvos por aviões voando baixo sobre as cidades chinesas costeiras de Ningbo em 1940 e Changde, província de Hunan, em 1941. Estima-se que estas pulverizações aéreas militares tenham matado cerca de 400.000 civis chineses com a cólera, o antraz e a peste bubônica resultantes. A tularemia (febre da mosca do cervo ou febre do coelho), doença infecciosa rara causada pela bactéria Francisella tularensis que ataca a pele, olhos e pulmões, também foi espalhada em civis chineses.

Essas bombas contaminaram e infectaram plantações, nascentes, reservatórios, poços e outras áreas com antraz, pulgas transmissoras da peste, febre tifóide, disenteria, cólera e outros patógenos mortais. Durante os experimentos com bombas biológicas, cientistas vestidos com roupas de proteção examinavam as vítimas moribundas. Alimentos e roupas infectados foram lançados de aviões em áreas da China não ocupadas pelas forças militares japonesas. Além disso, alimentos e doces envenenados foram distribuídos a vítimas e crianças inocentes, e os resultados examinados.

Em 2002, Changde, na China, local do ataque de pulverização de pulgas, realizou um “Simpósio Internacional sobre Crimes de Guerra Bacteriológica”, que estimou que pelo menos 580.000 pessoas morreram como resultado do ataque. O historiador Sheldon Harris afirma que 200.000 morreram. Além das baixas chinesas, 1.700 japoneses em Chekiang foram mortos por suas próprias armas biológicas enquanto tentavam liberar o agente biológico, o que evidencia sérios problemas com a distribuição.

Experiências macabras de todo tipo

Toshimi Misibushi

Após serem infectados com várias doenças, prisioneiros de guerra eram submetidos a vivissecções sem anestesia. Cirurgias invasivas eram realizadas em homens, mulheres, crianças e bebês por cientistas que removiam seus órgãos para estudar os efeitos de doenças no corpo humano. Vivissecções também foram realizadas em mulheres grávidas, às vezes engravidadas pelos próprios médicos, para terem seus fetos extraídos e submetidos a experiências. Membros eram amputados para estudar os efeitos da perda de sangue. Membros removidos às vezes eram reconectados em lados opostos do corpo. Os membros de alguns prisioneiros foram congelados e amputados, enquanto outros tiveram membros congelados e descongelados para estudar os efeitos da gangrena não tratada e do apodrecimento resultante. Alguns tiveram seus estômagos removidos cirurgicamente e o esôfago recolocado no intestino. Partes do cérebro, pulmões, fígado, etc. foram removidas de alguns prisioneiros.

Membro da Unidade 731, Toshimi Misibushi realizou autópsias em seres humanos vivos e descreveu abertamente suas operações: “Fazia as incisões daqui até aqui (aponta para o pescoço) e em seguida até a extensão do estômago. Primeiro gritavam… e demoravam alguns minutos para perderem a consciência. Na primeira vez relutei muito sobre o que me mandavam fazer. Na segunda vez já tinha me acostumado. Na terceira vez o fiz mais espontaneamente. Do nosso ponto de vista, os ‘troncos’ estavam ali para propósitos experimentais. Eram empregados para isto. ‘Orgulho-me de ter pertencido a esta unidade. Foi a primeira do mundo em que se usou a biologia em campo de batalha.” Um legista anônimo da Unidade 731, por sua vez declarou: “Cortei abrindo-o do peito ao estômago enquanto ele gritava terrivelmente. Para os cirurgiões, isto era o trabalho rotineiro.”

Em 2007, Ken Yuasa testemunhou ao Japan Times que “Tive medo durante a minha primeira vivissecção, mas na segunda vez foi muito mais fácil. Na terceira vez, estava disposto a fazê-lo.” Ele acredita que pelo menos 1.000 pessoas, incluindo cirurgiões, estiveram envolvidas em vivissecções na China continental.

Alvos humanos eram usados para testar granadas posicionadas a várias distâncias e em diferentes posições. Lança-chamas eram testados em humanos. Pessoas eram amarradas em postes e usadas como alvos para testar bombas liberadoras de germes, armas químicas e bombas explosivas.

Em outros testes, prisioneiros eram privados de comida e água para determinar o período de tempo até a morte, colocados em câmaras de alta pressão até a morte, submetidos a temperaturas extremas sofrendo queimaduras para determinar quanto tempo o corpo humano resistia a tais tormentos e determinar a relação entre temperatura, queimaduras e sobrevivência humana, bem como os efeitos da putrefação e gangrena na carne humana, colocados em centrífugas e girados até a morte, expostos a doses letais de raios-x, submetidos a várias armas químicas dentro de câmaras de gás, injetados com água do mar para determinar se esta poderia ser um substituto para a solução salina, injetados com ar em suas artérias para determinar quanto tempo se iniciavam os sintomas iniciais de um derrame, injetados com sangue animal, injetados com urina de cavalo em seus rins, pendurados de cabeça para baixo para ver quanto tempo levariam para sufocar, e até queimados e enterrados vivos. Talvez o mais chocante e cruel de todos, era quando colocavam mães junto com seus bebês em tanques que eram enchidos de água para observar o comportamento das mães, que em princípio seguravam os bebês, mas acabavam pisando neles para não morrerem afogados.

Divisões

A Unidade 731 foi dividida em oito divisões:

  • Divisão 1: Pesquisa sobre peste bubônica, cólera, antraz, febre tifóide e tuberculose usando seres humanos vivos. Para isso, foi construída uma prisão para conter cerca de trezentas a quatrocentas pessoas.
  • Divisão 2: Pesquisa de armas biológicas usadas no campo, em particular a produção de dispositivos para disseminar germes e parasitas.
  • Divisão 3: Produção de conchas contendo agentes biológicos em Harbin.
  • Divisão 4: Produção de outros agentes diversos.
  • Divisão 5: Treinamento de pessoal.
  • Divisões 6-8: Equipamentos, unidades médicas e administrativas.

Instalações

O complexo da Unidade 731 em Pingfan na Manchúria cobria seis quilômetros quadrados e consistia em mais de 150 edifícios. O projeto das instalações tornava difícil destruí-las com bombardeios. O complexo continha várias fábricas e cerca de 4.500 contêineres para criar pulgas, seis caldeirões para produzir diversos produtos químicos e cerca de 1.800 contêineres para a produção de agentes biológicos. Aproximadamente 30 kg da bactéria da peste bubônica podiam ser produzidos em alguns dias. Toneladas dessas armas biológicas (e algumas químicas) foram armazenadas em vários lugares no nordeste da China durante o curso da guerra.

Algumas das instalações satélite da Unidade 731 ainda estão em uso por várias empresas industriais chinesas. Uma parte foi preservada e está aberta aos visitantes como um Museu dos Crimes de Guerra. Em agosto de 2003, 29 pessoas foram hospitalizadas depois que um grupo de construtores de Heilongjiang desenterrou projéteis químicos que haviam sido enterrados no solo há mais de 50 anos.

O Centro de Operações Hsinking (Changchung), também chamado de comando central da “Unidade Wakamatsu” (Pelotão 100), por estar sob o comando do veterinário Yujiro Wakamatsu (1897-1977), se dedicava ao estudo de vacinas para proteger os recursos animais japoneses e, em especial, para a produção de doenças para a guerra biológica veterinária. As doenças foram inoculadas em cavalos soviéticos e chineses e outros tipos de gado. Além desses testes, o Pelotão 100 dirigiu uma fábrica de bactérias para produzir os patógenos exigidos por outras unidades. Testes de sabotagem biológica com venenos também foram administrados neste estabelecimento.

A área principal usada na guerra biológica da Unidade 731 em Pingfan, ao sul de Harbin, capital da província de Heilongjiang, nordeste da China, foi aberta ao público em 2015. A área inclui um laboratório de bactéria e uma prisão usada para prender as pessoas para os experimentos biológicos, de acordo com Jin Chengmin, curador do Museu de Evidência dos Crimes de Guerra pela Unidade 731 do Exército Japonês. O laboratório e a prisão são evidências diretas da guerra biológica e química da unidade militar, segundo Chengmin. Entre 3.000 e 12.000 homens, mulheres e crianças, dos quais cerca de 600 a cada ano, foram assassinados durante a experimentação humana conduzida pela Unidade 731 em Pingfang. Esses dados não incluem vítimas de outros locais de experimentação médica. Quase 70% das vítimas que morreram no campo de Pingfang eram chinesas, incluindo civis e militares. Quase 30% das vítimas eram russas. Alguns outros eram da Península Coreana, da Mongólia, do Sudeste Asiático e das ilhas do Pacífico, na época colônias do Império do Japão, e um pequeno número de prisioneiros de guerra dos Aliados da Segunda Guerra Mundial (embora muitos outros prisioneiros de guerra Aliados tenham sido vítimas da Unidade 731 em outros lugares).

Os invasores japoneses explodiram a base ao fugir do local quando o exército da União Soviética tomou Harbin em 1945.

O edifício de 10.000 metros quadrados está dividido em seis salas de exposição, exibindo 10.050 relíquias escavadas dos restos mortais da sede da Unidade 731.

Endereço do Japanese Army Unit 731 Museum: Xinjiang Dajie 25, Ping Fang district, Harbin city, Heilongjiang province, P.R. China.

Cobertura e debate da mídia japonesa pós-ocupação

As discussões japonesas sobre a atividade da Unidade 731 começaram já no início da década de 1950, logo após o fim da Ocupação Norte-Americana do Japão (1945-1952).

Em 1952, experimentos humanos realizados no Hospital Pediátrico da cidade de Nagoya, que resultaram em uma morte, foram publicamente vinculados a ex-membros da Unidade 731.

Sadamichi Hirasawa

Mais tarde, naquela década, jornalistas suspeitaram que os assassinatos atribuídos ao pintor Sadamichi Hirasawa (1892-1987) em 1948, foram na verdade cometidos por membros da Unidade 731, tanto que apesar de ter sido condenado à morte por envenenamento em massa, e devido às fortes suspeitas de que ele era inocente, nenhum ministro da Justiça jamais teve a coragem de assinar sua sentença de morte.

Em 1958, o escritor japonês católico Shusaku Endo (1923-1996) publicou o livro The Sea and Poison (transformado em filme com título homônimo em 1985 com a direção de Kei Kumai) sobre experimentação humana, que se acredita ter se baseado na Unidade 731.

Em 1981, o escritor Morimura Seiichi (1933-) publicou o livro The Devil’s Gluttony, seguido em 1983 por The Devil’s Gluttony: A Sequel, que pretenderam revelar as “verdadeiras” operações da Unidade 731, mas que na verdade foram confundidas com as da Unidade 100, e falsamente usou fotos não relacionadas atribuindo-as à Unidade 731, o que levantou questões sobre sua confiabilidade.

Ainda em 1981, Ken Yuasa surgiu dando o primeiro testemunho direto de vivissecção humana na China. Desde então, muitos outros testemunhos aprofundados apareceram. O documentário japonês Japanese Devils (roteirizado, dirigido e produzido por Minoru Matsui) de 2001, sobre os crimes de guerra cometidos pelo Exército Imperial Japonês entre 1931 e 1945, composto principalmente de entrevistas com 14 membros veteranos da Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945) que admitem terem praticado estupro, massacres, canibalismo e outras amenidades, incluindo as experiências biológicas da Unidade 731. Todos os entrevistados, incluindo Yuasa, haviam sido feitos prisioneiros e condenados à morte por crimes de guerra pela China e posteriormente libertados após um extenso tratamento de “reeducação”, o que coloca em dúvida a sinceridade de seus depoimentos.

Governo Japonês admite atrocidades da Unidade 731

Desde o fim da ocupação dos Estados Unidos, o governo japonês tem se desculpado repetidamente por seu comportamento antes e durante a Segunda Guerra, mas desculpas e indenizações específicas são determinadas com base na determinação bilateral de que ocorreram crimes, o que requer um alto padrão de evidências. Por exemplo, uma compensação foi paga à Coreia do Sul por crimes relacionados com mulheres de conforto no Tratado de Relações Básicas de 1965 entre o Japão e a República da Coreia. A Unidade 731 apresenta um problema especial, pois ao contrário da experimentação humana nazista que é extremamente bem documentada, as atividades da Unidade 731 são conhecidas apenas pelos testemunhos de ex-membros da Unidade, e o testemunho não pode ser empregado para determinar indenização dessa forma.

Saburo Ienaga

Os livros didáticos de história do Japão geralmente contêm referências à Unidade 731, mas não entram em detalhes sobre as alegações, de acordo com este princípio. A Nova História do Japão do historiador Saburo Ienaga (1913-2002) incluía uma descrição detalhada, baseada no testemunho dos oficiais. O Ministério da Educação tentou remover essa passagem de seu livro antes de ser distribuído nas escolas públicas, alegando que o testemunho era insuficiente. A Suprema Corte do Japão decidiu em 1997 que o testemunho era de fato suficiente e que exigir que fosse censurado era uma violação ilegal da liberdade de expressão.

Em 1997, o advogado internacional Kōnen Tsuchiya entrou com uma ação coletiva contra o governo japonês exigindo reparações pelas ações da Unidade 731, usando evidências apresentadas pelo historiador Makoto Ueda, da Universidade de Rikkyo, mas todos os níveis do tribunal consideraram que o processo não tinha fundamento. Nenhuma constatação de fato foi feita sobre a existência de experimentação humana, mas a decisão do tribunal foi que as reparações são determinadas por tratados internacionais e não por processos judiciais locais.

Em setembro de 2002, o Tribunal de Tóquio admitiu que a Unidade 731 do Exército Imperial cometeu atrocidades na China ocupada nas décadas de 30 e 40. Apesar de recusar o pagamento de indenizações e qualquer pedido oficial de desculpa para a família dos mortos, essa decisão do tribunal foi uma vitória para a China, pois há alguns anos o governo japonês sequer admitia a existência da Unidade 731.

Em outubro de 2003, o então primeiro-ministro do Japão, Junichiro Koizumi, respondeu a um inquérito de um membro da Câmara dos Representantes do Japão afirmando que, embora o atual governo japonês não possua quaisquer registros relacionados à Unidade 731, eles reconheciam a gravidade da questão e iriam divulgar quaisquer registros localizados no futuro.

Filmes e documentários sobre a Unidade 731

Produção conjunta de Hong Kong e China, Hei tai yang 731 (Campo 731: Bactérias, a Maldade Humana, em português, e Men Behind the Sun, em inglês), dirigido por Tun Fei Mou, na verdade pseudônimo de Godfrey Ho, um cineasta que fez centenas de filmes de Kung-Fu, ninjas e Bruce Lee’s falsos, é até hoje considerado o que passou mais perto de ser um “snuff movie” (filmes que mostram mortes ou assassinatos reais de uma ou mais pessoas). O filme é extremamente controverso por usar o que Mou afirma ser uma filmagem real da autópsia de um menino e também por cenas em que um homem dentro de uma câmara de gás tem o intestino expelido pelo ânus e um gato vivo parece sendo jogado em uma sala para ser comido vivo por centenas de ratos frenéticos. Em uma cena posterior do filme, ratos vivos foram incendiados, o que atraiu críticas por sua crueldade em muitos países.

O filme começa com a passagem “Amizade é amizade; história é história”. Sobre a citação, Mou disse que “esse é o argumento (que tive) com o governo (chinês), porque o governo diz ‘não, temos uma amizade com os japoneses’, e eu disse, ‘bem, você pode falar sobre a sua amizade, eu estou falando sobre história’”. O filme segue um grupo de jovens que foram convocados para o Corpo de Jovens. Eles são designados para o Exército Kwangtung e são levados para uma das instalações que servem a Unidade 731, que é chefiada por Shirô Ishii. Logo, eles são apresentados aos experimentos em andamento na instalação, pelos quais sentem repulsa. O objetivo dos experimentos é encontrar uma cepa altamente contagiosa da peste bubônica, a ser usada como arma de última hora contra a população chinesa.

Enquanto isso, os jovens soldados tornam-se amigos de um menino chinês mudo local, com quem jogam bola. Um dia, os oficiais comandantes pedem aos meninos que tragam a criança chinesa para as instalações. Ingenuamente, eles obedecem às ordens acreditando que nenhum dano real acontecerá ao menino. No entanto, a equipe médica sênior coloca o menino em cirurgia com o objetivo de colher seus órgãos para pesquisa. Quando os jovens soldados percebem o que aconteceu, eles encenam uma pequena revolta ao se unirem e agredirem fisicamente seu comandante.

À medida que a guerra prossegue, a situação se torna cada vez mais desesperadora para os japoneses e, portanto, para a Unidade 731. Em um de seus últimos experimentos, eles amarram vários prisioneiros chineses a cruzes, com a intenção de que sejam usados ​​como alvos para um protótipo de bomba de cerâmica contendo pulgas infectadas. No entanto, eles não podem entrar em contato com seu campo de aviação devido a uma retirada. Os prisioneiros chineses se libertam das cruzes e tentam escapar. As tropas japonesas os caçam e quase todos são atropelados ou baleados. Vários japoneses também morrem ou ficam feridos.

Retornando às instalações após o experimento abortado, não há mais tempo para a Unidade 731 e eles são forçados a destruir suas pesquisas e todas as outras evidências das atrocidades que cometeram lá. Ishii inicialmente ordena que seus subordinados e suas famílias cometam suicídio, mas é persuadido a evacuá-los e só cometer suicídio se fossem capturados. Porém, ele deixa bem claro que o sigilo deve ser mantido, sob pena de consequências terríveis.

As tropas japonesas se reúnem em uma estação ferroviária para serem transportadas para fora da China. Um dos prisioneiros chineses, depois de se disfarçar e escapar com um grupo de soldados, é descoberto por um oficial. Durante uma pequena briga em que ele mata o oficial antes de ser morto, seu sangue mancha a bandeira japonesa, para horror do Corpo de Jovens. O trem sai da estação.

As passagens finais revelam que Ishii coopera com os norte-americanos, dando-lhes suas pesquisas e concordando em trabalhar para eles. Anos depois, ele é transferido para o front coreano, e armas biológicas aparecem no campo de batalha logo em seguida…

Embora Mou tenha tentando retratar com precisão histórica as atrocidades cometidas pela Unidade 731, ele foi criticado por superexplorar cenas de tortura e violência. Por causa de seu conteúdo, o filme foi censurado e banido em todo o mundo. Foi proibido na Austrália e causou protestos públicos no Japão a tal ponto que o diretor Mou recebeu até ameaças de morte.

O filme russo-americano de terror Philosophy of a Knife (Filosofia de uma Faca), roteirizado, dirigido e produzido por Andrey Iskanov em 1988, aborda a Unidade 731 misturando arquivos de vídeos, entrevistas e reconstituições extremamente gráficas dos experimentos realizados pelos japoneses. O filme, preto e branco e falado em inglês, tem nada menos do que quatro horas de duração e é dividido em duas partes.

O cineasta e artista norte-americano James T. Hong (1970-), de Taiwan, cujas obras tendem a se concentrar em tópicos e figuras filosóficas, questões controversas de raça e classe e conflitos históricos na Ásia, produziu um documentário em 2007 sobre a Unidade 731 chamado 731: Two Versions of Hell (731: Duas versões do inferno), e que foi seguido por Lessons of the Blood (Lições de Sangue), em 2010.

O álbum de 2009 World Painted Blood da banda norte-americana de thrash metal Slayer, traz uma canção intitulada “Unit 731”, que descreve os eventos e atrocidades que ocorreram na Unidade 731.

Cenas de Philosophy of a Knife, inspiradas na Unidade 731

Nos episódios 9 (“Nisei”, renomeado de “Os Japoneses” no Brasil) e 10 (“731”, renomeado de “O Falso Alienígena”) da terceira temporada (1995) do célebre seriado The X-Files [Arquivo X (1993-2002), criado por Chris Carter], o de maior sucesso à época, ex-membros da Unidade 731 aparecem dando continuidade em plena metade dos anos 90 a seus experimentos sob a tutela de uma agência secreta do Governo dos Estados Unidos, e desta vez com a intenção de criar um híbrido alienígena. Curiosamente, este foi o episódio mais visto desta série na Espanha, onde é chamada de Expediente X.

Nestas cenas do episódio “Nisei”, da terceira temporada de Arquivo X, médicos japoneses remanescentes da Unidade 731 conduzem experiências com um híbrido humano-alienígena em um vagão de trem.

Conclusão: A história ainda precisa ser reescrita

Os militares do Japão Imperial criaram uma nova estratégia para promover a expansão da nação: a guerra bacteriológica. Em sua transloucada tentativa de conquista durante a guerra, fizeram o mundo mergulhar em suas horas mais sombrias. Sob a bandeira do nacionalismo e da ciência, recrutaram os seus maiores especialistas para perpetrar a tortura e o assassinato sistemático de civis cujas vidas eram vistas como dispensáveis. E mais tarde, já derrotados, com a ajuda do próprio Governo dos Estados Unidos, esses criminosos de guerra puderam escapar impunes, graças a um acordo que fizeram com o general Douglas MacArthur, que os isentou das das responsabilidade por suas atrocidades.

Não se sabe ao certo quantas pessoas morreram ao todo, mas se sabe que mais de 250.000 foram infectadas e a maioria delas não sobreviveu. Alguns calculam que as vítimas podem passar dos 500.000, incluídas as que morreram indiretamente.

A Unidade 731 foi meticulosamente documentada por historiadores que recolheram inúmeras evidências do programa de guerra bacteriológica do Japão, incluindo relatos em primeira mão de perpetradores e sobreviventes. Mas mesmo com a fartura de testemunhos e provas, nem todas as atrocidades da Unidade 731 são reconhecidas pelo governo japonês. Os livros didáticos japoneses de história, por exemplo, mencionam apenas superficialmente a Unidade 731.

O governo chinês, entretanto, não pretende esquecer esse terror tão cedo. Criou um museu no local onde funcionou a Unidade 731 no noroeste do país, expondo maquetes que mostram os experimentos com armas químicas e biológicas que os militares japoneses faziam com os prisioneiros de guerra. Essa manifestação de ressentimentos não é exclusiva da população chinesa. Países como Coreia do Sul, Taiwan, Tailândia, Filipinas e Hong Kong também já fizeram diversos protestos para mostrar que não esquecem os horrores dos quais foram vítimas.

Resta agora ao Japão seguir o exemplo da Alemanha que admitiu, pediu desculpas e indenizou as vítimas das crueldades dos nazistas.

Bibliografia recomendada:

Barenblatt, Daniel. A Plague upon Humanity: The Hidden History of Japan’s Biological Warfare Program. HarperPerennial, 2005.

Gold Hal. Japan’s Infamous Unit 731: Firsthand Accounts of Japan’s Wartime Human Experimentation Program. Tuttle Publishing, 2019.

Harris, Sheldon H. Factories of Death: Japanese Biological Warfare 1932-45 and the American Cover-up. New York, Routledge, 1994.

Pua, Derek. Unit 731: The Forgotten Asian Holocaust. Pacific Atrocities Education; 2nd edition, 2018.

Yan-jun Yang. Unit 731 – Laboratory of the Devil: Auschwitz of the East (Japanese Biological Warfare in China 1933-45). Fonthill Media, 2018.

Williams, Peter & Wallace, David. Unit 731: Japan’s Secret Biological Warfare in World War II. New York, The Free Press, 1989. 

 

2 thoughts on “As fábricas da morte do Império Japonês

  • 01/11/2020 em 21:58
    Permalink

    Excelente artigo suenaga.

  • 01/11/2020 em 22:06
    Permalink

    Obrigado Paulo, grande abraço.

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