UFOS, um mito moderno?

artigo de Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Jerry Matheson analisou o Fenômeno UFO como um produto cultural e Martin Kottmeyer escreveu sobre o background cultural dos relatos de abdução. Esse background é formado por todo um conjunto de tradições, lendas, mitos, folclores, contos de fadas, histórias populares de ficção científica, filmes etc, os quais sempre foram dirimidos, obliterados e distorcidos pelos ufólogos e pesquisadores aferrados à crença nos discos voadores, refratários às categorias que os contrariam ou os colocam em xeque e comprometidos emocional e ideologicamente em provarem de qualquer maneira e a qualquer custo a existência de visitantes extraterrestres. A pressão exercida pelos demais ufólogos não permite que eles julguem com isenção e liberdade as noções que o próprio grupo sedimentou. De acordo com Martin S. Kottmeyer, que se incumbiu de traçar paralelos entre os casos ufológicos e cenas de filmes e seriados de televisão, os ufólogos sistematicamente cortam dos relatórios as fontes culturais provenientes desse conjunto de tradições, principalmente da ficção científica, não porque estejam tentando deliberadamente enganar o público, e sim por causa de sua parcialidade inconsciente como militantes pró-UFOs.

Outro pesquisador que destacaria, pela agudeza de sua linha de abordagem, é o sociólogo francês Bertrand Meheust, que se debruçou sobre a literatura de ficção científica do período anterior à Primeira Guerra Mundial e descobriu que dezenas de obras versavam sobre objetos aéreos estranhos que faziam parar motores de automóveis, que perseguiam trens e carros, que atingiam pessoas com raios estranhos e as levavam para o interior de estruturas esféricas. A abdução por alienígenas era o tema central de muitas histórias, a maioria em francês ou inglês, publicadas entre 1880 e 1940. E como esse background vem sendo construído hoje? Da mesma forma como sempre foi, ou seja, por meio do pensamento mítico.

Significativamente, contatados, abduzidos e testemunhas em geral, não costumam se expressar em linguagem histórica ou conceitual, mas mítica. O pensamento mítico, tal como o artesão que conserta ou fabrica utensílios e adornos a partir de restos e pedaços de outros objetos, trabalha com um repertório de elementos retirados de outros conjuntos culturais. Esses conjuntos heteróclitos poucas vezes afiguram-se perfeitamente adequados ao que se pretende representar ou definir a título de resultado final.  Por serem restos de construções anteriores, cada elemento já traz em si um número delimitado de aplicações. Valendo-se de resíduos culturais – palavras,experiências, objetos –, o pensamento mítico reordena incansavelmente os acontecimentos para descobrir e lhes conferir sentidos. Ele não cria nada de novo, limitando-se ao já existente. É por essa razão que até hoje nenhum relato ufológico trouxe algo que não fosse reminiscente do arcabouço de nossa própria cultura: lendas, tradições, crenças, fábulas, folclores, contos de fadas, ficções científicas etc. Não por acaso, todos os mitos – e a Ufologia é um mito moderno – têm em comum uma semelhança estrutural da qual cada mito específico é uma versão entre outras possíveis.

Considerando que o fenômeno dos UFOs eclodiu como a continuação, sob uma fachada tecnológica, dos antigos sistemas de crenças, projetando no céu o folclore da era espacial, não há como contestar a tese de Jung, de que naves espaciais são o mito moderno, com a vantagem de que, ao invés dos mitos clássicos, distantes e encobertos pela névoa do tempo, temos a oportunidade de lidar com um dos poucos mitos vivos, dinâmico, atual, contemporâneo, em pleno curso de sua elaboração narrativa. É sintomático que no curso e predomínio da globalização que privilegia o homo economicus, o individualismo, a escolha racional e a razão instrumental, simultaneamente à expansão dos mercados e à intensificação dos fluxos das forças produtivas, multipliquem-se as aparições de UFOs e diversifiquem-se as modalidades de suas manifestações. Na Ufologia, nunca foram tão intensos os debates em torno da diversidade, identidade, vivência, resistência psicológica às abduções, ao mesmo tempo em que se desenvolvem teorias e práticas terapêuticas e sistemáticas sobre afetividade e subjetividade, buscas ou afirmações do“eu”, em contraponto ao “outro” [O alienígena]. Conforme vimos na minissérie Taken, de Steven Spielberg, é como se os objetivos dos extraterrestres se emaranhassem e se confundissem com os nossos. O que se apresenta inicialmente como algo discrepante, difícil, intrincado, opaco ou indefinível, com o tempo revela-se articulado, significativo, esclarecido, conceituado, explicado e inteligível. É como se cruzassem histórias que se configurassem e se reconfigurassem movendo-se em um roteiro de criadores e criaturas, de clichês e fabulações artísticas. Podemos ter muitas objeções em relação à escola junguiana, e eu mesmo tenho muitas, mas cabe reconhecer sua validade e sua importância, principalmente por ter rompido com a rígida ortodoxia da psicanálise freudiana e resgatado uma variedade inesgotável de repertórios individuais e culturais. Daí que o próprio Jung tenha escrito um livro inteiramente dedicado aos UFOs, o que seria inimaginável por parte alguém como Freud, que não se permitia se afastar de certos postulados monolíticos por nenhum procedimento imaginável.

2 thoughts on “UFOS, um mito moderno?

  • 21/07/2019 em 19:43
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    Olá Cláudio, aqui é Cinthya Covo, gostaria de lhe consultar sobre um artigo do meu pai, para publicação num livro que lançaremos. Muito obrigada e parabéns pelo belo site!

  • 24/07/2019 em 19:50
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    Prezada Cinthya, fico à sua disposição para o que eu puder colaborar com o livro, que sem dúvida será de muita importância para a ufologia e para todos os admiradores do Claudeir Covo, entre os quais me incluo. Claudeir, a quem acompanhava pela imprensa desde a infância, foi um dos que me levaram a pesquisar o Fenômeno OVNI. Sucesso e abs.

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