UFOS: AS EVIDÊNCIAS – PARTE 2

CAPÍTULO 02 – BRASIL

Brasil: Primeiro país do mundo a admitir oficialmente a existência dos UFOs

As mensagens de rádio transmitidas pelo comandante Nagib Ayud na noite de 06 de agosto de 1954, puseram em pé de alerta os aeroportos de Porto Alegre, São Paulo e do Rio de Janeiro. Ayud contou aos repóteres João Martins e Ed Keffel, da revista O Cruzeiro, que tinham saído de Porto Alegre às 17h00 com destino ao Rio de Janeiro, em vôo direto. A bordo do PP-VBF, um DC-3, cargueiro, eram três: Ayud, o capitão-piloto Ruthilio Pinheiro da Silva e o radiotelegrafista Rafael França Godinho. Pelo plano de vôo, iriam até Florianópolis a 2.100 m de altitude, de Florianópolis a Santos a 2.250 m e de Santos ao Rio a 2.100 m. A etapa de Florianópolis a Santos seria toda sobre o mar. E até aquela primeira cidade, a viagem decorreu normalmente, sob um tempo chuvoso. Daí para frente, o céu clareou.

Passaram Florianópolis às 19h01. E foi na altura da Ponta da Rampa que surgiu a primeira luminosidade, de cor avermelhada. Mas isso durou apenas uns dois segundos e desapareceu. Pouco antes do través de Paranaguá, 200 km além, aconteceu a mesma coisa. Dessa vez o co-piloto também notou, mas como a luminosidade logo desapareceu, ficaram tranquilos, embora alertas, pois não podiam imaginar o que era. Logo depois de Paranaguá, porém, a “coisa” tornou a surgir. Agora, mais baixa do que o avião, do lado do litoral, do qual distavam 90 km. Era como uma bola luminosa, de tamanho aparente maior do que a da lua. Parecia aproximar-se e afastar-se, crescia e diminuía, às vezes ficava com uma luz mais forte, bem avermelhada, às vezes tornava-se mais fraca, cor de âmbar. Quando se locomovia mais rapidamente parecia ficar um pouco azulada.

Depois de voarem 10 minutos com aquela “coisa” os seguindo, enviaram a primeira mensagem à Varig, relatando o que estava acontecendo. Conservaram a rota e a altitude e apagaram todas as luzes do avião. Ayud chegou mesmo a pôr a cabeça para fora da cabina, para ficar certo de que aquilo não era algum reflexo. O UFO os acompanhou até às 21h00, quase duas horas, portanto. A esse tempo estavam à altura de Santos. Pediram permissão para aterrar em São Paulo. Como era natural, queriam abreviar a viagem antes que algo de pior acontecesse. Embora durante todo o tempo o UFO se conservasse à distância, não era nada tranqüilizador um vôo assim, com aquilo a segui-los. Tomaram o rumo de Congonhas e transmitiram pelo rádio a última posição em que o avistaram.

A essa hora, vinha do Rio para São Paulo um outro avião de carga da Varig, um Curtiss-Comand, comandando por Edu Michel. O comandante Michel desviou-se um pouco de sua rota e foi ver se avistava o UFO. Avistou-o pouco antes de Mogi das Cruzes. Fez a observação e seguiu para São Paulo. Também dois oficiais da FAB que iam para São Paulo pilotando um caça, avistaram o mesmo fenômeno.

Em São Paulo, Ayud escreveu um relatório e foi interrogado durante três horas pelo pessoal da Aeronáutica. Todas as hipóteses possíveis foram passadas em revista. O mesmo aconteceu com o comandante Michel. Ayud era um rapaz de 28 anos, calmo, afável. Foi controlador de vôo na FAB. Em 1950 tornou-se piloto, e em 1951 entrou na Varig. Era comandante há oito meses. A sua história contou com o testemunho do co-piloto e do radiotelegrafista, e mais a comprovação feita pelo outro avião da mesma companhia, que vinha em sentido contrário, além da observação do avião militar.

1º Inquérito Oficial Brasileiro para estudar os UFOs

Decorridos dois meses do suicídio do presidente Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, o Brasil era novamente abalado, desta vez com um pronunciamento público, o primeiro da história mundial em que um governo reconhecia oficialmente a existência dos UFOs. O acontecimento foi divulgado em primeira mão por João Martins na edição de 27 de novembro de O Cruzeiro.

No mês de outubro, oficiais-aviadores, sargentos, praças e civis observaram a presença de estranhos corpos circulares, de cor prateada, sobre a Base Aérea de Gravataí. No dia 26, o Comando da Base Aérea de Porto Alegre, V Zona Aérea, liberou à imprensa um relatório detalhado a respeito, incluindo avistamentos em vários outros pontos do Rio Grande do Sul. A Base solicitava aos cidadãos em geral que, caso observassem algo similar, comunicassem ao Comando por escrito, detalhando o local, hora, tipo de observação – se a olho nu ou por meio de instrumentos –, características do objeto etc.

O coronel Hardman, comandante da Base, proibiu que seus subordinados prestassem declarações diretas. O brigadeiro Gervásio Duncan, chefe do EMA, concedeu em 16 de outubro uma entrevista coletiva à imprensa em seu gabinete no Ministério da Aeronáutica, limitando-se a ler os cinco dos 16 relatórios enviados pela V Zona Aérea [Leia a íntegra de alguns deles mais adiante].

O brigadeiro Duncan reconheceu que os testemunhos eram irrefutáveis e o repórter João Martins acusou a FAB de esconder outros 11 relatórios militares. Duncan alegou simplesmente que deixara de os ler porque repetiam os cinco primeiros. Havia ainda rumores de que a FAB obtivera pelo menos duas fotografias dos tais objetos. De qualquer modo, asseverou Martins, “As autoridades militares têm o direito e o dever de serem cautelosas acerca do que consideram importante ou vital para a defesa ou segurança do país. Os chamados ‘discos voadores’ até agora não mostraram representar perigo ou ameaça, mas ninguém pode dizer que já desvendou completamente o mistério que os cerca, nem que os tem sob controle. É, portanto, compreensível que as altas patentes julguem melhor e mais prudente conservar em segredo os detalhes que acharem convenientes”. Martins visitou a base onde foi recebido pelo coronel Hardman e atestou que ele e seus subalternos encaravam seriamente o problema.

A Europa, principalmente a França e a Itália, andava desde setembro às voltas com uma onda que incluía casos de aterrissagem e desembarque de seres que, embora esquivos e fugidios, tentavam estabelecer contatos com humanos. Refletindo-se no Brasil, atingiu especialmente o Rio Grande do Sul. O primeiro objeto foi visto às 21h40 da noite de 12 de outubro pelo comandante da guarnição do Corpo de Bombeiros de Pelotas, tenente Adil Quites, pela sua família e por soldados.

Recapitulando, na mesma noite o tenente-aviador José Alexandre Moreira Pena e os tenentes Saliba e Dipp, que realizavam vôos de treinamento, viram um objeto luminoso avermelhado. Sobre a Base Aérea de Porto Alegre, aliás, não surgiu apenas um, mas dois objetos. Através dos binóculos discerniram o seu formato, semelhante a um prato. Na parte superior havia uma cúpula arredondada encimada por uma esfera, e na inferior uma saliência curva com três esferas giratórias. Na noite do dia 24, na Praia de Torres, observadores reportaram o aparecimento de objetos luminosos em forma de “pratos”; no dia 25, um “disco” foi assinalado sobre Osório; no dia seguinte, os objetos surgiram como corpos circulares de cor acinzentada, e durante a noite como corpos luminosos [Ver síntese cronológica da onda de 1954].

Por ordem da Escola Superior de Guerra (ESG), o coronel aviador João Adil de Oliveira, chefe do Serviço de Informações do Estado-Maior da Aeronáutica (EMA), proferiu na manhã de 02 de novembro uma conferência no auditório da Escola Técnica do Exército (ETE), no Rio de Janeiro, abrindo o 1º Inquérito Oficial Brasileiro para estudar os UFOs. Na platéia, o alto escalão das Forças Armadas – inclusive o chefe do EMA, brigadeiro Duncan, e o tenente-brigadeiro Eduardo Gomes –, técnicos, cientistas e convidados credenciados, entre eles o ufólogo Fernando Cleto Nunes Pereira e o repórter João Martins. Foi nessa ocasião, aliás, que o coronel Adil de Oliveira apresentou Martins a Cleto, bem como patenteou a posição do governo brasileiro: “Sendo apaixonante como é, o problema dos discos voadores pode dar lugar a tudo o que se possa imaginar como atitude face a eles. Afirma-se, duvida-se, nega-se, havendo até aqueles que, comodamente, se recusam a tomar conhecimento.[…] É que o ‘jogo’ é realmente perigoso e o terreno escorregadio. Recomenda-se prudência, se quisermos dar um nome a ela, usando um eufemismo”.

Promovido mais tarde a brigadeiro, Adil de Oliveira ficou famoso ao presidir o Inquérito do Galeão, no Rio de Janeiro, o qual procurou apurar as responsabilidades de um dos mais sensacionais crimes políticos do Brasil – que culminou no fim do governo e no conseqüente suicídio de Vargas –, o atentado da rua Toneleros contra o jornalista Carlos Lacerda, em que perdeu a vida o major Rubens Florentino Vaz.

Os depoimentos dos militares da Base Aérea de Gravataí

Major-aviador João Magalhães Mota: “Ontem, 24 de outubro, fui chamado pelo tenente-aviador Ernani Ferrari de Almeida para observar um objeto estranho que pairava acima da base. Realmente vi a olho nu um objeto redondo, prateado, cercado de um halo fosco, pairando a cerca de 13 km de altura. Trinta minutos depois, na porta do prédio do Comando, avistei-o novamente. Em menos de 10 segundos, cobriu um arco de círculo de 60º no céu, andando e parando de modo repentino. Por volta das 16h00, certifiquei-me com o binóculo de que não se tratava de um corpo celeste conhecido. Os seguintes oficiais testemunharam o fenômeno junto comigo: 1o tenente Paranhos, 1o tenente Ernani Ferraz de Almeida, 1o tenente Brito, capitão-aviador Carlos Guimarães, sem contar vários sargentos – entre eles o 3o sargento Paulo Gonçalves –, praças e civis. O objeto foi observado ao mesmo tempo e de diversos pontos da Base por grupos que não se influenciaram psicologicamente. Conforme verificou o tenente Almeida junto ao pessoal da USAF, não havia nenhum balão de sondagem meteorológica na área. Não tenho dúvidas de que não existe nada parecido que esteja em fabricação no momento”.

Capitão Pedro Richard Neto: “Comunico-vos, para os devidos fins, que quando manobrava meu automóvel na noite de 26 de outubro, por volta das 20h40, nas proximidades do Rio Guaíba, em direção a Belém Velho, tive a atenção despertada para um ponto luminoso opaco, maior que uma estrela e menor que a lua cheia. Observei o fenômeno por cerca de 15 minutos, período em que certifiquei-me de que não se tratava de balão, avião, estrela, lua ou Vênus. O ponto luminoso diminuiu de tamanho até desaparecer, instante em que emitiu um clarão”.

Capitão Antonio Pyrrho de Andrade: “Para fins de futuras investigações, levo ao vosso conhecimento que às 13h20 de 26 de outubro, observei um corpo acinzentado de forma circular que se deslocava na vertical de oeste para leste à grande velocidade e altitude. No mesmo dia, por volta das 21h30, quando transitava pela estrada de Canoas, deparei com curiosos que observavam o céu. Parei o carro e fiquei a observar uma bola alaranjada se deslocando para oeste com grande velocidade”.

1o tenente-aviador Ernani Ferraz de Almeida: “Declaro que às 13h00 fui chamado por um sargento para observar um corpo estranho que mudava constantemente de forma e posição pairando sobre a Base. A olho nu, calculei sua altitude em no mínimo 30 km. Dirigi-me à torre, onde fiquei a observá-lo com um binóculo. Na estação meteorológica da USAF, encontrei um sargento que também vira o objeto. Às 15h00, no prédio do Comando, vi o objeto se deslocando no sentido oeste-leste. Percorreu o céu num ângulo de 60º em menos de 10 segundos. Às 16h00, voltei a observá-lo de outro ponto. Notei então que havia mais um, que se deslocava a uma velocidade vertiginosa, enquanto o segundo permanecia parado. Às 16h30 ainda eram visíveis. Vários oficiais-aviadores, sargentos e civis assistiram ao ‘show’ ”.

2o tenente-aviador José Alexandre Moreira Pena: “Levo ao vosso conhecimento a ocorrência por mim presenciada e que passo a expor. Na noite de 12 de outubro, decolei no T6 1473 desta unidade por volta das 20h30 a fim de realizar treinamento noturno. Dirigi-me para a Zona no 2, que corresponde a uma área sobre as cidades de São Leopoldo, Novo Hamburgo e adjacências. A noite estava limpa e a lua cheia clareava o solo. Quando observava o firmamento, notei que um corpo luminoso fosco, de cor avermelhada. Passei a fixá-lo atentamente, já convencido de que não se tratava de um astro ou reflexo luminoso. Não me foi possível aproximar em virtude da grande altitude em que se encontrava. Os tenentes Saliba e Dipp também viram o objeto”.

Síntese cronológica da onda de 1954

24-10: Dois UFOs evolucionaram durante horas sobre a Base Aérea de Gravataí, motivando o primeiro comunicado oficial público da história

30-10: Flávio Rebelo, junto de sua esposa e filhos, foram seguidos por quatro UFOs enquanto viajavam pela estrada de Tapes (RS)

02-11: Murílio Braga Godói, de São Paulo, garantiu à FAB que foi levado para bordo de um disco voador, onde estranhos seres o colocaram diante de um mapa da América da Sul

04-11: O caboclo José Alves, da cidade de Pontal, próxima a Catanduva (SP), viu seres recolhendo capim, folhas e água, após o que entraram num disco que partiu velozmente na vertical

07-11: Levy Pinto Madureira tirou duas fotos de um UFO que pairava sobre o bairro do Leblon (RJ)

11-11: UFOs foram vistos em Bento Gonçalves (RS), por um aviador que sobrevoava a Paraíba, e por militares em Fortaleza. O fato foi anotado pelo comandante Waldemyr Costa no diário de bordo do avião PP-ITH

12-11: UFOs tornaram a sobrevoar Porto Alegre. Em Itapetininga (SP), o professor José Ozi viu um disco pousado, de dentro do qual saíram seres que o teriam hipnotizado

13-11: José Rodrigues, chefe de uma estação ferroviária do Paraná, viu um UFO pousar nos trilhos e desembarcar três tripulantes vestidos com roupas colantes e de cores berrantes que examinaram o leito da ferrovia. No trajeto de Uraí a Londrina (PR), a professora Margarida Bastos avistou UFOs. O piloto civil Severino Cordeiro sobrevoava Pernambuco num avião Bonanza PP-DNG, quando teve de manobrar rapidamente para evitar o choque com um UFO

14-11: Jornais cariocas publicaram depoimentos de testemunhas – dentre as quais o compositor Pedro Melo – que viram um UFO nesse dia

15-11: Telmo Braga contou aos oficiais da Escola Técnica do Exército (ETE) que um UFO pairou sobre uma velha fortaleza em Cabo Frio (RJ)

16-11: Francisco Bretas Bhering assinalou um UFO sobre Belo Horizonte

19-11: Um UFO foi visto sobre São José dos Campos (SP). Giovani Ercoli comandava um avião da VASP, PP-SQD, quando sua tripulação e os passageiros avistaram um UFO sobre o Aeroporto de Congonhas

22-11: Os comandantes Paulo Luiz Ferreira e Armando Bráulio observaram de seu avião uma esquadrilha de 15 UFOs cruzando o Vale do Paraíba (SP). O radiotelegrafista Arquimedes Fernandes viu vários deles se movimentando sobre a Base Aérea de Santa Maria (RS)

24-11: Um gaúcho enfrentou um UFO que pousou num campo em Vacaria (RS). Ao tenta usar o seu revólver, foi repelido por uma força desconhecida que paralisou o seu braço

26-11: Adolfo Neuman viu três UFOs em Curitiba (PR)

02-12: Padre Paulo Lima e outros viram um UFO em Manaus. Henrique Vieira presenciou em Goiás o desembarque de seres que recolheram terra. A FAB examinou amostras de solo do local constatando que eram apropriadas para o fabrico de louça [Material isolante]

06-12: Quinze UFOs pairaram sobre Recife (PE) durante cinco minutos. Três deles pairaram sobre o Parque da Aeronáutica do Campo de Marte (SP) por mais de uma hora. Aviões militares foram colocados no seu encalço

09-12: No município de Bela Vista (RS), Olmiro Costa viu seres de cabelos compridos e que respiravam nosso ar carregarem pés de milho e de feijão para o interior de um disco. Costa ofereceu-lhes uma ovelha, prontamente recusada

12-12: Ainda no Rio Grande do Sul, Pedro Moraes se aproximou de seres que arrancaram e levaram um pé de fumo

15-12: Os comerciantes de Curitiba (PR) fecharam as portas para assistir a um show aéreo de UFOs

18-12: A onda fez soar o “alarme” no Palácio do Catete e colocou o presidente Café Filho em prontidão. O general Juarez Távora encaminhou um relatório ao comandante da guarda

24-12: Repórteres do jornal O Globo fotografaram objetos que sobrevoaram o Rio de Janeiro por mais de duas horas

25-12: Um UFO se aproximou perigosamente da cabeceira da pista do Aeroporto de Congonhas

30-12: Às 18h00, um objeto foi visto sair de dentro de uma nuvem solitária que pairava sobre o Aeroporto Santos Dumont (RJ)

O estanho de Campinas

Em 14 de dezembro de 1954, a população da cidade de Campinas (SP), a 100 km de São Paulo, parou para assistir às manobras erráticas de três objetos em forma de disco. Um deles, amparado pelos outros dois, oscilava bruscamente e emitia sons mecânicos distorcidos. Antes de desaparecerem no meio das nuvens, o que apresentava defeitos descarregou de sua parte inferior, aos trancos, um líquido prateado. Telhados, ruas, calçadas e até mesmo as roupas que secavam nos varais ficaram salpicados com o material que ia se solidificando conforme esfriava.

O químico Risvaldo Maffei, que fez os primeiros exames, revelou que se tratava em grande parte de estanho [90%], misturado a outros metais, sendo portanto “o mais puro estanho jamais achado na Terra”. De acordo com Maffei, àquela época, em nenhum lugar do nosso planeta, uma concentração tão alta como aquela, com pureza tão perfeita, poderia ser obtida. Acrescentou Maffei que a densidade da amostra era de 10.3, ao passo que a densidade do estanho conhecido é de 7.3

O magnésio de Ubatuba

No dia 14 de setembro de 1957, o célebre colunista social Ibrahim Sued informava em sua seção diária no jornal O Globo, que havia recebido diversos fragmentos metálicos recolhidos por um pescador logo após a explosão de um disco voador nas proximidades da Praia das Toninhas, em Ubatuba, litoral norte de São Paulo.

As testemunhas foram unânimes em informar que por volta do meio-dia, um UFO em forma de disco mergulhou com uma velocidade fantástica no mar, voltando repentinamente a ganhar altitude até atingir apenas algumas centenas de metros. Parou, então, como se tivesse algum desarranjo mecânico, explodindo em seguida. Uma verdadeira chuva de estilhaços brilhantes, parecendo fogos de artifício, caiu no mar, naquele instante. Alguns fragmentos, entretanto, caíram perto da praia e puderam ser recolhidos pelas pessoas presentes, sem maiores dificuldades.

Esses fragmentos foram então enviados a Sued, que por sua vez os encaminhou ao médico e ufólogo Olavo Fontes, da Comissão Brasileira de Pesquisa Confidencial dos Objetos Aéreos Não Identificados (CBPCOANI), e representante, em nosso país, APRO, então a maior e mais credenciada associação civil de pesquisas de discos voadores do mundo, sediada no Novo México. Fontes entregou os fragmentos, de tamanhos aproximados de uma moeda, ásperos em sua superfície e tão leves quanto papel, ao Laboratório de Produção Mineral, ligado ao Ministério da Agricultura.

Ali, as amostras foram para a Seção de Espectrografia, sendo analisadas pela química Luisa Maria A. Barbosa, que as identificou como magnésio puro, conforme o laudo por ela emitido em 24 de setembro de 1957: “A amostra recebida constava de dois fragmentos de aspecto metálico, cor cinza, baixa densidade e pesando, cada um, aproximadamente 0,6 gramas. A análise espectrográfica revelou a presença de magnésio em alta concentração e ausência de qualquer outro elemento metálico”.

O passo seguinte consistiu em confirmar se as amostras de Ubatuba realmente não continham impurezas. E assim foram elas para o Laboratório de Cristalografia, dirigido pelo professor Elizário Távora Filho, a maior autoridade brasileira em cristalografia da época, que realizou uma análise por difração de raio X. O resultado surpreendeu novamente: aquelas amostras eram mais puras do que o próprio padrão internacional.

Não satisfeito ainda, Fontes submeteu o material à nova análise espectrográfica. O químico Élson Teixeira emitiu então as seguintes conclusões: “A análise espectrográfica identificou o material desconhecido como sendo magnésio e mostrou ser o mesmo absolutamente puro. Nenhuma impureza foi encontrada, nem mesmo os chamados elementos ‘traços’, usualmente encontrados em qualquer metal, estavam presentes no material estudado. Ademais, a densidade da amostra era de 1.86, enquanto a densidade do magnésio conhecido é de 1.74, conforme constatou também o doutor Augusto Batista”.

Nessa altura, já convencido da importância do caso, Fontes enviou um dos fragmentos à APRO, juntamente com o seu relatório. Outros dois fragmentos foram entregues por ele ao major do Exército Roberto Caminha e ao comandante da Marinha José Geraldo Brandão, a fim de que fossem analisados por técnicos militares. Os resultados, porém, como se tornou usual, jamais foram comunicados ao público.

Um último fragmento continuou em poder de Fontes. Os exames da APRO confirmaram os que foram feitos no Brasil, levando Fontes a anunciar com toda a segurança que finalmente haviam obtido a prova física não só da existência dos discos voadores como também de sua origem extraterrena. Para ele, a hipótese de meteoro estava totalmente descartada, uma vez que um meteoro não faria tal mudança em sua trajetória, como também porque o magnésio metálico nunca havia sido até então encontrado em meteoros. Além do que, o magnésio de Ubatuba era o mais puro do que o padrão internacional e estava acima da capacidade da metalurgia daquele momento. Portanto, se esse material não podia ser natural, só poderia ter sido fabricado. E se essa fabricação estava além das nossas possibilidades científicas, é porque o magnésio provinha de algum de fora de nosso planeta.

Cabe acrescentar que após os testes levados a cabo pelo casal Jim e Coral Lorenzen, fundadores da APRO, o fragmento foi submetido a uma análise por ativação neutrônica, técnica que consiste em colocar o objeto numa pilha atômica, onde ele é submetido a uma saturação de nêutrons, o que o torna radioativo. Em seguida, foi examinado no espectrógrafo de massa, que é bastante sensível para detectar quantidades ínfimas de matéria – por exemplo, uma percentagem de uma parte em 1 milhão. O doutor James A. Harder, do Departamento de Engenharia Civil da Universidade da Califórnia, concluiu que o magnésio de Ubatuba “é puro em 99,9%”.

Sentinelas queimadas por UFO no Forte Itaipu

Às 02h00 da madrugada de 04 de novembro de 1957, duas sentinelas que montavam guarda no alto dos muros do Forte Itaipu, na Praia Grande, município do litoral sul paulista, a 78 km de São Paulo, notaram um objeto brilhante que, de início, pensaram ser uma estrela com brilho aumentado. O UFO baixou diretamente sobre o Forte e estacionou a cerca de 50 m acima das cabeças das sentinelas. Banhadas por uma luz alaranjada, ambas ficaram paralisadas de medo. Armadas com uma submetralhadora, não ousaram atirar ou fazer soar o alarme. O objeto, que tinha uns 30 m de diâmetro, emitia um forte zumbido, parecido com o de um gerador.

Sem qualquer aviso ou sinal, uma intensa onda de calor as atingiu. Uma delas caiu de joelhos e desmaiou, tendo sido constatado mais tarde que havia sido vítima de uma síncope cardíaca, enquanto a outra, gritando de dor, procurou abrigo lançando-se embaixo de um canhão. Os gritos despertaram as tropas da guarnição, mas antes que saíssem, todas as luzes se apagaram. Um calor moderado penetrou o interior do Forte, que, somado à escuridão total, semeou o pânico. O calor dissipou-se rapidamente e as luzes logo reacenderam. Os soldados, assumindo postos de combate, ainda viram uma luz brilhante se afastando no céu.

As sentinelas receberam tratamento médico no interior do Forte. Nas áreas descobertas do corpo, sofreram queimaduras de 1º grau e nas partes cobertas, de 2º grau. Curiosamente, a mesma intensidade atestada em João Prestes Filho – morto por uma luz misteriosa em 05 de março de 1946, em Araçariguama, interior de São Paulo [Ver UFO 60, outubro de 1998] – pelo médico Luiz Caligiuri. Não se detectou a presença de radioatividade nas sentinelas. O intrigante é que as fardas permaneceram intactas, tal como as roupas de Prestes.

O comandante do Forte enviou uma mensagem urgente ao Quartel-General do Exército e os pilotos da FAB decolaram em patrulhas especiais. As sentinelas, mesmo em estado grave, foram interrogadas pelos militares que pretendiam avaliar os motivos de terem sido atacadas. Os chefes militares brasileiros ficaram tão perturbados que solicitaram o auxílio do governo dos Estados Unidos para uma investigação confidencial, conforme foi confirmado e apresentado em detalhes em um comunicado da Academia da FAB.

As altas patentes, por meio da embaixada norte-americana, contataram a USAF, afinal, o caso ocorria num contexto de grande excitação mundial. Há um mês os russos haviam lançado o Sputnik I, primeiro satélite a circular a órbita da Terra. Como indicação do interesse dos alienígenas pelos nossos primeiros passos no espaço, as aparições de UFOs aumentaram. Na zona de provas de White Sands, a Polícia do Exército seguiu um disco voador que decolou antes que chegassem perto. Outros policiais viram um segundo objeto pairando a 50 m do solo. Um comunicado oficial do Exército descreveu-o como um aparelho dirigido, com mais de 60 m de comprimento. A censura foi parcialmente quebrada em meio a tanta agitação. Relatos de pilotos militares e comerciais, operadores de torres de radar, engenheiros aeronáuticos e outros profissionais gabaritados do Canadá, da Austrália, e de países da América do Sul, África do Sul e Europa, vieram a lume.

Disco voador na Ilha da Trindade: O Caso Baraúna

Uma das missões da Marinha Brasileira durante o Ano Geofísico Internacional, em 1958, era a instalação de uma estação meteorológica na Ilha da Trindade, situada a 1.110 km a leste da costa do Estado do Espírito Santo, na latitude de 20º 30’ S e longitude de 20º 20’ W. A ilha já tinha sido militarmente ocupada durante as guerras mundiais e por ocasião dos estudos realizados por João Alberto, em 1950.

A estação estava incumbida de realizar radiossondagens diárias e auxiliar as pesquisas de cientistas do mundo inteiro. Dentre o material flutuante, posto à disposição da Diretoria de Hidrografia e Navegação, encontrava-se o navio-escola Almirante Saldanha, comandado pelo capitão-de-mar-e-guerra José de Saldanha da Gama. De 26 de agosto a 14 de setembro de 1957, o navio participou de sua primeira missão, levando a bordo uma turma de mergulhadores, fotógrafos e jornalistas, além do cientista Rodolf Barth, que escreveu um artigo intitulado “Observações biológicas e meteorológicas na Ilha da Trindade”.

Foi nas proximidades da Ilha que o fotógrafo Almiro Baraúna flagrou um disco voador sobrevoando o Almirante Saldanha, quando este se achava fundeado em prosseguimento aos trabalhos do Ano Geofísico Internacional. As fotos ganharam destaque nos jornais de 21 de fevereiro e na edição de 08 de março de O Cruzeiro, que no ano anterior publicara uma série de artigos sobre os discos voadores da autoria de João Martins, o qual procurou Baraúna com o intuito de obtê-las. O fotógrafo, no entanto, alegou ter firmado compromisso de não ceder as chapas antes do aval dos técnicos da Armada. O próprio presidente da República na época, Juscelino Kubitschek de Oliveira, determinara pessoalmente que fossem oficialmente examinadas.

O Almirante Saldanha se preparava para regressar ao Rio de Janeiro em 16 de janeiro 1958, quando, às 12h15, Baraúna escutou um grande vozerio vindo do convés, cheio de oficiais, marinheiros, civis, geólogos e repórteres do Jornal do Brasil. O mar andava agitado, o céu encoberto e a atmosfera clara. Inicialmente, um ponto brilhante surgiu no mar, contornou o Morro Crista de Galo e sumiu atrás do Pico Desejado. Na pressa, Baraúna bateu três fotos com superexposição, pois a lente estava graduada para a velocidade 125 e diafragma 8.

O disco ressurgiu em sentido inverso e se aproximou mais do navio. Devido à confusão reinante, Baraúna perdeu as quarta e quinta exposições. Lançando-se em direção ao mar, o disco fez uma parada súbita no ar, oferecendo a chance de uma sexta e última foto. Em menos de 10 segundos, afastou-se e desapareceu em definitivo. Respondendo às indagações de Martins, Baraúna disse que o disco, de cerca de 40 m de diâmetro, era cinza-escuro e apresentava, na frente, uma nuvem de vapor esverdeada ou fosforescente. A velocidade girava em torno dos 900 km/h. O radar de bordo acusou a presença do alvo na tela. O oficial do navio, o capitão-de-corveta Bacelar, acompanhou o processo de revelação do filme.

Para Baraúna, o disco era telecomandado e tinha por missão espionar as atividades do navio. Um dos membros do Clube de Pesca Submarina o apoiou nessa opinião, sugerindo que o objeto fora enviado por alguma potência estrangeira. Esta suposição de Baraúna pareceu ao almirante Arthur Oscar Saldanha da Gama, autor do referencial livro Brasileiros no Sinistro Triângulo das Bermudas [Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército, 1984], repleto de detalhes importantes sobre o caso em questão, um tanto desprovida de senso. Perguntou ele que curiosidade teria essa gente em espionar as atividades de pesquisas executadas por inofensivo veleiro, em trabalhos abertos a todas as nações.

A Marinha, acusada de reter as fotos de Baraúna, negou que houvesse tomado conhecimento oficial, uma vez que a matéria não se enquadrava nas atribuições daquele Ministério. De fato, o Livro de Quartos do navio não registrou o fenômeno. Não se tratou, por certo, de negligência do oficial no posto, porquanto, alguns meses mais tarde, em 31 de maio, este fizera o seguinte registro, assinado pelo oficial-de-quarto, tenente Pedro Steenhagen Pinto: “No alvorecer, o encarregado de navegação, capitão-de-corveta Márcio Lyra e o suboficial Geraldo Augusto Mendes, avistaram, na posição latitude 21º 38’ S e longitude 34º 27’ W, um objeto aéreo não identificado que se deslocava a grande altitude, no rumo aparente de nordeste, projetando no céu entre as estrelas Altair e Deneb. O objeto apresentava brilho e tamanho semelhantes as de uma estrela de primeira grandeza, embora parecesse pulsar”.

O repórter Júlio Bartolo, de O Cruzeiro, retomou o caso em dezembro de 1973, notando que Baraúna, então com 57 anos, não sofria do “complexo do disco”, muito pelo contrário, pois até colecionava recortes que falavam de seu feito. Ele mesmo admitia que “o disco me causou aborrecimentos mas também me projetou muito. Pensando nos prós e contras, acho que foi mais positivo do que negativo”. Morava onde sempre gostou de morar, na Praia de Icaraí, em Niterói. O assunto que o fizera famoso ainda o interessava, por isso atuava como diretor da Sociedade Brasileira de Estudos de Discos Voadores (SBEDV), fundada e presidida pelo médico e ufólogo pioneiro Walter Karl Bühler, e mantinha correspondência com grupos e pesquisadores do fenômeno.

Regredindo no tempo, voltou àquele dia de janeiro de 1958: “Estava na ilha a convite da Marinha, como integrante da equipe de pesca submarina do Clube de Icaraí. Passamos os dias 15 e 16 na ilha. No último, lá pelas 10h00, embarcamos no Almirante Saldanha, que na época era veleiro, e fiquei assistindo do convés ao transbordo do equipamento e da tripulação. Estava muito enjoado, pois esquecera de tomar a pílula preventiva, e o jeito era sofrer. Deitei para descansar com a Rolleiflex ao lado, meu hábito antigo de sempre andar com máquina fotográfica. Daí a pouco, outro fotógrafo que acompanhava a expedição me chamou para ver o embarque da tripulação. O mar andava agitado e a cena renderia um bom flagrante. Ajustei a câmera em 125 de velocidade e 8 de diafragma. É bom guardar esse detalhe da velocidade e do diafragma para compreender o que aconteceu na hora em que bati as chapas do disco. Mas o enjôo me obrigou a dar dois passos para trás. Nesse momento, ouvi uma gritaria procedente do convés. Olhei na direção em que apontavam e divisei, claramente, uma luz distante, meio esverdeada, que piscava sem parar. Instintivamente, sem tempo de regular a máquina, comecei a fotografar, enquanto era empurrado pelos demais, que se atropelavam na ânsia de conseguir os melhores postos de observação”.

A “sorte” de ter contado com 48 testemunhas, entre tripulantes, oficiais da Marinha e cientistas da expedição, foi um dos fatores que livraram Baraúna do “complexo de disco”. A revelação do filme, feita em condições precaríssimas num dos banheiros do veleiro, também foi acompanhada por oficiais. Em conseqüência, a Marinha proibiu a divulgação das fotos até que maiores investigações fossem realizadas. Algumas cópias vazaram e explodiram em manchetes gritantes de jornais em 21 de fevereiro. Trechos do relatório do Departamento de Inteligência do Comando de Operações Navais isentam Baraúna de fraude: “O alarma do UFO foi dado por membros da tripulação na proa do navio […] todos reconheceram que o objeto que aparecia nas fotos era idêntico ao que haviam visto no ar […] Um técnico do Departamento de Hidrografia da Armada afirmou que os negativos são autênticos”.

UFO em Porto Velho mobiliza políticos e militares

O aparecimento de um UFO no Norte do Brasil, em pleno dia, mobilizou autoridades políticas e militares maio de 1959. “Durante 50 minutos aproximadamente, um objeto não identificado, como qualquer dos muitos tipos de aparelhos de vôo usados e conhecidos em todo o mundo, sobrevoou a cidade de Porto Velho”, declarou ao repórter Hugo Penteado Teixeira, do jornal Folha do Norte, o coronel-engenheiro Paulo Nunes Leal, governador do território federal de Rondônia.

O depoimento foi prestado no aeroporto daquela cidade, na presença do coronel aviador Carlos Faria Leão e do capitão-aviador Tarcísio Faria, pilotos do C-47-2013 do Correio Aéreo Nacional. Grande parte da população portovelhense logrou observar o objeto demoradamente, que tinha a forma de um charuto e desprendia da cauda um risco de fumaça, o qual o coronel Paulo Nunes Leal achou parecido com as faixas de propaganda que eram presas nos leme dos aviões em vôos publicitários. No “focinho da carlinga”, descreveu, “brilhava qualquer coisa, com uma cor metálica”.

O pormenor igualmente fora notado por um sargento da FAB, encarregado do Serviço de Proteção ao Vôo em Porto Velho. O governador, que era engenheiro militar, afirmou que o objeto não podia ser um avião e muito menos um aerolito, devido a seu comportamento no espaço. Pairando a uns três quilômetros de altitude, ora parava no espaço, ora descia para em seguida subir, voando em círculos e em velocidades altíssimas, impossíveis para as aeronaves da FAB. O “disco voador”, na opinião unânime da população, observava a região amazônica, coberta de extensas matas virgens e cortada por imensos caudais.

SIOANI

A repercussão pública alcançada por uma profusão assustadora de casos de UFOs obrigou o governo militar, instalado em 31 de março de 1964, a tomar providências. Por questões de segurança nacional, designaram-se comissões e organismos de investigações. Todas as evidências deviam ser imediatamente levadas ao conhecimento do governo. Nos anos seguintes, as Forças Armadas em geral também se comprometeriam, mantendo as atividades no mais absoluto sigilo, tanto que, até 1969, pouco sabemos acerca do que foi feito.

Em plena ditadura do Governo Costa e Silva e vigência do AI-5, um grupo de altas patentes da Força Aérea Brasileira (FAB) resolveu criar, dentro das instalações do IV Comando Aéreo Regional (COMAR), no bairro do Cambuci, em São Paulo, o Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (SIOANI), primeiro órgão oficial latino-americano – a Argentina só faria o mesmo alguns anos depois – dedicado exclusivamente à investigação do Fenômeno UFO. A exemplo dos demais órgãos surgidos durante a repressão, suas atividades foram secretas, mas bastante indiscretas. Apoiado pela cúpula da Aeronáutica, o SIOANI organizou uma rede de informantes recrutados de diversas bases aéreas, de Núcleos de Proteção ao Vôo (NPVs) dos principais aeroportos brasileiros e, até mesmo, de aeroclubes e associações civis dedicadas à Ufologia.

O documento que formalizou o SIOANI foi uma carta datada de 15 de abril de 1969, escrita pelo major-brigadeiro José Vaz da Silva, comandante do IV COMAR. O Boletim Confidencial no 1, de março de 1969, esboça normas diretivas e confere atribuições aos comandos em toda estrutura da FAB. Correspondências e expedientes diversos passaram a ser intercambiados entre o SIOANI e os postos em funcionamento.

Os resultados não demoraram a ser colhidos. Em agosto, decorridos apenas cinco meses de operações, o SIOANI lançava seu segundo boletim, desta vez recheado com muito mais páginas e descrições minuciosas de dezenas de contatos imediatos, a maioria dos quais no interior de São Paulo. Por certo, nenhum grupo privado de Ufologia no Brasil chegou a realizar algo tão completo e profundo em tão pouco tempo. Dados como temperatura e umidade do ambiente, religiões praticadas, tendências políticas, se as testemunhas possuíam aparelhos de rádio ou de televisão, constavam entre as perguntas de um questionário de 19 páginas.
A cortina de segredo em torno do SIOANI só foi rasgada quando, em maio de 1987, o ufólogo Ademar José Gevaerd, presidente do Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores (CBPDV) – a maior do mundo no gênero e que há mais de 20 anos edita a revista UFO –, decidiu publicar parte dos documentos oficiais e detalhes completos sobre a atuação, estrutura e o funcionamento da entidade na edição nº 2 da Coleção Temas Avançados, vinculada à extinta Revista PSI-UFO, antecessora imediata da UFO. O material viria a ser publicado na íntegra no volume 2, de março de 1991, da Coleção Biblioteca UFO, e na UFO Documento, volume 1, de agosto de 2005.

O pedido de autorização para tanto já havia sido solicitada em 1984 junto ao IV COMAR, cujo chefe, além de não deferir o pedido, “sugeriu” que se evitasse a divulgação massiva “de forma a evitar embaraços desnecessários”. Gevaerd não se curvou à intimidação porque achava que a população devesse saber que nossas Forças Armadas se preocupam com a questão: “Evidentemente, tentamos nos certificar de que isso não resultaria em represálias que pudessem destruir nosso trabalho. Assim, em 1984, três anos antes da publicação dos documentos, consultamos a base aérea mais próxima de Campo Grande mesmo […], que passou o ofício ao IV COMAR, em Cambuci, onde era sediado o SIOANI, e, em 28 de novembro de 1984, recebemos a resposta do próprio COMAR paulista, assinada pelo chefe interino do Estado-Maior daquela corporação. A carta, de duas páginas, explicava alguns detalhes da ‘desestruturação do órgão por falta de maiores interesses dos oficiais’ e ‘sugeria’ que não divulgássemos sua existência e o conteúdo dos documentos que possuíamos. Como o próprio coronel aviador João Bertoldo Glaser, que assinou a carta, disse, ‘de forma a evitar embaraços desnecessários’. Mas, apesar da leve ameaça, o CBPDV publicou a matéria em Temas Avançados, em sua edição nº 2, de 24.000 exemplares, contendo dezenas de documentos sobre a formação e estrutura do SIOANI, vários telegramas sigilosos trocados entre bases aéreas que o auxiliavam, algumas cartas e relatórios de investigação e até a íntegra dos dois boletins editados pela entidade”.

O primeiro boletim do SIOANI, datilografado e com 22 páginas no total, dividia-se em seis tópicos: “1) O fenômeno dos ‘Objetos Aéreos Não Identificados’ (OANI) – síntese histórica; 2) A atenção do mundo científico – as controvérsias; 3) A ocorrência dos OANIs no Brasil e em São Paulo – suas peculiaridades; 4) A atenção da IV Zona Aérea para o fenômeno e a idéia de estudá-lo; 5) A criação e organização da SIOANI e a doutrina que preside o seu funcionamento; 6) Considerações gerais”.

No tópico 4, dizia-se que “É evidente que a onda de notícias sobre o aparecimento de OANIs no Estado de São Paulo tem aumentado gradativamente; esse fato chamou a atenção da FAB e em particular da IV Zona Aérea. Resolvemos, então, criar um Sistema de Investigação que oriente normativa e cientificamente a pesquisa do fenômeno, objetivando sua explicação; suas peculiaridades ditaram os princípios da organização e do funcionamento. Entendemos que o fator mais importante do problema seja o observador do fenômeno, aquele ou aqueles que dizem ter tomado contato com o OANI; essa importância é diretamente proporcional à intimidade da anunciada observação”.

Apontaram-se três fatores que possibilitariam uma melhor abordagem do problema: “a) instantaneidade da comunicação; b) pronta movimentação da nossa equipe; c) precisão de nossa avaliação”. O que os obrigava a “possuir uma rede de observadores, um sistema de comunicações, de transporte e uma organização técnico-científica capaz de examinar e avaliar o grau de confiabilidade do observador e do fenômeno”. Prossegue o major Vaz: “Ora, a FAB já possui respectivamente a rede, o sistema e a organização. Bastará, pois, superpor o sistema proposto ao já existente da FAB para que entre em funcionamento, desde que a idéia da IV Zona Aérea sobre o assunto seja divulgada aos diversos órgãos, bem como processos, normas e regulamentos transmitidos em tempo útil. Para o estudo do fenômeno em si, necessitamos de laboratórios, cientistas, aparelhagem adequada e equipamentos apropriados”.

Não se pretendia circunscrever o trabalho ao âmbito da FAB: “É nossa ideia, e isso já vem acontecendo com esplêndidos resultados, levar tal interesse às demais Forças Armadas e ao meio civil. Algumas organizações civis idôneas já estão em contato conosco, aguardando nossa orientação para se integrarem no Sistema. A juventude será mobilizada em torno desse assunto, que poderá dar origem a uma verdadeira cruzada. Universitários e colegiais, com quem estabelecemos contato, sentiram a responsabilidade com que estamos tratando o assunto e se entusiasmaram com a idéia de integração ao Sistema. É nosso pensamento recrutar os observadores e pesquisadores no meio estudantil, aproveitando preferencialmente organizações já existentes. Vale lembrar que já começamos a agir e ótimos estão sendo os resultados. […] Assim, ao criar e ativar o nosso Sistema, estaremos também mobilizando a nossa juventude para o interesse, o estudo e o trabalho de conquista desse mundo maravilhoso que só os homens poderão possuir, restando aos demais apenas tomar conhecimento por ‘ouvir dizer’. É essa nossa ideia, nossa doutrina, o nosso escopo, a nossa intenção, a nossa diretiva. É esse o objetivo de nosso trabalho. Haveremos de alcançá-lo”.

O boletim nº 2 trazia a relação dos Núcleos de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (NIOANIs) e encetava o relato dos casos que, desde outubro de 1968, vinham chamando a atenção dos militares. Vinte e três gráficos de controle e observação foram incluídos. O SIOANI atuou até 1972, ano em que ganhou novo nome, nova estrutura, diretoria e sede em Brasília, passando a funcionar como um departamento do Estado Maior da Aeronáutica (EMA). Procederemos a seguir uma breve revisão dos principais contatos imediatos pesquisados pelo SIOANI.

Caso Maria Cintra

Na madrugada de 25 de agosto de 1968, pouco antes do amanhecer, ocorria no Oeste Paulista, em Lins – cidade na época com cerca de 10 mil habitantes, conhecida pelas suas numerosas escolas secundárias e instituições especializadas, a 445 km da capital paulista –, um dos episódios mais espetaculares dos anais da Ufologia Brasileira, investigado pelo médico e ufólogo Max Berezovsky, presidente da APEX, pelo também médico e ufólogo Walter Karl Bühler, presidente da SBEDV, e pelo major Gilberto Zani, da FAB, que extra-oficialmente, acompanhava o caso a pedido do brigadeiro José Vaz da Silva.

Na noite anterior, o médico de plantão do Hospital Clemente Ferreira e diversos funcionários observaram admirados o deslocamento de uma estranha bola luminosa no céu. Esse sanatório de tuberculosos ficava a cinco quilômetros do centro Lins e servia a uma grande área, porquanto possuía 259 funcionários administrativos – dentre os quais 11 médicos e três dentistas – e possuía capacidade para abrigar 700 doentes – havia 660 na data do acontecimento. Uma vez que os pacientes vinham às vezes de longe, eram admitidos a qualquer hora. Quem chegasse às altas horas da noite ou de madrugada era atendido por Maria José Cintra [Vulgo Mariquinha], uma enfermeira mulata e religiosa de 40 anos de idade que há tempos trabalhava no hospital, onde também residia, sendo muito estimada por todos, apesar de humilde e mal saber assinar o nome.

Com uma convicção impressionante, ela contou que por volta das 05h00 rezava o terço sentada na cama, como fazia habitualmente ao despertar. Pretendia em seguida ir à casa próxima, da família do administrador do sanatório, para lá preparar o café, como de costume. Nesse momento pensou que “chegou gente”, porquanto escutou um som vindo pátio parecido com “frenagem de automóvel” – Maria Cintra usou a palavra “embriagem”. Levantou a persiana e abriu a janela, debruçando-se para fora, e dirigiu-se a uma mulher que distinguiu na luz da madrugada frente à porta de entrada: “A senhora espere um pouquinho, que eu já vou abrir-lhe a porta!”. Vestiu a sua “capa” – um guarda-pó branco –, desceu e viu a senhora através da porta de vidro. Abriu a porta e perguntou: “É internamento?”

A visitante respondeu numa linguagem incompreensível. A enfermeira voltou a perguntar se era internamento. A mulher enrolou a língua e Maria Cintra não entendeu nada. Isso, entretanto, não era de estranhar, visto que no Estado de São Paulo havia uma mescla de imigrantes de todos as partes do mundo, entre eles árabes, sírio-libaneses, tchecos, poloneses, húngaros, alemães, italianos, japoneses etc.

Em seguida, a visitante mostrou a Dona Mariquinha uma garrafa muito bonita, toda brilhante e trabalhada, de uns 20 cm de comprimento. A vasilha era de singular beleza, contendo ornamentos gravados, que prenderam os olhares admirados da enfermeira. Esta, entendendo que a mulher queria água, prontificou-se imediatamente a levá-la ao bebedouro automático, que fornecia água refrigerada e ficava no outro hall – de outra entrada, com porta fechada –, distante cerca de 25 a 30 m do primeiro portão, seguindo-se o corredor para a direita. Depois de ter enchido a garrafa da visitante, esta tirou não se sabe de onde uma canequinha e a estendeu a uns sete centímetros de altura, no bebedouro, tendo Maria Cintra apertado o pedal que aciona a corrente d’água. Enquanto a visitante bebia, comentou: “A água aqui é boa! É boa!”.

Após a ingestão do líquido, a estranha dirigiu um olhar interrogador para os dois carros do lado de fora, visíveis através da porta de vidro, à direita e à esquerda desta. Maria Cintra, apontando para um deles, lhe explicou que “Este é o carro do médico de plantão, e aquele” – apontando para o outro – “é do administrador”. As duas em seguida voltaram para a primeira porta e lá Maria Cintra entregou à visitante a garrafa cheia d’água. Esta segurou a garrafa com uma das mãos, e com a outra, bateu amigavelmente no ombro de Maria, repetidamente, acompanhando esse gesto com as seguintes palavras, em tom de voz muito gutural: “Embaúra, embaúra, embaúra”.

Maria Cintra já estava começando a fechar a porta, na expectativa de a visitante dirigir-se para a esquerda, até ganhar o portão de saída do sanatório, que é todo cercado por uma rede de aço. A visitante, porém, em vez de se dirigir diretamente para a saída, atravessou uns canteiros, logo em frente da porta, o que não fazia sentido, indo ao encontro de um aparelho semicircular, em forma de pera, que irradiava uma “luz embaçada” e flutuava a uns 60 ou 70 cm acima do gramado. Devia haver gente lá dentro, pensou Maria Cintra ao notar um movimento como se fosse uma torção de mão, quando a visitante chegou próxima a abertura do aparelho, sumindo dentro dele. Então a enfermeira notou mais uma vez a repetição do movimento rotativo. Logo em seguida o aparelho se elevou no ar na vertical emitindo “suaves estalinhos”, os mesmos que se ouviram à chegada da visitante. Maria Cintra fechou a porta e foi recuando assustada, caminhando para trás sem dar as costas para o local da aterrissagem, até encostar-se na parede ao lado da escada, 15 ou 20 m distante do portão, murmurando: “Oh! É o disco voador!”.

Percebeu então que estava bastante perturbada, já que sua roupa estava molhada de suor a ponto de poder torcê-la, inclusive o guarda-pó. Notou outrossim que tinha praticado uma micção involuntária na escadaria. Voltou para o seu quarto no primeiro andar, andando de um lado para outro e rezando, até perceber luzes na casa do administrador, ao que para lá se dirigiu a fim de fazer o café. Então iniciou o seu relato ao administrador e à sua esposa, com as palavras: “É bom eu contar o que me aconteceu!” Entretanto encontrou incredulidade e ouviu como resposta: “Você sonhou com isso!” A própria enfermeira estranhou o seu comportamento ao explodir em violenta reação emocional contida nas seguintes palavras: “Não, nem sonhei e nem estou louca… eu vou-me embora agora mesmo!”

Ante o inusitado do surto da enfermeira, que eles conheciam há longos anos, mudaram imediatamente de opinião, procurando acalmá-la e acompanhando-a até à porta de entrada do sanatório. Ali realmente foram constatadas, no chão encerado na véspera, as impressões dos sapatos de Maria Cintra, as quais eram acompanhadas por outras estranhas, de um sapato de bico muito fino que não apresentava calcanhar. Ao lado da porta, onde eram mais nítidas, essas impressões foram protegidas pelo administrador, por meio do tombamento de uma cadeira.

O estado emocional de Maria Cintra, sua feição com grandes olheiras roxas nas regiões infra-orbitárias, suas roupas ensopadas pelo suor e urina, a mancha de capim chamuscado no gramado do canteiro, uma distância de uns 20 a 25 m do portal de entrada, e as pegadas dos sapatos no hall do hospital, confirmavam o quadro de um acontecimento extraordinário, levando o administrador a chamar imediatamente uma autoridade militar. O major Gilberto Zani, da FAB, veio em questão de minutos. Zani encontrou as pegadas da mulher e recolheu amostras da grama alterada, que foram enviadas para análise ao Instituto Tecnológico em São José dos Campos. Depois de examinar tudo e ouvir o relato da enfermeira, o major despediu-se dela com as seguintes palavras: “Se a senhora precisar de alguma coisa, disponha!” Isso conferiu à protagonista um tremendo conforto psicológico.

Nos dias seguintes, Maria Cintra sentiu um pouco de coceira nas costas – em certas horas – e ficou num estado de nervosismo que foi arrefecendo mediante a aplicação de injeções, calmantes, massagens e seções de hipnose administradas por três médicos de Araçatuba. Outrossim, restaram-lhe uma certa tristeza e uma vontade de não querer conversar, embora isso também pudesse ser fruto da hostilidade de alguns repórteres. Maria Cintra foi a São Paulo a convite da TV Record, Canal 7, onde concedeu uma entrevista à apresentadora Hebe Camargo, gravada em vídeo-teipe.

Walter Bühler visitou a enfermeira exatamente quatro meses depois do ocorrido, numa ensolarada manhã de 25 de dezembro, em sua casa cercada por um jardim florido, situada na localidade de Guaiçara, que contava com uma pequena população de não mais do que mil pessoas. A casa distava do Hospital Clemente Ferreira uns 45 minutos a pé. Até aquela data, entretanto, Maria Cintra não ia mais sozinha, nem para Guiaçara nem de volta ao Sanatório. A visitante, que segundo ela era do sexo feminino, pois tinha busto, aparentava uns 30 anos de idade, apresentava feições claras, rosto fino, sendo praticamente da mesma estatura –pouco mais de 1,60 m – que ela. Trajava uma capa colante de cor “azul-clara-brilhante”, de tecido semelhante ao gobelino acetinado, amarrada na cabeça. O vestido tinha uma “gola alta”, mangas compridas e um cinto cor de chumbo.
No gramado do canteiro, Bühler conferiu a mancha de capim chamuscado, que quatro meses depois, por ocasião de sua visita, ainda não tinha voltado ao estado normal. Só posteriormente é que Bühler recebeu a confirmação, por carta de Maria Cintra datada de 31 de janeiro de 1969, que a depressão no solo, naquele lugar, fora causada pelo tal veículo e tinha um diâmetro de cerca de 1,5 m a 2 m, com profundidade de uns 15 a 20 cm. Aparentemente, na manhã do evento ainda havia calor no local, porquanto a carta se referia à “depressão como sendo devida ao calor”.

O enfermeiro Luiz Sanches, que gentilmente ajudou Bühler nas reconstituições, mencionou ainda o paciente Leôncio N. Viana, internado na Ala E-3 do Sanatório, que numa noite de insônia, posteriormente, viu do seu leito, durante uns 10 a 15 minutos, aos 10 minutos após a meia-noite, um veículo luminoso aterrissando a uns 80 m da cerca do sanatório e a um metro do solo.

Sanches informou ainda que na noite posterior ao caso de Maria Cintra, houve em Lins uma interrupção total do fornecimento de energia elétrica, o que obrigou a suspensão das aulas noturnas das escolas. Como a esposa desse enfermeiro estudava à noite, o casal resolveu aproveitar a ocasião para dar um passeio noturno até perto da Petrobrás e da fábrica Cibral, de produtos ópticos. Ali avistaram no solo um “fogo” que tinha a curiosa característica de formar um exato retângulo com cerca de 8 x 30 m. Levaram uma hora para chegar lá e, às 23h40, os bombeiros já tinham apagado o fogo.

Junto com um grupo de umas 15 pessoas que por lá ainda permaneciam, Sanches e sua esposa presenciaram, à meia-noite, uns focos de feixes de luz em forma de leque, que “saíam do chão”, a uns 100 m do grupo, e que acenderam e apagaram cinco vezes, de 30 em 30 segundos, à guisa de “flash” fotográfico. Posteriormente um colega seu contou-lhe que naquela ocasião estava em outro local de observação, distante, de onde também tinha observado o mesmo fenômeno. A uns 500 m distante do leque luminoso mencionado por Sanches, havia um jogo de luz idêntico, mas este segundo foco piscava “alternadamente sincronizado” com o primeiro, como se tratasse de uma resposta. Nessa mesma noite surgiu um fogo na beira de um brejo, o que pareceu esquisito ao casal. Foram para lá e o apagaram, tendo avisado a uns soldados de um quartel a respeito dessas observações.

Bem antes do Caso Maria Cintra, a água de Lins, de tão boa, ao que parece já atraía ufonautas. Em junho de 1996, uma mulher de nome Maria Zilda relatou à revista UFO que no início dos anos 60 foi visitar um tio que se encontrava internado no Sanatório dos Tuberculosos, quando, em certo momento, sentiu sede e, como havia notado que a enfermeira ia buscar água, pediu um pouco, ao que esta solicitou que a acompanhasse. Ao chegarem ao pátio, um ser diferente, vestido de preto da cabeça aos pés, apontava para a torneira, como que pedindo um pouco de água também. A enfermeira entrou em pânico e fugiu, e o estranho ser pegou a água, porém não a bebeu.

Maria Zilda o deixou ir. Só que, depois, resolveu segui-lo. Para sua surpresa, o ser entrou em um objeto que não era um disco, como se costuma ver em filmes ou jornais, mas algo parecido com um grande circo, só que bem alto, arredondado e metálico. O mais interessante foi que, assim que o ser entrou no objeto, o mesmo começou a girar e algumas luzes se acenderam. Não havia barulho e ela presenciou tudo a uma distância aproximada de 15 ou 20 m.

Passados três anos, Maria Zilda se encontrava com algumas crianças na Estação de Trem de Lins, quando viram o mesmo ser. Dessa vez, ele estava acompanhado de mais outro. Os dois tinham a altura de um homem normal e colhiam areia e pedra perto de um barranco. Havia uma espécie de luz em seus corpos – coisa que não notara da primeira vez – e um deles se parecia muito com o que ela avistara anteriormente. Maria Zilda teve até a impressão de que ele a reconhecera, pois parou de colher pedras e ficou olhando para ela.

Tomando a iniciativa, Maria Zilda deu dois passos à frente. Eles, tímidos, deram quatro para trás, segurando as pedras sem se virarem. O andar deles era diferente, “como se caminhassem por cima de nuvens”. Depois se foram quando o grupo estava a uma distância de três ou 4 m. Uma das crianças quis vê-los mais de perto, mas os demais a seguraram, temendo que algo de mal pudesse acontecer-lhe. Entraram no mesmo objeto que vira anteriormente, levando areia e pedra. Não dava para ver seu corpo e mãos, pois estavam cobertos com um manto negro. Ela e as crianças contaram o fato para todos, mas ninguém acreditou.

Caso Toríbio Pereira

Como de costume, naquela manhã de 02 de outubro de 1968, Toríbio Pereira, tratorista da Prefeitura de Lins, saiu de casa por volta das 06h00 para prosseguir com o trabalho de rebaixamento de um barranco na continuação da Avenida da Saudade, a cerca de 500 m do bairro São João, onde vivia com a família e os filhos numa modesta casa. Ali chegando silenciosamente às 06h20, subiu no trator, encostado num barranco alto, subiu na esteira direita, de tração, e se inclinou um pouco para frente, puxando a vareta do óleo do diferencial, para checar o nível, voltando a recolocá-la.

Foi então que viu um pequeno e estranho homem, de 1,50 m de altura, examinando o motor do trator. Ele estava de cócoras na plataforma de um “automóvel pequeno” semelhante a um “Karmann-Ghia” dourado, com cerca de cinco metros de comprimento por 3 de largura, entre o barranco e o trator, fora do ângulo de visão de quem viesse pela estrada. Dentro havia apenas quatro banquinhos sem encosto e um painel um tanto esquisito, parecido com teclado de piano. Sentado na mesma plataforma ao redor do aparelho, mais ao lado, encontravam-se dois outros indivíduos idênticos ao primeiro,“mais parecidos entre si do que as minhas próprias filhas gêmeas”, descreveu. Os rostos eram de traços infantis, e, na visão de Toríbio, “muito bonitos”. Vestiam “túnicas” azuis, radiantes e de mangas compridas que recobriam suas cabeças, braços e bustos. Uma outra túnica, “de um vermelho brilhante como jamais tinha visto”, cobria o tronco até a altura doa joelhos. Suas dobras caíam naturalmente, enquanto que as da túnica azul ondulavam e se movimentavam, embora não houvesse vento. Calçavam sandálias com tiras que se entrelaçavam até os joelhos.

O homenzinho que estava de pé sobre a plataforma apontou-lhe uma “arma” pequena, de cano grosso e cabo em ângulo reto que segurava em uma das mãos, disparando uma esfera ou raio luminoso que o atingiu em cheio na altura do peito, imobilizando-o. Esse raio tinha um movimento contínuo de ida e volta, ora aumentando até o máximo, ora diminuindo até o completo desaparecimento. Toríbio acha que o ser o atacou porque teria se assustado como o fato dele ter acabado de retirar a vareta do diferencial.

Apesar de completamente paralisado e sentindo fortes dores no peito, suas faculdades de percepção não foram afetadas, a ponto de poder observar tudo o que se passava conscientemente. Através da cobertura transparente do veículo, reparou bem num dos homenzinhos que estava sentado num dos quatro banquinhos sem encosto dentro da nave e defronte a uma “caixinha” ou “pianinho” no qual teclava com os dedos de ambas as mãos, sempre com os olhos fitos no motorista, durante todo o tempo, cerca de um minuto e meio.

Um dos que estavam na plataforma recolheu porções de terra do barranco com uma conchinha cor de alumínio e as depositou no interior do objeto. Seus movimentos eram serenos, sem nenhuma pressa, como filme em câmara lenta. Terminada essa operação, os dois que estavam sentados se levantaram e entraram no disco voador. O outro interrompeu a ação da arma e também se recolheu ao aparelho. Cada qual se sentou no seu respectivo banquinho, e então a plataforma foi “absorvida” e dobrou-se para cima até encostar-se no casco, deixando ver o bojo, na parte inferior. Uma cúpula transparente envolveu os homenzinhos. O objeto, que flutuava a uns cinco centímetros do chão, elevou-se silenciosamente no ar, tomando certa altura, parando e em seguida desaparecendo em alta velocidade.

Sentindo-se um pouco mais aliviado da terrível pressão no peito, quase insuportável, provocada pelo raio de luz, Toríbio desceu com dificuldade e saiu em busca de auxílio, mas não conseguia correr no estado de fraqueza em que se encontrava. Daí a pouco se encontrou com o colega Ismael, caminhoneiro que o levou até a Prefeitura, onde todos que o viram estranharam sua “palidez de defunto” e suas fundas olheiras. Traumatizado, sentia vontade de chorar.

Relatando o fato ao seu chefe, este, não o levando a sério, ordenou que retornasse ao trabalho. No caminho, Toríbio passou em sua casa, onde entrou “chorando”, segundo declarou sua esposa. Meia hora depois, o prefeito da cidade levou-lhe calmantes e leite, animando-o a reassumir o trabalho para “ajudar a esquecer a ocorrência”. Como o estado emocional de Toríbio se agravava, à tarde, às 14h00, por ordem do delegado de Polícia Alderigo Ghan Coqueiro e a pedido do major Gilberto Zani, do IV COMAR, Toríbio foi levado a uma fazenda, em local não revelado, onde permaneceu isolado do público e sob forte proteção policial, durante três dias. Tomava calmantes para os nervos e soníferos para poder conciliar o sono.

Ao longo dos 18 dias que se seguiram ao episódio, Toríbio emagreceu muito, perdendo 13 kg, o que ele atribuiu à falta de apetite. Onze semanas depois, quando entrevistado por Walter Bühler, da SBEDV, já havia recuperado 5 kg, mas ainda sentia “formigamento” na parte posterior do flanco esquerdo. Por último, declarou que, desde então, tinha “um certo receio de relâmpagos”, que o enervavam tremendamente.

Objetos estranhos continuavam aparecendo quase que diariamente em Lins. Em 03 de outubro, no dia seguinte ao contato imediato de Toríbio, um aparelho parecido com que este descrevera, ou seja, um “Karmann-Ghia”, foi visto pelo comerciante Milton Mioto, residente em Guapiranga, distrito de Lins. Mioto, ao sair à noite com sua esposa Nair Bisiak Mioto, foi surpreendido por uma semicircunferência luminosa. Pensando tratar-se de uma estrela que se deslocava, não deu muita importância ao fato. Logo após, porém, por volta das 20h30, verificou que não era estrela e sim um objeto diferente que perseguia o veículo na estrada que liga Guapiranga a Lins. Nervoso, Mioto procurou estacionar o carro quando encontrou dois de seus amigos, os quais também chegaram a ver o objeto luminoso.

Às 04h00 da madrugada de 04 de outubro, o mesmo objeto foi visto pelo repórter José Duarte, que, assustado, chamou o diretor da Rádio Alvorada e alguns fotógrafos que por ali se encontravam. Pretendiam dar o verdadeiro “furo”, o que infelizmente não ocorreu, pois o disco voador já havia desaparecido. O fato ocorreu nas imediações da Estrada do Sabino, em Lins, e foi imediatamente comunicado aos dois membros do CBPCOANI, o ufólogo Jorge Genari e o engenheiro Augusto Massaia Katsuda, ambos de Araçatuba, que se encontram em Lins para pesquisar o Caso Toríbio Pereira e acompanhar a onda ufológica.

Quase uma década depois, em 1977, o ufólogo Jaime Lauda visitou Toríbio em sua residência no município de Ferraz de Vasconcelos, limítrofe ao bairro de Guaianazes, extremo leste da cidade de São Paulo. Enfrentando dificuldades para sobreviver com os parcos rendimentos de um trabalho humilde, continuava vivendo em estado de pobreza. De estatura mediana, cabelos e olhos negros, de descendência indígena e com precária formação escolar, era uma pessoa simples e boa o suficiente para conquistar a simpatia dos que dele se aproximavam. Lauda contou com a assessoria dos ufólogos Guilherme Willi Wirz e Carlos Alberto Reis, sem os quais, admitiu, o seu delírio teria chegado “às raias da fascinação descabida”.

Toríbio contou a Lauda que anos depois, já morando em São Paulo, foi novamente procurado pelos seres. Na ocasião, trabalhava numa fábrica de papéis da zona leste. Certo dia, passava pelo Viaduto Alcântara Machado quando viu o tal “Karmann-Ghia” suspenso sob a marquise. Telepaticamente, os seres disseram que somente ele os estava vendo, e aproveitaram para revelar aspectos de sua natureza, espécie e cultura. Disseram que vinham de um outro mundo, porém de “um mundo dentro deste mundo, uma dimensão diferente”, talvez paralela. Eram andróginos, ou seja, homem e mulher ao mesmo tempo. Chegaram até a mostrar como se reproduzem: “Retiram um líquido da coxa com uma espécie de seringa, depositam-no numa incubadora e assim fazem nascer outro igual a eles”. Os seres pretendiam fazer experiências com Toríbio, mas desistiram porque sua saúde andava um tanto debilitada. Eles o aconselharam que deveria se cuidar melhor.

O único desejo de Toríbio era permanecer no anonimato e esquecer tudo o que se passara com ele e sua família, que havia sofrido o descrédito de muitos. Concluiu Lauda: “Estive com Toríbio outras vezes, após o nosso encontro inicial. Confirmei pormenores importantes conhecendo sua esposa e filhos, os quais, sem dúvida, deixaram patente a boa impressão que originalmente havia tido. A publicação do caso pelo Boletim da SBEDV, de Bühler, ajudou a criar uma conscientização mais séria e formal”.

Veiculada em novembro de 1979 no jornal Vale Paraibano, de São José dos Campos, esta notícia reportava uma ocorrência que em quase tudo lembrava a de Toríbio. Até a profissão do envolvido – tratorista – era a mesma. Benedito Custódio da Silva, o “Canhoto”, ao ensejo trabalhava na fazenda São Pedro, em Taubaté. Por volta de 01h30, como de costume, preparava o trator quando, de repente, uma esfera de luz piscante pousou a poucos metros dali. Ao lado, havia “um homem portando uma ‘lanterna’, vestindo um macacão brilhante e um negócio na cabeça”. Por gestos, indicou que deveria continuar a proceder normalmente, e sentou-se na traseira do trator, sobre a ração do gado. Benedito, com o estranho na “garupa”, percorreu um trajeto de dois quilômetros até onde estava o gado. “Subitamente, sem saber como, eu me vi de volta ao lugar inicial, sem o trator”.

Ali ele divisou um “ônibus de frente baixa e sem pneus” pousado no solo, tendo ao lado quatro criaturas iguais ao que lhe pedira carona. “Eram semelhantes a nós, mas não consegui entender nada do que diziam. Apontavam as lanternas para todos os lados como se estivessem à procura de algo”. Os quatro adentraram o objeto que desprendia fumaça por baixo e possuía várias luzes piscantes. Benedito observou parte do interior, cheio de luzes, painéis e visores. Ascendendo verticalmente, em poucos segundos confundiu-se com as estrelas. Ainda por três vezes naquela madrugada, Benedito logrou ver o mesmo objeto. Os colonos admitiram que há tempos objetos não identificados sobrevoavam a fazenda. Na época, um UFO pousou num campo de futebol próximo e deixou marcas no solo que demoraram vários dias para desaparecer.

Caso Tiago Machado

Na manhã de 06 de fevereiro de 1969, no modesto bairro de Pinheiros, em Pirassununga, a 206 km de São Paulo, aconteceria um dos casos mais desconcertantes da Ufologia. Às 19h30, Tiago Machado, um jovem de 19 anos que trabalhava como vendedor ambulante de uvas, despertou aos gritos da vizinha Maria dos Santos, assustada com um objeto reluzente que descia em direção ao Instituto Zootécnico da Indústria e Pecuária (IZIP), a apenas 600 m dali.

Tiago apanhou o binóculo e viu um objeto prateado. Saiu correndo convidando as pessoas para acompanharem-no até o local, mas o único que aceitou foi o alemão Francisco Hanser, porteiro do IZIP. Ambos seguiram pelas matas nos arredores, de vegetação espessa. A certa altura resolveram tomar caminhos opostos. Hanser optou pelo lado de baixo, passando entre as árvores. Um grupo de pessoas, posicionadas acima da área que exploravam, tentava orientá-los ao ponto em que pousara o objeto.

A uma distância de cerca de 10 m, Tiago defrontou-se com o aparelho. Parou espantado diante do disco, que parecia dois pratos emborcados de alumínio apoiados sobre um tripé. As bordas giravam, enquanto a parte central permanecia imóvel. Uma “tampa” se abriu sobre a cúpula e através dela saíram flutuando dois homenzinhos fortes, com cerca de 1,50 m, envergando roupas metálicas inteiriças e capacetes com viseiras transparentes. Por isso Tiago pôde ver seus rostos, semelhantes aos nossos, porém cheio de cicatrizes ou rugas. Os lábios eram finos, o nariz grande e achatado e a pele amarelada. Os olhos eram amarelo-escuros e não possuíam pupila, esclerótica ou cílios. O olho esquerdo ficava um pouco acima do direito. Dentro da nave havia mais dois seres que o observavam atrás de um tipo de pára-brisa.

Um tubo flexível saiu do visor de um dos seres, emitindo sons graves, roucos e guturais. Os dois homenzinhos deram três passos à frente, momento em que Tiago perguntou-lhes de onde vinham. Um deles fez um círculo com os braços, girando as mãos para cima e para baixo. Tiago perguntou novamente e ele respondeu com os mesmos gestos.

De modo a demonstrar que o binóculo que trazia pendurado no pescoço não era arma, Tiago depositou-o no chão. Instintivamente, para aliviar a tensão, acendeu um cigarro. Ao soltar uma baforada, os seres se entreolharam e comentaram qualquer coisa. Educadamente, jogou o maço na direção dos visitantes, como que a lhes oferecer em cortesia. Para sua surpresa, um deles posicionou a palma da mão acima do maço e o atraiu como se fosse um imã. Depois encostou a mão na calça e o maço desapareceu. Diante da estupefação de Tiago, as criaturas riram, pondo à mostra os dentes enegrecidos, com falhas que se encaixavam entre si. Como caminhavam lentamente em sua direção, o rapaz deduziu que seria convidado a viajar no disco voador.

O encanto foi quebrado pela gritaria do porteiro Hansen e dos populares que chamavam o nome de Tiago. Os homenzinhos recuaram de volta ao disco, sempre de costas para este e de frente para o rapaz. Com um pulinho, flutuaram no ar e adentraram pela cúpula. O último, com a metade do corpo para fora, apanhou uma espécie de “maçarico” e, girando uma alavanca, fez disparar um raio vermelho e azul que atingiu as pernas de Tiago, que caiu com as pernas doloridas e paralisadas. Antes de desfalecer, viu o disco ascender obliquamente em grande velocidade. “Eu fiquei completamente neutralizado, duro como uma estátua. Em dois segundos o disco partiu de lá e mais tarde foi pousar na fazenda Bela Vista, onde também se mostrou a outras pessoas, como o José Luiz Bonifácio”.

A mãe de Tiago, Maria Machado Metzer, e duas vizinhas, Maria dos Santos e Ana Maria Creonice, o encontraram 40 minutos depois “todo abobalhado”, pálido e suando copiosamente. Paralítico da perna direita, foi levado às pressas ao Hospital Municipal de Pirassununga e, por determinação do delegado, removido para a Santa Casa. O médico Henrique Reis não descobriu a causa do ferimento, confessando que nunca vira nada igual. Tiago ficou sob responsabilidade da FAB, que o submeteu a uma bateria de testes e exames físicos e psicológicos. Transferido para o Rio de Janeiro, recebeu tratamento de acupuntura que, segundo ele, recuperou a perna.

O major – depois tenente-coronel – Gilberto Zani, do IV COMAR, encarregado das investigações, tirou medidas do terreno e recolheu amostras da vegetação e do solo. As evidências materiais e as centenas de testemunhas não deixavam margem a dúvidas: tratava-se de um autêntico contato de 3o grau. Alertado pelas autoridades locais, incluindo o prefeito e o delegado, o coronel Hélio Stétison, comandante da Escola da Aeronáutica de Pirassununga, organizou uma comissão especial.

Quando colhiam arroz na Chácara Morais, a poucos quilômetros do IZIP, quatro lavradores, Benedito Dias Ramos, Bárbara Lima da Silva, João Batista da Silva e Paulino Ramos, viram “uma barraca de alumínio com quatro anões dentro que, em poucos segundos, transformou-se numa bola brilhante”. Em 2002, localizei e entrevistei João Batista da Silva, primo de Benedito Paulino Dias Ramos e filho de Bárbara Lima da Silva. Contou ele que trabalhavam na campina carpindo arroz no momento em que surgiu uma “barraca de alumínio”. Os primeiros a notarem foram ele, que época tinha apenas 6 anos de idade, e seu primo, com cerca de 10 anos. Corrigiu dizendo que dentro dele não saíram propriamente “anões”, mas “matadores de formiga”, uma vez que os matadores de formiga da época usavam uma roupa semelhante. Seus movimentos eram lentos e robóticos, parecidos com os dos astronautas caminhando na Lua.

No local em que a “barraca de alumínio” aterrissou, próxima a uma seringueira, a terra e o mato ficaram queimados. Ao partir, o objeto se transformou em uma “bola brilhante, mais ou menos do tamanho do sol”. Perguntei se a nave que eles viram não teria sido a mesma com que se depararia Tiago Machado momentos depois, ao que me respondeu que “daí a pouco a gente viu o helicóptero da Aeronáutica abaixando lá para pegar o Tiago que tinha sido atingido pelos homenzinhos”. A nave, portanto, aterrissou primeiro na Chácara Morais, para depois rumar para a Vila Pinheiros.

À tarde, quando já haviam terminado o serviço, os militares chegaram, colheram informações e solicitaram que os levassem até o local onde a nave havia pousado. Quatro marcas ainda estavam bem visíveis. “Eram furos grandes e redondos, como se a nave tivesse acionado algum mecanismo que queimou o capim”. A TV Excelsior os entrevistou, mas como eram crianças não falaram muito. Vários ufólogos os procuraram na Colônia do Risca-Faca, nos terrenos do IZIP, da USP, onde moravam. “As pessoas ficaram por vários anos nos perturbando e fazendo sensacionalismo em cima do que aconteceu. A gente se cansou disso. Muitos não acreditavam no que a gente dizia e ficavam tirando sarro. Então, apesar de ter certeza do que vira, comecei a evitar comentar o assunto. Saiu uma foto numa revista em que apareciam eu, o Benedito e minha mãe. Nessa revista a gente conta detalhadamente a história. Nós, porém, éramos humildes, e nunca buscamos nenhum tipo de promoção”

Silva agora trabalhava como técnico em raios-X, e Benedito, tratador de animais. A chácara não era de propriedade da família, que era e continuava sendo católica, mas apenas arrendada. Perguntei a Silva se ele achava que aqueles seres eram mesmo extraterrestres, ao que respondeu não ter dúvidas disso, “pois não podiam ser outra coisa”. Acrescentou que um outro lavrador, já falecido, também tinha visto a nave de outro ponto.

Esse lavrador era Luiz Flozino de Oliveira, casado há nove anos com Maria Vita de Oliveira, 40 anos, sua companheira há 20 anos, e pai de nove filhos, dos quais oito vivos. Morava ele na Chácara do Morais, e trabalhava numa campina de arroz a uma hora de distância dali. Às 05h40 de 12 de fevereiro de 1969, quase uma semana depois do Caso de Tiago, a caminho da campina, entrou em luta corporal com dois seres de 1,40 m de altura, olhos assimétricos e barbas e cabelos compridos, de cor preta. Seu cão ficou uivando. No caminho, seu chefe Waldir Couto, encontrou-se com ele e mandou ir à Delegacia, onde deu queixa.

Nessa época em Pirassununga, pelo menos uma em cada duas pessoas dizia ter visto um disco voador. O soldado José Fantenato atendia às ocorrências normais de um plantão de sexta-feira quando um telefonema quase o fez saltar da cadeira. O chamado dizia respeito a um novo aparecimento de disco voador. Imediatamente chamou seus colegas Benedito Secas e Benedito Dutra Júnior. Mas o fato não pôde ser verificado com a devida urgência porque a Delegacia estava sem viaturas. Assim que arranjaram um veículo particular, rumaram para o local, no bairro dos Pires, próximo à entrada da cidade. Ao chegarem, ainda tiveram tempo de avistar as luzes. Correram em sua direção, mas as luzes se apagaram.

O autor do telefonema, o jovem professor Roberto Williams Gruninger, fez questão de frisar que não avistara só luzes. Descreveu o que viu como tendo cerca de cinco metros de diâmetro e uma forma arredondada, com luzes de grande intensidade embaixo e nos lados. Por cima não havia luz, apenas notava-se o contorno do objeto, semelhante à descrição feita anteriormente por muitas pessoas: dois pratos superpostos. Contou o professor que o disco permaneceu no ar durante cerca de 15 minutos e depois desceu numa mata próxima, onde ficou como se flutuasse a dois metros do chão. Quem o alertou para a estranha aparição foi sua mãe, dona Rosa Devite, que apesar da fraca visão estava vendo as luzes misteriosas. Eram 20h00 de sexta-feira, 07 de março, pouco mais de um mês depois de Tiago Machado ter se encontrado com os tripulantes do disco. Roberto começava a tomar banho, mas vestiu o calção, foi para a rua e chamou os vizinhos. Todos viram as luzes e ficaram vigiando enquanto Roberto telefonava à Polícia. Marlene de Oliveira, Ana Maria Campos, Sidney de Oliveira, Ademir de Oliveira, Orlando César e Waldir de Oliveira, vizinhos de Roberto, além de sua irmã Ana Ferreira, seu pai Carlos Frederico Gruninger, e os policiais, confirmaram o fato.

Um oficial de dia do quartel da FAB de Pirassununga, entre o acinte e o deboche, atribuiu a “onda” ufológica que virou rotina na cidade à “falta de garotas”. “Daqui a alguns meses, vamos iniciar vôos com aviões a jato que são bastante silenciosos. Tenho quase certeza de que, se alguns desses aviões acenderem os faróis durante os vôos noturnos, muita gente vai correr por aí dizendo que viu um disco voador. Eu acho que o problema é conseqüência do pouco número de garotas que existem na cidade. O número delas é realmente bem reduzido para uma cidade com mais de 20 mil habitantes. Como o pessoal não tem garotas e as diversões praticamente não existem, o jeito é ficar procurando discos voadores. É uma maneira de passar o tempo”.

Tiago Machado tinha acabado de retornar da França, para onde havia sido levado pelas autoridades da Aeronáutica que o fizeram conceder entrevistas às televisões daquele país. Apesar de não saber o nome da cidade em que esteve, assinalou que “lá havia muitas moças bonitas e, depois do grande número de perguntas que me fizeram, ainda tive um tempinho para passear um pouco, durante os três dias em que fiquei por lá”.

Logo que tomou conhecimento do novo caso, Machado correu para conversar com os protagonistas, que eram seus colegas. Mostrando-se bastante satisfeito com o fato de os discos continuarem a aparecer em Pirassununga, aproveitou para relembrar sua própria história: “Foi há um mês. Estava em casa quando ouvi o barulho que os vizinhos estavam fazendo. Apontavam para os lados da Faculdade de Veterinária, onde meu pai trabalha como bombeiro, e mostravam um objeto esquisito que lá estava pousado. Resolvi ir ver o que estava acontecendo, e um colega foi junto comigo. Quando chegamos, resolvemos nos separar para procurar melhor. Quando eu estava há 20 minutos separado do meu companheiro, avistei o disco a uns 50 m. Caminhei até perto dele e vi seus tripulantes saírem. Eram dois homenzinhos com pouco mais de um metro de altura, ambos com uma roupa prateada, parecendo de alumínio. Aproximei-me e tentei comunicar-me com eles. Eles passaram a fazer sinais com os braços, como se estivessem também tentando dizer alguma coisa. Além dos movimentos, emitiam uns sons que eu nunca havia ouvido, nem nada parecido”.

A “conversa” durou alguns minutos, e Machado, pretendendo mostrar suas boas intenções, jogou seu maço de cigarros para que eles se servissem. “Um deles fez um movimento com a mão e o maço flutuou no espaço, indo parar em seu poder. Ele esfregou a mão na calça, fazendo o maço sumir, e emitiu um som semelhante a uma risada. Para que meu companheiro soubesse onde eu estava, resolvi deixar no chão o binóculo que carregava. Quando fiz menção de pegar no binóculo, os dois tripulantes recuaram e sacaram duas pistolas semelhantes às de brinquedo, mas com uma manivela atrás. Eu não quis bancar o besta, e deixei as coisas como estavam. Os homenzinhos voltaram a se aproximar. Logo depois ouviram-se os gritos do meu companheiro que chamava pelo meu nome. Os tripulantes se apavoraram e voltaram para o disco, disparando as armas na minha perna. Ainda tive tempo de ver o veículo se afastando, e perdi os sentidos. Quando acordei, estava no hospital, e vi o rosto de minha mãe. Estava tudo terminado”.

Depois foram as entrevistas para os jornais, as revistas e a televisão. Num dos programas, o acompanharam nada menos do que 32 testemunhas. Até que os oficiais da FAB o levaram a São Paulo, onde os submeteram a todos os tipos de testes. “Passei vários dias sendo examinado por médicos, que me reviraram do avesso. Ainda não sei a que conclusão eles chegaram, mas o vergão vermelho deixado pelo raio que saiu das armas dos tripulantes do disco já saiu, e eu não estou sentindo nada. Na próxima vez, eu vou levar uma máquina fotográfica comigo, que é para ninguém ficar desconfiado e pensando que estou mentindo”.

Um documento oficial assinado por uma alta patente das Forças Armadas – cujo nome foi omitido, assim como o de outros militares envolvidos –, em poder do ufólogo Fernando Cleto Nunes Pereira, corrobora a veracidade do Caso Tiago Machado: “Possível pouso de OANI em Pirassununga (SP): 1) Por volta de 09h30, achava-me inaugurando o posto da Caixa Econômica Federal no Destacamento Precursor da Escola de Aeronáutica – hoje AFA – em Pirassununga, em companhia dos brigadeiros […], quando, sem qualquer explicação, faltou energia elétrica e os telefones ficaram mudos; 2) Por volta das 11h00, telefonou-me o coronel […] do 17º Regimento de Cavalaria, dizendo: ‘Você soube do disco voador? Queria avisar-lhe, mas os telefones não funcionaram. Uma multidão está alvoroçada com um objeto que pousou no terreno do IZIP, na Vila Pinheiros. Um rapaz está na Santa Casa por ter levado um tiro dos tripulantes. Desloquei-me de helicóptero para o local em companhia do coronel […] e de outro oficial. Encontramos o capim amassado, em formato circular, medindo seis metros de raio; no centro havia três marcas equidistantes 66 cm entre si, perfazendo um triângulo. As marcas – três covas lisas por dentro, perfeitamente semi-esféricas – eram como que resultantes da queda de uma esfera de aço – com o dobro do tamanho de um peso de arremesso usado em competições esportivas. Um garoto sem camisa, com cerca de 11 anos, dirigiu-se a mim: ‘Comandante, o aparelho pousou em mais dois lugares, ali e lá. Quer ir lá ver? O capim era meio alto. Tentei chegar ao local mas desisti. Cada ponto distava uns 50 m um do outro. Recolhemos nas proximidades um maço de cigarros nacional. Voltando ao quartel, determinei imediatamente a ida de um oficial à Santa Casa e comuniquei o ocorrido ao […] Na Santa Casa, o oficial não encontrou o rapaz, que tinha sido convidado por uma estação de rádio a conceder entrevista. O oficial ouviu então Henrique, médico que atendeu Tiago: ‘O rapaz chegou aqui desmaiado e balbuciou: ‘Levei um tiro nas pernas’. Examinei-o mas não encontrei marcas de tiro, a não ser duas grandes saliências avermelhadas, uma em cada perna, na parte anterior da coxa, ambas na mesma altura. Ao recuperar a consciência, o rapaz contou-me que ele fora o único a chegar perto do disco voador, do qual desembarcaram dois homenzinhos. […] Um deles, com uma arma, deu-lhe um tiro nas pernas, após o que desfaleceu […] Chegou de São Paulo, no mesmo dia, o tenente coronel […] que interrogou Tiago, além de outras trezentas pessoas, incluindo a mim. Os depoimentos foram coincidentes. Um sargento tirou fotos do local do pouso. No dia seguinte, o motorista da ambulância de pista da FAB, residente na Vila Pinheiros, que estava de folga por ter ficado de plantão durante o vôo noturno, contou-me: ‘Fazia uns servicinhos em casa quando a minha mulher me chamou falando de um estranho pára-quedas; pensei logo em algum cadete que havia saltado de avião e corri para prestar auxílio. Ocorre que aquilo não se parecia em nada com um pára-quedas, e sim com um disco metálico brilhante, azulado. […] Vi umas três ou 4 pessoas correram para o local do pouso e o rapaz se aproximando do aparelho. Não fui até lá porque a minha esposa, com medo, já ia fazendo escândalo’. Ao todo, calculo que cerca de quinhentos moradores da Vila Pinheiros saíram para ver o disco. No dia seguinte, mandei um avião a Poços de Caldas trazer dois técnicos especialistas em radioatividade, que no entanto não detectaram níveis anormais. O capim amassado adquirira uma coloração amarelada e exibia uma faixa queimada”.

DOPS

O Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), já em 1912 começou a apurar, ainda que de modo incipiente, as primeiras informações que o consagrariam como o instrumento mais requisitado pelos detentores do poder para melhor controlar os opositores. Criado oficialmente em 1934 durante o Governo de Getúlio Vargas, em plena época de enfraquecimento das linhas políticas produzidas pela Revolução de 30, crise das democracias e ascensão dos movimentos totalitários – fascistas, nazistas e comunistas –, ganhou alento, passando em outubro de 1935 a catalogar e a acumular, em caráter definitivo, fichas de suspeitos de subversão em vários Estados do país. Até sua extinção em 14 de março de 1983, em pleno curso do processo de abertura política, o DOPS sofreu diversas transformações, mas nunca deixou de servir, em maior ou menor grau, aos interesses diretos dos diversos governos e regimes constituídos, sempre com fins de espionagem e repressão política.

O acervo paulista do DOPS, composto por 1.536.690 fichas, 13.374 dossiês, 6.494 pastas e 92 caixas de documentos, permaneceu desde então sob a guarda da Polícia Federal (PF). O processo para torná-lo acessível ao público, apesar de favorecido pela conjuntura democrática que se delineava, demandou consideráveis esforços por parte da sociedade civil organizada, principalmente dos familiares das vítimas, devotados em esclarecer as circunstâncias das mortes de seus entes queridos.

Em 18 de janeiro de 1992, os documentos foram finalmente transferidos do quinto andar da Sede Paulista da Polícia Militar (PM) para o Arquivo Intermediário do Estado, no bairro da Mooca, zona leste, e de lá, para o Arquivo do Estado de São Paulo, na Consolação, centro da cidade. Entretanto, os arquivos só foram liberados à consulta pública em 05 de dezembro de 1994, depois de passarem por um prévio trabalho de organização e catalogação.

O acervo do DOPS foi franqueado ao público em geral, pesquisadores, profissionais de imprensa, membros dos diversos comitês de direitos humanos, poder judiciário, advogados, além, é claro, dos próprios implicados e de seus familiares, sem qualquer restrição senão aquelas determinadas pela Constituição Brasileira. Exigiu-se a assinatura de um termo de responsabilidade, no qual se vedou a utilização de informações que pusessem em risco a segurança do Estado. Não foram permitidas reproduções xerográficas de qualquer material do acervo. O único meio disponível era o microfilme, mediante consulta do setor técnico responsável. O historiador e ufólogo Cláudio Tsuyoshi Suenaga, um dos primeiros a consultar os arquivos, levou assim bastante tempo para obter cópias dos documentos que comprovam cabalmente o envolvimento do Governo Militar Brasileiro com os UFOs e a perseguição movida contra um grupo de ufólogos – entre a localização, o pedido e o recebimento, decorreu quase um ano.

Caso Onilson Patero: O sequestro que mobilizou o Regime Militar

Às 03h00 da madrugada de 22 de maio de 1973, o vendedor de livros Onilson Patero, 41 anos, viajava da cidade de Osvaldo Cruz para Catanduva – cidade localizada às margens do Rio São Domingos, a 368 km de São Paulo –, pela Rodovia Estadual 321. Na cabeça de uma ponte, quando ia atravessar o Rio Tietê, nas imediações de uma hidrelétrica, Patero observou um jovem que acenava com a mão para que parasse. Não era de seu feitio dar carona, mas mesmo assim resolveu parar. O jovem o cumprimentou e perguntou que destino tomaria. Respondeu que iria a Catanduva, e ele falou que também se dirigia para lá. Apresentou-se dizendo que se chamava Alex.

Patero abriu a porta do automóvel, notando que Alex levava consigo uma caixinha amarela parecida com uma cigarreira. Rodou uns 300 m e Alex perguntou-lhe o que fazia. Patero explicou que trabalhava na Livraria Cultural Editora, de Osvaldo Cruz, e que sua função era de contatar os prefeitos das cidades onde não existiam bibliotecas de modo a formar uma. Quando Patero tentava formular alguma pergunta, Alex já fazia outra antes, como se cortasse seu pensamento. Indagou há quanto tempo morava em Catanduva, qual era o seu grau de instrução etc. Patero ofereceu-lhe um cigarro, prontamente recusado.

Ao parar num posto de gasolina perto de São José do Rio Preto, Patero aproveitou para observá-lo bem de perto. Era um rapaz de rosto redondo, olhos azuis, grandes, cabelo loiro, aparado, orelha, boca e nariz pequenos. Usava jaqueta e calça cinzas e sapatos pretos. Patero fez o retorno para entrar pelo aeroporto. Aí Alex olhou no relógio e falou que não havia mais ônibus para chegar em Itajobi, pois já eram 03h00. Patero então indagou, afinal de contas, se ele iria a Itajobi ou a Catanduva. Alex informou que precisava chegar em Itajobi, distante 18 km de Catanduva. Assim, Patero deixou-o na praça principal desta cidade. Alex agradeceu, despediu-se e desejou uma boa viagem. Por fim, prometeu: “Qualquer dia desses vou visitá-lo em sua casa”.

Assim que Patero chegou no Km 7 de Catanduva, o rádio do carro começou a sofrer interferências. Como se aproximava das linhas de força da Companhia Energética de São Paulo (CESP), achou que essa era a causa do problema e abaixou o volume do rádio. De súbito, um foco de luz azul com cerca de 10 cm percorreu o interior do automóvel. A luz era tão potente que o veículo ficou transparente como se estivesse sob um raio X. Patero podia ver o virabrequim, o comando da válvula e o asfalto correndo no chão. O foco parou e um filamento fino de luz bateu em cheio contra seu rosto.

O automóvel, que corria a 100 km/h, foi parando aos poucos. Patero estacionou no acostamento e notou um objeto com cerca de quatro metros de diâmetro, opaco e o formato de duas bacias sobrepostas, flutuando a uns 10 m de altura, acima da rodovia. Ao descer do automóvel, sentiu calor e uma espécie de tela envolveu o aparelho. Um cilindro começou então a baixar e quando faltava mais ou menos um metro para tocar o asfalto, Patero exclamou: “Meu senhor do céu. Isso aí é um disco e vai me pegar!”

Patero saiu correndo, mas nem bem percorrera uns 50 m, começou a ser puxado para trás por um facho de luz que saía do aparelho. Aí desmaiou, perdendo a noção de tempo. Às 05h00, quando deu por si, estava sendo socorrido pelo guarda rodoviário Clovis Queiroz, do destacamento de Catanduva, que por sua vez foi avisado por dois rapazes que tinham visto o seu corpo caído ao lado do Opala, sob a chuva fina. O guarda, achando que ele era louco, o encaminhou ao hospital psiquiátrico.

Ali, sob os cuidados do médico Elias Azis Chediak, Patero foi submetido a diversos testes que indicaram ser ele absolutamente normal. A única anormalidade constatada foi o aparecimento de manchas amarelas em seu corpo. Essas manchas não doíam, mas os médicos não sabiam explicar sua origem. Seus cabelos, que eram castanhos, tornaram-se negros, mas pouco tempo depois voltaram ao normal.

O segundo sequestro de Patero

Em 26 de abril de 1974, por volta das 11h00, após engolir apressadamente uma xícara de café em companhia de sua esposa e suas duas filhas, Patero saiu de sua residência na rua Bahia, na cidade de Catanduva, entrou no seu Volkswagen azul – o Opala havia sido vendido – e se dirigiu a Júlio de Mesquita, distante 160 km, para uma reunião de negócios com o prefeito daquela cidade. Mas as coisas começariam a andar mal para seu lado. O prefeito, em reunião prolongada com seus assessores, mandou avisar-lhe que não o receberia naquele dia. Patero tentou então se encontrar com o inspetor de ensino de uma escola na cidade de Marília, mas novamente deu com os burros n’água. Sem alternativa, resolveu voltar para casa, reiniciando a viagem de volta.

Não passava das 22h30 quando deixou Marília, lamentando a má sorte. O carro corria muito bem, em vista de ter passado por uma revisão no dia anterior. Entretanto, quase no meio do trecho da Rodovia SP-333 Marília-Porto Ferrão, que liga Marília à Guarantã, notou que o automóvel começava a falhar. Praguejou, pensou que fosse falta de combustível, mas ficou surpreso: ao olhar para o painel, que indicava ainda gasolina suficiente, notou uma luz estranha ali circulando. Não ligou muito, até que olhou para os fios de alta tensão. Em volta deles, um filamento de luz azul acompanhava o trajeto de seu automóvel. Àquela altura, o automóvel não mais lhe obedecia, morrendo poucos metros depois. Patero abriu a porta do veículo e saltou.

A atenção de Patero foi atraída para um estranho aparelho que estava parado ao lado da estrada. Suspenso no ar, o objeto, que se assemelhava a duas bacias justapostas, uma contra a outra, irradiava uma luminosidade que clareava tudo à sua volta. Tentou correr, mas em determinado momento os pés não mais tocavam o chão. Uma espécie de sonolência o induziu a um estado de semi-inconsciência. Sob o efeito do estranho facho de luz, flutuava, atraído para o disco voador.

Ao acordar, ainda sonolento, viu o rapaz a quem dera carona no primeiro episódio, e que se dizia se chamar Alex. Ele estendeu-lhe as mãos, depois colocou as duas mãos em seus ombros, acalmando-o. Patero foi levado a diversas salas do disco, cheias de painéis, e viu pessoas semelhantes as da Terra, bem como um sósia ou clone seu, que o deixou muito confuso. Fizeram-no vestir uma roupa brilhante, com aspecto de nylon, que lhe refrescava o corpo. Colocaram-no em uma urna embutida no piso, porém não soube dizer quanto tempo ficou ali. Quando recobrou a consciência, já estava vestido com a própria roupa, em outro compartimento mais espaçoso, sem a presença de Alex.

Não soube precisar quanto tempo ficou nesse primeiro compartimento. Tanto poderiam ser cinco ou 10 minutos como várias horas. Tinha a impressão de que olhos invisíveis o observavam. Sentia-se como uma cobaia. A estranha calma prosseguia, como se houvessem ministrado alguma droga calmante. A sonolência voltou a dominá-lo, e o comerciante, depois de algum tempo – incalculável – viu-se noutra sala, onde os aparelhos eram menos complicados.

Num determinado momento, seus pensamentos fugiram completamente de seu controle. Parecia conversar com uma pessoa “que não estava nem perto nem longe”. A comunicação, de início, parecia difícil, e à medida que ele reagia, sua mente era dominada. Era como se dissesse a si mesmo: “Não resista Onilson, tudo vai dar certo. Será pior resistir…”. Patero não sabe como terminou esse monólogo, mas lembra que desacordou quando respondia a perguntas que surgiam misteriosamente em seu cérebro. Eram perguntas inteligentes, às quais seu cérebro respondia sem objetar.

Depois de uns três minutos, foi suavemente colocado na relva, sobre um morro da distante cidade de Colatina, no Estado do Espírito Santo, a 920 km do ponto de origem. Seu relógio indicava 03h15, e ele ainda levaria três horas na descida. Ao chegar na base, começou a chover. Patero abrigou-se embaixo de uma pedra inclinada, onde escreveu as iniciais de seu nome. Ele achava que estivera no máximo 10 minutos em companhia dos extraterrestres. No entanto, já tinham se passado seis dias e quatro horas.

Um fazendeiro, César Minelli, conduziu Patero, em estado lastimável, à sua propriedade, providenciando-lhe acomodações. Se por um lado sentia-se extremamente cansado, por outro se sentia na obrigação de tentar explicar o que se sucedera àquelas pessoas que tão bem o acolheram, com exceção de alguns empregados do local, que o olhavam com desconfiança, como que a taxarem-no de desequilibrado. O fazendeiro oferecera-lhe até dinheiro, prontamente recusado. O único desejo de Patero era de voltar para Catanduva e rever a família, que àquela altura já deveria estar desesperada à sua procura. Com paciência, ele contou ao fazendeiro o que conseguiu recordar e depois solicitou que o levasse à Delegacia de Polícia. Seu estado psicológico, porém, não permitia isso, detalhe observado por Minelli, que gentilmente o levou para sua residência na cidade, sito à rua Santa Maria, no 99, onde descansou até às 21h30.

A notícia de que um homem tinha descido de um disco voador se espalhou rapidamente na cidade, e logo uma enorme multidão cercou a residência do fazendeiro. A incredulidade das pessoas mais instruídas não o incomodava, já que ninguém era obrigado a acreditar em sua aventura. Pior foi ter sido cercado por uma multidão enfurecida que queria invadir a casa. A polícia foi comunicada e o delegado Nilson Leandro Pereira escoltou-o até a Delegacia.

Mas o povo continuava à sua procura, pensando que se tratava de um marciano ou coisa parecida. As autoridades municipais, alarmadas com tamanha movimentação, foram conversar de perto com o comerciante e verificar se havia algo de concreto em suas afirmações. E outra vez Patero se sentiu observado, analisado, o que lhe doía ainda mais, pois eram pessoas como ele que o confundiam. Mesmo assim, não deixou de atender ninguém. Entre os presentes na Delegacia encontravam-se as seguintes autoridades: Arione Vasconcelos Ribeiro, juiz da 1a Vara Cível; Wilian Aragão, professor da Faculdade de Direito de Colatina, parapsicólogo e ufólogo; Rui Lora, professor da Faculdade de Direito de Colatina e inspetor federal; além das estudantes de direito Maria Cleusa Fardini Magalhães e Maria Nazareth Bardelott, ambas de Vitória. Chegariam depois à Delegacia, Sérgio José Silveira de Moraes, professor e diretor de imprensa, e Cohmar Correa Carvalho, professor e advogado. Todos escutaram com atenção o comerciante e confiaram em suas declarações.

Recusando ficar no melhor hotel da cidade, aguardou pacientemente que sua família viesse buscá-lo. Apareceram seu irmão Éder Pántaro, seu cunhado Francisco Sanches Rodrigues e seu primo Antonio Pires das Chagas. O juiz da comarca só deixou Patero partir no automóvel que o levaria de volta quando os seus parentes se identificaram. Nunca se sabe o que envolve uma história fantástica, atinou o juiz, que agiu com a máxima precaução.

Patero chegou a Catanduva no domingo à tarde, e sua esposa lhe recebeu comunicando que havia entrado em contato com o presidente da APEX, Max Berezovsky. Já havia sido acertado com o médico e ufólogo, que este o submeteria a uma hipnose regressiva em sua clínica. Durante um fim de semana inteiro, repetiu o que acontecera, respondendo a perguntas cuidadosamente formuladas. A imprensa não parava de sondar o comerciante que, a pedido dos médicos e ufólogos, não voltou a conceder entrevistas, com a justificativa de que certas informações não poderiam ser reveladas.

Desde que passara pela segunda experiência, Patero começou a sofrer os efeitos da incredulidade popular. Mesmo sendo um homem modesto e de hábitos comuns, despertou muitas dúvidas. Os poucos que o apoiaram, reconheceu Patero, mostraram ser os verdadeiros amigos. Andar despreocupadamente pelas ruas de Catanduva tornou-se impossível. Os olhares curiosos e os cochichos de grupinhos perturbavam-no. Entretanto, sua vida e a de sua família tinham de prosseguir. “Para seu próprio bem”, tentaria esquecer a experiência.

As hipnoses regressivas conduzidas por Berezovsky e posteriormente por Walter Bühler, no Rio de Janeiro, não conseguir furar o bloqueio de memória. Somente em 27 de maio de 1979 é que o ufólogo e parapsicólogo Álvaro Fernandes e seu grupo da cidade de São José do Rio Preto conseguiram trazer os fatos à tona. Patero, com explicações e gesticulações de medo, lembrou-se que havia mantido relações sexuais com uma ET muito feia, contra a sua vontade, depois de beber um líquido com gosto ruim. A mulher tinha cabelos encaracolados, olhos escuros e salientes, nariz fino e longo, orelhas com pontas, rosto alongado, corpo normal e pele morena.
Anexada aos demais documentos do DOPS, na mesma pasta, estavam os recortes de jornais com as matérias sobre o Caso Patero que tanto havia intrigado as autoridades. Uma série de reportagens publicadas pelo diário sensacionalista Notícias Populares estampava manchetes como “Viajou num disco voador com marciano”, “Marcianos usam telepatia para interrogatório”, “Confundido com marciano, Onilson foi cercado por multidão na Delegacia” e “Revelações de Onilson aos marcianos estão sob sigilo”.

No quarto programa de uma série de oito que o apresentador Flávio Cavalcante, da Rede Tupi de Televisão, levou ao ar no decorrer de 1978, enfocando o problema dos discos voadores, Patero fora entrevistado juntamente com Edmilsom Queiroz Albuquerque, que em 29 de junho último havia filmado um UFO na Ilha Grande, Rio de Janeiro. Patero detalhou aos telespectadores os dois seqüestros de que fora vítima.

Ufólogos alvos de espionagem, perseguições e inquéritos

Na época em que Patero e os ufólogos foram investigados, o aparelho repressivo já havia liquidado quase todas as organizações de guerrilha urbana. Como ameaça, restava apenas o foco guerrilheiro do Partido Comunista do Brasil (PC do B) nas selvas do Araguaia. Em 1974, com a derrota da guerrilha, o governo dava início à abertura política. O general Ernesto Geisel, que assumira a Presidência em 15 de março, enfrenta dificuldades que marcam o fim do milagre econômico e ameaçam a estabilidade do Regime Militar. A crise internacional do petróleo contribui para uma recessão mundial e o aumento das taxas de juros, além de reduzir muito o crédito, pondo a dívida externa brasileira em um patamar crítico. O presidente anuncia então a abertura política “lenta, gradual e segura” e nos bastidores procura afastar os militares da linha dura, encastelados nos órgãos de repressão e nos comandos militares. A censura à imprensa é suspensa em 1975. A linha dura resiste à liberalização e desencadeia uma onda repressiva contra militantes e simpatizantes do clandestino Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog é assassinado em uma cela do DOI-CODI do II Exército, em São Paulo. Em janeiro de 1976, o operário Manuel Fiel Filho é morto em circunstâncias semelhantes.

Conforme apurou Suenaga, o conteúdo dos documentos do DOPS revela de modo inusitado que a motivação inicial para o monitoramento dos fatos ligados aos UFOs se ligava menos às implicações políticas daí advindas do que ao fenômeno em si. Só posteriormente é que as autoridades passam a manifestar dúvidas quanto às reais atividades dos personagens envolvidos.

O Ofício Nº 195, com o timbre da Secretaria de Estado dos Negócios da Segurança Pública, emitida pela Delegacia de Polícia de Guarantã em 11 de setembro de 1974, dirigido ao diretor do DOPS e assinada pelo delegado de polícia daquela cidade, Herminio José Theodoro, revela que se tratava primeiramente de “tentar, por todos os meios, conseguir algum esclarecimento com relação ao contínuo aparecimento dos tão comentados discos voadores”: “Senhor Diretor: No dia 28 de abril do corrente ano, esta cidade de Guarantã foi abalada pela notícia de que o indivíduo Onilson Patero, residente à Rua Baía, no 910, na cidade de Catanduva, exercendo a profissão de vendas da Distribuidora de Livros Ltda., estabelecida naquela região, quando em trânsito pela Rodovia SP-333 Marília-Porto Ferrão, fora ‘sequestrado’ por um ‘disco voador’, há 12 km desta cidade, em local pertencente a esta Jurisdição Policial, tendo o veículo que era por ele utilizado, ali sido encontrado abandonado no dia seguinte. Preliminarmente, esta autoridade se limitou a recolher para esta Delegacia o veículo abandonado, para as diligências de praxe, no sentido de ser o seu ex-ocupante encontrado identificado e devidamente esclarecida a verdade dos fatos ocorridos. Nos dias que se seguiam, enquanto se procediam as buscas e diligências no sentido de ser Onilson Patero encontrado, eis que, através de noticiário dos jornais da capital e do interior, chega ao conhecimento desta autoridade a notícia de que Patero aparecera em uma fazenda no município de Colatina, no Estado do Espírito Santo, isto seis dias após o seu desaparecimento. Como é óbvio, para um noticiário, cada qual mais sensacionalista, Patero passou a ser abordado e entrevistado por enorme número de repórteres de jornais de São Paulo e do interior, inclusive televisão. Contudo, em nenhuma das reportagens Patero prestava os esclarecimentos de onde se pudesse concluir estar narrando uma história verdadeira. Durante todas as entrevistas concedidas por Patero estava ele sempre acolitado por quatro personalidades que se diziam ‘elementos estudiosos’ da Associação de Estudos dos OVNI, os quais, segundo palavras de Patero, o impediam de prestar informações com maiores detalhes às reportagens. Diante de tais noticiários, esta autoridade achou por bem determinar a instauração de Autos de Investigação Policial para melhor apurar tais fatos e bem assim tentar, por todos os meios, conseguir algum esclarecimento sobre este acontecimento, com relação ao contínuo aparecimento dos tão comentados ‘discos voadores’ ou coisa semelhante. Assim, senhor diretor, tem por escopo este ofício deprecar a esse conceituado Departamento da Polícia Estadual, se procedam às investigações cabíveis, no sentido de que os cidadãos Max Berezovsky e Walter Bühler, médicos psiquiatras e os professores psicólogos Guilherme Wirz e Charalambe Kiriakamis, segundo notícia dos jornais residentes no Rio de Janeiro (Guanabara), informem se pertencem a algum órgão oficial de ‘Assuntos Espaciais’, ou se podem oferecer algum esclarecimento a respeito dos fatos ocorridos com Patero, no município de Guarantã, na noite de 27 para 28 de abril de 1974, o qual, segundo suas declarações aos jornais e nestes autos, disse haver voado num ‘disco voador’ de Guarantã a Colatina, no Estado do Espírito Santo”.

Para efeitos de registro, optamos por transcrever esse documento na íntegra, mantendo a grafia original. Aqui vemos Patero e os pesquisadores que o acompanhavam e que procuravam controlar suas declarações, serem alvo de um inusitado interesse por parte do delegado da cidade de Guarantã, depois de assediados pela imprensa ávida em explorar os aspectos mais espetaculares do caso. Notamos que em nenhum momento ele faz menção a questões político-ideológicas, destacando somente a necessidade de uma profunda investigação que apurasse a verdade dos fatos, tal como eles teriam ocorrido.

Cumpre-nos acrescentar que, naquela época, o Brasil, assim como muitos outros países – a exemplo da França – estava sendo palco de uma gigantesca onda de avistamentos de discos voadores. O delegado Theodoro provavelmente não quis perder a chance de checar a confiabilidade desses testemunhos, instaurando trâmites legais que lhe permitissem mobilizar diligências. Ele se limitou inicialmente a recolher para sua delegacia o veículo abandonado. Nos dias que se seguiram, enquanto procediam as buscas por Patero, eis que, por meio dos jornais, chegou ao seu conhecimento a notícia de que ele havia surgido em uma fazenda no município de Colatina, Espírito Santo.

Diante disso, o delegado determinou a instauração de Autos de Investigação Policial para melhor apurar tais fatos, recomendando ao diretor do DOPS que fossem investigados os médicos Max Berezovsky e Walter Karl Bühler, o professor Willi Wirz – correspondente da revista inglesa Flying Saucer Review e um dos ex-colaboradores do SIOANI – e o psicólogo Charalambe Kiriakamis, todos ufólogos.

APEX

O ofício a seguir, com o timbre da Secretaria da Segurança Pública, emitido em 27 de setembro, pouco mais de duas semanas depois dos apelos do delegado de Guarantã, traz as solicitações de Roberto Quass, delegado adjunto do Serviço de Informações do DOPS, “…para que se digne indagar ao jornalista Marco Antonio Montandon, autor da reportagem ‘A pesquisa dos Objetos Não Identificados’, publicada no dia 04 de julho de 1974 no jornal Folha de S. Paulo, sobre a localização da Associação Brasileira de Estudos das Civilizações Extraterrestres…”

A matéria do jornal em questão, de autoria do jornalista Marco Antonio Montandon, estava anexada aos documentos: “No último domingo, quando todas as atenções se voltavam para o jogo entre o Brasil e a Argentina, dois homens – um médico e um filólogo – tomaram o rumo da Rodovia Castelo Branco e viajaram 150 km até a cidade de Tietê. Ali passaram praticamente o dia interrogando um fazendeiro, fazendo anotações e olhando minuto a minuto o horizonte que se estendia – claro e límpido – em direção a Porto Feliz, Cerquilho, Capivari, Campinas, Viracopos…”. Além do caso do fazendeiro, foram mencionados em detalhes os casos de Maria Cintra, a enfermeira de Lins, de Toríbio Pereira, tratorista de Lins, Tiago Machado, vendedor de frutas de Pirassununga, e de Caetano Sérgio dos Santos, o vigia noturno de Caconde, todos testemunhas do Fenômeno UFO apreciadas pelo grupo.

Um agente do DOPS foi imediatamente escalado a proceder as primeiras investigações, comunicadas num curto relatório ao delegado adjunto: “Cumprindo determinações de v.sa, estive no jornal Folha de S. Paulo, onde conversei com o sr. Marco Antonio Montandon, jornalista que informou que o sr. Flávio A. Pereira é quem responde pela Associação Brasileira de Estudos das Civilizações Extraterrestres, cujo endereço é: Rua dos Gusmões, 100, fone 220-9522. Dirigindo-me a esse endereço, fui informado que o sr. Guilherme Wirz reside à Rua Cajaíba, 15, apto. 802, Sumaré; sr. Max Berezovsky reside à Rua Tomé de Souza, 561, Lapa, capital. Com relação aos srs. Walter Bühler e Charalambe Kiriakamis, fui informado que residem no Estado do Rio de Janeiro. Era o que tinha a relatar”.

Nessa altura, as suspeitas em torno de Patero foram transferidas aos ufólogos. Eles acabaram, como os que suscitavam desconfianças na época, constrangidos a depor no DOPS. Documentos timbrados da Secretaria da Segurança Pública, emitidos pelo Serviço de Informações do órgão, com o carimbo Confidencial, trazem os termos de declarações de vários deles.

Nos interrogatórios buscava-se sensibilizar as vítimas nos seus ângulos vulneráveis –família, emprego etc. Abstraía-se daí uma massa considerável de dados, posteriormente checados e confrontados. Em decorrência, se ficasse subentendido que num momento qualquer da fala algo de comprometedor havia sido pronunciado, as suspeitas aventadas inicialmente tendiam a confirmar-se. Isso parece ter ocorrido com os personagens em voga, pois continuaram sob vigilância estrita das autoridades.

Romeu Tuma

A dimensão que adquiriu o caso pode ser auferida pelo envolvimento do delegado chefe do Serviço de Informações do DOPS da época, Romeu Tuma. Seu subordinado direto, o delegado adjunto Roberto Quass, dirigiu-lhe um relatório em 14 de outubro: “Sr. delegado chefe: Acredito, data vênia, que as solicitações contidas no ofício no 195/74, do ilustre delegado de Polícia de Guarantã, del. Hermínio José Theodoro, foram cumpridas. Aproveito o ensejo para tecer algumas considerações: a) o professor Willi Wirz e o médico Max Berezovsky estudam o assunto dentro de padrões científicos; b) ambos informaram ser Onilson Patero um mitômano, apresentando certa ‘alteração neurológica’; c) solicitaram que as declarações feitas neste S.I., sejam classificadas como confidenciais, para evitar que o sr. Onilson Patero, ao tomar conhecimento destas, explore mais uma vez o tema, chamando a atenção para sua pessoa. Face a essas razões, foram as declarações classificadas como ‘assunto confidencial’, ficando todas e qualquer pessoa, que oficialmente destas informações tomarem conhecimento, responsável pela manutenção do sigilo”.

Um manuscrito do mesmo dia, igualmente de autoria de Roberto Quass, classificado como Secreto, também faz menção a Tuma. Discorrendo sobre os resultados parciais de suas investidas, emite pareceres e solicita providências: “Preparar os seguintes despachos: 1º) Do dr. Tuma para mim, a fim de adotar as providências cabíveis; 2º) a) Para a Seção de Recortes deste SI juntar recortes de notícias a respeito do assunto; b) Ordem de Serviço para o 506 a fim de indagar ao jornalista Marco Antonio Montandon, autor da reportagem ‘A pesquisa dos objetos não identificados’, publicada no dia 04 de julho de 1974, no jornal Folha de São Paulo, a localização da Associação Brasileira de Estudos das Civilizações Extraterrestres, Guilherme Wirz, Max Berezovsky, Walter Bühler e Charalambe Kiriakamis. Preparar relatório do investigador cumprindo determinação desta chefia. Estive no jornal Folha de S. Paulo onde conversei com Montandon, que informou que Flávio A. Pereira responde pela Associação Brasileira de Estudos das Civilizações Extraterrestres, na Rua dos Gusmões, 100, fone […]. Dirigindo-me a esse endereço fui informado que o Guilherme Wirz reside na Rua Cajaíba, 15, apto. 802, Sumaré, e Max Berezovsky na Rua Tomé de Souza, 561, Lapa, nesta capital. Com relação a Walter Bühler e Charalambe Kiriakamis fui informado de que residem no Estado do Rio de Janeiro. Era o que tinha a relatar”.

O próprio Romeu Tuma assinou um documento com o timbre da Secretaria da Segurança Pública, Serviço de Informações do DOPS, datado de 15 de outubro, em que solicita sucintamente: “Face as providências tomadas pelo sr. delegado adjunto ao Serviço de Informações, devolva-me o presente expediente ao sr. diretor-geral de Polícia deste Departamento”. O caso, portanto, já havia chegado ao conhecimento dos demais órgão de repressão, que tratavam de emprestar-lhe conotações políticas. Não obstante, o envolvimento de Romeu Tuma merece considerações à parte. Uma reportagem abordou os documentos obtidos por familiares de desaparecidos políticos nos quais o senador pelo Partido Liberal (PL) aparece desfrutando de maior proximidade com os órgãos de repressão do que a simples vinculação burocrática que sempre afirmou ter. Entre 1966 e 1983, Tuma trabalhou no DOPS de São Paulo e até 1977 foi delegado. Desse ano até 1983 foi diretor. Segundo os familiares, Tuma assinou documentos comprometedores que o ligam diretamente ao esquema repressivo.

Há um despacho de 24 de junho de 1970, assinado por ele, em que reafirma uma versão policial de que Noberto Nehring se suicidara em um hotel. Outro documento, de 05 de novembro de 1978, do SNI, mostra que Tuma sabia que cinco presos estavam mortos. Há ainda um documento que revela que ele solicitava autópsias para presos que supostamente morreram sob tortura. Tuma também foi acusado de omitir informações sobre a morte de Sônia Lopes. Morta em 1973, 10 anos depois sua mãe viu uma foto em poder do legista Harry Shibata, o qual afirmou que a foto fora repassada a ele por Tuma. Os familiares dos desaparecidos acusaram-no de ter se apossado dos arquivos do DOPS ao deixar o órgão e transferir-se para a PF, em 1983. Constatou-se que cópias de depoimentos de presos não se encontravam mais nos arquivos do DOPS. Por fim, as famílias acusaram Tuma de ter protegido torturadores. Basta mencionar que levou com ele para a PF os delegados Aparecido Laerte Calandra e Davi dos Santos Araújo, ambos acusados de terem praticado torturas.

Infiltração de agentes

O delegado geral de Polícia do DOPS, Lúcio Vieira, estando “devidamente informado pelo Serviço de Informações deste DOPS”, ordena em ofício com o timbre da Secretaria de Segurança Pública, Gabinete do Diretor, datado de 29 de outubro, que se devolva, “juntamente com Termos de Declarações de Max Berezovsky e Willi Wirz, […] o presente expediente ao diretor-geral de Polícia do Derin”.

Um ofício timbrado da Secretaria da Segurança Pública, rotulado de Confidencial, datado de 06 de novembro, e assinado pelo diretor-geral do Derin, José Renè Motta, comunica ao delegado de Guarantã as medidas adotadas. O assunto é “o seqüestro de Onilson Patero por ‘um disco voador’ ”: “Ao sr. dr. delegado de Polícia de Guarantã, por intermédio da Seccional de Polícia de Bauru, para que se digne conhecer das providências levadas a efeito, servindo-se devolver em seguida”. O delegado seccional da Polícia de Bauru, Sebastião Joacyb Furquim de Castro, respondia em 14 de novembro, por intermédio de um ofício Confidencial: “Ao sr. delegado de Polícia de Guarantã, para que se digne tomar conhecimento do despacho 4.166/77, do sr. diretor-geral do Derin, servindo-se devolver com as cautelas legais, em face das razões invocadas na informação de fl. 16”.

O documento que ensejou a infiltração de agentes, datado de 13 de junho de 1975, traz o timbre do Ministério do Exército, Comando do II Exército – 2a seção, o carimbo Confidencial e a assinatura do diretor do DOPS. Abaixo, há uma ordem manuscrita expressa: “mandar observador”. O caso de Patero nem é mais mencionado, e todas as atenções se voltam à APEX. Seus integrantes passam a ser encarados como possíveis subversivos que desenvolviam atividades sob esta fachada: “Assunto: reuniões duvidosas na Associação de Estudos das Civilizações Extraterrestres; Origem: II Exército; Difusão: DOPS/SP; 1. Dados Conhecidos: tem havido reuniões de cunho duvidoso na residência de Max Berezovsky (Rua Tomé de Souza, 561- Lapa, SP) e no Clube Makavi (Av. Angélica, 634), onde, com a idéia de realizar debates sobre estudos das civilizações extraterrestres (discos voadores) buscam contatos com estudantes e outros elementos, possivelmente ligados à subversão, para discussão e combate ao governo constituído. Esta comunidade é composta de aproximadamente 20 pessoas e dentre elas podemos destacar: Max Berezovsky, Luiz Jesus Braga Cavalcanti de Araújo, Flávio Augusto Pereira, Fernando Grossmann e Carlos Jacchieri. Está prevista para o próximo dia 27, às 21h00, uma reunião no Clube Makavi. 2. Dados Solicitados: procurar investigar os trabalhos da Associação; fazer o possível para acompanhar e relatar os acontecimentos da reunião previstas para o dia 27 de junho de 1975”.

Já no dia seguinte à reunião, o Serviço de Informações do DOPS emitiu um relatório timbrado da Segurança da Segurança Pública, procedente da Chefia dos Investigadores do SI, destinado ao delegado-chefe. Relatava com detalhes precisos tudo o que fora presenciado na ocasião pelo agente infiltrado, que, cabe reconhecer, procedera a uma leitura de cunho antropológico dos eventos. Ele acerta ao constatar a prevalência de crenças antecipadas em discos voadores entre os participantes da reunião.

Por fim, conclui que nenhum deles visava intentar qualquer tipo de ação político-ideológica, limitando-se aos debates do tema em curso: “Realizou-se ontem, dia 27-06-1975, com início às 21h00 e término 22h30, na Avenida Angélica no 634 (Federação Israelita de São Paulo), uma conferência proferida por Flávio Augusto Pereira e patrocinada pela APEX, vinculada ao tema: ‘civilizações extraterrestres’. O auditório usado (do teatro), no primeiro andar, abrigou cerca de 80 pessoas, estando à mesa Flávio Pereira, Max Berezovsky, Luiz Jesus Braga Cavalcanti de Araújo e coronel Humberto S. Maito, todos diretores da Associação em tela. O conferencista discorreu sobre a problemática dos discos voadores, transmitindo inúmeras teorias e informações sobre o assunto, tais como fatos ocorridos e testemunhados sobre a aparição dos chamados ‘objetos voadores não identificados’. A posição do orador ficou manifesta sobre a existência de tais objetos, como civilizações de outros planetas e galáxias, parecendo também evidente que a maioria dos presentes é aficionada e crente no assunto. Obs.: A entidade patrocinadora fora fundada anteriormente com a denominação de Associação Brasileira de Estudos das Civilizações Extraterrestres. Atualmente encontra-se semi-inativa, e pelo fato de não dispor de sede, seus sócios, em número reduzido, se reúnem esporadicamente na casa dos seus diretores (agora, na residência de Max Berezovsky, presidente da entidade). Estão em campanha de novos sócios (anuidade de Cr$ 240,00) e pretendem constituir uma sede. Os participantes dessa sociedade, de profissões variadas, como médico, agricultor, advogado, aeronauta etc, parecem exercer essa atividade como ‘hobby’, motivo porque, quando assuntos de maior importância se antepõem, paralisam-se essas atividades. Na ocasião (antes, durante e depois da conferência), não observamos qualquer comentário, atitude ou alusão política”.

Risco à Segurança Nacional

O parecer favorável do agente finalmente convenceu as demais autoridades, trazendo paz aos ufólogos, nove meses depois da abertura dos inquéritos pelo delegado de Guarantã. Encerrava-se assim um dos mais insólitos processos movidos durante o período. Aqueles tempos de perseguições constituíram um excelente laboratório para os órgãos de informação. A paranóia em curso levou os militantes políticos a reconhecerem agentes infiltrados em cada assembléia, cada passeata, cada manifestação, na maioria das vezes acertadamente.

O Estado Brasileiro, ao promover o monitoramento de todas as atividades que julgasse suspeitas, não poupou nem mesmo os indivíduos que não ofereciam quaisquer perigos à ordem política da nação. Ou seria o assunto dos discos voadores que colocava em risco a segurança nacional? De qualquer modo, o caso é a confirmação da conduta extremada de setores engajados na manutenção do status quo em meio a uma guerra ideológica travada sem trégua, estendida a todos os âmbitos da vida da nação.

Biografia dos ufólogos que estiveram na mira do DOPS

Conquanto seja importante analisar os personagens como integrantes de um pequeno grupo obcecado por discos voadores, cumpre-nos complementar os dados já citados. Quase todos são pioneiros no estudo do Fenômeno UFO no Brasil. Juntos pesquisaram, desde a década de 50, centenas de casos tornados clássicos e publicaram uma grande quantidade de artigos, reportagens, boletins, revistas e livros, inclusive no exterior. Proferiram dezenas de palestras e conferências. Segue uma breve biografia de alguns deles.

O médico Walter Karl Bühler, natural da Alemanha, imigrou para o Brasil em 1933, falecendo em 13 de junho de 1996. Fez curso de Aplicação no Instituto Osvaldo Cruz e tornou-se livre docente pela Cadeira de Clínica Cirúrgica da Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil. Começou seus estudos ufológicos em 1950, e em 1957 foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Estudos Sobre Discos Voadores (SBEDV), uma das primeiras entidades civis do gênero a surgir no país, e que editava os referenciais Boletins da SBEDV, os quais traziam estudos completos sobre todos os tipos de casos, principalmente envolvendo humanóides, às vezes até com transcrições completas. Esse boletim durou quase três décadas e era leitura obrigatória dos ufólogos de todo o mundo. Em sua obra O Livro Branco dos Discos Voadores [Petrópolis, Vozes, 1985], Bühler fez um apanhado dos casos que considerava mais relevantes. À frente da SBEDV, Bühler teve a oportunidade de pesquisar aproximadamente uma centena de contatos de graus elevados, dos quais boa parte está publicada em seus boletins.

O professor, físico, ufólogo, parapsicólogo e estudioso da transcomunicação Flávio Augusto Pereira, que era presidente honorário da APEX, fazia parte de seu Conselho Fiscal e coordenava a área de Exobiologia, nasceu em 19 de fevereiro de 1926 na cidade de Batatais (SP). Em 1951, graduou-se pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FCL) da USP. Em 1955 escreveu textos para o jornal O Estado de São Paulo na coluna “Filosofia da Astronáutica”. Em 1957 fundou e começou a presidir a Comissão Brasileira de Pesquisas Confidenciais dos Objetos Aéreos Não Identificados (CBPCOANI). Presidiria também o Instituto Brasileiro de Astronáutica e Ciências Espaciais (IBACE) e a Associação Brasileira de Estudos das Civilizações Extraterrestres (ABECE), entidades igualmente precursoras. Foi diretor da Escola Superior de Ciências de São Paulo, membro Brasileiro do International Institute of Space Law e membro da American Association for The Advancement of Science. Foi Presidente do 7º Colóquio Brasileiro de Parapsicologia, promovido desde 1973 pela Escola Superior de Ciências. Após o precoce falecimento do médico e ufólogo carioca pioneiro Olavo Teixeira Fontes em 1968, assumiu a representação brasileira da APRO, permanecendo na função por 10 anos.

Pereira é autor das obras A Evolução das Atmosferas Planetárias, Especialmente a Terrestre [1946], O Problema Jurídico do Espaço Interplanetário [1957], A Natureza dos Possíveis Organismos Marcianos [1958], A Internacionalização da Lua [1959], Introdução à Astrobiologia [A Sociedade Interplanetária Brasileira de São Paulo editou em 1958 a 1ª edição, e a Livraria José Olympio, em 1959, a 2ª edição] e O Livro Vermelho dos Discos Voadores [Florença, 1966], além de ter prefaciado inúmeros livros, entre eles Eram os Deuses Astronautas? [Melhoramentos, 1968], de Erich von Däniken. Em novembro de 1954, ou em maio de 1958, reunindo 15 estudiosos, efetuou o 1º Colóquio Brasileiro sobre UFOs em São Paulo. Seguiu-se o 2º Colóquio, já com um número bem maior de participantes, em novembro de 1967, também em São Paulo, como os outros – seis ao todo – que se seguiram até o ano de 1975. Em 1971, o major-brigadeiro José Vaz da Silva, convidou Pereira para participar do SIOANI usando à metodologia de O Livro Vermelho dos Discos Voadores. Essas reuniões eram confidenciais e deram início a uma série de encontros ufológicos semanais. Numa dessas reuniões, Pereira viu seu livro sobre a mesa com anotações feitas à mão de casos brasileiros, que curiosamente ele não colocara em seu livro.

Carlos Jacchieri nome citado a seguir – professor de história da cultura e artista plástico, escreveu por sua vez Os Deuses não Eram Astronautas! [São Paulo, Ciência e Progresso, 1971], rebatendo as teorias do livro prefaciado por seu colega. No campo das artes plásticas, Jacchieri documentou o panorama nacional com seus magníficos murais – Banco Itaú-América em Curitiba e São Paulo, Banco Bandeirantes do Comércio, Banco do Estado do Paraná, Santa Casa de Misericórida, etc –, seus altares entalhados em madeira de lei – Colégio da Sagrada Família, no Ipiranga, Capela da Creche Catarina Laboure –, seus vitrais –Cine Bristol, Capela da Cachoeirinha – e seu Cristo Astronauta, realizado em alumínio para a Igreja do Caxingui. No campo das letras filosóficas e científicas escreveu também Duiruna e o Sol, O Evangelho Segundo… Jesus Cristo, O Mito Cristão e o Ser Social, Tratado de Simbólica e Os Mitos brasilíndios do Pecado Original.
Professor de línguas e história natural, Whilhelm Willi Adolf Wirtz, mais conhecido por Guilherme Willi Wirz, nasceu na suíça. Foi secretário-geral da ABECE, correspondente da revista inglesa Flying Saucer Review, editada pelo diplomata e ufólogo Gordon Creighton, e se dedicou de modo destacado à elucidação de vários casos importantes, como o de João Prestes Filho. Conforme ele próprio declarou aos inquiridores, participou do SIOANI.

Luiz Jesus Braga Cavalcanti de Araújo, cirurgião plástico, era o primeiro vice-presidente da APEX.

O entomologista, apicultor e funcionário público Fernando Grossmann ocupava o cargo de primeiro-tesoureiro e coordenava a área de Divologia [Pesquisa de campo] da APEX. Nascido em 18 de setembro de 1932 em Goytacazes, no município de Campos, Estado do Rio de Janeiro, Grossmann começou a se interessar pela ufologia na adolescência, aos tempos do pós-Segunda Grande Guerra, quando acompanhava pelos jornais as primeiras notícias em torno do aparecimento de estranhos objetos voadores nos céus, logo alçados à condição de mito moderno com a repercussão mundial alcançada por casos clássicos como os de Kenneth Arnold e Roswell. Freqüentou a ABECE, e em fins de 1974 participou de uma comissão que extinguiu a ABECE e criou em seu lugar a APEX.

Grossmann investigou casos célebres como o de João Prestes Filho, queimado e morto por uma luz misteriosa em Araçariguama, interior de São Paulo, episódio que serviu de ponto de partida para que elaborasse a “Hipótese Gótica”. Seguidor do norte-americano Charles Hoy Fort (1874-1932), autor de O Livro dos Danados (1919), de quem pegou emprestado a frase “Creio que alguém nos pesca”, foi o primeiro no Brasil a relacionar criptozoologia com ufologia. Trabalhou nos laboratórios do Departamento de Zoologia da Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura em São Paulo, onde teve a oportunidade de conviver com o zoólogo e compositor Paulo Vanzolini, diretor do Museu de Zoologia da USP. Foi secretário de Willi Wirz entre 1973 e 1975.

O médico Max Berezovsky – com quem Suenaga se encontrou pela primeira vez no Arquivo do Estado de São Paulo justamente num dos dias em que realizava pesquisas lá –, nasceu em 25 de fevereiro de 1930 em São Paulo. Formou-se em medicina pela USP em 1956 e desde então atua como clínico geral em seu consultório particular, no Bairro da Lapa, zona oeste de São Paulo. Sempre sentiu grande atração pelo estudo dos fenômenos paranormais e ufológicos e, em 1968, juntamente com outras pessoas interessadas nas investigações desses fatos, fundou e passou a presidir a APEX, entidade modelo que inspirou o surgimento de inúmeros grupos baseados nos mesmos moldes. A APEX costumava conclamar vigílias nacionais por meio da imprensa no intuito de detectar as áreas e os períodos de maior incidência de aparecimentos de UFOs [O primeiro número do Boletim Informativo da APEX foi publicado em novembro-dezembro de 1974]. Berezovsky atuou como hipnólogo juntamente com Mário Nogueira Rangel. Por duas vezes trouxe o astrofísico e ufólogo Josef Allen Hynek (1910-1986) – o “papa da Ufologia” – para São Paulo para participar de fóruns e congressos de ufologia.

Muitos integrantes da APEX, no entanto, não foram citados nos documentos, escapando de serem intimados.

Rubens Junqueira Vilella, formado na Universidade Estadual da Flórida, nos Estados Unidos, ocupava o cargo de segundo presidente da APEX e era professor do Instituto Astronômico e Geofísico (IAG) da USP, atual Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas, e um dos mais notáveis meteorologistas brasileiros. Primeiro brasileiro a pisar no Pólo Sul geográfico, em 1961, Vilella realizou 12 viagens de pesquisa ao continente Antártico, onde inclusive chegou a ver UFOs. Aprendeu a voar de planador para ter um contato “mais íntimo” com a atmosfera e ajudou no planejamento de várias expedições do navegador Amyr Klink. Apaixonado por sua profissão, ele estava disposto a enfrentar mares turbulentos, viajar durante longos períodos e escalar montanhas para conhecer mais sobre os fenômenos atmosféricos, suas conseqüências e implicações.

O redator era Newton C. Braga, nascido em São Paulo em 06-11-1946, cedo iniciou atividades no ramo da eletrônica. Com apenas 11 anos, elaborou uma série inédita de projetos de eletrônica que foram posteriormente publicados numa seção da revista Eletrônica Popular, do Rio de Janeiro. Por influência dos pais, mal terminava o curso colegial e já lecionava em escolas preparatórias aos vestibulares, tendo sido fundador de uma delas no município de Guarulhos (SP). Ingressou na USP, tendo cursado o Instituto de Física e a Escola Politécnica. Já nessa época de estudante, escrevia artigos técnicos de eletrônica para diversas publicações como a revista Monitor e o jornal A Eletrônica em Foco. Foi professor de eletrônica do Colégio Objetivo e realizou pesquisas no campo da Bio-eletrônica na Escola Paulista de Medicina. Publicou diversos artigos no exterior, tendo colaborado com o Boletim da Canadian Broadcasting Co. (CBC). Foi convidado em 1976 a participar de uma nova publicação, tornando-se autor de inúmeros projetos e diretor técnico da conceituada Revista Saber Eletrônica [Da Editora Saber]. Nesse posto, criou nos anos 80 a revista Experiências e Brincadeiras com Eletrônica Júnior e colaborou com a revista Rádio e Eletrônica.

O primeiro secretário e coordenador da área de Física e Tecnologia da APEX era Ademar Eugênio de Mello, nascido em 15 de fevereiro de 1947 e falecido em 2005. Bacharel em matemática aplicada, professor, astrônomo, astrólogo, cabalista, esotérico, pesquisador da psicofilosofia dos kahunas [Sacerdotes] do Havaí, era reconhecido nacionalmente como um dos mais conceituados estudiosos das paraciências. Foi engenheiro da Ford, diretor da Sociedade Uranthia do Brasil, representante da Associação de Estudos Huna e membro da Antiga e Mística Ordem Rosacruz (AMORC).

O segundo secretário era o engenheiro David Berezovsky, irmão de Max. O fotógrafo e gemólogo Bunshiro Tokutake era o segundo tesoureiro. O advogado João Bacic e o coronel Humberto Santos Maito, ex-comandante do Campo de Marte (Cenafor), completavam o Conselho Fiscal. Em 1975-76, Charles Kunzi, engenheiro doutor em ciências técnicas, viria a ser o secretário-geral, e Newton C. Braga, o redator. Em reunião realizada em 16 de janeiro de 1976, ficou instituído o quadro de assessores da APEX, sendo indicados os seguintes nomes: Peter Tasi, Methodios Kalkashlief, Willi Wirz, Salvatore de Salvo, David Berezovsky, Carlos Zumbeira, Paulo Ferraz de Mesquita, José Luiz Zamboni e Newton C. Braga.

O Fenômeno Chupa-Chupa

Os povoados litorâneos e interioranos dos Estados do Pará e do Maranhão inquietavam-se no decorrer dos últimos meses de 1977 com fenômenos bizarros e concordes, aparentemente inspirados nos enredos de filmes de terror: feixes de luz que, projetados por UFOs, queimavam e sugavam o sangue de homens e mulheres. Daí as expressões populares “chupa-chupa” e “aparelho” [“Apareio”, no linguajar de certas regiões maranhenses]. Precedida por um longo período de “incubação”, irrompeu com força e constância sem precedentes. Intrigado, o biólogo e ufólogo Daniel Rebisso Giese, graduado em Biomedicina pela Universidade Federal do Pará em 1983, empreendeu uma demorada investigação. Cinco anos de viagens pelos municípios paraenses, leituras de obras especializadas e incontáveis horas de entrevistas, resultaram num livro essencial, que o título bizarro – Vampiros Extraterrestres na Amazônia – por vezes encobre. O que iremos relatar a seguir se deve e se baseia em grande parte à sua importante pesquisa.

Os fenômenos evoluíram em regiões de difícil acesso do litoral atlântico brasileiro, da Baía de São Marcos (MA), ao delta-estuário do Rio Amazonas, concentrando-se inicialmente em torno da foz do Rio Gurupi e dos municípios de Augusto Corrêa, Bragança, Viseu e a Baixada Fluminense. Entre outubro e dezembro, deslocaram-se para a Baía do Sol, nos municípios de Vigia, Colares, Santo Antônio do Tauá e Belém, com focos esparsos sobre o Baixo Rio Amazonas, entre as cidades de Santarém e Monte Alegre.

Com o fim das prolongadas chuvas de inverno paraense em julho de 1977, a pequena cidade de Viseu, às margens do Rio Gurupi – divisor dos Estados do Pará e do Maranhão –, que desemboca no Atlântico, vivia dias ensolarados. As noites seriam normais não fossem aquelas estranhas luzes coloridas se movimentando no firmamento. Luzes incomuns, silenciosas, extremamente ágeis. “Isso é coisa do final dos tempos”, proclamavam os apocalípticos. Com a abertura, ao amanhecer, das portas do Mercado Municipal de Viseu, ouviam-se as primeiras notícias do dia. Colonos dos vilarejos de Curupati, Urumajó e Itaçu se referiam a uma luz capaz de paralisar e drenar o sangue e a energia das vítimas.

O prefeito Carlos Cardoso Santos e o delegado de Polícia, sargento Sabino do Nascimento Costa, atribuíram os fatos à fantasia, em consonância com José Giambelli, barnabita e pároco da Igreja Nossa Senhora de Nazaré, que, sem controle sobre os fiéis agora engajados em rezas e novenas com vistas a afastar a “luz diabólica”, comentou: “Olha gente, estou aqui há cinco anos e nunca vi nada de anormal; essa luz é simples imaginação da gente interiorana. Já tinha escutado boatos semelhantes há três meses atrás, mas do outro lado do Gurupi”.

O Jornal da Bahia antecedia a onda “chupa-chupa” em 12 de julho: “A história fantástica de um objeto voador que emite luz forte e suga o sangue das pessoas, circula de boca em boca entre a população dos municípios de Bragança, Vizeu e Augusto Corrêa, no Pará, onde muita gente teme sair de suas casas durante a noite para não ser apanhado pela vampiresca luz do objeto que, segundo as informações, já teria causado a morte de dois homens. Ninguém sabe como a história começou, mas a verdade é que ela chegou a Belém e ganhou manchete nos jornais locais”.

Noites intranqüilas as de julho. As crianças, recolhidas em casa, não saíam para brincar nas ruas. Os adultos evitavam passear e os pescadores deixaram de freqüentar o mar. Os vilarejos em alerta e vigília constante. Rezas e fogos de artifício, tudo era válido para afugentar as “luzes vampirescas”. Segunda semana de julho: o fenômeno adquiria contornos inusitados estendendo-se aos municípios da baixada maranhense de Pinheiro, São Bento, São Vicente de Ferrer e Bequimão.

O Estado do Maranhão, de 17 de julho: “O aparecimento nos céus deste município –Pinheiro – de um UFO está causando suspense e pânico entre a população e estimulando imaginações a ponto de haver quem afirme que o aparelho não identificado estonteia e retira o sangue com um jato de luz”. O mesmo jornal, em 20 de julho: “Está definitivamente confirmada a presença nos céus da baixada de um estranho UFO. A população de São Luís vai ter a oportunidade de confirmar isso quando vir o filme feito pelo cinegrafista da TV-Difusora. O UFO que tem sido visto por milhares de pessoas dessa região e mais insistentemente entre Pinheiro e São Bento, é semelhante a um Y e emite uma chama na parte inferior. O ambiente é de generalizado temor e as pessoas não ousam sair à noite em face dos rumores de que o UFO emite um jato luminoso de intenso calor”. Em 27 de julho, o jornal informava que Coucima Gonçalves da Silva, residente no povoado Boa Vista, em Bom Jardim, cuidava dos afazeres domésticos quando foi atingida por um raio que a fez desmaiar. Internada na Casa de Saúde Santo Antônio, em Santa Inês, recuperou-se graças aos cuidados do médico Pedro Guimarães.

O pânico e o medo instaurados mobilizaram a III Zona Aérea e as autoridades municipais – prefeitos e delegados de Polícia –, que se pronunciaram a favor da existência dos aparelhos. Na última semana de julho, a própria Polícia foi seguida por um UFO no percurso entre o vilarejo de Paca e a sede do município de Pinheiro. O prefeito deste solicitou o auxílio da Aeronáutica. O Liberal, de 29 de julho, atestou que “O comunicado foi recebido e as autoridades providenciaram o envio do expediente do prefeito à Base Aérea de Recife, de onde seguiu ao Ministério da Aeronáutica”.

Os moradores, precavidos, se protegiam dormindo na companhia de parentes ou evitando sair à noite sozinhos. Por dois meses, os ataques das luzes cessaram quase que completamente, transmitindo a falsa impressão de que haviam ido embora. As primeiras notícias do que Giese convencionou chamar de “segunda fase” vieram do vilarejo de Umbituba, no interior de Vigia, habitado por poucas dezenas de famílias que sobreviviam da pesca e da lavoura. O único contato com as outras vilas era feito através dos rios ou pelo estreito ramal na altura do km-32 da rodovia estadual PA-140.

A manchete de O Liberal, em 08 de outubro: “Bicho sugador ataca mulheres e homens em povoado de Vigia”. A reportagem dizia que “Um estranho fenômeno vem acontecendo há várias semanas no município de Vigia, mais exatamente na vila Santo Antonio do Umbituba, a cerca de sete quilômetros da Rodovia PA-140. Um objeto foca uma luz branca sobre as pessoas imobilizando-as por cerca de uma hora, e suga os seios das mulheres, que ficam a sangrar. O objeto conhecido pelos moradores como ‘bicho voador’ ou ‘bicho sugador’ tem o formato de uma nave arredondada e ataca as pessoas, principalmente mulheres desacompanhadas, apesar de ter atacado alguns homens também […] Uma das vítimas foi a senhora Rosita Ferreira, casada, 46 anos, residente no Ramal do Triunfo, que teve o seio sugado pela luz dias atrás, por volta das 03h30. Parecia tratar-se de um pesadelo, e sentia como se algumas unhas tentassem segurá-la”.

Em 15 de outubro, O Liberal usava pela primeira vez o termo “chupa-chupa”, que confere com a idéia de que os objetos sugavam a energia humana. A presença de UFOs também foi uma constante na pequena colônia Coração de Jesus, interior do município de Vigia, e em regiões desde a Baixada Maranhense até a Baía de Marajó (PA). Além de esferas luminosas foram observadas naves que lembravam helicópteros, pipas e peixes como as arraias.

Todos os anos, no segundo domingo de outubro, Belém se transforma no maior centro religioso do país, com a procissão do Círio de Nossa Senhora de Nazaré. As festividades religiosas atraem milhares de fiéis de todas as partes do mundo, em especial do interior do Estado. Alguns peregrinos de Salgado e da zona Bragantina, onde estão os municípios de Vigia, Maracanã, Bragança, Viseu e outros, interpretaram as “luzes vampirescas” como “sinais do Apocalipse” ou “manobras do demônio”.

Os apavorantes fenômenos urgiam uma explicação, mas nenhuma autoridade parecia disposta a isso. A Universidade Federal do Pará, a exemplo de outras instituições acadêmicas, simplesmente fechou os olhos, numa atitude negligente e irresponsável. A Câmara Municipal de Belém, por meio dos vereadores Adamor Filho e Elói Santos, solicitou uma investigação imediata. A Aeronáutica preferia o silêncio, como atestou em 19 de novembro de 1977 A Província do Pará: “As autoridades aeronáuticas procuradas pela reportagem responderam que não há nada de oficial sobre o assunto, limitando-se laconicamente a essa resposta prudente”.

A mesma reportagem publicava, pela primeira vez, uma fotografia mostrando as lesões causadas pelo “chupa-chupa” em Aurora do Nascimento Fernandes, uma jovem de 18 anos residente em Passagem Tabatinga, no bairro do Jurunas (Belém-PA). Por volta das 21h00, uma forte luminosidade avermelhada acompanhada de uma corrente de ar frio atingiu Aurora, que lavava louça, deixando-a atordoada. Sentindo “furadas muito finas” em seu seio, caiu desmaiada. O médico que a examinou, Orlando Zoghbi, diagnosticou um quadro de histeria e pânico, alimentado pela psicose coletiva em torno do “chupa”. Para ele, os ferimentos haviam sido auto-inflingidos pela própria paciente que contraíra as mãos em garra sobre a mama num ato instintivo de proteção à suposta investida do “chupa”. Giese discordou do laudo, “haja vista que as feridas não possuíam configuração ungueal e as marcas eram concentradas e profundas – como biópsias –, dentro de uma área pequena, não havendo vestígios de arranhões”. Com as manchetes de 19 e 20 de novembro em A Província do Pará, as notícias cessam definitivamente e pouco se ouve falar a respeito. O quadro volta à “normalidade” e o povo permanece na ignorância, sem saber o que realmente ocorrera.

A faixa litorânea que se estende de São Luís (MA) a Belém, agrupa inúmeras ilhas, algumas habitáveis, uma das quais se destacou no contexto do fenômeno: Colares (PA). Isolada do continente pelas águas do rio Guajará-Mirim, mantinha relativa proximidade com os municípios de Vigia e Santo Antonio do Tauá. O transporte fluvial ou marítimo viabilizava o comércio de pescado com os principais portos da região. Via terrestre, o acesso era feito pela Rodovia Estadual PA-238. Os veículos se deslocavam por 13 km de chão batido, até a asfaltada Vila de Colares, sede do município.

A ilha, com 290 km2, abrigava comunidades como Mocajatuba, Fazenda, Jaçarateua, Arari, Guajará e outras de difícil acesso. Parte da população exilou-se, temporariamente, em locais que ofereciam maior segurança. Os que permaneceram uniram forças contra os UFOs. O delegado de Colares, Olímpio de Almeida Martins, declarou que “não dava para dormir direito por causa da zuada dos fogos de artifício que o povo lançava na tentativa de afugentar os objetos, que não eram poucos. Lembro-me de que vieram várias pessoas queimadas do interior da ilha”. O prefeito Alfredo Bastos Filho confirmou: “Realmente não havia sossego, o povo estava assustado com aquela história do ‘chupa-chupa’. Inclusive cheguei a ver uma das vítimas, dona Mirota, que foi atendida na Unidade Mista de Saúde”.

As famílias evitavam sair à noite e procuravam dormir na companhia de parentes ou amigos. Os homens montavam vigílias junto às fogueiras acesas nas ruas. Ante a aproximação do aparelho, batiam latas e detonavam fogos de artifício. Constatou-se que eles retornavam assim que as fogueiras e os fogos de artifício eram consumidos, depreendendo-se daí certa suscetibilidade às fontes de luz e calor.

O grau de saturação atingiu níveis tão elevados em determinadas regiões, que raramente passava-se uma noite sem a visita dos UFOs. Um dos epicentros foi a Baía do Sol, mais especificamente a Ilha de Mosqueiro, de maior extensão geográfica, pertencente a capital Belém. O acesso a Mosqueiro – recanto turístico famoso pelas praias de água doce – era facilitado, quer por via rodoviária, quer fluvial. Os primeiros indicativos do fenômeno vieram de Tapiapanema, pequena comunidade isolada num dos braços do Rio Pratiquara. O Estado do Pará de 01o de novembro de 1977, reportava que a grávida Sílvia Mara, 17 anos, fora atacada por “personagens que se aproximaram da casa portando objetos dourados – semelhante a lanternas – com os quais focavam as frestas da casa”. Atingiram o braço esquerdo da moça, à altura do pulso: “As veias pareciam saltar do corpo, tão intumescidas ficaram”. O marido Benedito Campos Trindade, 24 anos, também foi atingido por um foco de luz. O casal ficou hospitalizado durante três dias na Unidade Mista, período em que Sílvia correu sérios riscos de abortar. Já Benedito, com as funções motoras afetadas, entrou em depressão e padeceu de crises freqüentes de choro.

Durante o tempo em que esteve lotada na Unidade Sanitária de Colares, a médica Wellaide Cecim Carvalho, sanitarista e diretora do Departamento de Programas Especiais da Secretaria Municipal de Saúde de Belém, nomeada pela Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (SESPA) em 10 dezembro de 1976, teve a oportunidade de tratar as vítimas dos UFOs, além de ser ela própria uma testemunha do fenômeno. Giese entrevistou-a em 1984, obtendo um depoimento valioso. Em setembro de 1977, logo após a Semana da Pátria, Carvalho começou a ser procurada por moradores que se diziam atacados por uma luz que chamavam de “chupa-chupa”. Aquilo que para ela não passava de crendice popular, tornou-se insistente. Quase que diariamente examinava lesões sem precedentes nos seus livros de medicina. Segundo ela, “as queimaduras assemelhavam-se às produzidas pelas bombas de cobalto. Na primeira fase havia uma intensa vermelhidão na área atingida [Hipermia]; posteriormente, os pêlos caíam [Alopecia] e a pele descamava. Nesse estágio discernia-se dois pontos bem próximos, iguais a picadas de agulha [Papilas locais]”. Durante sua permanência na Unidade Sanitária de Colares, a médica realizou exames de sangue em algumas das vítimas. Os resultados indicaram baixo teor de hemoglobina e redução do número de hemácias. Calcula que medicou cerca de 35 vítimas – homens e mulheres de diferentes faixas etárias, e nunca crianças –, quase todas atingidas nas regiões do tórax e da face.

A partir de meados de novembro, os casos se tornaram raros. Apesar disso, a população fugia em massa da ilha, aumentando o afluxo de ônibus. O delegado abandonou o posto; a Prefeitura e as escolas fecharam. Apenas o Posto de Saúde continuou funcionando. “A Vila de Colares estava desolada. A população, histérica, não dormia à noite. Os que não eram atacados passavam mal com medo de serem vítimas do ‘chupa-chupa’. Até eu procurei me ausentar da ilha. Pedi licença à Secretaria de Saúde, mas o pedido foi negado”, declarou Wellaide. Quase todos os sábados, o prefeito de Colares ia a Belém comprar pistolas e fogos de artifício. Distribuía o material aos moradores e mandava que juntassem latas. Ao cair da tarde, todos começavam a vedar os orifícios de suas casas, de modo a impedir a penetração dos raios do “chupa”. O barulho das latas e das pistolas prosseguia até o amanhecer.

Eis a ocasião em que a médica viu pessoalmente um UFO: “Às 18h00 voltava com a minha empregada da casa de um paciente, quando ela começou a puxar minha roupa e a falar: ‘doutora’… doutora’… De repente desmaiou. Olhei para o céu e presenciei a coisa mais linda e fantástica da minha vida: um cilindro voador emitindo uma luz clara, descrevendo movimentos espirais”.

A equipe da Aeronáutica chegou à ilha nos primeiros dias de outubro, em dois carros: “Havia entre 10 a 15 oficiais, a maioria tenente, com idades em torno dos 40 anos. Não eram paraenses e sim do sul do país. Estavam equipados com aparelhos sofisticados como câmeras fotográficas e telescópios. Montaram duas barracas: uma na beira da estrada e outra na praia. Andavam à paisana e entrevistavam todo mundo. Eu e o padre fomos os primeiros a prestar depoimentos, debaixo de muito sigilo: ‘Por favor, me descreva… não diga nada a ninguém…’. A população não podia chegar perto dos acampamentos e à noite escutava ruídos de câmeras e filmadoras. Em 11 de novembro pedi transferência à cidade de Ourém (PA), onde tratei de duas pessoas queimadas pela luz”.

Operação Prato

A ostensiva invasão do espaço aéreo e a pressão dos prefeitos dos municípios conflagrados, instaram a intervenção da FAB. O QG do Primeiro Comando Aéreo Regional da Aeronáutica (I COMAR), sediado em Belém, acionou a 2a Seção (A-2), responsável pelo Serviço de Informações, exigindo um relatório completo que obedecesse três diretrizes: “1) O fenômeno deverá ser analisado profunda e objetivamente; 2) Todas as informações deverão ser investigadas e selecionadas, conforme o grau de importância; 3) Pronunciamentos e comentários públicos deverão ser evitados”. A 2a Seção destacou duas equipes de sub-oficiais, cada qual composta por quatro a seis homens distribuídos em pontos estratégicos e munidos de equipamentos adequados – binóculos, câmeras, teleobjetivas, filmadoras super-8 e rádios-transmissores – para um perfeito registro dos fenômenos. Helicópteros tipo Bell eram usados para o deslocamento das equipes em regiões de difícil acesso.

Objetivava-se colher o maior número possível de dados, razão porque as equipes selecionavam áreas endêmicas onde mantinham postos fixos de observação – junto a vilarejos, às margens dos rios ou no interior da selva. No início de novembro, concentraram-se em diversos pontos da Ilha de Colares; em dezembro, na Baía do Sol e no Rio Guajará, no município de Ananindeua (PA), este último palco de um contato imediato do terceiro grau.

No dia 02, Domingos Pereira Rodrigues, seu irmão Luís e Marcos Sebastião, que trabalhavam na Olaria Keuffer, se dirigiram às margens do rio em busca de barro. O nível baixo das águas impediu o barco de retornar ao porto de origem. Com a chegada da noite, Luís resolveu caçar, munido de uma velha espingarda. Subiu em um mutá [Pequena armação de paus suspensos, feito no mato ou à beira d’água, usada para auxiliar a caça ou a pesca] armado ao lado de uma árvore frondosa, e ali ficou aguardando. Por volta das 20h00, Luís foi surpreendido por um clarão tão intenso quanto o nascer do sol. Dentro da luz abriu-se uma “porta”, através da qual uma criatura envergando roupa colante – parecida com a dos mergulhadores – saiu flutuando e lançou um raio luminoso na direção de Luís, que correu de volta ao barco, gritando pelos seus companheiros. Estes, ao verem que se tratava do aparelho, abandonaram a embarcação e se esconderam na várzea. O incidente chegou ao conhecimento da Aeronáutica que, impressionada, manteve um posto de observação por duas semanas no local.

A maioria das fotos do I COMAR foram justamente obtidos nas adjacências de Colares, da Baía do Sol e do Rio Guajará. Empregaram-se filmes preto e branco de alta sensibilidade ISO-400 e ISO-1000, infravermelhos capazes de captar fontes térmicas invisíveis, e cerca de 100 m de películas super-8 coloridas. As câmeras fotográficas Minolta e Nikon, adaptadas a tripés, eram dotadas de objetivas com zoom de 100-200 mm e teleobjetivas de grande alcance, permitindo a produção de cerca de 300 fotos por noite. Algumas imagens mostram uma intensa luz difusa em torno dos objetos, enquanto em outras apenas os contornos são discerníveis. Naves-mãe aparecem liberando objetos menores, que por sua vez surgem voando em conjunto, entrando e saindo de nuvens. Especialistas do Centro de Investigação e Segurança da Aeronáutica (CISA), de Brasília, igualmente estiveram em Belém. Relatórios e fotos, devidamente classificados, seguiram para o EMA, na capital federal.

A Operação Prato, assim alcunhada numa alusão ao formato dos discos voadores, estendeu-se por três meses, de outubro a dezembro, resultando num documento final de aproximadamente 500 páginas compreendendo centenas de fotos, desenhos, mapas, reportagens jornalísticas e dados complementares. Cinco filmes de curta-metragem 8 mm evidenciam cabalmente a existência concreta do fenômeno. Em princípio, os membros da comissão pensaram em tornar público o documento. Todavia, circunstâncias históricas desfavoráveis – o momento político não era propício, perdurava a censura e a repressão do regime militar etc –, somadas ao fato de que as conclusões não eram 100% satisfatórias – as Forças Armadas não pretendia expor-se à incompreensão e à ironia de setores oposicionistas, principalmente radicais de direita e de esquerda –, impediram a abertura.

O sigilo foi quebrado por um informante do COMAR de Belém, que passou parte dos documentos a Giese, que por sua vez os repassou a Gevaerd, que optou por publicá-los em sua versão original, na forma de fac-símile, na edição no 2 da revista UFO Documento, de agosto-setembro de 1991. Transcreveremos aqui alguns trechos no intuito de fornecer uma amostra de seu eloquente conteúdo:

“Cumprindo determinação da chefia do A2, a equipe de operações, constituídas pelos agentes 1S MT Flávio [Suboficial João Flávio de Freitas Costa], 2S HAV Almeida e 3S DT Pinto, deslocou-se para cobrir a área dos municípios de Vigia, Colares e Santo Antonio do Tauá, percorrendo diversas localidades e povoados, com o objetivo de: através de busca intensiva de informações, aliada às observações e registros cines-fotográficos efetuados pelos elementos da equipe, esclarecer o que de real existe sobre os aparecimentos e movimentação, em nosso espaço aéreo inferior, dos chamados UFOs, vulgarmente denominados de ‘luz’, ‘objeto’, ‘aparelho’, ‘bicho’, ‘chupa-chupa’ […], e abreviado pela gente simples do interior como ‘chupa’. A equipe ouviu testemunhas oculares e pessoas que se dizem ‘atingidas’ por um ‘foco de luz’ proveniente de um corpo luminoso de origem e características desconhecidas; as pessoas são de diferentes níveis culturais – pescadores, lavradores, médicos, aviadores, padre e físico”.

“Local: Santo Antonio do Tauá-PA. Testemunha: Manoel Espírito Santo; idade: 20 anos; instrução: primária. Data/hora da ocorrência: 12-10-1977, às 23h30. Encontrava-se em frente a sua residência juntamente com alguns amigos – Júlio, Paulo, Deca e Carlito –, quando percebeu uma luz amarelada que se deslocava no sentido E/W [Nascente/poente], diminuindo a velocidade e quase parando a cerca de 20 m do grupo; disse que percebeu então que a ‘luz’ era tripulada por dois elementos de aparência humana, sendo que o ‘homem’ ocupava o lado esquerdo e a mulher o lado direito do ‘aparelho’. Ambos portavam óculos de formatos diferentes e equipamento de intercomunicação; o elemento da esquerda levou as mãos aos ‘óculos’ como se observasse mais atentamente ao grupo de pessoas; no mesmo instante o outro, através de um tubo existente na lateral, dirigiu um feixe luminoso de cor vermelha em direção ao grupo; tendo sido atingido diretamente, sentiu um forte abalo – como choque elétrico –, dos pés a cabeça; sobreveio então a paralisação – imobilidade dos membros inferiores e superiores – e semi-inconsciência. O aparelho afastou-se gradativamente aumentando a velocidade. Manoel voltou a movimentar-se, sentindo-se, porém, como que entorpecido durante alguns minutos”.

“Local: Santo Antonio do Tauá-PA. Testemunha: Alzira Farias de Campos; idade: 55 anos; instrução: primária. Data/hora da ocorrência: 13-10-1977, às 23h30. Alzira, ao sair para o quintal de sua residência, notou uma grande luminosidade que vinha do alto por sobre uma mangueira de 20 m de altura; assustou-se e correu para o interior da residência, tendo antes sido atingida em sua perna esquerda por um ‘foco’ de luz avermelhada, caindo por cima de um banco existente na cozinha; que sentiu a partir de então um amortecimento progressivo, como um calafrio que percorreu seu corpo dos pés a cabeça; foi socorrida por sua filha; posteriormente sobreveio dor de cabeça, tremores e dormência no corpo que duraram uns oito dias.”

“Local: Colares-PA. Testemunha: Wellaide Cecim Carvalho; idade: 24 anos; instrução: superior, médica, clínica geral. Data/hora: 15 e 22-10-1977, às 18h30 e 19h30. Wellaide afirmou ter visto e observado nos dias e horas respectivamente citados, objeto luminoso de brilho metálico fazendo evoluções sobre a parte frontal da cidade, na Praia do Cajueiro, a baixa altura – 100 m –, a uma distância estimada de 1.500 m, sem produzir o mínimo ruído. Descreveu os objetos assim: forma cônica-cilíndrica [Parte superior mais estreita], tamanho aparente em função da distância, três metros de comprimento por 2 m de diâmetro; movimentando-se de maneira irregular – posição vertical em função do seu eixo longitudinal –; balanceios laterais acentuados, entretanto vez ou outra efetuava ligeiras paradas e dava uma volta sobre si mesmo. Disse ter observado nitidamente, estando na ocasião em companhia de outras pessoas em frente à unidade hospitalar local. Entrevistada por elementos da equipe, entre outras coisas disse que: A fim de preservar sua reputação ética profissional, deixou de fazer uma comunicação mais completa com referência às pessoas que se dizem atingidas por um ‘foco de luz’ de procedência desconhecida – quatro casos que atendeu. Disse que, além de crise nervosa, seus pacientes apresentavam outros sintomas […]: cefaleia, astenia, tonturas, tremores generalizados, queimaduras de 1o grau, bem como marcas de micro-perfurações. De acordo com o sexo, os homens no pescoço – jugular – e as mulheres no seio – só um caso. Pediu reservas ao externar sua opinião pessoal”.

“Obervações da Equipe A2. Local: Santo Antonio do Ubintuba. Data/hora: 22-10-1977, às 19h00. Observados dois corpos luminosos deslocando-se em altitude superior, acima de 10 km, trajetória regular, movimento uniforme, no sentido W/E, distância aparente de três metros entre os elementos, seguiam rota paralela com um dos elementos ligeiramente recuado”.

“Data/hora: 01-11-1977, às 19h00. Colares. Pela primeira vez, elementos da 2a Seção observaram a baixa altitude – 1,8 a 2,7 km –, o deslocamento de um corpo luminoso – ‘luz’ – à distância de 4 km – visão inicial –, com tamanho aparente estimado em dois centímetros; cor amarelada, brilho e intensidade variável – farol quarto-iodo. No início como uma estrela brilhante, diferente porém por emitir lampejos compassados, de cor azul-violeta, vôo picado em suave curva para a esquerda, cruzando na vertical a 1,3 km, sendo seu tamanho aparente estimado em oito centímetros. […] À meia distância notava-se uma cúpula – semicírculo – muito fina sobre a parte superior. A passagem durou aproximadamente 45 segundos [1S Flávio]”.

Coronel Uyrangê Hollanda

O oficial que estruturou, organizou e comandou a Operação Prato foi o coronel Uyrangê Bolivar Soares Nogueira de Hollanda Lima. Em setembro de 1997, aos 57 anos, aposentado desde 1992 e na reserva, revolveu finalmente sair do silêncio forçado de duas décadas. Não tomou tal atitude por acaso. Hollanda vinha acompanhado a revista UFO desde seu lançamento em 1985, época em que ainda se chamava Ufologia Nacional & Internacional. Em 1988, na busca de informações sobre a Operação Prato, Gevaerd e sua equipe contataram-no em Belém. Ao ensejo, Hollanda os recebeu com formalidade em seu posto no I COMAR, sem declinar nada. No início da década de 90, já prestes a aposentar-se, encontraram-se casualmente, trocando poucas idéias. Em setembro de 1997, Hollanda e alguns consultores da revista UFO estiveram no programa Fantástico, da Rede Globo, que na ocasião produzia uma matéria sobre o sigilo imposto pelos governos. Hollanda sentiu então que o momento era propício para falar. Na segunda-feira seguinte ao programa, telefonou colocando-se à disposição da revista.

Sem temer eventuais punições por parte de seus superiores, desafiou: “Estou na reserva, cumpri minha missão para com a Aeronáutica. O que eles podem fazer? Me prender? Duvido!”. Gevaerd e o ufólogo Marco Antonio Petit entrevistaram-no em seu luxuoso apartamento à beira-mar, em Cabo Frio, litoral do Rio de Janeiro. Hollanda teve a oportunidade de não apenas conhecer a fundo o fenômeno, mas de viver ele próprio dezenas de experiências à curta distância. Em 36 anos de atividades militares, desempenhou funções de vão de coordenador de Operações Especiais na Selva a chefe do Serviço de Intendência do I COMAR e chefe do Serviço de Operações de Informação (A2). Admitiu que “a Operação Prato tinha o objetivo de desmistificar as aparições na Amazônia. Eu mesmo era céptico a respeito disso. Mas depois de algumas semanas, quando os UFOs começaram a aparecer de todos os lados, enormes ou pequenos, perto ou longe, não tive mais dúvida”.

Ao chegar em Brasília, já havia agentes sendo enviados ao norte para investigar as ocorrências que há tempos atormentavam. “O prefeito de Colares mandou um ofício ao comandante do COMAR notificando que os UFOs atacavam os pescadores. Alguns não conseguiam mais exercer suas profissões. Os moradores não dormiam em paz. Em vigília, acendiam fogueiras e soltavam fogos para afugentar os invasores. Diante desse quadro, o brigadeiro incumbiu-me da missão”.

Quando a Operação foi concebida, Hollanda fazia um curso em Brasília, apesar de estar lotado em Belém. Retomando o posto, apresentou-se ao chefe da 2a Seção do COMAR, o coronel Camilo Ferraz de Barros, que lhe perguntou se acreditava em discos voadores. “Foi meio de surpresa. Eu nem sabia que o assunto andava sendo pesquisado. Quando respondi que sim, ele falou: ‘Então você está encarregado deste caso’, e me deu uma pasta com o material. Era o início da Operação, que ainda não tinha nome”. Hollanda resolveu batizá-la de Operação Prato porque o Brasil era o único país no mundo a chamar o UFO de disco voador. Em francês é soucoupe volante [Pires]. Os portugueses o chamam de prato voador. Na Espanha é platillo volador. Até em russo é prato, e não disco. “E como nas Forças Armadas costumamos atribuir códigos às operações secretas, nesse caso não podia ser diferente. De qualquer maneira, não poderíamos chamá-la de Operação Disco Voador”. Designou-se uma equipe, chefiada por Hollanda, composta de cinco agentes, todos sargentos, que trabalhavam na 2a Seção do COMAR, e vários informantes. “Às vezes eu dividia a equipe em duas ou três posições diferentes na mata. Ficávamos em permanente contato uns com os outros através do rádio”.
Lograram obter um total de mais de 500 fotos. Gastaram dezenas de rolos de filmes, uma caixa de papelão cheia deles. Milton Mendonça, perito em fotografia e cinegrafista da TV Liberal de Belém, tornou-se um colaborador essencial, participando de algumas vigílias e instruindo-os acerca do modo correto de usar filmes infravermelhos, ultravioletas etc. “Tínhamos máquinas fotográficas Nikon profissionais, com teleobjetivas de 300 a 1.000 mm. Era um terror trabalhar com elas, por causa do foco, rapidíssimo. Qualquer ‘bobeada’, qualquer movimento em falso, e perdíamos os UFOs”. A incidência do fenômeno era diária e chegaram a classificar nove formas de objetos, desde sondas a naves-mãe de onde saíam objetos menores, tudo devidamente filmado.

A população nada sabia sobre a Operação, embora visse os militares circulando. Alguns sabiam que existia uma Operação, só não sabiam o nome. “Outras sabiam de pequenos detalhes, como o fato de eu ser capitão, ou de fulano ou sicrano ser sargento, mas ninguém sabia dos resultados da missão. Apenas desconfiavam que estávamos investigando. Só!”. Hollanda tinha amigos no SNI, que, se por lado não tomaram parte na Operação, por outro chegaram a acompanhar algumas missões. “Os agentes eram nossos conhecidos, manifestavam curiosidade, por isso iam conosco. Quando pediram para ir, eu disse que não havia problema, desde que autorizados por seu superior – o chefe do SNI em Belém era o coronel Filemon”. Hollanda foi bastante assediado pela imprensa. “No entanto, não podia falar nada na época, tinha obrigações militares. Quatro meses depois, a Aeronáutica interrompeu a Operação. O comandante, o brigadeiro Protásio Lopes de Oliveira, ficara satisfeito com os resultados e não me competia julgar se isso era certo ou errado”.

Em meados de agosto de 1997, Gevaerd enviou reservadamente a alguns consultores da revista UFO cópias de documentos – incluindo mapas, croquis e desenhos – inéditos da Operação Prato. Nos informes e relatórios constam os nomes de João Flávio de Freitas Costa [Chefe da Equipe A2] e Uyrangê Bolivar Soares Nogueira de Hollanda Lima. Transcrevo aqui um deles: “Local: Colares – PA. Latitude: 00o 52’40’S. Longitude: 048o 31’00’W. Data: 23-11-1977. Hora estimada: 21h30/22h30. Condições meteorológicas: céu claro. Relato 59A – CL 8 – F 44. Antonio Ferreira, 35 anos, alfabetizado, pintor. Objeto Aéreo – não era avião –, de forma oval-cilíndrica, cor vermelha e brilho metálico na parte superior; deslocava-se com grande velocidade – maior que a de um avião a jato –, no sentido SE/NE, a baixa altura –1.000/1.200 m –, passando à distância de 1.500 m do observador; media aproximadamente um metro de comprimento por 50 cm de largura – diâmetro –; movimentava-se de maneira irregular, o que chamou a atenção do relator; tal qual uma folha ao vento, parava rapidamente, girava e se deslocava com velocidade, como se recebesse impulsos; após efetuar várias evoluções, aumentou sua velocidade e em linha reta desapareceu para o lado do nascente, um pouco para o norte (NE). NB – O relator se encontrava sozinho, mas acredita que outras pessoas também viram o objeto”.

Em 02 de outubro de 1997, poucas semanas depois de conceder a entrevista, o coronel Uyrangê foi encontrado morto em seu apartamento, num aparente suicídio. Assim que souberam da tragédia, os ufólogos procuraram os familiares para obterem esclarecimentos, mas estes haviam viajado, e não quiseram ou nada puderam dizer. Até o momento, não se sabe ainda as circunstâncias que cercaram o suposto suicídio. Que motivos teria o coronel Uyrangê para tirar a própria vida? Casado pela segunda vez, com uma boa aposentadoria, vivendo à beira-mar em Cabo Frio? Justamente ele, que acabara de resolver contar tudo o que sabia para os ufólogos? Quis ele deixar seu depoimento como um legado, já planejando matar-se em seguida? Estaria ele com uma doença terminal? Ou teria sido uma “queima de arquivo”?

O Vôo 169

Às vésperas do Carnaval de 1982, na madrugada de segunda-feira, 08 de fevereiro, o Boeing 727 da Viação Aérea de São Paulo (VASP), Vôo 169, decolou do aeroporto Pinto Martins, em Fortaleza, com destino a São Paulo. Decorridos exatos 82 minutos, às 03h12, quando sobrevoava os arredores de Petrolina e Bom Jesus da Lapa, sul da Bahia, à altitude de 10 km e velocidade de 975 km/h, o comandante Gerson Maciel de Britto, 45 anos, piloto há 30 anos e funcionário da VASP desde 1960 – na qual acumulara uma experiência de cerca de 17 mil horas de vôo –, avistou à esquerda “uma sinalização luminosa”. Surpreso, contatou o Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta) de Brasília, que lhe certificou não ter detectado tráfego na rota assinalada. O objeto emitia luzes em tons variados – vermelhas, alaranjadas, azuis e brancas.

Os comandantes de um Boeing das Aerolineas Argentinas, com o mesmo prefixo da VASP, e de um jato da Transbrasil, de prefixo 177, entraram na frequência informando que também testemunhavam o fenômeno. Sobre Belo Horizonte, o UFO atingiu o ápice da aproximação, sendo detectado pelos radares de Brasília. O controlador notificou que havia captado um objeto a 12 km da aeronave, ambos no quadrante 09h00.

Leitor ávido de revistas de Ufologia, essa era a quarta vez que Britto vivenciava uma experiência do gênero. No segundo semestre de 1978, ao decolar de Belo Horizonte, ele e os pilotos de um jato da Panamerican, da Transbrasil e de um Lear Jet da Líder, avistaram uma luz semelhante. Por esse motivo, estava “psicologicamente preparado”. Com insistência, tentou estabelecer uma comunicação, piscando alternadamente os faróis, mas não foi correspondido.
Avisados por Britto, os 140 passageiros disputavam as janelas para ver o UFO. Apenas três não se levantaram das poltronas: Dom Aloísio Lorscheider, cardeal-arcebispo de Fortaleza, Dom José Terceiro, bispo-auxiliar de Fortaleza, e Dom Milton, bispo de Crato (CE). “O comandante falou de um objeto nos seguia, pelo lado esquerdo. Como eu estava do lado direito, quase dormindo, pensei: deixa esse disco voador para lá”, declarou Lorscheider, que rumava a Itaici para participar da 20a Assembléia-Geral da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Ao desembarcar, fugiu ao assédio da imprensa e se recolheu a um dos apartamentos do mosteiro, onde descansou por recomendações médicas –cardíaco, Lorscheider já havia implantado uma ponte de safena.

A passageira Silésia Barbosa Paes del Rosso, por sua vez, foi a que mais se deslumbrou, tendo feito a seguinte descrição aos jornalistas aglomerados no aeroporto de Congonhas: “O objeto lembrava um lustre achatado, virado para cima, e brilhava como uma dessas lâmpadas de vapor de mercúrio que iluminam as vias públicas”.

O UFO acompanhou o Boeing durante uma hora e 25 minutos. Três minutos antes da escala programada na pista 14 do Aeroporto do Galeão, Britto viu o UFO pela última vez, alertando a torre. Uma esquadrilha da FAB decolou imediatamente da Base Aérea de Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro, sem resultados. Antes de seguir para São Paulo, o comandante foi informado de que há dois dias uma luz estranha vinha sendo observada e que por isso os caças estavam de prontidão para qualquer eventualidade.

Mílton Missaglia e Mário Pravato, comandantes do Boeing 727/100 da Transbrasil, que fazia a rota Manaus-Rio de Janeiro, com escala em Brasília, confirmaram Britto. Missaglia, 30 anos, voava há 10 pela empresa e acumulava oito mil horas de vôo. “Era uma viagem de classe econômica e tudo transcorria normalmente até que passamos a observar aquele objeto luminoso sobre Belo Horizonte. De início, pensei que se tratava do planeta Vênus. Porém, mudei de opinião ao saber que o Centro de Radares de Brasília detectou o ponto a 12 km do Boeing da VASP”.

“Equilibrado psicologicamente, […] sem criar tumulto ou atropelo, conclamei o restante da tripulação e os passageiros à presenciarem aquela aproximação do UFO, em todo o seu esplendor […] coincidentemente ou não, o Cindacta detectou um ponto na posição 09h00 e há 15 km da nossa aeronave”, escreveu Britto em seu relatório de vôo [169/0802-10/2/1982] encaminhado ao comandante Wladimir Vega, gerente do Departamento de Operações da VASP. O comandante da Base Aérea de Santa Cruz, coronel Luís Carlos Picorelli, negou por meio do Serviço de Relações Públicas que algum jato da esquadrilha tivesse levantado vôo na madrugada de segunda-feira.

Em 04 de fevereiro, um outro Boeing, desta vez da Swissair, Linhas Aéreas Suíças, havia sido seguido de perto por um UFO. Tal fato jamais chegaria ao conhecimento público não fosse o esforço de ufólogos europeus, em especial do major dinamarquês Hans C. Petersen, amigo de Britto na Dinamarca.

O encontro entre Britto e Uyrangê

Oficiais do Comando Aéreo de Belém, impressionados com a repercussão internacional do caso, resolveram levar Britto para conhecer aquelas instalações. Introduzido em uma das salas, exibiram-lhe horas de filmagens espetaculares e deixaram que examinasse fragmentos de UFOs. Quem eram esses oficiais? Ninguém menos do que dois veteranos em Ufologia: o suboficial João Flávio de Freitas Costa, chefe da equipe A2 da Operação Prato, e o coronel Uyrangê Hollanda, chefe do Serviço de Intendência do I COMAR e chefe do Serviço de Operações de Informação.

Britto conta que durante o Vôo 282 com destino a Belém do Pará, foi procurado na cabina de comando por um senhor de nome “Flávio”, portando uma credencial. Confidenciou-lhe ser egresso da FAB, onde desempenhara a função de controlador de vôo no Cindacta, e que agora fazia parte de um grupo de pesquisas ufológicas sediado em Belém (I COMAR), integrado por oficiais, suboficiais, sargentos e especialistas de diversas áreas, tais como fotógrafos, cinegrafistas, topógrafos etc. Possuíam um arquivo sem igual, que incluía desenhos, fotos, filmes em super-8 e laudos de laboratórios fotográficos. Nessas imagens, naves-mãe apareciam liberando naves menores que efetuavam uma espécie de reconhecimento do leito do Rio Amazonas, sem falar de tantas outras coisas que soavam fantasiosas e inacreditáveis.

Ao menos uma vez por mês, ainda de acordo com Flávio, realizavam pesquisas de campo em locais como a Enseada do Sol, no desaguadouro do Rio Amazonas. Flávio trazia um convite do grupo, em nome de um tal de major Hollanda, para que Britto comparecesse a uma das reuniões secretas. Bastaria que indicasse a data e convocariam os demais. No dia estipulado, o major Hollanda disse que todos haviam acompanhado com atenção o seu caso, só não interferindo porque a farda os impedia. Em compensação, iriam mostrar os trabalhos até então feitos pelo grupo.

Trouxeram-lhe três volumes, cada qual com 10 cm de altura, o que deixou Britto perplexo. Os documentos estavam meticulosamente organizados em seqüência cronológica. As fotos e os filmes, acompanhados dos dados técnicos respectivos – abertura do diafragma, fotômetro, distância, luminosidade etc. Havia fotos de marcas no solo, de UFOs pousados nas margens e de tantas outras coisas incríveis. O que deixou Britto mais feliz foi o que lhe revelaram ao término da reunião: “Além da farda, existe o zelo do caráter e da dignidade humana, por isso não poderíamos deixar de tranqüilizá-lo em meio a esse conflito de opiniões. Existe em Brasília outro grupo de pesquisas bem mais documentado e organizado do que o nosso. Em seus arquivos, armazenam gravações insólitas captadas pelos radares do Cindacta, entre elas a conversa que manteve a 130 km de Belo Horizonte”. Por fim, pediram que não declinasse seus nomes em público de modo a não comprometê-los. Ao procurarem-no, queriam pelo menos saldar parte da dívida moral que acumulavam por esconder a verdade do público. Em respeito às suas posições, Britto comprometeu-se a manter o segredo de seus nomes.

A onda de 1982

O Brasil foi varrido por uma onda de proporções gigantescas em 1982, só comparável às de 1954, 1968 e 1986. No Carnaval, os radares da Base Aérea de Anápolis detectaram um UFO a 50 km de Goiânia. O Centro de Operações de Defesa Aérea (CODA) colocou um caça Mirage em seu encalço. A perseguição terminou a 12 km de altura, já que o UFO continuou a subir em direção ao espaço. Em Presidente Prudente, oeste do Estado de São Paulo, um objeto sem forma definida, emitindo luzes multicoloridas, com predominância do verde, surgiu num sábado à noite e desapareceu velozmente deixando um rastro luminoso. O controlador da Rádio Patrulha da cidade, cabo Torres, o avistou às 21h10. Soldados de plantão nas unidades de Regente Feijó, Rancharia, Lins e Tupã, e funcionários de aeroportos, também testemunham o fenômeno.

Um dos argumentos mais usados pelos que insistem em negar a existência dos UFOs, é o de que estes aparecem somente em lugares ermos ou pouco habitados, e, na maioria das vezes, para um único observador solitário ou, no máximo, para um grupo reduzido. A falta de outras testemunhas, desse modo, invalidaria ou diminuiria em muito as chances de que pudesse se tratar de um contato real, aumentando as de alucinação, engano ou fraude. Os que ainda recorrem a esse tipo de argumentação, desconhecem que, em inúmeras ocasiões, UFOs já se exibiram diante de grandes multidões. Uma das que mais se destacaram, sem dúvida, é a que ficou conhecida como “O Jogo do Disco Voador”.

Na noite de sábado, 06 de março de 1982, o Estádio Pedro Pedrossian, mais conhecido por Morenão, em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, estava lotado para o jogo do Campeonato Brasileiro envolvendo o time local, o Operário, contra o Vasco da Gama, do Rio de Janeiro. Eram por volta das 20h15 e a partida mal tinha começado, quando, de repente, uma bola de fogo, com um grande facho de luz, surgiu no céu, assustando o público de 24.575 pagantes, sem contar os jornalistas esportivos e penetras.

As versões divergiram quanto à quantidade de objetos. Para alguns eram dois os objetos, para outros, quatro. Mas todos concordaram que as luzes eram intensas e de várias cores. O agente de serviço noturno da base aérea de Campo Grande viu dois objetos e consultou o Cindacta de Brasília, o qual informou que não detectara nenhuma aeronave conhecida naquele horário.

Treze anos depois, a revista esportiva Placar publicou uma matéria especial a respeito, de autoria do repórter Sérgio Ruiz Luz, que entrevistou o veterano meia-direita Cocada, nascido em 1951, ídolo do Operário local. Cocada lhe contou que nunca viu nada igual àquilo: “Era uma roda de fogo com um facho de luz muito forte”, descreveu. “De repente, foi embora a uma velocidade incrível”. Passado o susto, que não durou mais do que alguns segundos, o craque ajudou seu time a derrotar o Vasco por 2 x 0. Participou dos lances que resultaram nos gols do Operário, recebeu os prêmios como o melhor jogador em campo e, já no vestiário, chegou a uma conclusão a respeito do fenômeno. “Que parecia um disco voador, parecia”, disse para si mesmo.

Aquela partida foi a mais marcante na carreira de Cocada, não tanto pela vitória de seu time – considerado pequeno diante do poderoso Vasco – e pela consagração pessoal, mas justamente por causa do disco voador. Desde então, Cocada adquiriu o hábito de vasculhar o céu de Campo Grande na esperança de reviver aquele momento inesquecível. “Rapaz, nunca vi nada igual”, diz ele, desconsolado. Porém, por ter se convertido a uma seita evangélica que obriga a uma devoção e a um fervor absoluto a seus rígidos e antiquados preceitos, Cocada, procura afastar a tentação de acreditar na existência dos UFOs, por mais paradoxal que isso soe: “Não combina com os princípios bíblicos”, procura justificar.

A carreira de Cocada, que já estava em declínio, deslanchou após aquela visão do objeto luminoso. Para quem era conhecido apenas como o irmão perna-de-pau do atacante Müller, pode-se dizer que se deu muito bem. Saiu de Campo Grande para jogar no Rio de Janeiro, onde teve algum destaque. Seu melhor momento aconteceu na decisão do Campeonato Carioca de 1988. Reserva de Paulo Roberto, que era o lateral titular do Vasco da Gama, Cocada entrou no final da partida contra o Fluminense e marcou o gol do título no último minuto de jogo.

Depois de batalhar em 12 clubes, a maioria deles pequenos, Cocada resolveu pendurar as chuteiras em 1993. No início de 1995, quando tocava tranquilamente a vida como dono de uma farmácia defronte à sede do Operário, foi convidado a retomar sua carreira pelo então técnico do time, William Puia. Da lateral, passou a jogar no meio-de-campo. Cocada até hoje continua esperando uma explicação para a bola de fogo que viu em 1982. “Parecia um disco voador, mas só acredito mesmo se eles voltarem, pararem na minha frente e acenarem para mim”, afirma.

O ex-jogador Rosemiro, um dos laterais do Vasco naquela noite, ainda se lembrava muito bem do UFO: “Fiquei olhando para cima e até me esqueci da partida”. Um dos torcedores, o professor Antônio Carlos do Nascimento, recorda-se que “Era uma luz intensa e bonita”. Depois de sobrevoar o estádio, o UFO teria passado por cima da casa de Francisco Serafim de Barros, superintendente do Banco da Amazônia, que morava ao lado do Morenão, fazendo as folhas das árvores de seu quintal murcharem. Entretanto, apesar da presença de muitos fotógrafos e cinegrafistas no jogo, ninguém conseguiu flagrar o disco voador.

O fundador e presidente do Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores (CBPDV) e editor da Revista UFO Ademar José Gevaerd, contou que foi esse caso que o fez se mudar para Campo Grande. “Depois daquele jogo no Morenão, as pessoas começaram a prestar atenção nesse tipo de fenômeno”, frisou.
O Estádio Morenão, palco desse incrível fenômeno, hoje está praticamente abandonado. Ao que se saiba, nunca mais recebeu visitas de alienígenas e os torcedores – terráqueos – fugiram dos jogos do combalido Campeonato Sul-Mato-Grossense, que não tem nenhuma representatividade no cenário futebolístico brasileiro. Se não ajudou em termos esportivos, o disco voador visto em 1982 ao menos entrou para a história da Ufologia, animando os ufólogos, pesquisadores e apaixonados pelo tema.

Obcecado pelo “Jogo do Disco Voador”, o hipnólogo Mário Nogueira Rangel, um dos maiores especialistas brasileiros em casos de abdução e membro da Associação de Pesquisas Exológicas (APEX) – fundado e presidido pelo médico e ufólogo Max Berezovsky – é o ufólogo que mais tem se dedicado a pesquisar esse importante episódio, procurando todo tipo de subsídios que o corroborem. Em Campo Grande, Rangel conseguiu localizar o jornalista Marco Eusébio, um dos presentes à partida, obtendo dele valiosos esclarecimentos.

Segundo Eusébio, o objeto era uma espécie de “bola de fogo grande, semelhante a um cometa, com cauda e pequenas bolas de fogo logo atrás”. A altitude em que se encontrava era elevada, superior a dos aviões. O objeto maior era pelo menos 10 vezes maior do que um boeing visto naquela altitude. A velocidade, porém, era muitas vezes superior a de qualquer avião.

Ainda de acordo com Eusébio, ninguém fotografou ou filmou o objeto porque a passagem dele foi rápida pelo ângulo de foco do estádio. E, de tão espantados, os fotógrafos não tiveram reação para captar a imagem. O juiz, por sua vez, não suspendeu o jogo, já que não havia motivo para isso. Eusébio acredita ter sentido o que todos sentiram ao ver o UFO: “Espanto e um certo temor de que aquilo caísse, já que parecia um meteoro. Era essa a sensação que todos sentiram: um meteoro, tal qual os vistos em filmes e ilustrações. Porém, diferentemente de um meteoro, ele não caía. Seguia em linha, como num trajeto de voo coordenado”. Curiosamente, um ano antes, Eusébio já tinha visto objetos idênticos passando pelo mesmo trajeto próximo ao Morenão – não havia jogo nesse dia – quando se encontrava à noite em um bairro vizinho ao do estádio.

Rangel lamenta que os ufólogos não tenham valorizado devidamente o caso do “Jogo do Disco Voador”, pois, conforme suas palavras, “é um verdadeiro ‘chega para lá’, nos céticos”, os quais desafia: “Como estes vão dizer que mais de 24.500 pessoas imaginaram ver um disco voador que não existia?” De fato, esse foi o dia em que fizemos contato.

A Noite Oficial dos UFOs

O reconhecimento governamental à presença de UFOs nos céus brasileiros não se afigurava mais como um fato extraordinário desde a década de 50, como vimos. Entretanto, um pronunciamento oficial público do ministro da Aeronáutica, avalizado pelo presidente da assim chamada “Nova República”, tornou a ocasião inédita. Entre as 21h00 de segunda-feira, 19 de maio de 1986, aos 10 minutos de terça, a Grande São Paulo, a região de São José dos Campos, no Vale do Paraíba, e o Rio de Janeiro, foram literalmente invadidos por nada menos do que 21 UFOs que se deslocavam a velocidades que pulavam de 60 a 3.500 km/h. O CODA acionou três caças F-5E e três caças Mirage F-103 com a missão de interceptar e – se preciso – abater os intrusos. O evento repercutiu nacionalmente em 21 de maio, quando o ministro da Aeronáutica, brigadeiro Octávio Júlio Moreira Lima, 59 anos, convocou a imprensa no Palácio do Planalto para explicar que os objetos haviam saturado os escopos dos radares do Cindacta e provocado a interrupção do tráfego aéreo no país.

Os jornais paulistanos estamparam no dia seguinte manchetes que se misturavam às notícias em torno da euforia do Plano Cruzado e da epidemia de dengue que grassava em São Paulo. Folha de S. Paulo: “UFOs sobrevoam São Paulo e parte do Estado do Rio”; Folha da Tarde: “Aviões da FAB caçam discos voadores”; O Estado de S. Paulo: “Invasão aérea. São os tais UFOs”; Jornal da Tarde: “Alerta geral: vinte UFOs sobre São Paulo e Rio”.

As reportagens davam conta que os caças partiram, simultaneamente, das bases de Anápolis – a 50 km a noroeste de Goiânia e a 150 km de Brasília – e de Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Um dos F-5E, de perseguidor passou a perseguido por 13 objetos. Moreira Lima proclamou que estavam diante de um “fenômeno inexplicável”, considerando remota a possibilidade de uma “guerra eletrônica”. Indagado se acreditava em seres extraterrestres, respondeu: “Não se trata de acreditar ou não. Isso requer informações técnicas suficientes, o que nós não temos. Temos de aguardar os relatórios”. Admitiu que “há registros parecidos no Cindacta, mas nada que se assemelhe a este em magnitude”. Interrompendo discretamente um jantar oferecido no Itamaraty ao presidente de El Salvador, Napoleón Duarte, notificou o presidente José Sarney, que se mostrou “interessado e curioso”.

O CODA, em Brasília, convocou os jornalistas credenciados para uma reunião no gabinete do ministro da Aeronáutica, às 19h00. O major-aviador Ney Antônio Cerqueira, chefe do órgão, revelou que o responsável pelo acionamento dos aviões F-5E, na Base Aérea de Santa Cruz, fora o brigadeiro João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, comandante do órgão, e anunciou ser aquele “motivo suficiente para justificar uma apuração a fundo do problema”. A principal hipótese a considerar, levando em conta que os UFOs se concentraram sobre São José dos Campos, área eminentemente estratégica, era a de espionagem industrial por satélites ou aviões estrangeiros [Ver mais dados sobre essa cidade mais adiante]. Ozires já havia alertado quanto a necessidade da adoção de medidas de segurança nesse sentido.

Ozires Silva

O coronel Ozires Silva, 55 anos, recém empossado na Presidência da Petrobrás, cargo que ocupou até 1988, ante o assédio da imprensa que solicitava uma descrição do UFO que teria visto enquanto pilotava o avião Xingu, com o qual acabara de pousar em São José dos Campos, vindo de Brasília, negou que tivesse visto algo. Ao perguntar a um dos jornalistas quem havia feito tal comentário, ouviu o nome do ministro da Aeronáutica, no que de pronto assumiu: “Então eu vi mesmo”, encerrando o assunto e passando a falar apenas sobre o papel que desempenharia à frente da Petrobrás.

A propósito do presidente da Petrobrás, Cerqueira detalhou que por volta das 21h00 de segunda-feira, a tripulação do Xingu captou luzes não identificadas no radar de bordo e consultou a torre de controle do Aeroporto de São José dos Campos. O operador respondeu negativamente, certificando porém que os radares de São Paulo detectaram objetos na posição indicada. Às 21h45, o Comando de Operações Militares de Brasília ordenou que três caças F-5E se deslocassem até São José dos Campos, dando início à operação de busca. Mesmo sofrendo interferências nos instrumentos de bordo, um dos pilotos perseguiu três luzes 370 km além do litoral. Às 22h00, visualizou o objeto que às 22h10 saltou de 250 a 1.500 km/h, e às 22h15 desapareceu rumo ao continente africano.

Simultaneamente, objetos semelhantes foram detectados pelos radares da Base Aérea de Anápolis. Três Mirages decolaram em interceptação e, tal como no Rio de Janeiro, apenas um fez contato-radar. Cerqueira declarou que “o desaparecimento do contato no radar é inexplicável, pelo menos para os conhecimentos científicos atuais e de que dispõe o Ministério da Aeronáutica”.

O comandante do III COMAR, major-brigadeiro Nelson Fisch de Miranda, às 17h00 do dia 21 redigiu na sede do Comando, no centro do Rio, uma nota confirmando o incidente: “Na madrugada de 19 para 20 de maio, o Cindacta detectou sobre São José dos Campos um alvo de radar que não respondia às mensagens de rádio. O 1º Esquadrão de Controle e Alarme (ECA-1), acionou um caça supersônico F-5E da Base Aérea de Santa Cruz. O caça não conseguiu localizar a luz pelo radar ou visualmente, retornando à base por falta de combustível. Já o segundo caça logrou detectar e visualizar o alvo”.

Às 16h00 de 22 de maio, no Rio, após transferir a superintendência da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer) ao engenheiro Ozílio Carlos da Silva, cargo que ocupara durante 17 anos, o presidente da Petrobrás assumiu de vez ter feito contato visual com estranhos pontos luminosos, os quais seriam enquadrados como estrelas, não fossem captados pelos radares. “Não sou lunático”, pontuou. Às 21h20, ele e o co-piloto Alcir Pereira da Silva, 37 anos, preparavam-se para descer em São José dos Campos quando o Controle de Brasília perguntou se viam algo, já que estavam com três UFOs nos radares. Ozires solicitou que lhe fornecessem a posição relativa dos objetos, após o que se dirigiram à área indicada e efetivamente avistaram os pontos luminosos de coloração vermelha e alaranjada.

Aparentemente, apenas um deles se movia. Piloto há 44 anos, Ozires brincou: “Disseram que eu saltei de presidente da Embraer à presidente da Petrobrás, e esse vôo foi tão alto que eu acabei vendo discos voadores”. Perguntado se o cargo que ora assumia não o deixava constrangido com relação ao assunto, respondeu: “Claro que fico constrangido. Geralmente não se leva a sério as pessoas que vêem discos voadores. Não fossem os registros do radar não teria coragem de me expor”.

Testemunhos abalizados dos pilotos

Os profissionais do ramo da aviação evitavam falar em UFOs temendo o descrédito e eventuais sanções ou represálias. No Aeroporto Internacional de São Paulo, em Cumbica, município de Guarulhos, nordeste da Grande São Paulo, foram poucos os que aquiesceram em comentar os incidentes mencionados. O ministro do Superior Tribunal Militar (STM), brigadeiro George Relham da Motta, lembrou-se que nos tempos em que era major observou um fenômeno semelhante nas imediações de Recife, recebendo ordens expressas de nada comentar.

O major-brigadeiro-do-ar Sócrates Monteiro – que se tornaria Ministro da Aeronáutica durante o governo de Fernando Collor de Mello – comandante do IV COMAR em São Paulo, quebrou o protocolo, relevando que: “Há muitos anos esses casos vêm sendo registrados. Em 19 de maio, os objetos pularam de 240 para 1.500 km/h em frações de segundo. A FAB filmou os eventos. […] Cumpre assinalar que os pilotos de caça são rigorosamente selecionados entre os melhores do Brasil, portanto dificilmente confundiriam meteoros com UFOs. Os currículos dos pilotos falam por si sós: novecentas missões, 2.000 horas de vôo, e assim por diante. Aliás, só um em cada 500 candidatos consegue tornar-se piloto de caça da FAB”.

Às 14h00 de 21 de maio, a Base Aérea de Fortaleza recebeu numerosos telefonemas de moradores que se referiam a um objeto escuro em forma de charuto, reluzente ao Sol. Na noite desse mesmo dia, na localidade de Petaluma, norte de São Francisco, Califórnia, Estados Unidos, mais de uma dúzia de pessoas viram um UFO com luzes alaranjadas em forma de “X”. Às 04h30, Sue Hart distribuía jornais quando viu várias luzes alaranjadas paradas no céu, as quais rumaram para o leste com uma “velocidade inacreditável”, conforme acrescentou um policial.

“O comportamento das luzes e dos contatos-radar registrado na noite de segunda para terça-feira sobre São José dos Campos e Anápolis, não corresponde a nenhum padrão conhecido na aviação internacional”. Esta frase, com pequenas variações, foi repetida à exaustão pelos sete pilotos e três controladores de vôo na entrevista coletiva à imprensa em 23 de maio. Outro ponto ressaltado: a noite estava clara, ideal para visualizar alvos à distância, sem nenhuma nuvem pesada que pudesse causar anomalias nos radares. Eis as manchetes de alguns dos jornais de 24 de maio: Folha de S. Paulo: “Pilotos confirmam luzes voadoras”; Folha da Tarde: “Piloto da FAB foi seguido por treze objetos não identificados”; Jornal do Brasil: “UFOs ficaram fora do alcance da caça da FAB”; O Globo: “Pilotos afirmam que UFOs tinham luzes brilhantes e multicoloridas”.

O tenente Kleber Caldas Marinho, 25 anos, e o capitão Márcio Brisolla Jordão, 29 anos, lotados na Base Aérea de Santa Cruz, a exemplo dos demais pilotos que tomaram parte da operação, não admitiram ter visto discos voadores, preferindo defini-los como “pontos luminosos persistentes, luzes intensas que se deslocavam rapidamente e ecos-radar não identificados”. O capitão Armindo Souza Viriato de Freitas, 30 anos, com vistas a seguir um ponto que ziguezague em seu radar de bordo, decolou de Anápolis com o Mirage F-103 tomando direção oposta ao dos dois companheiros. O tenente Hugo Nunes Freitas, 30 anos, chefe da Seção de Controle de Vôos do Cindacta, num certo momento preveniu-o de que vários pontos o estavam seguindo – seis ecos-radar de um lado e sete do outro. Viriato fez uma manobra de 180º na intenção de ficar de frente para os pontos, mas estes desapareceram repentinamente.

A torre de São José dos Campos informou que, com a chegada dos caças, todos os pontos luminosos sumiram para só reaparecer às 01h30. O tenente Marinho, primeiro piloto enviado a São Paulo com o caça armado de mísseis sidewinder e canhões de 30 milímetros, perseguiu uma luz que mudou a coloração de branca para verde e vermelha pouco antes de desaparecer em direção a África. O capitão Júlio César Rozemberg, 32 anos, terceiro piloto do Mirage, optou por ser orientado pelo radar da torre de Anápolis ao encontro de um ponto luminoso que cruzou tão rapidamente o seu caça que não deu chances para uma visualização. Rozemberg não soube explicar porque a torre o detectava e o radar de bordo não. O chefe do Centro de Relações Públicas do Ministério da Aeronáutica, coronel Adalberto Resende Rocha, anunciou que uma comissão do CODA fora encarregada de elaborar um relatório que no entanto não seria divulgado. Dois dias antes, o ministro da Aeronáutica havia incumbido o CODA de constituir uma comissão especializada. “Os trabalhos da comissão deverão estar prontos em no máximo 30 dias”, prometeu.

A onda de maio compensara a decepção com o Cometa Halley, festejou a revista Istoé em sua edição de 28 de maio. Otto Nogueira, piloto de um jatinho particular, foi perseguido por um UFO ao longo dos 700 km do trajeto entre São Luís e Brasília. Um cinegrafista da TV Maringá, Paraná, logrou filmar um dos objetos que mudava constantemente de cor. Assim que os UFOs invadiram o espaço aéreo, o presidente José Sarney fora contatado por meio de uma “linha quente” de telefone no Palácio do Planalto, já que, como comandante supremo das Forças Armadas, deveria autorizar ou não a interceptação e derrubada dos objetos. A universitária carioca Maria Cristina, 23 anos, filha do ex-ministro Mário Henrique Simonsen, declarou que semanas antes, na madrugada de 04 de maio, ela e uma amiga viram um enorme disco luminoso na estrada que liga Belo Horizonte ao Rio de Janeiro.

O Ministério da Aeronáutica informou que os UFOs instaram as seguintes contramedidas:

20h50 – A torre de controle de São José dos Campos visualiza no azimute 330º uma formação circular em torno de uma luz amarela e inúmeros pontos brancos. O controlador da torre contata o radar de São Paulo, que confirma os alvos no mesmo azimute.

21h14 – O Controle da Área de São Paulo (APP-SP) confirma a presença de alvos no terminal de São José dos Campos.

21h15 – APP-SP notifica o Controle de Tráfego de Brasília sobre a existência dos alvos.

21h20 – Controle de Área de Brasília (ACC-BR) confirma a presença dos alvos sobre a região de São José dos Campos.

21h21 – ACC-BR informa ao Centro de Operações Militares de Brasília sobre os alvos.

22h23 – Acionamento de uma das aeronaves F-5E, que se encontrava em alerta.

22h24 – Acionamento da segunda aeronave F-5E.

22h50 – Acionamento da terceira aeronave F-5E.

22h55 – Contato-radar estabelecido pelo controle de área de Anápolis.

22h56 – Contato-radar pelos Mirage F-103.

23h15 – Visualização, pelo piloto do F-5E, de luzes cintilantes vermelhas, azuis e brancas. Contato-radar com os alvos a 24 km. O piloto tenta alcançar os pontos luminosos, acelerando o avião até 1.1 mach, sem sucesso.

23h17 – Acionamento do segundo F-103 Mirage.

23h20 – Acionamento do terceiro Mirage F-103.

23h36 – Novo acionamento do F-103.

O filme da Miksom

O terraço do prédio do Banco do Estado de São Paulo (Banespa), no início da Avenida São João, zona central da cidade, tornou-se um posto de observação privilegiado na noite de quinta-feira, 29 de maio. Tanto que cinco profissionais da produtora Miksom, contratada pela agência publicitária Deck, lograram obter, diga-se de passagem involuntariamente – enquanto concluíam as filmagens de um pacote de quatro comerciais da Eletropaulo, veiculados nas emissoras de tevê na semana seguinte –, um dos mais importantes documentos cinematográficos não só da onda como também de toda a história da Ufologia. O UFO esférico, de brilho intenso, com cores que variavam do amarelo ao laranja, permaneceu praticamente parado, a oeste, por cerca de 10 minutos.

O argentino Daniel Gomez, diretor de vídeo, 31 anos, declarou: “Colhíamos imagens entre as 22 e 23h00. A lua estava linda e a visibilidade era boa. Começamos a gravar com a câmera desfocada, tomando um ponto de luz intenso como referência. Só depois de um tempo, devido aos movimentos e variações que apresentou – diminuiu a intensidade da luz e voltou a ressurgir com força duas vezes – é que prestamos mais atenção”. Gomez não se espantou, pois aos 12 anos vira um UFO em Mar Del Plata.

A Miksom, localizada no bairro de Moema, zona sul, recebeu a visita de inúmeros jornalistas, curiosos e pesquisadores. O engenheiro eletrônico e ufólogo Claudeir Covo, presidente do Centro de Estudos e Pesquisas Ufológicas (CEPU), analisou as imagens e concluiu: “Até agora, todos os exames realizados atestam que foi filmado um autêntico disco voador esférico, medindo entre seis a 8 m de diâmetro, o qual se encontrava a aproximadamente 10 km de distância, pairando sobre a Serra da Cantareira. Os radares do aeroporto de Congonhas chegaram inclusive a detectá-lo”.

O astrônomo do Instituto Astronômico e Geofísico da Universidade de São Paulo (IAG-USP), Roberto Boczko, descartou que se tratasse de algum corpo celeste conhecido: “A maior semelhança é com a lua, mas ela aparece em outra posição, do lado direito. Nenhum planeta apresenta um brilho com tamanha magnitude. A menos que seja uma espécie de refração anômala ou miragem, que faz uma imagem aparecer numa posição em que ela realmente não está. De qualquer forma, esse objeto não deve ser confundido com nenhum astro celeste, e a explicação deve ser buscada em outro terreno que não a astronomia”.

E os UFOs retornam

O capitão da reserva da Aeronáutica, Basílio Baranoff, membro do Instituto de Atividades Espaciais (IAE) do Centro Técnico Aeroespacial (CTA) de São José dos Campos, avistou às 18h30 de 13 de abril, em companhia de seu filho, estudante de engenharia, um UFO do segundo andar do Edifício Riviera, onde residiam. O ponto luminoso movimentou-se lentamente no azimute 330º, na horizontal, e às 18h45 afastou-se na direção de Pirassununga, emitindo luzes cintilantes brancas, vermelhas e azuis. Baranoff redigiu um extenso relatório baseado em observações pessoais, pesquisas de campo e análises comparativas inferindo que a onda se iniciou em fevereiro e se estendeu até julho, abrangendo as cidades de Santos, São Paulo, Guarulhos, Mogi das Cruzes, Arujá, Santa Branca, Paraibuna, Campos do Jordão, Caraguatatuba e São Sebastião.

Os UFOs começaram a ser detectados pelos radares do Aeroporto de São José dos Campos horas antes do primeiro caça F-5E levantar vôo. Baranoff elaborou este cronograma técnico:

18h30 – Primeiro avistamento pela torre de São José dos Campos de dois objetos luminosos, nas cores vermelha e laranja, a uma altitude aproximada de dois quilômetros, alinhados com o eixo da pista, azimute [Ângulo horizontal relativo ao norte verdadeiro] 330º, distando aproximadamente 15 km da torre. Apresentavam bordas definidas; na parte inferior, cintilações multicoloridas vermelho-azuladas.

19h00 – As torres de controle de São Paulo (APP-SO) [Centro de Controle de Aproximação (APP) é o órgão que controla e orienta a aeronave dentro de uma área terminal, num raio de 87 km, até o seu pouso final] e Brasília (ACC-SP) [Centro de Controle de Área (ACC), é o órgão que controla as aeronaves dentro das aerovias] confirmaram para APP-SJ três alvos primários e a inexistência de aeronaves na área de APP-SJ.

19h40 – APP-SJ avista dois outros objetos luminosos deslocando-se de norte a oeste, que se alinham com o eixo da pista, azimute 330º, acima dos dois primeiros objetos luminosos. Os quatro permaneceram por longo tempo parados e alinhados com o eixo da pista.

20h00 – Já eram oito o número de alvos – ou ecos – na telas dos radares do APP-SJ, Cindacta de Brasília.

20h30 – A torre APP-SJ aciona o Comando de Defesa Aérea (COMDA) em razão da quantidade de objetos luminosos. Surge um novo alvo na radial 120º, acima da linha do horizonte, a 60 km, na direção da Serra do Mar.

21h00 – A aeronave PP-MBZ Xingu da Embraer, pilotada pelo coronel Ozires Silva e pelo comandante Alcir Pereira, solicita à torre APP-SJ permissão para pousar. Interrogada pelo APP-SJ, a aeronave confirma o avistamento de objetos luminosos no azimute 330º, igualmente confirmados pelo APP-SP, ACC-BR e Cindacta; o Xingu tentou então seguir um dos objetos por 10 minutos, sem êxito, pois desaparecera repentinamente.

21h10 – Xingu retornava para o pouso quando avistou outro grande objeto luminoso, avermelhado, no azimute 290º, que se deslocava à baixa altitude na direção de Mogi das Cruzes. APP-SP informou a existência de dois ecos: o do Xingu e de um outro objeto.

21h20 – ACC-BR informa o COMDA da situação de momento.

21h25 – Xingu retornava para o segundo pouso quando a APP-SP informou a existência de um objeto avermelhado 180º ao sul.

21h30 – Xingu retornava para o terceiro pouso pelo sul-sudeste do aeródromo, passando sobre a Petrobrás, quando ACC-BR alertou a torre APP-SJ da existência de objetos a 30 km. A três quilômetros de altitude, o Xingu avistou três objetos luminosos no azimute 65º, próximo à refinaria da Petrobrás, abaixo da aeronave. Alcir Pereira e Ozires Silva observaram o desaparecimento dos objetos na direção da Serra do Mar, a 90º. O Xingu finalmente decide pousar.

21h40 – Objeto luminoso amarelo, acompanhado de inúmeros objetos menores, de cor branca, avistados nos azimutes 320º e 110º.

22h23 – Acionada a primeira aeronave, um caça F-5E da Base Aérea de Santa Cruz.
22h45 – Acionado o segundo caça F-5E.

22h55 – Contato-radar pelo Controle de Aérea de Anápolis.

23h00 – Acionado o terceiro caça Mirage F-103.

23h15 – Um dos caças F-5E, em perseguição ao objeto avistado visualmente e por radar, acelera até 1.1 mach [1.320 km/h]. O piloto diminuiu a distância com relação ao alvo de 43 a 10 km, após o que abandonou a missão por falta de combustível.

São José dos Campos foi o epicentro ou centro de convergência entre os dias 19 e 29 de maio. Os UFOs iam de velocidades nulas – 0 km/h – e lentas – de quatro a 60 km/h – a instantâneas – na ordem de 3.600 km/h. Os movimentos eram circulares – um deles descreveu curvas de 360º –, oblíquos e horizontais. Os tamanhos variavam entre uma bola de futebol a um Boeing 727. Praticamente todas as observações ocorreram no período noturno – com exceção de um no final do vespertino, às 17h30.

Os UFOs retornaram exatamente 10 dias depois, na noite de 29 de maio, para uma nova revoada sobre São José dos Campos, sendo avistados visualmente, detectados pelos radares de São Paulo, de Brasília e pelo Cindacta I [Sediado em Brasília, responsável pelo espaço aéreo do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e São Paulo].

A caminho do trabalho, milhares de europeus viram na manhã de 23 de setembro uma fileira irregular de luzes verdes-esmeraldas se deslocando rapidamente. Em Paris, Jean Luc Durant e Suzanne Blangis observaram entre 10 a 15 pontos luminosos, ao mesmo tempo em que um UFO era visto sobre as capitais da Holanda e da Bélgica. Em Amsterdã, o objeto foi descrito como “uma bola de fogo”, e em Bruxelas, como “um foguete luminoso”. O departamento meteorológico da base de Eidhoven, da Força Aérea Holandesa, recebeu inúmeros telefonemas de moradores assustados com a “bola de fogo”.

Os cientistas e os responsáveis pelos centros de controle do tráfego aéreo consultaram-se em busca de uma explicação. O Centro Nacional de Estudos Espaciais da França atribuiu os fenômenos a restos de satélites ou foguetes espaciais, no que foram contestados pela Agência Espacial Européia, em Darmstadt, Alemanha Ocidental. Astrônomos da Alemanha Ocidental associaram-no a um meteorito em processo de desintegração, e um porta-voz da segurança aérea de Luxemburgo a um foguete da Aliança Atlântica que se desviara da rota. O UFO foi avistado quase que simultaneamente em cinco países, o que excluía a hipótese de um míssil perdido pelas forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Na imensa caverna artificial sob o monte Cheyenne, em Colorado Springs, Colorado, fica o cérebro do sistema de defesa continental dos Estados Unidos, o Comando Norte-Americano de Defesa Aérea [North American Aerospace Defence Command, NORAD], organismo militar que vigia o espaço aéreo e acompanha a trajetória de todos os artefatos em órbita. Um departamento do NORAD, denominado Sistema de Defesa Espacial (SDS), conta com equipamentos de observação extremamente avançados, capazes de detectar a luz solar refletida em um corpo, do tamanho de uma bola de futebol, que esteja a 80 mil km de altura. Nada pode permanecer em torno deste planeta sem que a aparelhagem o detecte. O SDS pode seguir sua trajetória, qualquer que seja, embora nem sempre consiga determinar a massa exata do objeto. Em 1984, o NORAD informou que havia 15 mil objetos em órbita, incluindo partes de foguetes e outros detritos espaciais, e 5.312 satélites.

Para o NORAD, os ângulos de queda de restos de foguetes soviéticos correspondiam às das misteriosas luzes. A queda dos foguetes lançados em março e junho estava prevista para a segunda semana de setembro, com margem de erro de alguns dias. Vagando em órbitas erráticas, os foguetes vão aos poucos retornando à atmosfera, onde se queimam. Marc Mitten, controlador de vôo do Aeroporto de Luxemburgo, deixou a dúvida no ar: “Parecia um foguete, mas muito mais rápido. Não era um avião. Eram cinco coisas voando quase juntas. Elas não apareceram na tela do radar. Não sei o que eram. Foi a primeira vez que vi algo assim”.

A revista Veja, normalmente distante de assuntos ufológicos, trouxe uma nota reveladora decorridos dois anos e meio da grande onda de 1986, em sua edição de 05 de outubro de 1988: “O Ministério da Aeronáutica preparou um dossiê detalhado, devidamente documentado, sobre a passagem de discos voadores no Brasil, captados pelos radares do Cindacta. A divulgação do teor do documento está proibida. O ministro Octávio Moreira Lima diz acreditar piamente na existência dos UFOs”. Gevaerd enviou uma carta à revista, que a publicou em sua edição de 26 de outubro, protestando contra a não liberação do dossiê à população: “Causou-me surpresa ver a nota ‘Aeronáutica tem dossiê sobre UFO’, publicada na seção Radar, em que é dito que o ministro da Aeronáutica mantém sob sigilo um dossiê detalhado sobre os ‘discos voadores’. Gostaria de chamar a atenção dos leitores da Veja para o fato de que é direito de cada um dos cinco bilhões de terrestres saber quem nos visita ininterruptamente há décadas, observando-nos e monitorando-nos com tamanha intensidade”.

A manutenção da política de sigilo aos UFOs

A política de sigilo imposta pelo alto escalão governamental e militar permaneceu inalterada nos governos subseqüentes de Fernando Collor de Mello (1990-1992), Itamar Franco (1992-1994), Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e Luiz Inácio Lula da Silva (2003-).

Após a vitória de Collor na eleição Presidencial de 1989, surgiram histórias que entraram para o folclore da campanha. Contou-se que na noite de segunda-feira, 11 de dezembro, o deputado federal José Carlos Martinez, coordenador da campanha de Collor no Paraná, viajava de Brasília a Curitiba a bordo de um Citation, quando presenciou um dos fatos mais intrigantes dos últimos seis meses. Na frente do avião havia uma luz alaranjada intensa que acendia e apagava. Passava das 22h30 e a luz também foi vista por outros três passageiros de um jatinho da Líder Táxi Aéreo que ia de Brasília a Porto Alegre, os quais prestavam serviços de coordenação, fiscalização e apuração.

O advogado Paulo Newton e o encarregado do serviço de transmissão de dados do esquema paralelo de apuração, Maurício Cardoso, ficaram espantados com o que viram. Acompanhados dos deputados Alceni Guerra, PFL, que dormia, e Basílio Vilani, do Partido da Reconstrução Nacional (PRN), ambos do Paraná, não conseguiram identificar a luz. “Não sei se era disco voador, mas avião não era”, garantiu Cardoso. Os pilotos do jatinho em que viajavam estabeleceram contato radiofônico com o Cindacta, que não conseguiu identificar o objeto voador. Pilotos de um avião da Varig também viram o UFO, que se tornou um dos episódios mais insólitos da campanha do PRN, rica em histórias de embates subterrâneos contra os adversários petistas.

O sociólogo Fernando Henrique Cardoso já era uma testemunha assumida do fenômeno bem antes de elaborar o Plano Real como ministro da Fazenda de Itamar Franco e ser eleito presidente da República pelo Partido Social Democrático Brasileiro (PSDB). Durante o encontro anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) na cidade de Fortaleza (CE), em 1979, acompanhado de sua esposa, a antropóloga Rute Cardoso, e do economista Celso Furtado, viu um UFO que este último descreveu como “um objeto de intensa luminosidade que desceu na vertical, fez uma pequena pausa na horizontal e desapareceu vertiginosamente”.

O Procedimento 4.7

Um documento confidencial com cinco páginas e vinte e oito recomendações orientando os militares a não revelar informações sobre UFOs, em vigor desde 20 de setembro de 1990, veio a público somente em 1997. O procedimento no 4.7 é taxativo: “Havendo telefonemas de jornalistas ou ‘curiosos’ solicitando informações, responder que não está autorizado a fornecê-las”.

O brigadeiro José Montgomeri Melo Rebouças, porta-voz do então ministro da Aeronáutica Lélio Viana Lobo, indagado sobre o teor das resoluções pelo jornalista Ivan Finotti, do jornal Notícias Populares, procurou generalizar a questão, respondendo que “O documento em pauta considera objeto voador não identificado todo aquele que, penetrando ou evoluindo no espaço aéreo brasileiro, não forneça elementos que possibilitem a sua identificação”. As instruções gerais abordam desde levantamentos de dados meteorológicos no momento em que um UFO é avistado até questões de ordem burocrática – quando e como informar os superiores, por exemplo. Anexo, há um modelo de questionário com 18 perguntas a ser aplicado. Os dois militares que assinaram o documento, agora já na reserva, pertenciam à Divisão de Operações do Serviço Regional de Proteção ao Vôo (SRPV) do Rio de Janeiro. Finotti conversou com um deles, o tenente coronel-aviador Tacarijú Thomé de Paula Filha, na época chefe do Serviço: “Não me lembro desse documento”, alegou simplesmente. Ante a insistência do jornalista, o militar bateu o telefone sem despedir-se.

Nucomdabra

O Núcleo do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (Nucomdabra), sediado na Área do VI COMAR, Lago Sul, Brasília, encarregou-se do assunto dos UFOs no final da década de 80. Em 1990, o comandante do Nucomdabra era o brigadeiro-do-ar Ronald Eduardo Jaeckel. Não foi por acaso que Jaeckel assumiu o comando do Nucomdabra. Às 21h00 de 18 de março de 1967, a três quilômetros de altura, um cargueiro militar C-47 da FAB voava com destino a Porto Alegre. O avião no 2077 decolara minutos antes do Aeroporto de Florianópolis levando a bordo dois tripulantes e 14 passageiros. Na cabina, o piloto Alberto Espírito Santos Puget e o co-piloto Ronald Eduardo Jaeckel observavam os instrumentos. A atenção foi atraída para uma luz avermelhada do tamanho aparente da lua, que de repente surgira bem à frente. Instantes atrás ela não estava lá, mas agora oscilava de um lado a outro e imprimia a mesma velocidade que o avião.

A luz apagou e reapareceu segundos depois em outra posição. Puget contatou a base aérea de Gravataí (RS), que informou não ter detectado nenhuma aeronave naquela rota e altitude. Puget verificou que toda vez que inclinava o cargueiro bimotor em sua direção, ele desviava ora num sentido, ora noutro. Malogradas as tentativas de aproximação, Puget e Jaeckel retomaram a rota. Inopinadamente, um segundo objeto luminoso, idêntico ao primeiro, apareceu do outro lado do avião. A insólita formação – dois UFOs nas extremidades e um C-47 no meio – se manteve durante mais de 40 minutos, só se desfazendo quando o avião iniciou as manobras de aterrissagem na Base Aérea de Gravataí. Antes das luzes desaparecerem, os oficiais da base perscrutaram-na com binóculos.

A torre de controle do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, solicitou aos tripulantes do PP-CES, da Cruzeiro do Sul, procedente de Montevidéu, que tentasse localizar algo estranho no céu. O DC-3 estava equipado com câmeras especiais que permitiam tirar fotografias aéreas [Aerofotogrametria], e havia sido requisitado para tal pelo governo uruguaio. A bordo, os tripulantes Bernardo Aizemberg, Ricardo Wagner, Costa Maia, Vicente Arno e Francisco Urbano. Orientado pela torre de controle, o piloto Aizemberg tentou fotografar os UFOs, que no entanto se afastaram velozmente. O Nucomdabra continuou centralizando as investigações do Fenômeno UFO pelo menos até 1997.

A primeira tese de mestrado sobre UFOs no Brasil

Nascido no Ipiranga, tradicional bairro da zona sul da capital paulista em 26 de abril de 1971, em pleno Regime Militar, justamente por ter crescido numa época e num contexto marcados pelas mentiras e pelo obscurantismo – tanto da direita quanto da esquerda –, Cláudio Tsuyoshi Suenaga desde cedo se sentiu instigado a questionar o sistema estabelecido vigente e a desvendar conspirações que visam iludir e manipular a massa, relegando-a à mais estreita alienação e ignorância. Atraído e aficionado por tudo o que se relacionasse à ciência, ao oculto, ao insólito, ao paranormal e ao sobrenatural, foi apresentando, na adolescência, às primeiras revistas de Ufologia, despertando para o assunto em que foi se aprofundando na mesma medida de outros interesses, tais como a história, a arqueologia, a sociologia, a antropologia, a mitologia, o folclore, a filosofia, a psicologia, a literatura e o cinema.

Aos 18 anos de idade já publicava seus primeiros artigos em jornais e ingressava na Faculdade de História, formando-se aos 21 anos com um projeto delineado em mente: trazer a questão ufológica ao âmbito acadêmico de modo a romper as barreiras que separavam esse tema de outros mais tradicionais, abordando-a à luz dos conhecimentos das mais variadas disciplinas com o máximo de critério e rigor metodológicos.

Enfrentando todo tipo de preconceitos, obstáculos e incompreensões, logrou a proeza de convencer um grupo de professores da viabilidade de seus propósitos e da seriedade de suas intenções e em 1994 ingressou no curso de pós-graduação de História da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Assis, obtendo no ano seguinte uma bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Em 1996 tornou-se consultor e membro do Conselho Editorial da Revista UFO, produzida pelo Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores (CBPDV), passando a escrever regularmente para o maior veículo mundial de Ufologia.

O envolvimento do governo brasileiro com os UFOs sempre foi uma de suas preocupações centrais, tendo logrado acesso a uma farta documentação a respeito. O jornal Folha de S. Paulo entrevistou-o em 1997 a propósito dos documentos do DOPS que descobriu no Arquivo do Estado de São Paulo, os quais atestam a perseguição movida por agentes do aparato repressivo contra um alegado abduzido por extraterrestres e membros da APEX. A reportagem publicada na edição de 11 de maio mereceu chamada na primeira página e ocupou uma página e meia sob o título “Regime Militar Investigou UFOs e ETs”.

No campo da religiosidade e da crença, jamais se cansou de alertar para o perigo representado pelo fanatismo das seitas messiânicas, milenaristas, apocalípticas e satânicas que se valem de técnicas publicitárias, de psicologia de massa, hipnose e lavagem cerebral e não hesitam em se infiltrar nos meios culturais e políticos para disseminar o terror, a destruição e a violência e assim apressar o cumprimento de velhas profecias e o advento do milênio.

Contra a opinião dos bem-pensantes, antecipou, em meados da década de 90, o crescimento exponencial dessas seitas sob os auspícios de ufólogos místicos e espiritualistas que se arvoravam como os detentores do monopólio da “ética” e da “verdade”. O espantoso não é que tenha previsto tudo isso, já que, como fez questão de ressalvar, não era preciso possuir o dom da vidência ou da profecia, bastando uma reflexão histórica e sociológica para que se inferisse as mesmas conclusões. O espantoso é que muitos tenham saído em defesa do “direito legítimo” dessas seitas agirem livremente iludindo, enganando, roubando, extorquindo, destruindo famílias, lavando mentes, sacrificando crianças, assassinando e induzindo suicídios coletivos e ataques terroristas. Mais indecoroso ainda é o parcimonioso silêncio de muitos daqueles que na época se proclamavam fervorosos e incondicionais adeptos dessas seitas.

Entre os inúmeros trabalhos que produziu, um dos que mais geraram celeuma resgata o caso do lavrador João Prestes Filho, que num fatídico dia de Carnaval de 1946 morreu queimado com as carnes se soltando do corpo depois de ter sido atingido por uma luz misteriosa que veio do céu na cidade de Araçariguama, interior de São Paulo. Casos como esse indicam que, ao contrário do que apregoam os adeptos das correntes angelicais, a humanidade não vem sendo protegida e assistida por garbosos comandantes intergalácticos. Basta verificar que a esmagadora maioria dos casos que compõe o repertório ufológico é de caráter regressivo e negativo, não tendo trazido quaisquer benefícios às suas vítimas, muito pelo contrário. Sempre dóceis e solícitos no seu empenho de camuflar a realidade dos sequestros, traumas, agressões, ferimentos, torturas, manipulações sádicas, abusos sexuais, roubo de material genético e mortes sob a fachada encantadora dos intercâmbios culturais e espirituais, os adeptos das correntes angelicais agem, em suma, como os apóstolos fundamentalistas que não hesitam em mentir, falsear e até cometer atentados em nome de seu deus pela promessa de que após a morte ganharão o paraíso.

A essência da luta de Suenaga se expressa em seu engajamento pessoal, intelectual e espiritual pela reabilitação do pensamento crítico-filosófico e autonomia da consciência individual contra quaisquer tipos de dogmas, ideologias e totalitarismos, que, no seu entender, afrontam e ultrajam o ser humano, pondo em perigo essa própria condição. Seu pensamento foi influenciado por filósofos como Eric Voegelin, Xavier Zubiri, José Ortega y Gasset, Mário Ferreira dos Santos e Olavo de Carvalho; e escritores como Karl Kraus, Georges Bernanos e Gilbert Keith Chesterton, entre tantos outros que, a exemplo de Carvalho, adotaram como princípio supremo e fundamental “a defesa da capacidade e interioridade humana e da consciência individual contra a tirania da autoridade coletiva e da realidade que se pretende absoluta e verdadeira por ser massificante e totalizante, sobretudo quando escorada numa ideologia pretensamente científica”. Para Suenaga, há séculos a humanidade se encontra sob a égide de poderes monolíticos, discricionários e totalitários que se valem dos meios políticos, religiosos e culturais para assumirem o controle sobre tudo e todos não apenas como um “Estado dentro do Estado”, e sim como um “Estado acima do Estado”.

Em 1999, Suenaga finalmente defendeu sua dissertação intitulada A Dialética do Real e do Imaginário: Uma Proposta de Interpretação do Fenômeno UFO, sendo aprovado com distinção pela banca examinadora constituída pelos professores doutores Benedito Miguel Angelo Perrini Gil – que foi seu orientador –, Milton Carlos Costa, ambos da UNESP, e Lísias Nogueira Negrão – um dos maiores especialistas em messianismo no Brasil, titular da cadeira de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) –, tornando-se assim mestre em História pela UNESP e o primeiro no Brasil a desenvolver um trabalho sobre Ufologia nesse patamar acadêmico.

A Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU)

A Comissão Brasileira de Ufólogos (CBU) foi criada em 1997 para planejar o I Fórum Mundial de Ufologia, que se constituiu no maior evento do gênero já realizado até hoje no mundo. Ela foi originalmente composta pelo editor da Revista UFO, A. J. Gevaerd, e pelos co-editores Claudeir Covo, Rafael Cury, Reginaldo de Athayde e Marco Antonio Petit.

Ao final do I Fórum Mundial, no dia 14 de dezembro daquele ano, foi redigida a Carta de Brasília, um documento em que os ufólogos dão como certa a existência de discos voadores e sua origem extraterrestre, bem como sua atividade no planeta Terra desde os primórdios da humanidade. Nesta Carta, os participantes do Fórum afirmam ter conhecimento dos programas secretos do governo brasileiro de pesquisa de UFOs e solicitam a abertura ao público dos arquivos oficiais brasileiros sobre o tema. Estiveram presentes para receber oficialmente a Carta, o senador José Roberto Arruda, ex-líder do governo Fernando Henrique Cardoso no Congresso Nacional, os coronéis-aviadores Weber Luiz Kümmel, representando o ministro da Aeronáutica, e Zilmar Antunes de Freitas, do VI Comando Aéreo Regional (COMAR), de Brasília.

Os termos da Carta de Brasília

Brasília (DF), Brasil, 14 de dezembro de 1997.

Os ufólogos brasileiros e estrangeiros, de 19 nações, de todos os continentes, reunidos no I Fórum Mundial de Ufologia, no período de 07 a 14 de dezembro de 1997, no Parlamento Mundial da Fraternidade Ecumênica, Parlamundi da Legião da Boa Vontade (LBV), em Brasília, Brasil, vêm à presença do Ministro da Aeronáutica Brasileira apresentar os seguintes fatos:

1. Que é de conhecimento geral que o Fenômeno UFO, representado pelas constantes visitas de veículos espaciais ao nosso Planeta Terra, é genuíno e assim tem sido confirmado independentemente por ufólogos civis e autoridades militares de todo o mundo, nos últimos 50 anos.

2. Que tal fenômeno já teve sua origem plenamente identificada como sendo extraterrestre e que os veículos que nos visitam tão insistentemente provêm de civilizações tecnologicamente mais avançadas que a nossa, mas que coexistem conosco no universo.

3. Que tais civilizações encontram-se num processo contínuo de aproximação da Terra e de nossa civilização planetária. Igualmente, essas civilizações, em suas manobras, na maioria absoluta das vezes, não demonstram hostilidade para conosco.

4. Que as visitas de tais civilizações extraterrestres à Terra têm aumentado, gradativamente, nos últimos anos, segundo comprovam as estatísticas nacionais e internacionais, tanto em quantidade quanto em profundidade e intensidade.

5. Que é urgente que se estabeleça um programa oficial de conhecimento, pesquisa e respectiva divulgação pública do assunto, de forma a esclarecer a população brasileira a respeito da inegável e cada vez mais crescente presença extraterrestre na Terra.

Assim, considerando atitudes assumidas em vários momentos da história, por países que já reconheceram a extensão do problema, como por exemplo o Chile, há algumas semanas, respeitosamente recomendamos que o Ministério da Aeronáutica da República Federativa do Brasil, ou algum de seus organismos, a partir deste instante, formule uma política apropriada para se discutir o assunto, nos ambientes, formatos e níveis considerados necessários.

A comunidade ufológica brasileira, neste ato representada pelos estudiosos nacionais abaixo assinados, com total apoio da comunidade ufológica mundial, também signatária deste documento, deseja oferecer voluntariamente seus conhecimentos, seus esforços e sua dedicação para que tal procedimento venha a tornar-se realidade e que tenhamos o reconhecimento imediato do Fenômeno UFO.

Como marco inicial deste processo, que simbolize uma ação positiva por parte de nossas autoridades, a Comunidade Ufológica Brasileira respeitosamente solicita que o referido Ministério abra seus arquivos referentes a pelo menos dois episódios específicos e marcantes de nossa pesquisa ufológica:

(a) A Operação Prato, conduzida pelo Primeiro Comando Aéreo Regional (COMAR), de Belém (PA), entre setembro e dezembro de 1977, que resultou em volumoso compêndio que documentou com mais de 500 fotografias e inúmeros filmes a movimentação de UFOs sobre a Região Amazônica, da forma como foi confirmado pelo coronel Uyrangê Bolívar Soares de Hollanda Lima;

(b) A maciça casuística ufológica ocorrida em maio de 1986, sobre os Estados do Rio de Janeiro e São Paulo, entre outros, em que mais de 20 objetos voadores não identificados foram observados, radarizados e perseguidos por caças a jato de nossa valorosa Força Aérea, segundo afirmou o próprio ministro da Aeronáutica à época, brigadeiro Octávio Moreira Lima.

Absolutamente conscientes de que nossas autoridades civis e militares jamais se descuidaram da situação, que tem sido monitorada com maior ou menor grau de interação ao longo das últimas décadas, sempre no interesse da segurança nacional, julgamos que a tomada da providência acima referida solidificará o início de uma próspera e proveitosa parceria.

UFOs, Liberdade de Informação Já

Em abril de 2004, a CBU, coordenada por A. J. Gevaerd, ufólogo e presidente do Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores (CBPDV) – a maior entidade ufológica do mundo, sediado em Campo Grande (MS), e que desde 1985 edita a Revista UFO – deflagrou uma campanha nacional em favor de uma causa justa, há muito tempo ansiada pelos ufólogos brasileiros. Trata-se do movimento UFOs, Liberdade de Informação Já, cujo propósito é o de organizar e centralizar as reivindicações isoladas que muitos ufólogos e grupos de pesquisas vinham fazendo há décadas, até então sem uma coordenação central.

Para efetivação da campanha, os membros da CBU foram mantidos e à ela foi agregada a participação do ufólogo brasiliense Fernando de Aragão Ramalho. A CBU é assessorada por um grupo de pesquisadores e estudiosos brasileiros que se dispõe a se engajar em sua realização. Os integrantes do Conselho Editorial da Revista UFO, chamados de Equipe UFO, fazem parte da iniciativa.

A campanha tem por objetivo precípuo mostrar às autoridades brasileiras que o Fenômeno UFO é assunto que diz respeito a toda população. Por meio dela vêm-se recolhendo assinaturas de milhares de pesquisadores, estudiosos, autores, conferencistas, entusiastas e ativistas da Ufologia, todos pedindo numa só voz que o governo encerre sua política de sigilo aos UFOs. Qualquer pessoa pode participar e firmar o abaixo-assinado no site da Revista UFO [www.ufo.com.br], e dessa forma ajudar a fazer avançar a história da Ufologia Brasileira.

Manifesto da Ufologia Brasileira

Houve uma época de nossa história em que os ufólogos estavam com os nervos à flor da pele, irritados com a postura militar brasileira de negar veementemente a realidade da situação ufológica. Seus protestos somavam-se a momentos de indignação, com os quais os estudiosos brasileiros do Fenômeno UFO demonstravam sua reprovação à obtusa política governamental de se calar solenemente perante o agravamento das manobras de discos voadores em nosso território, que há tempos já não podem mais ser ignoradas.

Uma época de grande exaltação, por exemplo, foi aquela que se seguiu à chamada Noite Oficial dos UFOs no Brasil, em maio de 1986, quando dezenas de objetos voadores não identificados foram radarizados por diferentes estações do Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta) e perseguidos por caças a jato da Força Aérea Brasileira (FAB).

Todos os ufólogos recordam terem assistido o então ministro da Aeronáutica Octávio Moreira Lima ir à tevê e declarar, em alto e bom som, que dentro de um mês dos incidentes, a FAB revelaria o resultado de suas investigações do impressionante episódio. Trinta dias apenas! É desnecessário dizer que estamos até hoje esperando que a Aeronáutica venha à público com tais revelações. Perguntado várias vezes a respeito dessa reticência, Moreira Lima desconversou e minimizou a gravidade da situação – que, em 1986, quando ocorreu, deixou quase em pânico os militares brasileiros, que não sabiam o que fazer diante do que parecia ser “a chegada derradeira de ETs ao planeta”. Já se passaram mais de 20 anos do episódio, mas nunca uma única linha foi publicada por nossos militares sobre o fato.

Da mesma forma, uma década antes, em 1977, a FAB se envolvera de maneira intensa e inédita com uma das mais surpreendentes e trágicas ondas ufológicas que já tivemos notícia, em todo o mundo. Era o chamado Fenômeno Chupa-Chupa, da Amazônia, que motivou os integrantes do I Comando Aéreo Regional (COMAR), de Belém (PA), a instituírem a delicada Operação Prato. À sua frente, um valoroso militar que teve a coragem de registrar e ser sobrevoado por naves de todos os tipos, o então capitão Uyrangê Bolívar Soares Nogueira de Hollanda Lima. “Vivíamos dia e noite tendo surpresas com aqueles objetos, que certamente agiam sob controle inteligente e sabiam que estávamos ali para investigá-los”, declarou Hollanda a Gevaerd, quando foi por ele entrevistado, em 1997.

Esses dois casos – certamente os mais notórios da Ufologia Brasileira – são apenas alguns exemplos da complexidade da manifestação ufológica em nosso país e da gravidade que ela representa. Nas duas ocasiões em que os fatos se deram, os ufólogos ergueram sua voz, foram à imprensa, bradaram e acusaram o governo ora de omissão, ora de acobertamento. E mostraram toda a sua revolta pelo silêncio imposto ao tema. Mas, com o tempo, vimos que essa não era a maneira certa de agirmos, nem a mais inteligente. Gritar e exigir nossos direitos não provocou os resultados desejados. Não provocou quase nenhum resultado! Apenas nos fizemos ouvir, nada mais. Pois respeito é algo que não se exige, mas se adquire. E esse é justamente o ponto central da questão.

Ao deflagrarem a campanha UFOs, Liberdade de Informação Já, os ufólogos da CBU levaram em consideração que seus protestos foram ouvidos – e muito bem. E que a Comunidade Ufológica Brasileira já demonstrou suficiente maturidade para ser respeitada. Pacífica e respeitosamente, busca-se o reconhecimento da questão ufológica, da realidade da presença alienígena em nosso meio e da necessidade de se orientar a população sobre como agir em casos de contatos com o fenômeno. Os ufólogos que compõem a CBU deixam claro que não estão afrontando nosso governo, desafiando nossos militares ou desvalorizando nossas instituições. Estão, isso sim, propondo uma parceria e oferecendo sua voluntária contribuição para o trabalho de investigação do tema e esclarecimento da população. Os ufólogos e demais signatários do Manifesto da Ufologia Brasileira estão conscientes de que seu papel é somar, agregar e construir.

Políticas oficiais

É necessário que os ufólogos brasileiros, principalmente os signatários do Manifesto, compreendam que o acobertamento ufológico não é uma tendência em si ou algo isolado. É apenas mais um item da agenda militar ou governamental de qualquer nação. É certo que é um dos itens mais importantes para certas nações, mas, ainda assim, a reserva oficial quanto a determinados fatos é comum no meio militar e espelho de uma ação de governo. Por um lado, não se pode tirar a razão de nossos militares de agirem dessa forma. O Fenômeno UFO realmente representa algo que foge à nossa total compreensão. É algo imensamente superior a qualquer coisa com que estejamos habituados e, naturalmente, deve ser encarado com extremo cuidado. Os exageros nesses cuidados, em certos casos, são justificáveis – pelo menos até que tenhamos inteiro controle e conhecimento da situação.

Diversos países do mundo já adotaram uma postura mais aberta e franca perante suas populações, quanto ao tema UFO. Em nosso continente, o Chile e o Uruguai, neste momento, têm comissões oficiais bastante produtivas de pesquisas ufológicas. E mistas, compostas de ufólogos civis e militares. No Uruguai, a Comisión Receptadora y Investigadora de Objetos Voladores No Identificados (Cridovni) tem mais de 25 anos de experiência. É fundada e estabelecida dentro da estrutura da Força Aérea daquele país, e conta com recursos oficiais para investigação profissional do tema. E no Chile, uma iniciativa similar existe há mais de 10 anos, dentro da Diretoria de Aviação Civil de Santiago. Trata-se do Centro de Estudios de Fenómenos Aereos Anómalos (CEFAA), instituído por determinação governamental. Fora do continente, França, Espanha, Bélgica, Itália, Rússia e até a China têm ou tiveram programas similares. Em Pequim, por exemplo, uma entidade mista civil e militar agrupa mais de 200 mil interessados na pesquisa dos UFOs. A França, já na década de 70, foi a primeira nação a admitir a existência e realidade dos discos voadores.

Portanto, como se vê, abertura política quanto ao assunto não é uma utopia nem algo desastroso para uma nação, e pode certamente ser implementada no Brasil, país cada dia mais respeitado no cenário internacional por suas conquistas em diversos campos. Sensibilidade para tal abertura há, assim como motivos que a justifiquem. Resta saber se será possível incluir na agenda oficial de nossos governantes tal assunto, especialmente em meio às contínuas crises políticas que assolam o país. De qualquer forma, a busca do reconhecimento da situação ufológica e sua gravidade, já admitida por diversos membros de nossas Forças Armadas, é questão que merece foro e atenção. E cabe aos ufólogos provar seu significado.

Agir enquanto é tempo

A Carta de Brasília foi reativada pela campanha UFOs, Liberdade de Informação Já. Ela foi ligeiramente adaptada para o momento em questão e transformada no Manifesto da Ufologia Brasileira. Por meio dele, ufólogos, estudiosos isolados ou grupos de pesquisas, interessados, leitores ou mesmo entusiastas do assunto, têm expressando seu desejo de que o Governo abra seus arquivos sobre as manobras ufológicas em nosso território. Enfim, todo mundo ligado direta ou indiretamente à Ufologia Brasileira, que reconheça a seriedade do tema, a necessidade de se apurá-lo com consistência e divulgá-lo com sinceridade à população, vem tomando parte na campanha.

Sabemos que já existem muitos militares brasileiros que são contra a manutenção do sigilo em relação à presença dos UFOs e seus tripulantes. No final de 1996, quando Gevaerd e outros ufólogos estiveram com o ex-ministro da Aeronáutica, brigadeiro-do-ar Júlio Octávio Moreira Lima, principal responsável pela divulgação dos incidentes de maio de 1986, este ressaltou que nossas autoridades têm uma certa preocupação com a possibilidade de pânico. Mas disse ainda que, para ele, a humanidade já está muito bem preparada para receber a notícia de possíveis visitas extraterrestres. Já é hora de nossos governantes assumirem uma posição de coragem e de independência em relação à política norte-americana que trata do assunto UFO. Os principais interesses que ainda mantêm o acobertamento nos Estados Unidos nada têm a ver com a realidade brasileira, até pelo contrário.

Nossas autoridades, independentemente de outras nações, possuem provas inequívocas da presença alienígena. O próprio ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, assim como seu colega norte-americano Jimmy Carter, já foram testemunhas oculares de fenômenos ufológicos. Devemos ter em mente que continuar com o sigilo em torno do assunto é muito perigoso, pois podemos estar na iminência de um acontecimento planetário. Sabemos que existem poderosos interesses em jogo, ligados à manipulação das massas, mantidas na ignorância. Mas se pensarmos nas perspectivas que se abrirão à humanidade, estes aspectos são, na verdade, irrelevantes. Cabe aos governos assumirem suas responsabilidades, enquanto ainda podem fazer alguma coisa.

Próximo Capítulo:

CAPÍTULO 03 – FRANÇA