Ufologia completa 70 anos dissolvida nas mais desvairadas teorias conspiratórias

A febre que surgiu na segunda metade do século XX chega ao Terceiro Milênio indistinguível das mais loucas conspirações e lançando novos desafios ao homem globalizado

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Sem explicações e provas definitivas que a sustentem, a ufologia chega aos seus 70 anos em plena turbulência do final da segunda década do século XXI – só para lembrar, não faltavam os que garantiam que muito antes disso já teríamos feito um contato direto, público e oficial com seres extraterrestres ou sido impiedosamente invadidos e assimilados por eles.

Capaz de assumir praticamente qualquer forma, de acordo com os padrões de determinada época e cultura, o Fenômeno UFO [acrônimo para Unidentified Flying Object, ou Objeto Voador Não Identificado (OVNI)] não só resiste a todos os ataques “científicos” e “racionais” por parte dos cépticos e dos exageros “místicos” e “esotéricos” por parte dos crentes, como demonstra uma insuperável capacidade de renovação, semeando dúvidas e confusões quanto a sua natureza, origem e significação, gerando debates e polêmicas intermináveis e questionando pretensas verdades, quer científicas, religiosas ou filosóficas.

Ao que parece, a sina inexorável dos UFOs é parir enigmas, lançar novos desafios e suscitar as mais diversas teorias conspiratórias. Primeiro foram os simples avistamentos de objetos discóides e esféricos e de luzes no céu, sucedidos, na década de 50, pelos contatos diretos com ETs humanóides benfazejos e angelicais vindos de Vênus, Marte e das luas de Júpiter. Os assim chamados contatados alcançaram tremenda popularidade com seus relatos ingênuos, fantasiosos e patéticos, a ponto de ridicularizarem a ufologia, fazendo-a cair em descrédito, e suplantarem os ufólogos “sérios”, que tiveram muita dor de cabeça para erradicar esses absurdos e injetar um pouco de bom senso à temática. A evolução natural dessas ufomanias culminaria com os abduzidos, a partir do início da década de 60, cuja febre atingiria o auge em meados da década de 90.

Paralelo e associado a tudo isso, tivemos vários casos de pousos e quedas de naves e resgates de tripulantes, mutilações de animais, o desfile do catálogo completo de bizarrices forteanas [termo devido ao pesquisador inglês Charles Fort, autor de O Livro dos Danados e precursor da ufologia] – precipitações de cabelos de anjos e de sangue, aparições de criaturas monstruosas, desaparecimentos inexplicáveis, etc. – e fenômenos correlatos nos campos sobrenatural, milagroso e paranormal.

O destaque fica para o lado obscuro da ufologia, repleto de traumas psicológicos, ferimentos e mortes causados por ataques de UFOs; sequestros acompanhados de agressões, manipulações sádicas, torturas, abusos sexuais e roubo de material genético; conspirações governamentais que visariam a dominação mundial e a escravização de boa parte da humanidade; seitas fanáticas, messiânicas, apocalípticas e satânicas que destroem famílias e chegam a ponto de praticarem lavagens cerebrais, sacrifícios de crianças, assassinatos, suicídios coletivos, atentados terroristas, etc. Não faltam os que defendem que a ufologia é o palco do Armageddon, onde seria travada a grande e derradeira batalha entre os verdadeiros e os falsos deuses, entre os anjos divinos e os decaídos, entre os poderes da luz e os das trevas, enfim, entre o bem e o mal.

De acordo com os partidários das teorias conspiratórias, a finalidade do Fenômeno UFO seria a de servir como um instrumento de tomada e controle de poder, mais uma peça num plano articulado de dominação global e instituição de um governo único. As abduções, por exemplo, não seriam nada mais do que uma eficiente maneira de compor um gigantesco banco de dados com os códigos genéticos de todas as pessoas do planeta, ou pelo menos daquelas “escolhidas” por suas qualidades biológicas intrínsecas.

A sequência desse raciocínio é simples: os UFOs seriam, na verdade, apenas uma fachada de que se valeriam poderes subterrâneos – extraterrestres ou daqui mesmo deste planeta – ligados a sociedades secretas, agências de inteligência e altos escalões militares para a criação de um banco de dados mundial contendo o perfil detalhado de bilhões de pessoas. Isto, nas mãos de um governo totalitário, vale ouro. Com as informações desse banco de dados, poderiam, por exemplo, identificar com precisão os mais qualificados para ocuparem postos-chave de liderança e de comando, fabricar e disseminar vírus mortais, montar um exército de clones, ou ainda gerar novas espécies de seres híbridos, aptos a sobreviverem em condições extremas e adversas…

A Internet, que diuturnamente procura saciar os apetites ávidos por informações – de preferência as mais bizarras e fantásticas –, ajudou e tem ajudado sobremaneira a aumentar ainda mais o ar de “teoria da conspiração” em torno da ufologia. Ainda que ressentindo da falta de grandes novidades em termos de casuística, a ufologia ganhou fôlego nestes últimos anos graças a ela, invadida a cada dia por um número crescente de internautas, em sua esmagadora maioria jovens que não se cansam de frequentar os inúmeros sites, grupos, fóruns e salas de discussão, de postar e assistir vídeos no YouTube, de baixar arquivos por meio de programas de compartilhamento P2P (peer-to-peer) e de disseminar informações pelas redes sociais como o Facebook, que se sobressai pelo modo como seu mecanismo funciona, baseado na “Teoria dos Seis Graus de Separação”, desenvolvida pelo psicólogo Stanley Milgram (1933-1984), segundo o qual bastariam no máximo seis contatos para se chegar a qualquer pessoa no mundo. E tal como a ufologia, o Facebook, fundado por Mark Zuckerberg, também é alvo de teorias conspiratórias por coletar dados confidenciais de seus mais de 1 bilhão de usuários.

Pode soar por demais exagerado que por trás de um assunto aparentemente “inocente”, lúdico e descomprometido como a ufologia, existam interesses tão surpreendentes e magnânimos quanto os que mencionamos, mas a verdade é que, após os levarmos em consideração, a teoria da conspiração pode não ser tão esquisita e inverossímil assim…

Todas essas polêmicas envolvendo a ufologia, em vez de prejudicá-la, só a colocam mais em foco na mídia, tornando-a cada vez mais popular, dando sobrevida incomum a algo que nasceu como mais uma mania, um modismo passageiro, uma paranoia da Guerra Fria, uma fonte de esperanças e temores na transição do milênio, e no fim das contas, se converteu em um mito popular inexorável e inquebrantável. Mito este que, ao contrário dos mitos clássicos, distantes e encobertos pela névoa do tempo, é algo vivo, moderno, atual e dinâmico, e que se encontra em pleno curso de sua elaboração narrativa. Enquanto as provas definitivas não aparecem, se é que um dia aparecerão, ou algum outro ET revolva desembarcar em paragens remotas como Varginha, a ufologia segue tocando o barco e afrontando os cépticos.

Nosso objetivo aqui neste site, bem como em nossos artigos e livros, sempre foi o de expandir o entendimento do Fenômeno UFO mediante um amplo balanço e revisão de sua história e de seu vasto pano de fundo intemporal, repleto de experiências visionárias, milagres religiosos e encontros folclóricos com seres sobrenaturais. Estamos resgatando as concepções sobre os “outros mundos”, habitados por exóticas populações. Outros mundos que talvez estejam contidos neste. Embora pareça estranha, a ideia de dividir o mundo com outra espécie humana não é uma aberração. Pelo contrário. O que é extraordinário é o fato de estarmos sozinhos na Terra desde o desaparecimento dos neandertalenses, há 30 mil anos.

Entre as visões do passado e as do presente, há uma correspondência inegável. Descrições idênticas separadas por longos períodos históricos evidenciam a sobrevivência de uma mentalidade “arcaica”, sobreposta aos valores e conceitos modernos. Os anjos e fadas, duendes e elfos, bruxas e demônios e suas respectivas “armadas celestes” da Era Pré-Industrial, foram substituídos por “discos voadores” aerodinâmicos logo após o rescaldo da Segunda Guerra Mundial. Antes disso, já nos finais do século XIX, a onda norte-americana dos “airships” precedia as soluções do voo aéreo terrestre. A capacidade volumétrica de sustentação dos grandes corpos, enfim, a antecipação dos progressos humanos no domínio da velocidade, da manobralidade e da aerodinâmica, desenhava, seguindo as centenas de testemunhos da época, as propriedades incríveis desses “dirigíveis fantasmas”, que hoje impressionam como autênticos protótipos vindos do futuro.

É quase impossível, aliás, encontrar uma cultura que não registre, em seu repertório mítico, histórias de seres sobrenaturais que voam pelo céu e arrebatam pessoas, transportando-as, com insistência, a locais esféricos uniformemente iluminados, onde as submetem a provações que incluem operações de órgãos internos e viagens astrais por paisagens desconhecidas. A interação sexual e genética é uma constante nesses relatos, que de forma alguma são exclusivos de nosso tempo, afigurando-se, pois, como uma versão moderna das lendas recolhidas pelos antropólogos sobre criaturas que vêm ao nosso mundo para prejudicar colheitas, roubar produtos e animais e sequestrar seres humanos.

Nós, cidadãos globalizados pós-modernos, não deixamos de carregar as mesmas raízes constitutivas e filogenéticas, daí porquê também precisamos crer em algo que esteja mais além. Vestimos assim, com roupagens hodiernas, os fantasmas dos tempos passados: sereias que encantavam os navegantes, monstros marinhos que naufragavam embarcações, fantasmas que assombravam castelos medievais, górgonas, eríneas, lobisomens e vampiros que aterrorizavam bosques, aldeias e vilarejos. Para atender aos anseios de uma era técnico-científica, da aeronáutica, da astronáutica, da bomba atômica, da física quântica, da engenharia genética, dos computadores, dos hologramas, dos iPhones e dos drones, só mesmo ETs e discos voadores.

O impacto das tecnologias emergentes renovam conhecimentos, conceitos, modos de vida, linguagens, imagens e visões de mundo, propiciando a formação de novos mitos e a reedição de antigos. Coadunando-se com fenômenos milenares congêneres – êxtases místicos, milagres, visões, etc – conhecidos desde os tempos antigos e comuns a todos os povos, os UFOs insurgiram como o mais expressivo dos paradigmas. Num período de rápidas transformações e redefinições, a ideia de que seres extraterrestres estariam nos visitando ganhou força e magnitude, levando a maioria a acreditar que não só poderia haver um contato imediato a qualquer momento, como também que o passado trazia fortes indícios de que isso já teria ocorrido.

Sejam quais forem as diretivas, os UFOs continuam a encerrar, a todo o momento, um caráter inquietante e representam justamente uma das características mais significativas da era paradoxal e contraditória em que vivemos: a coexistência entre o pensamento racional e o pensamento mágico. Razão e imaginação não são necessariamente antitéticos. A própria ciência foi levada a reconsiderar a dimensão sobrenatural, a buscar um novo sentido para a transcendência. Dessa abertura surgiram as forças que propiciaram o retorno do pensamento mágico. O imaginário, o fabuloso, o onírico e o inusitado deixaram de ser vistos como puras fantasias para serem tratados como portas que se abrem para outras dimensões, vide o sucesso de filmes como O Senhor dos Anéis (de J. R. R. Tolkien) e As Crônicas de Nárnia (de C. S. Lewis).

A presença do Fenômeno UFO em praticamente todas as épocas da história, mormente nos períodos de grandes agitações e transformações, nos leva a tergiversar que ele funcionaria como uma espécie de elemento antecipador do porvir ou desencadeador de motivações psicológicas que propiciam avanços. A mente constitui uma força poderosa capaz de moldar as ações humanas e gerar sua própria realidade. Projeções vivas do interior, os UFOs denotam um esforço compensatório do inconsciente para lidar com o caos, exprimindo a angústia e a perplexidade de nossos dias. É a perfeita tradução do estado de depressão e medo, metaforizando temores onipresentes na tensão afetiva, tal como depreendeu Carl Jung.

Com frequência, a ufologia recorre a termos atinentes à “manipulação”, “disfarce”, “conspiração” e “encobrimento”, subjacentes ao impulso de atingir uma “verdade que está lá fora”, além da mera aparência, pois nesse jogo “nada é o que parece ser” (frases de Arquivo X). Os que mantiveram contatos, afirmaram que as entidades comunicantes se expressaram numa linguagem no mais das vezes compreensível. Não procuraram os cientistas nem enviaram complicados sinais em código como se supunha que deveriam fazer. Em certos casos, as entidades paralisaram e até mataram pessoas, transportando-as através do espaço-tempo. Disfarçados de anjos benfazejos, fizeram promessas de salvação.

Ao que tudo indica, conforme já nos alertou o astrofísico e ufólogo francês Jacques Vallée, funciona entre nós uma ciência do engano (desinformação) em grande escala. Tamanha profusão de casos sugere que estamos lidando com um fenômeno ainda desconhecido da ciência, capaz de mobilizar estruturas poderosas e de distorcer o tempo e o espaço. A organização por trás disso tem um nome: Colégio Invisível. Uma montagem colossal, com fins de experiência, manipulação social e controle mental foi levada a efeito. Somos assim conduzidos à revisão dos nossos esquemas lógico-conceituais convencionais e de nossa cosmovisão de universo estável e ordenado.

Texto originalmente publicado na revista Contato [Campo Grande (MS) / São Paulo, Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores (CBPDV) / Mythos Editora, ano I, nº 1, setembro de 2006], readaptado e atualizado para esta ocasião.

24 de Junho de 1947: O Dia em que a Ufologia Nasceu

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

A ufologia tem uma data inaugural: 24 de junho de 1947, três dias depois do início do solstício de verão no hemisfério norte, dia de São João Batista e da moderna Maçonaria, fundada exatamente 230 anos antes quando nesta data se reuniram, em Londres, associações de arquitetos e construtores e lançaram oficialmente a associação com o novo nome de Franco-Maçonaria, até então denominada “Força Misteriosa”, a primeira federação que reuniu os templos, agora transformados em lojas, sob uma obediência coletiva institucional. Curiosamente, ​​1947 foi também o ano em que o transistor de silício e germânio foi inventado (nos Laboratórios da Bell Telephone por John Bardeen e Walter Houser Brattain), em que os Manuscritos do Mar Morto foram descobertos, em que Israel tornou-se um Estado-nação (após a adoção de uma resolução pela ONU em 29 de novembro), em que a barreira do som foi quebrada (por Chuck Yeager, no Bell X-1, em 14 de outubro), e em que morreu (1º de dezembro) o satanista inglês Aleister Crowley, fundador da Thelema.

Kenneth Arnold

Aquela terça-feira deveria ser como outro qualquer para o norte-americano Kenneth Arnold (1915-1984), casado, pai de dois filhos, piloto civil de pequenos aviões, habilitado em voos sobre montanhas e proprietário de uma pista de aterrissagem nas proximidades do Campo Aéreo Bradley, na cidade de Boise, estado de Idaho. Arnold decolara da cidade de Chehalis, no estado de Washington, com seu monomotor Piper, e voava entre esta cidade e Yakima, na esperança de localizar os restos de um avião C-46 de transporte do Corpo de Fuzileiros Navais que se extraviara no Monte Rainier (4.394 metros de altitude), um vulcão extinto coberto de neve e gelo na Cadeia das Cascades (Cascatas), que os índios chinooks consideravam sagrado.

Por volta das 15 horas, sua atenção foi atraída para o que lhe parecia um “bando de patos selvagens” voando em formação de “V” sobre a costa leste da montanha. Divisando melhor, notou que os “patos” eram achatados e de grandes dimensões e que voavam a uma velocidade de 2.700 km/h.

Ao chegar ao seu destino, Arnold contou aos demais pilotos sobre o que vira. Aos repórteres Nolan Skiff e Bill Bequette, do jornal East Oregonian, sediado em Pendleton, Oregon, o piloto explicou que aqueles objetos se moviam como um “pires deslizando e saltando sobre a água”. A metáfora de que se valeu para tentar fornecer uma imagem do movimento – e não propriamente da forma – do objeto, se transformou no rótulo flying saucers (pires ou pratos voadores). A notícia espalhou-se como um rastilho de pólvora, e em poucas horas estava nas primeiras páginas de todos os jornais dos Estados Unidos.

Objetos vistos por Kenneth

A pedido da Força Aérea, Arnold elaborou desenhos que nem de longe eram parecidos com os clássicos discos unidos pelas bordas que outras testemunhas começariam a descrever. Mais tarde, o célebre piloto tentou retificar a expressão, dizendo que comparar o que vira com a forma de um “pires” configurava “um enorme mal-entendido”. Àquela altura, porém, não havia mais volta. Numa pequena redação de um jornal do noroeste de Oregon havia nascido o enigma popular mais fabuloso e persistente do século XX.

O mundo inteiro também o comentava, e com tanto destaque que o termo “disco voador” passou a designar, indistintamente, os objetos misteriosos avistados no céu, tivessem ou não a formato discóide.

O povo norte-americano, em sua maioria, acreditou na descrição do piloto, afinal, havia muito tempo que coisas misteriosas vinham aparecendo. Começava a Era Moderna dos Discos Voadores. A casa de Arnold foi invadida por repórteres. 

Kenneth Arnold e sua câmera

O que Arnold teria visto na realidade? Os ufólogos propuseram as mais disparatadas teorias, das mais fantásticas às razoavelmente plausíveis. O próprio piloto, como vimos, admitiu que poderia tratar-se de uma nova classe de aviões a jato. Para o astrofísico Donald Howard Menzel (1901-1976), notório por seu cepticismo em relação aos OVNIs, Arnold havia se confundido com o reflexo metálico do Sol nas nuvens. Também se falou de balões meteorológicos e astutos jornalistas não deixaram de apelar à ficção científica, sugerindo visitantes extraterrestres.

O que Arnold viu na realidade, sabemos muito bem hoje, foram as “asas voadoras” do Northrop YB-49, o protótipo de um bombardeiro pesado desenvolvido pela Northrop Corporation (fundada em 1939 pelo industrial e projetista aeronáutico John Knudsen “Jack” Northrop) para a Força Aérea Norte-Americana logo depois da Segunda Guerra Mundial. O êxito desse projeto secreto, que de tão arrojado chegava a ser tomado como uma nave extraterrestre, levou a produção de uma série de novas asas voadoras e culminou, quatro décadas depois, no desenvolvimento, pela mesma Northrop, do bombardeiro “invisível” Stealth B-2. Por ironia, a primeira adaptação para o cinema do livro de H. G. Wells, The War of the Worlds (“A Guerra dos Mundos”), produzido pela Paramount e dirigido por George Pal em 1953, mostra em uma das cenas o Northrop YB-49 transportando a bomba atômica a ser arrojada contra as naves marcianas invasoras. Não obstante, antes do evento específico, o que realmente interessa é que a origem do estereótipo disco voador surgiu de um erro jornalístico. O erro rompeu o dique e gerou uma enxurrada de reportes similares, instando milhões de pessoas a vigiarem os céus à procura de discos voadores.

Protótipos do Northrop YB-49

Ainda que Arnold jamais tivesse visto nada que se aproximasse à forma de um disco, tampouco empregado o termo “saucer”, foi exatamente isso o que as pessoas começaram a ver. As implicações dessa simples constatação, a meu ver, são devastadoras. A interpretação ufológica clássica fica comprometida e com ela toda a ufologia se inviabiliza em suas pretensões de vir a tornar-se uma nova “ciência”. Martin Kottmeyer e as novas gerações de estudiosos da linha psicossocial ou psicocultural, contrapostos aos da extraterrestre clássica que costumam apelar para argumentos paracientíficos, foram os primeiros a chamar a atenção para esse erro jornalístico e às variadas descrições de OVNIs que se encaixam no estereótipo discóide. O mais desconcertante é que estas mesmas características são reiteradas nos informes de Objetos Voadores Identificados (OVIs), ou seja, naqueles casos que, uma vez analisados, foram devida e satisfatoriamente explicados como fenômenos convencionais.

Estudos estatísticos tomando por base a casuística dos assim chamados “contatos imediatos” patenteiam que a quase totalidade das narrativas e descrições se encaixam no estereótipo derivado do “erro” de Skiff e Bequette. O mais desconcertante é que o mesmo padrão se repete nas derivações e desdobramentos dos casos em graus avançados, como as abduções. Tanto em sua estrutura como nos detalhes, os relatos ufológicos são indistinguíveis das histórias de ficção científica que desembocaram no “furo” jornalístico de Skiff e Bequette.

O YB-49 fotografado pela primeira vez em voo

A repercussão do caso Arnold abriu como que uma comporta e liberou impulsos há muito represados que transbordaram para fora do imaginário e penetraram na realidade vivida, nos sentimentos conscientes e expressos. Tanto que, transcorridas poucas semanas, a Força Aérea estabeleceu uma comissão para investigar e analisar relatórios semelhantes. A expressão popular induzia a falsas interpretações, por isso os militares preferiram uma expressão menos parcial. O capitão Edward J. Ruppelt cunhou o termo genérico UFO, acrossemia, em inglês, de Unidentified Flying Object. Com a Guerra Fria em curso, muitos acreditaram que aquelas coisas eram uma arma secreta norte-americana ou o prenúncio de uma futura invasão russa.

À narrativa de Arnold, seguiram-se novos casos. Quatro dias depois, em 28 de junho, às 15h15, um piloto da Força Aérea, a bordo de um F-51, voava nas proximidades do Lago Meade (o maior reservatório dos Estados Unidos, localizado no Rio Colorado, a cerca de 48 quilômetros a sudeste de Las Vegas, nos estados de Nevada, e Arizona) quando viu à sua direita uma formação de seis objetos. Na mesma noite, às 21h20, quatro oficiais da Força Aérea – dois pilotos e dois oficiais da Inteligência –, lotados na Base Maxwell, em Montgomery, capital do estado de Alabama, reportaram que uma luz efetuou ziguezagues sobre eles e uma manobra em ângulo de 90º, desaparecendo ao sul.

E pouco mais de uma semana depois de inaugurada a Era Moderna dos Discos Voadores, em 2 de julho de 1947, nasceria o maior mito da história da ufologia, tanto mais inquebrantável quanto mais se tenta desmontá-lo: O Caso Roswell. Mas como diria Rudyard Kipling, isso já é outra história.

Síntese do texto de Cláudio Suenaga extraído do Volume I (A Construção do Inimigo Extraterrestre: De Mito Moderno à Realidade Histórica) de seu livro inédito Discos Voadores & Sociedades Secretas: História da Ilusão Illuminati para o Controle Total da Humanidade

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