Os 40 anos do Caso Trans-en-Provence

No final da tarde fria de 8 de janeiro de 1981, o agricultor Renato Nicolaï construía abrigo para uma pequena bomba d’água em seu jardim quando viu descer do céu um objeto metálico de forma oval. Após alguns minutos parado no ar, o OVNI ascendeu novamente sem emitir qualquer ruído. A Gendarmerie e depois o GEPAN encontraram marcas no solo e coletaram amostras da vegetação, que se encontrava queimada no local onde o objeto pousou. O bioquímico Michel Bounias realizou análises e concluiu que a vegetação havia sido modificada por um potente campo eletromagnético de alta frequência (micro-ondas). Mas apesar do Caso Trans-en-Provence ter sido um dos raros casos em que um OVNI deixou vestígios materiais cientificamente mensuráveis, os cépticos invalidaram-no, considerando-o uma fraude deliberada.

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Renato Nicolaï

No final da tarde de quinta-feira, 8 de janeiro de 1981, Renato Nicolaï, um pedreiro aposentado e agricultor de 55 anos, construía um abrigo de cimento para uma pequena bomba d’água em seu jardim em Trans-en-Provence (comuna na região administrativa da Provença-Alpes-Costa Azul, no departamento de Var, sudeste da França) quando sua atenção foi atraída por um leve ruído, uma espécie de silvo.

Esboço do OVNI feito pelo próprio Renato Nicolaï

Eram por volta das 17 horas e o tempo estava começando a esfriar. Nicolaï se virou e viu uma máquina no ar que estava na altura de um grande pinheiro na beira do campo, e que desceu ao chão sem se virar e sem expelir chamas. Enquanto a máquina continuava a descer, Nicolaï se aproximou dela, indo em direção ao pequeno galpão construído acima de sua casa. Ele estava no restanque (uma plataforma) a cerca de um metro do telhado. De lá, ele viu a máquina perto no chão. Imediatamente ela ascendeu. Chegando acima das árvores, partiu rapidamente na direção da floresta, rumo nordeste. Quando ela ascendeu, Nicolaï viu abaixo quatro aberturas pelas quais nem chamas nem fumaça saíam. A máquina que parecia com dois pesos de chumbo virados um sobre o outro, 40 segundos depois, de repente, decolou novamente, levantando um pouco de poeira ao deixar o solo.

Nicolaï estava a cerca de 30 metros do local de pouso. Aproximou-se então do local e notou um círculo com cerca de 2 metros de diâmetro. Em certos lugares, na curva do círculo, havia marcas de aterrisagem.

O círculo com as marcas de aterrissagem.

Quando sua esposa voltou para casa à noite, Nicolaï disse a ela o que tinha visto. Ela achou que ele estava brincando. Ela telefonou para o vizinho, que veio com sua esposa, a sra. Morin. Nicolaï mostrou as marcas do círculo e os aconselhou a avisar a Gendarmerie Nationale (a Polícia Militar Francesa, que atua sob autoridade do Ministério da Defesa). Foi a a sra. Morin que ligou para a Gendarmerie.

Na sexta-feira, 9 de janeiro de 1981, a Gendarmerie recebeu o telefonema da sra. Morin mencionando a observação de um fenômeno desconhecido e indicando a presença de vestígios no solo.

A brigada da Gendarmerie entrevistou Nicolaï, tirou fotos, colheu amostras do solo e da vegetação e analisou os vestígios. Em seu relatório, a Gendarmerie descreve assim o que encontrou: “Notamos a presença de dois círculos concêntricos, um de 2,20 m de diâmetro e outro de 2,40 m. […] duas partes diametralmente opostas de aproximadamente 0,8 m […] e que apresentam listras pretas semelhantes às marcas de deslizamento de um pneu com um comprimento de 80 cm e uma largura de 10 cm.”

Croqui feito pela Gendarmerie do círculo de aterrissagem.

Na segunda-feira, dia 12 de janeiro, pela manhã, o Grupo de Estudos de Fenômenos Aeroespaciais Não Identificados [Groupement d’Études des Phénomènes Aérospatiaux Non Identifiés (GEPAN)], tomou conhecimento do caso por meio do gravador de chamadas da Gendarmerie. Chuvas fortes haviam ocorrido durante o fim de semana, de modo que o GEPAN decidiu, após consultar a polícia local, não intervir imediatamente, e se limitou a pedir à Gendarmerie que enviasse as amostras colhidas o mais rápido possível para os laboratórios. Ao mesmo tempo, vários grupos privados foram notificados do caso pela imprensa local e entraram em cena.

Vista geral do cenário dos acontecimentos.

O GEPAN constatou que o solo tinha sido comprimido por uma pressão mecânica de cerca de 4 ou 5 toneladas, e aquecido entre 300 a 600º C. Vestígios de fosfato e zinco foram encontrados no material de amostra. A análise de uma alfafa que estava perto do local do pouso mostrou níveis de clorofila entre 30% e 50% menores do que o esperado. Análises bioquímicas de amostras provenientes da periferia, ou seja, localizadas a uma distância de 1,50 m do centro do pouso, apresentaram um enfraquecimento geral do conteúdo pigmentar. As folhas novas sofreram a maior perda no betacaroteno, pigmento carotenóide antioxidante (- 57%), e violaxantina, pigmento presente em plantas superiores que atuam no ciclo da xantofila (- 80%).

O relatório do GEPAN concluiu que, apesar dos indícios físicos, “não foi possível mostrar qualitativamente a ocorrência de um evento de grande escala que levou a deformações mecânicas, aquecimento e talvez certas contribuições de materiais residuais.” Por outro lado, no plano bioquímico, o relatório não comenta sobre a origem dos fortes impactos que sofreram essas plantas, pois considera que “o conhecimento atual sobre os impactos que as plantas podem sofrer continua muito fragmentado para que possamos agora fornecer uma interpretação precisa e única deste notável conjunto de resultados.”

Michel Bounias

O bioquímico Michel Bounias (1943-2003), diretor de pesquisas do INRA (The Institut National de la Recherche Agronomique), especialista e professor de toxicologia vegetal (ecotoxicologia) da Universidade de Avignon, realizou análises na alfafa e concluiu que a vegetação foi modificada por um potente campo eletromagnético de alta frequência, ou seja, a despigmentação poderia ter sido causada pela exposição à radiação de micro-ondas. Segundo ele, a alfafa silvestre sofreu degradação anormal, causando um enfraquecimento do processo fotossintético (Traumatology as a Potent Tool for Identifying Actual Stresses Elicted by Unidentified Sources: Evidence for Plant Metabolic Disorders in Correlation with a UFO landing, in JSE, vol. 4, nº 1, 1990, pp. 1-18).

Nicolaï tinha inicialmente suposto que o OVNI era um dispositivo militar experimental. A proximidade do local com o Régiment d’Artillerie de Marine Canjuers (O 3º Regimento de Artilharia Marinha), tornava essa hipótese a mais plausível.

O sarcasmo dos cépticos

O relatório da Gendarmerie avaliou que as marcas na estrada pareciam feitas pelo pneu de um carro, o que foi contestado pelo GEPAN. O traço físico não é um círculo perfeito. Na verdade, há dois semicírculos mais ou menos cruzando uns sobre os outros. Além disso, a forma circular não coincide com a descrição do OVNI feito por Nicolaï. Em uma entrevista para a televisão francesa, Nicolaï confirmou que havia veículos que passavam na estrada na hora do avistamento.

Nesta imagem em close, podemos ver que as marcas na estrada se parecem mais com marcas de pneus.

As conclusões do estudo do GEPAN, segundo as quais a compactação e o aquecimento do solo seriam devidos a um “grande acontecimento”, são contestadas por Erick Maillot, do Observatório Zététique, em seu estudo Trans en Provence : le mythe de l’OVNI scientifique. Para ele, trata-se simplesmente de marcas de deslizamento de pneus, possivelmente devido a uma betoneira usada na obra de alvenaria que ocorria naquela época, ou a outro veículo, e o caso todo não passou de uma farsa da qual certas declarações da única testemunha são a confissão.

A desmistificação mais antiga encontra-se na brochura L’affaire de Trans-en-Provence par le SERPAN: Dossier de 120 pages qui sera taxé de scepticisme, publicada em 1995 pela Society for Investigation and Research on Unidentified Aerospace Phenomena (SERPAN), presidida por Michel Figuet, segundo o qual “as marcas dos pneus serviram de pretexto para dar credibilidade ao testemunho único do sr. Nicolaï e apoiar a crença nos OVNIs de origem extraterrestre”.

David Rossoni, Éric Maillot e Éric Déguillaume criticaram, em 2007, as interpretações extraterrestres deste caso e defenderam o cenário de um embuste em seu livro Les ovnis du CNES – 30 ans d’études officielles.

Mas a despeito das críticas sarcásticas dos cépticos franceses, o Caso Trans-en-Provence permanece como uma das melhores investigações ufológicas já publicadas no país. Uma versão inglesa do estudo foi veiculada em 1990 no prestigioso Journal Scientific Exploration, dos Estados Unidos, e um estudo complementar das plantas atingidas, feito pelo já citado eminente bioquímico Bounias, foi publicado em inglês, em 1994, no Journal for UFO Studies, do CUFOS (Center for UFOs Studies, ou Centro de Estudos de OVNIs), fundado por Josef Allen Hynek. O caso também foi apresentado no livro The UFO Enigma: A New Review of the Physical Evidence (New York, Warner Books, 1999), organizado pelo físico Peter Sturrock, da Universidade de Stanford, e conceituado pela revista norte-americana Popular Mechanics (no artigo“When UFOs Land”, de Jim Wilson, publicado na edição maio de 2001) como “Talvez o avistamento mais completo e cuidadosamente documentado de todos os tempos”. 

O GEPAN

Claude Poher

Avalizado pelo ministro da Defesa Robert Galley e contando com o apoio do Instituto de Altos Estudos de Defesa National [Institut des Hautes Études de la Défense Nationale (IHEDN)], presidido pelo general Jacques Richard, o engenheiro e astrônomo Claude Poher (1936-), titular da cadeira de Astronomia da Universidade de Toulouse, idealizou o funcionamento de um grupo oficial para pesquisar o Fenômeno OVNI dentro da estrutura do Centro Nacional de Estudos Espaciais [Centre National d’Études Spatiales (CNES), a “NASA” francesa, criada em 1962] e propôs sua criação ao presidente da instituição, o físico Hubert Curien (1924-2005). Ele estava seguro de que o grupo teria amplo respaldo popular e plena cooperação da Força Aérea Francesa, da Gendarmerie, da Diretoria de Aviação Civil e do Escritório Nacional de Meteorologia. Assim, poucos meses depois, já em 1977, o governo francês determinou que o CNES estabelecesse o grupo de estudos proposto pelo engenheiro e seus antecessores, em caráter permanente. Isso foi feito e surgiria dessa forma o Grupo de Estudos de Fenômenos Aeroespaciais Não Identificados [Groupement d’Études des Phénomènes Aérospatiaux Non Identifiés (GEPAN)], tendo Poher como seu primeiro diretor.

Na sessão inaugural das atividades do GEPAN, Curien pediu aos integrantes da entidade recém criada para agirem de maneira independente e vanguardista. “Estudem os relatórios de observações de OVNIs com mente aberta e disposição científica”, disse. De acordo com fontes seguras, Curien e o diretor-geral do CNES, Michel Bignier, adotaram uma atitude neutra na questão ufológica e deixaram o GEPAN agir com liberdade. A entidade logo receberia também o apoio do secretário do inspetor-geral do CNES, Jean M. Gruau. E para assessorar as atividades do grupo, um conselho científico composto de doze membros – por coincidência, ou não, o mesmo número de membros do famoso MJ-12 – também foi criado, para o qual a entidade teria que se reportar pelo menos uma vez por ano.

No período Poher, de 1977 a 1979, o GEPAN teve um staff de seis a sete pessoas trabalhando em tempo integral, além de contar com a cooperação de outros cientistas e peritos de dentro e fora do CNES. Sua primeira tarefa foi analisar uma grande quantidade de relatórios de avistamentos de OVNIs registrados e repassados à entidade principalmente pela Gendarmerie – eram mais de trezentos casos entregues em 1974 e cerca de cem novos episódios que os gendarmes colheram entre 1975 e 1976. A média anual de ocorrências ufológicas registradas na França variaria nos anos seguintes entre cem e duzentas, caindo para vinte ou trinta nos últimos anos do século XX.

A primeira reunião do Conselho Científico do GEPAN ocorreu em dezembro de 1977, quando se analisou um relatório de casos ufológicos agrupados em dois volumes, com um total de 290 páginas. De acordo com um ex-integrante da entidade, a documentação incluía três apresentações gerais, três relatos com investigações detalhadas, o exame de duas fotografias de OVNIs e cinco análises estatísticas de amostras de vários casos. O Conselho inferiu suas conclusões e fez recomendações que levaram o GEPAN a empreender estudos complementares sobre os materiais apresentados, que foram examinados em uma segunda reunião, em junho de 1978. Naquela ocasião, a documentação já chegava a cinco volumes, somando 670 páginas. O primeiro volume era uma síntese das atividades escrita por Poher, os de número 2 a 4 continham dez investigações de campo detalhadas, e o quinto continha outros estudos e casos generalizados.

Na ocasião do início das atividades do GEPAN, Jean-Jacques Velasco (1946-) era assistente de Poher e viria a presidir a entidade no futuro. Ele confirmou que, no citado estudo estatístico realizado em 1978, foram avaliados 678 relatórios de observações de OVNIs classificados em quatro categorias. As duas primeiras – casos perfeitamente identificados e provavelmente identificados – somavam 26% do total de ocorrências. A terceira era a dos episódios com informação insuficiente, chegando a 36%, e a quarta a de situações em que, após todas as análises possíveis, os objetos permaneceram não identificados, atingindo a elevadíssima cifra de 38%. Essas eram as ocorrências envolvendo artefatos considerados de origem não terrestre. O relatório contendo tais informações foi aprovado pelo Conselho Científico do GEPAN, que em troca pediu a aplicação de novos campos científicos em alguns estudos, como metodologia estatística, modelos de propulsão – inclusive a teoria da magnetohidrodinâmica (MHD) – e psicologia de percepção.

Em 1979, Poher emitiu uma declaração que viria novamente chacoalhar certos círculos científicos franceses, apesar de ser algo esperado. Ele afirmou ter chegado à conclusão de que os OVNIs eram um fenômeno real e que os estudos realizados até então apontavam para a hipótese de serem veículos de origem extraterrestre. O então diretor do GEPAN apresentou seus resultados neste sentido ao conselho científico da entidade, para confirmação. A posição do conselho não foi tornada pública, mas as afirmações de Poher encontraram forte oposição na mídia. Contrariado, ele tirou uma licença de um ano do CNES para cumprir um velho projeto pessoal: velejar ao redor do mundo com sua família em um barco que tinha construído.

Com o afastamento de Poher, o novo homem à frente do GEPAN passou a ser o jovem Alain Esterle, engenheiro graduado na prestigiosa Ecole Polytechnique, que rapidamente ampliou os recursos – e os resultados – da entidade para patamares ainda mais elevados. O staff do grupo cresceu para dez pessoas e a passagem de Esterle por ele, até 1983, foi um período muito produtivo e com a emissão de uma série de Notas Técnicas, monografias em formato de livro que lidavam com os aspectos mais contundentes do Fenômeno OVNI ou com casos específicos.

O caso Trans-en-Provence ocorreu justamente na gestão Esterle, sendo estudado e apresentado publicamente pelo GEPAN em 1983, tema da Nota Técnica 16, intitulada Analyse d’Une Trace [Note technique N° 16 (1er Mars 1983): Enquête 81/01, analyse d’une trace à Trans-en-Provence].

O jornal var-matin voltou ao caso 31 anos depois em sua edição de 21 de setembro de 2012.

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