Os 50 anos do Caso Tiago Machado: O dia em que Pirassununga parou

Na manhã de 6 de fevereiro de 1969, no modesto bairro de Pinheiros, em Pirassununga, cidade a 206 quilômetros de São Paulo, o vendedor de uvas Tiago Machado protagonizaria um dos casos mais desconcertantes e incontestavelmente reais e concretos da ufologia mundial, com fartura de provas recolhidas por ufólogos e militares da FAB e do SIOANI. Uma novidade que acrescento é o relato de João Batista da Silva, que localizei e entrevistei e que me confirmou ter visto uma “barraca de alumínio”, de dentro do qual viu saírem seres parecidos com “matadores de formiga”, no que seu caso, paralelo ao de Tiago, ficou conhecido como o dos “Mata-Formiga”.

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Tiago Machado e sua mãe Maria Machado Metzer em foto de Claudinê Petroli para a reportagem de Sílvio Monteiro publicado na edição de 27 de março de 1969 da revista O Cruzeiro.

Às 7h30 daquela quinta-feira, 6 de fevereiro de 1969, Tiago Machado, um jovem de 19 anos que trabalhava como vendedor ambulante de uvas, despertou aos gritos da vizinha Maria dos Santos, assustada com um objeto reluzente que descia em direção ao Instituto Zootécnico da Indústria e Pecuária (IZIP), a apenas 600 metros dali.

Tiago apanhou o binóculo e viu um objeto prateado. Saiu correndo convidando as pessoas para acompanharem-no até o local, mas o único que aceitou foi o alemão Francisco Hanser, porteiro do IZIP. Ambos seguiram pelas matas nos arredores, de vegetação espessa. A certa altura resolveram tomar caminhos opostos. Hanser optou pelo lado de baixo, passando entre as árvores. Um grupo de pessoas, posicionadas acima da área que exploravam, tentava orientá-los ao ponto em que pousara o objeto.

A uma distância de cerca de 10 metros, Tiago defrontou-se com o aparelho. Parou espantado diante do disco, que parecia dois pratos emborcados de alumínio apoiados sobre um tripé. As bordas giravam, enquanto a parte central permanecia imóvel. Uma “tampa” se abriu sobre a cúpula e através dela saíram flutuando dois homenzinhos fortes, com cerca de 1,50 metros, envergando roupas metálicas inteiriças e capacetes com viseiras transparentes. Por isso Tiago pôde ver seus rostos, semelhantes aos nossos, porém cheio de cicatrizes e rugas. Os lábios eram finos, o nariz grande e achatado e a pele amarelada. Os olhos eram amarelo-escuros e não possuíam pupila, esclerótica ou cílios. O olho esquerdo ficava um pouco acima do direito. Dentro da nave havia mais dois seres que o observavam atrás de um tipo de para-brisa.

Um tubo flexível saiu do visor de um dos seres, emitindo sons graves, roucos e guturais. Os dois homenzinhos deram três passos à frente, momento em que Tiago perguntou-lhes de onde vinham. Um deles fez um círculo com os braços, girando as mãos para cima e para baixo. Tiago perguntou novamente e ele respondeu com os mesmos gestos.

Concepção artística dos seres, do disco e da arma, publicada na edição de 27 de março de 1969 da revista O Cruzeiro.

De modo a demonstrar que o binóculo que trazia pendurado no pescoço não era arma, Tiago depositou-o no chão. Instintivamente, para aliviar a tensão, acendeu um cigarro. Ao soltar uma baforada, os seres se entreolharam e comentaram qualquer coisa. Educadamente, jogou o maço na direção dos visitantes, como que a lhes oferecer em cortesia. Para sua surpresa, um deles posicionou a palma da mão acima do maço e o atraiu como se fosse um imã. Depois encostou a mão na calça e o maço desapareceu. Diante da estupefação de Tiago, as criaturas riram, pondo à mostra os dentes enegrecidos, com falhas que se encaixavam entre si. Como caminhavam lentamente em sua direção, o rapaz deduziu que seria convidado a passear no disco voador.

O encanto foi quebrado pela gritaria do porteiro Hansen e dos populares que chamavam o nome de Tiago. Os homenzinhos recuaram de volta ao disco, sempre de costas para este e de frente para o rapaz. Com um pulinho, flutuaram no ar e adentraram pela cúpula. O último, com a metade do corpo para fora, apanhou uma espécie de “maçarico” e, girando uma alavanca, fez disparar um raio vermelho e azul que atingiu as pernas de Tiago, que caiu com as pernas doloridas e paralisadas. Antes de desfalecer, viu o disco ascender obliquamente em grande velocidade. “Eu fiquei completamente neutralizado, duro como uma estátua. Em dois segundos o disco partiu de lá e mais tarde foi pousar na Fazenda Bela Vista, onde também se mostrou a outras pessoas, como o José Luiz Bonifácio.”

Óleo sobre tela ilustrativa do momento em que Tiago Machado é atingido por um raio desconhecido.
A marca na perna de Tiago Machado atingida pela raio. Arquivo de Carlos Alberto Reis.

A mãe de Tiago, Maria Machado Metzer, e duas vizinhas, Maria dos Santos e Ana Maria Creonice, o encontraram 40 minutos depois “todo abobalhado”, pálido e suando copiosamente. Paralítico da perna direita, foi levado às pressas ao Hospital Municipal de Pirassununga e, por determinação do delegado, removido para a Santa Casa. O médico Henrique Reis não descobriu a causa do ferimento, confessando que nunca vira nada igual. Tiago ficou sob responsabilidade da Força Aérea Brasileira (FAB), que o submeteu a uma bateria de testes e exames físicos e psicológicos. Transferido para o Rio de Janeiro, recebeu tratamento de acupuntura que, segundo ele, lhe recuperou a perna.

O major Gilberto Zani, do IV Comando Aéreo Regional (Comar), encarregado das investigações, tirou medidas do terreno e recolheu amostras da vegetação e do solo. As evidências materiais e as centenas de testemunhas não deixavam margem a dúvidas: tratava-se de um autêntico contato de terceiro grau.[1] Alertado pelas autoridades locais, incluindo o prefeito e o delegado, o coronel Hélio Stétison, comandante da Escola da Aeronáutica de Pirassununga, organizou uma comissão especial de investigação sobre o caso.[2]

Este foi um dos melhores, senão o melhor e mais consubstanciado caso pesquisado pelo Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (SIOANI) criado no início daquele ano de 1969 em plena ditadura do presidente Costa e Silva e vigência do Ato Institucional nº 5 (AI-5) pelo major-brigadeiro José Vaz da Silva junto com um grupo de altas patentes da FAB para lidar exclusiva e inteiramente com o Fenômeno OVNI. Saiba mais sobre o SIOANI aqui.

O Caso Bela Aliança

Ao anoitecer daquele 6 de fevereiro de 1969, José Antonio Fioco, administrador da Fazenda Bela Aliança, a 8 quilômetros do centro de Pirassununga, ouviu grunhidos dos porcos no chiqueiro. Ao se dirigir para lá, assistiu, a uns 20 metros de distância, ao lado da casa, a aterrissagem de uma estranha nave, com cerca de 5 metros de altura por 4 de largura, que se apoiava num tripé de pés largos com cerca de 1,50 metros. Por uma abertura que surgiu no aparelho, saíram três homens que ficaram postados em uma balaustrada que circundava o aparelho, onde permaneceram durante uns três minutos. Eram imberbes, tinham 1,60 metros de altura, calçavam sapatos de material parecido com alumínio e envergavam roupa inteiriça com três botões grandes, de uns 3 centímetros de diâmetro na frente, na altura do peito.

Apesar da distância, Fioco distinguiu que “cada um tinha uma função diferente”. Um deles segurava um tubo de uns 35 centímetros de comprimento por 5 centímetros de espessura, do qual saía, por uma das extremidades, um facho de luz que iluminou perfeitamente o galinheiro, que se achava distante uns 250 metros, tanto que se podia visualizar claramente as galinhas nos poleiros. Outro tripulante olhava através de um aparelho que parecia uma antiga máquina fotográfica de caixão. O terceiro personagem portava um bastão semelhante ao do primeiro homem, porém um pouco maior e mais grosso. Este último olhava constantemente ao redor do disco voador, sempre atento, como que pronto para alertar o grupo ao menor sinal de aproximação de estranhos. Fioco pensou em chamar alguém para testemunhar a ocorrência e saiu recuando cautelosamente em direção à sua casa. Porém, ao abrir a porteira, esta rangeu nos gonzos e possivelmente isso tenha assustado os tripulantes, porque imediatamente a nave levantou voo, desaparecendo em poucos segundos.

Posteriormente, em 19 de abril de 1973, o médico e ufólogo Walter Karl Bühler, fundador e presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Discos Voadores (SBEDV), localizou o novo endereço do senhor Fioco, que agora residia no bairro Azteca, em Descalvado (cidade a cerca de 23 quilômetros de Pirassununga e 15 quilômetros de Porto Ferreira), e em 20 de maio para lá se dirigiu, sendo recebido por sua esposa, dona Sebastiana, e sua filha, Maria Conceição, então com 19 anos de idade. Esta última, moça inteligente de raciocínio rápido, declarou que, durante os dois meses em que os discos voadores sobrevoavam Pirassununga, teve oportunidade de observá-los em nada menos do que cinco ocasiões diferentes, embora não tivesse chegado a presenciar uma aterrissagem.

Em compensação, ela e sua mãe teriam visto por duas vezes “personagens estranhos” aparecerem na tela da TV, quando assistiam a novela do Canal 4 de São Paulo, por volta das 20 horas. É Maria Conceição quem conta:

“A imagem foi saindo e apareceu outra, depois de um certo período de interferência… Durante uns quinze minutos, vimos claramente personagens estranhos no vídeo. Eram iguais a nós nos olhos, boca, dentes e maneira de andar, mas tinham o rosto bem mais fino, e suas roupas eram diferentes. As mulheres usavam saias compridas, até o chão, e cabelos longos; os homens vestiam uma espécie de fraque, camisa e laço tipo borboleta. Os cabelos iam até as orelhas. A cena parecia de novela, com algumas pessoas entrando e outras saindo por uma porta. Notei que havia uma mesa, ou coisa parecida, e algumas cadeiras.”

Dona Sebastiana achou o idioma deles parecido com o húngaro. “Era uma língua rápida e enrolada”, completou Maria Conceição. As fazendas circunvizinhas, umas quatro ou cinco, ainda não possuíam aparelhos de TV na época.[3]

O Caso dos Mata-Formigas

Ao retornar a Pirassununga em 19 de abril de 1973 a fim de colher dados adicionais ao Caso Tiago Machado, Walter Bühler soube que alguns trabalhadores rurais também teriam visto um disco voador naquele 6 de fevereiro de 1969.

A senhora Bárbara Lima da Silva, que passara a residir no bairro Risca-Faca e trabalhar no IZIP, relatou que na manhã daquele 6 de fevereiro trabalhava na capina de arroz na Chácara do Morais, que ficava meia hora a pé do lugar onde agora morava, quando dois meninos, João Batista da Silva, seu filho de 9 anos, e Benedito Paulino Dias Ramos, seu sobrinho de 13, chamaram sua atenção para uma “barraquinha reluzente” que se achava a uns 500 metros de distância. Ela olhou e viu a tal barraca, que lhe pareceu branca, mas não reluzente como diziam os garotos: “Tinha a forma triangular e pensei que fosse uma daquelas usadas pelos mata-formigas, ainda mais porque, andando ali por perto, estavam três homens com capacete na cabeça, parecidos com os que eu já vira antes dando combate às formigas saúvas.”

Os ufonautas visto por Tiago Machado pareceram “matadores de formiga” aos trabalhadores rurais.

Os garotos diziam-lhe que a roupa daquela gente estava brilhando, com grande luminosidade, mas para Bárbara parecia apenas de cor cinza. Indiferente, a campesina continuou seu trabalho. De repente, os meninos gritaram: “Olha! A barraquinha desapareceu!” Ela constatou que, realmente, não se via mais nem os “mata-formigas” nem a “barraca”, porém não se interessou pelo fato e prosseguiu capinando. Logo depois, os jovens chamaram sua atenção para uma bola luminosa do tamanho do Sol, imóvel, pouco acima do mato. Ela viu a bola, mas novamente não se ligou na excitação dos meninos, que lhe perguntavam repetidamente o que era aquilo. Após cerca de meia hora, a luz desapareceu e, em seguida, uma aeronave da FAB desceu perto do local da ocorrência. Nos dias seguintes o fato se repetiu várias vezes. Somente algum tempo depois, quando teve conhecimento do caso ocorrido com Tiago Machado, que se deu no mesmo dia e perto do local da sua primeira experiência, foi que pensou no que tinha visto e, então, admitiu que havia se tratado mesmo de um disco voador e seus tripulantes.[4]

Em 2002, localizei e entrevistei aquele que era um dos garotos na época e que chamara a atenção de Bárbara, seu filho João Batista da Silva, primo de Benedito Paulino Dias Ramos. Ele me confirmou que trabalhavam na campina carpindo arroz no momento em que surgiu a tal “barraca de alumínio”, e que os primeiros a notarem foram de fato ele e seu primo. João Batista fez questão de retificar que de dentro da “barraca” não saíram propriamente “anões”, mas seres parecidos com “matadores de formiga”, uma vez que os matadores de formiga da época usavam uma roupa semelhante. Seus movimentos eram lentos e robóticos, parecidos com os dos astronautas caminhando na Lua. João Batista constatou que no local em que a “barraca de alumínio” aterrissou, próxima a uma seringueira, a terra e o mato ficaram queimados. Ao partir, acrescentou ele, “o objeto se transformou em uma bola brilhante, mais ou menos do tamanho do Sol”. Perguntei-lhe se a nave que eles tinham visto não teria sido a mesma com que se depararia Tiago Machado momentos depois, ao que me respondeu que “daí a pouco a gente viu o helicóptero da Aeronáutica abaixando lá para pegar o Tiago que tinha sido atingido pelos homenzinhos”. A nave, portanto, aterrissou primeiro na Chácara do Morais, para depois rumar à Vila Pinheiros.

À tarde, quando já haviam terminado o serviço, os militares chegaram, colheram informações e solicitaram que os levassem até o local onde a nave havia pousado. Quatro marcas ainda estavam bem visíveis. “Eram furos grandes e redondos, como se a nave tivesse acionado algum mecanismo que queimou o capim”, descreveu João Batista. A TV Excelsior os entrevistou, mas como eram crianças simplórias, tímidas e envergonhadas, não falaram muito. Vários ufólogos os procuraram na colônia do Risca-Faca, nos terrenos do IZIP, da USP, onde moravam.

Fotografias feitas por um sargento-fotógrafo da FAB das marcas deixadas no solo pelo disco voador. Fonte: Arquivos de Fernando Cleto Nunes Pereira.

“As pessoas ficaram por vários anos nos perturbando e fazendo sensacionalismo em cima do que aconteceu. A gente se cansou disso. Muitos não acreditavam no que a gente dizia e ficavam tirando sarro. Então, apesar de ter certeza do que vira, comecei a evitar comentar o assunto. Saiu uma foto numa revista em que apareciam eu, o Benedito e minha mãe. Nessa revista a gente conta detalhadamente a história. Nós, porém, éramos humildes, e nunca buscamos nenhum tipo de promoção”, desabafou João Batista, que agora trabalhava como técnico em raios X. Seu primo Benedito, contou-me ele, agora era tratador de animais. A chácara não era de propriedade da família, que era e continuava sendo católica, mas apenas arrendada. Perguntei a João Batista se ele achava que aqueles seres eram mesmo extraterrestres, ao que respondeu não ter dúvidas disso, “pois não podiam ser outra coisa”. Acrescentou que um outro lavrador, já falecido, também tinha visto a nave de outro ponto.

O documento oficial da FAB

Um documento oficial assinado por uma alta patente das Forças Armadas – cujo nome foi omitido, assim como o de outros militares envolvidos –, em poder do ufólogo Fernando Cleto Nunes Pereira, corrobora a veracidade do Caso Tiago Machado. Eis abaixo a reprodução textual do documento:

“Possível pouso de OANI em Pirassununga (SP):

1) Por volta de 9h30, achava-me inaugurando o posto da Caixa Econômica Federal no Destacamento Precursor da Escola de Aeronáutica – hoje AFA – em Pirassununga, em companhia dos brigadeiros […], quando, sem qualquer explicação, faltou energia elétrica e os telefones ficaram mudos;

2) Por volta das 11 horas, telefonou-me o coronel […] do 17º Regimento de Cavalaria, dizendo: ‘Você soube do disco voador? Queria avisar-lhe, mas os telefones não funcionaram. Uma multidão está alvoroçada com um objeto que pousou no terreno do IZIP, na Vila Pinheiros. Um rapaz está na Santa Casa por ter levado um tiro dos tripulantes. Desloquei-me de helicóptero para o local em companhia do coronel […] e de outro oficial. Encontramos o capim amassado, em formato circular, medindo 6 metros de raio; no centro havia três marcas equidistantes 66 centímetros entre si, perfazendo um triângulo. As marcas – três covas lisas por dentro, perfeitamente semi-esféricas – eram como que resultantes da queda de uma esfera de aço – com o dobro do tamanho de um peso de arremesso usado em competições esportivas. Um garoto sem camisa, com cerca de 11 anos, dirigiu-se a mim: ‘Comandante, o aparelho pousou em mais dois lugares, ali e lá. Quer ir lá ver? O capim era meio alto. Tentei chegar ao local mas desisti. Cada ponto distava uns 50 metros um do outro. Recolhemos nas proximidades um maço de cigarros nacional. Voltando ao quartel, determinei imediatamente a ida de um oficial à Santa Casa e comuniquei o ocorrido ao […] Na Santa Casa, o oficial não encontrou o rapaz, que tinha sido convidado por uma estação de rádio a conceder entrevista. O oficial ouviu então Henrique, médico que atendeu Tiago. O rapaz chegou aqui desmaiado e balbuciou: ‘Levei um tiro nas pernas.’ Examinei-o mas não encontrei marcas de tiro, a não ser duas grandes saliências avermelhadas, uma em cada perna, na parte anterior da coxa, ambas na mesma altura. Ao recuperar a consciência, o rapaz contou-me que ele fora o único a chegar perto do disco voador, do qual desembarcaram dois homenzinhos. […] Um deles, com uma arma, deu-lhe um tiro nas pernas, após o que desfaleceu […] Chegou de São Paulo, no mesmo dia, o tenente coronel […] que interrogou Tiago, além de outras trezentas pessoas, incluindo a mim. Os depoimentos foram coincidentes. Um sargento tirou fotos do local do pouso. No dia seguinte, o motorista da ambulância de pista da FAB, residente na Vila Pinheiros, que estava de folga por ter ficado de plantão durante o voo noturno, contou-me: ‘Fazia uns servicinhos em casa quando a minha mulher me chamou falando de um estranho paraquedas; pensei logo em algum cadete que havia saltado de avião e corri para prestar auxílio. Ocorre que aquilo não se parecia em nada com um paraquedas, e sim com um disco metálico brilhante, azulado. […] Vi umas três ou quatro pessoas correram para o local do pouso e o rapaz se aproximando do aparelho. Não fui até lá porque a minha esposa, com medo, já ia fazendo escândalo.’ Ao todo, calculo que cerca de quinhentos moradores da Vila Pinheiros saíram para ver o disco. No dia seguinte, mandei um avião a Poços de Caldas trazer dois técnicos especialistas em radioatividade, que no entanto não detectaram níveis anormais. O capim amassado adquirira uma coloração amarelada e exibia uma faixa queimada.”

Conclusão

Praticamente toda a cidade de Pirassununga testemunhou o disco voador pousar nos terrenos do IZIP, além do que um grande número de casos, incluindo aterrissagens, haviam ocorrido naquela região dentro de um raio de menos de 10 quilômetros, a confirmar o fenômeno da “impregnação geográfica”.

Nessa época em Pirassununga, pelo menos uma em cada duas pessoas dizia ter visto um disco voador.

Tiago Machado foi levado pelos oficiais da FAB a São Paulo, onde o submeteram a todos os tipos de testes, e em seguida à França, pelas mesmas autoridades da Aeronáutica, que o fizeram conceder entrevistas às televisões daquele país.

Interrogado vezes sem conta nos anos seguintes por repórteres e ufólogos, sempre confirmou a sua história em todos os pormenores com simplicidade e bom humor. Casou-se, teve um filho e levava uma vida normal, pacata e modesta, tendo trabalhado como motorista da TV Cultura de São Paulo. Até hoje jamais ouvi nada que desabonasse o caso, muito pelo contrário. As múltiplas testemunhas, entre elas a que entrevistei, também sempre o confirmaram.

O lance da aterrissagem em pleno dia e aos olhos da população, bem como o desembarque dos seres, parecem derivantes do filme que mais influenciou a estrutura dos relatos ufológicos: The Day the Earth Stood Still (O Dia em que a Terra Parou), parábola progressista e pacifista que o diretor Robert Wise (1914-2005) rodou em 1951, um ano antes de George Adamski despontar como o primeiro contatado da era moderna e de Dino Kraspedon (pseudônimo de Aladino Félix) viver seu primeiro encontro com o comandante espacial. Mas as semelhanças param por aí, pois não houve mensagens de cunho pacifista ou ultimatos para que cessássemos as experiências atômicas.

Tiago, no entanto, ou foi afetado pela “síndrome do contatado” ou de fato foi contatado novamente por um dos seres, que desta vez lhe apareceu disfarçado de mulher.

Contou ele ao ufólogo Romeo Graziano Filho, que incluiu o relato em seu artigo “O retorno dos extraterrestres”, publicado na edição de julho de 1988 da revista Planeta Série Ouro: As melhores matérias já publicadas sobre Ufologia, que numa certa noite do ano de 1972, sua mãe teve um sonho que previa a visita de uma estranha mulher, que acabou acontecendo: “Um táxi parou em minha porta com uma senhora que queria falar comigo. Eu nunca tinha visto aquela pessoa. Ela entrou em casa (o táxi ficou esperando) e disse para minha mãe: ‘Eu queria conversar com seu filho’. Eu lhe disse que não a conhecia e perguntei: ‘Quem é você?’ Ela então respondeu que era do disco voador e queria falar co­migo.” Tiago foi tomado de pânico e pensou em deter a mulher e chamar a Polícia. E ela, comen­tando que ele estava muito nervoso, retornou ao táxi dizendo que volta­ria no “dia 2” (Tiago esqueceu o mês), às 14h30.

A “alienígena” era quase loira, trajava uma roupa bas­tante surrada, “aquelas roupas de ban-lon que se usavam muito”, e cal­çava sandália de cor amarela, “bem judiada”, especificou Tiago. Ele, sua mãe, seu sobrinho e o vizinho resolveram procurar o motorista do táxi, na tentativa de achar uma pista qualquer daquela mu­lher. E foram até a rodoviária, onde ficava o seu ponto. “Conversamos com o rapaz do táxi e ele informou que não levou nenhuma mulher para minha residência. Mas os seus amigos o acusaram de ter saído com uma mulher para a minha casa. E ele (o motorista) teimou que nem saiu do seu ponto.”

Foto de Dolores Barrios, a estranha loira que apareceu em 7 ou 8 de agosto de 1954 em uma convenção de discos voadores no Monte Palomar, a 250 quilômetros ao sul de Los Angeles. Seria uma mulher da mesma estirpe que apareceu a Tiago Machado?

No dia do novo encontro com a tal mulher, Tiago achava-se na ci­dade de São Paulo. Exatamente às 14h30, quando viajava no trem que vai para a periferia, teve nova surpresa: “Ela apareceu dentro do trem e veio conversar comigo. Eu tentei segurá-la, mas ela deu uns três passos, assim na minha frente, e desapareceu!”

De tão atônito, Tiago procurou um médico da FAB e lhe contou o que havia sucedido, no que recebeu ins­truções para o que fazer no caso de a mulher tornar a aparecer. Porém, ele nunca mais foi procurado ou teve uma nova experiência com a tal mulher.

Quando Graziano lhe perguntou se não se sentia “escolhido” pelos ufonautas, respondeu: “Sei lá, dizem que eu sou uma pessoa marcada. Não sei explicar o por quê. Mas eu acredito nisso.” Em seu jeito, um misto de expectativa de um novo encon­tro a qualquer momento.

Tiago Machado defronte ao portão de entrada da TV Cultura de São Paulo, na rua Cenno Sbrighi, 378, Água Branca, na época (meados dos anos 80) em que trabalhava lá como motorista. Foto de Douglas Oliveira e Silva.

Notas:

[1] Graziano Filho, Romeo. “O retorno dos extraterrestres”, in Planeta Série Ouro: As melhores matérias já publicadas sobre Ufologia, São Paulo, Ed. Três, julho de 1988, p.31-33; Pereira, Fernando Cleto Nunes. Sinais Estranhos, Rio de Janeiro, Hunos, 1979, p.19-20.

[2] André, Jaycé J. “A anatomia de uma invasão”, in Jornal do Brasil, Rio de Janeiro; Pereira, Fernando Cleto Nunes, op.cit., p.20-22.

[3] Bühler, Walter Karl. “Bela Aliança”, in Boletim da SBEDV, Rio de Janeiro, nº 94-98, setembro de 1973 a junho de 1974, p.26-27; Especial 1975, p.22.

[4] IDEM, “O Caso dos ‘Mata-formigas’”, in Boletim da SBEDV, Rio de Janeiro, nº 94-98, setembro de 1973 a junho de 1974, p.25-26; Especial 1975, p.23-24.

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