ETs de Roswell deram poderes xamânicos e reptilianos a Jim Morrison?

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

O mito The Doors centrado na figura de Jim Morrison não tem The End. O baterista John Densmore já havia dito na entrevista para o documentário No One Here Gets Out Alive: A Tribute do Jim Morrison, de 1981, que JM “deixara muito a ser descoberto”. Não, não vai terminar. Como todos os mitos, se reatualiza e se revigora. Passados 50 anos do lançamento dos dois primeiros discos, The Doors e Strange Days, tudo já se falou mas parece que ainda há muito o que se falar.

JM, é claro, fez tudo para se converter nesse mito de propósito e caso pensado, chegado que era a livros de filosofia, antropologia, mitologia e religião comparada e a escritores que trilharam bem antes dele o mesmo caminho de morte & renascimento. Garantia que o espírito de um velho índio havia transmigrado para seu corpo (no que reivindicava ter adquirido poderes xamânicos, sendo capaz de “ter visões pela tribo e curá-la”), sugeriu que fundassem uma nova religião, profetizou vários acontecimentos que se cumpriram (entre eles sua própria morte precoce aos 27 anos), e chegou a criar um alter ego com vida própria, uma segunda persona, que usava para manifestar seu lado mais sombrio, a que chamou de “Mr. Mojo Risin”, um anagrama de Jim Morrison (na canção L.A. Woman, ele repete várias vezes “Mr. Mojo Risin…”).

JM também se autointitulava o “Rei Lagarto”, como deixou registrado em seu longo poema “The Celebration of the Lizard”, parcialmente musicada com o título de “Not to Touch the Earth” e que foi incluído no terceiro álbum da banda, Waiting For The Sun, cuja parte interna trazia o desenho de um lagarto. O poema completo musicado, pela sua longa duração, só aparece em gravações ao vivo, como o que se ouve em Absolutely Live, o primeiro álbum ao vivo da banda lançado em 1970. Em um trecho, JM afirma com voz cavernosa: “I am the Lizard King, I can do anything” (“Eu sou o Rei Lagarto, eu posso fazer tudo”).

JM como que já sabia que iria ser imortalizado, tanto que adiantou e ironizou isso em sua outra longa música “When The Music’s Over”, do álbum Strange Days: “Cancel my subscription to the Resurrection / Send my credentials to the House of Detention / I got some friends inside” (“Cancele minha assinatura para a ressurreição / Mande minhas credenciais para a Casa de Detenção / Eu tenho alguns amigos lá”).

Pai e filho: o almirante George S. Morrison mostrando a um Jim gordinho como funciona um navio.

Para quem sempre teve pendores para o oculto, seria natural que o conectassem aos UFOs, ainda mais por ser filho do almirante George Stephen Morrison e ter vivido na época do surgimento e auge do Fenômeno, outro de nossos mitos modernos inquebrantáveis. Assim é que em 31 de maio último, um acadêmico e pesquisador independente profissional, que se identifica apenas por Stephen S., formado pela Carnegie Mellon University, especialista em eletrônica e engenharia espacial e de telecomunicações, publicou no Linkedin um artigo intitulado “Musician Jim Morrison – UFO Eyewitness?“, em que revela ter perguntado anos atrás ao ufólogo, físico nuclear e conferencista norte-americano Stanton Terry Friedman, sobre se JM poderia ter testemunhado o Incidente em Roswell naquela quarta-feira, 2 de julho de 1947, ou nos dias subsequentes. Friedman disse que nesse dia JM e sua família não estavam trafegando em nenhuma rodovia, mas que o garoto JM, então com 3 anos e meio de idade, pode ter sido testemunha da operação limpeza e/ou resgate em andamento. A família de JM provavelmente trafegava pela Rota 66, indo para Albuquerque, Novo México, onde a irmã de Jim, Anne Robin nasceria mais tarde naquele ano.

O acontecimento decisivo na vida de JM, aquele que ele reputava como o mais importante de sua vida, foi justamente o do incidente na estrada quando tinha 4 anos, e que ele descrevia da seguinte maneira, como se pode ouvir em An American Prayer, álbum póstumo de poesias musicadas em 1978 pelos remanescentes do grupo:

“A primeira vez que descobri a morte… eu, os meus pais e os meus avós, íamos de automóvel no meio do deserto ao amanhecer. Um caminhão carregado de índios, tinha chocado com outro veículo e havia índios espalhados por toda a rodovia, sangrando. Eu era apenas uma criança e fui obrigado a ficar dentro do carro, enquanto os meus pais foram ver o que se passava. Não consegui ver nada – para mim era apenas tinta vermelha esquisita e pessoas deitadas no chão, mas sentia que alguma coisa tinha se passado, porque conseguia perceber a vibração das pessoas à minha volta. Então de repente me dei conta que elas não sabiam mais do que eu sobre o que tinha acontecido. Esta foi a primeira vez que senti medo… e eu penso que nessa altura as almas daqueles índios mortos – talvez de um ou dois deles – andavam a correr e aos pulos e se conectaram à minha alma, e eu, apenas como uma esponja, fiquei ali sentado absorvendo-as.”

Embora os pais de JM tenham dito que tal incidente nunca ocorreu, JM ficou tão perturbado que seus pais precisaram insistir que tudo não passara de um pesadelo. Ora, esse episódio, aparentemente insignificante, e que não o foi, pelo menos para JM, apresenta aquelas mesmas características de certos casos ufológicos em que os envolvidos têm suas memórias parcialmente apagadas ou modificadas, e nos quais remanesce, entretanto, o trauma em alguns deles. Por que tal incidente marcou tão profundamente JM, a ponto de assumir ser ele mesmo um xamã e fazer inúmeras referências em suas poesias, canções e entrevistas, como por exemplo nas músicas “Peace Frog” e “Ghost Song”?

É muita coincidência que O “Incidente com os Índios na Estrada” tenha ocorrido justamente na mesma época e local do Incidente em Roswell, e que tal como este último, ser classificado como uma ficção completa da imaginação de certas pessoas. Stephen S. pergunta: “Se uma família de quatro navajos tinha se acidentado na estrada, por que tantos policiais estariam resguardando a cena e por que o Exército estaria cuidando dos feridos? Infelizmente, mesmo hoje, ninguém se importaria.”

A “conexão psíquica” com um velho navajo à beira da estrada, um “chefe sábio” que usava algum tipo de roupa cerimonial, poderia realmente ter sido uma conexão não com um índio, mas com um alienígena usando alguma roupa espacial e que para minimizar o impacto ou por algum outro motivo, entrou na mente dos circunstantes, mormente na de Jim, ainda mais por ser uma criança, e os fez vê-los como índios. E se os pais de JM negavam tal acontecimento, teriam sido suas memórias apagadas? E a pergunta inevitável: Seria esse alien do tipo grey reptiliano? Se sim, poderia ter conferido características “reptilianas” a JM, daí seu epíteto de “Rei Lagarto?”

À esquerda, Jim Morrison vestindo casaco e calça inteiramente feitos de couro de lagarto; ao centro, caricatura retrata um JM reptiliano; e à direita, JM segurando um lagarto pelo rabo.

Uma das últimas gravações, “Riders on the Storm”, a última faixa do lado B do sexto e último álbum, L. A. Woman, de 1971, vagamente baseada no assassino em série Billy Cook, que no início dos anos 50 se passou por caroneiro e matou uma família inteira nos EUA, parece trazer pistas que indicam ter JM testemunhado Roswell. Os “Viajantes da Tempestade” poderiam muito bem ser os aliens, uma vez que naquela noite de quarta-feira, 2 de julho de 1947, sobre a desolada paisagem do Novo México, desencadeou-se uma das piores tempestades elétricas a atingirem a região nos últimos tempos, tempestades essas que já haviam abatido aviões na área. A letra diz: “Into this world we’re thrown / Like a dog without a bone / An actor out alone” (“Neste mundo fomos jogados / Como um cão sem um osso /Um ator solitário”). Os que foram “jogados” neste mundo poderiam ser os aliens que caíram na Terra com seu disco voador. Esses aliens se pareciam com um “cão sem osso” e estavam sozinhos neste mundo.

Teria o “alien de Roswell” se comunicado telepaticamente com Jim e lhe conferido algum dom especial ou lhe incumbido alguma missão? Afora sua elevada inteligência e seu extraordinário talento poético/musical, JM adquiriu, como disse, a capacidade de prever eventos futuros e se antecipar a eles, tanto que suas letras e músicas refletem não só o estado em que se encontrava a sociedade naquele final dos anos 60, mas como que já prenunciavam todo o caos e violência que se seguiriam nas décadas seguintes. Não é à toa que os Doors continuem sendo curtidos com o mesmo ou maior grau de intensidade pelos jovens das novas gerações.

Stephen S. revela ainda que em 2012 entrou em contato com o produtor de TV Bryce Zabel e lhe contou essa história, já que Zabel, nos anos de 1996-97, foi o criador e um dos responsáveis na NBC pelo seriado de ficção científica na linha de Arquivo X chamado Dark Skies, que infelizmente só durou uma temporada, em um total de vinte episódios. O décimo episódio, “Last Wave”, mostrava JM com 22 anos (interpretado por Brent Fraser, que não se parecia em nada com ele), quando ainda estudava cinema na UCLA e não tinha formado o The Doors. No episódio, Jim ajudou a dupla central, o casal John Loengard (Eric Close) e Kim Sayers (Megan Ward), que estavam examinando os resíduos tóxicos que andavam contaminando as praias de Venice, sendo essa contaminação causada por extraterrestres hostis. Stephen S. admite que foi esse episódio que o levou a pensar por que JM estaria conectado aos UFOs. O próprio Zabel não havia percebido que a conexão era – ou poderia ter sido – devido ao Incidente em Roswell.

Dark Skies ia muito além de Arquivo X e explorava de forma muito mais aprofundada a mitologia ufológica. John Loengard e sua esposa Kim Sayers viajam pelos EUA tentando ficar um passo à frente do Majestic 12, criado logo após o Incidente em Roswell, que encobre tudo relacionado aos UFOs, ao mesmo tempo em que combatem os planos de domínio dos aliens hive em andamento. Ao longo de sua jornada on the road, eles vão vivenciando todos os acontecimentos dos anos 60 (incluindo o assassinato de John Kennedy, a estreia americana dos Beatles, a ascensão do movimento hippie e da psicodelia, os conflitos raciais, os protestos contra a Guerra do Vietnã, etc.), e cruzam com inúmeros personagens conhecidos, como o bilionário Howard Hughes, e é claro, Jim Morrison. Os hive usavam figuras carismáticas da sociedade para executar seus planos, controlando suas mentes, e manipulavam eventos históricos a seu favor. Nesta série é que se deu a estreia da atriz blonde bombshell Jeri Ryan, que pouco depois iria explodir em Star Trek: Voyager como a humana resgatada dos borgs Sete de Nove. Tanto em DS como em STV, ela “caiu” de paraquedas no meio da trama para fazer os índices de audiência subirem.

Segue um artigo que escrevi há muito tempo atrás (com os devidos acréscimos, correções e atualizações) para quem queira saber mais sobre os Doors e Jim Morrison.

As Portas da Percepção Estão Abertas

Por certo, nem o romancista, ensaísta e poeta inglês Aldous Huxley (1894-1963) – neto do igualmente célebre naturalista Thomas H. Huxley – poderia imaginar que a frase emprestada do poeta William Blake (1757-1827) e utilizado no título de seu clássico livro sobre os efeitos causados pelas drogas na mente humana, The Doors of Perception (1954), fosse um dia batizar um dos grupos de rock mais originais e inventivos de todos os tempos: The Doors. O autor do profético Admirável Mundo Novo (1932) – aterradora visão de uma sociedade totalitária do futuro controlada pela tecnologia, em que todos os cidadãos são pré-condicionados e obedecem mecanicamente às normas preestabelecidas –, no entanto, seria apenas mais uma das muitas & muitas influências literárias do cineasta, poeta e cantor Jim Morrison, nascido em 8 de dezembro de 1943, na Flórida, que, a exemplo de Huxley, trilhou o caminho arriscado de um espírito que se desvencilhou do racionalismo cético e partiu em busca do êxtase desesperado impulsionado pelo desejo de transcendência.

Desde criança, Morrison contava com uma certa insistência que, ao presenciar um acidente na estrada,  a alma de um velho índio transmigrara para seu corpo. A cena nunca saíra de sua lembrança e é, repetidas vezes, citada ou referida em seus textos, a exemplo de um narrado por ele mesmo no álbum de canções e poemas An American Prayer, editado postumamente pelos demais integrantes da banda em 1978. O antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009), em seu livro Mito e Significado, pontificou que deveríamos tentar recuperar aqueles elementos míticos e espirituais perdidos ou sufocados pela sociedade moderna. Ao reatar o elo com a cultura indígena, propiciando uma poderosa resposta xamânica e negra ao rock céltico-druida inglês, Morrison iria cumprir o enunciado à risca, galvanizando todo o sentimento de revolta dos derrotados e excluídos, mormente daquela geração jovem insatisfeita e perdida ante uma sociedade opressora e hipócrita, cujo estado de crise se prolonga até hoje, com os agravantes da globalização.

A dimensão do fenômeno dos Doors no quadro de turbilhões que agitaram a juventude do final dos anos 60, somente pode ser entendida analisando-se o alcance universal e intemporal das mensagens que o grupo transmitia numa América que ainda tentava viver seu sonho dourado e exportar seu american way of life, mesmo convivendo com o pesadelo do Vietnã. Suas músicas e letras nunca perderam a atualidade e sempre parecem mais atuais do que nunca, revelando uma força surpreendente. Quem as ouve pela primeira vez tem a nítida impressão de que não foram feitas para o contexto repleto de sonhos e esperanças daqueles tempos, mas precisamente para o nosso próprio tempo, cada vez mais conturbado e violento, cínico e niilista. De fato, eles já se antecipavam à falência das utopias e anunciavam a degradação ética e moral confrontando os conceitos de “paz e amor” vigentes com hedonismo e caos, o lado mais selvagem e pessimista do pop. Não é à toa que eles sempre venderem discos como se estivessem em atividade, muito antes até do revival nostálgico que se espalhou pelo planeta nas décadas de 80 e 90.

A icônica Debbie Harry, no auge da fama no final dos anos 70, fotografada por Mick Rock.

Se eles catalisariam todo o movimento contracultural que abalou e modificou definitivamente fundamentos, costumes, comportamentos e visões de mundo, arrebatando desde adolescentes de classe média, passando por integrantes das mais diversas tribos – freaks, beatniks, poetas anônimos, alternativos, buscadores, andarilhos e marginais de toda espécie – a intelectuais exigentes, nos anos seguintes eles seriam a maior influência da música punk e new-wave – Debbie Harry, a explosiva e sensual vocalista do lendário Blondie, por exemplo, reconheceu o forte impacto que os shows do Doors, alguns dos quais assistiu pessoalmente, haviam exercido sobre sua formação – ou de tudo aquilo que se gestava no underground.

O fato, porém, é que os que têm se sucedido não conseguem igualar a força mágica do grupo. E seus líderes ainda parecem recatados sacristãos diante de Jim Morrison, o maior intelectual já cooptado pelo rock. Nunca alguém foi tão direto à essência do que verdadeiramente importa, o rompimento de todos os limites impostos e a irrupção para o outro lado: “Break on through to the other side…”  Em tom épico, usando e abusando de metáforas e simbolismos, resgatando o estilo de antigos poetas, cantava a dor, a cópula e a morte – pela qual nutria particular obsessão e fascínio, como que antevendo a sua própria – da maneira como elas devem ser cantadas, isto é, como se fosse a última vez.

The Doors no Hollywood Bowl em 5 de julho de 1968.

Em termos musicais, o grupo diferia completamente das bandas de seu tempo, combinando magistralmente blues de bar com improvisações jazzísticas e noise operístico com órgão de parque de diversões, além de incorporarem influências do flamenco e até da bossa nova. Prescindiam de um baixista, já que as notas mais graves eram supridas pelo tecladista de formação clássica Ray Manzarek – que estudara cinema com Jim – em seu piano Fender. O guitarrista Robbie Krieger – estudante de física e psicologia na UCLA – trazia influências do blues e da música indiana. E os groove intensos do baterista John Densmore são sentidos hoje na maioria dos bateras de rock que não imprimem um tamborilar monótono ao seu instrumento. Foi com essa combinação eclética e aparentemente incompatível que os Doors se tornaram uma das bandas mais originais e inventivas da história. Os três, mormente Manzarek, criavam as trilhas sonoras para as letras intrigantes de Morrison. Eram, em síntese, a mistura de cabaré, Bertold Brecht & rock’n’roll.

Todavia, cabe reconhecer, a grande diferença residia nas letras viscerais de Morrison, do tipo que perfura buracos no cérebro. No disco de estreia, brindou-nos com o clássico The End – primorosamente usado em 1979 no filme Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola, seu colega no curso de cinema na UCLA –, uma visão edipiana, trágica e niilista da vida que ainda hoje faz qualquer roqueiro parecer coroinha de Igreja.

“This is the end, beautiful friend. This is the end, my only friend, the end…” Cena de Apocalypse Now.

Para quem renegava a eternidade e vivia como se o minuto seguinte fosse uma possibilidade remota, não deixa de ser irônico o fato de Morrison continuar mais vivo do que nunca. E como que já prenunciando isso, incluiu em When the Music’s Over a seguinte passagem: “Cancele minha inscrição para a ressurreição. Envie minhas credenciais para a casa de detenção. Tenho muitos amigos lá dentro.”

Quando se encontravam no auge, cogitou com os companheiros simular a sua própria morte, certo de que o grupo venderia muito mais do que com ele vivo. Sábia premonição. Ele ressuscitaria pela primeira vez na alvorada dos anos 1980 com a biografia  No One Here Gets Out Alive (Daqui Ninguém Sai Vivo), de Jerry Hopkins e Danny Sugerman. A revista Rolling Stone anunciava em setembro de 1981, estampando o rosto de Jim na capa: “Ele é quente, ele é sexy e está morto”, em alusão ao emergente culto aos Doors. E o filme de Oliver Stone traria-o definitivamente de volta no começo dos anos 1990. Retracemos, pois, a estranha saga da vida & morte & renascimento do poeta.

Morrison, crisálida do futuro Morrison, era tímido, gordinho. A rígida disciplina imposta pelo pai, almirante da marinha, instou-lhe um misto de ódio e ressentimento contra as autoridades, cristalizados em seus textos e atitudes. A família mudava-se constantemente conforme o pai ia sendo transferido para diferentes bases militares. Esse nomadismo impedia que fizesse amizades duradouras, relegando-o à solidão. Em compensação, lia tudo e todos, principalmente poetas como Blake, Rimbaud, Baudelaire, Ginsberg e Kerouak, romancistas como Huxley e Céline, e filósofos modernos como Nietzsche, por quem nutria especial predileção.

Em 1962, Jim foi estudar Arte e Psicologia na Florida State University (FSU), na cidade Tallahassee. Apenas um ano depois, no dia 28 de setembro, ele foi preso pela primeira vez em sua vida (a primeira de muitas…). Não se sabe exatamente o que aconteceu, mas o fato é que Jim começou uma grande confusão após um jogo de futebol local.

Há um raro filme de relações públicas da FSU intitulado Toward A Greater University, gravado no decorrer dos meses de 1963 e 1964, que mostra James Douglas Morrison, aos 20 anos, atuando em duas breves cenas: ele aparece recebendo uma carta informando que foi rejeitado pela FSU, e mais tarde se encontra com um reitor que lhe dá conselhos para seguir em frente. Para fazer um trocadilho, “quando uma porta fecha, outra se abre.” (hehe).

Numa quinta-feira, 5 de dezembro de 1963, Morrison apareceu em uma produção de teatro no campus da FSU, no Teatro Conradi, interpretando Gus na comédia dramática The Dumb Waiter, escrita por Harold Pinter em 1957. A peça foi produzida como cumprimento parcial do mestrado de Sammy Kilman, que encarnou D. Keith Carlson. Nesta fotografia promocional para a peça, Morrison é identificado como Stanislous Bolislavsky. O colega de classe de Morrison, Gerald McClain, atribuiu esse pseudônimo ao seu senso de humor. 

Os livros, os filmes e os cadernos de anotações passaram a ser suas fiéis companheiras. Em janeiro de 1964, resolveu estudar cinema na conceituada UCLA (Universidade da Califórnia), onde faria poucos amigos, entre eles Dennis Jakob, com quem planejou secretamente sua entrada no mundo do rock. A ideia era formar uma dupla com o nome The Doors: Open and Closed, inspirada nos versos de Blake: “Quando as portas da percepção forem desveladas, tudo parecerá ao homem como as coisas realmente são: infinitas.”

Depois que se formou, manteve seu nome registrado em diversos cursos de pós-graduação apenas para fugir do serviço militar, período em que “morre” durante mais de um ano, sumindo de circulação. Morando de favor num apartamento em Venice, lia, escrevia e tomava peyote e mescal no deserto. No verão de 1965 – o “Verão do Amor”, durante o qual uma contracultura genuína floresceu –, vagava horas a fio pela praia viajando de ácido e cada vez mais desejoso de emplacar numa banda. Em agosto, encontrou-se por acaso com Manzarek, seu colega de faculdade, 8 anos mais velho, que tomou um susto: Morrison era outra pessoa, muito mais magro e bonito. Sentado na areia da praia, cantarolou para Ray um trecho de Moonlight Drive. “Essa é a letra mais sensacional que já ouvi. Vamos formar uma banda e ganhar um milhão de dólares”, exclamou Ray, entusiasmado.

The Doors dando seus passos iniciais no London Fog Club, em Sunset Strip (agora na cidade de West Hollywood), Los Angeles, Califórnia.

A partir de então ambos passaram a morar juntos, compondo sem parar. No mesmo ano chamariam o baterista John Densmore e o guitarrista Robbie Krieger, ambos colegas de Ray no centro de meditação do Maharish Yogi. Rejeitados por todas as gravadoras, conseguiram um contrato com a Columbia no início de 1966, ao mesmo tempo em que iniciavam uma temporada numa casa noturna underground de West Hollywood, Califórnia, na 8901 Sunset Boulevard em Sunset Strip. Se a gravadora não fez muito pelo grupo, os shows serviram para que eles fossem vistos por um agenciador no Whisky a Go Go de onde seriam expulsos, depois de chocar os donos do local com os versos de The End – que os contratou imediatamente.

The Doors no Whisky a Go Go em 1966
Jim Morrison fazemdo duo com Van Morrison no Whisky A Go Go em 1966.

Lançado no verão de 67, em pleno clima de flower power, o primeiro LP dos Doors insurgia-se como um corpo estranho, destoante, perturbador, sem dúvida agressivo demais para a época. As profundidade das letras remetiam ao poeta romano Catulo. Morrison apresentava cenas bizarras, quase explícitas, que vivenciara em outro plano de realidade. As letras, beirando o nonsense, não eram simples e nem aquilo que poderíamos convencionar de lógicas. Infundia-se uma nova concepção, de cunho onírico, refletindo de forma assustadora as mazelas das sociedade.

A música tinha uma pulsação próxima da desarmonia e da insanidade, parecendo alucinada e tonitruante, dotada de uma harmonia secreta que emergia do caos. O grande hit da banda, Light My Fire, chegava ao primeiro lugar das paradas, algo inusitado para uma canção que durava mais de 7 minutos. The End, por sua vez, tinha mais de 14 minutos! Em pouco tempo, os Doors – a resposta americana aos Beatles e aos Rolling Stones – foram elevados à categoria de astros, e Morrison, em particular, a de mito, sendo brindado com uma vasta gama de cognomes como “Rei Lagarto” e “Rei do Rock Orgásmico”, o que contribuiu para que a posteridade o visse como um poeta bêbado e trovador dionisíaco integral, um clichê de Rimbaud, Artaud e Byron. Os setores mais apelativos da mídia apontavam-no como um novo símbolo sexual, misto de Apolo e Dionísio.

A verdade, no entanto, é que ele odiava ser cultuado. “Os sorrisos receptivos dos  admiradores geralmente guardam a morte por detrás dos dentes felinos”, alertava com razão. Tinha loucura e cultura – erudita, diga-se de passagem. À sua erudição somava-se um espírito rebelde, anti establishment, dotado de grande inquietação intelectual, que o levou, além de atuar na banda, a elaborar uma vasta obra como poeta e filósofo, sempre explorando as extensões insondadas da mente humana. Dentre o material deixado, destacam-se filmes de curta-metragem, roteiros de cinema e escritos diversos, a maioria relançada recentemente em compilações e antologias.

Os três livros de poesia que editou em vida, The Lords (Os Mestres), The New Creatures (As Criaturas Novas) e An American Prayer (Uma Oração Americana), fez questão de assiná-los como James Douglas Morrison, seu nome verdadeiro, pois queria, antes de tudo, ser reconhecido como escritor e poeta, não como rock star.

Ao seu natural carisma, adicionou presença cênica, visual dark – foi um dos primeiros a se vestir de negro no palco – e uma interpretação declamada com tal intensidade e representação que não precisaria mesmo saber cantar, mas era um grande vocal. Os outros três criavam a trilha para os seus temas intrigantes. Sua vida foi curta e vivida intensamente como ao inverso de sua época. Estava à frente de seu tempo. Lia, escrevia e interpretava com a mesma intensidade com que bebia e se drogava. Não usava drogas para bagunçar, mas como catalisador criativo. Seguiu ao pé da letra a máxima de Rimbaud: “Embriaguês sagrada: te afirmamos método!” e cunhou sua própria frase nesse sentido: “Enquanto o corpo é devastado, o espírito fica mais forte.”  Fazia gestos obscenos e foi um dos primeiros no rock a mandar as autoridades se ferrarem. Mandava as tietes babacas calarem a boca, quando ele declamava ou falava no intervalo das músicas. Mesmo vivendo no auge da geração, seu abuso no uso de bebidas e drogas nada tinha a ver com o movimento hippie, que ele abominava,  apesar de também ser um antibelicista e não embarcar em modismos.

Em 12 de outubro de 1967 – mês de lançamento do segundo LP, Strange Days -, arrumou seu primeiro grande incidente. Foi preso em pleno palco durante um show em New Haven após protestar contra o abuso de autoridade e a violência policial.

Hollywood Bowl, 5 de julho de 1968.

A performance de Morrison era espontânea, real, até porque metade do tempo ele estava chapado demais para fingir qualquer coisa. Fazia dos shows grandes rituais, celebrações dionisíacas, assumindo o papel de xamã e dançando como um enlouquecido feiticeiro apache. “Sou um xamã que tem visões pela tribo e é capaz de curá-la.” Conhecia a filosofia de Nietzsche e especialmente suas obras A Origem da Tragédia e A Cultura dos Gregos, nos quais se invoca o espírito dionisíaco em cujo delírio sagrado a vida abre suas verdadeiras portas e deixa entrever sua face real. Levava a multidão ao delírio coletivo, sempre tangenciando o abismo. Movia-se no palco dançando com expressão de certa indiferença e com o corpo convulsionado por uma avassaladora fúria. Havia nele um desdém, como se desprezasse  tudo o que o cercava. Postava-se vociferante ao microfone e irradiava pelo palco sua contundência.

O criador do Teatro da Crueldade, Antonin Artaud, incluía em suas insólitas representações cênicas elementos como “erotismo, selvageria, violência, sadismo, sanguinolência, obsessão pelo horror, colapso dos valores morais, hipocrisia social, perjúrio, depravação, etc”. A representação cênica foi revolucionada por este mestre que concebia o teatro como um ritual orgiástico, mágico e irrepetível. Não por acaso, os shows dos doors estavam repletos de um farto catálogo de todo esse material. Morrison havia participado, nos tempos da UCLA, de um grupo de teatro que seguia tais concepções.

Jim Morrison em foto de Frank Lisciandro

Os Doors foram logo aclamados pela crítica como os precursores do rock teatral, já que Morrison, desde as primeiras aparições do grupo no Whisky a Go Go, tinha percebido que esse tipo de música se encaixava perfeitamente nas concepções cênicas de Artaud. Em “Unknown Soldier” – faixa do terceiro disco, Waiting For The Sun, lançado em julho de 1968 – simulavam um pelotão de fuzilamento. Após um repique da bateria, à guisa de marcha militar e um instante de silêncio, ouvia-se um som parecido com um tiro, seguido pelo acorde distorcido de Robbie. Morrison despencava no chão, como se tivesse sido alvejado.

Não obstante, as coisas se radicalizariam ainda mais. Em 1969, perambulava pela Califórnia o grupo experimental novaiorquino The Living Theatre, de Julian Beck e Judith Melina. O grupo esteve no Brasil no início dos anos 70 a convite do Teatro Oficina. Durante o Festival de Inverno de Ouro Preto (MG), os 13 integrantes do grupo foram presos alegadamente por posse de maconha e acabaram expulsos do país pelo Regime Militar, mas a verdade é que as apresentações do grupo chocaram a provinciana cidade mineira. No começo dos anos 90, se não me engano em 1991, Melina retornou ao Brasil com outra formação e sem a mesma força e se apresentou em um teatro no centro de São Paulo, ocasião em que lá estive. As performances do grupo primavam por transgressões libertárias em todos os sentidos que visavam despertar reações no público, levando às últimas consequências as teorias de Artaud. Morrison assiste ao espetáculo na primeira fila e em poucos minutos já está de pé, vociferando palavras de efeito. As reações do público começaram a intensificar-se e, a certa altura, a histeria e o caos detonaram um delírio coletivo que provocou a chegada de um forte contingente policial.

No dia seguinte, 1º de março, havia um concerto dos Doors marcado para o Dinner Key Auditorium, em Miami. Neste momento, Morrison talvez já soubesse o que iria fazer. Entrou no palco segurando um insólito cordeiro branco e passou a exteriorizar toda sua revolta contra o público,  xingando e vociferando palavras pesadas. Em seguida, simulou fellatio e masturbação, levando à fúria descontrolada cerca de treze mil pessoas. No dia seguinte, uma ordem de prisão era expedida contra ele, por “comportamento obsceno, exibicionismo, linguagem imprópria e bebedeira”. Essa fatídica noite lhe valeu um pesado processo que o perseguiria até o fim de sua vida, a vigilância do FBI, o cancelamento de todos os shows programados, o boicote das músicas pelas rádios, o desprezo da crítica, do público e até dos membros de seu grupo. De Homem do Ano de 1967, escolhido pela revista Time, que o colocou na capa de dezembro daquele ano, Morrison passou a Inimigo Público Número 1.

A decaída dos Doors começa aí. Miami foi o começo do fim tanto para os Doors quanto para Jim Morrison. Vetados e perseguidos pelas autoridades, seguiram a rota dos foragidos e foram para a Cidade do México. O plano era se apresentarem na Plaza de Toros, com capacidade para mais de 40 mil pessoas, mas isso não aconteceu. A razão? A matança na Plaza de las Tres Culturas de Tlatelolco em 2 de outubro de 1968, quando estudantes tentaram derrubar o governo, e “desde então considerou-se prudente evitar grandes aglomerações de jovens”, explicou Jerry Hopkins em uma crônica para a revista Rolling Stone em 1969. Os Doors ficaram restritos a quatro concertos, de 27 a 30 de junho de 1969, em um clube chamado “El Gran Forum”, na Colonia del Valle, Insurgentes Sur, com capacidade para não mais do que mil pessoas.

Raras fotos de um dos shows do Doors no El Gran Forum, na Colonia del Valle, no final de junho de 1969
Jim Morrison diante de um mural de Diego Rivera no Museu Mural Diego Rivera, Cidade do México.
Jim Morrison e os Doors comendo tacos, comida típica mexicana feita de farinha de milho e de trigo, carne moída, tomate, alho, pimentão verde, bacon, salsinha, cebolinha, páprica picante e pimenta Chipottle.

Jim Morrison não deixou de visitar seus ancestrais deuses reptilianos no Templo de Quetzalcóatl, zona arqueológica de Teotihuacan.

O Rei Lagarto não só cantou, mas também visitou alguns dos lugares mais emblemáticos da Cidade do México. De acordo com Hopkins, Jim Morrison e os Doors ouviram mariachis na Plaza Garibaldi, beberam tequila no Salón Tenampa, onde fizeram uma caricatura do vocalista, passearam pelo Paseo de la Reforma, escalaram as Pirâmides de Teotihuacán, visitaram o Mercado de la Lagunilla, o Museo de Antropología e oferecerem um show para Alfredo Díaz Ordaz, filho do então presidente do México (de 1964 a 1970) Gustavo Díaz Ordaz Bolaños (1911-1979).

Quando o quarto LP, The Soft Parade, é lançado em julho, Morrison está no auge da piração, consumindo fartamente álcool e drogas. Bebia vinho o dia inteiro, comia massas, engordou pacas, deixou a barba crescer. Queria desfazer a imagem anterior. Queria agora, mais do que nunca, ser respeitado por sua cultura e posição, e não pelos dotes físicos. Mas as vendas de discos diminuíam e os shows começavam a ficar irregulares. Tanto arrebatavam milhares de pessoas como Morrison podia despencar do palco a qualquer momento.

Morrison Hotel, editado em 1970, traz os Doors mais ligado ao blues. Roadhouse Blues os reconduz às paradas. Ainda nesse ano é lançado Absolutely Live, álbum duplo registrando vários shows e apresentando a versão integral de The Celebration of the Lizard, um longo e pretensioso poema épico. Mas Morrison havia mudado, definitivamente. Vários quilos mais gordo, barbudo, nem de longe lembrava o sexy symbol dionisíaco que acendia o fogo das meninas.

Em abril de 1971, sai L. A. Woman, último registro da banda. O grupo está cada vez mais mergulhado no blues e nas raízes do rock. A faixa título e “Riders on the Storm” são os grandes destaques.

A imprensa vinha notando sinais de esgotamento. Morrison, cansado da estrada e dos problemas com a justiça, decide abandonar tudo. Com sua partner Pamela Courson, vai para Paris, terra de seus adorados poetas, com planos de retomar seus projetos literários e cinematográficos, pois no fundo queria ser mesmo um poeta. Algum tempo depois, os membros do grupo tentaram persuadi-lo a voltar. Não deu tempo. A morte (controversa), chegou antes.

DREGstudios

Terceiro músico importante do rock norte-americano a falecer em menos de um ano, Morrison fecharia o círculo dos “quatro jotas” (Jones, Jimi, Joplin e finalmente Jim) e ingressaria no Clube dos 27. Em 3 de julho de 1971, foi encontrado morto na banheira do apartamento alugado em Paris, uma morte cercada de mistério, que aumentaria ainda mais a dimensão do mito. Estava com apenas 27 anos. Quando saiu a notícia, todos se lembravam das antigas brincadeiras, não acreditavam. Como Rimbaud, teria ido para a Ásia ou para a África. A causa oficial, parada cardíaca, nunca foi confirmada, e Pamela, a única pessoa que viu o corpo antes do caixão ser fechado, morreria de overdose de heroína três anos depois.

Na manhã de 7 de julho de 1971, Jim Morrison foi enterrado no antigo cemitério público de Père Lachaise, na periferia de Paris, o mais famoso da Europa, a quatro metros de profundidade, na sexta divisão, segunda linha, na sepultura número cinco, lugar reservado para nichos baratos. O caixão e toda a cerimônia custaram à sua namorada Pamela Courson a bagatela de 878 francos antigos, cerca de 50 dólares hoje. Em agosto de 1971, as autoridades colocaram no túmulo uma placa de madeira com o nome erroneamente grafado “Morisson”. Esta placa foi roubada poucos meses depois. Em 1972, uma placa preta de metal foi colocada (também com a grafia do nome incorreta) “Morisson, James Douglas”. Esta placa também foi roubada. Em 1973, uma pequena placa de pedra foi fixada no túmulo, mas depois do roubo desta, as autoridades decidiram deixar o túmulo sem placa. Em 2 de julho de 1981, um fã iugoslavo colocou em cima do túmulo um busto de Jim em mármore branco que havia esculpido. O busto foi pixado, quase destruído e acabou roubado na noite de 7 de agosto de 1988 por um fã francês.

Em dezembro de 1990, a família Morrison instalou uma pedra retangular com uma placa de metal com o nome “James Douglas Morrison, 1943-1971”, e uma inscrição em grego antigo: “KATA TON DAIMONA EAYTOY”, que pode ser traduzido por “O demônio dentro de si mesmo” ou “Pelo espírito divino dentro de si”, e no grego moderno por “Ele causou seus próprios demônios” ou “O gênio em sua mente”.

De qualquer forma, Morrison saiu da vida para entrar na história do rock como o grande e despojado existencialista cuja emoção valia mais do que 100 anos de vida, que esmiuçara a arte e a vida, levando-as a extremos e cumprindo a suave missão de inundar de sons esta Terra. O poeta maldito e pagão repousa hoje em companhia de inúmeros felinos que por ali perambulam, ao lado dos túmulos de grandes pensadores da humanidade como Maria Callas, Marcel Proust, Edith Piaf, Chopin, Rossini, Allan Kardec, Bizet, Molière, La Fontaine, Alphonse Daude, Victor Hugo, Oscar Wilde, Apollinaire, Balzac, Sarah Bernhardt, Isadora Duncan, Auguste Comte, Modigliani, Delacroix, Ingres, Daumier, Seurat e Corot.  Mas, de todos, o túmulo de Morrison – coberto de pinturas e pichações – é de longe o mais visitado. Para ali os fãs convergem como um muçulmano vai a Meca.

Photo by Bob Hickey
Ray Manzarek e Robby Krieger visitam Père Lachaise em 3 de julho de 2011, por ocasião dos 40 anos da morte de Jim Morrison

O surgimento de um culto teria de ser mesmo inevitável para quem seguiu, consciente ou inconscientemente a trajetória mitológica de entidades sagradas. Basta lembrar que, na Grécia antiga, Orfeu, a imagem terrena de Dionísio, foi destroçado pelas Mênades e Dionísio pelos Titãs. Como o próprio Morrison disse certa vez, “Podemos planejar um assassinato ou fundar uma religião.”

Arthur Rimbaud

Além disso, ele tinha uma insolência que a indústria da música e a mídia nunca domaram. Uma verdade e uma essencialidade que o tornavam singular. Com outras bandas, o show sempre acaba na última música, mas, com Morrison, sua performance continuava até depois que algum policial o arrancasse do palco, já que sua vida particular era ainda mais intensa que o próprio espetáculo. A frase de Rimbaud, “Os caminhos do excesso levam ao palácio da sabedoria”, era uma das mais citadas por ele.  Certa vez, afirmou: “Tudo o que se relaciona a desordem, revolta e caos me interessa; e particularmente as atividades que parecem não ter nenhum sentido. Talvez sejam o caminho para a liberdade. A rebelião externa é o único modo de realizar a libertação interior.” Morrison nasceu, viveu e morreu com o perigoso dom da hipersensibilidade. Poderia ser tudo que quisesse, mas, como todo gênio, entediou-se rápido e embarcou em sua própria viagem. Além das portas.

Jim Morrison era controlado mentalmente pelos Illuminatis? Veja as fotos abaixo e tire suas próprias conclusões.

Olho de Hórus.

Espelhos e imagens distorcidas são indicações típicas de controle mental.
A alusão reptiliana e a insistência no símbolo solar, o culto do Sol, a quem desde a Antiguidade se ofereciam sacrifícios (o próprio Jim Morrison acabou sendo sacrificado)
No média-metragem e semi-documentário de 50 minutos HWY: An American Pastoral, produzido em 1969 por Jim Morrison, Frank Lisciandro, Paul Ferrara e Babe Hill, JM aparece em uma das cenas visivelmente alterado, como que possesso. No já citado documentário No One Here Gets Out Alive: A Tribute do Jim Morrison, de 1981, Ray Manzarek disse que JM “não era um showman, era um shaman. Um possesso”.
Na contracapa da primeira compilação dos Doors, 13, lançado em novembro de 1970, o grupo aparece ao redor de uma estátua do satanista inglês Aleister Crowley (1875-1947)

Galeria de fotos (algumas raras, desencavadas nos últimos anos de arquivos particulares de fãs e colecionadores e tornadas públicas na Internet)

Metamorfose ambulante

Os Doors fotografados em Nova York em 1967 pelo fotógrafo mais associado às suas capas de discos, Joel Brodsky.

Jim Morrison e o produtor Paul Rothchild, por James Fortune