As tumbas escavadas na rocha da montanha Takaida Yokoana

Em companhia do conterrâneo e colega de trabalho e de aventuras Alexandre Akio Watanabe, um dos maiores viajantes do Japão, estive visitando e explorando o praticamente desconhecido Parque Takaida Yokoana em Kashiwara, aqui em Osaka, cuja montanha está perfurada com mais de 200 túmulos diretamente escavados na rocha durante os séculos VI e VII. Percorremos durante uma tarde morna e ensolarada de final de inverno todo o seu entorno, examinando e fotografando cada nicho até atingirmos o seu topo, a 580 metros de altura, onde nos deparamos com uma área escavada onde foram encontrados tesouros raros e valiosos. Pinturas e gravuras rupestres ornamentam muitos desses túmulos e revelam em seus traços os mesmos motivos constatados em todas as partes do mundo, inclusive no Brasil, a indicar um incrível paralelismo. Desenhos de navios com gôndolas sugerem que há pelo menos 1.500 anos, navegadores asiáticos, os próprios japoneses ou aventureiros vindos provavelmente da China ou da Coreia, muito antes dos europeus, percorriam os mares e estabeleciam intensos contatos e intercâmbios culturais e comerciais.

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga (texto e fotos) e Alexandre Akio Watanabe (fotos com a presença de CTS)

Um clima pesado e um ar insólito efluem de um penhasco montanhoso de 580 metros de altura dentro do Parque Takaida Yokoana em Kashiwara (cidade às margens do rio Yamato, a leste da província de Osaka e ao longo da fronteira da província de Nara), a somar com o pendor já down, tristonho e maníaco depressivo do japonês. A vibração negativa procede dos cerca de 160 kofuns ou túmulos antigos confirmados (estima-se que haja mais de 200) circundantes escavados diretamente no tufo (uma pedra macia formada de cinzas comprimidas depositadas em decorrência da erupção do vizinho vulcão Nijōsan, há cerca de 10 milhões de anos) de acordo com a topografia natural da colina.

A entrada do Takaida Yokoana Park, a poucos metros da estação de trem de Takaida. Uma subidinha convidativa nos aguardava…

Takaida, um nome de localidade bastante comum no Japão, significa “poço alto de arroz”, e Yokoana, “buraco lateral”, caverna ou túnel. O termo kofun é aplicado a todos os túmulos, alguns gigantescos e monumentais, como os construídos para imperadores e outros membros da nobreza, conforme abordei aqui, e alguns menos grandiosos, construídos principalmente em épocas posteriores e para pessoas menos importantes, mas não menos impressionantes.

Logo à entrada do Takaida Yokoana Park já há um túmulo escavado na rocha.

Há túmulos solitários e em subgrupos formados por dois a quatro grupos. Especula-se que isso seja devido à forma da composição dos clãs no século VII, ou seja, para membros das famílias nobres que constituíam o grupo. Cerca de três corpos eram armazenados nas câmaras profundas.

Alguns túmulos possuem murais nas paredes e nos tetos com pinturas e gravuras retratando pessoas, navios com cascos em forma de gôndola, pássaros, cavalos, peixes, árvores, flores, redemoinhos, sol, casas, etc., manifestações artísticas que exprimem os costumes e pensamentos religiosos daqueles dias. Por motivos de preservação, a observação mais de perto dos murais só é liberada em ocasiões especiais poucos dias do ano, geralmente na primavera e no outono. Como estavam todos vedados com grades e trancas, não pude fotografar pessoalmente nenhum, a não ser as reproduções que constituem pelo menos uma amostra representativa.

No parque há esse painel ao ar livre com a reprodução das fotos das pinturas e das gravuras encontradas nos murais junto aos túmulos. Podemos ver retratados muitos daqueles mesmos temas, motivos e símbolos presentes em outras partes do mundo, tais como espirais, triângulos, sóis, animais, cenas de caça, figuras humanas, navios, etc.

Os túmulos de Takaida, de características semelhantes aos encontrados em outros sítios arqueológicos do mundo e do Japão, foram construídos ao longo de um período de 30 ou 40 anos em algum momento entre meados do século VI e o começo do VII, ou seja dentro do Período Asuka (538 a 710 d.C. ou 596 a 645 d.C.), com o seu início coincidindo com o fim do período anterior, o Kofun (250 a 538), ambos subdivisões menores do Período Yamato (entre a segunda metade do século III d.C. e o ano de 710, o início da Era Nara). O período Asuka (nome derivado da região de Asuka, na qual se fixou a corte japonesa, cerca de 25 quilômetros ao sul da atual cidade de Nara), foi marcado por suas significativas transformações sociais e políticas e pela chegada do budismo da China através da Península Coreana, além da mudança do nome do país de Wa (Yamato) para Nihon (Japão). Durante todo o Período Yamato, houve uma grande interação entre o Japão e a Península Coreana, e na época em que as tumbas foram feitas, essa área era habitada por muitos recém-chegados da Coreia. Não é possível afirmar, no entanto, que os construtores do túmulos Takaida foram recém-chegados da Coreia, até porque se assemelham muito mais no estilo aos kofuns do período anterior.

Há um grupo bem menor de kofuns semelhantes aos de Takaida na mesma cidade de Kashiwara, perto de Anpukuji, no lado sul do rio, cortado na mesma formação rochosa. Outro grupo semelhante, o Sakuradote Kofun, a uma distância considerável, em Hadano, na província de Kanagawa, margem direita do rio Mizunashi, igualmente protegido pelo governo como um local histórico nacional, consiste de 35 túmulos (apenas doze foram conservados e cinco estão localizadas nas dependências de uma fábrica da Nissan e uma nas instalações de uma fábrica da Shimadzu Corp. e, portanto, não estão acessíveis ao público) do final do século VII em uma pequena área de aproximadamente 500 metros a leste-oeste e a 300 metros norte-sul. Seis foram preservados dentro do Parque Sakuradote Kofun, onde um pequeno museu exibe alguns dos achados. O maior kofun tem um diâmetro de 28 metros e uma altura de 5,6 metros.

Sakuradote Kofun

Localizado no ponto mais alto do parque, isto é, no cume do morro, a 580 metros de altura, onde se chega após uma razoável caminhada por largas escadas de pedra, o Takaidasan Tomb é uma câmara de pedra escavada de 20 metros de diâmetro construído no final do século V, atualmente protegida por uma cobertura transparente.

Ali foram desenterrados os itens mais raros e valiosos, como brincos de ouro puro, colares de vidro, espelhos de cobre e armaduras de ferro, alguns dos quais podem ser vistos no acanhado e discreto, mas bonito, agradável e bem cuidado Museu de História da Cidade de Kashiwara (Kashiwara City Museum of History), localizado dentro do parque, quase no topo, no final de uma rua residencial. O Museu exibe ainda alguns materiais desenterrados dentro da cidade e nos arredores dos kofuns. A entrada é franca, assim como a do parque.

O Takaida Yokoana Park não é, conforme descrevi, um parque convencional, com seus túmulos antigos que parecem cavernas escavadas na rocha. De dentro do breu, das profundezas que ecoam nossas vozes, espíritos e criaturas como que nos espreitam, prontas a nos atacar. Passar a noite ali é um desafio para os mais corajosos. Não deixa de constituir, não obstante, em dias ensolarados e quentes, uma ótima opção de lazer e diversão. Árvores frondosas e centenárias, bambuzais, flores sazonais, caminhos de pedra e quiosques, se misturam à lembrança de nossos antepassados, que retornam à vida graças a vivacidade e energia revigorante da natureza. Talvez por isso mesmo, por essa esperança de renascimento, é que os mortos eram ali enterrados em câmaras em forma de útero, como sementes que são plantadas na terra fértil.

Takaida Yokoana Park

Localização: A 5 minutos a pé, no lado norte da Estação de Trem de Takaida, linha JR Kansai.

Endereço: 〒 582-0015 1598 Takaida, Kashiwara-shi, Osaka

Estação de Trem de Takaida

Fotos extras do Parque Takaida Yokoana

 

Kashiwara City Museum of History

Lions Clubs International

E o Lions Clubs International, quem diria, essa organização ligada a ONU, a Maçonaria e a tantas sociedades secretas, também cuida da administração do Parque Takaida Yokoana…
Alexandre Akio Watanabe, o grande aventureiro que já percorreu a maior parte do Japão.