Vacina contra a gripe suína nos Estados Unidos matou mais do que a própria doença

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Nunca se ansiou tanto por uma vacina como agora. Devo lembrar, no entanto, que a vacina pode ser pior do que a própria doença, vide o que ocorreu quando do surto da gripe suína em 1976 nos Estados Unidos, hoje o epicentro da SARS-CoV-2. Houve na ocasião apenas 200 casos, 13 hospitalizados e uma morte, mas o programa de imunização em massa implementado para contê-lo, acabou deixando 500 doentes e 25 mortos, isso mesmo.

O surto começou em janeiro, na base militar de Fort Dix, em Nova Jersey, onde vários soldados vinham se queixando de uma doença respiratória que foi diagnosticada como sendo influenza.

Soldados da base do Exército em Fort Dix, Nova Jersey, em 14 de outubro de 1976.

No mês seguinte, na tarde fria de 5 de fevereiro de 1976, David Lewis, um recruta de 18 anos do Exército, disse a seu instrutor em Fort Dix, que se sentia cansado e fraco, mas não doente o suficiente para consultar os médicos militares e ser dispensado do treinamento. Ao participar de uma marcha forçada de 8 quilômetros, no entanto, David, oriundo de Ashley Falls, Massachussets, desmaiou e morreu.

Exames realizados pelo Centro de Controle de Doenças (CDC) em Atlanta, Georgia, revelaram que ele era portador do vírus da gripe A, subtipo H1N1, de origem aviária.

Duas semanas após a morte do recruta, as autoridades de saúde revelaram à imprensa que o vírus da gripe suína havia matado Lewis e contaminado quatro de seus colegas soldados na base do Exército no condado de Burlington.

Essa cepa de vírus, acreditava-se então, era a mesma que havia causado a pandemia de gripe espanhola de 1918 (que matou de 50 a 100 milhões de pessoas em todo o mundo e que foi assim erroneamente designada porque a Espanha era o único país com a imprensa livre em meio a Primeira Guerra e que portanto divulgava notícias a respeito), que matou de 50 a 100 milhões de pessoas em todo o mundo e meio milhão de norte-americanos.

A gripe suína recebeu esse nome porque era um tipo de gripe normalmente encontrado em porcos domésticos e suínos selvagens. Há muito se pensava que ela tinha vindo, como muitas gripes, da região agrícola chinesa, onde pessoas e porcos domésticos convivem juntos. Não obstante, pesquisas recentes mostraram que a gripe pós-Primeira Guerra Mundial foi levada para a Europa por tropas norte-americanas que estavam baseadas no Sul antes de irem para a guerra. Detetives médicos, ainda trabalhando no caso na década de 1990, determinaram que um pequeno grupo de soldados norte-americanos levou a gripe suína para a Europa e que ela se espalhou para o mundo a partir daí.

Como a gripe suína chegou a Fort Dix em 1976 ainda não se sabe. Na época, os médicos militares de Dix sabiam apenas que uma gripe assassina havia chegado à base e que eles tiveram sorte de mais homens não terem morrido ou adoecido gravemente.

Qualquer gripe capaz de contagiar tantas pessoas em tão pouco tempo, seria capaz de se tornar outra praga mundial, deduziram os médicos, levantando as seguintes questões: Os Estados Unidos se mobilizariam para vacinações em massa a tempo de imunizar a todos para a próxima temporada de gripe? Ou o país deveria esperar para ver se o novo vírus, como costuma acontecer, ficaria mais forte para emergir com mais força no ano seguinte?

Semanas depois da morte de Lewis, médicos do CDC e outras autoridades federais de saúde pública se reuniram em Washington para decidir se deveriam recomendar ao governo o início de um programa de vacinação em massa. A coisa óbvia a fazer era imunizar todo mundo, concluíram. Assim nasceu o que seria um dos maiores fiascos da história da vacinação e uma das piores tragédias da história da saúde pública dos Estados Unidos.

David Sencer

Em meados de março, David Sencer (1924-2011), diretor do CDC, consultou infectologistas e decidiu que era necessário adotar medidas urgentes para evitar o pior. Assim é que o CDC pediu ao presidente Gerald Ford (1913-2006) que aprovasse uma campanha de vacinação em massa. Em 24 de março, um dia depois de uma derrota surpresa para Ronald Reagan (1911-2004) nas primárias presidenciais republicanas da Carolina do Norte, Ford decidiu fazer o anúncio ao público norte-americano.

O Congresso ainda precisava liberar o dinheiro, é claro, e isso não seria fácil. Os fabricantes de medicamentos, por sua vez, insistiam que o governo deveria assumir toda a responsabilidade por quaisquer efeitos colaterais que pudessem advir. Durante as audiências no Congresso na primavera e no início do verão, os legisladores ouviram alguns opositores que observaram que a gripe suína do inverno passado nunca havia passado de Fort Dix e que apenas uma morte havia sido registrada.

O argumento dos médicos ou da “ciência” tal como na presente pandemia de Covid-19, prevaleceu, e em 12 de agosto o Congresso aprovou US$ 135 milhões para desenvolver e produzir as vacinas.

Wilhelm Delano Meriwether na capa da Sports Illustrated

A tarefa foi colocada nas mãos de um médico carismático de 33 anos do Departamento de Saúde, Educação e Bem-Estar, o dr. Wilhelm Delano Meriwether (1943-), um velocista de classe mundial que ainda competia em provas de atletismo. Agora ele estava em uma corrida pela vida, pelo menos era assim que pensava. Meriwether tinha o prazo até o final do ano para inocular todos os 220 milhões de norte-americanos contra a gripe suína.

O recorde de velocidade de desenvolvimento de uma vacina foi batido, e em 1º de outubro os fabricantes já tinham as doses prontas. O sistema de saúde pública mobilizou milhares de médicos, enfermeiras e paramédicos para aplicar as vacinas em centros médicos, escolas e bombeiros em todo o país.

James (“Jim”) Joseph Florio

James (“Jim”) Joseph Florio (1937-), então um ambicioso congressista democrata novato que apoiava Jimmy Carter (1924-) para presidente, não usou a situação para atirar em Ford. Ele fez fila e foi o primeiro residente de Nova Jersey a tomar a vacina.

Porém, logo no início já começaram a surgir casos graves de reação à vacina. Em poucos dias, várias pessoas ficaram gravemente doentes. Em 12 de outubro, três idosos de Pittsburgh sofreram ataques cardíacos e morreram horas depois de receber a vacina, o que levou à suspensão do programa na Pensilvânia.

A despeito disso, Nova Jersey continuou com as inoculações. No decorrer do outono, mesmo com as notícias sobre efeitos colaterais graves, milhares de pessoas, em sua maioria idosos, fizeram fila do lado de fora dos centros de saúde, escolas e bombeiros para tomar a vacina, às vezes esperando por uma hora. Uma delas era Mary Kent, de 45 anos, uma mãe de dois adolescentes que não conseguia amarrar as fitas nos presentes de Natal poucos dias depois de ter sido vacinada no Trenton War Memorial no início de dezembro.

A população norte-americana, em massa, acreditou no governo e na mídia e fez fila para tomar a vacina sem saber que ela causava a síndrome de Guillain-Barré, entre outros efeitos adversos.
O jornal New York Post noticiando em primeira página os efeitos deletérios da vacina contra a gripe suína.

Os médicos constataram que a vacina provocava um problema neurológico raro, a Síndrome de Guillain-Barré, que causa perda de mielina (a “bainha” que envolve os nervos) e provoca paralisia facial e até morte. Guillain-Barré é uma doença autoimune que ataca as células do próprio corpo e as estruturas do sistema nervoso, causando uma inflamação dos nervos e gerando muita fraqueza muscular. Os sintomas se desenvolvem rapidamente, exigindo cuidados médicos urgentes. Não se conhece a causa específica da síndrome, que na maioria dos casos faz os portadores manifestarem uma doença aguda provocada por vírus (citomegalovírus, Epstein Barr, etc.). Os anticorpos, devido a um erro, atacam o próprio sistema nervoso periférico, destruindo a bainha de mielina que recobre os nervos, gerando os sintomas que podem ser fraqueza muscular, acompanhada ou não de dormências e alterações da sensibilidade nas pernas, no tronco, braços, pescoço e até nos músculos da face, afetando a respiração e a deglutição. O tratamento conta com dois recursos: a plasmaférese (técnica que permite filtrar o plasma do sangue do paciente, como uma espécie de hemodiálise), e a administração intravenosa de imunoglobulina para impedir a ação deletéria dos anticorpos agressores.

No dia 16 de dezembro, cada vez mais preocupado com os relatos de que a vacina desencadeasse problemas neurológicos, especialmente a rara síndrome de Guillain-Barré, o governo suspendeu o programa.

Tarde demais. A essa altura, 40 milhões de americanos, incluindo o próprio presidente, haviam recebido a vacina contra uma pandemia que nunca existiu. Estudos posteriores revelaram que o vírus, mesmo que se espalhasse, jamais causaria uma pandemia como a de 1918.

O presidente Gerald Ford recebe a vacina contra a gripe suína do médico da Casa Branca William Lukash em 14 de outubro de 1976. (Crédito da foto: Getty Images/Bettmann)

Em 2 de novembro, Gerald Ford perdeu a eleição presidencial para Jimmy Carter. O dr. David Sencer retornou ao serviço público, atuando como comissário de saúde da cidade de Nova York em 1982, e foi criticado por ter demorado em dar uma resposta à incipiente epidemia da AIDS…

No final do ano, Jack Kent sabia que sua esposa estava gravemente doente e começou a ler tudo sobre os efeitos colaterais da vacina contra a gripe suína, especialmente problemas nervosos como os que sua esposa estava experimentando. Mesmo antes de Mary Kent morrer inválida aos 51 anos em janeiro de 1982, Kent se juntou às centenas de norte-americanos que entraram com uma ação contra o governo em nome de crianças que ficaram sem pais devido aos efeitos colaterais fatais da vacina contra a gripe suína.

A cunhada de Kent, também chamada Mary Kent, lembrou que Jack Kent morreu em 1997 ainda ressentido e com raiva, culpando o governo por ter causado em sua esposa a síndrome Guillian-Barré, que a levou à morte.

O caso da vacina contra a gripe suína em 1976 reduziu para sempre a confiança nos pronunciamentos de saúde pública do governo e ajudou a fomentar o cinismo nos formuladores de políticas federais que continua até hoje.

Maurice Ralph Hilleman

Mas ao que parece, a memória é curta e o fiasco da vacina contra a gripe suína não tem levado a população e a própria imprensa a questionar se a atual reação contra a pandemia de Covid-19 não é igualmente exagerada, e os clamores por uma vacina messiânica, precipitada, afinal o desenvolvimento e a produção de uma vacina realmente eficaz e segura, normalmente demora de 10 a 15 anos. O recorde de vacina mais rápida já desenvolvida é o da caxumba, que o médico e microbiologista norte-americano Maurice Ralph Hilleman (1919-2005) demorou “apenas” 4 anos para produzir (de 1963 a 67).

Alguns médicos, com descarado cinismo, sempre arguindo em nome da “ciência”, tem mesmo o desplante de argumentar que tudo o que está sendo feito não pode ser evitado, pois não teriam outra escolha a não ser errar pelo lado da cautela, e que, portanto, estão certos em defenderem outro programa de vacinação em massa. E tal como os médicos em 1976, eles continuam alardeando que “A coisa óbvia a fazer é imunizar todo mundo”.

Boa sorte a todos.

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