O futuro definido e o passado alterado por Star Trek

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

De longe a mais revolucionária, inovadora, cultuada e longeva série de ficção científica da história, Star Trek (Jornada nas Estrelas, para nós brasileiros) já foi abordada, analisada e “sondada” de quase todos os ângulos e pontos de vista possíveis e imagináveis desde que, de fenômeno televisivo global, converteu-se, tal qual os OVNIs, num poderoso mito da Era Tecnológica, ultrapassando os limites da sala de recreação e da – zona neutra do entretenimento para atingir a fronteira final da alma humana.

Assimilada tanto pela cultura de massas como pela acadêmica – ao menos aquela que não se rendeu ao cinismo descarado e ao pragmatismo empertigado e fastidioso –, não há como desconsiderar o impacto de seus conceitos, filosofias, imagens e ideários na mentalidade coletiva da segunda metade do século XX e do início do XXI.

Acenando com a possibilidade de aperfeiçoamento da consciência e tocando em questões cruciais, atinentes aos nossos próprios dilemas e conflitos morais e existenciais, a fase clássica (1966-1969) em especial, quebrou tabus, contestou o establishment, renovou costumes, instaurou a ética do respeito ao outro e difundiu a ideia de infinita diversidade e infinita combinação, qual seja, a de coexistência pacífica e harmônica entre variados povos e espécies, encarados como detentores dos mesmos direitos e prerrogativas de liberdade e autodeterminação.

Tais preceitos e diretrizes continuaram a ser seguidos em The Next Generation [A Nova Geração (1987-1993)], Deep Space Nine [A Nova Missão (1993-1999)], Voyager (1995-2001), Enterprise (2001-2005) e agora com a promissora Discovery (2017-). Os onze longas-metragens para o cinema, sem contar os três reboots de J. J. Abrams, igualmente projetaram os avanços técnicos, políticos e sociais hodiernos em seu melhor desenvolvimento hipotético, criando um futuro utópico e esperançoso em que todos nós gostaríamos de viver, sem fome, miséria, racismo e ignorância, voltado ao aprimoramento pessoal e a aquisição de conhecimentos.

O texano Eugene Wesley “Gene” Roddenberry (1921-1991) – aviador militar na Segunda Guerra Mundial, piloto da Pan American até 1949, policial em Los Angeles na década de 50 e roteirista de faroestes – concebeu Jornada nas Estrelas em 1963 tomando por base a saga da conquista do oeste americano, os discursos inflamados do presidente John Fitzgerald Kennedy conclamando esforços para colocar o homem na Lua até o final daquela década, e claramente inspirado no filme O Planeta Proibido, dirigido por Fred McLeod Wilcox em 1956. Nele já havia uma Federação de Planetas, a possibilidade de viajar no hiperespaço a velocidades superiores a da luz e uma nave em forma de disco.

O Planeta Proibido

Em 1964, Roddenberry escreveu e produziu The Cage (A Jaula), episódio piloto em que a U.S.S. Enterprise, capitaneada por Christopher R. Pike (Jeffrey Hunter) e tendo na ponte de comando uma mulher no posto de imediato (Majel Barret, que se tornaria esposa de Gene) e um cientista de orelhas pontudas, o senhor Spock (Leonard Nimoy) – aquele célebre “mestiço interespacial” de orelha pontiaguda, nascido de uma professora (Amanda) terrena com um embaixador (Sarek) de Vulcano –, se vê às voltas com as ilusões materializadas pelos anões macrocéfalos do planeta Talos IV. Taxado de cerebral demais para os padrões do telespectador norte-americano, o projeto acabou engavetado. Posteriormente, A Jaula foi reeditado e inserido no episódio duplo The Menagerie (A Coleção).

O aval dos executivos da emissora nova-iorquina NBC (National Broadcasting Company), Gene só obteve ao rodar um segundo piloto, Where No Man Has Gone Before (Onde Nenhum Homem Jamais Esteve), cujo título seria incorporado à solene e inconfundível marcha de abertura. Com um roteiro falando de percepção extra-sensorial e do desejo do homem de ser deus, trazia personagens e elenco quase que totalmente renovados. À exceção de Spock, via-se pela primeira vez o capitão James Tiberius Kirk (William Shatner), o engenheiro-chefe escocês Montgomery Scott (James Doohan) e o tenente-navegador e botânico japonês Hikaru Kato Sulu (George Takei).

Se não tinha a mesma densidade do piloto anterior, este ao menos serviu para impulsionar a série rumo aos aparelhos televisivos dos lares da classe média norte-americana. Assim, na histórica data de 22 de setembro de 1966, foi pela primeira vez ao ar a produção dos estúdios Desilu (pertencentes ao casal de comediantes Desi Arnaz e Lucille Ball) em associação com a Norway Corporation.

Baluarte da inteligência e da qualidade na tevê, Jornada nas Estrelas teve de fazer diversas concessões a esse meio, as quais por vezes comprometeram a dignidade do espetáculo, porém jamais se rendeu às banalidades, aos convencionalismos e ao apelo fácil. Se figurinos, cenários e efeitos especiais deixavam a desejar, devido ao baixo orçamento, isso era largamente compensado pelos roteiros extremamente criativos e pelo magnífico desempenho dos atores. Os termos e inferições que empregava nas áreas técnica e humana – distâncias interestelares, planos interdimensionais, hierarquia de comando, disciplina, temores, desejos e frustrações que escondemos de nós mesmos, etc. – fugiam de uma audiência habitual de massa, popularesca, de modo que não angariou os índices necessários para completar a sua missão de cinco anos para exploração de novos mundos, para pesquisar novas formas de vida, novas civilizações.

Arthur Clarke e Carl Sagan

O insucesso levou a NBC à decisão de suspender a série depois de apenas duas temporadas. Não fosse uma inesperada e surpreendente mobilização popular – um milhão de cartas de protesto enviadas, entre elas as de Isaac Asimov (1920-1992), Arthur Charles Clarke (1917-2008), e Carl Edward Sagan (1934-1996), e escritórios da emissora cercados –, não seria prorrogada por mais um ano, até junho de 1969. Cancelada, seus 79 episódios passaram a ser exibidos e represados incessantemente por emissoras de 75 países. Nessa altura, o homem já havia pisado na Lua e a ideia de viagens interplanetárias não parecia tão inverossímil.

Muito à frente de seu tempo, embora refletisse os problemas e inquietações da década de 60 – Guerra Fria, Guerra do Vietnã, conflitos raciais, movimento hippie, contracultura, psicodelismo, etc. –, Jornada nas Estrelas não causou impacto logo de saída, entrementes, conforme se superpunha aos próprios avanços da sociedade, arrebatava um contingente cada vez maior de fiéis seguidores, responsáveis pela gênese e consubstanciação de um culto de dimensões verdadeiramente religiosas.

A fronteira final

Religião, paradoxalmente, era algo que o “profeta” Roddenberry abominava. Ateu convicto, sempre fez questão de externar seu desprezo ao divino e às instituições eclesiásticas. Na linha do tempo de Star Trek, jamais ocorreu a parusia (do grego parousia, com o significado imediato e simples de “presença”), segundo advento ou volta gloriosa de Cristo no fim dos tempos para o Juízo Final. Na Enterprise, não havia padres, templos ou capelas. Sacerdotes e pregadores aparecem somente como opressores, enganadores, charlatães e ilusionistas a serem desmascarados e banidos. A magia, tal como pontuara Clarke, não passaria de tecnologias mal compreendidas e interpretadas; em outras palavras, a magia e o misticismo não passariam de fachadas para aquilo que, na verdade, é a pura ciência dissimulada, a técnica. Invocando Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), Roddenberry não cansou de denunciar as falsidades que induzem ao misticismo e a crença.

Q (Jonathan de Lancie) e Trelane (William Campbell)

Star Trek sempre foi pontuada por situações disparatadas e contrastantes em que os bravos oficiais da Frota Estelar se deparam em pleno espaço profundo com o que parecem ser entidades sobrenaturais e miraculosas, fantasmas, deidades e demiurgos, mas que quase sempre não passam, como se acaba desvelando, de meros manipuladores de tecnologia de ponta. A aura de misticismo e magia da qual se cercam, tal como o Mágico de Oz, seria apenas um engenhoso disfarce para aparentarem deter um poder muito superior ao que na verdade possuem e assim esconderem seus pontos fracos e limitações. Star Trek jamais cansou de bater na mesma tecla e insistir que o sobrenatural não existe e que o universo físico basta por si mesmo, pois que é muito mais fascinante e cheio de possibilidades.

Roddenberry depositava sua fé não no sobrenatural e inefável, mas no homem e na tecnologia, os quais, apesar de muitas vezes se desviarem dos bons e nobres caminhos e servirem a propósitos nada edificantes, tenderiam ao aprimoramento e não a degradação. Ele era um iluminista-positivista, confiante na força do progresso e na supremacia da razão. A despeito desse descomprometimento com Deus sob os auspícios da autossuficiência humana, indivíduos profundamente religiosos como o líder budista Dalai Lama [Tenzin Gyatso (1935-), o 14º Dalai Lama], se declararam admiradores da série.

Star Trek V: The Final Frontier (Jornada nas Estrelas V: A Fronteira Final), longa-metragem dirigido por William Shatner em 1989, é o auge dessa iconoclastia. A tripulação tem suas férias interrompidas ao ser enviada a uma missão de resgate. Viajando às pressas, com a nave ainda necessitando de reparos, são sequestrados e doutrinados por um meio-irmão de Spock pouco afeito à lógica e obcecado por questiúnculas espiritualoides que os obriga a traçar curso direto à morada de deus em pessoa, situada, segundo acreditava, algures pouco além de uma barreira cósmica a qual ninguém jamais sobrevivera. Com sorte, atravessam-na ilesos e se transportam à superfície de um planeta onde encontram uma forma de energia poderosa que assume a feição de variadas deidades até tomar os contornos daquela que mais condizia com suas expectativas. “Deus” exige então que lhes cedam a Enterprise para tirá-lo daquela área distante e levar sua “luz” a outras paragens. Num momento antológico, Kirk questiona: “Desculpe-me, mas por que Deus precisa de uma nave para se locomover?”, ao que é atingido à queima-roupa pelos raios emanados dos olhos irados do “Senhor”, que se revela uma criatura torpe que há incontáveis tempos fora encerrada ali por ter cometido atrocidades.

O lamento por Adônis

Justificativas para infundir dúvidas acerca da natureza dos deuses do passado nunca faltaram, a julgar pelo modo como agiam e se comportavam. Pairar sobre as atônitas e aterrorizadas multidões a bordo de resplandecentes e barulhentas “carruagens de fogo”, por exemplo, não condiz com atribuições propriamente divinas.

Em 1968, inspirados talvez no recém-lançado livro Eram os Deuses Astronautas?, de Erich von Däniken, Gilbert Alexander Ralston (1912-1999) roteirizou e Marc Daniels (1912-1989) dirigiu Who Mourns for Adonais? (O Lamento por Adônis), um dos mais sugestivos e provocantes episódios, em que o deus grego Apolo em pessoa imobiliza a Enterprise e exige ser adorado como na época da Antiguidade Clássica, desdenhando séculos de evolução humana.

Com o auxílio dos instrumentos, a tripulação consegue definir o local exato no planeta Pollux IV onde Apolo ocultava aparatos e a fonte de energia que fluía para seu corpo conferindo-lhe a capacidade de aparecer e desaparecer e de atirar raios pelas mãos: o próprio templo em que se sentava, numa alusão ao de Delfos, um dos vários nos quais o povo lhe devotava adoração, visto que era, por excelência, o deus-oráculo. Filho de Júpiter e Latona, irmão de Diana e chefe das nove musas, Apolo, divindade do dia, da poesia, da música, da medicina e das artes, também era chamado de Febo, por conduzir o Carro do Sol.

De maneira acertada, Kirk conclui que Apolo integrara um grupo altamente avançado de viajantes espaciais que detinham o controle de grandes quantidades de energia e o poder de alterar à vontade suas formas. Ao aterrissarem na região mediterrânea, não podiam ser tomados por outra coisa senão deuses pelas populações rurais que ali viviam.[1]

Convencido de que extraterrestres ensejaram a base dos mitos clássicos, em 1976 o historiador W. Raymond Drake (1913-1989) tentaria provar o enunciado no livro Gods and Spacemen in Greece and Rome (Deuses e Astronautas na Grécia e Roma Antigas).[2]

A cidade à beira da eternidade

Manifestar velada e subliminarmente certas posturas e visões de mundo determinou a opção de Roddenberry pela ficção, conforme justificou: “Só através dela eu podia falar, naquela época, das coisas que desejava. Porque não havia realismo, podíamos contar uma história antibelicista, nos declarar contra o envolvimento no Vietnã, ter uma tripulação multirracial na Enterprise, com papéis-chave interpretados por mulheres. Essas ideias eram inaceitáveis na televisão de então, mas nós podíamos abordá-los num show de ficção científica.”

O racismo estadunidense, Gene – que era filho de um caipira antissemita – encarou escalando para o papel de tenente e oficial de comunicações Nyota Uhura uma mulher negra, a atriz Nichelle Nichols, que encenaria com Shatner o primeiro beijo interracial da história da tevê norte-americana no episódio Plato’s Stepchildren (Os Filhos de Platão), só levado ao ar sem a censura dos executivos da NBC graças a providencial intervenção do líder negro pacifista Martin Luther King (1929-1968).

Ao saber que o jornal oficial Pravda havia criticado a série por “ignorar as conquistas tecnológicas do povo soviético”, Roddenberry tratou logo de colocar a bordo um russo, o alferes e navegador Pavel Andreievich Checov (Walter Koenig), antecipando-se em duas décadas à Perestroika. Koenig, no entanto, desmentiu essa versão, tendo declarado que Roddenberry apenas queria um ator que se parecesse com um integrante do grupo The Monkees, que à época fazia muito sucesso parodiando os Beatles.

Vários autores do gênero escreveram roteiros – sujeitos ao crivo dos consultores da série que quase sempre os reescreviam –, entre eles Theodore Sturgeon (1918-1985), Harlan Ellison (1934-), Richard Burton Matheson (1926-2013), Jerry Sohl [Gerald Allan Sohl (1913-2002)], Robert Albert Bloch (1917-1994), Max Ehrlich (1909-1983); David Gerrold (1944-) e Drexel Jerome Lewis Bixby (1923-1998). Na direção, revezaram-se nomes como Marc Daniels (1912-1989), James Goldstone (1931-1999), Robert Butler (1927-), John Newland (1917-2000), Marvin J. Chomsky (1929-), Ralph Senensky (1923-), Robert Sparr (1915-1969), Joseph Sargent (1925-2014), Vincent Michael McEveety (1929-), Jud Taylor [Judson Taylor (1932-2008)], Don McDougall (1917-1991), Michael O’Herlihy (1929-1997) e o veterano do cinema Joseph Pevney (1911-2008), aliás quem mais assinou episódios, inclusive aquele que é apontado como o melhor da fase clássica: City on The Edge of Forever (A Cidade à Beira da Eternidade), de 1968, escrito por Harlan Ellison e laureado com o prêmio Hugo.

O Guardião da Eternidade

Um turbulento deslocamento espacial causado por distúrbios temporais provenientes de um planeta desconhecido chacoalha a Enterprise, e nisso o oficial médico-chefe doutor Leonard H. “Bones” (“Magro”) McCoy (DeForest Kelley) – um humanista apegado às tradições, avesso ao protocolo militar e à fria lógica vulcana – injeta acidentalmente em si mesmo uma alta dose de cortrasina (estimulante que em excesso provoca delírios paranoicos). Tomado pela loucura, McCoy teletransporta-se para o centro do distúrbio temporal. Kirk, Spock, Scott e Uhura descem em seu encalço e se deparam com ruínas milenares que se estendem por toda parte. Entre elas há um portal que é o epicentro das anomalias espaço-temporais.

“Eu sou o guardião da eternidade. Sou máquina e ser, e nenhum. Sou meu próprio começo e meu fim”, diz em tom enigmático oferecendo em seguida uma passagem para outros tempos e dimensões. Inadvertidamente, McCoy atravessa o portal e uma vez no passado, altera o futuro da Terra de modo que a Enterprise desaparece como se nunca houvesse existido. A Kirk e Spock só resta se anteciparem à chegada de McCoy e assim vão parar na Nova York de 1930, em plena época da Grande Depressão.

Portando-se como desvalidos, se abrigam em um albergue onde contam com os préstimos da jovem assistente social Edith Keeler (Joan Collins) que, além de altruísta e sonhadora, se revela uma autêntica visionária ao fazer a seguinte preleção aos indigentes que saboreavam uma tigela de sopa no refeitório: “Eu insisto que sobrevivam. Porque os dias e os anos à frente valerão a pena ser vividos. E um dia, breve, o homem será capaz de controlar energias incríveis. E quem sabe até o átomo. Energias que poderão nos levar a outros mundos em naves espaciais. E os homens que forem ao espaço serão capazes de alimentar os milhões de famintos da Terra e curar suas doenças. Serão capazes de encontrar um meio de esperança para um futuro melhor. Pois esses anos valerão a pena ser vividos.”

Enquanto esperam por McCoy e não estão ocupados em servir comida e limpar o albergue, Kirk se enamora por Keeler, e Spock se entrega à tarefa de construir – com materiais pouco melhores do que “pedra lascada e barro fofo”, conforme reclamou – um “circuito de memória mnemônica”, através do qual capta imagens esparsas do futuro entrevendo duas ordens de eventos: uma em que Keeler morre em um acidente de trânsito e outra em que se torna líder de um movimento pacifista que consegue retardar a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, proporcionando aos nazistas o tempo necessário para construírem a bomba atômica e consequentemente dominarem o mundo.

Destarte, Spock conclui que Keeler é o ponto focal para onde foram atraídos, e McCoy, o elemento do acaso. Apaixonado, Kirk se lamenta, pesaroso, porém aceita a inevitabilidade do destino e impede McCoy de salvá-la no exato instante em que ia ser atropelada. Com a história recolocada em seus devidos eixos, os três retornam e reencontram o grupo de desembarque como se os tivessem deixado há poucos minutos.

Tempo de nudez       

Sempre que a Enterprise transpõem além das sendas do espaço as do tempo, suas viagens ganham em requinte, qualidade e emoção, enriquecendo-se sobremaneira. Isso pode ser conferido em episódios como Time Squared (Tempo ao Quadrado) e Yesterday’s Enterprise (Elo Perdido), de A Nova Geração, e filmes como Star Trek IV: The Voyage Home (Jornada nas Estrelas IV: A Volta Para Casa), dirigido por Leonard Nimoy em 1986, Star Trek Generations (Jornada nas Estrelas: A Nova Geração), dirigido por David Carson em 1994 e Star Trek: First Contact (Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato), dirigido por Jonathan Frakes (o primeiro oficial William Thomas Riker de A Nova Geração) em 1996.

A vertente prevista pela física relativística começou a ser explorada já num dos primeiros episódios da série clássica: The Naked Time (Tempo de Nudez), escrito por John D. F. Black e dirigido por Marc Daniels.

Ao averiguar as estranhas circunstâncias da morte de seis cientistas da Federação instalados no posto avançado de um planeta moribundo, um oficial é contaminado por gotículas de água transmutada numa cadeia de moléculas complexas, cujos efeitos, semelhantes aos do álcool, reprimem o senso de autocontrole e ensejam comportamentos excêntricos. Uma variação desse líquido voltou a afetar a tripulação da Enterprise, só que a da Nova Geração, no episódio The Naked Now (A Hora Nua). Antes que McCoy isolasse o “agente etílico” e produzisse um antídoto, este se espalha através da transpiração, não poupando Spock – que não resiste e chora, liberando suas emoções – e Kirk.

Incumbida de recolher dados e acompanhar o processo de compactação do planeta, a Enterprise é mantida em órbita apertada e traiçoeira, e com os motores de dobra sabotados por um dos oficiais em estado alterado, corre sérios riscos de não escapar da intensa atração gravitacional. Ante a iminência da catástrofe cósmica, Spock propõe uma fórmula de mistura interna, nunca tentada, entre tempo e antimatéria. Tomando uma rota hiperbólica na direção de onde vieram, provocam uma explosão controlada dentro dos propulsores, ao que são arremessados para trás a uma velocidade tremenda, que ultrapassa a escala, fazendo-os retornarem três dias no tempo. Confirmava-se assim a possibilidade prática de se deslocarem a qualquer época do passado ou do futuro.

Amanhã é ontem

Nenhum outro episódio diz mais respeito à ufologia do que Tomorrow Is Yesterday (Amanhã É Ontem), escrito por Dorothy Catherine “D. C.” Fontana (1939-) e dirigido por Michael O’Herlihy. No final da década de 60, às vésperas do primeiro passeio do homem na Lua, um OVNI é detectado pelos radares de uma base da USAF. E lá está ele contra o céu azul. É a Enterprise! Kirk: “Diário de bordo, data estelar 3113.2. Estávamos em rota para a Base Estelar 9 para reabastecimento, quando a enorme atração gravitacional nos pegou. Isso exigiu toda a força de dobra reversa para nos afastar do buraco negro. Mas como o elástico que se rompe, o escape nos jogou fora de controle através do espaço.”

Um caça armado com mísseis nucleares parte para interceptar o “OVNI”, e o piloto o descreve como “algo grande, com duas projeções cilíndricas no topo e uma embaixo”. Sem os escudos e contando apenas com a força de empuxo, vulnerável portanto a ataques, mesmo os do tipo convencional, Kirk ordena o travamento dos raios tratores sobre o jato que não resiste à força empregada e se rompe, partindo-se em pedaços.

O piloto é imediatamente teletransportado e, uma vez a bordo, pensa ter sido capturado por extraterrestres. Impagável é a cena em que o piloto, John Christopher, diz a Kirk, depois deste tentar explicar que procediam do futuro, que nunca acreditara em “homenzinhos verdes” e, na sequência, ao chegar na ponte, depara-se com Spock, que retruca: “Nem eu”. Spock lembra o capitão de que o piloto não poderia ser devolvido a Terra, pois já sabia o suficiente para que algum homem inescrupuloso manipulasse o presente e consequentemente alterasse o futuro, fazendo com que tudo o que conheciam, incluindo eles próprios, viessem a não existir. Porém, consultando os registros históricos dos computadores da nave, admite que afinal teriam de mandá-lo de volta, visto que seu filho, ainda por nascer, dirigiria a primeira sonda bem sucedida a Saturno.

Premidos por esse imperativo, urgia eliminar as provas – fotos tiradas pelas câmeras do avião e gravações das transmissões de rádio – atestando que ali estiveram presentes. Kirk tenta amenizar a situação, dizendo que “Pelas lições de história, essas coisas eram consideradas como balões meteorológicos, efeitos do Sol, coisas explicáveis publicamente”. Todavia, lembra Spock, “Nosso raio trator prendeu e destruiu um avião da Aeronáutica. Seria impossível explicar como outra coisa a não ser um OVNI genuíno, possivelmente alienígena, com instinto agressivo.” Recuperando os registros e as fotos, se o piloto se sentisse obrigado a relatar o que vira, não haveria provas para apoiá-lo. “E isso me tornará um mentiroso ou um louco”, protesta Christopher. “De jeito nenhum. Será mais um dos milhares que acreditam ter visto um OVNI”, arremata Spock. Kirk e Sulu entram na Divisão de Serviço Estatístico e no Laboratório Fotográfico da Base Aérea e depois de muitas peripécias e de serem flagrados pelos guardas, conseguem roubar os registros.

A única solução possível para voltarem, concordam Spock e Scott, é a aplicação de uma força reversa, o “efeito rebote”, igual ao que os jogou ali. Os cálculos de Spock indicavam que se fossem em direção ao Sol procurando sua atração magnética e se afastassem a toda força, o rebote os jogaria em outra dobra temporal: “Enquanto nos movemos cada vez mais rápido para o Sol, começaremos a voltar no tempo. Voltaremos para antes de ontem, antes do momento em que aparecemos no céu, então nos libertando nos jogará à frente no tempo e nós transportaremos Christopher a um instante antes de tudo acontecer.” “Não terá nada para lembrar porque não terá acontecido”, rejubila-se Kirk.

Assim que é teletransportado ao caça, o piloto não vê mais o OVNI, definitivamente na lista dos não identificados.

Primeiro contato

Orçado para que fosse um dos melhores filmes da franquia até então realizados para o cinema, Primeiro Contato foi o primeiro protagonizado exclusivamente pelos atores de A Nova Geração e o oitavo desde Star Trek: The Motion Picture (Jornada nas Estrelas: O Filme), dirigido em 1979 pelo tarimbado Robert Wise, o mesmo de clássicos como O Dia em que a Terra Parou. Em Primeiro Contato vemos uma overdose dos ingredientes e dos clichês que fizeram o sucesso da série: drama, tensão, suspense, tragédia, ação, aventura, rebeldia, romance, humor, carisma, roteiro inteligente e trama bem solucionada, escorados pelos efeitos especiais da Industrial Light and Magic, de George Lucas.

Os borgs, os mais terríveis e poderosos inimigos já enfrentados pela Federação, ditam o ritmo e injetam o dobro de emoção. Provenientes de um canto distante da galáxia, a milhares de anos-luz, são a perfeita combinação entre o orgânico e o cibernético. Detentores de avançadíssimos conhecimentos tecnológicos acumulados ao longo de suas intermináveis conquistas que lhes permitem se adaptarem a qualquer arma em poucos segundos, por onde passam assimilam, absorvem e eliminam espécies, culturas e planetas inteiros, não deixando nenhum resquício de individualidade. De índoles totalitária e coletivista e mentalmente interligados entre si, agem em conjunto, tais como as abelhas e formigas. Irredutíveis, decretam o seu lema, em tom de ultimátum: “Resistir é inútil.”

O capitão Picard assimilado pelos borgs no episódio O Melhor de Dois Mundos

O tão temido dia em que os borgs desfechariam um ataque a Terra é chegado. As naves da Frota são convocadas, mas a Enterprise E, de visual inteiramente renovado, mais compacta e dinâmica do que o modelo D, destruído no final do longa-metragem anterior (A Nova Geração), é preterida pelo comando da Frota que alega não confiar num capitão que fora assimilado e convive desde então com as memórias borg implantadas em seu inconsciente. Esse fato ocorreu no episódio duplo The Best of Both Worlds (O Melhor de Dois Mundos), que fecha a terceira temporada da série e é um dos pontos altos de A Nova Geração.

O elemento instável em questão é ninguém menos do que o francês Jean-Luc Picard (Patrick Stewart), tão audacioso quanto ponderado e reflexivo, com predileções pela história e arqueologia. Roddenberry diz ter criado o personagem, mais velho e experiente do que Kirk, em homenagem ao oceanógrafo e navegador  Jacques-Yves Cousteau (1910-1997). Picard sabe que os laços, nunca rompidos, que o mantiveram unido aos borgs no passado, tornavam-no o homem ideal para combatê-los e o único capaz de entender e antecipar seu modus operandi.

Prenunciando o que estava por vir, ele aparece ouvindo a gravação de Lês Troyens, ópera composta pelo músico romântico francês Louis Hector Berlioz (1803-1869). A referência às tragédias individuais da Guerra de Troia ganham sentido na tentativa dos borgs de reeditarem o engenhoso estratagema  urdido pelos gregos para tomar essa antiga cidade semilegendária da Ásia Menor. Só que em vez do cavalo de madeira, é a Enterprise que eles pretendem usar.

Contando com o apoio total da tripulação, Picard desobedece as ordens do comando e parte em dobra máxima ao front de batalha, onde orienta as outras naves e ajuda a destruir um cubo borg que antes de explodir libera uma esfera que ruma direto à Terra. Os sensores mostram partículas cronométricas emanando da esfera, indicativas da criação de um vórtex temporal.

No encalço, a Enterprise é apanhada pelo rastro, ficando protegida dos reflexos em longo prazo advindos de uma drástica mudança histórica. Atônita, a tripulação descobre que a Terra fora integralmente assimilada e agora a população são de nove bilhões. Todos borgs! Só resta continuar regredindo no tempo e corrigir os estragos no passado, não por acaso em plena segunda metade do século XXI, dez anos após a Terceira Guerra Mundial, quando a maioria das cidades se encontrava em ruínas e imersa na anarquia.

A missão que se impõe na decisiva data de 4 de abril de 2063, é impedir que os borgs assimilem a Enterprise e sabotem o teste do foguete que inauguraria a era da dobra espacial e das viagens interplanetárias e ensejaria o primeiro contato oficial da então ingênua humanidade com uma raça extraterrestre: os vulcanos!

Vulcanos

Vulcano (Hefesto na mitologia grega) era o deus romano do fogo e dos relâmpagos, filho de Júpiter e de Juno.[3] Lançado aos mares devido à vergonha de sua mãe pela suas deformidades, foi, porém, recolhido por Tétis e Eurínome, filhas de Oceano. Noutras versões, a sua fealdade era tal, mesmo recém-nascido, que Júpiter o teria lançado do Monte Olimpo abaixo. Em consequência, Vulcano teria ficado coxo. Foi ele quem forjou armas especiais para Eneias e Aquiles, de modo que sua figura era representada como um ferreiro forjador de raios, atributo de Júpiter. Paradoxalmente, embora fosse o mais feio de todos os deuses, Vulcano era o marido de Vênus (a Afrodite grega, associada a Lúcifer), a deusa da beleza e do amor, que aliás lhe era tremendamente infiel. Durante a festa em sua honra, chamada Vulcânia, sacrifícios humanos lhe eram ofertados. Vulcano é adorado na Maçonaria sob o nome de Tubalcaim, o nome da senha para o Mestre Maçom (ou terceiro grau). Tubalcaim é citado no Gênesis como sendo um filho do perverso Lameque e de Zilá, parte da descendência de Caim. Tubalcaim teria sido o primeiro homem a fazer uso do cobre e do ferro nas construções da humanidade: “E Zilá também teve a Tubalcaim, mestre de toda obra de cobre e de ferro.” (Gênesis 4:22)

Sorumbáticos, frios, disciplinados e devotados à lógica, a compleição física dos vulcanos é semelhante a dos humanos – diferenciando-se apenas pelas sobrancelhas retas e orelhas pontudas – e praticamente idêntica a dos hostis, guerreiros e orgulhosos romulanos, com quem compartilhavam o planeta Vulcano – de atmosfera rarefeita, com temperaturas altas de dia e baixas de noite –, até que estes se recusassem a acatar a orientação pacifista e a suprimir as emoções. Cada nome vulcano é o nome de um deus pagão romano. A filosofia dos vulcanos consiste numa apaziguante mistura de conhecimento puramente racional e científico com várias filosofias, tradições e religiões orientais, entre eles o taoísmo, o confucionismo, o hinduísmo e o budismo, com predominância para os princípios do dharma desta última. Dharma significa “o caminho das verdades mais altas” ou “o princípio universal que rege toda a realidade”. Trata-se, portanto, de puro conhecimento lógico e racional. Pelas práticas de disciplina do self (a mente, o Eu), aliando técnicas corporais e físicas, como as dos iogues, os vulcanos podem fazer coisas impossíveis a nós humanos.

Hot Vulcan. Fonte: http://angryweb.net/wp-content/uploads/2009/12/startrekhot.jpg

Missão de misericórdia

Os roteiristas de Jornada sempre foram pródigos em colocar a tripulação defronte ou no encalço de poderes e mistérios que ultrapassavam os limites do conhecido mas que, na aparência, pareciam humanos, demasiado humanos. Era uma fórmula corrente entre os ficcionistas de se referirem às injunções da vida, quer fossem elas inerentes a entidades equiparáveis a deuses ou aos próprios homens.

No episódio Errand of Mercy (Missão de Misericórdia), escrito e co-produzido por Gene L. Coon (1924-1973) e dirigido por John Newland (1917-2000), Kirk e Spock descem ao planeta Orgânia, habitado por uma cultura que o tricorder (misto de computador, sensor e gravador portátil) indica estar estagnada há dez milênios em patamares medievais, a fim de evitarem a invasão do Império Klingon, raça militarista e guerreira que de primeira e grande inimiga da Federação, evocando os russos, passaria a aliada a partir de A Nova Geração.

John Colicos como o klingon Kor: “I don’t trust mem who smile too much” (stardate 3201.7)

Entretanto, para surpresa das duas partes em disputa, os organianos se revelam seres totalmente incorpóreos e puramente energéticos. A forma humanoide que haviam assumido e as construções erguidas à sua volta se constituíam em meros convencionalismos para que os visitantes pudessem ter pontos de referência decodificáveis. Como disse Spock, “Os organianos estão para nós na escala da evolução assim como estamos para a ameba.”

Os organianos, seres tão evoluídos que não seriam mais corpóreos.

A licença

Já em Shore Leave (A Licença), escrito por Theodore Sturgeon e dirigido por Robert Sparr, a tripulação desembarca no planeta Omicron Delta, de paisagem aprazível, bucólica e encantadora, ideal para um período de descanso. Na superfície, não se via animais, artefatos ou campos de força.

O que se verá, estranhamente, é a materialização e o desfile de elementos conhecidos porém destoantes daquele cenário extraterrestre: o Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas, o galanteador Don Juan, um avião de combate da Primeira Guerra Mundial, um samurai, um cavaleiro medieval, um tigre, etc., numa inventiva confusão de épocas.

O que não se sabia é que no subsolo havia um complexo industrial subterrâneo onde os pensamentos eram lidos e as coisas fornecidas. O lugar funcionava como uma espécie de parque de diversões interativo mantido por uma civilização avançadíssima.

Nova Ordem Mundial

Gene Roddenberry era um Illuminati,[4] e como tal estava empenhado em cumprir à risca a agenda de implantação da Nova Ordem Mundial. Seu papel era o de empreender modificações culturais profundas nas novas gerações, iniciando-as, preparando-as e doutrinando-as subliminarmente. Star Trek, como todos sabem, sempre trouxe uma amostra lúdica daquilo que poderia vir a ser o nosso futuro, e se em muitos aspectos este vem se confirmando, é porque houve, de fato, aqueles que, imbuídos pela filosofia e “ideologia” de Roddenberry, se engajassem de corpo e alma nesse sentido. Não faltam fãs a admitirem terem orientado suas vidas e seguido determinadas carreiras e profissões por inspiração direta de Star Trek, voluntária ou involuntariamente contribuindo, tanto mais se viessem a ocupar posições-chave e de destaque, para o avanço da concretização dos objetivos da Nova Ordem Mundial.

Na linha de tempo da história de Star Trek, continuada pelos autores que seguiram expandindo o universo de Roddenberry, o governo global, definido como “um sólido e único governo no planeta Terra”, tendo a ONU à frente, foi finalmente estabelecido em 2113.

Certamente não é por motivos de mera referência ilustrativa que o emblema da Federação dos Planetas Unidos [United Federation of Planets (UFP)], na maioria das vezes chamada simplesmente de “Federação” (um Estado Federal interestelar que abriga mais de 150 planetas membros e milhares de colônias e que mantém uma agência militar e exploratória própria, a Frota Estelar) seja idêntico ao da ONU. O quartel-general da Federação fica em São Francisco (Califórnia), por sinal a mesma cidade em que a ONU foi fundada em 24 de outubro de 1945 e onde a Federação – de acordo com os cânones de Star Trek – foi fundada em 11 de outubro de 2161 pelos respectivos líderes-representantes dos planetas Andoria, lar dos andorianos; Tellar, lar dos tellaritas, Terra, lar dos humanos (mais tarde denominados terranos); e Vulcan, lar dos vulcanos. Inúmeros outros povos se uniriam à Federação nos séculos subsequentes.

A primeira menção à existência da Federação se deu no episódio 23 da primeira temporada, levada ao ar em 23 de fevereiro de 1967, intitulado A Taste of Armageddon (Um Gosto de Armageddon), roteirizado por Gene L. Coon (Eugene Lee Coon, 1924-1973), baseado em argumento de Robert Edward Hamner (1928-1996). Roddenberry declarou que sua intenção era oferecer ao público uma versão futurista otimista e ideal da própria ONU, extrapolada para um organismo galáctico capaz de coordenar, promover e manter a paz, união, integração e desenvolvimento entre os planetas e seus respectivos povos.

É igualmente certo que não é por acaso que o símbolo triangular da Frota Estelar (Starfleet) é tipicamente illuminati, embora a definição oficial e usualmente aceita é a de que a linha crescente à esquerda represente o acréscimo de energia necessária e a linha à direita o decréscimo da eficiência dos dispositivos warp, sendo a linha inferior a energia gasta nesse processo. O símbolo da Frota também é similar ao da Base da Filosofia Vulcana, o IDIC (Infinitas Diversidades em Infinitas Combinações), que consiste em um círculo e um triângulo em metais prata e dourado, afixado um sobre o outro, adornado por uma joia no centro (semelhante a uma pérola) chamada de kol-ut-shan. O símbolo da filosofia IDIC é o nascer da estrela de Vulcano sobre o Monte Seleya, a montanha mais alta do planeta, e que por isso tem grande significado filosófico.

Albert Pike

O célebre capitão James Tiberius Kirk foi precedido no comando da Enterprise por Christopher R. Pike (capitão de 2251 a 2263).[5] Obviamente Roddenberry prestou aqui uma homenagem ao advogado, militar e escritor norte-americano Albert Pike (1809-1891), comandante máximo da Maçonaria estadunidense de 1859 a 1891 e maior líder maçom do seu tempo, senão de toda a história. Reconhecido como gênio, Pike, que falava dezesseis idiomas diferentes e obteve a patente de general de brigada do Exército Confederado na Guerra Civil dos Estados Unidos (1861-1865), causou impacto em 1871 ao publicar o monumental guia de ensino maçônico Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry. Durante seu mandato, Pike teve uma visão global de como a Nova Ordem Mundial poderia ser estabelecida e usou seu intelecto para cumprir essa visão. O Plano previa três guerras mundiais. A Primeira e a Segunda Guerra Mundial ocorreram exatamente conforme previsto. O Plano prevê que o Anticristo surgirá a partir da fumaça, poeira e destruição causada por uma Terceira Guerra Mundial, que será travada entre árabes e israelenses, guerra essa que parece inevitável e sempre iminente.

Roddenberry, por sua vez, estabelece a eclosão da Terceira Guerra Mundial para 2053, quando uma série de ataques nucleares estratégicos mata mais de seiscentos milhões de pessoas. A maior parte das grandes cidades são destruídas e muitas nações acabam ficando sem governo organizado. Por todo o globo, áreas sofrem o efeito devastador do inverno nuclear. Dez anos depois, porém, ainda em meio ao caos e contra todas as expectativas, Zefram Cochrane faz a primeira viagem terrestre em dobra espacial. Sua nave, a Phoenix, é construída, ironicamente, a partir de um antigo míssil nuclear Titan da Força Aérea Norte Americana em uma base militar abandonada ao norte de Montana. Uma nave de suprimentos vulcana que por acaso passava nas proximidades do sistema solar, detecta a assinatura da dobra espacial da Phoenix e muda seu curso, estabelecendo contato com Cochrane e seus companheiros.

O contato com os vulcanos é um fato crucial na história humana e marca o início da Era Interestelar na Terra e das grandes transformações que porão fim à miséria, às doenças, ao materialismo (entendido como o desejo por bens materiais e ostentação pura simples), aos conflitos étnicos e religiosos, à intolerância, etc. O homem passa agora a dedicar-se prioritariamente ao auto-aprimoramento, à busca do conhecimento e à promoção do bem-estar geral. Tecnologia e bons propósitos, afinal. Superados os problemas cruciais que o atravancavam, o homem torna-se senhor do seu destino, abstendo-se de utilizar o poder de modo destrutivo. Esse homem do futuro é a mais bela homenagem possível à liberdade em plena elevação. Vigilante no âmago de sua glória, tolerante mas não indiferente, o homem está pronto para expandir-se pelo Universo tornando a fazer-se e a fazer civilizações, pronto a auxiliar, mas sempre sob essa imposição de humildade, modéstia e silêncio que é a base da grandeza humana.

Se de um lado Star Trek acalenta as mais nobres e belas intenções e acena com um futuro luminoso, aliás como toda utopia ou ideia revolucionária em sua práxis de inversão do tempo histórico, por outro oculta em seu âmago um substrato sombrio e tenebroso. Os próprios episódios, desde a série clássica até o seu último spin-off, Discovery, sempre fez alusões autorreferentes nesse sentido ao mostrar civilizações que aparentavam progresso, harmonia e perfeição, enganando até mesmo os tricorders e computadores de bordo, mas que, quando examinadas bem de perto, revelavam muitos daqueles problemas que se consideravam superados. O mesmo se poderia dizer em relação a todos os outros povos membros da Federação, incluindo os “terranos”, que a despeito dos grandes avanços, jamais se livraram totalmente das tendências e dos impulsos destrutivos de seu passado primitivo, estando, portanto, em muitos aspectos, muito longe da perfeição.

Obs.: Este ensaio sobre Star Trek é uma síntese e readaptação para este site de um trabalho bem mais completo que faz parte de um de meus livros ainda inédito. Uma outra versão, também sintetizada e readaptada, foi publicada como um apêndice em meu livro “Contatados: Emissários das estrelas, arautos de uma Nova Era ou a quinta coluna da invasão extraterrestre?” (Campo Grande, Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores, 2007, Coleção Biblioteca UFO)

 

Notas

[1] Curiosamente, em 1977, William Shatner seria o apresentador e narrador de um documentário televisivo baseado na obra de Erich von Däniken intitulado Mysteries of the Gods, versão norte-americana do alemão Botschaft der Götter, dirigido por Harald Reinl (que em 1970 já havia dirigido Erinnerungen an die Zukunft, ou Eram os Deuses Astronautas?), enquanto a direção para o público norte-americano ficou a cargo de Charles Romine.

[2] Drake, W. Raymond. Deuses e Astronautas na Grécia e Roma Antigas, Rio de Janeiro, Record, s.d.

[3] Na mitologia grega, Hera é a deusa do casamento, dos partos e das vacas. Na romana é Juno ou Providência, irmã e esposa de Zeus (Júpiter), rainha dos deuses que rege a fidelidade conjugal. Retratada como majestosa e solene, muitas vezes coroada com os polos (uma coroa alta cilíndrica usada por várias deusas). O sexto mês do ano, junho, tem esse nome em sua homenagem.

[4] Conforme foi confirmado por pesquisadores como Robert Howard e a dupla Eric & Intukan Dubay.

[5] Antes que alguém venha a alegar que Roddenberry possuía algum pendor cristão por ter conferido o nome Christopher ao capitão Pike, é de bom alvitre esclarecer que o “Cristo” dos Mistérios não tem absolutamente nada a ver com o “Cristo” do Novo Testamento, pelo menos não na forma em que é interpretada pela Igreja Cristã. Curiosamente, o ator que encarnou o capitão Pike no episódio piloto The Cage foi Jeffrey Hunter (1929-1969), que em 1961 havia se destacado no papel de Jesus Cristo no monumental drama épico-religioso King of Kings (O Rei dos Reis), roteirizado por Philip Yordan e Ray Bradbury e dirigido por Nicholas Ray.

[6] Gene Roddenberry in Star Trek Creator: The Authorized Biography of Gene Roddenberry, by David Alexander, ROC Books, an imprint of Dutton Signet, a division of Penguin Books URoc, an imprint of Dutton Signet, New York, 1995, p.568.

Extras

Com Ralfo Barreto Furtado, o maior fã de Star Trek que já conheci, nos idos de 22 de maio de 2002, dia em que o entrevistei em sua loja U.S.S., então situada na Av. São Luís, 187, Galeria Metrópole, centro de São Paulo. [Foto de Elisa Pacce]
Elisa Pacce e Cláudio Suenaga na U.S.S. [Foto de Ralfo Furtado]
Elisa Pacce & Ralfo Furtado [Foto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga]

Os tablets antevistos por Gene Roddenberry e pelos designers da série clássica: O “Clipboard” usado na Enterprise por Kirk e cia

O capitão Kirk assinando em um “tablet”