No mundo de 2020: Soylent Green is people!

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Fundado em 1968 por Aurelio Peccei (1908-1984), industrial e acadêmico italiano, e Alexander King (1909-2007), cientista escocês, com a finalidade de interpretar o que foi denominado, sob uma perspectiva ecológica, “sistema global”, o Clube de Roma publicava em 1972 um relatório elaborado por uma equipe, por ela contratada, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts [Massachusetts Institute of Technology (MIT)], e que venderia mais de 30 milhões de cópias em trinta idiomas, tornando-se o livro sobre meio ambiente mais vendido da história.

Os Limites do Crescimento foi quem trouxe a noção, hoje quase que consensualmente aceita e que serviu de base para os movimentos ecológicos, de que a Terra é um sistema finito de recursos, submetido às pressões do crescimento exponencial da população e da produção econômica.

Ou seja, segundo o Clube de Roma, a Terra não suportaria mais o crescimento populacional devido à pressão sobre os recursos naturais e energéticos e o aumento da poluição, mesmo com o avanço das tecnologias.

As suas propostas para evitar o colapso desse sistema organizavam-se em torno da noção de um gerenciamento global da demografia e da economia a fim de se alcançar um estado de equilíbrio dinâmico.

Severas medidas de controle da natalidade e mudanças radicais nos padrões produtivos e de consumo, com ênfase numa “economia de serviços”, eram as recomendações centrais da nova escola de pensamento ecológico.

“Em busca de um novo inimigo que possa unir a humanidade, chegamos à conclusão de que a poluição, a ameaça do aquecimento global, a escassez da água, a fome e outros itens seriam os responsáveis”, admitiu um dos membros do Clube de Roma.

Logo em seguida, em junho de 1972, era realizada em Estocolmo, na Suécia, a I Conferência das Nações Unidas Sobre Meio Ambiente Humano.

E logo no ano seguinte, em 1973, estreava nos cinemas um filme de ficção científica que lançava o alarde geral ao mostrar um mundo superpovoado e superaquecido, onde a massa de pobres e desempregados vive amontoada em apartamentos precários e se alimenta tão somente de uns tabletes verdes chamados de “soylent green”, produzidos, alegadamente, através da industrialização de algas, e distribuídos de maneira racionada pelo governo.

No Mundo de 2020 (título do filme no Brasil), alimentos “de verdade” como carnes, frutas e legumes são tão raros que só podem ser consumidos pelos que podem pagar por eles – ou seja, pelos ricos –, as mulheres bonitas foram transformadas em mobílias vivas – a adornar as casas desses ricos –, a contenção das aglomerações humanas passou a desprezar os direitos individuais e os campos que restaram se tornaram propriedade de poucos.

O segredo macabro por trás do Soylent Green, e que colocava em risco toda a ordem social, é que não era feito propriamente de plâncton, como garantia o governo, e sim de… carne humana!

O excedente populacional, a massa miserável, era morta e “reciclada”, isso mesmo, transformada em ração para alimentar a população faminta.

Com roteiro de Stanley R. Greenberg (1927-2002), que se baseou na novela de Harry Max Harrison (pseudônimo de Henry Maxwell Dempsey, 1925-2012), direção de Richard Fleischer (1916-2006) e atores do primeiro time de Hollywood no elenco (como Charlton Heston, Joseph Cotten e Edward G. Robinson), Soylent Green causava impacto e infundia medo pela possibilidade de num futuro bem próximo, caso o crescimento populacional não fosse revertido e a produção industrial ajustada a níveis “sustentáveis”, restar tão pouco da natureza que o calor se tornaria quase que insuportável enquanto a vida animal e vegetal estaria quase extinta e por conseguinte não haveria mais alimentos, o que obrigaria os milhões de famintos a se alimentarem de carne humana.

O filme teve por efeito preparar psicologicamente e convencer as pessoas, como queria o Clube de Roma, de que a causa do desequilíbrio ecológico era o ser humano, levando-as a exigirem que os governos e a própria Organização das Nações Unidas (ONU) tomassem medidas drásticas e que os cientistas continuassem a buscar soluções para evitar que chegássemos àquele ponto.

Mais do que profético, o filme antecipava não só o quadro econômico-social como os planos da elite mundial para as primeiras décadas do século XXI, planos esses que em grande parte já se cumpriram e que estão em pleno andamento. A renda está cada vez mais concentrada nas mãos de cada vez menos pessoas e as grandes cidades estão superpovoadas por uma mixórdia miserável. E a noção de “crescimento sustentável” e da necessidade premente de reduzir os níveis da atividade industrial para deter o “aquecimento global”, já é aceita quase que consensualmente. A reciclagem tornou-se uma necessidade quase que obrigatória para o melhor aproveitamento dos recursos, e se soylent green fosse oferecido como uma fonte “saudável” e barata de alimento, quantos não o consumiriam sem questionar?

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