Os 90 anos de Fenícios no Brasil, de Ludwig Schwennhagen

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Havia uma forte tendência ou moda no começo do século XX no Brasil em apontar os fenícios como a nossa maior influência colonizadora antes dos portugueses, afinal, seria um contrassenso não acreditar que justamente eles, exímios navegadores que eram e contando com a madeira ideal para fabricar seus navios, isto é, o cedro do Líbano, não ousassem enfrentar o Atlântico, sendo eles próprios destemidos e excelentes comerciantes.

O austríaco Ludwig Schwennhagen (cujas datas de nascimento e falecimento são desconhecidas)[1] foi o principal proponente e o mais ardoroso defensor da teoria da presença dos fenícios no Brasil. Tendo chegado em Teresina na primeira década do século XX,[2] a população, que o chamava de “Chovenágua”, dizia que ele era um “alemão” calmo e grandalhão que ensinava história, bebia cachaça nas horas de folga e passava a maior parte do tempo percorrendo o Piauí e outros recantos do Nordeste em busca de provas da presença de povos fenícios por aquelas bandas.[3]

Em 1928, a Imprensa Oficial de Teresina publicou a primeira edição de seu original e peculiar livro Antiga História do Brasil – De 1100 a.C. a 1500 d.C. (com o subtítulo de Tratado Histórico de Ludovico Schwennhagen, professor de Filosofia e História),[4] que permaneceu praticamente desconhecido até 1970 quando só então foi reeditado pela Editora Cátedra, do Rio de Janeiro.[5]

O descobrimento do Brasil pelos fenícios, bem como a primeira imigração de povos brancos a este continente,[6] teria ocorrido, segundo Schwennhagen, em decorrência da Guerra de Troia, conflito bélico entre gregos e troianos que se estendeu sobre a Trácia e Ásia Menor com consequências desastrosas para muitos povos.[7] Os troianos tinham como aliados mais de trinta povos da Ásia, ao passo que os agressores gregos, cinquenta povos e tribos. Os fenícios, competidores marítimos e comerciais dos gregos, ficaram ao lado dos troianos e prestaram auxílio aos vencidos levando milhares deles para suas colônias e assim fundando diversas novas cidades com o nome de Troia. Conquistada e destruída sete vezes ao longo de um século, como provaram as escavações, Troia foi destruída definitivamente em 1184 ou 1181 a.C. (no final da Idade do Bronze no Mediterrâneo) e nos decênios seguintes começou a emigração dos povos cários (da Cária, região do sudoeste da Anatólia ao sul da Jônia, a sudoeste da Frígia e a leste da Lícia, originalmente chamada “Fenícia”, pois uma colônia fenícia assentara-se lá em tempos remotos, antes dos gregos) dos territórios ocupados pelos gregos.

A vinda dos fenícios para o Brasil e a instalação de pontos de apoio em nosso território foram justificadas por Schwennhagen pela necessidade que eles tinham de conduzir para a Europa, África e Ásia as riquezas que lhes eram solicitadas, principalmente pelos egípcios, os maiores compradores de ouro na Antiguidade. Nesse tocante, os fenícios garantiam aos egípcios a acumulação de suas riquezas individuais para que se preparassem devidamente para a ressurreição. Os egípcios embalsamavam e embelezavam os corpos por acreditarem que a alma um dia voltaria a habitá-los, razão pela qual esperavam o grande dia com tranquilidade, acumulando ouro, prata e pedras preciosas para reaparecerem na vida futura com os meios financeiros que correspondiam às suas posições anteriores.[8]

Típico navio fenício.

Apoiando-se em Diodoro da Sicília (Diodoro Sículo, 90-30 a.C.),[9] historiador grego que fornece, nos capítulos 19 e 20 do 5º livro de sua monumental História Universal, a descrição da primeira viagem de uma frota de fenícios que saiu da costa da África, perto de Dacar, e atravessou o Oceano Atlântico rumo sudoeste, Schwennhagen observa que

“os navegadores fenícios encontraram as mesmas correntezas oceânicas de que se aproveitou Pedro Álvares Cabral para alcançar o continente brasileiro e chegar com uma viagem de ‘muitos dias’ às costas do Nordeste do Brasil. Conforme o cálculo cronológico, […] devemos colocar essa viagem, esse primeiro descobrimento do Brasil, na época de 1100 a.C. Diodoro conta a viagem da frota dos fenícios quase com as mesmas palavras com que narram os compêndios escolares brasileiros a viagem de Cabral: os navios andavam para o sul, ao longo da costa da África, mas, subitamente, perderam a vista do continente e uma violenta tempestade levou-os ao alto mar. Ali, perseguindo as mesmas correntezas, descobriram eles uma grande ilha, com praias lindas, com rios navegáveis, com muitas serras no interior, cobertas por imensas florestas, com um clima ameno, abundante em frutas, caça e peixe, e com uma população pacífica e inteligente. Os navegantes andaram muitos dias nas costas dessa ilha (que foi a costa brasileira entre Pernambuco e Bahia), e tendo voltado ao Mar Mediterrâneo, contaram a boa nova aos tirrênios, que eram parentes e aliados dos fenícios de Tiro. Estes resolveram logo mandar também uma expedição à mesma ilha e fundar ali uma colônia.”[10]

As primeiras entradas em massa de imigrantes fenícios em nosso país, segundo Schwennhagen, teriam ocorrido pela foz do Rio Parnaíba [que banha os estados do Maranhão e do Piauí e cujo nome é uma junção dos termos tupis paranã (“mar”) e aíb (“ruim”), ou seja, “mar ruim”], onde Tutoia (atual município no extremo norte maranhense, a 463 quilômetros de São Luís) era o porto de recepção, e dali dividiram-se em três tribos. Os que se estabeleceram entre o Rio Parnaíba e a Serra do Ibiapaba (nas divisas do Ceará e do Piauí) ficaram sendo os tabajaras; os que se estabeleceram no Rio Potí (que banha o Ceará e o Piauí) os potiguares; e os que se fixaram nas terras do Ibiapaba em direção ao leste, na foz do Rio Parnaíba, onde Tutoia era o porto de recepção, os cariris. Schwennhagen afiançou que ao longo do Parnaíba teriam sido encontrados canais artificiais pré-cabralinos semelhantes aos do antigo Rio Nilo, e que os fenícios que chegaram ao Delta do Parnaíba, um dos três deltas a mar aberto no mundo (os outros estão no Rio Mekong e no Rio Nilo) e o único das Américas,[11] sabiam que os braços da foz levavam a um rio importante que dava acesso ao interior do Brasil.[12]

A Ilha de São Luís, ainda de acordo com Schwennhagen, teria sido escolhida pelos fenícios como ponto de entrada para uma segunda leva de imigrantes. Em Tuapon (“burgo de Tupan”), como foi nomeada, teriam fundado numerosas vilas e aldeias das quais ainda remanesciam 27 quando da chegada dos europeus. De lá teriam atravessado pequenos rios e seguido navegando até onde hoje fica Belém, capital do Pará. Os fenícios vindos de Iônia teriam denominado de Ion o litoral maranhense, já que, com suas centenas de ilhas e penínsulas, mostrava uma surpreendente semelhança com o litoral da Iônia asiástica. Maranhão, que em tupi significa “mar que corre” [pela junção dos termos pará (“mar”) e nhan (“correr”)], derivaria do fenício Mara-Ion (“A Grande Iônia”).[13]

Os vestígios mais palpáveis dos fenícios no Maranhão estariam no Rio Pinaré (que nasce na Serra do Gurupi e deságua no Rio Mearim, próximo da foz do mesmo na Baía de São Marcos), onde o Lago Maracu mostra uma linha de estearias (restos das palafitas de habitações lacustres indígenas) petrificadas incluindo os restos dos estaleiros daquele povo. Nas margens do Rio Gurupi (na divisa do Maranhão com o Pará, com aproximadamente 720 quilômetros de extensão), os fenícios teriam explorado as minas auríferas, tendo como base a Aldeia de Carutapera (“Taba dos Carus”, sendo que Carus era o nome que os indígenas davam aos fenícios). À chegada dos portugueses, ainda remanescia ali uma aldeia de índios tupis que sabiam da existência daquelas minas auríferas.[14]

Tutoia (cujo nome seria a derivação de Tur, a metrópole dos fenícios, e de Troia) teria sido fundada pelos fenícios e descendentes de Troia por volta de 1080 a.C., segundo Schwennhagen. Como é de praxe a eliminação da consoante r na língua tupi, a cidade passou a ser conhecida como Tutoia, de onde os fenícios teriam exportado minérios, produtos químicos e madeiras nobres.[15]

A colonização das paragens do Baixo Parnaíba e da Serra Ibiapaba teria começado por volta de 1050 a.C. A subida do Rio Parnaíba, em ambos os seus braços, até Goiás e a Grande Lagoa, ter-se-ia realizado nos decênios seguintes, de modo que em 1000 a.C. já estava iniciada a exploração das minas, em redor da Grande Lagoa, bem como da Serra dos Dois Irmãos, onde existiriam mais de cem furnas e grutas da antiga mineração. Na Serra Ibiapaba, extraíam cobre e salitre (largamente utilizado pelos egípcios para embalsamar os mortos), enquanto que, de outras regiões, ouro fino, chumbo, prata e principalmente salitre. A crença na reencarnação, atinou Schwennhagen, era estimulada pela esperteza comercial dos fenícios, que retiravam o salitre das grutas do interior da Brasil, mormente da Gruta de Ubajara (no município de mesmo nome no Ceará). Formada por rochas calcáreas, a gruta, para Schwennhagen, não era mera obra da natureza, mas resultante de escavações para a retirada de salitre por um sistema de filtração artificial ainda hoje usado na Síria e na Ásia Menor. O subterrâneo de Alto Alegre, no município de Piracuruca (a 196 quilômetros de Teresina), teria sido igualmente escavado por mãos humanas para retirar pedras que na Antiguidade serviam para enfeitar os templos e as imagens das divindades. Os fenícios levavam as turmalinas azuis e os cristais transparentes para as suas inúmeras oficinas de lapidação.[16]

A raiz do tupi, na acepção de Schwennhagen, estava na língua dos cários, fenícios e pelasgos, de modo que o nome da capital venezuelana Caracas recuaria à religião monoteísta de Car, trazida pelos sacerdotes que acompanhavam os fenícios, e o infinitivo do verbo sacrificar em fenício, tu-na, teria originado “tupã” (“trovão” em tupi).[17] Schwennhagen afirmava que os fenícios transladaram em seus navios esses povos da Venezuela para o norte do Brasil, mais precisamente o local do congresso dos povos tupis em Sete Cidades,[18] no extremo norte do Piauí, que foi batizado pelos piagas (os antigos sacerdotes druidas, de onde veio o termo “pagés”) de Piagui, de onde se originou Piauhy. Piauí significaria, portanto, “terra dos piagas”, e não “rio do peixe piau”, devido à abundância desse tipo de peixe nas águas do Parnaíba, conforme a explicação popular. De fato, somente no século XIX é que surgiu a nomenclatura Piauhy; anteriormente, o nome corrente era Piagui.[19]

Os fenícios, reivindicava Schwennhagen, fizeram de Sete Cidades um entreposto comercial e palco para suas cerimônias religiosas.[20] Os geólogos atribuem a um simples acaso e capricho da natureza a aparente coordenação planejada das imponentes formações geomorfológicas – com os mais diversos formatos a sugerir estátuas (de deidades, figuras mitológicas como dragões e esfinges, seres humanos, guerreiros, animais, etc.), templos, obeliscos, menires, torres, castelos, canhões, fortalezas, muralhas, degraus, dólmens etc. – nitidamente separadas em sete áreas distintas cortadas por avenidas e ruas. A ausência de monólitos, de pedras talhadas e de encaixes artificiais, no entanto, corrobora o parecer dos geólogos de que as formas foram esculpidas em arenito pelas águas e pelos ventos ao longo de duzentos milhões de anos. De data muito mais recente são as cerca de duas mil pinturas e inscrições rupestres. As pinturas nas paredes de difícil acesso flutuam a uma altura de cerca de 8 metros e caracterizam-se pela predominância de desenhos geométricos. O conjunto é ordenado e harmônico, com variações de cruzes, círculos, círculos concêntricos, quadrados dentro de círculos, linhas retas, curvas e paralelas, representações do Sol (roda com raios), da Lua, de estrelas, animais e mãos. O sociólogo e antropólogo franco-argentino Jacques de Mahieu (1915-1990) visitou Sete Cidades em 1974 e em seu livro Os Vikings no Brasil atribuiu as inscrições e pinturas rupestres aos vikings, pela semelhança com os caracteres rúnicos.[21] Pela sua antiguidade, Sete Cidades certamente teve um passado sucedido por diversos povos e culturas, sendo mais provavelmente uma combinação de formações naturais propícias complementadas por uma sutil intervenção humana.

Se Sete Cidades foi um importante centro comercial e religioso, o que teria provocado sua decadência? Schwennhagen aponta duas causas, uma de ordem econômica: o Piauí foi abandonado quando descobriram jazidas de ouro e salitre na Bahia e Minas Gerais. Os engenheiros abriram longas estradas em direção do sudoeste e o trabalho colonial transferiu-se do norte para o sul do país. A outra causa foi de ordem ideológica: os piagas se espalharam para diversos pontos do Brasil, fazendo com que o Piauí perdesse a antiga celebridade de centro religioso. Devido à grande extensão do território brasileiro, os sacerdotes não conseguiram manter comunicação constante com a sede central. Isso levou ao enfraquecimento da ordem que, aos poucos, perdeu seu antigo brilho.[22]

Além de comerciarem com os egípcios e serem grandes aliados de Troia, Schwennhagen postula que os fenícios selaram uma aliança com o rei David (que reinou sobre Judá de 1010 a 1003 a.C., e sobre o reino unificado de Israel de 1003 a 970 a.C.) para a exploração conjunta do Amazonas. No caminho, estabeleceram numerosas estações marítimas entre a Bahia e o Pará. Quando David tornou-se rei de Israel na idade de 31 anos, Hirão (forma abreviada de Airão, “irmão dum poderoso”), o rei de Tiro (mencionado em II Samuel 5:11), enviou mensageiros com madeira de cedro, carpinteiros e pedreiros que lhe edificaram uma casa. Em acordo comercial com Salomão, Hirão recebeu várias cidades em troca da provisão de ouro e madeira de cedro e cipreste que serviu para a construção do Templo de Salomão, cidades essas que não agradaram a Hirão. Numa associação de interesses comerciais, Salomão valeu-se da frota marítima dos fenícios e recorreu a Hirão quando da construção de seu templo, tendo o rei de Tiro designado um seu homônimo, o arquiteto Hirão, para comandar os trabalhos da construção do templo. Schwennhagen assegura que os judeus fundaram colônias comerciais nas regiões do Alto Amazonas e ali se mantiveram durante muitos séculos, “tendo deixado, indubitavelmente, rastros da civilização e da língua hebraica”, tanto que o grande Rio Solimões deveria o seu nome ao rei Salomão, cuja forma popular era sempre “Solimão”. A antiga língua brasílica, porém, não chegou a ser muito influenciado pela hebraica, pois “o tupi é muito mais antigo e pertence à grande família das línguas pelasgas, que foram faladas em todos os países do litoral mediterrâneo”.[23]

Schwennhagen refere-se ao tratado sobre o país de Ophir de Henrique Onfroy de Thoron (publicado em Paris em 1868 com o título de Voyages des flottes de Salomon et d’Hiram en Amérique: Position geographique de Parvaim, Ophir & Tarschisch, e posteriormente em Manaus em 1876, tendo sido reproduzido em 1900 no livro As duas Américas, de Cândido Costa), como aquele que “acabou com todas as lendas e conjeturas a respeito das misteriosas viagens da frota de Salomão”:

“Thoron sabia latim, grego e hebraico, e conhecia a língua tupi, como também a língua ‘quíchua’, que é ainda falada nas terras limítrofes entre o Brasil e o Peru. Da bíblia hebraica prova ele, palavra por palavra, que a narração dada no 1º Livro dos Reis, sobre a construção, a saída e viagem da frota dos judeus, junto à frota dos fenícios, refere-se unicamente ao Rio Amazonas. As viagens repetiram-se de três em três anos; as frotas gastaram um ano entre os preparativos e a viagem de ida e volta, e ficaram dois anos no Alto Amazonas, para organizar a procura do ouro e de pedras preciosas. Estabeleceram ali diversas feitorias e colônias, e ensinaram aos indígenas a mineração e lavagem de ouro pelo sistema dos egípcios, descrito por Diodoro, minuciosamente, no 3º livro, capítulos 11 e 12. Ali, no Alto Amazonas, exploraram as regiões dos rios Apirá, Paruassu, Parumirim e Tarchicha. No livro dos Reis, da Bíblia, está bem narrado quantos quilos de ouro o rei Salomão recebeu dessas regiões amazônicas.”[24]

A poderosa aliança entre fenícios, egípcios, troianos e judeus, alude Schwennhagen, conteve os planos conquistadores dos assírios e favoreceu as empresas coloniais no Atlântico, até que o chefe dos mercenários líbios, Shoshenk I (chamado de Sisaque na Bíblia), fundador da 22ª Dinastia e que reinou de 943 a 922 a.C., apoderou-se do governo do Egito destronando a Dinastia dos Tanitas (os reis da 21ª Dinastia cuja capital ficava em Tânis).[25] Shoshenk I incitou Jeroboão (o primeiro rei de Israel), da tribo de Efraim, a fazer uma revolução contra Salomão, o terceiro rei de Israel que o governou durante cerca de quarenta anos (de 1009 a 922 a.C.). Como resultado, o Reino de Israel foi dividido em dois Estados. Jeroboão ficou como rei das províncias do Norte, e Roboão, filho de Salomão, com Jerusalém e a província da Judeia. No quinto ano de governo de Roboão, Shoshenk I, à frente de seu grande exército, invadiu a Judeia, sitiou Jerusalém e obrigou Roboão a entregar-lhe quase todos os objetos de ouro do templo. Assim, Shoshenk I levou para o Egito a maior parte do ouro que Salomão recebera da Amazônia, além de quatro grandes escudos de ouro que pesavam cinco quilos cada um. O usurpador mandou colocar no Templo de Amon, em Karnac, uma grande lápide, na qual foram narrados os pormenores dessa guerra contra a Judeia e enumeradas as peças de ouro que o vendedor trouxera para colocá-las nos templos egípcios.[26]

As relações marítimas e comerciais entre a Fenícia e o Brasil, estima Schwennhagen, perduraram por 769 anos, chegando ao fim quando a cidade de Tiro acabou destruída pelo conquistador macedônico Alexandre Magno (356-323 a.C.) em 332 a.C.[27] Para Schwennhagen,

“está largamente provado que existiu, no primeiro milênio antes da era cristã, uma época de civilização brasileira. Já conhecemos dois mil letreiros e inscrições espalhados sobre todo o território brasileiro e escritos nas pedras com instrumentos de ferro ou de bronze, ou com tintas indeléveis, quimicamente preparadas. Essas inscrições petroglíficas foram feitas por homens que sabiam escrever e usaram os alfabetos dos povos civilizados do Mar Mediterrâneo. Já provado também se acha que existiu uma navegação transatlântica entre esses povos e o continente brasileiro, durante muitos séculos antes de Cristo. A maior parte dos letreiros brasílicos são escritos com letras do alfabeto fenício e da escrita demótica do Egito. Existem também inscrições com letras da antiga escrita babilônica, chamada sumérica. Além disso, temos letreiros escritos com hieróglifos egípcios, e podemos diferenciar, em outros lugares, variantes de letras que se encontram nas inscrições da Ilha de Creta, da Cária, da Etrúria e Ibéria. Encontram-se também letras gregas e mesmo latinas.”[28]

Schwennhagen estava convencido de que os egípcios tinham vindo ao Brasil em navios fenícios no tempo do faraó Shoshenk, em torno do ano 940 a.C. Essa imigração teria recebido um novo impulso em decorrência da invasão dos núbios em 750 a.C., que anarquizou todo o Egito.

Ao visitar e examinar minuciosamente a cachoeira de Paulo Afonso (cujas quedas d’água, de até oitenta metros de altura, alimentam hoje uma série de usinas do Complexo Hidrelétrico no município baiano de Paulo Afonso),[29] no Rio São Francisco, para averiguar a lenda indígena em torno Upá Assu, uma enorme lagoa ou mar interno com uma largura média de duzentos quilômetros que se estenderia desde a dita cachoeira até Remanso (às margens do São Francisco, na microrregião de Juazeiro), Schwennhagen viu ali o “Kartum brasileiro”, uma grandiosa obra de engenharia egípcia executada em torno de 600 a.C., semelhante àquela que foi feita para desviar as águas das vastas lagoas da Núbia, transformando seus pântanos em boa terra para a agricultura e formando o majestoso Rio Nilo. Schwennhagen avaliou que essa queda d’água “artificial” constituída por

“cinco canais simétricos que despejam suas águas separadamente na mesma cavidade larga, quadrangular, de 50 metros de profundidade, cortada na pedra viva, […] deixou para o moderno Brasil uma fonte incalculável de energia mecânica, criou a admirável obra irrigatória do Vale Opalino, quer dizer, do Baixo São Francisco, o qual foi chamado por um engenheiro inglês, com muita razão, de o ‘Egito brasileiro’. Essa antiga obra secou a bacia pantanosa da ‘Grande Lagoa’, fechou com o correr do tempo a saída das águas pelo ‘Rio Real’, o qual desapareceu, apesar da procura dos comissários dos limites sergipanos-baianos, e prejudicou também o Rio Parnaíba, na sua qualidade de grande via comunicatória entre o Norte e o Centro do Brasil”. Schwennhagen encontrou também “em ambas as margens do Rio Parnaíba, os restos de uma antiga irrigação, no sistema dos trabalhos irrigatórios do Nilo. São canais artificiais que ligam o rio a lagos, formados pelas águas da enchente. No Baixo São Francisco conservou-se até hoje aquela grande obra egípcia; mas também o Vale do Parnaíba possui ainda muitos restos valorosos daquele antigo trabalho, os quais devem ser aproveitados na época atual.”[30]

Uma característica curiosa e portentosa de Paulo Afonso é ter sido a primeira usina subterrânea instalada no Brasil. Suas turbinas se encontram a mais de 80 metros abaixo do nível do Rio São Francisco.

Fonte: http://brasilianafotografica.bn.br/brasiliana/visualizar-grupo-trabalho/72

 

Fonte: https://deboaturismo.com.br/excursoes-saindo-de-salvador-e-eventos/excursoes-saindo-de-salvador-para-paulo-afonso/
Fonte: http://xingoparquehotel.com.br/passeios/9/cidade-de-paulo-afonso.html

Este texto foi retirado do Projeto Sahuré: Do Egito ao Brasil com um navio da época dos faraós, concebido por Cláudio Tsuyoshi Suenaga. Saiba mais sobre o Projeto Sahuré e junte-se a nós nesta empreitada.

Notas

[1] Schwennhagen havia sido membro da Sociedade de Geografia Comercial de Viena e sócio do jornal anti-semita de Berlim Staatsbürgerzeitung, pelo qual entrou em conflito com Hirsch Hildesheimer (1855-1910), estudioso, escritor e ativista judeu, professor desde 1880 de história judaica e geografia no Seminário Rabínico de Berlim para o judaísmo ortodoxo, que tinha sido fundada por seu pai, Esriel Hildesheimer, em 1873.

[2] No prefácio que redigiu para a segunda edição de Antiga História do Brasil reeditado pela Editora Cátedra em 1970, Moacir C. Lopes informa ter encontrado na Biblioteca Nacional um livreto intitulado Meios de melhorar a situação econômica e moral da população do interior do Amazonas, transcrição das conferências proferidas por Ludwig Schwennhagen, membro da Sociedade de Geografia Comercial de Viena, d’Áustria, e Luciano Pereira da Silva, publicista [Rio de Janeiro, tipografia do “Jornal do Comércio”, 1912]. As conferências foram feitas no salão nobre da Associação Comercial do Amazonas na noite de 15 de agosto de 1910, ou seja, desde pelo menos esta data Schwennhagen já andava percorrendo o Brasil. O próprio Schwennhagen reporta em seu livro ter viajado “no Alto Solimões e nos rios do Acre, no ano de 1910, quando não estudava ainda a antiguidade do Brasil” [Fenícios no Brasil (Antiga História do Brasil, de 1100 a.C. a 1500 a.C.), 4a ed., Rio de Janeiro, Cátedra, 1986, p.62].

[3] Moacir C. Lopes no prefácio à segunda edição de Fenícios no Brasil (Antiga História do Brasil, de 1100 a.C. a 1500 a.C.) [Rio de Janeiro, Cátedra, 1970].

[4] Como podemos ver, nesta primeira edição o seu nome foi aportuguesado para Ludovico – se com seu consentimento ou não, jamais saberemos.

[5] O exemplar que temos em mãos é a quarta edição publicada em 1986 e que traz o título de Fenícios no Brasil (Antiga História do Brasil, de 1100 a.C. a 1500 d.C.); apres. e notas de Moacir C. Lopes. 4a ed., Rio de Janeiro, Cátedra, 1986.

[6] Ibid., p.81.

[7] Descrita na Ilíada do poeta grego Homero (932 ou 928-905 ou 898 a.C.) e descoberta pelo arqueólogo alemão Heinrich Schliemann (1822-1890) nos anos 1870. A verdadeira Tróia descoberta e escavada por Schliemann fica em Hisarlik, na Anatólia, próximo à costa em que está hoje a província turca de Çanakkale, a sudoeste do Monte Ida.

[8] Schwennhagen, Ludwig. Fenícios no Brasil (Antiga História do Brasil, de 1100 a.C. a 1500 d.C.), 4a ed., Rio de Janeiro, Cátedra, 1986, p.42.

[9] Diodoro esteve no Egito entre 60 a.C. e 57 a.C., onde realizou suas primeiras pesquisas, e em 56 a.C. viajou para Roma e lá ficou por várias décadas consultando os arquivos e registros disponíveis. Sua uma única obra, a Biblioteca Histórica, também chamada de História Universal, reunia 40 livros escritos em grego, sendo que somente os livros 1-5 e 11-20 sobreviveram praticamente na íntegra; dos outros, restam apenas alguns fragmentos. Mesmo assim, é o mais extenso relato sobre a história da Grécia e de Roma que chegou até nós, desde as origens míticas até as últimas décadas da República Romana.

[10] Schwennhagen, Ludwig, op.cit., p.33.

[11] O Delta do Parnaíba é composto de 73 ilhas fluviais que ocupam uma área de 2.700 km2. A foz do rio se ramifica em cinco braços, dando origem a um sistema labiríntico de rios, igarapés, florestas de restinga e mangues.

[12] Schwennhagen, Ludwig, op.cit., p.46.

[13] Ibid., p.46, 47 e 84.

[14] Ibid., p.83.

[15] Ibid., p.37.

[16] Ibid., p.114 e 115.

[17] Ao contrário do erro de interpretação cometido pelos jesuítas que usualmente se propala, Tupã não era exatamente um deus, e sim a manifestação de um deus, seu ato divino na forma do som do trovão.

[18] A 176 quilômetros de Teresina e a 16 quilômetros de Piripiri, cidade que é a sua porta de entrada, Sete Cidades tornou-se uma unidade de conservação com o nome de Parque Nacional de Sete Cidades em 5 de junho de 1961 por decreto do então presidente Jânio Quadros. Com uma área de 6.221,48 hectares e um perímetro de 36 quilômetros (a área aberta à visitação turística possui cerca de 12 quilômetros de trilhas), seu clima é quente e tropical semi-árido, com temperatura média anual de 26º C. Situado numa faixa de transição entre os ecossistemas do cerrado e da caatinga, protege espécies da fauna e da flora encontradas nos dois ecossistemas.

[19] Schwennhagen, Ludwig, op.cit., p.103.

[20] Os romanos incorporaram as tradições dos fenícios e buscavam avidamente o que chamavam de “Insula Septem Civitatum”, que significaria Ilha das Sete Tribos ou Ilha dos Sete Povos (no latim, civitas não significa apenas cidade, mas a coletividade dos cidadãos de determinada comunidade), que acabou fixada nas línguas modernas como Ilha das Sete Cidades. A busca por este novo Éden, onde existiriam ouro e muitas outras riquezas, continuou na Idade Média, gerando lenda atrás de lenda. O primeiro documento ibérico referente às Sete Cidades é uma crônica em latim da cidade de Portus Cale (donde provém o nome Portugal, e que é a atual cidade do Porto), escrita por volta de 750 por um clérigo cristão, quando o reino ibérico dos visigodos já tinha colapsado ante a invasão muçulmana (iniciada em 711). Quando os árabes invadiram a Lusitânia, o arcebispo de Portus Cale, a fim de escapar à dominação muçulmana, deliberou partir para a terra das “Sete Civitates”, que as lendas asseguravam existir no meio do oceano ocidental. Em 734, o arcebispo, acompanhado por outros prelados e cinco mil fiéis, embarcou numa frota de vinte veleiros. Apesar da crônica narrar que a frota chegou sã e salva ao seu destino, não se teve mais notícia do arcebispo nem de sua tripulação. Com o advento da Era das Grandes Navegações, os múltiplos relatos de registros visuais fortuitos e de expedições organizadas para a posse da ilha e de suas riquezas multiplicaram-se. Um dos casos mais consistentes foi o mapa apresentado em 1473 pelo açoriano Fernão (ou Fernando) Teles ao rei Dom Afonso V de Portugal. Do roteiro constava uma longa costa, com várias ilhas, baías e rios que só podia ser a costa do Norte do Brasil, entre o Maranhão e o Ceará, com o Delta do Parnaíba. Dom Afonso V, porém, não acreditou em Fernão Teles, pelo que da carta de doação concedida não consta referência às Sete Cidades, mas apenas a uma grande ilha ocidental que se pretenderia povoar. O mapa de Teles encontra-se no setor de ilhas, na Torre do Tombo, em Portugal. Em 1485, Fernão Ulmo, genro de Teles, logo depois da morte do sogro, conseguiu nova carta de doação na qual o rei se comprometia a fornecer navios e forças militares para a conquista das ilhas e terras firmes de Sete Cidades. Esses documentos indicam que muito antes da primeira viagem de Colombo, a corte do rei Dom João II já sabia que a Ilha das Sete Cidades era um grande continente.

[21] Tal como Schwennhagen, Mahieu se maculara com o racismo. Colaboracionista do governo fantoche pró-nazista de Vichy, após a libertação da França foi um dos primeiros a se refugiar na Argentina de Juan Domingo Perón. Naturalizado argentino, dirigiu o Instituto de Ciências Humanas de Buenos Aires e tornou-se ideólogo do movimento peronista. Nos anos 50, tornou-se mentor de um grupo de jovens nacionalistas católicos e na década seguinte passou a chefiar a filial argentina do movimento neonazista espanhol CEDADE (Círculo Español de Amigos de Europa), tarefa de que se incumbiu até a sua morte em 1990. Partidário da eugenia e da limpeza racial, escreveu vários livros misturado esoterismo com teorias antropológicas inspiradas pelo racismo científico. Sustentava que a população nativa americana era de origem ariana, enquanto a latino-americana descendia dos antigos vikings, no que foi apoiado por numerosos neonazistas.

[22] Schwennhagen, Ludwig, op.cit., p.106-107.

[23] Ibid., p.42 e 43.

[24] Ibid., p.39 e 40

[25] Para centralizar o poder, Shoshenk I retirou-o da mão dos sumos-sacerdotes e extinguiu a sua linhagem,  instalando em Tebas seu filho, o faraó Osorkon I, que teria governado até a 889 a.C..

[26] Costa, Candido & Thoron, Vicomte Enrique Onffroy de. As duas Américas, 2ª ed. Ampliada, Lisboa, J. Bastos, 1900.

[27] Schwennhagen, Ludwig, op.cit., p.29 e 30.

[28] Ibid., p.27 e 28.

[29] Até 1725, não há nenhum registro nos arquivos tanto do Brasil como de Portugal que se refira a estas quedas d’água com o nome de Paulo Afonso, que eram conhecidas como Sumidouro, Cachoeira Grande e Forquilha. Em 3 de outubro de 1725, o português Paulo Viveiros Afonso recebeu uma sesmaria, nas terras da capitania de Pernambuco, cujo limite era o Rio São Francisco, no local das grandes cachoeiras. Estendendo seus limites para o outro lado do rio, Paulo Viveiros Afonso teria criado o arraial que ficou conhecido como Tapera de Paulo Afonso.

[30] Schwennhagen, Ludwig, op.cit., p.112-116.