PROJETO SAHURÉ

EXPEDIÇÃO MARÍTIMA: DO EGITO AO BRASIL COM UM NAVIO DA ÉPOCA DOS FARAÓS

Índice

1. Justificativa histórica
1.1. Barcos proto-egípcios
1.2. Barcos e navios egípcios
1.3. Expedições marítimas a Punt
1.4. Min of the Desert
1.5. Barcas solares de Rá
1.6. Egípcios no Brasil
2. Homenagem e tributo a Thor Heyerdahl
3. Objetivo
4. O navio egípcio a ser (re)construído
5. Fontes/Referências

1. Justificativa histórica

1.1. Barcos proto-egípcios

As mais antigas representações de barcos conhecidas foram encontradas no hiperárido planalto de Tassili n’Ajjer, no sudeste da Argélia, perto das fronteiras da Nigéria e da Líbia, onde as areias escaldantes do Saara devoram tudo que se move e a temperatura chega aos 53º C.
As grutas de Tassili comportam a mais importante coleção de arte rupestre do mundo, com mais de quinze mil desenhos e pinturas (correspondentes a apenas 20% do total, já que a maior parte foi destruída pela erosão) que retratam as atividades cotidianas dos habitantes locais como a caça e a pesca, os rituais religiosos, as mudanças climáticas, as migrações animais e a evolução da vida humana na orla do Saara entre doze a seis mil anos atrás.
A maior parte das cenas retratadas são de animais: leões, girafas, avestruzes, elefantes, zebras, bois, crocodilos e até hipopótamos, o que prova que esta região deserta e inóspita já foi fervilhante de vida. Não é à toa que o significado de Tassili seja “plataforma dos rios”. Durante o período Subpluvial Neolítico (aproximadamente de 8000 a 3000 a.C.), o clima do Saara era bastante aprazível. Um rio se estendia do Ocidente para a África Oriental. No lugar das dunas havia rios, lagos e pastos. Os povos nômades da África perceberam que tais cavernas ofereciam excelentes possibilidades para isolamento e instalação. Por volta de 7000 a.C., havia caçadores, dançarinos, xamãs e até marinheiros. Por volta de 2500 a.C., o clima alterou-se drasticamente, tornando-se cada vez mais quente e seco, e a savana começou a se transformar no deserto que é hoje, forçando as populações da área a se concentrarem ao longo do Vale do Nilo.
Na arte rupestre saariana há uma profusão de representações de barcos semelhantes aos que viriam a ser usados ​​pelos antigos egípcios para navegação, transporte e pesca e até para descrever as viagens para o outro mundo.
Uma pintura situada entre 10000 e 6000 a.C., mostra um par de arqueiros dentro de um barco de estilo tipicamente egípcio, com cabeças de animais nas duas extremidades arqueadas e elevadas em forma de lua crescente. Uma outra mostra dois barcos com a mesma curvatura, com duas cabinas altas e redondas no convés, indicando que eram barcos de grande porte. Um petróglifo no alto de um penhasco em Wadi Barramiya, no deserto oriental, mostra dois barcos, cada qual com um tripulante cujos braços se encontram flexionados da mesma maneira, como se estivessem a manobrar remos. Já um petróglifo localizado em Wadi Hammamat, no deserto oriental, sugere claramente um sentido religioso, com a embarcação representando talvez uma jornada espiritual para o outro mundo. Curiosamente, muitos dos ocupantes dos barcos nas pinturas rupestres do deserto oriental aparecem na mesma posição, com os braços erguidos e flexionados formando um círculo em torno de suas cabeças, posição também encontrada em estátuas de divindades pré-históricas e em pinturas rupestres de várias outras partes do globo.
Os habitantes do Tassili também representavam deuses com cabeças de animais, tal como no Egito Antigo mais tarde, e alguns de seus rebanhos aparecem com o disco solar entre os chifres, como os touros Ápis.
A arte rupestre de Tassili n’Ajjer indica, portanto, uma forte conexão de seus autores com os futuros construtores das pirâmides, ou seja, tudo indica que ali teria florescido a cultura – ou pelo menos parte dela – que deu origem à civilização do Vale do Nilo.

1.2. Barcos e navios egípcios

Os povos que, vindos do sudeste do Saara ou do Oriente Próximo chegaram ao Vale do Nilo, encontraram um verdadeiro oásis e compreenderam que não teriam necessidade de seguir caminhando através do deserto. Estabeleceram-se ali e cultivaram a terra. Aos poucos foram se mesclando às tribos locais africanas e a outros migrantes, formando o povo egípcio. Esse povo vivia em vários reinos na região situada entre a primeira catarata do Nilo (Assuã, no sul do Egito, a 950 quilômetros do Cairo) e o Delta do Nilo, mas acabou unido pelo próprio Nilo e organizado em dois grandes grupos: o Alto e o Baixo Egito. Em 2850 a.C., o faraó Menés ou Narmer (da Época Tinita), unificou o Egito e fundou a Primeira Dinastia, tornando-se o primeiro faraó do Egito unificado.
A mais antiga civilização cultural e cientificamente organizada encontrou junto ao Nilo condições de desenvolvimento até atingir o apogeu durante o Império Novo (1550-1070 a.C.), uma era cosmopolita durante a qual, graças às campanhas militares do faraó Tutmés III (sexto faraó da 18ª Dinastia que reinou entre 1479 e 1425 a.C.), o Egito dominou uma área que se estendia desde a Núbia, entre a quarta e quinta cataratas do Nilo, até o Rio Eufrates, exercendo total hegemonia entre as demais existentes no Médio Oriente, após o que entrou em declínio, sendo conquistado por uma sucessão de potências. Com a morte de Ramsés XI em 1070 a.C., Nesbanebdjed ou Smendes (forma grega do nome, relacionado com o culto do deus-carneiro em Mendes, cidade próxima de Tânis), fundador da 21ª Dinastia, assumiu a autoridade sobre o norte do Egito (no sul governavam os sumo-sacerdotes de Amon) e transferiu a capital de Pi-Ramsés para Tânis, na região oriental do Delta do Nilo, reinando até 1043 a.C., no começo do Terceiro Período Intermediário. Por volta de 730 a.C., líbios vindos do oeste fragmentaram a unidade política do país. O governo dos faraós terminou oficialmente em 31 a.C., quando o Egito caiu sob o domínio do Império Romano e se tornou uma província romana, após a derrota da rainha Cleópatra VII na Batalha de Ácio. Nesta altura, a navegação pelo Mediterrâneo já era à vela/remo e a sociedade enfraquecida por numerosas intrigas políticas negociava em precárias condições e sem sucesso uma forma digna de manter o Egito livre. Entre 30 a.C. e 640 da Era Cristã, o Egito foi dominado sucessivamente pelos romanos e muçulmanos (mamelucos e turcos otomanos), tendo estes mantido sua hegemonia até os dias atuais. Neste intervalo, cabe lembrar a dominação francesa de Napoleão entre 1798 e 1801, a conclusão do Canal de Suez em 1869, e a dominação inglesa entre 1882 e 1952, quando foi proclamada a República.
É imprescindível conhecermos um pouco do Rio Nilo (chamado pelos antigos egípcios de itéru, ou “grande rio”) para entendermos seus barcos, os mais antigos construídos por uma civilização organizada. O poderio da civilização egípcia deveu-se em grande parte às riquezas proporcionadas pelo Vale do Nilo. O historiador grego Heródoto (485-420 a.C.), depois de viajar por esse país, cunhou a emblemática frase “Aegyptos dorón esti tou Nilo” (“O Egito é uma dádiva do Nilo”) e descreveu em detalhes a construção de barcos egípcios conforme testemunhou in loco. Para os antigos egípcios, o Nilo era uma verdadeira bênção dos deuses, sendo considerado sagrado e adorado como um deus, ao qual dedicavam hinos e orações. Reconhecido como o maior rio do mundo, o Nilo nasce em Jinja (Uganda), na borda norte do Lago Vitória, no centro do continente africano, e percorre 6.695 quilômetros até a foz. Após cruzar o Egito do sul para o norte, projeta suas águas no Mar Mediterrâneo. Sua profundidade média oscila entre 8 e 12 metros. Sua largura é normalmente menor do que 500 metros. Na altura do Cairo, abre-se em leque formando um extenso delta de 150 quilômetros de extensão com centenas de ilhas, canais naturais e artificiais de dois braços volumosos em sua foz que se entende por longas distâncias desde Alexandria, no Mediterrâneo, até Port Said, no Canal de Suez. A leste do Nilo encontra-se o Deserto Oriental Africano (comumente conhecido como Deserto Oriental), que se estende até o Mar Vermelho, e a oeste o Deserto da Líbia (comumente conhecido como Deserto Ocidental), onde existem vários oásis dos quais se destacam os de Siuá (a 560 quilômetros a oeste do Cairo e a 300 quilômetros ao sul do porto de Marsa Matruh), Kharga (200 quilômetros a oeste do Vale do Nilo), Farafra (a 300 quilômetros do Vale do Nilo, com seu Deserto Branco, conhecido por Sahara el Beyda, a 45 quilômetros a norte do oásis), Dakhla (a 350 quilômetros do Nilo) e Bahariya (a 360 quilômetros do Cairo).
O Nilo inundava entre julho a setembro, quando as geleiras da Etiópia derretiam e faziam o Nilo transbordar. As enchentes e as chuvas sazonais depositavam húmus nas margens favorecendo a agricultura e pecuária; também fornecia água fresca, peixes e aves aquáticas, além de servir para o transporte e comércio. Entre outubro e novembro, as águas baixavam e o solo começava a ser tratado e semeado. Entre janeiro e abril faziam a colheita. Como o nível do rio era inconstante, os egípcios desenvolveram diques, barragens e canais de água para melhor aproveitarem as águas do rio, assim como o “nilômetro”, uma construção usada para medir as enchentes. Durante o período das enchentes os cidadãos eram deslocados para as cidades para trabalharem em outras tarefas.
A inundação previsível e a irrigação controlada do vale fértil produziam colheitas excedentárias, o que propiciou o desenvolvimento social e cultural. Com recursos excedentários, o governo patrocinou a exploração mineral do vale e nas regiões do deserto ao redor, o desenvolvimento inicial de um sistema de escrita independente, a organização de construções coletivas e projetos de agricultura, o comércio com regiões vizinhas e campanhas militares para derrotar os inimigos estrangeiros e afirmar o domínio egípcio. Motivar e organizar essas atividades foi uma tarefa burocrática dos escribas de elite, dos líderes religiosos e dos administradores sob o controle de um faraó que garantiu a cooperação e a unidade do povo egípcio no âmbito de um elaborado sistema de crenças religiosas. As muitas realizações dos antigos egípcios incluem o desenvolvimento de técnicas de extração mineira, topografia e construção que permitiram a edificação das monumentais pirâmides, templos e obeliscos; um sistema de matemática, geometria e astronomia, um sistema prático e eficaz de medicina, sistemas de irrigação e técnicas de produção agrícola, os primeiros navios conhecidos, faiança e tecnologia com vidro, novas formas de literatura e o mais antigo tratado de paz conhecido, o Tratado Egípcio-Hitita, usualmente designado por Tratado de Kadesh (ou Qadesh, que marcou o fim oficial das negociações entre as duas grandes potências do Médio Oriente àquela altura, que se seguiram aos conflitos armados de grandes proporções que culminaram na célebre batalha de Kadesh, travada dezesseis anos antes), celebrado entre o faraó egípcio Ramsés II (o terceiro faraó da 19ª Dinastia que reinou entre 1279 e 1213 a.C., durante o Império Novo) e o rei hitita Hatusil III por volta de 1259 a.C.
Para um povo que vivia numa terra banhada em toda a sua extensão por um rio do porte do Nilo, nada mais natural que o barco fosse o principal meio de transporte. Carros com rodas seriam inúteis nas areias do deserto e na lama do vale do rio. O meio mais prático e rápido de viajar e transportar cargas pesadas (de grãos e gado vivo a obeliscos de granito) eram embarcações de diversos tamanhos que possuíam, no geral, remos presos à proa. Pedras para as pirâmides com até 300 toneladas desceram 1.000 quilômetros ao longo do Nilo, a remo. Ainda não se sabe exatamente de que modo os egípcios transportavam até os barcos e nele depositavam os obeliscos monolíticos cortados das pedreiras do Alto Egito e esculpidos em granito numa peça inteiriça de 30 a 40 metros e pesando entre 100 e 300 toneladas. Várias embarcações e pontilhões certamente eram requeridos para o deslocamento, pois as pedreiras ficavam no lado oriental, enquanto os templos no lado ocidental. Pedras de construção de alta qualidade eram abundantes no Egito; os antigos egípcios extraíram calcário ao longo do Vale do Nilo, granito de Assuã e basalto e arenito dos barrancos do Deserto Oriental.
Os egípcios, contudo, não dispunham de madeira apropriada para construir embarcações. Estima-se que as primeiras, construídas há pelo menos seis mil anos, foram feitas com hastes de junco ou papiro. O barco em papiro era largo no meio e tinha a forma de foice, com uma popa que se podia elevar e se mantinha em tensão através de um cabo ligado ao casco. O barqueiro o deslocava com uma vara que apoiava no fundo do rio. Com cordas e caules de papiro eram construídas canoas ligeiras, empregadas para perseguir o crocodilo e o hipopótamo em meio à vegetação aquática, ou para atingir os locais onde as aves se agrupavam em meio ao verde, ou ainda na busca dos cardumes dos peixes mais apreciados. Madeira de cedro importada do Líbano era reservada para a construção de barcos reais e navios de grande porte. No geral, as embarcações, fossem de pequeno ou grande porte, não possuíam quilha nem reforços, no que eram muito leves, uma vez que a calmaria do Nilo não os exigia.
Na cultura Maadiana (ou Maadi-Buto, entre 3800-3200 a.C., contemporânea de Naqada I-II), dentro do período Pré-Dinástico (4000-3000 a.C.), compreendido entre o Neolítico Antigo e o início da Monarquia Faraônica constituída pelo rei Menés, verificou-se o surgimento dos primeiros cemitérios bem definidos, assim como de um intenso comércio com os povos vizinhos para obtenção de mercadorias raras e exóticas não encontradas no Egito. Importavam produtos do Oriente Médio (madeira de cedro, nódulos de sílex, cerâmica, ferramentas de pedra, resinas, óleos, vinho, cobre e basalto), Alto Egito, em particular da Núbia (ouro, incenso, marfim, pentes, paletas cosméticas, cabeças de clava, plumas de avestruz e peles de leopardo) e Deserto Oriental (malaquita, manganês, cornalina, conchas e pérolas). Também mantinham comércio com a Palestina, evidenciado por jarros de óleos de estilo palestino encontrados nas sepulturas dos faraós da Primeira Dinastia. Uma colônia egípcia foi fundada no sul de Canaã antes mesmo da Primeira Dinastia. Na época de Narmer foi produzida cerâmica egípcia em Canaã, que era exportada para o Egito. Houve também comércio com a Anatólia para adquirir estanho e para o fornecimento suplementar de cobre, dois metais necessários para a fabricação do bronze. Os egípcios valorizavam a pedra azul lápis-lazúli, que tinha de ser importada do Afeganistão. Os parceiros do Egito no comércio mediterrânico também incluíram a Creta e a Grécia, que forneciam, entre outras mercadorias, o azeite. Em troca de suas importações de luxo e de matérias-primas, o Egito exportava principalmente grãos, ouro, linho e papiro, além de outros produtos acabados, incluindo objetos de vidro e pedra. Para o Oriente, exportavam cerâmica, conchas e cereais, e para o Alto Egito, cobre, basalto e sílex.
Grande parte desse comércio certamente tinha de ser feito por via fluvial e marítima. O Museu do Louvre, em Paris, exibe a gravura de uma antiga embarcação egípcia, um barco a vela desenhado em um jarro da cultura Gerzeana ou Naqada II (também conhecida por Garzeanze A, correspondente a uma das etapas da fase pré-dinástica da história do Egito), datado de aproximadamente 4000-3500 a.C.
Os primeiros barcos egípcios a vela construídos com tábuas unidas com cordas e usados no Rio Nilo datam de 3000 a.C., ou ainda antes. Como o Nilo corre do sul para o norte, mas o vento sopra geralmente do norte para o sul, se eles queriam ir para o sul bastava içar as velas. Se queriam navegar para o norte, diminuíam a ação das velas e utilizavam a correnteza do rio.
Os faraós logo atinaram para a necessidade de uma marinha forte. Por volta do ano 2800 a.C. foram contruídas, muito provavelmente, as primeiras grandes embarcações em madeira. Feitas com tábuas muito leves, não exigiam quilha nem costado de reforço. Com ferramentas de pedra, as pranchas de madeira eram cortadas e moldadas e, depois, amarradas (“costuradas”) com cordas ou firmadas juntas com cavilhas de madeira. Também sabiam como prender as tábuas juntas com peças encaixáveis (caixa e espiga). Por fim eram calafetadas (“seladas”) com papiro (junco) ou breu para que a água não penetrasse. Basicamente era assim que também se fabricavam barcos, canoas e bateiras (pequena embarcação sem quilha) que eram usados para a circulação por todo o país, para o transporte das colheitas e para as visitas de pereginação aos principais santuários dos deuses egípcios.
No Império Antigo ou Antigo Reino (2686-2181 a.C.), com a capital em Mênfis, iniciado com a unificação dos dois reinos empreendida pelo faraó Menés, houve grandes progressos na irrigação e na agricultura, além da construção de grandes pirâmides e a organização de diversas expedições para exploração mineral nas minas do Sinai (utilizado como rota de comunicação para o corredor sírio-palestino, que a rigor seria a faixa de terra litorânea que liga o Egito à Mesopotâmia) e Mar Vermelho, assim como campanhas militares contra núbios e líbios.
A Pedra de Palermo informa que em 2600 a.C., Snefru, o primeiro faraó da Quarta Dinastia (de 2613 a 2494 a.C., a segunda das quatro que formaram o Antigo Império, durante o qual as grandes pirâmides de Gizé foram construídas) que reinou entre 2630 a.C. e 2609 a.C. ou 2613 a.C. e 2589 a.C., construiu uma frota de grandes navios e enviou quarenta deles para Biblos, na Fenícia (atual Líbano), chamada pelos antigos egípcios de Kypt, de onde regressaram com rico carregamento do famoso cedro.
Um dos filhos de Snefru e Hetep-heres, sua meia-irmã, foi Khufu (ou Quéops, cujo reinado se estendeu de 2551 a 2528 a.C.), tido como construtor da Grande Pirâmide de Guiza ou Gizé. Em uma mastaba a leste de Gizé, sobre o sarcófago do príncipe Minkhaf I (filho de Khufu, meio-irmão de Djedefre e irmão mais velho de Khafra), há inscrições de oferendas e, entre elas, uma lista de barcos.

1.3. Expedições marítimas a Punt

Durante o reinado de Sahuré (“aquele que está próximo de Rá”), o segundo faraó da Quinta Dinastia que reinou entre cerca de 2487 e 2475 a.C. e estabeleceu a primeira frota marinha egípcia, manteve-se uma intensa atividade comercial com a região do Oriente Próximo (Líbano, Palestina e Mesopotâmia). A Pedra de Palermo menciona expedições ao Sinai e à mítica terra ou reino de Punt (situada provavelmente no Chifre da África, designação da região Nordeste que inclui a Somália, a Etiópia, o Djibouti e a Eritreia, com uma área de aproximadamente 2 milhões de km²), de onde se trazia ouro, malaquita, electrum (uma liga natural de ouro e prata), mirra, resinas aromáticas, ébano, marfim e animais silvestres como macacos e babuínos. A expedição a Punt teria voltado com 80 mil medidas de ntyw, ou mirra, 23.030 duelas (tábua encurvada com que se forma o corpo de tonéis, barris, etc.) em madeira (preciosíssima no deserto) e 6 mil medidas de electrum. O que a Pedra de Palermo não informa é a localização de Punt. O nome de Sahuré foi encontrado estampado numa pequena peça de ouro numa cadeira libanesa. Também foram encontrados cartuchos da Quinta Dinastia em recipientes libaneses de pedra. Cenas retratadas no templo de Sahuré mostram ursos sírios.
Sankhkare Mentuhotep III (ou Montuhotep III), faraó da 11ª Dinastia que reinou de 2010 a 1998 a.C., enviou uma expedição a Punt durante o oitavo ano de seu reinado. Uma inscrição em Wadi Hamamat descreve a expedição como sendo composta por oito mil homens sob o comando do oficial Hennu (ou Henenu). Ao saírem de Koptos (ou Qift, cidade a cerca de 43 quilômetros ao norte de Luxor, na margem leste do Rio Nilo, que já existia desde o ano 4000 a. C. e adquiriu grande importância por ser o enclave estratégico das rotas de caravanas que interligavam o Vale do Nilo ao Mar Vermelho e nos quais se veneravam os deuses Min, Hórus e Ísis) em direção ao Mar Vermelho, eles cavaram doze poços para uso em futuras expedições e afugentaram da região os rebeldes. Voltaram de Punt com incenso, goma e perfumes.
Senuseret III (ou Sesóstris III), quinto faraó da 12ª Dinastia que reinou de 1878 a.C. a 1842 a.C., marcando o apogeu do Império Médio, construiu um “Canal de Suez” antigo, ligando o Rio Nilo ao Mar Vermelho para a realização de trocas diretas com Punt.
Aventura ainda mais ousada a Punt aconteceu durante o reinado de Hatshepsut (que reinou durante o Império Novo por cerca de 22 anos, no começo do século XV a.C.), a primeira mulher a governar o Egito. Quinta soberana da 18ª Dinastia (estabelecida em 1550 a.C. após a expulsão dos hicsos – povos de origem asiática que dominaram o Egito por quase duzentos anos – e que se estendeu até 1295 a.C.) e esposa do faraó Tutmés II ou Tutmósis II (nascido por volta de 1510 a.C., e que reinou de 1493 ou 1492 a 1479 a.C.), seu meio-irmão, com quem teve duas filhas (as princesas Neferure e Neferubiti), Hatshepsut mandou preparar uma alentada expedição comercial pelo Mar Vermelho até Punt em busca de suas cobiçadas riquezas.
O périplo surge detalhado num baixo-relevo do palácio de Hatshepsut em Deir el-Bahari, um complexo de sepulturas e templos mortuários na margem ocidental do Nilo, no lado oposto à cidade de Luxor, em frente à antiga Tebas. As cenas gravadas na pedra mostram de forma pormenorizada a construção de cinco grandes navios e a organização da expedição que partiu do Nilo, adentrou por um canal, hoje desaparecido, que levava diretamente de um braço do Nilo até a saída do Suez, no Mar Vermelho, e desceu para o sul, costeando as terras africanas. Guiando-se pelos antigos mapas, os cinco navios seguiram por uma embocadura do rio que conduzia à fabulosa terra de Punt, cuja soberana foi retratada como sendo bastante obesa e as casas como tendo a forma de colmeia e estando assentadas sobre palafitas sombreadas por palmeiras e, provavelmente, árvores de mirra. O regresso se fez meses depois, carregados de ouro, marfim, ébano, incenso, mirra, resinas e especiarias, além de animais como leopardos, cães e “macacos com cabeça de cão” (babuínos). A cena final mostra dignitários de Punt apresentando suas “maravilhas” à rainha Hatshepsut.
A última expedição conhecida a Punt ocorreu sob Ramsés III, o segundo faraó (entre 1194 e 1163 a.C.) da 20ª Dinastia e o último grande faraó do Império Novo a exercer uma grande autoridade sobre o Egito. Um registro em papiro informa que “foram construídos grandes navios de transporte carregados com bens ilimitados do Egito. Eles chegaram à terra de Punt, não afetados por (qualquer) infortúnio, seguros e respeitados”, e que assim retornaram. Mas de onde exatamente? O papiro não diz e apenas deixa claro que a expedição de Ramsés III chegou a Punt através do Mar Vermelho.
A localização exata de Punt é incerta e controversa. Os textos sagrados e baixos-relevos do palácio de Hatshepsut em Deir el-Bahari que reproduzem animais como girafas e macacos, além de choças, parecem indicar alguma zona na região da África Oriental que corresponderia ao que é hoje a Somália, Sudão, Eritéria, Etiópia, sul da Núbia ou até mesmo o Omã. Análises conjuntas recentes de dados arqueológicos, zoológicos, botânicos e minerais convergem para o Delta do Gash, na zona oriental do sul do Sudão. Há ainda a possibilidade de que Punt fosse a designação não propriamente de um Estado ou de uma cidade, mas de uma região extensa que abrangeria zonas da Península Arábica banhadas pelo Mar Vermelho como o próprio Iêmen, onde cresciam as plantas de mirra tão apreciadas pelos egípcios.
Os primeiros debates acerca da localização de Punt se iniciaram em 1858, quando o recém fundado Supreme Council of Antiquities (Conselho Supremo de Antiguidades), divisão do Ministério da Cultura do Egito, começou a escavar os grandes templos em torno de Tebas. Baseado em textos hieroglíficos recém descobertos que descreviam Punt como fonte de substâncias aromáticas situada a leste do Egito, o egiptólogo alemão Heinrich Karl Brugsch (1827-1894) sugeriu pela primeira vez que Punt se localizava na Península Arábica, afinal de contas os próprios gregos atribuíam os “perfumes da Arábia” como sendo originários de uma terra a leste do Egito. O célebre egiptólogo francês François Auguste Ferdinand Mariette (1821-1881), fundador do Serviço de Antiguidades do Egito (do qual foi diretor de 1858 a 1880) e do Museu de Bulak, antecessor do Museu Egípcio do Cairo, derrubou essa suposição com duas descobertas. Uma delas era uma lista hieroglífica que o faraó Tutmés III havia deixado no Templo de Karnak, em Tebas, que situava Punt ao sul do Egito. A outra era um baixo-relevo de Hatshepsut, o qual, entre outras evidências, apontava para a África, mostrando claramente animais africanos como sendo nativos de Punt, incluindo a girafa e o rinoceronte, nenhum deles encontrado na Arábia. Mariette supôs então que Punt ficava na costa da Somália, também conhecida por seus aromas, incluindo os lendários incenso e mirra. A reforçar essa assunção, está o fato de que a ponta do Chifre da África, uma região semi-autônoma dentro da moderna Somália, atende pelo nome de Puntland.
A hipótese de Mariette não sofreu contestações por mais de um século, até que em 1968 o etnólogo alemão Rolf Herzog (1919-2006), que presidiu o Institut für Ethnologie Freiburg, pôs a localização de Punt em dúvida mais uma vez. Com base em um estudo detalhado da flora e fauna e outros elementos de Punt representados no baixo-relevo de Hatshepsut, Herzog trouxe o reino mítico para bem mais perto, especificamente para o sul do Egito, entre o Atbara (rio do nordeste da África que nasce no noroeste da Etiópia, 50 quilômetros ao norte do lago Tana, e deságua no Nilo, na cidade de Atbara, no Sudão, sendo um três rios que se encontram e formam o Nilo e o último afluente do Nilo antes que este desague no Mediterrâneo) e a confluência do Nilo. Punt, para Herzog, teria sido atingido por terra e pelo rio, mas não pelo mar.
Em 1971, Kenneth Anderson Kitchen (1932-), egiptólogo e especialista britânico em estudos orientais e clássicos da Universidade de Liverpool, derrubou a teoria da incapacidade egípcia de navegar para longe de Herzog com a simples observação de que os peixes e outras espécies marinhas (como a lagosta e a lula) retratados pelos escultores de Hatshepsut sob os navios de Punt, são indubitavelmente espécies que vivem no Mar Vermelho. Kitchen, que passou quatro décadas pesquisando e escrevendo sobre Punt, estabeleceu o que é até hoje a posição mais aceita sobre a localização de Punt. De acordo com Kitchen, Punt situava-se, em termos geográficos atuais, em uma região a leste do Sudão e ao norte da Etiópia que se estendia desde o Mar Vermelho até o Rio Nilo.
O egiptólogo francês Dmitri Meeks, da Université Paul Valéry, avançou e expandiu a localização de Punt em 2003 ao situá-la ao longo de toda a costa ocidental da Península Arábica, desde o Golfo de Aqaba, no extremo sul da Jordânia, ao Iêmen. Meeks diz que “quando se leva em conta as referências antigas sobre Punt, a imagem se torna clara. Punt situa-se em relação ao Vale do Nilo, tanto para o norte, em contato com os países do Oriente Próximo da área do Mediterrâneo, como para o leste ou sudeste, enquanto que suas mais distantes fronteiras estão para o sul. Só a Península Arábica satisfaz todas essas indicações.”

1.4. Min of the Desert

Em 2008, a arqueóloga norte-americana especialista em arqueologia náutica e navios egípcios Cheryl Ward, diretora do Centro de Arqueologia e Antropologia e professora associada do Departamento de História da Coastal Carolina University, à frente de uma equipe internacional de especialistas e com a imprescindível ajuda dos experientes arquitetos navais australianos Tom Vosmer e Patrick Couser, começou a concretizar o seu projeto de reconstruir um dos navios de Hatshepsut com as mesmas técnicas utilizadas nos recuados tempos e testá-lo em alto-mar. Para tanto, Ward e sua equipe se valerem das representações em baixo-relevo dos navios de Hatshepsut no monumento funerário de Deir el-Bahari, que de tão finamente detalhadas forneceram os elementos necessários para a sua fiel reconstituição, bem como das últimas e oportunas descobertas feitas nas escavações de Mersa Gawasis, jazida na costa do Mar Vermelho, 26 quilômetros ao sul do atual Porto de Safaga, uma cidade portuária fundada entre 282 e 268 a.C., originalmente chamada Philotera pelo faraó greco-egípcio Ptolomeu II, que nomeou a cidade em homenagem à sua falecida irmã. Em Mersa Gawasis, arqueólogos liderados por Kathryn A. Bard, da Boston University, e Rodolfo Fattovich, professor de Arqueologia e Antiguidade Etíope no Instituto Universitario Orientale, de Nápoles, desenterraram evidências reais do comércio com Punt: um estaleiro onde os contemporâneos de Hatshepsut equiparam um navio depois de o terem transportado pelo Nilo até o mar, parcialmente desmontado, através do deserto, além de grandes tábuas e pranchas de madeira, enxárcias (conjunto dos ovéns, os cabos que aguentam a mastreação para um e outro bordo), redes, âncoras de pedra e outros artefatos relacionados com a expedição náutica. Eles também trouxeram à luz produtos reais provavelmente trazidos de Punt, incluindo ébano e obsidiana (vidro vulcânico), nenhum deles nativos do Egito, incluindo caixas de carga com um texto hieroglífico que descreve o conteúdo como as “maravilhas de Punt”.
Os arqueólogos obcecados por Punt supõem que os navios direcionados àquele reino eram desmontados e levados 160 quilômetros através do deserto de Qift (ou Koptos), a 43 quilômetros ao norte de Luxor, na margem leste do Nilo, onde este rio mais se aproxima do Mar Vermelho. Eram então remontados no antigo porto do Mar Vermelho de Saww (hoje Mersa Gawasis, sendo Mersa = Porta, e Gawasis = Marinheiro) e daí partiam para Punt. Ao regressarem, descarregavam os navios em Mersa Gawasis e transportavam a carga em caravanas de burros de volta para o Nilo, onde os embarcavam em outros navios rumo ao sul, para a capital Tebas. Algumas inscrições apontam ainda que uma outra opção para chegar a Punt era viajar para o sul ao longo do Nilo, passando pela Núbia e mais além. Alguns estudiosos acreditam que os egípcios optaram por esta via durante o Antigo Reino, quando povos amigáveis ​​governavam a Núbia, e apenas optaram por cruzar o deserto quando no início do Império Novo, por volta de 1550 a.C., reinos hostis bloquearam a rota terrestre para o sul do Mar Vermelho.
A reconstrução do navio faraônico batizado de Min of the Desert (Min ou Menu era o deus da fertilidade e da vegetação, culto que remonta ao período Pré-Dinástico, no Quarto Milênio a.C.), financiado pela Sombrero & Co., decorreu entre 2 de abril e 15 de outubro de 2008, nos modernos estaleiros Hamdi Lahma & Brothers Shipyard, em Rashid, Rosetta, perto de Alexandria, no Delta do Nilo. O navio de 20,30 metros de comprimento, 4,90 metros de boca, 1,20 metros de calado, mastro único implantado a meia nau, vela retangular de 14 metros x 5 metros confeccionada em algodão e 30 toneladas de deslocamento, foi construído com madeira de pinheiros Douglas, árvores que apresentam – mormente no que tange a sua densidade – algumas similitudes com os cedros utilizados no tempo dos faraós. A equipe montou as pranchas do casco através de junções de cavilhas e encaixes, sem pregos nem armações, como um puzzle.
O sistema de propulsão mais utilizado para este tipo de embarcações era à vela e remos, mas quando o vento ou a força da corrente não o permitiam, arrastavam os navios atados a cordas que puxavam pelos caminhos de sirga paralelos à margem. Em qualquer dos casos, tratavam-se de barcos sem quilha. A grande interrogação, pois, para Ward e a sua equipe, era saber se os egípcios tinham de fato conseguido chegar a países longínquos e atravessar o Mar Vermelho contra ventos e marés em embarcações como o Min, ou se nesse tipo de navio era apenas possível navegar a favor do vento e das correntes; neste caso, os marinheiros de Hatshepsut ter-se-iam limitado a contornar a costa em direção ao sul, talvez até ao litoral sudanês, no máximo.
A resposta começou a surgir nos primeiros testes de navegabilidade e nas primeiras viagens em dezembro de 2008 e finalmente no dia 17 de janeiro de 2009, quando o Min do Deserto cortou as amarras no pequeno Porto de Safaga, na costa do Mar Vermelho, a 26 quilômetros ao norte de Mersa Gawasis e a 53 quilômetros ao sul de Hurghada. O barco de 20 metros de comprimento sulcou o Mar Vermelho com uma tripulação de 24 pessoas, entre marinheiros e estudiosos de várias nacionalidades. Cavalgando as ondas a uma velocidade de nove nós (16,6 km/h ou 4,6 m/s), graças ao impulso das velas, cobriu uma extensão de 278 quilômetros e demonstrou que os antigos egípcios poderiam prefeitamente ter feito longas viagens e chegar até ao Iêmen, à Arábia ou à Somália em busca das matérias-primas que escasseavam no seu país.

1.5. Barcas solares de Rá

A importância dos barcos na vida cotidiana egípcia é refletida no papel que desempenharam na mitologia e na religião. Os egípcios acreditavam que o deus sol Ré (Rá) deslocava-se numa barca pelo céu, “a barca de milhões de anos”, e que o rei ao morrer unia-se a Rá, velejando em seu barco nas águas do mundo subterrâneo. Os barcos sagrados de Rá, conhecidos como barcas solares, eram chamados de Mandjet e Mesektet. O Mandjet era o barco que Rá utilizava para atravessar o céu e o Mesektet era o barco que levava Rá até o submundo. O barco solar que viajava ao submundo levando o morto em seu caminho na busca da vida eterna é constantemente retratado no Livro dos Mortos (cujo nome original em egípcio era Livro de Sair Para a Luz), redigido na época do Império Novo, mas que recolheu textos bem mais antigos do Livro das Pirâmides (Império Antigo) e do Livro dos Sarcófagos (Império Médio).
Pelo papel crucial desempenhado por Rá, no decorrer dos séculos todos os deuses importantes foram associados a ele – Amon, em Tebas, Ptah, em Memphis, e Aton, em Heliópolis, juntaram a seus nomes o de Rá.
Para os egípcios, todas as noites quando o Sol se punha, Rá iniciava mais uma decisiva batalha contra a serpente do caos, da destruição e do mal Apep ou Apophis (Apófis), inimigo de Rá. Apófis surge como uma serpente gigantesca de 30 metros de comprimento, servida por hordas de demônios, a maioria possuindo qualidades de serpentes de fogo. Segundo o Amduat (“O livro de como é no submundo”), texto funerário do Império Novo que apareceu completo pela primeira vez na tumba de Tutmés III, no Vale dos Reis, o submundo era dividido em 12 horas que Rá precisava enfrentar para no outro dia reaparecer novamente no horizonte, saindo vitorioso de mais uma batalha e trazendo a luz que os humanos tanto necessitavam. Nos túmulos do Vale dos Reis, muitas imagens evocam esta viagem noturna. O Amduat dava detalhes do que o deus iria encontrar durante a jornada de 12 horas no Duat, um lugar de trevas onde existiam diversos demônios, conhecido também como o submundo. Assim como Rá, os faraós começaram a associar o Amduat com a sua própria vida e o livro servia para que o faraó morto soubesse os nomes dos deuses bons e ruins que iria encontrar na passagem junto com Rá em seu barco. Os antigos egípcios acreditavam que modelos de barcos em miniatura ajudariam o falecido a ultrapassar os obstáculos da vida após a morte. Alguns faraós foram enterrados com barcos de tamanho natural. O mais famoso e elaborado destes barcos, dotado de proa e popa esculpidas e uma cobertura, é o que pertenceu ao faraó Quéops.
Quando em 1954 encontrou-se uma estrutura em pedra durante a limpeza de rotina próxima a Grande Pirâmide, pensou-se inicialmente que se tratava de um muro que cercaria o edifício. Após uma escavação mais profunda – ou remoção sistemática – realizada pelo arqueólogo egípcio Kamal El Mallakh, foram encontrados dois fossos cujas paredes eram feitas de pedra calcária e guardavam em seu interior as peças desmontadas de um barco feito de madeira de cedro. Para o trabalho de montagem foi contratado o restaurador egípcio Hag Ahmed Youssef Moustafa que, apesar da sua experiência de vinte anos trabalhando na restauração de tumbas tebanas, acreditava que seus conhecimentos e os conhecimentos dos cientistas eram limitados quanto à montagem dos antigos barcos. Assim, durante três meses visitou artesões locais e fez modelos de navios em escala treinando para a tarefa que o esperava no platô de Gizé. O barco escolhido para ser montado possuía 1.224 peças que foram cuidadosamente transportadas uma a uma para um galpão próximo ao local para a sua restauração. O tratamento de preservação de cada peça variava. As esteiras de junco e as cordas de linho, por exemplo, eram tratadas em resinas para que não se esfarelassem. Ao todo, foram treze camadas de madeira, todas elas fotografadas e catalogadas.
Como a técnica dos egípcios faraônicos havia se perdido, Moustafa não sabia quais as disposições das peças para montá-las, mas tentou segui-las de acordo com a ordem que foram postas dentro do fosso. A equipe de Moustafa precisou iniciar e reiniciar o processo de montagem quatro vezes, até que um dos ajudantes notasse que as peças que se encaixavam perfeitamente possuíam símbolos comuns que pareciam servir como guias. Apesar da ajuda antiga, os remos não possuíam indicações e foram postos onde os restauradores supunham que seria o seu local original. Ao final de nada menos do que dezesseis anos de trabalho, a embarcação de 43,6 metros de comprimento, 58 centímetros de largura, com uma proa que se eleva a 5 metros e uma popa a 7 metros, estava finalmente remontada.
O seu design, estreito e comprido, é de característica papiriforme, em imitação ao aspecto dos pequenos barcos de papiro. Como era de praxe, os antigos construtores não haviam recorrido a nenhum tipo de metal para a sua fixação. Tudo era unido por meio de encaixes e cordas de linho, o que atestava a maestria e engenhosidade da construção naval faraônica. O barco era perfeitamente utilizável não apenas em termos rituais, indicando que poderia ter outrora navegado, ainda mais devido ao desgaste por fricção das cordas com a madeira que teria sido causada muito possivelmente pelo inchaço desta última ao ficar em contato com a água. O barco pode ter transportado o corpo de Khufu de Mênfis para Gizé e, no final, como uma relíquia sagrada, sido guardado próximo à sua pirâmide. Hoje o barco está exposto em um museu construído em cima do fosso onde permaneceu guardado por séculos.
Um segundo poço, encontrado no mesmo ano, também contém uma embarcação, mas permaneceu intacta e guardada em seu local original. Em 2008, uma equipe japonesa da Universidade de Waseda, em Tóquio, liderada pelo arqueólogo Sakuji Yoshimura, inseriu uma pequena câmera no fosso para avaliar as condições do artefato. Em 2011, decidiu-se retirar o barco de seu lugar original. Tal responsabilidade foi confiada à Universidade de Waseda e ao Instituto Japonês para Investigação e Restauração. A Universidade doou ao Ministério de Antiguidades Egípcias US$ 10 milhões para poder retirar o artefato de seu lugar, restaurá-lo e remontá-lo para que ficasse, então, ao lado do primeiro barco encontrado. Na primeira fase do resgate (a de retirada dos pilares de calcário) foi encontrado o nome de Khufu dentro de um cartucho, assim como o do seu filho e sucessor Djedefre (cujo nome significa “Duradouro como Rá”, e que foi o primeiro rei a usar o título de “O Filho do Deus Sol”, o que é visto como uma indicação da crescente popularidade do culto ao deus sol, Rá), porém o deste último está sem a proteção de um cartucho. Isso teria sido devido ao fato de que o fosso foi lacrado ainda no reinado de Khufu, já que o seu filho e substituto ainda não gozava da proteção real.
Desde 1991, os arqueólogos sabiam que havia pelo menos uma dúzia de barcos de madeira trezentos anos mais antigos do que os de Khufu, ou seja, os mais antigos barcos no mundo construídos com pranchas de madeira, enterrados nas areias do deserto em Abidos (a 13 quilômetros do Nilo e a 480 quilômetros ao sul do Cairo), nas proximidades de um volumoso muro que circundava as imediações do sepulcro de pedra do faraó Khasekhemwy (2686 a.C.), último rei da Segunda Dinastia (2770 a 2649 a.C.).
De 1991 a 2000, quatorze grandes barcos de madeira datados de 3000 a.C., de comprimentos variando entre 18 e 24 metros, ostentando notáveis evidências da riqueza, do poderio e da perícia tecnológica dos primeiros tempos da civilização egípcia, foram desenterrados por uma equipe de arqueólogos dos Institutos de Belas Artes das Universidades de New York, Pennsylvania e de Yale, liderados pelo egiptólogo David O’Connor, professor da Universidade de New York e diretor do Abydos Boats Project (Projeto Barcos de Abidos), que faz escavações no local desde 1967 sob os auspícios do Ministério da Cultura do Egito e do Conselho Supremo de Antiguidades.
Assim como os de Khufu, os barcos eram perfeitamente funcionais, porém não evidenciavam sinais de uso. Cada barco, pertencente à frota real, havia sido cuidadosamente preenchido e revestido com tijolos e argamassa para que o faraó pudesse utilizá-lo apenas no “além”. Além disso, cada cova em si estava moldada de maneira a ter a forma do barco que continha. As cavidades estavam tampadas e caiadas, dando a impressão de uma grande frota branca, e uma grande pedra arredondada havia sido colocada perto da proa ou popa de vários barcos, sugerindo âncoras. Os posicionamentos dessas pedras pareciam deliberados e não aleatórios. Durante escavações realizadas entre maio e junho de 2000, descobriu-se que os barcos foram colocados em suas covas muitos anos antes da edificação daquele muro e da construção do túmulo de Khasekhemwy, de maneira que, provavelmente, estavam destinados ao uso póstumo de um soberano muito mais antigo, talvez mesmo Aha, o primeiro faraó da Primeira Dinastia (2920 a 2770 a.C.).
Os especialistas acreditam que os barcos não eram simples maquetes, mas meios viáveis de transporte que poderiam acomodar até trinta remadores. O modo como foi construído é único entre os barcos egípcios antigos que sobreviveram. Ao que parece, foram construídos de fora para dentro, em contraste com a técnica de construção naval posterior, que se iniciava com uma armação interna. Com fundo chato, aproximadamente 23 metros de comprimento e 2 a 3 metros de largura no ponto mais largo, eles possuem apenas 60 centímetros de profundidade, com proas e popas mais estreitas e capacidade para trinta remadores. O casco apresenta pranchas de madeira grossa, unidas por cordas que passam através de entalhes. As junções entre as pranchas estavam preenchidas com feixes de canas para evitar a entrada da água, enquanto que canas adicionais atapetavam o chão do barco. Resíduos de pigmento amarelo indicam que estes barcos provavelmente foram pintados. Trabalhadores peritos altamente especializados e que não contavam com outros instrumentos a não ser ferramentas de pedra, eram requeridos para construir tais embarcações. A tarefa exigia planejamento e disciplina e um alto nível de organização, o que certamente os egípcios já possuíam há cinco mil anos.

1.6. Egípcios no Brasil

A busca de matérias-primas e bens comerciais inexistentes ou escassos no Egito pode ter sido o impulso inicial que levou os antigos egípcios a construírem navios capazes de navegar em mar aberto e o principal motivo que os levaram a se aventurarem pelo Oceano Atlântico, como antes pelo Mar Vermelho. É lícito supor, portanto, que milhares de anos antes de Cabral, os antigos egípcios tenham aportado no Brasil – assim como em outros pontos do continente americano – e por aqui deixado suas marcas e o legado de sua cultura.
Desde pelo menos o início do século XIX, não muito tempo depois da chegada do regente Dom João VI e da Comitiva Portuguesa à Baía de Guanabara em 7 de março de 1808, a intelligentsia da época já sabia e discutia acerca das inscrições, reconhecidamente muito antigas, existentes no alto da Pedra da Gávea, na zona sul do Rio de Janeiro. O segundo número da Revista Trimestral de Historia e Geographia ou do Jornal do Instituto Historico Geographico Brasileiro, de julho de 1839, publicou o texto “Relatorio sobre a inscripção da Gavia mandada examinar pelo I.H.G. Brasileiro”, de autoria do escritor do romantismo, jornalista (fundador de várias revistas, dentre elas a Lanterna Mágica, de humor político), pintor, caricaturista (foi o primeiro a publicar uma caricatura no Brasil, em 1837), arquiteto, historiador de arte, professor, político e diplomata paulista Manuel José de Araújo Porto-Alegre, o Barão de Santo Ângelo (1806-1879), e do historiador, político, jornalista e poeta carioca Januário da Cunha Barbosa (1780-1846). O texto em questão, lido por Barbosa na sessão de trabalhos da oitava reunião extraordinária do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) em 23 de maio de 1839 e cujos trechos transcrevo a seguir em português atual, aventava que “assim como Pedro Álvares Cabral e Afonso Sanches, empurrados pelos ventos, descobriram o continente da América, também alguns desses povos antigos que a ambição do comércio forçava a sulcar os mares podia, por iguais motivos, aportar às nossas praias e escrever sobre uma pedra um nome ou um acontecimento para que, em qualquer altura, as gerações vindouras lhe restituíssem a glória de tão grande descoberta”.
A inscrição foi primeiramente analisada por Frei Custódio, um professor de grego versado em línguas orientais e em epigrafia (parte da paleografia que estuda as inscrições antigas gravadas em matéria sólida) que se dedicou à zoologia e à botânica na Academia Militar do Rio de Janeiro. Ao vê-la in loco, o capelão-mor de Dom João VI concluiu que o Brasil tinha sido visitado por nações conhecedoras de navegação, as quais aqui teriam chegado bem antes dos portugueses. Frei Custódio certificou Cunha Barbosa de que havia copiado a inscrição fielmente e comunicado a descoberta ao próprio Dom João VI.
Cônsios de que “a descoberta de uma inscrição é um fato que pode revolucionar a história, reconquistar ideias perdidas e aniquilar outras em pleno domínio”, e que “um nome e uma frase em uma lápide podem preencher lacunas imensas restaurando conjecturas e abrir uma estrada luminosa do passado ao futuro”, os membros do IHGB encarregaram uma comissão de analisar e copiar a inscrição no próprio local, comissão esta que “não poupando aos meios e fadigas que uma primeira excursão demanda para obter um resultado digno da sua missão”, foi acompanhada de perto por José Rodrigues Monteiro, capelão de Sua Majestade Imperial, o qual, “participando dos incômodos sofridos nesta exploração arqueológica”, testemunhou a cópia que se fez da inscrição.
Araújo Porto-Alegre e Cunha Barbosa assim descreveram o local da inscrição no topo da Pedra da Gávea onde a Comissão teve de se esfalfar:

“A inscrição da Gávea se acha colocada de maneira vantajosa para essas conjecturas, pois está voltada para o mar, e situada numa face da rocha cúbica, pouco escarpada, com caracteres colossais de 7 a 8 palmos (de 1,40 metros a 1,60 metros), ao rumo de L.S.E., e podem ser vistos a olho nu por todas as pessoas que por ali passarem; e é notável que todos os habitantes daqueles lugares conheçam as letras de pedra. A inscrição assim colocada está exposta à fúria das tempestades e dos ventos do meio-dia e, por consequência, deve estar muito gasta, tanto mais que o granito da pedra em que está gravada (donde se conclui que a lenda que a cabeça seria de gnaisse não tem fundamento, pois a inscrição fica na cabeça) é pouco consistente, por conter muito talco e mica, e na sua base existem três cavidades esburacadas que lhe dão o aspecto de uma grande máscara. […] Um dos dados arqueológicos que reforçam qualquer conjectura tendente a averiguar a origem de tais monumentos é a possibilidade de se poder ou não gravar naquela altura imensa uma inscrição tão colossal e o caráter geológico do mesmo local. […] O homem que, levado àqueles lugares, quisesse deixar uma recordação de sua passagem, facilmente seria seduzido pela majestade e grandeza do morro da Gávea e pela disposição daquela pedra, com uma face quase plana e fronteira ao mar.”

O relatório da Comissão do IHGB é concluído com Araújo Porto-Alegre e Cunha Barbosa fazendo votos para que surgisse um “Champollion brasileiro” que viesse a decifrar de vez as inscrições da Gávea, “se é que são inscrições”.
O arqueólogo, linguista, coronel, numismata e comerciante amazonense Bernardo de Azevedo da Silva Ramos (1858-1931), contrariamente ao que proclamam alguns, não foi esse Champollion, até porque não contou com a sorte de lhe cair o equivalente de uma Pedra de Roseta às mãos. Em 1928, enquanto terminava de redigir sua monumental obra em quatro grandes volumes intitulada Inscripcões e tradiçoes da America prehistorica, especialmente do Brasil, pôs-se a traduzir e a interpretar, de modo a incluí-las em seu livro, as inscrições da Gávea a partir do desenho copiado pela comissão do IHGB quase cem anos antes. Bernardo nunca viu as inscrições pessoalmente, e certamente se os tivesse visto, mesmo num ângulo ruim, perceberia que aquelas marcas não correspondiam exatamente ao desenho do IHGB. Não que a comissão não tenha divisado as inscrições de perto o bastante ou em um ângulo favorável para dispensar o uso da fantasia a que comumente se recorre para o preenchimento de certas lacunas. Ocorre que dependendo da época do ano e do horário, a incidência de luz e sombras sobre as inscrições distribuídas numa linha reta de 30 metros costumam alterar-lhe a configuração.
De qualquer forma, Silva Ramos procedeu a sua famosa e até hoje muito citada tradução que em português ficou sendo: “Tiro, Fenícia, Badezir, primogênito de Jethbaal”, sendo Tiro capital da Fenícia, Badezir (ou Baalazar) o rei daquela cidade-estado entre 855 e 850 a.C., e Jethbaal o pai que reinou entre 887 e 856 a.C. com o nome Ithobaal I (em hebraico Ethbaal), citado no Antigo Testamento (I Reis 16:31) como o rei de Sidon e pai de Jezabel, mulher do rei Acabe, embora outros registros históricos o mencionem também como rei de Tiro, já que na época os dois reinos estavam unificados. Silva Ramos, infelizmente, tinha a tendência de interpretar qualquer risco numa pedra como sendo letras de algum alfabeto, preferencialmente fenício, e não foi de modo diferente que agiu em relação às inscrições da Gávea, lendo-as da direita para a esquerda, tal como exigem os caracteres hebraicos e a linguagem púnica.
Com isso, Silva Ramos acrescentou à sua obra mais uma prova da passagem dos fenícios pelo Brasil, juntando-o aos seus outros achados na Amazônia e aos cerca de três mil letreiros e inscrições (a metade do Brasil e de outros países americanos, e a outra metade dos países dos três velhos continentes) que vinha assiduamente coletando há trinta anos. É incrível que esta tradução esdrúxula seja até hoje aceita por muitos como uma prova indubitável de que a Pedra da Gávea e os demais monumentos no Rio de Janeiro tenham sido obras dos fenícios, quando eles mesmos não chamavam de Fenícia (Foenisian) suas terras, mas de Canaã (Canaan), o que por si só invalida toda a tradução. Quem os chamava de fenícios eram os gregos, de modo que a tradução só poderia ser considerada certa se um grego tivesse supervisionado a feitura das inscrições, o que, convenhamos, seria por demais forçado. Os fenícios, portanto, não foram os autores das inscrições na Pedra da Gávea, o que não significa que não tenham passado pelo Rio de Janeiro.
Havia uma forte tendência ou moda no começo do século XX no Brasil em apontar os fenícios como a nossa maior influência colonizadora antes dos portugueses, afinal, seria um contrassenso não acreditar que justamente eles, exímios navegadores que eram e contando com a madeira ideal para fabricar seus navios, isto é, o cedro do Líbano, não ousassem enfrentar o Atlântico, sendo eles próprios destemidos e excelentes comerciantes.
Contemporâneo de Silva Ramos, o austríaco Ludwig Schwennhagen (cujas datas de nascimento e falecimento são desconhecidas) foi o principal proponente e o mais ardoroso defensor da teoria da presença dos fenícios no Brasil. Tendo chegado em Teresina na primeira década do século XX, a população, que o chamava de “Chovenágua”, dizia que ele era um “alemão” calmo e grandalhão que ensinava história, bebia cachaça nas horas de folga e passava a maior parte do tempo percorrendo o Piauí e outros recantos do Nordeste em busca de provas da presença de povos fenícios por aquelas bandas. Em 1928, a Imprensa Oficial de Teresina publicou a primeira edição de seu original e peculiar livro Antiga História do Brasil – De 1100 a.C. a 1500 d.C. (com o subtítulo de Tratado Histórico de Ludovico Schwennhagen, professor de Filosofia e História), que permaneceu praticamente desconhecido até 1970 quando só então foi reeditado pela Editora Cátedra, do Rio de Janeiro.
O descobrimento do Brasil pelos fenícios, bem como a primeira imigração de povos brancos a este continente, teria ocorrido, segundo Schwennhagen, em decorrência da Guerra de Troia, conflito bélico entre gregos e troianos que se estendeu sobre a Trácia e Ásia Menor com consequências desastrosas para muitos povos. Os troianos tinham como aliados mais de trinta povos da Ásia, ao passo que os agressores gregos, cinquenta povos e tribos. Os fenícios, competidores marítimos e comerciais dos gregos, ficaram ao lado dos troianos e prestaram auxílio aos vencidos levando milhares deles para suas colônias e assim fundando diversas novas cidades com o nome de Troia. Conquistada e destruída sete vezes ao longo de um século, como provaram as escavações, Troia foi destruída definitivamente em 1184 ou 1181 a.C. (no final da Idade do Bronze no Mediterrâneo) e nos decênios seguintes começou a emigração dos povos cários (da Cária, região do sudoeste da Anatólia ao sul da Jônia, a sudoeste da Frígia e a leste da Lícia, originalmente chamada “Fenícia”, pois uma colônia fenícia assentara-se lá em tempos remotos, antes dos gregos) dos territórios ocupados pelos gregos.
A vinda dos fenícios para o Brasil e a instalação de pontos de apoio em nosso território foram justificadas por Schwennhagen pela necessidade que eles tinham de conduzir para a Europa, África e Ásia as riquezas que lhes eram solicitadas, principalmente pelos egípcios, os maiores compradores de ouro na Antiguidade. Nesse tocante, os fenícios garantiam aos egípcios a acumulação de suas riquezas individuais para que se preparassem devidamente para a ressurreição. Os egípcios embalsamavam e embelezavam os corpos por acreditarem que a alma um dia voltaria a habitá-los, razão pela qual esperavam o grande dia com tranquilidade, acumulando ouro, prata e pedras preciosas para reaparecerem na vida futura com os meios financeiros que correspondiam às suas posições anteriores.
Apoiando-se em Diodoro da Sicília (Diodoro Sículo, 90-30 a.C.), historiador grego que fornece, nos capítulos 19 e 20 do 5º livro de sua monumental História Universal, a descrição da primeira viagem de uma frota de fenícios que saiu da costa da África, perto de Dacar, e atravessou o Oceano Atlântico rumo sudoeste, Schwennhagen observa que

“os navegadores fenícios encontraram as mesmas correntezas oceânicas de que se aproveitou Pedro Álvares Cabral para alcançar o continente brasileiro e chegar com uma viagem de ‘muitos dias’ às costas do Nordeste do Brasil. Conforme o cálculo cronológico, […] devemos colocar essa viagem, esse primeiro descobrimento do Brasil, na época de 1100 a.C. Diodoro conta a viagem da frota dos fenícios quase com as mesmas palavras com que narram os compêndios escolares brasileiros a viagem de Cabral: os navios andavam para o sul, ao longo da costa da África, mas, subitamente, perderam a vista do continente e uma violenta tempestade levou-os ao alto mar. Ali, perseguindo as mesmas correntezas, descobriram eles uma grande ilha, com praias lindas, com rios navegáveis, com muitas serras no interior, cobertas por imensas florestas, com um clima ameno, abundante em frutas, caça e peixe, e com uma população pacífica e inteligente. Os navegantes andaram muitos dias nas costas dessa ilha (que foi a costa brasileira entre Pernambuco e Bahia), e tendo voltado ao Mar Mediterrâneo, contaram a boa nova aos tirrênios, que eram parentes e aliados dos fenícios de Tiro. Estes resolveram logo mandar também uma expedição à mesma ilha e fundar ali uma colônia.”

As primeiras entradas em massa de imigrantes fenícios em nosso país, segundo Schwennhagen, teriam ocorrido pela foz do Rio Parnaíba [que banha os estados do Maranhão e do Piauí e cujo nome é uma junção dos termos tupis paranã (“mar”) e aíb (“ruim”), ou seja, “mar ruim”], onde Tutoia (atual município no extremo norte maranhense, a 463 quilômetros de São Luís) era o porto de recepção, e dali dividiram-se em três tribos. Os que se estabeleceram entre o Rio Parnaíba e a Serra do Ibiapaba (nas divisas do Ceará e do Piauí) ficaram sendo os tabajaras; os que se estabeleceram no Rio Potí (que banha o Ceará e o Piauí) os potiguares; e os que se fixaram nas terras do Ibiapaba em direção ao leste, na foz do Rio Parnaíba, onde Tutoia era o porto de recepção, os cariris. Schwennhagen afiançou que ao longo do Parnaíba teriam sido encontrados canais artificiais pré-cabralinos semelhantes aos do antigo Rio Nilo, e que os fenícios que chegaram ao Delta do Parnaíba, um dos três deltas a mar aberto no mundo (os outros estão no Rio Mekong e no Rio Nilo) e o único das Américas, sabiam que os braços da foz levavam a um rio importante que dava acesso ao interior do Brasil.
A Ilha de São Luís, ainda de acordo com Schwennhagen, teria sido escolhida pelos fenícios como ponto de entrada para uma segunda leva de imigrantes. Em Tuapon (“burgo de Tupan”), como foi nomeada, teriam fundado numerosas vilas e aldeias das quais ainda remanesciam 27 quando da chegada dos europeus. De lá teriam atravessado pequenos rios e seguido navegando até onde hoje fica Belém, capital do Pará. Os fenícios vindos de Iônia teriam denominado de Ion o litoral maranhense, já que, com suas centenas de ilhas e penínsulas, mostrava uma surpreendente semelhança com o litoral da Iônia asiástica. Maranhão, que em tupi significa “mar que corre” [pela junção dos termos pará (“mar”) e nhan (“correr”)], derivaria do fenício Mara-Ion (“A Grande Iônia”). Os vestígios mais palpáveis dos fenícios no Maranhão estariam no Rio Pinaré (que nasce na Serra do Gurupi e deságua no Rio Mearim, próximo da foz do mesmo na Baía de São Marcos), onde o Lago Maracu mostra uma linha de estearias (restos das palafitas de habitações lacustres indígenas) petrificadas incluindo os restos dos estaleiros daquele povo. Nas margens do Rio Gurupi (na divisa do Maranhão com o Pará, com aproximadamente 720 quilômetros de extensão), os fenícios teriam explorado as minas auríferas, tendo como base a Aldeia de Carutapera (“Taba dos Carus”, sendo que Carus era o nome que os indígenas davam aos fenícios). À chegada dos portugueses, ainda remanescia ali uma aldeia de índios tupis que sabiam da existência daquelas minas auríferas.
Tutoia (cujo nome seria a derivação de Tur, a metrópole dos fenícios, e de Troia) teria sido fundada pelos fenícios e descendentes de Troia por volta de 1080 a.C., segundo Schwennhagen. Como é de praxe a eliminação da consoante r na língua tupi, a cidade passou a ser conhecida como Tutoia, de onde os fenícios teriam exportado minérios, produtos químicos e madeiras nobres. A colonização das paragens do Baixo Parnaíba e da Serra Ibiapaba teria começado por volta de 1050 a.C. A subida do Rio Parnaíba, em ambos os seus braços, até Goiás e a Grande Lagoa, ter-se-ia realizado nos decênios seguintes, de modo que em 1000 a.C. já estava iniciada a exploração das minas, em redor da Grande Lagoa, bem como da Serra dos Dois Irmãos, onde existiriam mais de cem furnas e grutas da antiga mineração. Na Serra Ibiapaba, extraíam cobre e salitre (largamente utilizado pelos egípcios para embalsamar os mortos), enquanto que, de outras regiões, ouro fino, chumbo, prata e principalmente salitre. A crença na reencarnação, atinou Schwennhagen, era estimulada pela esperteza comercial dos fenícios, que retiravam o salitre das grutas do interior da Brasil, mormente da Gruta de Ubajara (no município de mesmo nome no Ceará). Formada por rochas calcáreas, a gruta, para Schwennhagen, não era mera obra da natureza, mas resultante de escavações para a retirada de salitre por um sistema de filtração artificial ainda hoje usado na Síria e na Ásia Menor. O subterrâneo de Alto Alegre, no município de Piracuruca (a 196 quilômetros de Teresina), teria sido igualmente escavado por mãos humanas para retirar pedras que na Antiguidade serviam para enfeitar os templos e as imagens das divindades. Os fenícios levavam as turmalinas azuis e os cristais transparentes para as suas inúmeras oficinas de lapidação.
A raiz do tupi, na acepção de Schwennhagen, estava na língua dos cários, fenícios e pelasgos, de modo que o nome da capital venezuelana Caracas recuaria à religião monoteísta de Car, trazida pelos sacerdotes que acompanhavam os fenícios, e o infinitivo do verbo sacrificar em fenício, tu-na, teria originado “tupã” (“trovão” em tupi). Schwennhagen afirmava que os fenícios transladaram em seus navios esses povos da Venezuela para o norte do Brasil, mais precisamente o local do congresso dos povos tupis em Sete Cidades, no extremo norte do Piauí, que foi batizado pelos piagas (os antigos sacerdotes druidas, de onde veio o termo “pagés”) de Piagui, de onde se originou Piauhy. Piauí significaria, portanto, “terra dos piagas”, e não “rio do peixe piau”, devido à abundância desse tipo de peixe nas águas do Parnaíba, conforme a explicação popular. De fato, somente no século XIX é que surgiu a nomenclatura Piauhy; anteriormente, o nome corrente era Piagui.
Os fenícios, reivindicava Schwennhagen, fizeram de Sete Cidades um entreposto comercial e palco para suas cerimônias religiosas. Os geólogos atribuem a um simples acaso e capricho da natureza a aparente coordenação planejada das imponentes formações geomorfológicas – com os mais diversos formatos a sugerir estátuas (de deidades, figuras mitológicas como dragões e esfinges, seres humanos, guerreiros, animais, etc.), templos, obeliscos, menires, torres, castelos, canhões, fortalezas, muralhas, degraus, dólmens etc. – nitidamente separadas em sete áreas distintas cortadas por avenidas e ruas. A ausência de monólitos, de pedras talhadas e de encaixes artificiais, no entanto, corrobora o parecer dos geólogos de que as formas foram esculpidas em arenito pelas águas e pelos ventos ao longo de duzentos milhões de anos. De data muito mais recente são as cerca de duas mil pinturas e inscrições rupestres. As pinturas nas paredes de difícil acesso flutuam a uma altura de cerca de 8 metros e caracterizam-se pela predominância de desenhos geométricos. O conjunto é ordenado e harmônico, com variações de cruzes, círculos, círculos concêntricos, quadrados dentro de círculos, linhas retas, curvas e paralelas, representações do Sol (roda com raios), da Lua, de estrelas, animais e mãos. O sociólogo e antropólogo franco-argentino Jacques de Mahieu (1915-1990) visitou Sete Cidades em 1974 e em seu livro Os Vikings no Brasil atribuiu as inscrições e pinturas rupestres aos vikings, pela semelhança com os caracteres rúnicos. Pela sua antiguidade, Sete Cidades certamente teve um passado sucedido por diversos povos e culturas, sendo mais provavelmente uma combinação de formações naturais propícias complementadas por uma sutil intervenção humana.
Se Sete Cidades foi um importante centro comercial e religioso, o que teria provocado sua decadência? Schwennhagen aponta duas causas, uma de ordem econômica: o Piauí foi abandonado quando descobriram jazidas de ouro e salitre na Bahia e Minas Gerais. Os engenheiros abriram longas estradas em direção do sudoeste e o trabalho colonial transferiu-se do norte para o sul do país. A outra causa foi de ordem ideológica: os piagas se espalharam para diversos pontos do Brasil, fazendo com que o Piauí perdesse a antiga celebridade de centro religioso. Devido à grande extensão do território brasileiro, os sacerdotes não conseguiram manter comunicação constante com a sede central. Isso levou ao enfraquecimento da ordem que, aos poucos, perdeu seu antigo brilho.
Além de comerciarem com os egípcios e serem grandes aliados de Troia, Schwennhagen postula que os fenícios selaram uma aliança com o rei David (que reinou sobre Judá de 1010 a 1003 a.C., e sobre o reino unificado de Israel de 1003 a 970 a.C.) para a exploração conjunta do Amazonas. No caminho, estabeleceram numerosas estações marítimas entre a Bahia e o Pará. Quando David tornou-se rei de Israel na idade de 31 anos, Hirão (forma abreviada de Airão, “irmão dum poderoso”), o rei de Tiro (mencionado em II Samuel 5:11), enviou mensageiros com madeira de cedro, carpinteiros e pedreiros que lhe edificaram uma casa. Em acordo comercial com Salomão, Hirão recebeu várias cidades em troca da provisão de ouro e madeira de cedro e cipreste que serviu para a construção do Templo de Salomão, cidades essas que não agradaram a Hirão. Numa associação de interesses comerciais, Salomão valeu-se da frota marítima dos fenícios e recorreu a Hirão quando da construção de seu templo, tendo o rei de Tiro designado um seu homônimo, o arquiteto Hirão, para comandar os trabalhos da construção do templo. Schwennhagen assegura que os judeus fundaram colônias comerciais nas regiões do Alto Amazonas e ali se mantiveram durante muitos séculos, “tendo deixado, indubitavelmente, rastros da civilização e da língua hebraica”, tanto que o grande Rio Solimões deveria o seu nome ao rei Salomão, cuja forma popular era sempre “Solimão”. A antiga língua brasílica, porém, não chegou a ser muito influenciado pela hebraica, pois “o tupi é muito mais antigo e pertence à grande família das línguas pelasgas, que foram faladas em todos os países do litoral mediterrâneo”.
Schwennhagen refere-se ao tratado sobre o país de Ophir de Henrique Onfroy de Thoron (publicado em Paris em 1868 com o título de Voyages des flottes de Salomon et d’Hiram en Amérique: Position geographique de Parvaim, Ophir & Tarschisch, e posteriormente em Manaus em 1876, tendo sido reproduzido em 1900 no livro As duas Américas, de Cândido Costa), como aquele que “acabou com todas as lendas e conjeturas a respeito das misteriosas viagens da frota de Salomão”:

“Thoron sabia latim, grego e hebraico, e conhecia a língua tupi, como também a língua ‘quíchua’, que é ainda falada nas terras limítrofes entre o Brasil e o Peru. Da bíblia hebraica prova ele, palavra por palavra, que a narração dada no 1º Livro dos Reis, sobre a construção, a saída e viagem da frota dos judeus, junto à frota dos fenícios, refere-se unicamente ao Rio Amazonas. As viagens repetiram-se de três em três anos; as frotas gastaram um ano entre os preparativos e a viagem de ida e volta, e ficaram dois anos no Alto Amazonas, para organizar a procura do ouro e de pedras preciosas. Estabeleceram ali diversas feitorias e colônias, e ensinaram aos indígenas a mineração e lavagem de ouro pelo sistema dos egípcios, descrito por Diodoro, minuciosamente, no 3º livro, capítulos 11 e 12. Ali, no Alto Amazonas, exploraram as regiões dos rios Apirá, Paruassu, Parumirim e Tarchicha. No livro dos Reis, da Bíblia, está bem narrado quantos quilos de ouro o rei Salomão recebeu dessas regiões amazônicas.”

A poderosa aliança entre fenícios, egípcios, troianos e judeus, alude Schwennhagen, conteve os planos conquistadores dos assírios e favoreceu as empresas coloniais no Atlântico, até que o chefe dos mercenários líbios, Shoshenk I (chamado de Sisaque na Bíblia), fundador da 22ª Dinastia e que reinou de 943 a 922 a.C., apoderou-se do governo do Egito destronando a Dinastia dos Tanitas (os reis da 21ª Dinastia cuja capital ficava em Tânis). Shoshenk I incitou Jeroboão (o primeiro rei de Israel), da tribo de Efraim, a fazer uma revolução contra Salomão, o terceiro rei de Israel que o governou durante cerca de quarenta anos (de 1009 a 922 a.C.). Como resultado, o Reino de Israel foi dividido em dois Estados. Jeroboão ficou como rei das províncias do Norte, e Roboão, filho de Salomão, com Jerusalém e a província da Judeia. No quinto ano de governo de Roboão, Shoshenk I, à frente de seu grande exército, invadiu a Judeia, sitiou Jerusalém e obrigou Roboão a entregar-lhe quase todos os objetos de ouro do templo. Assim, Shoshenk I levou para o Egito a maior parte do ouro que Salomão recebera da Amazônia, além de quatro grandes escudos de ouro que pesavam cinco quilos cada um. O usurpador mandou colocar no Templo de Amon, em Karnac, uma grande lápide, na qual foram narrados os pormenores dessa guerra contra a Judeia e enumeradas as peças de ouro que o vendedor trouxera para colocá-las nos templos egípcios.
As relações marítimas e comerciais entre a Fenícia e o Brasil, estima Schwennhagen, perduraram por 769 anos, chegando ao fim quando a cidade de Tiro acabou destruída pelo conquistador macedônico Alexandre Magno (356-323 a.C.) em 332 a.C. Para Schwennhagen,

“está largamente provado que existiu, no primeiro milênio antes da era cristã, uma época de civilização brasileira. Já conhecemos dois mil letreiros e inscrições espalhados sobre todo o território brasileiro e escritos nas pedras com instrumentos de ferro ou de bronze, ou com tintas indeléveis, quimicamente preparadas. Essas inscrições petroglíficas foram feitas por homens que sabiam escrever e usaram os alfabetos dos povos civilizados do Mar Mediterrâneo. Já provado também se acha que existiu uma navegação transatlântica entre esses povos e o continente brasileiro, durante muitos séculos antes de Cristo. A maior parte dos letreiros brasílicos são escritos com letras do alfabeto fenício e da escrita demótica do Egito. Existem também inscrições com letras da antiga escrita babilônica, chamada sumérica. Além disso, temos letreiros escritos com hieróglifos egípcios, e podemos diferenciar, em outros lugares, variantes de letras que se encontram nas inscrições da Ilha de Creta, da Cária, da Etrúria e Ibéria. Encontram-se também letras gregas e mesmo latinas.”

Schwennhagen estava convencido de que os egípcios tinham vindo ao Brasil em navios fenícios no tempo do faraó Shoshenk, em torno do ano 940 a.C. Essa imigração teria recebido um novo impulso em decorrência da invasão dos núbios em 750 a.C., que anarquizou todo o Egito.
Ao visitar e examinar minuciosamente a cachoeira de Paulo Afonso (cujas quedas d’água, de até oitenta metros de altura, alimentam hoje uma série de usinas do Complexo Hidrelétrico no município baiano de Paulo Afonso), no Rio São Francisco, para averiguar a lenda indígena em torno Upá Assu, uma enorme lagoa ou mar interno com uma largura média de duzentos quilômetros que se estenderia desde a dita cachoeira até Remanso (às margens do São Francisco, na microrregião de Juazeiro), Schwennhagen viu ali o “Kartum brasileiro”, uma grandiosa obra de engenharia egípcia executada em torno de 600 a.C., semelhante àquela que foi feita para desviar as águas das vastas lagoas da Núbia, transformando seus pântanos em boa terra para a agricultura e formando o majestoso Rio Nilo. Schwennhagen avaliou que essa queda d’água “artificial” constituída por

“cinco canais simétricos que despejam suas águas separadamente na mesma cavidade larga, quadrangular, de 50 metros de profundidade, cortada na pedra viva, […] deixou para o moderno Brasil uma fonte incalculável de energia mecânica, criou a admirável obra irrigatória do Vale Opalino, quer dizer, do Baixo São Francisco, o qual foi chamado por um engenheiro inglês, com muita razão, de o ‘Egito brasileiro’. Essa antiga obra secou a bacia pantanosa da ‘Grande Lagoa’, fechou com o correr do tempo a saída das águas pelo ‘Rio Real’, o qual desapareceu, apesar da procura dos comissários dos limites sergipanos-baianos, e prejudicou também o Rio Parnaíba, na sua qualidade de grande via comunicatória entre o Norte e o Centro do Brasil”. Schwennhagen encontrou também “em ambas as margens do Rio Parnaíba, os restos de uma antiga irrigação, no sistema dos trabalhos irrigatórios do Nilo. São canais artificiais que ligam o rio a lagos, formados pelas águas da enchente. No Baixo São Francisco conservou-se até hoje aquela grande obra egípcia; mas também o Vale do Parnaíba possui ainda muitos restos valorosos daquele antigo trabalho, os quais devem ser aproveitados na época atual.”

O historiador alagoano Alfredo Brandão (1874-1944) em sua obra em dois volumes Escripta Prehistorica no Brasil, de 1937, escreve no prefácio: “Os marinheiros egípcios deixaram vestígios por toda a parte, desde a embocadura do Amazonas até à Baía de Guanabara. Tem de quatro a cinco mil anos de idade e podemos avaliar que as comunicações por mar entre os dois continentes se perderam numa data posterior.”
A tese da presença egípcia no Brasil milhares de anos antes de Cabral teve como adepto e defensor ninguém menos do que o historiador, escritor, embaixador, advogado e professor Antônio Baptista Pereira (1880-1960), um dos maiores especialistas em egiptologia de seu tempo e autor, entre outros, dos clássicos Civilisação contra barbarie (1928) e A formação espiritual do Brasil (1930). O prolífico e brilhante intelectual gaúcho formado e fixado espiritualmente em São Paulo, genro do polímata Rui Barbosa de Oliveira, o Águia de Haia (1849-1923), demarcou veredas inaugurais audaciosamente percorrendo centenas de quilômetros em busca dos primitivos caminhos indígenas. Em companhia do jornalista Júlio de Mesquita Filho (1892-1969), filho de Júlio de Mesquita (1862-1927), proprietário do jornal O Estado de S. Paulo, e do arqueólogo, professor (de Pré-história na Universidade de São Paulo, da qual foi um dos fundadores), jornalista e poeta Paulo Duarte (1899-1984), caminhou a pé de São Paulo a Santos a fim de retraçar os velhos caminhos do Peabiru (também conhecido como Caminho Velho do Mar, Trilha dos Tupiniquins ou de Piquiri, que é o nome regional do Peabiru), a trilha ou estrada transcontinental inca de oito palmos de largura – em alguns trechos pavimentada com pedras – usada pelos índios guaranis antes da chegada dos europeus. Ao longo de seus mais de cinco mil quilômetros, o Peabiru cortava os territórios do Peru, Bolívia, Paraguai e Brasil ligando Cuzco, no sul do Peru, à cidade de São Vicente, no litoral sul paulista.
Ao poeta Paulo Bomfim (1926-), Baptista Pereira disse certa vez: “A barca dos mortos, no tempo dos faraós, saía do Egito e aportava na Baía de Guanabara. O caminho mítico que os colonizadores encontraram, com pegadas impressas na rocha, não era de Tomé, e sim de Tutmés.”
Em entrevista concedida no final de 1954 a O Cruzeiro, a revista nacional de maior circulação à época, Baptista Pereira ratificou que muito antes dos fenícios e de qualquer outro povo navegador, os egípcios do tempo de Ramsés II, ou seja, há mais de 3.200 anos, já teriam por aqui passado, conforme indicaria a coincidência linguística de muitos radicais de palavras egípcias com a estrutura dos vocábulos guaranis: “Assim, o verbo ver que em egípcio é ‘rechá’ corresponde a ‘jhechá’ em guarani. O mesmo com fazer (‘apó’ em egípcio e ‘yapó’ em guarani), e dormir (‘nemo’ em egípcio e ‘nema’ em guarani), além de inúmeros substantivos como casa (‘oga’ e ‘onga’), pedra (‘itá’ e ‘tá’), etc.”
De acordo com Baptista Pereira, as origens dos nomes do bairro carioca de Ipanema e da Ilha Rasa (a cerca de 14 quilômetros do sul da barra da entrada da Baía de Guanabara e a 9 quilômetros da Ponta do Arpoador), bem visível da Praia de Ipanema, conforme incorporados e conservados pelos indígenas fluminenses, seriam de origem egípcia. O nome “IPANEMA”, uma vez decomposto (I-PA-NEMA), significaria, em egípcio, “lugar onde dorme o pai”. O “pai” seria Amon-Rá, o principal deus dos egípcios de 2000 a 663 a.C., quando os assírios conquistaram Tebas e impuseram o culto aos seus próprios deuses. Ora, os que contemplam o gigante deitado formado pelas montanhas cariocas e que está quase todo estendido no bairro de Ipanema são unânimes em afirmar que o corpo nunca é completamente divisado, a não ser de um lugar, mais precisamente de uma ilha, de onde se avista, perfeitamente, a figura inteira e nítida desse gigante. Essa ilha é justamente a Ilha Rasa. O seu nome, porém, não é condizente com suas características, já que com sua área de 230.000 m2 não é propriamente “Rasa”, mas uma das mais altas que se podem observar na costa. A esse respeito, Baptista Pereira explicou que RASA não é nome brasileiro ou português, mas a junção dos vocábulos egípcios RA e SA que significam “VER A RA” (AMON-RA). Os súditos dos faraós teriam aportado naquela ilha e, fascinados com a figura de pedra que avistavam no lugar onde hoje é Ipanema, teriam dito que, dali, era possível ver Amon-Rá (o gigante de pedra que parecia reproduzir a figura daquele deus) e deixaram a ilha com o nome de RA-SA, chamando posteriormente o local onde se estendia o corpo do gigante de IPANEMA, ou seja, “lugar onde dorme o pai”.
A reportagem de O Cruzeiro referendou Baptista Pereira citando uma descoberta feita poucos meses antes na cidade de Dourados, estado do Mato Grosso, às margens do Riacho Pira-Vevé, onde foi encontrado um camafeu egípcio reproduzindo a figura da rainha Tuya (Tuy ou Mut-Tuya, sendo Mut o nome da deusa-mãe que fez acrescentar ao seu nome), esposa do faraó Seti I (o segundo faraó da 19ª Dinastia, ou Dinastia Ramséssida, que governou entre cerca de 1291 a 1278 a.C.) e mãe da princesa Tia, de Ramsés II e talvez de Henutmire. O túmulo de Tuya no Vale das Rainhas, chamado pelos egípcios de Taset-Neferu (“O Lugar da Beleza”), Tainet-aat (“O Grande Vale”) e Taset-resit (“O Vale do Sul”, porque situado ao sul do Vale dos Reis), estava coberto com todos os tipos de honrarias como poucas rainhas tinham merecido antes. A decifração das inscrições hieroglíficas que contornam o camafeu de Dourados feita pelo arqueólogo paraguaio Pablo Alborno revelou a seguinte mensagem: “A mulher rainha, após a morte, eleva sua alma ao mundo dos deuses e, por suas virtudes, encontra um céu espiritual no descanso eterno.” O camafeu teria sido adquirido pelo médico e pequisador de história antiga Camilo Ermelindo (1896-1968) da pessoa que o encontrou pelo preço de uma garrafa de cachaça. Para a reportagem de O Cruzeiro, só haveria duas explicações plausíveis para a inusitada presença dessa medalha no meio da floresta brasileira: “Ou o nosso país pertenceu ao lendário continente da Atlântida – e nesse caso a viagem do Egito até aqui poderia se fazer por terra, em caravanas – ou então eles eram melhores navegadores que os fenícios e estiveram por estes brasis, a passeio, muito antes dos estaleiros de Tiro haverem lançado no Mediterrâneo o seu primeiro navio.”
As mais notórias evidências arqueológicas da presença egípcia no Brasil talvez não estejam ocultas e inacessíveis em selvas inóspitas, mas, como indicou o próprio Baptista Pereira, bem à vista de todos, em plena zona sul do Rio de Janeiro. Já me referi às inscrições no lado leste da Pedra da Gávea, na lateral da chamada “cabeça do Imperador”, que junto com outras inscrições e sinais podem ser vistas parcialmente a olho nu, de grande distância. A esfinge esculpida em granito, na qual as inscrições estão gravadas, pode ser mais bem apreciada da Estrada das Canoas, no bairro de São Conrado, ou do alto da Pedra Bonita, sua vizinha mais próxima. Sua altura é de nada menos do que 286 metros, ou seja, mais de quatorze vezes mais alta do que a Esfinge de Gizé, que mede 20 metros. Vista de perto ou de longe, tem a grandeza dos monumentos faraônicos e reproduz, em um de seus lados, a face severa de um patriarca de testa alta, olhos profundos e longas barbas que contempla o amanhecer como se esperasse por alguém que desvendasse os seus segredos. Cabe assinalar que a face não sofreu qualquer ação recente, ou seja, não foi talhada para homenagear o imperador Dom Pedro II.
O restante da formação lembra o corpo de um felino deitado, destacando-se um corte na rocha, marcando o joelho e a pata traseira do animal. Outrora, esta parte traseira virada para o mar era conhecida como Pedra do Elefante devido a uma rocha comprida e perpendicular parecida com uma tromba (na verdade a cauda) que, conforme contavam os moradores mais antigos das proximidades, rolou do alto da Pedra da Gávea numa noite chuvosa de 1919. A cabeça apresenta dois olhos (duas grutas não muito fundas e sem ligação entre si que indicam com exatidão absoluta o norte magnético, isto é, 0 ou 365 graus), nariz e orelhas; pedras enormes no topo da cabeça sugerem um tipo de coroa, toucado ou adorno. Na parte nordeste da cabeça, há um nicho ou cavidade na forma de um portal medindo 15 metros de altura, 7 metros de largura e 2 metros de profundidade. Um observatório na parte sudeste na forma de um dólmen apresenta algumas figuras esculpidas. No topo da cabeça, no ponto culminante, há uma pirâmide pequena feita de um único bloco de pedra. Inscrições situadas em redor do corpo da montanha, bem abaixo da esfinge, dão a volta à montanha estendendo-se por centenas de metros. Elas são mais bem observadas por quem olha da estrada de São Conrado-Barra da Tijuca. Ao longo do topo da montanha há outras inscrições pequenas que se assemelham a cobras, raios de Sol etc. Há uma gruta tipo sifão na parte onde o maciço toca o mar, com a parte abobadada acima do mar e com ventilação natural, onde se encontra uma escadaria em sentido ascensional que, segundo dizem, conduziria ao interior do monumento. Outra forma de acesso seria por um túnel submarino, hoje praticamente obstruído, que liga a pedra a uma ilha próxima. Oculta sob a espessa vegetação, que também esconde a parte traseira da esfinge, existiria uma escadaria de cerca de cinquenta degraus muito rentes (provavelmente desgastados pela erosão) que levaria a um terraço de formas ainda mais perfeitas que, evidentemente, teria sido esculpido. Aí existiria um trono com o braço direito semidestruído voltado para o leste, isto é, para o nascente.
É singular o aspecto da formação superior da montanha, um autêntico platô a 842 metros acima do nível do mar. De seu topo pode-se vislumbrar o horizonte a uma distância de até 100 quilômetros. Apenas por ser um ponto de observação privilegiado, dever ter sido escalada por muita gente nos séculos anteriores, principalmente quando havia alguma ameaça de invasão, como foi o caso das invasões francesas no século XVIII. Consequentemente, eventuais vestígios de passagens anteriores devem ter sido remexidos e alterados. Lendas dando conta de que se poderia atingir o interior da pedra pelo alto, através de um túnel oculto na cabeça da esfinge ou por um corredor lateral cuja entrada estaria disfarçada sob a aparência de uma pedra, estimularam a ação de caçadores de tesouros e aventureiros inescrupulosos que na busca de galerias, câmaras, mesas, túmulos, esquifes, múmias, ânforas, esculturas, quadros e principalmente ouro, conduziram a destruição final de monumentos de inestimável valor arqueológico que ainda subjaziam no topo.
A despeito de tantos indícios a indicar a artificialidade da Pedra da Gávea, a versão oficial estabelecida pelos geólogos é a de que ela, assim como todas as montanhas do Rio de Janeiro, não passam de um mero produto da erosão fluvial e eólica desde que se formaram no período Pré-Cambriano há seiscentos milhões de anos. Suas formas características se deveriam tão somente a fenômenos de intemperismo ou meteorização, característico dos trópicos. A arqueologia oficial, por sua vez, despreza-a complemente e jamais demonstrou qualquer interesse em realizar escavações ou pesquisas mais aprofundadas na área. Naturalmente houve um violento trabalho de erosão, como se nota pelo desgaste da superfície da rocha que compõe a face, que é de uma cor mais clara do que o resto da montanha, como se fosse de data bem mais recente. Os tamoios desde incontáveis séculos já chamavam a Pedra da Gávea de Metaracanga (“Cabeça Enfeitada”), sendo Metara o botoque de enfeite usado no lábio inferior, e Canga, cabeça. Eles também se referiam a Pedra da Gávea como “cabeça de um deus”, ou seja, reconheciam haver ali uma escultura. A Pedra da Gávea, indubitavelmente, é bem mais do que um simples capricho da natureza, embora, evidentemente, tenha sofrido a ação da erosão. E para fazer uma especulação fantástica, poderíamos deixar no ar a possibilidade de que, sim, os egípcios teriam iniciado a construção de um monumento na Pedra da Gávea que, por algum motivo desconhecido, não foi terminado.
O pesquisador Antônio Carlos Dumortout Werneck publicou um artigo na edição de outubro de 1973 da revista Planeta em que proclamava ser a Pedra da Gávea a maior e mais antiga esfinge do mundo esculpida há trinta mil anos por uma avançadíssima civilização autóctone que exportou para o Egito e para o resto do mundo o hábito de erigir monumentos de pedra como a esfinge. Para Werneck, o Brasil deveria ter sido o berço de uma das primeiras civilizações do mundo, uma vez que o nosso território acha-se na sua maior parte sobre solos da Era Primária ou Paleozoica (entre 542 milhões e 245 milhões de anos atrás), os mais antigos do planeta e os que primeiramente se consolidaram. Apesar do quão antigo de fato é o solo de nossa terra, aventar que há cinquenta ou cem mil anos surgiu por aqui uma civilização autóctone que foi a matriz da egípcia e de todas as outras é hoje totalmente inadmissível, uma vez que as evidências arqueológicas apontam como berço civilizatório, bem como o lugar de surgimento dos primeiros seres humanos, o Oriente Médio, a África e a Ásia.
O pesquisador carioca Eduardo B. Chaves publicou em 1977 o livro Mensagem dos deuses: Para uma revisão da História do Brasil, o primeiro inteiramente dedicado a provar que não só a Pedra da Gávea e seus entornos teriam sido trabalhados artificialmente, mas toda a cadeia de montanhas do Rio de Janeiro. Para quem a vê do mar, a cordilheira que se estende ao longo de pelo menos 18 quilômetros na orla da cidade abrangendo os bairros da Barra da Tijuca, São Conrado, Leblon, Ipanema, Copacabana, Botafogo e Urca, adquire as formas de um Gigante Adormecido. A cabeça e os pés desse Gigante são formados, respectivamente, pela Pedra da Gávea e o Pão de Açúcar, ao passo que o Corcovado, o Morro dos Irmãos, a Lagoa Rodrigo de Freitas e a Ilha Rasa formam o resto do corpo.
Quanto às inscrições, Chaves eliminava totalmente a possibilidade de serem fenícias “porque a face da Pedra da Gávea apresenta-se como a de um velho barbudo. Como se sabe, os fenícios eram imberbes devido a um tratamento que lhes aplicavam ao nascer, e possivelmente não fariam uma escultura imensa que não fosse semelhante a um dos seus.” Chaves considerava a possibilidade de nem mesmo serem inscrições, mas “esculturas de semidivindades egípcias já bastante desgastadas pela erosão”. As supostas divindades, em linha, olhariam para o mar, em direção a África.
A respeito da lamentável destruição de monumentos artificiais no topo da Pedra da Gávea, o arqueólogo Joacir Nogueira confidenciou a Chaves que em meados da década de 50, quando tinha 16 anos, acompanhou um certo “arqueólogo”, do qual não quis revelar o nome, até o alto da Pedra da Gávea. Esse “professor” tinha o firme propósito de entrar na Pedra da Gávea e, segundo uma “revelação” que lhe tinham feito, “a entrada estaria no sol”. O único sol de que o professor, assim como Joacir, tinham conhecimento na Pedra da Gávea era um, esculpido, no alto da cabeça, em alto-relevo. Sem ter como o impedir, Nogueira assistiu passivamente a destruição, à marretada, do sol no alto da cabeça. “Claro que ninguém entrou por ali. Lá, no local, não ficou mais do que frangalhos de pedras, e não um buraco suficientemente grande para que alguém penetrasse no interior supostamente oco”, arrematou Chaves.
Os templos do Egito Antigo eram locais construídos para os deuses habitarem na Terra. O termo mais utilizado pelos antigos egípcios em seu idioma para descrever o edifício do templo significa “mansão” ou “recinto” de um deus. A presença do deus no templo unia os reinos humano e divino e permitia aos humanos que interagissem com a divindade através dos rituais. Estes, acreditava-se, sustentavam o deus e permitia que ele continuasse a desempenhar seu papel apropriado na natureza. Eram, portanto, parte crucial na manutenção da maat, a ordem ideal que regia a natureza e a sociedade humana na crença egípcia. Manter a maat era o propósito principal da religião egípcia, e por consequência este também era o propósito dos seus templos. Já que a ele próprio não era atribuído qualquer poder divino, o faraó era visto como o representante do Egito perante os deuses, e o seu mais importante protetor da maat. Teoricamente, portanto, era sua obrigação executar os rituais do templo. Embora não se saiba ao certo com que frequência os faraós participavam de fato dessas cerimônias, a existência de templos por todo o Egito tornava obviamente impossível que eles os fizessem em todos os casos, e na maior parte do tempo essas funções eram delegadas aos sacerdotes. O faraó, ainda assim, tinha a obrigação de manter, financiar e expandir os templos de todo o seu reino. Embora o faraó delegasse sua autoridade, a realização dos rituais dos templos ainda era uma função oficial, restrita a sacerdotes de alto escalão. A participação da população na maior parte das cerimônias não só era desnecessária como até mesmo proibida. Muito da atividade religiosa no Egito Antigo, entretanto, ocorria em santuários privados e comunitários, separados dos templos oficiais. Por serem a ligação primordial entre o reino humano e o divino, os templos gozavam de grande respeito.
Cada templo tinha uma divindade principal, embora a maioria também fosse dedicada a outros deuses. Nem todas as divindades, no entanto, tinham templos dedicados a ela. Muitos demônios e deuses domésticos eram invocados apenas em práticas religiosas privadas ou mágicas, com pouca ou nenhuma presença nas cerimônias oficiais. Também existiam outros deuses que desempenhavam papéis importantes na cosmologia da religião egípcia, porém por motivos incertos não haviam sido honrados com seus próprios templos. Destes deuses que tinham seus próprios templos, muitos eram cultuados principalmente em determinadas regiões do Egito, embora muitos deuses que tinham ligações locais fortes também fossem importantes no resto do país. Até mesmo divindades cujo culto era realizado por todo o país tinham uma associação forte com as cidades nas quais se localizavam seus principais templos. Nos mitos de criação egípcios, o primeiro templo se originou como um local utilizado como abrigo por um deus (qual divindade exatamente era algo que variava de acordo com a cidade onde o mito era narrado), situado sobre o monte de terra onde se iniciara o processo da criação. Cada templo no Egito, portanto, era equivalente a este templo original, e ao local da própria criação do mundo. Como lar primordial do deus e localização mitológica da fundação da cidade, o templo era visto como o ponto central da região, a partir da qual a divindade padroeira da cidade a governava.
Dada a importância dos templos para a própria estabilidade social e a necessidade constante de contato com a imanência divina, ao aportarem no Rio de Janeiro os egípcios logo encontraram na Pedra da Gávea, pelo seu formato prévio e altura, o local ideal para a construção do seu principal templo-monumento em terras brasileiras. Não fazia sentido nem tampouco seria viável, tendo em vista a topografia e o pouco tempo disponível, desmanchar montanhas de pedra bruta para transformá-las em blocos de pedra e depois remontá-las. Optaram pela solução mais conveniente e prática, a de uma interferência sutil, pouco invasiva, porém não menos marcante, que consistiu em aproveitar o formato já existente da montanha e conferir-lhe os contornos de uma esfinge, com especial trato no que tangia ao rosto, que ganhou olhos e nariz bem definidos e uma barba protuberante. Assim também fizeram com outras montanhas do Rio de Janeiro que adquiriram os contornos de gigantes deitados olhando para o céu, como é o caso do Morro do Corcovado. Os morros do Pão de Açúcar e da Urca, na Enseada do Botafogo, foram modificados em grau talvez mínimo, tendo os egípcios por sorte já os encontrado com seu formato que em muito lembra uma esfinge – nesse caso, de longe a maior do mundo –, no que lhes bastou deixarem uma gravura pronunciada em forma de uma gigantesca Íbis (lembrando que no Antigo Egito, o deus Toth, conhecido na Grécia como Hermes Trimegisto, pois era associado a Hermes, deus grego do conhecimento, da escrita e da magia, era representado com cabeça de íbis) pernalta de 120 metros de altura no Morro do Pão de Açúcar, em posição exata para ser iluminada pelo Sol em qualquer época do ano (sendo que seu lado direito é muito mais definido do que o esquerdo), porém mais bem visível por aqueles que se disponham a olhar a partir da Marina da Glória quando o Sol alcança o seu zênite, ao meio-dia. Uma parte do Pão de Açúcar parece ser de fato esculpida, tanto que serve de abrigo em escaladas. Mesmo que a natureza tenha agraciado os egípcios com formas prévias, ainda assim teria sido necessário o emprego de arrojadas técnicas e muita mão de obra para moldarem de forma tão precisa e acurada quilômetros e quilômetros de altas montanhas.
Afeito à possibilidade de os antigos egípcios terem vindo à América do Sul e de a mítica terra de Punt ter estado localizada no Brasil, o pesquisador carioca Sérgio O. Russo retomou a linha desenvolvida por seu conterrâneo Eduardo B. Chaves e em 1985 lançou seus dois primeiros livros (Nas fronteiras do desconhecido e Nos domínios do mistério) nos quais procurou acrescentar novos dados e inferições acerca da Pedra da Gávea e das demais montanhas esculpidas do Rio de Janeiro.
No ano seguinte, em seu terceiro livro (Nos portais do inexplicável), Russo relatou a escalada que fez à Pedra da Gávea partindo da íngreme Estrada das Canoas e penetrando nas matas da Floresta da Tijuca. Uma vez no topo, Russo fez as melhores observações e obteve as melhores e mais detalhadas fotos jamais tiradas do rosto da Pedra da Gávea e de seus arredores. Frente a frente com o “rosto de ancião, que ostenta uma fisionomia grave e extraordinariamente intensa apesar do desgaste causado pela erosão das idades”, constatou serem “seus olhos, duas profundamente escavadas cavernas” que “se dirigem ao interior da rocha maciça. O nariz, de uma fidelidade absoluta e elaborado dentro de uma perspectiva assombrosa, confere àquela face misteriosa um aspecto grave, dir-se-ia mesmo patriarcal. Sua enorme testa, onde são visíveis as espantosas marcas de um corte único, preciso e absolutamente retilíneo, feito sabe-se lá com que aparelhagens, choca o espectador atônito. A sua barba colossal se dirige rumo às profundezas do abismo vertiginoso. Ela é retilínea e também retangular, espantosamente semelhante àquelas usadas pelos veneráveis faraós do Antigo Egito! Não existe boca naquela face. Para aqueles que entendem de Esoterismo, a explicação é bastante lógica: Silêncio, Segredo Guardado!” Enquanto admirava as gigantescas proporções daquele monumento, Russo calculou com razoável precisão a sua altura como sendo de aproximadamente 144 metros.
O topo, aquilatou Russo, era “um planalto gigantesco, estranhamente aplainado… onde na sua face sul, isto é, naquela voltada para o mar, poderiam folgadamente pousar quaisquer tipos de máquinas que aterrissem ou decolem na vertical!” Russo viu ali “blocos de pedra enormes, partidos ao meio com absoluta precisão; exatamente como se faz com uma laranja”.
As tão faladas inscrições, estampadas na lateral leste do rosto de pedra e situadas bem acima da orelha, causaram-lhe “assombro pela sua simetria: são enormes mesmo. Mais de três metros de altura cada caracter! Estão alinhadas em local simplesmente inacessível, em pleno paredão rochoso.” Russo descartou completamente a versão oficial de as inscrições serem “meros trabalhos erosivos, assim como certos setores mais obliterados e radicais querem nos fazer crer”, bem como sua origem pretensamente fenícia ou viking, considerando-as espantosamente semelhantes com o hebraico e o egípcio arcaico. À esquerda da cabeça de pedra, Russo constatou que “existem profundamente gravados na rocha orifícios que, à medida que o Sol segue o seu curso, estampam de maneira impressionante as figuras e uma íbis, um ganso e outros dois peixes! […] Note-se também que situadas à direita daquelas figuras, já na lateral do rosto de pedra, existe uma profusão de inscrições, somente visíveis quando iluminadas pela luz solar; à tarde.”
“A um passo do abismo enregelante”, Russo deparou-se com “outro rosto de homem […] na lateral do maior, a qual se acha voltado para a face norte e não visível desse ponto”. Na área em que se situaria o nariz desse rosto, Russo descobriu gravado um perfeito e “enorme triângulo equilátero cujo vértice aponta para cima, e também um hieróglifo tipicamente egípcio, embora já desgastado pelo tempo: A Cruz Ansata, ou ANKH, a chave da vida e símbolo da imortalidade!” Tais coisas forçosamente o levaram a perguntar “exatamente como alguém poderia ter chegado até lá para confeccionar essa multiplicidade de enigmas. Ainda mais se levarmos em conta que, ainda hoje, mesmo com as nossas modernas técnicas, uma façanha desta natureza seria praticamente impossível, mesmo para os alpinistas mais ousados.”
A orelha, uma caverna de 7 metros de largura por 5 metros de profundidade, a qual se chega após uma descida bem acidentada, “curiosamente lembra a constituição interna do ouvido humano”. Dentro de um fosso, Russo localizou “uma escadaria absolutamente artificial” que daria “acesso ao alto da cabeça de pedra”, conforme “as insistentes lendas que cercam o local”. Ali do topo, Russo pôde avistar em toda a sua plenitude a vizinha Pedra Bonita, de onde costumam saltar os praticantes dos voos de asa-delta, constatando que seu “topo também foi misteriosamente aplainado em ascendência curvilínea”.
De maneira inédita, Russo apresentou outras peças do estonteante quebra-cabeças que forma o gigante-deitado de 18 quilômetros de extensão. Da Avenida Alvorada, estrada que liga a região da Baixada de Jacarepaguá à Barra da Tijuca, nota-se que a Pedra da Gávea, vista dali de um ângulo diametralmente oposto, forma os contornos de um homem deitado de nariz pronunciado e mão colocada ao peito, “exatamente como as múmias egípcias”. Rumando para o afastado bairro do Recreio dos Bandeirantes, praia situada a 18 quilômetros da Pedra da Gávea, Russo localizou ao longe uma montanha que lembra o rosto de um moai da Ilha da Páscoa. A Esfinge da Gávea, curiosamente, olha para uma montanha cujo topo apresenta a forma de uma pirâmide.
Pela tradição mitológica, a esfinge é uma cabeça humana com corpo de leão que simboliza a evolução do homem desde o animal, o triunfo do espírito humano sobre a besta. Sua fisionomia serena irradia um poder cósmico, uma aura que estimula a mente evocando ecos de uma esplendorosa civilização há muito desaparecida. Sobrelevando-se às paixões transitórias e mundanas, olha com sorriso enigmático para o norte magnético da Terra, desprezando as mutilações dos homens e transcendendo tempo e espaço, para o infinito insondável do universo. A palavra egípcia que designava a esfinge era shesep-ankh, que significa “imagem viva”, e que os gregos traduziram erroneamente por sphigx, que significa “atar, ligar”, uma vez que a esfinge é composta por um elemento animal e outro humano ligados entre si. Na Grécia, a esfinge era um monstro alado com cabeça de mulher e corpo de leão que se sentava em Tebas, ao lado de uma estrada, junto a um precipício, e estrangulava os que, passando por ela, não fossem capazes de decifrar o enigma que propunha.
Inúmeras esfinges encontram-se espalhadas pelo Brasil, invariavelmente situadas em locais repletos de lendas, folclores, mitos, mistérios e fenômenos sobrenaturais, como que a guardar segredos ou a indicar algo.
A sudoeste de Goiás, na região de Paraúna, a 155 quilômetros de Goiânia, existem paredes colossais nas faldas de uma serra, uma muralha com cerca de 15 quilômetros, um sistema de túneis com seções de 4 metros de diâmetro, cavados no interior de uma rocha, esculturas zoomorfas e antropomorfas, etc. Enormes blocos de pedra encontram-se sobrepostos, dando a nítida impressão de ruínas ciclópicas. Numa delas, o pesquisador Alódio Tovar, autor do livro A face oculta da natureza: O enigma de Paraúna, constatou o delineamento de uma incrível figura zoomorfa, um grande felino ou talvez uma esfinge. A Serra das Galés está repleta de formações de arenito, sendo que algumas delas receberam os nomes de Pedra da Tartaruga, Cálice de Pedra, Esfinge, Índio, Lorde Francês, Máquina de Escrever, etc.
Na trilha que dá acesso ao Pico das Agulhas Negras (2.887 metros), ponto culminante da Serra da Mantiqueira, aproximadamente a 2.500 metros acima do nível do mar, blocos graníticos (sienito) conhecidos como “Pico das Prateleiras”, sugerem a forma de uma esfinge.
Rumo a noroeste, em direção a Minas Gerais, formando um triângulo alongado que passa pelo topo do Pico das Agulhas Negras, no município de Itamonte, a 417 quilômetros de Belo Horizonte, há uma grande cabeça de pedra conhecida como Pedra do Picu ou “Esfinge de Itamonte”, que se eleva abruptamente da vegetação circundante.
No Parque Estadual de Vila Velha (chamada pelos índios de Itacuretaba, que significa literalmente “Cidade Extinta de Pedra”), a 100 quilômetros da capital Curitiba e a 18 quilômetros de Ponta Grossa, no Paraná, entre as gigantescas figuras de arenito avermelhado (com uma idade de cerca de 340 milhões de anos) a sugerir formas de animas (tais como o camelo, o rinoceronte, o leão, o urso, a cabeça de gorila, a tartaruga, o gavião e a baleia), de objetos (tais como a bota, a garrafa e a taça), de castelos, torres e muralhas (com até 30 metros de altura), de monólitos, da proa de um navio e até de uma pirâmide (ladeada por um rosto de pedra), destaca-se a de uma esfinge, que parece montar guarda no local.
Na cidade de Quixadá, no Ceará, a 167 quilômetros de Fortaleza, há uma colossal figura moldada no topo de uma montanha à beira do Açude do Cedro denominada popularmente de “Pedra da Galinha Choca”, mas que se trataria na verdade de uma esfinge, visto que apresenta um imenso rosto leonino bem como o prolongamento do seu corpo.
Para o arqueólogo peruano Daniel Ruzo de los Heros (1900-1991), principal pesquisador dos monumentos graníticos confeccionados há cerca de dez mil anos pela desaparecida cultura de Huanca em uma área de cerca de 4 km2 em Marcahuasi (planalto dos Andes de origem vulcânica a leste de Lima, na cadeia montanhosa que sobe para a margem direita do Rio Rimac), no Peru, a uma altitude de 4 mil metros, tudo isso “faz parte de evidentes provas que atestam a existência, há milhares de anos no passado terrestre, de uma civilização de caráter religioso solar, que se estendia do Egito aos Andes e ao Brasil”.
Uma esfinge se ergue imponente no topo do Morro do Paranambuco, logo após o costão rochoso da Praia do Sonho, em Itanhaém, litoral sul de São Paulo. Segunda cidade mais antiga do Brasil, escolhida em 22 de abril 1532 pela expedição do navegador português Martim Afonso de Sousa para servir de povoação durante sua estada em São Vicente, Itanhaém (palavra de origem tupi que significa “prato” ou “bacia de pedra”, pia batismal em que os jesuítas batizavam os índios), a 111 quilômetros da capital paulista, ao que tudo indica abrigou, há milhares de anos, uma civilização avançada cuja quase totalidade dos vestígios – incluindo ciclópicos monumentos de pedra – desapareceram pela ação do tempo ou, o que é pior, pelo descaso dos que deveriam cuidar de preservá-los.
A arqueologia e a história oficial, no entanto, ainda não reconhecem que uma cultura de porte ali tenha vicejado ou ao menos deixado vestígios de sua passagem, apesar de, sabidamente, ter sido o litoral sul paulista cortado por uma das rotas principais do Peabiru e densamente povoado pelo chamado “homem do sambaqui”, grupos pescadores-coletores que se destacaram pela sofisticada indústria baseada em artefatos de pedra polida e sobretudo pelos sambaquis (samba = concha; qui = monte), montículos de conchas e restos de alimentos que chegavam a atingir mais de 30 metros de altura e 500 metros de comprimento. A prova mais evidente da presença de grande contingente sambaquieiro na região, às margens do Rio Preto, foi completamente destruída pelos moradores que inadvertidamente usaram as conchas amontoadas como matéria-prima da argamassa para feitura de suas casas.
Em 1983, Fábio Daró e Henrique Viana Arce, membros do Instituto Paulista de Arqueologia, tomaram conhecimento de que um morador havia encontrado uma urna durante trabalhos realizados no quintal de sua residência. Dirigindo-se ao local, depois denominado Sítio Arqueológico Tanigua I, constataram a existência de um cemitério tupi-guarani composto por urnas de cerâmica contendo esqueletos e oferendas funerárias. Uma das urnas, datada do século XVI, integra o acervo da Prefeitura e foi exposta em abril de 2002 no Museu da Casa de Câmara e Cadeia por ocasião da comemoração dos 470 anos da cidade.
O historiador Luiz Galdino em seu livro Peabiru: Os incas no Brasil, alude aos caminhos do Peabiru em Conceição de Itanhaém, Iguape e Paranaguá, noticiados pelo santista José Bonifácio de Andrada e Silva, o “Patriarca da Independência”. Segundo Galdino, “o litoral sul de São Paulo, centralizado por Iguape, acabou por se transformar no mais importante repositório de peças e descobertas que concorreram para viabilizar a hipótese da origem incaica desses caminhos. Tão grande foi a quantidade de machados de prata e de cobre, descobertos na região, que poucos viajantes tornaram à Europa sem levar o seu exemplar.”
Espraiando-se por uma área de 597,4 km2, a natureza exibe em Itanhaém traços exuberantes. Conhecida como “Amazônia Paulista”, a bacia hidrográfica compõe-se de cerca de 2 mil quilômetros de rios navegáveis e não navegáveis, riachos e cachoeiras, manguezais, florestas de planície e matas ciliares. O Rio Itanhaém, principal rio do município, deságua no mar, entre o Morro ou Mirante do Sapucaitava (“forma de semente” em tupi-guarani, o ponto mais alto de Itanhaém) e a Praia do Centro. Formado pelas águas escuras do Rio Preto e pelas límpidas águas do Rio Branco, possui ainda outros afluentes: Campininha, Curitiba, Aguapeú e Mambu. Mas são os 47 quilômetros de praias o principal atrativo dos turistas e da população flutuante, que no verão eleva o número de habitantes de setenta para quatrocentos mil. A praia mais badalada e frequentada é a do Sonho. De suave curvatura, possui 800 metros de águas calmas e claras. Inicia-se depois da Praia dos Pescadores e termina no imponente costão do Morro do Paranambuco, onde fica a Praia das Conchas, cuja areia grossa deriva literalmente de restos de conchas.
É justamente no topo do Morro do Paranambuco, a última elevação dos costões – após isso, somente os Maciços da Jureia no município de Peruíbe –, entre a Praia do Sonho e Cibratel (a de maior extensão e largura do município), que há um imponente conjunto de pedras que, visto de determinados ângulos da praia, afigura-se como uma esfinge, daí ter sido batizado de “Pedra da Esfinge”. Há quem veja nela a representação do perfil de uma mulher aos moldes egípcios.
A esfinge só surgiu por causa da escavação do topo do morro em seu processo de urbanização, no começo do século XX, como atestam as fotos da época. Manteve-se, portanto, oculta sob a terra por sabe lá quantas eras, protegida da implacabilidade do tempo e dos homens, tal qual a sua “matriz”, a Esfinge de Gizé, perto do Cairo, no Egito, que por várias vezes teve de ser desenterrada das areias do deserto. Há mais de seis mil anos, na Quarta Dinastia, Khafra (Khafre ou Quéfren, que reinou durante 26 anos, em torno de 2570 a.C., construtor da segunda maior das pirâmides de Gizé, a de Quéfren, único templo remanescente do período) desenterrou o monstro de pedra e providenciou sua imortalidade mandando que nela se inscrevesse seu nome. O jovem príncipe Tutmés IV (ou Tutmósis IV, oitavo rei da 18ª Dinastia que reinou de 1412 a 1402 a.C.), certo dia, cansado da caçada, adormeceu entre as grandes patas, ao que o “deus sol” lhe apareceu em sonho e o impeliu a afastar as areias que a recobriam. Em 162 d.C., o imperador romano Marco Aurélio (121-180) desenterrou a Esfinge para que os homens pudessem admirá-la. Ao triunfo do cristianismo seguiu-se o seu completo abandono: só o rosto espreitava acima da areia; o restante do corpo teve de esperar até o século XIX, quando os egiptólogos finalmente o trouxeram à luz.
Escalei o morro pelas suas encostas, preterindo a estrada, para que fosse observando as diversas formas assumidas pela esfinge à medida que me aproximava. O esforço da subida, naqueles últimos dias de verão e sob uma inclemente temperatura de mais de 30º C, valeu a pena. Lá do alto se tem uma linda vista do oceano, das praias adjacentes e de uma parte da cidade. Fiquei a imaginar os primeiros navegadores aportando com suas naus naquele magnífico cenário e os índios ali postados acompanhando atônitos tão inusitada chegada. Inerentemente ao processo de desbastação que a descaracterizou, a esfinge se encontra bastante desgastada, porém ainda conserva os “traços originais” conferidos pelos seus autores, isto é, se é que os houve, uma vez que para os geólogos trata-se meramente de um produto da erosão.
Os três maciços de pedra que a compõe, observados distintamente, sugerem variadas figuras. Uma delas, a que propriamente constitui a cabeça da esfinge, lembra o perfil de um rosto de traços negroides. No platô de uma das pedras que formam o corpo de leão e que se eleva a cerca de 10 metros de altura, uma bandeira brasileira foi fixada. O conjunto transmite a impressão de uma obra artificial, adrede planejada. A cabeça é a que mais denota isso por apresentar ângulos retos e cavidades ou depressões do que outrora foram os olhos e a boca. Encimando-a, há um enorme bloco triangular, de cortes precisos, caprichosamente colocado à guisa de realce ou complemento à face e sugerindo um toucado real, tal como na Esfinge de Gizé. E tal como uma de suas tantas congêneres, a famosa Esfinge da Gávea, no Rio de Janeiro, a Esfinge de Itanhaém está de costas para o sul, para o Oceano Atlântico, e com o enigmático rosto voltado na direção do norte magnético da Terra. E tal como a lenda grega, a Esfinge de Itanhaém, de lineamentos femininos, está à beira de um precipício nos propondo o enigma de sua origem e significação.
Próxima dali, integrando o “complexo arquitetônico da esfinge”, encravada entre o costão rochoso da Praia do Sonho e o Atlântico, está a Cama de Anchieta, uma curiosa formação rochosa que lembra um leito, com pequeno aclive na parte esquerda e coberta por um “dossel”. O acesso se dá por trilhas entre rochas irregulares e escorregadias, por isso deve ser feito com cuidado. Reza a lenda que em suas peregrinações por Conceição de Itanhaém, o padre jesuíta espanhol José de Anchieta (1534-1597) lá se deitava para descansar, meditar e buscar inspiração para as suas poesias. Numa pequena enseada no sopé do morro, formada por rochas de grande e médio porte, convenientemente denominada de Pocinho de Anchieta, o padre jesuíta teria ensinado os índios a fazer uma barreira de pedras para dessa forma represarem os peixes.
Embora em desacordo com a posição dos comodistas que pretendem ver na Esfinge de Itanhaém apenas o “capricho da natureza”, admito que de fato não há elementos de peso para corroborar a hipótese de que uma civilização extremamente evoluída tenha deixado em Itanhaém as suas silenciosas porém grandiloquentes marcas, talvez um testemunho perene para os homens do futuro. O fato iniludível é que na base de todos os insólitos monumentos que desafiam a nossa compreensão por todos os quadrantes da Terra, subjaz uma origem comum, uma história oculta de mistérios muito maiores do que se imagina, considerando que muita coisa ainda há para ser descoberta.

2. Homenagem e tributo a Thor Heyerdahl

A maior inspiração para este projeto vem de Thor Heyerdahl (1914-2002), biólogo, geógrafo, antropólogo, arqueólogo, explorador e escritor norueguês que em 1947, junto de cinco conterrâneos (Knut Haugland, Bengt Emmerik Danielssen, Erik Hesselberg, Torstein Raaby e Herman Watzinger), realizou o feito de percorrer 8 mil quilômetros de Oceano Pacífico a bordo da “Kon-Tiki” (nome do herói mítico polinésio da solitária Ilha de Fatuhiva, pertencente ao grupo das Ilhas Marquesas, que segundo a tradição oral teria trazido os antepassados ​​dos ilhéus desde o leste), réplica de uma jangada primitiva de pau-de-balsa que construiu com materiais e técnicas pré-colombianas, demostrando que os mares não se constituíam em barreiras intransponíveis, como se pensava, mas antes em autênticas “vias expressas” a interligar povos e continentes.
A tese de Heyerdahl, publicada pela primeira vez em 1941 enquanto trabalhava no Museu da Colúmbia Britânica, era a de que os traços etnológicos e linguísticos comuns entre a Polinésia e a América do Sul eram o resultado de duas ondas migratórias. A primeira, de povos incaicos, teria ocorrido por volta do ano 500, ou seja, os primitivos povoadores das Ilhas dos Mares do Sul teriam partido do Peru – em balsas de madeira – e não da Indonésia, no sudeste asiático, como era consenso entre a comunidade científica da época, tanto mais porque, conforme Heyerdahl observara, o vento e as correntes oceânicas fluíam do leste para oeste. Centenas de anos depois, um segundo grupo étnico teria chegado ao Havaí em canoas duplas provenientes da Colúmbia Britânica. O principal argumento contra as ideias de Heyerdahl era a de que os pré-colombianos não possuíam barcos capazes de cruzar o Oceano Pacífico, o que se constituía em falácia ou ignorância, já que bastou uma simples ida à biblioteca para que Heyerdahl desenterrasse relatórios deixados pelos primeiros europeus que haviam atingido a costa do Pacífico na América do Sul repletos de esboços e descrições das enormes jangadas manobráveis dos indígenas, os quais possuíam vela quadrada, quilha corrediça e um comprido remo de direção na popa.
Uma vez que os cientistas receberam a sua tese com frieza e cepticismo, Heyerdahl decidiu lançar-se em uma expedição marítima para prová-la. A tosca embarcação, uma balsa de junco totora similar às utilizadas pelos mochicas (cultura que floresceu no norte do Peru entre 100 a.C. e o ano 800), foi construída no Peru com troncos de pau-de-balsa (Ochroma pyramidale, madeira leve e resistente, mais leves do que a cortiça, encontrada entre as matas tropicais ao norte da América do Sul até o sul do México) cortados nas florestas ao sopé da Cordilheira dos Andes, no Equador (trazidos para o Peru flutuando rio abaixo), e amarrados uns aos outros com cordas de cânhamo, sem um único prego, cravo ou cabo.
Nos nove dos mais grossos troncos de balsa selecionados para serem os toros mestres, fundos sulcos foram escavados para impedir que as cordas que passavam por eles para amarrar toda a jangada não escorregassem. Os nove troncos foram então colocados lado a lado na água para que pudessem todos cair livremente na sua posição natural flutuante antes de serem fortemente amarrados uns aos outros. O toro mais longo, de 13,70 metros de comprimento, foi colocado no centro e se projetava bem além dos outros numa e na outra ponta. Toros cada vez mais curtos foram postos simetricamente a um e a outro lado de modo que os lados da jangada tivessem 9 metros de comprimento e a proa emergisse como um arado grosseiro. Depois que os nove troncos de balsa foram fortemente amarrados uns aos outros com corda de cânhamo de 1 polegada e de ¼ de polegada, de comprimentos diferentes, os toros finos de balsa medindo 30 centímetros por 5,50 metros foram amarrados de través sobre aqueles, com intervalos de cerca de 90 centímetros. Sobre a estrutura foi posta uma coberta de proa medindo 3,60 metros por 5,50 metros feita de taquaras amarradas à jangada na forma de sarrafos separados e cobertos com esteiras soltas de bambu trançado. No meio da jangada, perto da popa, ergueram uma pequena cabana aberta feita de bambu com paredes também de bambu e telhado de fasquias de bambu com folhas de bananeira que se encaixavam umas nas outras como se fossem telhas. Media 2,40 metros por 4,20 metros, e para diminuir a pressão do vento e do mar era de altura tão baixa que não podiam ficar em pé sem bater a cabeça no teto. As paredes e a coberta eram feitas de fortes hastes de bambu amarradas e eram tapadas por uma sebe de varas também de bambu. À frente da cabana levantaram dois mastros de mangueiro (de uma dureza de ferro) de 8,80 metros de altura que se inclinavam um para o outro e no topo eram amarrados em cruz. A enorme vela quadrada de lona medindo 4,60 metros de altura por 5,50 metros de largura, tendo ao centro a cara barbada de Kon-Tiki (uma cópia fiel da cabeça do rei sol esculpida em pedra vermelha sobre uma estátua nas ruínas da cidade de Tiahuanaco), pintada de vermelho pelo artista Erik, foi carregada numa verga feita de dois paus de bambu amarrados. Os nove enormes toros de madeira afilavam-se ligeiramente nas extremidades à moda indígena, para poderem deslizar com mais facilidade na água, e tábuas bem baixas para proteção contra borrifos foram ligadas à proa acima da superfície do mar. Em vários lugares onde existiam grandes fendas entre toros, introduziram ao todo cinco sólidas pranchas de abeto cujas pontas imergiam na água sob a jangada. Foram postas mais ou menos a esmo e penetraram a 1,50 metros na água, tendo 25 metros de espessura e 60 centímetros de largura. Ficavam seguras no respectivo lugar por meio de cunhas e cordas e serviam de pequeninas quilhas paralelas. Quilhas deste tipo eram usadas em todas as jangadas de pau-de-balsa no tempo dos incas e eram destinadas a evitar que as jangadas chatas de pau vogassem para qualquer lado à mercê do vento e das ondas. Não puseram nenhuma grade ou proteção em volta da jangada, mas tinham um toro de balsa, comprido e delgado, que de cada lado oferecia apoio aos pés. A construção toda era uma cópia fiel das antigas embarcações do Peru e do Equador, com exceção dos guarda-borrifos, colocados nas proas, que posteriormente se verificou serem inteiramente desnecessários.
Respeitadas as linhas gerais, a tripulação estava livre para arrumar os demais detalhes a bordo como lhe aprouvesse. Embaixo da cabana, entre as vigas transversais, oito caixotes foram amarrados. Dois foram reservados para instrumentos científicos e filmes, e os outros seis foram distribuídos a cada um dos tripulantes, tendo cada um sido inteirado de que poderia trazer consigo coisas de seu uso privado que coubessem no seu caixote. Sobre os caixotes foram postas esteiras de junco trançado e os colchões de palha. Knut e Torstein reservaram um canto da cabana de bambu para o transmissor de ondas curtas que com os seus 13.990 kc (kilociclos por segundo ou milhares de ciclos por segundo, um termo obsoleto para kilohertz) não emitia mais do que 6 watts, tendo mais ou menos a mesma potência de um maçarico elétrico. Durante a viagem, a dupla sempre esteve às voltas para manter em funcionamento a pequena estação de rádio de 30 centímetros acima da superfície da água. Todas as noites eles se revezavam para enviar ao éter informações e observações acerca da viagem que radioamadores avulsos captavam e retransmitiam ao Instituto Meteorológico de Washington e a outros centros. Do lado externo da parede da cabana, Bengt instalou um fogareiro “Primus” no fundo de um caixote vazio solidamente amarrado ao convés. Este caixote, abrigado contra os ventos alísios de sudeste que, via de regra, sopravam do lado oposto, era a “cozinha” onde fritavam os peixes e preparavam outros pratos.
O Kon-Tiki levava provisões para quatro meses na forma de sólidas caixinhas de papelão impermeabilizadas com uma camada uniforme de asfalto e dispostas lado a lado sob a coberta de bambu entre as nove baixas vigas transversais que sustentavam a coberta. Numa fonte cristalina jorrando de uma alta montanha, encheram 56 latinhas de água, contendo ao todo 250 galões de água potável, as quais foram amarradas entre as vigas transversais de maneira que a água do mar pudesse sempre borrifá-las. Sobre a coberta de bambu amarraram o resto do material e grandes cestos de vime cheios de frutas frescas que comeram dentro de poucas semanas antes que apodrecessem. Dos duzentos cocos que levaram, a metade que havia sido posta entre as provisões especiais abaixo do convés, com as ondas a banhá-las incessantemente, se estragaram devido ao contato com a água salgada. Foram os olhos dos cocos que absorveram a água e os amoleceram, ocasionando a invasão da água salgada.
Como os antigos navegadores incas, por sua vez, se preparavam para suas viagens há mil anos atrás? Heyerdahl forneceu-nos um quadro bastante factível:

“Fossem quais fossem os planos desses adoradores do Sol, ao fugirem de sua pátria eles certamente se proveram de mantimento para a viagem. Carne seca, peixe e batata doce eram a parte mais importante de seu primitivo regime alimentar. Quando os navegantes em jangada daqueles tempos se fizeram ao mar, ao longo da erma costa do Peru, dispunham de amplo abastecimento de água a bordo. Em vez de vasilhas de barro, geralmente usavam enormes cabaças que resistiam a golpes e choques, enquanto ainda mais próprias ao uso em jangada eram as grossas hastes de gigantescos bambus; furavam todos os nós e introduziam a água por um buraquinho no fundo, que vedavam com um batoque ou com breu ou resina. Trinta ou quarenta dessas grossas hastes de bambu ficavam à sombra e se conservavam frias – a uns 26º C, na corrente equatorial – graças à água fresca do mar que as estava sempre banhando. Um depósito dessa espécie continha duas vezes a quantidade de água que nós usamos em toda a nossa viagem, e podia ser levada quantidade ainda maior simplesmente amarrando mais hastes de bambu na água, por baixo da jangada, onde, além de não ocuparem espaço, nada pesavam. Verificamos que, volvidos dois meses, a água doce começou a alterar-se e ter um gosto ruim. Mas, a esse tempo, a gente já deixou bem atrás a primeira área do oceano onde há pouca chuva, e já chegou, há muito, a regiões nas quais grossas pancadas de chuva podem equilibrar a provisão de água. Distribuímos diariamente para cada homem um bom litro de água, e raro era o dia em que a dose se esgotava. Ainda mesmo que os nossos predecessores tivessem partido de terra sem provisões adequadas, enquanto vogavam pelo mar, ter-se-iam arranjado com a corrente, na qual havia peixe em abundância. Não se passou um dia em toda a nossa viagem em que não houvesse peixes em redor da jangada e que não pudessem ser facilmente apanhados. Mal houve um dia sem que ao menos peixes-voadores viessem espontaneamente cair a bordo. Sucedeu até que grandes bonitos, comida deliciosa, subiam à jangada com as massas de água que entravam pela popa, e ficavam a rabear na embarcação quando a água escorria por entre os toros como num crivo. Morrer de fome era impossível.”

Sobre o Kon-Tiki viajaram os seis destemidos noruegueses durante 101 dias, do Porto de Callao, na costa do Peru, de onde partiram em 28 de abril, até os recifes do Atol de Raroia, no Arquipélago de Tuamotu, extremo sul da Polinésia, aonde chegaram em 7 de agosto, provando que os povos pré-colombianos possuíam habilidades muito avançadas para a navegação em alto mar e, portanto, podiam perfeitamente ter chegado à Polinésia por volta do ano 500 desta maneira, seguindo a trajetória do Sol e se deixando levar pelo vento e pela Corrente de Humboldt [corrente oceânica que percorre o Pacífico, assim denominada em homenagem ao geógrafo, naturalista e explorador alemão Alexander von Humboldt (1769-1859), que a descobriu e a estudou].
A aventura, inédita em seu gênero, foi das mais arriscadas e perigosas – praticamente ninguém acreditou no sucesso da expedição e não faltaram os que tentassem dissuadi-los a abandonarem tão desvairada ideia. Até apostas foram feitas em torno do número de dias que a jangada aguentaria. Completamente sozinhos em alto-mar, estiveram muitas vezes às voltas com violentas tempestades, cercados de tubarões e quase viram a jangada destroçada pela fúria da arrebentação. Contrariando porém todos os prognósticos desfavoráveis, o sucesso coroou a expedição sobre a qual mais tarde se escreveram dezenas de livros e centenas de artigos e reportagens.
Não obstante tamanha façanha, só superada em termos de importância à chegada do homem a Lua 23 anos depois, Heyerdahl ainda teve de continuar enfrentando a incompreensão e a reticência. O manuscrito de Kon-Tiki, oferecido primeiramente às editoras americanas, foi rejeitado sob a alegação de que o público não iria se interessar por uma história em que ninguém – à exceção do papagaio verde, presente de despedida de uma pessoa amiga de Lima, levado a bordo à guisa de mascote, que dois meses após a partida foi tragado por um vergalhão que invadiu a embarcação pela popa – havia morrido. E Heyerdahl provou mais uma vez o quanto estavam errados. A epopeia que narrou em detalhes emocionantes em seu livro majoritariamente voltado ao grande público, Kon-Tiki ekspedisjonen vendeu mais de 30 milhões de exemplares e foi traduzido para 67 idiomas desde que foi lançado em 1948. Em American Indians in the Pacific: The theory behind the Kon-Tiki Expedition, lançado em 1952, Heyerdahl se vale dos dados incontestáveis e abrangentes que coletou durante a expedição para tentar convencer a comunidade acadêmica de que os primeiros colonos da Polinésia saíram do Peru por volta do ano 500 e que uma nova vaga de colonos chegou da costa noroeste da América do Norte entre 1000 e 1300. As cenas mais emocionantes filmadas durante a sensacional viagem foram editadas em 1950 por Olle Nordemar na película em preto-e-branco Kon-Tiki, vencedor do Oscar de melhor documentário em 1951. Em 2012, a história da Kon-Tiki finalmente virou filme (intitulado, como não poderia deixar de ser, Kon-Tiki) com roteiro de Petter Skavlan, direção de Joachim Ronning e Espen Sandberg e com o ator Pål Sverre Valheim Hagen no papel de Thor Heyerdahl.
Eleito em 1999 o norueguês do século, Heyerdahl nasceu na cidade de Larvik (no condado de Vestfold, a cerca de 105 quilômetros a sudoeste de Oslo) em 6 de outubro de 1914. Seu pai era dono de uma fábrica de água mineral e de uma cervejaria, enquanto sua mãe, bióloga darwinista, dirigia o museu local. Desde tenra idade ele percorria as florestas adjacentes e escalava as montanhas de trenó. Apesar do seu gosto pela natureza e pela aventura, ele permaneceu com medo da água depois do trauma de quase morrer afogado na infância e não aprendeu a nadar senão aos 22 anos de idade.
Recém-graduado em Zoologia e Geografia na prestigiosa Universidade de Oslo, bem como recém-casado, Heyerdahl recebeu uma ajuda financeira para pesquisar a vida animal na pequeníssima e isolada Ilha de Fatuhiva, pertencente ao grupo das Ilhas Marquesas. Na véspera de Natal de 1936, junto com sua esposa Liv Coucheron Torp (de quem se divorciaria em 1947 em decorrência do ressentimento gerado por conta de seu total engajamento na Expedição Kon-Tiki), foi para lá fugir àquilo que considerava ser o “punho de ferro da civilização”. O casal em plena lua de mel foi adotado por Teriieroo, o chefe da Ilha de Taiti. A experiência de viver ao estilo primitivo, no entanto, não se mostrou das mais aprazíveis. Logo que chegou em Fatuhiva, Heyerdahl descobriu que os nativos estavam sofrendo de uma série de doenças, incluindo a lepra e a elefantíase, induzidas pelo contato com os europeus. Ele e Liv passaram meses morando em uma rústica choupana por eles mesmos construída sobre estacas, debaixo das palmeiras e perto da praia, alimentando-se de raízes, frutos silvestres, peixes e camarões de rio, embora logo descobrissem que o estômago moderno estava desadaptado à dieta primitiva. Liv adoeceu gravemente e Heyerdahl teve que apelar à medicina moderna para salvá-la. O tempo em que permaneceu na ilha, no entanto, não foi desperdiçado. Após cair acidentalmente em um rio, Heyerdahl descobriu que podia nadar. Enquanto pesquisava as origens transoceânicas dos animais da ilha, dedicou-se a conhecer as tradições dos polinésios. Como teriam ido ali parar e que tipo de herança cultural teriam trazido com eles? De um ex-canibal, o velho Tei Tetua, único sobrevivente de todas as extintas tribos da costa oriental de Fatuhiva, Heyerdahl ouviu a história do mítico herói Tiki, a quem os nativos consideravam ao mesmo tempo deus, chefe e filho do sol. Desde então, uma única questão passou a orientar a sua vida e as suas teorias: como e quando o homem primitivo aprendeu a fazer travessias marítimas? Heyerdahl contou em detalhes as experiências que viveu em Fatuhiva em seu livro Green was the Earth on the seventh day, publicado em 1997.
A sua convicção na existência de laços entre os povos antigos jamais diminuiu, muito pelo contrário. Em 1953, liderou uma expedição arqueológica norueguesa ao Arquipélago das Galápagos (grupo de treze ilhas no Oceano Pacífico a cerca de 1.000 quilômetros a oeste da costa do Equador que por sua elevada biodiversidade atraiu a visita do jovem Charles Darwin em 1835), onde, seis anos antes, quase desembarcara com a balsa Kon-Tiki. Em meio a árvores de cactos, entre lagartos gigantescos e as maiores tartarugas do globo, desenterrou, com a ajuda dos arqueólogos E. K. Reed e Arne Skjölsvod, mais de dois mil fragmentos de jarros (pertencentes a 130 jarros diferentes) deixados pelos precursores dos incas que haviam partido das costas da América do Sul e ali aportado depois de terem navegado ao largo com suas balsas. Peritos em Washington analisaram os fragmentos e estabeleceram que mil anos antes de Colombo, os precursores dos incas tinham realizando repetidas visitas às Ilhas Galápagos. No ano seguinte, Heyerdahl, que tem parte de sua família no Brasil, veio ao nosso país como convidado para participar do Congresso Internacional de Americanistas, em São Paulo, ao que aproveitou para conhecer e estudar os nossos índios. Assessorado pela indigenista Harald Schultz, de quem obteve muitas e preciosas informações, e acompanhado de sua segunda esposa, a bela Yvonne Dedekam-Simonsen (com quem havia se casado em 1949 e de quem se divorciaria em 1979), e da pesquisadora Wilma Chiara, Heyerdahl penetrou incógnito nas selvas do Brasil Central e esteve na Aldeia dos Carajás, perto de Aruanã, nas margens do Rio Araguaia.
No início de 1955, Heyerdahl começou a planejar uma expedição arqueológica à Ilha da Páscoa (assim chamada por ter sido descoberta na tarde do dia de Páscoa de 1722 pelo holandês Jacob Roggeveen, mas chamada pelos nativos de Rapanui, ou, conforme a denominação mais antiga, Te Pito o te Henua, ou “Umbigo do Mundo”), a primeira de grande porte e de longa permanência jamais realizada na mais distante e solitária ilha do Pacífico conhecida por suas centenas de misteriosas estátuas gigantes. Obteve o patrocínio do então príncipe Olavo V da Noruega (1903-1991, rei a partir de 1957), e a permissão, da parte do governo do Chile, por intermédio do Ministério do Exterior da Noruega, para que a expedição pudesse escavar na Ilha da Páscoa. Em setembro, à frente de um grupo de 23 homens (incluindo cinco arqueólogos, um médico, um fotógrafo, além de especialistas das mais diversas áreas) e acompanhado de sua esposa Yvonne, de sua filha Anette e de seu filho Thor Jr., Heyerdahl, chegou ali a bordo de um navio que alugara de uma usina de enlatamento de peixe de Stavanger devidamente reequipado com peças de recâmbio, aparelhamento especial e demais suprimentos suficientes para um ano.
As escavações – as primeiras empreendidas na ilha – conduzidas pelos cinco arqueólogos (três norte-americanos, um norueguês e um chileno), logo descobriram que a ilha teve no passado uma grande quantidade de bosques que haviam sido derrubados pelos moradores nativos e que estes cultivavam muitas plantas oriundas da América do Sul. Datações feitas por Carbono-14 mostraram que a ilha havia sido ocupada desde aproximadamente o ano 380 (portanto cerca de mil anos mais cedo do que se acreditava) em três épocas culturais distintas, a segunda das quais concebeu os moais, as famosas estátuas gigantes de pedra. Escavações indicaram também que muitas obras feitas de pedras (encaixadas com precisão admirável) eram deveras semelhantes às construídas pelas antigas civilizações peruanas.
No topo do penedo de Orongo, a equipe de Heyerdahl encontrou pinturas rupestres que representavam botes de junco em forma de crescente e munidos de mastros, um dos quais possuía amarras laterais, afora uma grande vela quadrada. A esse respeito, pormenorizou Heyerdahl:

“É sabido que, outrora, os habitantes da Ilha da Páscoa construíram para seu uso botes de junco para um e para dois homens, iguais aos que os incas e os predecessores haviam usado ao longo da costa do Peru, desde tempos imemoriais. Mas ninguém jamais tivera notícias de os antigos nativos da Ilha da Páscoa haverem feito botes de junco, de proporções suficientes para aplicação de velas. Eu tinha pessoalmente razões especiais para me interessar por isto: velejara no Lago Titicaca em botes de junco desta espécie, levando índios montanheses, do planalto de Tiahuanaco, na qualidade de tripulantes. Eu sabia que se tratava de embarcações esplêndidas, de incrível capacidade de carga e de insuspeitada velocidade. Ao tempo das conquistas espanholas, grandes botes de junco desta categoria se encontravam também em uso no mar aberto, ao largo da costa do Peru; e antigos desenhos, encontrados em jarros dos tempos pré-incaicos, mostram que, durante o mais remoto dos períodos da civilização peruana, o povo construiu navios propriamente ditos, com juncos, exatamente como os antigos egípcios armaram barcos de papiro. Jangadas, compostas de troncos de balsa e embarcações com forma de bote, feitas de junco de água doce, constituíam meios inafundáveis de transporte, que o povo do Peru preferia para todo o seu tráfego marítimo. Eu também sabia que os barcos de junco podiam flutuar durante muitos meses, sem começar a fazer água; um barco de junco do Lago Titicaca, que amigos peruanos levaram para o sul do Pacífico, enfrentou as vagas como um cisne, singrando duas vezes mais rápido do que uma jangada de balsa. E agora os botes de junco apareciam, de súbito, numa velha pintura de forro, na casa nº 19, de Ed, já em ruínas, à orla da cratera do maior vulcão da Ilha da Páscoa.”

O arqueólogo Arne Skjölsvod desenterrou perto da cratera Rano Raraku o corpo de uma estátua gigantesca que estivera metida no chão com apenas a cabeça acima do nível do solo. No peito da estátua havia uma imagem representando um grande bote de junco com três mastros e várias velas, sendo que do convés do bote, uma longa linha corria para baixo, até uma tartaruga esculpida à altura do estômago do gigante. Heyerdahl registrou que “todos eles se manifestavam convencidos de que este era o próprio navio de Hotu Matua, porquanto ele desembarcara na ilha com várias centenas de homens a bordo de dois navios tão espaçosos que Oroi, o pior inimigo de Hotu Matua, realizara a viagem na qualidade de clandestino. Não há honus, ou tartarugas, de nenhuma espécie na ilha nos dias de hoje; entretanto, quando Hotu Matua chegou, um de seus homens fôra ferido ao tentar agarrar uma tartaruga enorme, na praia, em Anakena”. Arguiu Heyerdahl que “aqueles infatigáveis gênios da engenharia não eram apenas meros peritos construtores em pedra; fôra na qualidade de marinheiros, de categoria mundial, que eles haviam encontrado o seu caminho para este pequeno paraíso, o mais solitário do mundo, onde, durante séculos, foram capazes de construir as suas estátuas de pedra em paz. Uma vez que eles dispunham do junco totora, e faziam uso dele para armar pequenas embarcações, não havia, com efeito, razão alguma pela qual não pudessem ser capazes de aumentar-lhes as proporções, de acordo com as conveniências, pelo processo de atar juncos mais longos, e em maior quantidade, em feixes adequados.” Heyerdahl apurou ainda que “no século passado, o Padre Roussel teve informação da existência de grandes navios que poderiam transportar quatrocentos passageiros e que possuíam proa altaneira, erguida como o colo de um cisne, ao passo que a popa, igualmente alta, se apresentava dividida em duas partes separadas. Muitos dos barcos de junco, que nós encontrávamos pintados em antigos jarros no Peru, são exatamente como estes. O padre Sebastião viera a saber que houve um grande navio, com a forma de uma jangada rasa, ou chata. Isto se chamava vaka poepoe, e era também usado quando os navegadores encetavam longas viagens, com muitas pessoas a bordo.” A expedição encontrou em estátuas, bem como na própria pedreira, várias dessas figuras representando embarcações feitas de feixes de juncos nitidamente separados, incluindo um bote com mastro e vela quadrada e um bote de junco com mastro atravessando diretamente o umbigo redondo de um moai de 10 metros.
Heyerdahl armou suas tendas no antigo local de residência do lendário rei Hotu Matua, e quando começou a trazer à luz do dia estátuas descomunais e esculturas estranhas de que ninguém nunca antes tivera notícias, os habitantes da Ilha da Páscoa logo começaram a atribuir-lhe poderes supernaturais e a considerá-lo como um dos seus antepassados que regressara para junto deles. Com o transcorrer dos meses, os vínculos que ligavam o “Senhor Kon-Tiki” aos nativos tornaram-se inquebrantáveis. Os insulares admitiram que ele possuía um poderoso aku-aku (espécie de espírito protetor, de uso privado, que o ajudava em tudo quanto ele empreendia) e então o iniciaram nas suas tradições mais secretas, permitindo que se tornasse o primeiro europeu a adentrar em suas cavernas subterrâneas repletas de esculturas de pedra, as quais revelaram aspectos inusitados sobre a cultura e a religião da Ilha da Páscoa. Havia pelo menos quinze dessas cavernas de família (pertencentes somente aos descendentes dos orelhas-compridas e indivíduos que possuíssem sangue de orelha-comprida em suas veias) ainda em uso, sendo que muitas outras permaneciam ocultas. Mediante astutas negociações em que teve de vencer uma série de tabus e superstições, Heyerdahl obteve dezenas dessas valiosas esculturas de pedra, algumas remontando a centenas de anos. A mais valiosa era uma peça representando um bote de junco redondo com três mastros e velas espessas, profundamente sulcadas, que se situavam em orifícios redondos, ao longo da coberta abaulada.
A corroborar as teorias de Heyerdahl, alguns moradores da ilha contaram que de acordo com suas lendas eles originalmente haviam chegado provenientes do Leste, que só poderia ser a América do Sul.
Após ter permanecido na Ilha da Páscoa por quase um ano (de setembro de 1955 a agosto de 1956), a expedição resolveu rumar para Rapa Iti [chamada de Rapa Iti (“pequena”) para ser distinguida da Ilha da Páscoa, chamada de Rapa Nui (“grande”)], uma das ilhas do Arquipélago das Austrais, na Polinésia Francesa, a 1.240 quilômetros ao sul do Taiti, descoberta pelo capitão inglês George Vancouver em 1791. Heyerdahl queria investigar a antiga lenda, contada pelos nativos de Rapa Iti, de que a ilha fôra povoada primeiramente por mulheres que ali chegaram (muitas delas grávidas) a bordo de barcos primitivos procedentes da Ilha da Páscoa. Com uma área de 40 km², seus cumes mais elevados em Morongo Uta (“Paz de Espírito”) se parecem com as pirâmides do México cobertas de vegetação ou com as fortificações escalonadas dos incas. A intenção era escavar justamente o topo da colina que consiste em uma série de plataformas ou terraços planos feitos de pedra, encimados por uma torre de vigia. A vegetação que a revestia foi removida completamente e uma área vermelho-escura da rocha foi exposta. Ao redor, se erguiam outros picos que consistiam em pirâmides artificiais. De acordo com Heyerdahl, “era errado denominar aquilo de fortaleza. Era errado dizer que aquilo constituía um conjunto de terraços agrícolas. Porque lá em cima, nas alturas extremas, a inteira população da ilha tivera, outrora, sabe Deus quando, o seu lugar permanente de moradia.”
Apesar de haver abundância de chão plano no leito dos vales, os que primeiramente ali chegaram optaram por escalar as faldas acima e atingir o topo das escarpas mais inacessíveis, fixando-se ao redor dos picos mais elevados. Como constatou pessoalmente Heyerdahl,

“atacaram a rocha viva com instrumentos de pedra e transformaram o topo da montanha em torre inexpugnável. Ao redor e abaixo dessa torre, o rochedo inteiro foi cavado e modelado em terraços enormes. […] Outrora, aquela deveria ter sido uma aldeia muito bem fortificada. Um fosso gigantesco, com parapeito do lado elevado da aldeia, barrava o caminho a quem quer que fosse que se avizinhasse procedendo do espinhaço do sul. Centenas de milhares de pedras de basalto duro tinham sido penosamente carregadas, do leio do vale ao topo da montanha, para dar apoio aos terraços sobre as quais se haviam erguido as cabanas, para que eles não ruíssem e não se precipitassem no abismo, sob os efeitos das violentas tempestades de chuva, comuns em Rapaiti. Os blocos de pedra, não lavrados, haviam sido juntados de maneira magistral, sem emprego de reboco; aqui e acolá, um canal de drenagem corria através da muralha; ou, então, umas pedras compridas se projetavam e formavam uma espécie de escada, indo de um terraço a outro. Havia lá mais de oitenta terraços, naquela aldeia de Morongo Uta; e todo o conjunto acusava uns 55 metros de altura, com a expansão de uns 450 metros. Era, assim, a maior estrutura contínua jamais descoberta em toda a Polinésia. […] a população de Morongo Uta cortara nichos pequenos, em forma de domo, na rocha, por trás dos terraços, e ali construíra, para seu próprio uso, templos em miniatura; no chão plano de tais templos havia renques de quadrados de pequenos prismas de pedra, que se alinhavam na orla como se fossem peões de xadrez. As cerimônias que não podiam ser levadas a termo em frente àqueles templos de bolso eram realizadas lá em cima, na plataforma superior da pirâmide, por baixo da abóbada descampada do céu, na companhia do Sol e da Lua. […] Todos os outros cumes eram ruínas de aldeias fortificadas do mesmo tipo de Morongo Uta. Com frequência, paredões continuavam acima dos flancos dos vales, como se fossem lances de escadarias; por toda parte, podiam encontrar-se relíquias de um sistema artificial de irrigação, com canais que se ramificavam, partindo de correntezas, e que conduziam água aos terraços de faldas de montanhas, os quais, de outra maneira, teriam permanecido secos.”

Mas o que havia induzido aquele povo a refugiar-se em tão grandes alturas? Para Heyerdahl, a resposta era bastante evidente:

“O povo de Rapaiti sentia-se atemorizado quanto a um poderoso inimigo de fora – um inimigo que era conhecido por ele, e cujas canoas de guerra poderiam aparecer na linha do horizonte, sem aviso. Talvez que os primeiros habitantes da ilha tenha sido empurrados para aquele lugar fora de mão, procedendo de outra ilha, que o mencionado inimigo já houvesse conquistado. Poderia esta outra ilha ter sido a Ilha da Páscoa? Poderia a lenda de Rapaiti haver surgido de um grão de verdade, como a história da batalha do fosso de Iko? As batalhas dos canibais, na terceira época da Ilha da Páscoa, teriam sido o bastante para espavorir qualquer povo, pondo-o em fuga em direção do mar, e fazendo isso até mesmo a mulheres grávidas, ou com suas crianças. Em época ainda mais recente, ou seja, no século passado, uma jangada de madeira, com tripulação de sete nativos, aportou sã e salva, na Ilha de Rapaiti, depois de vogar ao largo de Mangareva, que nós mesmos havíamos visitado, no nosso percurso da Ilha da Páscoa para cá.”

Tal como a Pedra da Gávea e demais montanhas do Rio de Janeiro, os picos de Rapaiti haviam sido trabalhados pela mão do homem

“como se fossem monumentos marítimos à memória de navegadores sem nome, de uma idade já esquecida – navegadores que tinham muitas centenas de milhares de milhas atrás de si, quando desembarcaram neste lugar isolado do mundo. Todavia, muitas centenas de milhas não eram suficientes para remover de seu espírito o medo de que outros singradores do mar pudessem seguir-lhe as pegadas. O oceano é vasto, mas até mesmo o barco mais miúdo, que consiga flutuar, pode vencer grandes distâncias, desde que se lhe dê tempo. Até mesmo a machadinha de pedra das dimensões mais reduzidas fará com que a rocha ceda, desde que mãos perseverantes a martelem durante o tempo que para isso se requerer. E o tempo era uma comodidade de que os povos antigos possuíam uma provisão inexaurível. Se o tempo é dinheiro, eles tinham uma enorme fortuna nas prateleiras terraceadas das suas montanhas inundadas de sol – uma fortuna muito maior do que a de qualquer magnata dos dias de hoje.”

Os pormenores da expedição à Ilha da Páscoa e a Rapa Iti foram registrados por Heyerdahl em seu livro Aku-Aku: Påskeøyas hemmelighet (Aku-Aku: O segredo da Ilha da Páscoa), publicado em 1957.
No final dos anos 1960, depois de ter visto cerâmicas incas em que apareciam navios de junco semelhantes às do Egito faraônico, Heyerdahl começou a fazer planos para seu regresso ao elemento oceânico, desta vez para provar que a civilização do Vale do Nilo havia chegado à América antes de Colombo. Com base em desenhos e modelos do Antigo Egito, o Rá, assim batizado em referência ao deus sol egípcio, foi construído por fabricantes de barcos do Lago Chade, no centro-norte da África, usando papiro obtido do Lago Tana, na Etiópia. Se os barcos de papiro com suas proa e popa concebidas especialmente para singrarem em águas rasas navegavam apenas pelo Nilo, depreendeu Heyerdahl que bastava apenas que lhes fossem aumentadas a proa e elevadas a popa com a ajuda de cordas para que se tornassem capazes de viajar pelo mar. E assim, em 25 de maio de 1969, Heyerdahl e sua tripulação multinacional composta por Norman Baker (Estados Unidos), Carlos Mauri (Itália), Yuri Senkevich (União Soviética), Santiago Genoves (México), Georges Sourial (Egito) e Abdullah Djibrine (Chade), dos quais apenas Heyerdahl e Baker possuíam experiência em navegação, deixaram o Porto de Safim (ou Safi), antigo entreposto fenício na costa oeste do Morrocos, numa tentativa de provar que os barcos de papiro dos antigos egípcios tinham sido capazes de atravessar o Atlântico. Porém, 2 meses e 2.800 milhas (5.180 quilômetros) depois, o Rá foi atingido por uma forte tempestade a 600 milhas (1.110 quilômetros) de Barbados e, devido a uma falha no projeto, ou, segundo outras versões, a uma falha da tripulação que não puxou o cordame em direção à curva da popa, ficou completamente encharcado e afundou. A tripulação foi forçada a abandonar o barco a algumas centenas de quilômetros antes das Ilhas do Caribe e foi salva por um iate que passava nas proximidades.
Uma nova tentativa foi empreendida por Heyerdahl logo no ano seguinte com um barco semelhante, o Rá II, construído com junco totora por Demetrio, Juan e Jose Limachi, índios bolivianos habituados a navegarem nesse tipo de embarcação milenar nas águas do Lago Titicaca. Por precaução, o Rá II foi construído com feixes de papiro curto que tem a tendência de ficar menos saturado de água. A Expedição Rá II, constituída basicamente pela mesma tripulação do Rá I, à exceção de Djibrine, substituído pelo japonês Kei Ohara e pelo marroquino Madani Ait Ouhanni, partiu igualmente do Marrocos em 17 de maio e em 12 de julho de 1970 chegou com sucesso a Bridgetown, capital de Barbados (o país mais oriental do Caribe, nas Índias Ocidentais), demonstrando que os antigos marinheiros egípcios poderiam perfeitamente ter realizado viagens transatlânticas navegando com a Corrente das Canárias, corrente marítima do Atlântico Nordeste (cujo nome deriva das Ilhas Canárias, ao longo das quais a corrente passa) que flui para sudoeste ao longo da costa noroeste da África até à região do Senegal, onde inflete para o oeste, afastando-se da costa e transformando-se na Corrente Equatorial do Norte, que cruza o Atlântico de leste para oeste. Em 1972 foram lançados o livro The Ra Expeditions, escrito por Heyerdahl, e o filme Ra (ou The Ra Expeditions), dirigido por Heyerdahl e Lennart Ehrenborg, indicado para o Oscar de melhor documentário.
No final de 1977, Heyerdahl resolveu empreender outra viagem com um barco de junco, desta vez para demonstrar que por volta do ano 3.000 a.C., o comércio e a migração teriam ligado a Suméria, na Mesopotâmia, com a Civilização do Vale do Indo, no que é hoje o Paquistão, além de uma série de outros centros culturais no Oriente Médio e no nordeste africano. Construído no Iraque pelos mesmos índios bolivianos do Ra II, o Tigris (Tigre) contou com uma tripulação internacional de onze homens, incluindo Heyerdahl: Norman Baker (Estados Unidos), Carlo Mauri (Itália), Yuri Senkevich (União Soviética), Germán Carrasco (México), Hans Petter Bohn (Noruega), Rashad Nazar Salim (Iraque), Norris Brock (Estados Unidos), Toru Suzuki (Japão), Detlef Zoltze (Alemanha) e Asbjørn Damhus (Dinamarca). Medindo 18 metros de comprimento, 6 metros de largura, com um peso estimado em 33 toneladas, mastro duplo e vela quadrada de 10 metros de altura, o Tigris partiu em 24 de novembro de 1977 de Al-Qurnah, uma pequena vila no sul do Iraque onde os rios Tigre e Eufrates se encontram, e navegou através do Golfo Pérsico rumo ao Paquistão, fazendo em seguida o seu caminho de volta para o Mar Vermelho. Ao contrário dos barcos anteriores, o Tigris possuía condições de manobrabilidade, podendo rumar para o destino especificado com antecedência e não apenas flutuar à mercê das correntes marítimas e do vento. Ao deixar o Rio Shatt al-Arab, formado pela confluência dos rios Tigre e Eufrates e que deságua no Golfo Pérsico após um percurso de cerca de 200 quilômetros, o Tigris rumou a Bahrein, um pequeno estado insular do Golfo Pérsico com fronteiras marítimas com o Irã a nordeste, com o Qatar a leste e com a Arábia Saudita a sudoeste. Em tempos antigos esta região foi um importante centro comercial para os sumérios e, portanto, uma parada natural e obrigatória para a expedição. Depois navegaram para Muscat (Mascate, também conhecida como “cidade amuralhada”) no Golfo de Omã, cujos vestígios de ocupação humana remontam a 6000 a.C. e onde se encontram remanescentes de cerâmica de Harappa, indicativos de contatos com a Civilização do Vale do Indo, e de lá para Karachi, o centro financeiro, comercial e portuário do Paquistão e a capital da província de Sind, no sul do país. Em 3 de abril de 1978, após mais de quatro meses no mar e com o Tigris ainda em plenas condições de navegabilidade, esta que acabou sendo a última das expedições épicas de Heyerdahl teve de ser interrompida por causa dos combates da Guerra de Independência da Eritreia, da Guerra na Somália, da furiosa Guerra de Ogaden, e principalmente pela recusa do Iêmen do Norte (ou República Árabe do Iêmen) em permitir que penetrassem em suas águas do outro lado do Golfo de Aden (reentrância no norte do Índico, à entrada do Mar Vermelho, entre a costa norte da Somália e a costa sul da Península Arábica, na extremidade sul do Iêmen). Os membros da expedição desembarcaram no país neutro Djibouti após terem percorrido 6.800 quilômetros através do Golfo Pérsico e do Mar Arábico. No litoral de Djibouti, a tripulação resolveu deliberadamente queimar o barco como um protesto contra as sangrentas guerras que assolavam a região do Mar Vermelho e do Chifre da África. A intenção de Heyerdahl era encerrar a expedição em Massawa (ou Maçuá), cidade portuária da Eritreia, na costa do Mar Vermelho, a noroeste de Asmara, local de grande importância geográfica ao longo da história, ocupada pelo Egito, Império Otomano, Itália, Reino Unido e Etiópia, pois foi através desta “porta” que ele tinha transportado os materiais usados na construção tanto do Ra I como do Ra II. O jornalista, escritor e aventureiro norueguês Ragnar Kvam Jr., que em 1987 vendeu tudo o que possuía, comprou um veleiro e embarcou em uma extensa circunavegação, em sua biografia autorizada de Thor Heyerdahl dividida em três volumes (o primeiro foi publicado em 2005, o segundo em 2008 e o terceiro em 2013), revelou que as ambições desta expedição eram bem maiores do que Heyerdahl havia anunciado publicamente. De acordo com Kvam Jr., Heyerdahl pretendia contornar o Cabo da Boa Esperança para provar que os antigos povos da Mesopotâmia haviam cruzado o Oceano Atlântico.
O incansável Heyerdahl ainda envolveu-se na investigação da povoação inicial das Ilhas Maldivas, no Oceano Índico, a sudoeste do Sri Lanka e da Índia e ao sul do continente asiático, constituído por 1.196 ilhas. Em Tenerife, a maior ilha do Arquipélago das Canárias, descobriu uma pirâmide com orientação solar datada do tempo dos guanches, o povo nativo de tez e olhos claros, cabelos por vezes loiros e elevada estatura que faria parte dos povos protoberberes que colonizaram o norte de África, desde o Egito à atual Mauritânia há treze mil ou quinze mil anos atrás.
Inspirado em Heyerdahl, em 1984 o advogado, explorador e aventureiro argentino Alfredo Barragán, junto com mais quatro compatriotas (Jorge Iriberri, Horacio Giaccaglia, Daniel Sánchez Magariños e Félix Arrieta), organizou e empreendeu o que batizou de “Expedición Atlantis”. Com fervor romântico e muita bravura, em 22 de maio partiram do Porto de Tenerife, nas Ilhas Canárias, e 52 dias depois, em 12 de julho, tendo percorrido 3.200 milhas náuticas (5.000 quilômetros), chegaram em La Guaira, capital do estado e do município de Vargas, no centro-norte da Venezuela, a 30 quilômetros de Caracas, provando que 3.500 anos antes de Colombo, navegantes africanos poderiam perfeitamente ter chegado às costas da América levados apenas pelas correntes marítimas. A travessia foi feita com uma balsa de troncos muito semelhante ao Kon-Tiki, medindo 13,60 metros de comprimento por 5,80 metros de largura, dotada de uma cabana de bambu, sem timão e com somente uma vela.
De 1988 a 1992, Heyerdahl liderou amplas escavações em Túcume, a maior concentração de pirâmides em todo o mundo, com 250 estruturas piramidais construídas de tijolos de barro (adobe) por volta do ano 1100 e espalhadas em uma área de 220 hectares a 33 quilômetros ao norte da cidade de Chiclayo, noroeste do Peru. Ao lado do sítio arqueológico (chamado pela população local de “El Purgatorio”) se encontra a pequena cidade de Túcume, no centro da província de Lambayeque, o maior vale do litoral norte do Peru. A fundação da cidade entre 1000 e 1100, coincidiu com a queda de Batán Grande – que acabou queimada e abandonada – ao longo do Rio Chancay. Acredita-se que o local foi ocupado primeiramente pelo povo de Sicán ou Lambayeque entre 1000 e 1370, seguido pelo de Chimú entre 1370 e 1470, e finalmente pelos incas entre 1470 e 1532 (data da chegada dos espanhóis). Em 1547, o local foi abandonado.
Bastante erodidas devido a abundante chuva que cai nesta parte da costa peruana, as pirâmides teriam servido de centros de cultos religiosos e/ou palácios residenciais para a elite aristocrática. Das 26 grandes pirâmides, a principal delas é a Pirâmide do Sol (Huaca del Sol), com uma base de 345 metros, 160 metros de largura e 50 metros de altura. Usada para rituais, cerimônias e como tumba real, foi construída pela cultura Mochica (100-800) perto do pico vulcânico de Cerro Blanco, próximo a Trujillo, no Vale do Moche. Por volta do ano 450, oito plataformas haviam sido concluídas. A técnica consistia em ir adicionando novas camadas de tijolos diretamente sobre as antigas. Mais de uma centena de diferentes comunidades contribuíram na confecção dos 130 milhões de tijolos de adobe que a compõem e que faz dela a maior estrutura de adobe pré-colombiana construída nas Américas. A segunda maior pirâmide é Huaca de la Luna, com uma base quadrada de 87 metros e 21 metros de altura. A 5 quilômetros ao sul de Trujillo e a 500 metros da Huaca del Sol, foi construída pela mesma cultura Moche ou Mochica (100-800 d.C.) em época posterior. Composta de três plataformas sobrepostas (construídas ao longo de seiscentos anos), delimitada por grandes paredes de adobe com áreas de interconexão, a Huaca de la Luna era um centro de culto da fertilidade agrícola. Em um altar cerimonial do último templo construído, foram descobertos os restos de quarenta soldados sacrificados. As esculturas retratam divindades com cabeça de condor e raposa, pescadores, uma cobra, enormes caranguejos com facas cerimoniais, personagens de mãos dadas e sacerdotes. Huaca Larga ou Grande Pirâmide, construída entre 1000 e 1350, mede 450 metros de comprimento, 100 metros de largura e 40 metros de altura. A leste de Huaca Larga, o Templo da Pedra Sagrada é pequeno e tem a forma de U. Dentro de Huaca I, na ala sudeste, com 32 metros de altura e rampa de acesso longa, alta e estreita, se encontra Huaca las Balsas. Um pássaro mítico é representado de muitas maneiras em Huaca las Balsas: de pé na crista de uma onda, segurando um objeto redondo ou remando em jangadas. A figura do pássaro é tão importante que é decorado com um grande cocar em forma de meia-lua, símbolo de poder. Essas imagens são recorrentes nas sete camadas sobrepostas, cada uma cobrindo a camada anterior. As cenas relacionadas com jangadas e criaturas do mar perfazem a quase totalidade das encontradas em Huaca las Balsas.
Bastou ouvir a lenda de que o lugar foi fundado pelo rei Naymlap, um herói mítico que teria partido do México com sua corte de servos e soldados em uma grande frota de jangadas de balsa e construído a cidade com a ajuda de camponeses locais em torno de Cerro La Raya, uma elevação rochosa que fica no meio da planície, para que Heyerdahl rumasse sem demora para lá. Ao ver aquela paisagem que lhe “parecia de outro planeta”, ficou tão fascinado que não se limitou a armar uma tenda nos arredores, mas construiu ali um casarão. Todos os dias ele ia a cavalo ao local das escavações para supervisionar os trabalhos que estavam sendo patrocinados conjuntamente pelo Museu do Kon-Tiki e pelo Instituto Nacional de Cultura do Peru (atual Ministério da Cultura). O seu maior colaborador era o arqueólogo peruano Walter Alva (1951-), especialista em cultura Moche que em 1987 descobriu em Sipán o corpo intacto de um senhor Moche cheio de joias e ouro que a National Geographic Society descreveu como “o mais rico túmulo pré-colombiano intacto do Hemisfério Ocidental”.
Heyerdahl pretendia descobrir os segredos enterrados naquele que foi o centro de um vasto império que permaneceu inatacado durante mil anos até cair nas mãos dos incas. As escavações encontraram vários túmulos contendo fantásticos objetos funerários, incluindo belas estatuetas de prata. Também foram achados indícios de que ali se praticava um comércio inter-regional com o Equador, o Panamá e o Chile (donde se originariam objetos de lápis-lazúli). Uma bem preservada parede de adobe estava decorada com o desenho de homens a bordo de dois navios de grande porte feitos de junco e rodeados por peixes e aves marinhas. Também foi encontrado um pote de cerâmica negra que mostrava dois homens a bordo de um barco de junco. O projeto de Heyerdahl culminou com a criação de um museu em Túcume ao lado de Huaca I.
Olav Heyerdahl (nascido em 1977) cresceu ouvindo as histórias contadas por seu avô Thor Heyerdahl. Quando a Expedição Kon-Tiki estava às vésperas de completar sessenta anos, Olav resolveu ao mesmo tempo homenageá-la e desempenhar seu próprio papel na saga. A maneira que encontrou para fazer isso foi construir uma jangada de madeira de pau-de-balsa da mesma maneira como o seu avô e com ela percorrer o mesmo trajeto da Kon-Tiki. A Expedição Tangaroa (The Tangaroa Expedition), como foi batizada, em referência ao deus do mar maori Tangaroa, tornou-se possível graças ao apoio financeiro de vários patrocinadores, entre eles Branding Larvik, Skagen Fondene e AGR, além do apoio da Universidade de Bergen, na Noruega, e do auxílio prestado pela Marinha Peruana e pela SIMA (Servicio Industrial de la Marina). A equipe foi novamente composta por seis homens, sendo quatro noruegueses, um sueco e um peruano: Torgeir Sæverud Higraff (historiador, engenheiro mecânico e líder da expedição), Anders Berg (fotógrafo sueco), Olav Heyerdahl (carpinteiro, engenheiro civil, mergulhador e neto de Thor), Bjarne Krekvik (capitão), Øyvin Lauten (diretor-executivo) e Roberto Sala (ex-oficial da Marinha Peruana e especialista em navegação).
Os troncos foram cortados assim como antes nas florestas do Equador em novembro de 2004 e selecionados em fevereiro de 2005. Enquanto a Kon-Tiki usou nove troncos (lembrando que o mais longo media 13,70 metros de comprimento), a Tangaroa usou onze, sendo que o mais longo media 16 metros, enquanto os demais 14 metros. Apesar da madeira ser das mais leves, ainda assim os troncos pesavam juntos mais de 20 toneladas. A construção da balsa Tangaroa começou na primavera de 2006. Como se fez na Kon-Tiki, cordas de cânhamo foram usadas para amarrar os troncos e as vigas transversais sem que fosse preciso apelar para um único prego, parafuso ou fio de arame. A cabine de bambu foi feita desta vez em estrutura reforçada para resistir a ondas gigantes e tempestades. O telhado e as paredes da cabine, bem como o deque, foram cobertos com esteiras de totora vindas de Puno (cidade no sudeste do Peru, às margens do Lago Titicaca). Em relação à que foi usada na Kon-Tiki, a vela quadrada foi consideravelmente ampliada e aperfeiçoada. Enquanto a predecessora media 4,60 metros de altura por 5,50 metros de largura, a atual media 16 metros de altura por 8 metros de largura, possuía maior aderência e permitia até mesmo que navegassem contra o vento. As nove pranchas guara medindo 4 metros de comprimento por 50 centímetros de largura podiam ser elevadas ou abaixadas de modo a orientar a balsa na direção desejada, enquanto que as cinco utilizadas na Kon-Tiki (medindo 1,50 metros por 60 centímetros) eram fixas e não podiam ser elevadas ou abaixadas. Na época, Heyerdahl não sabia como usar as guaras para manobrar a balsa. Destarte, sua tripulação estava totalmente à mercê dos ventos. Somente anos mais tarde, em 1953, é que Heyerdahl compreendeu o seu engenhoso mecanismo de funcionamento, que consiste em elevar ou abaixar as pranchas de acordo com as condições específicas do vento para manter a balsa na direção desejada. A tripulação da Tangaroa soube aproveitar-se muito bem disso e dispondo de todo o aparato tecnológico do século XXI do qual não abriram mão (GPS, painéis solares, notebooks e aparelhos de dessalinização), reduziu sensivelmente a sua estadia no mar. Enquanto a tripulação da Kon-Tiki lutava diariamente para enviar notícias por meio de um transmissor de ondas curtas, a da Tangaroa atualizava as informações diretamente em seu website.
Na sexta-feira, dia 28 de abril de 2006, a Expedição Tangaroa iniciou sua longa jornada rumo a Polinésia, no mesmo local (Porto de Callao) e na mesma data em que Thor Heyerdahl partiu com a Kon-Tiki em 1947. As muitas bandeiras içadas representavam as nacionalidades dos tripulantes (Noruega, Suécia e Peru), bem como os países participantes da expedição (Equador e Polinésia Francesa), além da Comunidade de Larvik, na Noruega. Quando a Kon-Tiki estava a meio caminho através do Pacífico, a tripulação pescou uma cavalinha-serpente (Gempylus Serpens), espécie rara de peixe jamais capturada viva. Por uma estranha coincidência, a Expedição Tangaroa capturou uma amostra semelhante, quase nas mesmas coordenadas, 59 anos depois. Olav, que também fazia parte da Expedição Plastiki, que procurava chamar a atenção para a saúde dos nossos oceanos, particularmente para a grande quantidade de detritos plásticos, comparou as condições do Pacífico à época da expedição de seu avô com as daquele momento e constatou significativas e tristes mudanças. A Corrente de Humboldt estava repleta de lixo e detritos diversos. Enquanto a tripulação da Kon-Tiki pescava atum às fartas, a da Tangaroa só conseguiu capturar um único atum durante toda a viagem. Pior ainda em relação aos tubarões e as baleias, que costumavam rodear constantemente a Kon-Tiki, enquanto a Tangaroa não chegou a avistar nem um único exemplar deles.
Tangaroa chegou a cobrir em um só dia a distância de mais de 80 milhas náuticas (148 quilômetros), superando o recorde de velocidade da Kon-Tiki. Esta segunda expedição mostrou que a viagem pode ser feita bem mais rapidamente apenas aproveitando melhor as correntes e os ventos por meio de uma vela maior e do uso adequado das pranchas guara. Assim é que enquanto a Kon-Tiki levou 101 dias para completar a viagem, a Tangaroa foi um mês mais rápida, desembarcando no Atol de Raroia em 8 de julho. A viagem foi feita sem conflitos, situações dramáticas ou incidentes. Os tripulantes disseram que agora eram melhores amigos do que quando haviam iniciado a jornada. Um muito orgulhoso Thor Heyerdahl Jr. saudou seu filho mais novo Olav com estas palavras: “A expedição foi planejada e realizada de uma maneira que superou todas as expectativas, e eu sei que meu pai teria ficado muito orgulhoso se tivesse vivido para ver esta expedição.” Com imagens de Anders Berg e direção de Havard Jenssen, o documentário A Tangaroa Expedition (Ekspedisionen Tangaroa) foi lançado em DVD em 2007.
As teorias de Heyerdahl, a despeito de tantos indícios e provas a favor, continuam a ser contestadas, por vezes de forma virulenta, no meios científicos-acadêmicos. Enquanto a noção de migração através do Pacífico já não é um anátema, o da migração cultural transatlântica continua sendo controversa, em parte porque, como é usualmente aceito, as grandes civilizações da América do Sul floresceram muito tempo depois das do Egito e do Oriente Médio. De qualquer forma, suas viagens pelos oceanos o convenceram da unidade essencial da humanidade (“O oceano não nos separa, mas nos une”, disse ele), bem como o de que bem antes dos europeus, antigas culturas do Oriente Médio, do norte da África, da Ásia e da América do Sul já andavam a “civilizar” o mundo espalhando as suas influências nos campos da arquitetura, da astronomia e da religião. E é precisamente isso que pretendo provar navegando com uma réplica de um barco faraônico do Egito ao Brasil.

3. Objetivo

Construir uma réplica, a mais exata possível, de um navio egípcio empregando materiais semelhantes e obedecendo aos mesmos princípios, técnicas e padrões utilizados pelos antigos egípcios, para com ele partir do Porto de Safaga (nas coordenadas 26º 44 N, 33º 56 E), navegar pelo Mar Vermelho, contornar a costa oriental da África e o Cabo da Boa Esperança, cruzar o Oceano Atlântico e finalmente desembarcar no Porto do Rio de Janeiro (nas coordenadas 22 54’ 23” S, 43 10’ 22” O) ou em algum outro ancoradouro carioca como o Porto de Itaguaí (antigo Porto de Sepetiba, na cidade de Itaguaí), o Porto de Niterói (na Baía de Guanabara, centro da cidade de Niterói), o Porto de Angra dos Reis (na cidade de Angra dos Reis, sul do Rio de Janeiro) ou o Porto do Forno (na extremidade norte da Praia dos Anjos, na cidade de Arraial do Cabo, sudeste do litoral carioca).
Via Cabo da Boa Esperança, a distância de 8.863 milhas náuticas (16.414 quilômetros) entre o Porto de Safaga e o Rio de Janeiro, a uma velocidade média de 5 nós (9,25 km/h), pode ser coberta, sem paradas e salvo complicações, em torno de 74 dias. Como é nossa intenção realizar vários estudos e pesquisas adicionais pelo caminho, calculamos o tempo da viagem em no mínimo 90 e no máximo 150 dias. A jornada seria bastante abreviada caso optássemos pela via do Canal de Suez e do Estreito de Gibraltar, já que a distância se reduziria a 6.646 milhas náuticas (12.308 quilômetros). À mesma velocidade média de 5 nós, o tempo da viagem ficaria em torno de 55 dias. Contudo, como essa rota já foi percorrida pela Expedição Rá II de Thor Heyerdahl em 1970, bem como considerando que as viagens marítimas egípcias se faziam pela rota do Mar Vermelho, preferimos o caminho mais longo.
Tal périplo indicaria a viabilidade de os antigos egípcios terem realizado a mesma viagem naqueles tempos ao menos uma vez, o que explicaria os vários indícios arqueológicos da presença daquela cultura em nosso país e no continente americano.
Por extensão, reforçaríamos a possibilidade de os egípcios terem estabelecido uma autêntica “civilização global” já naqueles tempos, o que explicaria os surpreendentes paralelos culturais – como a crença na ressurreição do mortos, a mumificação, a construção de pirâmides escalonadas, calendários e hieróglifos – em todos os continentes. Cairia por terra, consequentemente, ou ao menos desmentiríamos parcialmente a falsa noção de que os egípcios não eram grandes navegadores como os fenícios ou os gregos e que quase não se aventuraram nas suas embarcações para além do curso do Nilo ou das proximidades da costa africana.
Pelo que se tem notícia, nenhuma expedição marítima egípcia ousou ir mais longe do que a do faraó Necho II (660 a.C.-593 a.C.), que governou o Egito a partir de 610 a.C., durante a 26ª Dinastia. Necho II mandou fazer um canal que ligava o braço oriental do Nilo ao Mar Vermelho e organizou uma expedição com uma tripulação mista de fenícios e egípcios, liderado pelo fenício Hanon, para circunavegar o continente africano, antecipando-se em dois milênios e um século ao navegador e explorador português Vasco da Gama (1460 ou 1469-1524), que em 1498 se destacou por ter sido o comandante dos primeiros navios europeus a navegar da Europa para a Índia, no que contornou a costa ocidental, a extremidade sul e a costa oriental do continente africano para assim aceder às riquezas da Índia. A expedição egípcio-fenícia saiu do Mar Vermelho, contornou toda a costa africana e três anos depois retornou ao Egito pelo Mar Mediterrâneo.
Se não restam dúvidas de que antigos egípcios construíram grandes e elaborados barcos para navegar ao longo do Rio Nilo e do Mar Vermelho, a questão agora é saber se atravessaram o Oceano Atlântico e chegaram ao continente americano, particularmente ao Brasil. Indícios arqueológicos diversos a indicar que não só desembarcaram mas procuraram estabelecer sua cultura também por aqui, não tem sido aceitos pela arqueologia oficial sob o argumento cada vez mais superado e falacioso de que não possuíam nem técnicas nem conhecimentos náuticos suficientes para cruzar oceanos. O nosso objetivo é provar exatamente o contrário.

4. O navio egípcio a ser (re)construído

O transporte de cargas pesadas, o comércio internacional e a guerra exigiam navios mais fortes do que os de papiro. O design das primeiras embarcações de madeira com seu fundo plano e popa quadrada era semelhante ao dos velhos barcos de junco. Como não usavam quilha, o mastro ficava preso à amurada (parte do costado do navio que fica acima do convés). Mais tarde, sob a influência de Biblos, os egípcios adotaram um único mastro central, que por vezes era coberto com um acabamento de bronze onde as cordas eram amarradas.
A Expedição Min of the Desert optou por um modelo de navio mercante de Hatshepsut, que em média tinha cerca de 22 metros de comprimento e 5 metros de largura. Sem quilha, sua estabilidade era mantida com uma corda grossa presa sob tensão em uma ou outra extremidade do navio. Havia quinze remos remo de cada lado, dois remos conectados usados ​​como leme, um único mastro e uma vela horizontal de 15 metros de largura. A popa era decorada com uma escultura de uma flor-de-lótus.
O modelo de navio que escolhi para o projeto, no entanto, é bem mais antigo, típico das embarcações utilizadas durante o reinado do faraó Sahuré, na Quinta Dinastia, há mais de 4.400 anos. Esses navios feitos de cedro eram semelhantes aos dos fenícios pelo fato de Sahuré ter encarregado construtores de navios da antiga cidade de Biblos, na Fenícia, para criar sua frota. A tecnologia náutica fenícia era a mais avançada e a grande responsável pelo domínio comercial exercido em todo o Mediterrâneo oriental. Eles dispunham de navios de 70 a 80 toneladas de deslocamento capazes de suportar longas viagens, comparáveis em tamanho à caravela Santa Maria de Colombo. É certo que os fenícios também estiveram na América e no Brasil conforme atestam pinturas rupestres e inscrições tipicamente fenícias encontradas em várias partes do continente. Assim, por tabela, não deixaríamos de estar igualmente provando a presença fenícia no continente.
Levando em conta que o navio será todo o nosso mundo no tempo que se estender à nossa frente, os mínimos detalhes a bordo terão de ser pensados para proporcionar o máximo rendimento e eficiência.
Engenheiros náuticos, arquitetos navais e construtores de barcos antigos deverão ser convidados a integrar a equipe da Expedição Sahuré-Thor Heyerdahl. A ideia seria aproveitar os membros da equipe do bem sucedido Min of the Desert com todo o seu know-how já adquirido. Para eles, seria um desafio adicional e uma oportunidade única de avançarem extraordinariamente em suas realizações. Para nós, significaria poder contar com o conhecimento e a experiência de profissionais gabaritados que fariam aumentar em muito nossas chances de sucesso. Seria desejável que pudéssemos contar com a ajuda não só dos arquitetos navais australianos Tom Vosmer e Patrick Couser e dos demais integrantes do Min of the Desert, como Kathryn Bard, Rodolfo Fattovich, Adam Alexi-Malle, Mosaad El-Hedek, Mohamed Abd El-Maguid, Ramsey Faragallah, Hamdy Lahma, Mahrous Lahma, Reda Lahma, Yosry Lahma, Craig Sechler e David Vann, como também de sua idealizadora e líder, a arqueóloga norte-americana Cheryl Ward. Não sendo possível, porém, contar com os mesmos, iremos recorrer a outros profissionais do Brasil e do exterior que estejam dispostos a encarar este nosso ousado projeto.
O estaleiro ideal para a construção de nosso navio seria o mesmo do Min of the Desert, ou seja, o moderno e bem equipado Hamdi Lahma & Brothers Shipyard, em Roseta (Rashid em árabe), cidade da província de Al-Buhaira, a 65 quilômetros a leste de Alexandria (a segunda cidade mais importante do Egito), à costa do Mar Mediterrâneo e à entrada do Delta do Nilo, nas coordenadas 31º 24’ N, 30º 25’ E. Embora o porto mais próximo do estaleiro seja o de Alexandria, o principal do Egito, à beira ocidental do Delta do Nilo, entre o Mar Mediterrâneo e o Lago Mariut, nas coordenadas 31º 12’ 16” N, 29º 52’ 48” E, o porto ideal para nossa partida seria o de Safaga, de onde também partiu o Min of the Desert e de onde partiam as expedições egípcias ao reino de Punt. Não sendo possível, porém, contar com o estaleiro de Hamdi Lahma & Brothers Shipyard, iremos considerar dentre as alternativas a que melhor atenda aos nossos propósitos.
A tripulação deverá ser composta de sete pessoas sem distinção de nacionalidade, sendo ao menos um especialista em navegação, um especialista em construção e reparo de navios antigos, um arqueólogo, um historiador (no caso o autor deste projeto), um especialista em tecnologia e comunicação, um biólogo e um fotógrafo/cineasta. Seria de grande valia caso pudéssemos contar também com ao menos um mergulhador, um linguista, um antropólogo e um médico. O número de pessoas a bordo terá de ser o mais reduzido possível (considerando sete como o ideal) a fim de diminuir ao máximo o peso, já que cada membro adicional representaria uma quantidade extra de suprimentos a serem transportados, os quais deverão ser suficientes para garantir a sobrevivência em alto mar por pelo menos três meses. Cada um terá direito a levar consigo a bordo itens pessoais dentro de certos limites de peso e dimensões a serem especificados.
Ao longo da verga no topo do mastro deverão tremular com destaque as bandeiras do Brasil e do Egito, tendo ao lado as bandeiras dos países estrangeiros que terão dado à expedição suporte e apoio prático.

Modelo de navio egípcio utilizado nos tempos do faraó Sahuré que pretendemos construir para navegar do Egito ao Brasil. Concepção artística de Elias Tsiantas.

Idealização e concepção de Cláudio Tsuyoshi Suenaga – Mestre em História pela Universidade Estadual Paulista (Unesp); especialista em História Antiga, Arqueologia, História das Religiões e Mitologia; escritor, jornalista, professor e pesquisador; aventureiro, explorador e expedicionário.

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