Morre Salvador Freixedo, ex-padre jesuíta que clamou pelo fim das imolações aos deuses, os donos da granja humana

Morreu na sexta-feira, 25 de outubro de 2019, aos 96 anos, o ex-padre católico espanhol, membro da Ordem dos Jesuítas, Salvador Freixedo. Um dos nomes proeminentes da ufologia mundial e um dos pensadores mais originais e eloquentes que juntamente com Jacques Vallée e John Keel, entre outros, começou a expandir a visão do paradigma OVNI a partir do final dos anos 60 do século passado, denunciou as religiões e o próprio catolicismo como não sendo mais do que um “grande instrumento das entidades cósmicas para nos distrair, para não progredirmos e não percebermos que eles são os donos do mundo”, mundo que não passaria de uma gigantesca “granja humana”.

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Todos os ufólogos que, em maior ou menor grau, partilham e propalam a convicção de que os extraterrestres, alienígenas, ufonautas ou como quer que os chamemos, são perniciosos, denotam a influência, direta ou indireta, das assertivas do ex-sacerdote jesuíta espanhol Salvador Freixedo, o inaugurador e mais ardoroso defensor da corrente que propugna que não passaríamos de objetos de manipulação e fontes de recursos para suprir as necessidades biológicas e/ou espirituais desses seres, os quais, errônea e ingenuamente, bilhões adoram como se fossem “anjos”, “avatares”, “divindades” e até mesmo “deuses”.

O jovem Salvador Freixedo, recém-ordenado.

Freixedo nasceu em 1923 na região da Galícia. Em 1939, aos 16 anos, ingressou na Ordem Jesuítica. Estudou Humanidades na Universidade de Salamanca, Filosofia em Santander – onde ordenou-se sacerdote em 1953 iniciando seu sacerdócio evangelizador que o levaria a conhecer doze países –, Teologia em São Francisco e Psicologia na Universidade da Califórnia (UCLA) e em Fordha, Nova York. Em 1947 esteve pela primeira vez na América Latina. Em Cuba, deparou-se com o “cristianismo de classes”, constatando que a Ordem Jesuítica aceitava somente alunos pertencentes à mais alta casta, enquanto o povo pobre sofria mil privações. Isso o levou a escrever seu primeiro livro: Quarenta casos de justicia social: Examen de conciencia para cristianos distraídos. Por causa dele, o ditador Fulgêncio Batista expulsou-o do país.

De Cuba foi a Porto Rico, onde fundou a Casa da Juventude Obreira Católica (JOC), que construiu com suas próprias mãos. Ali escreve Mi Iglesia duerme, que desata uma grande polêmica. Na Espanha, os censores de Manuel Fraga, então Ministro da Informação e Turismo, proíbem o livro, que não obstante torna-se best-seller em vários países, catapultando Salvador Freixedo às primeras páginas de todos os jornais e fazendo até com que gravasse um disco (LP) narrando trechos de seu livro. Devido ao escândalo, nos anos 70 Freixedo foi expulso da Ordem Jesuítica e impedido de exercer seu sacerdócio, o que o levou  a concentrar-se na investigação dos milagres, dos OVNIs e dos fenômenos paranormais.

Na República Dominicana ensinou História da Igreja no Seminário Interdiocesano de Santo Domingo. Fundou o Instituto Mexicano de Estudos de Fenômenos Paranormais e presidiu o primeiro grande congresso internacional organizado pela dita instituição. Na Venezuela escreveu o livro Mitos religiosos en las relaciones humanas, o que também lhe valeu a expulsão desse país.

Das inúmeras teorias que desenvolveu, a mais citada e apropriada é a das escalas cósmicas, que prevê diferentes níveis de existência para os seres em geral. Os que estão situados em patamares superiores tendem, por natureza, a se aproveitarem de muitas maneiras dos que estão em níveis inferiores. Nesse sentido, Freixedo postula que os múltiplos deuses adorados pelo homem ao longo da história nada mais são do que manifestações dos ditos seres que há milênios o vêm enganando. Não haveria, portanto, nem um deus único, tampouco um deus verdadeiro, como querem as religiões criadas por esses próprios seres para melhor iludir o homem e manipulá-lo.

Todas as teorias de Freixedo convergem para um só princípio: o de que o planeta Terra tem sido, desde as suas origens, uma “granja” para seres muito mais evoluídos do que o homem. Enquanto este não despertar da letargia mental e espiritual em que os “deuses” o colocaram e o mantém, seguirá submetido aos seus caprichos. Se por um lado chega a ser surpreendente que um sacerdote jesuíta com tamanha bagagem e formação intelectual se volte contra tudo o que lhe ensinaram afirmando peremptoriamente que a religião é uma farsa, que não há um deus verdadeiro e que ainda por cima os que se fazem passar por ele não passam de seres extraterrestres nefastos, por outro chegamos a compreender que é  justamente devido a sua formação religiosa e aos seus profundos conhecimentos históricos e teológicos que ousou dar um salto no seu pensamento, expondo a realidade por trás da montagem do “teatro do sagrado”.

¡Defendámonos de los dioses! (Algar, 1984) contém a parte fundamental da “ideologia” de Freixedo, para quem essas “entidades” assumem diversas formas ao se apresentarem ao homem, adaptando-se aos padrões de determinada época e cultura, bem como se valem de artimanhas e ferramentas místicas para manejá-lo, da mesma forma que o homem quando necessita dos animais. No capítulo 8, Freixedo adjudica que o exercício da liberdade de escolha é uma das poucas coisas que ainda restam ao homem diante do controle totalitário que lhe é exercido. A liberdade não seria algo extrínseco e sim determinado por cada um. Sendo o homem o sujeito de suas próprias escolhas, deve ele “manter sempre a mente em estado de alerta e não entregá-la definitivamente nem a líderes religiosos, nem a líderes políticos, nem a ídolos esportivos, nem a médicos que nos tratam, nem a nada. Todos podem equivocar-se, e todos em algum momento – ainda que seja de uma maneira inconsciente – podem estar atuando em interesse próprio, aproveitando-se de nossa credulidade. A mente de cada indivíduo tem que ser sempre o último juiz nas próprias ações, e entregá-la a outro para seguir cegamente o que nos dizem, é um ato de suicídio mental que se opõe diametralmente ao grande mandamento da evolução, que é uma das leis fundamentais do Cosmos.”

Em La granja humana (1988), Freixedo estrutura a sua teoria de que o homem não passa de uma cobaia ou uma fonte de alimentos para seres mais evoluídos, equiparando a sua condição ao de uma vaca que gostosamente come e pasta sem se dar conta das reais intenções de seu “protetor” e segue mansamente até o matadouro onde acaba sacrificada, aí já não tão gostosamente.

La amenaza extraterrestre (1991) fecha a trilogia alertando que esses seres já se encontram misturados entre nós, sequestrando impunemente, violando, mutilando gado e pessoas, experimentando com nossos genes, usando úteros de mulheres para criar raças híbridas e outros fins obscuros. Segundo Freixedo, tudo isso vem acontecendo debaixo de nossos narizes e com a conivência dos governos das maiores potências do mundo, que mediante um pacto de cooperação e recebimento de informações tecnológicas, permitem que atuem livremente. Freixedo vai além, dizendo que esses seres, aos quais chama de “EBEs” (Entidades Biológicas Extraterrestres, termo que toma de empréstimo dos norte-americanos), estabeleceram bases na Lua e em Marte, para onde levam seres humanos capturados para trabalharem como escravos ou servirem de cobaias em seus laboratórios.

A insaciável sede dos deuses por sacrifícios de sangue

Freixedo não poupa nem mesmo Yahweh (Javé ou Jeová, nome de disfarce para uma divindade suprema, já que era estritamente proibido pronunciar ou escrever seu verdadeiro nome, referido no texto hebraico como “Elohim”, palavra plural que significa “deuses”) que é o “Deus Universal e Único” da Bíblia, a quem rebaixa à categoria de um dos muitos “deuses” menores como Baal ou Moloc que vêm manipulando a história e se servindo da humanidade apenas para seus propósitos, conforme suas conveniências.

Destarte, o deus judaico-cristão não passaria de um “suplantador a mais”, semelhante a muitos outros que pretenderam fazer-se passar pela “Grande Energia Inteligente” criadora do universo. Entre tantos indicativos disso, estaria a exigência que o próprio Javé fazia de sacrifícios sangrentos, como que buscando extrair certos elementos biológicos, bem como certas energias psíquicas imateriais e sutis. Freixedo nos convida a imaginar “como deve ter ficado pasmo Moisés quando depois de perguntar a Javé como ele queria ser adorado, recebeu dele uma série de instruções minuciosas acerca de como deveria degolar vários tipos de animais, o que deveria fazer com suas vísceras, e sobretudo como deveria manipular seu sangue. Moisés, que certamente conhecia muito bem os sacrifícios que os egípcios e os povos mesopotâmicos faziam constantemente a seus respectivos deuses, deve ter se surpreendido ao constatar que seu ‘Deus Único’ exigia exatamente o mesmo que os outros ‘falsos’ deuses exigiam, em vez de preferir a oração e uns ritos de cunho simbólico e espiritual.”

Pergunta-se Freixedo: “Pois o que tem a ver o sacrifício e a vivisseção de um cabrito, o derramamento de sangue em determinados lugares, com a demonstração do amor a Deus e a obediência a seus mandamentos? O que tem a ver o degolar de uma vaca com o sincero arrependimento pelos pecados?”[1] É de admirar, salienta Freixedo, “que a Bíblia mencione 160 vezes a palavra amor, enquanto menciona 280 vezes a palavra sangue.”[2]

Assassinatos rituais de crianças – e este é certamente o traço mais terrível da loucura humana em seu afã de agradar os deuses – foram, durante milhares de anos, o ponto máximo dos costumes, e até certo ponto corriqueiros, naturais e cotidianos. Entre os gregos e romanos, as meninas eram mortas imediatamente depois de nascerem, ao passo que os sacrifícios de meninos foi posteriormente substituído pelo de cordeiros.

Àqueles que porventura venham a argumentar que Javé prescindira de sacrifícios humanos desde que detera a mão de Abraão no momento em estava preste a imolar seu filho único Isaque no Monte Moriá a pedido do próprio Javé, a pretexto de testar sua fé (Gênesis 23:1-14), devemos lembrar que os judeus continuaram a sacrificar crianças mesmo depois de autorizados a substituí-las por animais. Deus permite que eles o façam para que eles saibam que ele é o Senhor: “Permiti que se manchassem as suas oblações, quando para expiação de seus pecados ofereciam os seus primogênitos (a Moloc); e eles saberão que eu sou o Senhor” (Ezequiel 20:26).

Depois da morte de Josué até à constituição do reino (desde o século XII ao XI a.C.), certas personagens insignes, espécies de “ditadores” que, cumprida a missão de libertar o povo de Israel dos inimigos, continuavam a exercer autoridade sobre o povo, foram chamadas de “Juízes”. Um deles, Jefté (guerreiro, filho de Galaad e duma meretriz), sacrificou sua filha única, virgem, a Deus: “O espírito do Senhor foi pois sobre Jefté, e ele dando volta por Galaad, pelo país de Manassés, por Masfa de Galaad, e, passando dali até aos filhos de Amon, fez um voto ao Senhor, dizendo: Se entregares nas minhas mãos os filhos de Amon, a primeira pessoa, seja ela qual for, que sair das portas de minha casa, e vier ao meu encontro quando eu voltar vitorioso dos filhos de Amon, eu a oferecerei ao Senhor em holocausto. Jefté avançou contra os filhos de Amon a combater contra eles e o Senhor entregou-os nas suas mãos. Jefté fez uma grande mortandade em vinte cidades, desde Aroer até Menit, e até Abel, que está plantada de vinhas, e foram humilhados os filhos de Amon pelos filhos de Israel. Ora, voltando Jefté para sua casa em Masfa, sua filha única, porque não tinha outros filhos, saiu-lhe ao encontro com tímpanos e danças. Quando a viu, rasgou as suas vestes e disse: Ai de mim, minha filha, que me enganaste e te enganaste também a ti; porque eu abri minha boca (fazendo um voto) ao Senhor; e não poderei fazer outra coisa. Ela respondeu-lhe: Meu pai, se abriste a tua boca (fazendo um voto) ao Senhor, faze de mim o que prometeste, pois que te concedeu a vingança e a vitória de teus inimigos. […] Passados dois meses voltou para seu pai, o qual cumpriu o voto que tinha feito, e ela não tinha conhecido varão.” (Juízes 11:29-36 e 39).

Ademais, lembra Freixedo, “A maioria das tribos negras nas quais não penetrou o cristianismo ou o islã, seguem ainda hoje em dia oferecendo sacrifícios de sangue a seus deuses; os ozugus da região central de África, no dia da grande solenidade, deitam-se no solo, enquanto o supremo bruxo-sacerdote os borrifam abundantemente com o sangue dos animais sacrificados… Que faz ‘o Deus Único’ exigindo o mesmo que os demais deuses? E por que tem que ser precisamente sangue e vísceras, algo tão difícil de conseguir para os povos pobres? Indubitavelmente, temos o direito de suspeitar que algo estranho há em torno do sangue quando tão universalmente o vemos relacionado com o fenômeno religioso.”

As pedras e altares sacrificais de praticamente todos os povos e civilizações estão manchadas de sangue infantil. Os prisioneiros dos maias e astecas tinham seus corações, fígados e outros órgãos arrancados ainda pulsantes. Até mesmo dentro ou nos arredores do templo de Jerusalém foram cometidas tais carnificinas. E mesmo o cristianismo, atina Freixedo, “apesar de ter abolido esses sacrifícios cruentos de animais e de se mostrar muito mais racional em seus ritos, não dispensou todavia o sangue, ainda que de forma sublimada: ‘o sangue do cordeiro’, e o ‘vinho convertido em sangue do Filho de Deus’, são dois símbolos fundamentais em toda a ritualística cristã. E se aprofundamos mais ainda, veremos que estes símbolos não são meramente símbolos, já que o sangue de Cristo na cruz foi um sangue real e não simbólico; sangue que lhe foi exigido nada menos que por seu Pai! Mas não teremos que nos admirar muito ante um fato tão monstruoso, quando nos inteiramos que esse pai, segundo nos diz a teologia, não era outro senão Javé.”[3]

Cena de The Passion of the Christ (A Paixão de Cristo), de Mel Gibson.

É de fato algo bem bizarro, como adjudica Freixedo, que os deuses, “em todas as religiões da Antiguidade, em vez de exigir atos de arrependimento coletivo e louvores racionais por parte de seus povos, o que exigiam sempre deles, como máximo tributo religioso, eram ‘holocaustos’, isto é, cerimônias em que primeiro se sacrificava a vítima (humana ou animal) e depois se a queimava integralmente, de modo que ninguém podia servir-se para nada dela. Tinha que arder até consumir-se, tal como indica a palavra holocausto (que vem de duas palavras gregas que significam ‘tudo queimado’). Em festas soleníssimas entre os gregos e romanos se faziam grandes sacrifícios de animais – especialmente bovinos – que se chamavam hecatombes (outra palavra vinda de duas palavras gregas e que significa literalmente ‘cem bois’), com os quais se faziam grandes piras em honra das deidades.”

“Estas cerimônias que culminavam em grandes fogueiras”, prossegue explicando Freixedo, “eram a maneira perfeita que os deuses tinham para ‘espremer’ toda energia vital que existia naquelas criaturas viventes: primeiro mediante o degolamento ou a  vivisseção da vítima – com o conseguinte derramamento de sangue – obtinham a energia sutil mais apreciada por eles: a que desprendiam seus corpos agonizantes e especificamente seus cérebros aterrorizados e atormentados. E mais tarde, morta já cerebralmente a vítima, mas ainda viva celularmente, o fogo se encarregava de liberar rapidamente toda a energia vital que encerravam suas entranhas ainda quentes as células de todo seu organismo. Estas ondas de energia que se desprendiam dos corpos fumegantes das vítimas, eram uma espécie de droga, ou como um aroma para os ‘sentidos’ dos deuses. No Pentateuco fala-se em repetidas ocasiões desses sacrifícios ‘abrasados’ e se diz deles que eram ‘um manjar tranquilizante para Javé’; ou que subiam para ele ‘como um aroma calmante’. Algo bem como um cigarro de sobremesa, ou uma xicrinha de café, ou quem sabe uma droga mais forte.”[4]

Mas, afinal, o que os deuses procuram em nós? De acordo com Freixedo, seriam as seguintes coisas:

  1. Procuram, em primeiro lugar, as ondas que produz um cérebro humano excitado (sobretudo atormentado);
  2. Procuram as “ondas da vida”, isto é, a energia que desprende um corpo vivente quando morre violentamente;
  3. Procuram as ondas que desprendem todas e cada uma das células, que ainda seguem vivas por um bom tempo depois que o homem ou o animal já morreu;
  4. Procuram o sangue derramado, porque quando este está fora do corpo, libera muito facilmente uma energia que eles apreciam.[5]
De acordo com Freixedo, os deuses sorvem as “ondas da vida”, isto é, a energia que desprende um corpo vivente quando morre violentamente.

E assim como os demais deuses, Javé buscava a energia vital que é liberada quando a matéria viva se desintegra violentamente, como quando é queimada. Freixedo depreende que “a matéria volta a terra, mas a vida que a impregnava desprende-se e se libera em forma de radiações ou de ondas de uma enorme frequência (não captáveis por instrumentos científicos). Quando se queimam corpos de animais, esta energia se desprende rápida e abundantemente, enquanto quando se queima matéria vegetal, desprende-se em muita menor proporção e por isso para conseguir alguma quantidade apreciável desta sutil energia se faz necessário queimar grandes quantidades.”[6]

Na demonologia, o “causar fogo” é algo constantemente atribuído ao “demônio” (que para Freixedo não seria propriamente o inimigo pessoal de Deus, como nos apresenta o cristianismo, e sim mais um dos seres suprahumanos que costumam ser prejudiciais aos humanos).[7]

São intermináveis os pormenores que Javé deu a Moisés a respeito de como deveria queimar as oferendas, quais eram os holocaustos e de quais podiam comer em parte os sacerdotes, etc. Mas ainda há mais peculiaridades, assinala Freixedo. Às vezes parece que a impaciência de Javé era tanta por sentir o “suave cheiro tranquilizante” de que nos falam os textos, que sem esperar que os queimassem, baixava ele mesmo a abrasá-los, para captar de perto o que deles queria: [8] “E o senhor continuou: Toma-me (para sacrificar) uma vaca de três anos, e uma cabra de três anos, e um carneiro de três anos, e também uma rola e uma pomba. E ele, tomando todos estes animais, dividiu-os pelo meio, e pôs as duas partes uma defronte da outra; mas não dividiu as aves […] Quando, pois, se pôs o Sol, formou-se uma escuridão tenebrosa, e apareceu um forno fumegante, e uma lâmpada ardente, que passava pelo meio dos animais divididos.” (Gênesis 15:9-10 e 17).

“Então o fogo do Senhor caiu e queimou completamente o holocausto, a lenha, as pedras e o chão, e também secou totalmente a água na valeta.” (I Reis 18:38). Ilustração: A Bíblia Mais Bela do Mundo, nº 38, vol.II, 1 de fevereiro de 1966, p.233.

O livro de Levítico (9:23-24) registra a “aparição da glória de Deus”: “Ora Moisés e Arão, tendo entrado no tabernáculo do testemunho, e tendo saído depois, abençoaram o povo. E a glória do Senhor apareceu a toda a multidão. Eis que um fogo saído do Senhor, devorou o holocausto e as gorduras que estavam sobre o altar. O povo, vendo isto, louvou o Senhor, lançando-se com o rosto por terra.”

Por este outro estranho detalhe relacionado com o fogo e também com a irascibilidade e falta de paciência de Javé, podemos ver que estava muito interessado que os sacrifícios que pedia fossem feitos exatamente como ele dizia, quando ele dizia, pelas causas que ele os pedia e unicamente nos lugares que ele assinalava, [9] caso contrário sobrevinha o implacável castigo. Lemos em Levítico 10:1-2: “Ora Nadab e Abiu, filhos de Arão, tendo tomado os turíbulos, puseram neles fogo e incenso, oferecendo diante do Senhor um fogo estranho, o que não lhes tinha sido ordenado. Um fogo vindo do Senhor devorou-os e morreram diante do Senhor.”

Salvador Freixedo

“A explicação fanática dada por Moisés ante um fato tão bárbaro e o silêncio impotente de um pobre pai achacado pela dor e pela injustiça de seu ‘deus’ ”, assaca Freixedo, “são só o eco de milhares de fatos parecidos”: “Moisés disse a Arão: Isto é o que disse o Senhor: Eu serei santificado naqueles que se aproximam de mim, e serei glorificado em presença de todo o povo. Arão, ouvindo isto, calou-se.” (Levítico 10:3). Desabafou Freixedo: “O que poderia dizer o pobre Arão, incapaz de compreender a ‘justiça e a bondade’ de seu ‘deus’? Certamente naquele momento e dentro de seu coração, sentiu que devia blasfemar contra Javé, como blasfemaram contra ele muitíssimos crentes desesperados quando os sacerdotes religiosos lhes achacaram com justificativas infundadas, porque devidas a causas bem mais próximas a nós.”[10]

Primo de Moisés, o chefe religioso Coré – que reivindicava o sacerdócio para todos os descendentes de Levi –, junto dos chefes políticos Datan e Abiron – que por sua vez reivindicavam para sua tribo, a de Rúben, primogênito de Jacó, a supremacia do governo –, questionam a liderança de Moisés, a quem consideravam como enganador do povo. Pondo-se, como não poderia deixar de ser, ao lado de Moisés, Javé faz a terra se abrir e engolir os insurgentes, incluindo mulheres e crianças: “E (Moisés) disse a Coré: Tu e todos os teus sequazes apresentai-vos amanhã de uma parte diante do Senhor, e Arão de outra parte. Tomai cada um os vossos turíbulos e ponde-lhes em cima incenso, oferecendo ao Senhor duzentos e cinquenta turíbulos. E Arão tenha também o seu turíbulo. Tendo eles feito isto na presença de Moisés e Arão, e tendo juntado contra eles toda a multidão (dos rebeldes) à entrada do tabernáculo, apareceu a todos a glória do Senhor. E o Senhor falou a Moisés e a Arão, dizendo: Separai-vos do meio desta congregação, para que eu de improviso os destrua. Eles então prostraram-se com o rosto por terra, e disseram: Ó Deus fortíssimo dos espíritos de toda a carne, acaso pelo pecado de um só se acenderá tua ira contra todos? […] Afastando-se o povo das suas tendas, Datan e Abiron, saindo fora, estavam de pé à entrada das suas tendas com suas mulheres e filhos, e com todos os companheiros. […] Logo que ele (Deus) acabou de falar, fendeu-se a terra debaixo dos seus pés, e, abrindo a sua boca, os tragou com as suas tendas e com tudo o que lhes pertencia. Desceram vivos ao inferno, cobriu-os a terra e pereceram do meio da multidão. Todo o Israel que estava em volta deles, ao clamor dos que pereciam, fugiu, dizendo: Não suceda que a terra nos engula também a nós. Ao mesmo tempo, saindo um fogo do Senhor, matou os duzentos e cinquenta homens, que ofereciam o incenso.” (Números 16:16-22, 27, 31-35).

“Logo que ele (Deus) acabou de falar, fendeu-se a terra debaixo dos seus pés, e, abrindo a sua boca, os tragou com as suas tendas e com tudo o que lhes pertencia. Desceram vivos ao inferno, cobriu-os a terra e pereceram do meio da multidão. Todo o Israel que estava em volta deles, ao clamor dos que pereciam, fugiu, dizendo: Não suceda que a terra nos engula também a nós. Ao mesmo tempo, saindo um fogo do Senhor, matou os duzentos e cinquenta homens, que ofereciam o incenso.” (Números 16:16-22, 27, 31-35). Ilustração: A Bíblia Mais Bela do Mundo, nº 17, vol.I, 7 de setembro de 1965, p.270.

Tão terrível e gratuita pareceu aquela mortandade por parte de seu “bom deus” protetor, que no dia seguinte os próprios filhos de Israel murmuraram e se voltaram contra Moisés e Arão – pelo que também acabariam impiedosamente dizimados –, dizendo: “Vós matastes o povo do Senhor. E como se formasse sedição e crescesse o tumulto, Moisés e Arão fugiram para o tabernáculo da aliança. E, quando entraram, a nuvem cobriu-o, e apareceu a glória do Senhor. E o Senhor disse a Moisés: Retirai-vos do meio desta multidão; imediatamente os destruirei. Tendo-se prostrado por terra, Moisés disse a Arão: Toma o turíbulo, e, pondo-lhe fogo do altar, deita-lhe incenso em cima, e vai depressa ao povo a fim de rogares por ele; porque já saiu a ira do Senhor e a praga começa. Arão, tendo feito isto, e correndo ao meio da multidão, a quem já abrasava o incêndio, ofereceu incenso; e, estando de pé entre os mortos e vivos, rogou pelo povo, e a praga cessou. Ora, os que pereceram foram catorze mil e setecentos homens, afora os que tinham perecido na sedição de Coré. E Arão voltou para Moisés para a porta do tabernáculo da aliança, depois que cessou a mortandade.” (Números 16:41-50).

Ilustração: A Bíblia Mais Bela do Mundo, nº 62, vol.IV, 19 de julho de 1966, p.8.

Para provar ao rei (de Samaria) Acazias – o qual por sua vez adorava e consultava a Belzebub, deus de Acaron – que era um homem de Deus, o profeta Elias (século IX a.C.)[11] faz cair fogo do céu e mata centenas de soldados: “Respondendo Elias, disse ao capitão dos cinquenta homens: Se eu sou homem de Deus, desça fogo do céu, devore a ti com os teus cinquenta homens. Desceu, pois, fogo do céu e o devorou com os cinquenta homens que estavam com ele. Acazias enviou outra vez outro capitão de cinquenta homens e os seus cinquenta com ele. O qual lhe disse: Homem de Deus, o rei diz isto: Apressa-te, vem. Respondendo Elias, disse: Se eu sou homem de Deus, desça fogo do céu, devore a ti com os teus cinquenta homens. Desceu, pois, fogo do céu, e o devorou com os seus cinquenta homens. Enviou outra vez Acazias terceiro capitão de cinquenta homens, e os cinquenta homens que estavam com ele. O qual, tendo chegado, se pôs de joelhos diante de Elias e lhe suplicou, e disse: Homens de Deus, não desprezes a minha vida, nem as vidas dos teus servos que estão comigo. Eis que desceu fogo do céu e devorou os dois primeiros capitães de cinquenta homens, e os cinquenta que estavam com eles; mas agora eu te suplico que te compadeça de minha vida.” (II Reis 1:10).

Elias, como se sabe, foi arrebatado ao céu por um redemoinho: “Continuando o seu caminho, e caminhando conversar entre si, eis que um carro de fogo e uns cavalos de fogo os separaram um do outro. Elias subiu ao céu no meio dum redemoinho. Eliseu o via e clamava: Meu pai, meu pai, carro de Israel e seu condutor. E não o viu mais. Tomou os seus vestidos e rasgou-os em duas partes.” (II Reis 2:11-12). Segundo Ezequiel 1:15, o fogo, o turbilhão e o carro são elementos da majestade de Deus que apareceu para levar Elias consigo. Pelos pormenores do texto, confrontados com o que aparece em outros textos bíblicos, é possível deduzir que Elias foi violentamente arrebatado pelo turbilhão; o carro e os cavalos serviram somente para separar os dois profetas.

Javé, o deus tribal dos judeus, não era muito diferente de outros deuses: era um feitor ou capataz desagradável, irascível, bravo, brutal e cruel, um carniceiro semilouco e genocida; atormentava os judeus sob seu comando, e se não estes não o obedecessem, Ele simplesmente os aniquilava. Se todas estas coisas parecem demasiado chocantes e estranhas (para não dizer absurdas), não se esqueça o leitor de que são tomadas diretamente da Bíblia, o “livro sagrado” que para muitos bilhões de seres humanos foi o maior guia durante muitos séculos e o continua sendo. “Com um guia assim que nos apresenta Deus como um indivíduo de gostos tão animalescos e extravagantes”, lamenta Freixedo, “não é de estranhar que nossa sociedade esteja como está e que as ideias religiosas no mundo judaico-cristão andem tão à deriva como andam.”[12]

Essa ânsia de sangue não só não cessou com o advento do cristianismo, mas atingiu um grau mais requintado de sadismo e masoquismo com a revalorização da antiga tradição – surgida e praticada milhares de anos antes do nascimento de Jesus – de sacrificar o rei ou semideus pendurando-o em uma árvore ou estaca e trespassando-o com uma lança, depositando em seguida seu corpo em um sepulcro para que ressuscitasse e ascendesse aos céus. A figura de Chrèstós (Christós, “o Ungido” em grego) como alguém que viria para “salvar” o seu povo, estava já bastante incutida e, portanto, pré-programada e pré-fabricada nos mínimos detalhes. Tudo o que Jesus teve de fazer foi cumprir o roteiro e levar adiante “o que havia sido escrito” e esperavam que fizesse. Suas próprias palavras não deixam margem a dúvidas quanto a isso: “Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir.” (Mateus 5:17).

A matança de um Agnus Dei (“Cordeiro de Deus”) não foi, como se ensina no catecismo, uma contingência, mas uma exigência para a consumação de seu “corpo” e “sangue”, ainda que simbolicamente da mesma forma que seus antepassados devoravam a carne e bebiam o sangue de seus reis e semideuses. O “exemplo” de Cristo constituiu-se em modelo e inspiração para que nos séculos seguintes os mártires cristãos – cujo número é frequentemente superestimado e bem menor quando comparado ao de pessoas assassinadas pelos cristãos em nome de Deus – não desejassem nada mais além do que entregar suas vidas em sacrifício.

Jesus (Jim Caviezel) sendo retirado da cruz em cena de The Passion of the Christ (A Paixão de Cristo), de Mel Gibson.

Praticamente todo cristão moderno se indignaria ao máximo se alguém lhe dissesse que a essência de seu credo – a comunhão, na qual a pessoa se torna vinculada à divindade ao consumi-la – aponta para os seculares ritos canibais ou de devoração. E assim é, no entanto.

Comparado aos cultos e mitologia anteriores, o cristianismo nada produziu de muito original, mas apenas trocou uma “crosta superficial” celestial por outra e acrescentou um caráter mais moralista e censor. Se o cristianismo tem sido capaz de sobreviver por mais de dois mil anos, isso não prova automaticamente sua autenticidade e seu caráter divinamente inspirado, mas apenas atesta que teria usurpado, para seus próprios fins, o temor e a reverência indelevelmente implantados e programados ao longo de milhares de anos.

O legado literário de Salvador Freixedo:

  • Extraterrestres y creencias religiosas (Extraterrestres y religión) (1971)
  • El diabólico inconsciente (Parapsicología y religión) (1973)
  • Visionarios, místicos y contactos extraterrestres (La religión entre la parapsicología y los OVNIS) (1977)
  • Israel, pueblo contacto (1978)
  • 60 casos de OVNIS
  • ¿Por qué agoniza el Cristianismo? (1983)
  • Diccionario sulfúrico
  • Curanderismo y Curaciones por la Fe (1983)
  • ¡Defendámonos de los dioses! (1984)
  • Las apariciones de El Escorial (Las Apariciones Marianas) (1985)
  • Religión, política y microcefália
  • El Cristianismo: un mito más (1986)
  • Los curanderos (1987)
  • La granja humana (Ellos, los dueños invisibles de este planeta) (1988)
  • La amenaza extraterrestre (1989)
  • Interpelación a Jesús de Nazaret (1989)
  • Apariciones religiosas : mito o realidad? ; una explicación a fenómenos como el de Villa Alemana (1989)
  • Los contactados (1991)
  • Los hijos de la Nueva Era (1992)
  • Los OVNIS, ¿una amenaza para la humanidad? (1992)
  • Biografía del fenómeno OVNI (1992)
  • ¿Qué son los OVNIS? (1993)
  • Fenómeno OVNI: Evidencias (1993)
  • En los límites del universo (1994)
  • OVNIS y dioses depredadores (1995)
  • Las religiones que nos separan (1995)
  • Videntes, visionarios y vividores (1998)
  • Un gallego llamado Cristóbal Colón, redescubridor de América (2002)
  • La Expaña de Z (2010)
  • Teovnilogía (2012)
  • Iglesia, ¡despierta! (2015)

Notas:

[1] Freixedo, Salvador. ¡Defendámonos de los Dioses! Madrid, Algar, 1984, p.50.

[2] Ibid., p.52.

[3] Ibid., p.52.

[4] Ibid., p.61.

[5] Ibid., p.63.

[6] Ibid., p.77.

[7] Ibid., p.79.

[8] Ibid., p.83.

[9] Ibid., p.84.

[10] Ibid., p.85.

[11] O profeta Elias era um homem peludo que andava cingido sobre os rins com uma cinta de couro. Suscitado por Deus para combater o culto a Baal e a impiedade de Jesabel e Acab, seu nome está ligado a numerosos episódios bíblicos: a seca de três anos, o extermínio dos sacerdotes de Baal, a ressurreição do filho da viúva de Sarepta, a intervenção em favor de Nabot e a assunção do profeta ao céu. Segundo o profeta Malaquias, deverá volta a terra “antes que venha o dia grande e horrível do Senhor”.

[12] Freixedo, Salvador, op.cit., p.85.

8 thoughts on “Morre Salvador Freixedo, ex-padre jesuíta que clamou pelo fim das imolações aos deuses, os donos da granja humana

  • 17/11/2019 em 11:44
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    Excelente artigo.

    Fiquei sabendo somente agora da partida de Freixedo.

    Seu legado é eterno.

    Em todo sua vida se mostrou um homem íntegro e portador de um conhecimento assombroso, que não tardou em lançar a todos. Como Nietzsche, fez parte da fé cristã para depois se voltar contra as contradições de todas religiões. Dentre os pesquisadores do tema, o vejo como o mais sóbrio, justamente por tocar nas questões mais profundas. A granja humana é um tópico sem par.

    Mais uma vez, aponto a pertinência do artigo.

    Bom trabalho!

  • 11/12/2019 em 16:54
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    Valeu mais uma vez, caro Schramm. E como conclamava Freixedo, “defendamo-nos dos ‘deuses'”.

  • 04/01/2020 em 17:38
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    Só agora soube do falecimento desse gênio. Ano passado perdi pai, mãe, e agora vi que perdi um de meus autores prediletos no mesmo ano sombrio. Conheci os livros do Freixedo lendo em espanhol, os ebooks em pdfs porque até onde sei, nada do Freixedo foi publicado no Brasil.Em tempo: que site sensacional. É pra isso que pago internet kkk favoritei no meu navegador pra ler com calma.

  • 04/01/2020 em 18:04
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    Existe algum livro do Freixedo traduzido para o português e publicado no Brasil??

  • 07/01/2020 em 21:29
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    Caro Sil, que eu saiba, infelizmente não. É lamentável.

  • 07/01/2020 em 21:33
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    Caro Rogério, em primeiro lugar, meus sentimentos. O ano passado foi um ano pesado para mim também. Fico muito agradecido pelas suas palavras e estimulado a seguir em frente, mesmo com tantos percalços e incompreensões. Tudo de bom e um grande abraço.

  • 17/02/2020 em 22:19
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    Isaac Newton, Michael Faraday, Maxwell, pelo que entendi eles eram religiosos.

  • 12/04/2020 em 15:20
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    Hoje dia 12.04.2020, estou em minha casa, em pleno domingo de Páscoa, na quarentena imposta pelos governantes em minha cidade São Paulo, e me perguntando como que só agora tive conhecimento deste padre e deste site. Por incrível que seja, ao assistir um vídeo no youtube, li nos comentários sobre este padre e estou estarrecida, tudo, absolutamente tudo faz sentido. Meu único desejo é que um maior número de pessoas possíveis tenham conhecimento deste texto extremamente forte. Agradeço, apesar da dor que senti por todos os enganos.

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