O cérebro reptiliano de todos nós

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

O astrofísico Carl Sagan (1934-1966) em seu livro Os Dragões do Éden, de 1977, levanta a hipótese de que a metáfora da serpente se refere na verdade ao uso do componente reptiliano agressivo e ritualístico de nosso cérebro na evolução do neocórtex. Assim, essa obsessão com o tema reptiliano seria porque ainda remanesce em nós uma parte reptiliana, expressa em nosso comportamento real por muito do que dizemos, pensamos e fazemos. O termo assassinato a “sangue frio”, por exemplo, sem contar nosso cotidiano continuamente entremeado de ritual (o mito ativo transfigurado de uma transformação simbólica da experiência) e de práticas animalescas.

Talvez não por acaso, o sobrenome Sagan, de trás para frente, seja “Nagas”, o temido nome em sânscrito que designa um grupo de criaturas da mitologia hindu e budista possuidoras de poderes sobrenaturais que vivem no subterrâneo e têm a forma de uma enorme cobra-real, com uma ou várias cabeças. Muitas esculturas de nagas podem ser vistas na fronteira da Tailândia com o Cambodja. Essas criaturas malignas podem acasalar-se com as serpentes gerando criaturas monstruosas praticamente indestrutíveis que, visíveis ou invisíveis, permanecem próximas às aldeias de seu povo, dando-lhe proteção. Meu próprio sobrenome é Suenaga, que em japonês pode ser traduzido por “do clã da serpente”. Pertenceria eu mesmo a uma linhagem reptiliana? Talvez, não o sei.

O médico e neurocientista norte-americano Paul MacLean (1913-2007), autor de importantes contribuições nos campos da fisiologia, psiquiatria e pesquisas do cérebro quando trabalhava na Yale Medical School e no National Institute of Mental Health, elaborou a teoria do cérebro trino, que descreveu em detalhes em seu livro The Triune Brain in Evolution: Role in Paleocerebral Functions (O Cérebro Trino em Evolução: O Papel nas Funções Paleocerebrais). MacLean discute o fato de que nós, humanos/primatas, temos o cérebro dividido em três unidades funcionais diferentes, e que cada uma dessas unidades representa um extrato evolutivo do sistema nervoso dos vertebrados.

O cérebro humano seria, na verdade, três cérebros em um, ou três computadores biológicos interligados: o complexo reptiliano, o sistema límbico e o neocórtex. Cada cérebro corresponde a uma etapa evolutiva.

O cérebro reptiliano, cérebro basal ou, como denominou MacLean, “R-Complex” (“Complexo-R”), é a parte mais arcaica do cérebro, formado apenas pela medula espinhal, o bulbo e a ponte, que fazem parte do rombencéfalo e o mesencéfalo. MacLean chama esta combinação de medula espinhal, rombencéfalo e mesencéfalo de chassi neural. Esse primeiro nível de organização cerebral é capaz apenas de promover reflexos simples, o que ocorre em répteis. Nele está o mecanismo neural básico para a reprodução e a autopreservação, o que abrange a regulação cardíaca, a circulação sanguínea e a respiração. No peixe, no réptil ou no anfíbio, é quase todo o cérebro existente.

O cérebro dos mamíferos inferiores, cérebro emocional ou “paleomammalian brain”, o segundo nível funcional do sistema nervoso que, além dos componentes do cérebro reptiliano, conta com os núcleos da base do telencéfalo, responsáveis pela motricidade grosseira; pelo diencéfalo, constituído por tálamo, hipotálamo e epitálamo; pelo giro do cíngulo; e pelo hipocampo e parahipocampo. Esses últimos componentes são integrantes do sistema límbico, que é responsável por controlar o comportamento emocional dos indivíduos, daí o nome de cérebro emocional. Esse nível de organização corresponde ao cérebro da maioria dos mamíferos, mas não nos répteis. Provavelmente ele se desenvolveu há mais de 150 milhões de anos.

O cérebro racional ou neocórtex, composto pelos lobos frontal (responsável pelas funções executivas), parietal (sensações gerais), temporal (audição e olfato), occipital (visão) e insular (paladar e gustação), a grande camada externa que envolve os outros dois cérebros, é o que diferencia o homem e os mamíferos superiores dos demais animais. De acordo com MacLean, é graças ao neocórtex que o homem consegue desenvolver o pensamento abstrato e racional. O neocórtex também está presente nos golfinhos e baleias. Seu desenvolvimento foi grandemente acelerado há alguns milhões de anos, quando o homem apareceu.[1]

O jornalista, escritor e ativista político judeu húngaro radicado na Inglaterra Arthur Koestler (1905-1983), em seu O Fantasma da Máquina, de 1967, salientou ser este, “certamente, um estranho estado de coisas. Se as provas não nos houvessem mostrado o contrário, esperaríamos um desenvolvimento evolutivo que gradualmente transformasse o primitivo e antigo cérebro em um instrumento mais refinado, tal como transformou a garra em mão e a brânquia em pulmão. Em vez disso, a evolução superpôs uma estrutura nova e superior a uma antiga, com funções parcialmente sobrepostas, e sem fornecer à nova um controle hierárquico e bem delineado sobre a antiga, convidando dessa maneira à confusão e ao conflito.”

Koestler suspeitava que a nossa tendência em incorrer muito mais frequentemente em comportamentos aberrantes – fazendo correr esse “laivo de delírio através de nossa história” – fosse “uma forma endêmica de paranoia, inerente aos circuitos elétricos do cérebro humano”, como se houvesse “um parafuso frouxo em algum lugar da mente humana”, ou, “em linguagem mais científica”, como se “em algum lugar ao longo da linha da evolução algo de gravemente errado tenha acontecido com o sistema nervoso do Homo sapiens”, até porque “a evolução do cérebro humano foi um processo de rapidez sem precedente, quase explosivo”, o que “pode ter conduzido a um beco sem saída”.[2]

As pesquisas de MacLean, referidas por Koestler, apontariam para uma “coordenação insuficiente entre o arquicórtex e o neocórtex, ou seja, entre as áreas de nosso cérebro filogeneticamente antigas e as áreas novas, especificamente humanas, que a ele foram superpostas com tal pressa indecorosa”. Essa falta de coordenação seria a causa das dissonâncias entre a emoção e o intelecto, ou seja, “enquanto nossas funções intelectuais são efetuadas pela parte mais nova e altamente desenvolvida do cérebro, nossa conduta afetiva continua a ser dominada por um sistema primitivo e relativamente grosseiro”.[3]

Koestler deduz que por mais variadas que sejam as manifestações, por assim dizer, sintomáticas, o padrão de perturbação do laivo paranoide é o mesmo, “uma mentalidade cindida entre a fé e a razão, entre a emoção e o intelecto. A fé num sistema de crenças comum baseia-se num ato de entrega emocional; ela rejeita a dúvida como algo de maligno; é uma forma de autotranscendência que exige a rendição parcial ou total das faculdades críticas do intelecto e comparável ao estado hipnótico.” Cindida em dois planos mutuamente exclusivos, a mente humana é inerentemente esquizofrênica, e mesmo que nossas crenças tenham passado por um refinamento gradual, “o padrão dualístico de nossas mentes permanece basicamente inalterado”. Não obstante, se chegamos até aqui, é porque tivemos de aprender a viver com uma mente dividida. A precária solução encontrada foi a de “remendá-la com racionalizações e sutis técnicas de pseudo-raciocínio, as quais são, em todas as épocas, de boa vontade fornecidas pelos dialéticos de diversas marcas, desde os teólogos até os evangelistas marxistas, e assim se chega a um modus vivendi, baseado na auto-sugestão, o qual perpetua o laivo de delírio.”[4]

Notas:

[1] Sagan, Carl. Os Dragões do Éden: Especulações sobre a Evolução da Inteligência Humana, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1980, p.47.

[2] Koestler, Arthur. O Fantasma da Máquina, Rio de Janeiro, Zahar, 1969, p.257.

[3] Ibid., p.291-292.

[4] Ibid., p.276-278.

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