Os 40 anos do Incidente na Floresta de Rendlesham, o Roswell britânico

O Incidente na Floresta de Rendlesham é a ocorrência ufológica mais famosa e mais importante do Reino Unido, sendo comparado com o Incidente de Roswell dos Estados Unidos e por vezes referido como o “Roswell britânico”. A série de avistamentos no final de dezembro de 1980, perto das bases militares gêmeas de Bentwaters e Woodbridge, operadas pela USAF, como parte da maior presença militar dos Estados Unidos na Europa, incluiu várias dezenas de abalizadas testemunhas militares, entre elas o vice-comandante da base, tenente-coronel Charles Halt. Nas primeiras horas de 26 de dezembro de 1980, dois membros da USAF (John Burroughs e Jim Penniston), que haviam sido enviados para investigar a presença de um avião civil suspeito, encontraram uma aeronave desconhecida que aparentemente havia desembarcado em uma pequena clareira na Floresta de Rendlesham, que ficava entre as bases gêmeas. Penniston chegou perto o suficiente para ver símbolos hieroglíficos estranhos no casco e até tocá-los. Depois de algum tempo, a nave subiu lentamente acima das copas das árvores e depois acelerou em alta velocidade. Uma análise subsequente do local de aterrissagem mostrou indentações no chão formando um triângulo, marcas de queimaduras nas laterais das árvores e níveis de radiação que a equipe científica do Ministério da Defesa do Reino Unido avaliou como sendo “significativamente maior do que o nível normal”. O OVNI foi brevemente rastreado pelo radar militar. Duas noites depois, o OVNI retornou e disparou raios de luz contra o vice-comandante da base e uma pequena equipe de homens que foram investigar. Mais tarde, disparou raios de luz em uma área particularmente sensível da Base de Woodbridge. Este foi e continua sendo certamente o caso ufológico mais pesquisado do Reino Unido e que recebe a maioria das consultas, tanto de militares, políticos, ufólogos, da mídia e do público. Para poder esclarecer melhor todos os seus pontos, a favor ou contra, examinei criticamente todas as várias teorias que procuraram explicar os avistamentos em termos convencionais, como identificação errônea, fraude ou ilusão, e procedi a uma revisão retrospectiva do incidente a partir de livros e documentos, algo semelhante a reconstituição fria dos acontecimentos que você irá acompanhar a partir de agora.

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Claros Desígnios: O Encobrimento Governamental da Experiência OVNI.
Desastre Aéreo: Uma Conspiração Cósmica.

Em 1984 a ufologia foi chacoalhada com o lançamento do livro Clear Intent: The Government Coverup of the UFO Experience (Englewood Cliffs, NJ, Prentice Hall), de Lawrence Fawcett e Barry J. Greenwood, ambos pertencentes à organização norte-americana CAUS (Citizens Against UFO Secrecy, ou Cidadãos Contra o Segredo dos OVNIs), cuja árdua e heroica batalha para obter a verdade dos fatos do governo norte-americano em relação os OVNIs vinha mexendo fundo com os círculos governamentais daquele país. Com um prefácio do astrofísico J. Allen Hynek, Clear Intent foi acompanhado por um outro livro intitulado Sky Crash: A Cosmic Conspiracy (Sudbury, Suffolk, Neville Spearman), de Brenda Butler, Dot Street e Jenny Randles [nascida Christopher Paul Randles (1951-)].

Ambos tratavam do escandaloso incidente ocorrido na Base da Real Força Aérea de Bentwaters (Royal Air Force Bentwaters ou simplesmente RAF Bentwaters), sudeste da Inglaterra, a cerca de 130 km a nordeste de Londres e nas imediações da Floresta de Rendlesham, próxima de Woodbridge, em Suffolk, onde se erguiam um farol e alguns edifícios antigos destinados à pesquisa de equipamentos de radar. Seu nome foi tirado de dois chalés (Bentwaters Cottages) que estavam no local da pista principal durante sua construção em 1943. A estação foi usada pela RAF durante a Segunda Guerra Mundial e pela Força Aérea dos Estados Unidos [United States Air Force (USAF)] durante a Guerra Fria, com os campos de pouso de Bentwaters e Woodbridge sendo conhecidos pelos norte-americanos como “Twin Bases”. É preciso deixar bem claro, no entanto, que os eventos ocorreram fora da RAF Woodbridge, que era usada na época pela USAF. Em Clear Intent o caso foi abordado entre muitíssimos outros, mas em Sky Crash foi o assunto central.

O então tenente-coronel Charles Irwin Halt

O então tenente-coronel (hoje coronel aposentando) da USAF, Charles Irwin Halt (1939-), que havia servido no Vietnã, Japão e Coreia e fora recém designado para vice-comandante da base, escreveu um memorando (conhecido como “Memorando Halt”) sob o título “Luzes Inexplicadas” em 13 de janeiro de 1981, posteriormente enviado ao Ministério da Defesa e liberado pelo governo norte-americano em 1983 sob a FOIA (Freedom of Information Act, ou Lei de Liberdade de Informação). O atraso de duas semanas entre o incidente e o relatório pode ser responsável por erros nas datas e horas fornecidas, como veremos adiante. Posteriormente, a ufóloga inglesa Jenny Randles conseguiu uma carta do Ministério da Defesa Britânico [Ministry of Defence, (MoD)], conhecido como SF4, admitindo a veracidade do caso e o fato deles não terem explicações para o mesmo.

O sargento John Burroughs

Por volta das 3 horas da manhã de sexta-feira, 26 de dezembro de 1980 (relatado como 27 de dezembro por Halt em seu memorando ao Ministério da Defesa do Reino Unido), John Burroughs e Budd Parker, ambos patrulheiros da RAF, estavam vigiando o portão leste da RAF Woodbridge quando viram um objeto descer do céu e tocar o chão da vizinha Floresta Rendlesham sem fazer qualquer barulho. Podia-se ver apenas uma massa de luzes coloridas que, segundo eles, se parecia com uma árvore de Natal. Essas luzes foram atribuídas por astrônomos a um pedaço de entulho natural visto queimando como uma bola de fogo no sul da Inglaterra naquela ocasião. 

O sargento Jim Penniston

O sargento Burroughs ligou para a base e em poucos minutos o sargento patrulheiro de segurança James “Jim” Penniston dirigiu-se ao local em um jipe dirigido por Herman Kavanasac. Assim que se aproximaram, os dois militares viram as luzes entre as árvores, que pensaram ser de uma aeronave abatida. Um campo elétrico parecia envolver o bosque, o que dificultava contatos por rádio. Penniston e Burroughs entraram sozinhos no bosque e à medida que se aproximavam de uma clareira, notaram que o ar “transbordava” energia. Tudo estalava e crepitava como se estivessem no meio de uma tormenta elétrica. Começaram a sentir um formigamento na pele e seus cabelos ficaram de pé. Na frente deles estava o OVNI, o qual descreveram como sendo um objeto cônico metálico do tamanho de um carro pequeno que flutuava sobre feixes de luz – outras testemunhas relataram ter visto “pés finos” – a apenas 30 centímetros do chão. O OVNI estava envolvido por uma aura nebulosa e nas laterais ostentava marcas pretas que pareciam pintadas. Chegar perto do objeto era algo impossível, segundo os oficiais. Era como nadar em um “mar melado”. Eles queriam avançar, mas não conseguiam se mexer. Mesmo assim, Penniston garantiu ter chegado perto o suficiente para ver símbolos hieroglíficos estranhos no casco e tocá-los.

Símbolos visto por Jim Penniston no casco do OVNI.

Inesperadamente o objeto emitiu uma luz e começou a se erguer, enquanto a fauna do bosque entrava em uma frenética atividade: pássaros voavam, cervos corriam para procurar esconderijo, etc. Animais de uma fazenda próxima também pareciam estar excitados ou irritados com o que estava acontecendo, pois demonstravam um comportamento anormal. Os dois homens continuaram de pé olhando fixamente para o céu até que o OVNI desaparecesse.

Pouco depois das 4 horas, a Polícia de Suffolk foi chamada ao local, mas relatou que as únicas luzes que puderam ver foram as do farol de Orford Ness, a alguns quilômetros de distância na costa.

Ao amanhecer de 26 de dezembro, poucas horas depois do contato de Burroughs e Penniston, os militares voltaram a uma pequena clareira perto da borda leste da floresta e encontraram sinais inequívocos da presença do OVNI: três pequenas impressões no solo gelado em um padrão triangular, os quais coincidiam com a localização dos pés que os homens tinham visto debaixo do OVNI, assim como marcas de queimaduras e galhos torcidos e quebrados em árvores próximas. Um avião que sobrevoou o local captou sinais de radiação infravermelha na floresta. Às 10h30, a Polícia local foi chamada novamente, desta vez para ver as impressões, que eles pensaram que poderiam ter sido feitas por um animal.

A empresária e ufóloga britânica Georgina Bruni, em seu livro You Can’t Tell the People: The Definitive Account of the Rendlesham Forest UFO (London, Pan Macmillan, 2001), publicou uma fotografia do suposto local de pouso tirada na manhã seguinte ao primeiro avistamento. Bruni teve acesso aos relatórios da Polícia, do Ministério da Defesa e de fontes militares dos Estados Unidos e seu livro revelou novas informações sobre o incidente, que para ela foi um indubitável encontro alienígena. Ela incluiu entrevistas com os envolvidos, bem como resgatou outros incidentes nunca antes relatados na área. 

No sábado, 27 de dezembro, durante uma festa de oficiais na Base de Bentwaters, o tenente Bruce Englund entrou na sala e notificou o vice-comandante da base, tenente-coronel Charles Halt, de que “aquilo” havia voltado. Halt reuniu seus oficiais de segurança e partiu rumo à região disposto a investigar e solucionar o caso de uma vez por todas.

Assim é que nas últimas horas de 27 de dezembro e no início da madrugada de 28 de dezembro (relatado como 29 de dezembro por Halt), o tenente-coronel Halt liderou uma patrulha para investigar o local de pouso de OVNIs próximo à borda leste da Floresta Rendlesham. O patrulheiro Burroughs se uniu ao grupo. A primeira coisa que fizeram foi isolar a região para impedir a invasão de intrusos. Uma vez dentro da floresta, Halt não se surpreendeu ao descobrir que o OVNI já não podia ser visto. As lanternas começaram a falhar e o contato por rádio era difícil, como na noite anterior.

Eles fizeram leituras de radiação no triângulo de depressões e na área circundante usando um AN/PDR-27, um medidor de radiação militar padrão dos Estados Unidos. Embora tenham registrado 0,07 miliroentgens por hora, em outras regiões detectaram 0,03 a 0,04 miliroentgens por hora, em torno do nível de fundo. Além disso, eles detectaram uma pequena explosão semelhante a quase 1 km de distância do local de pouso.

Poucos segundos depois, estranhos ruídos começaram a vir de todas as partes. Halt ordenou a seus homens, pelo transmissor, que ficassem alerta. Foi durante essa investigação que eles testemunharam várias luzes não identificadas. A mais proeminente delas foi uma luz intermitente a leste, quase em linha com uma casa de fazenda, como as testemunhas haviam visto na primeira noite. O Farol de Orford Ness é visível justamente mais a leste na mesma linha de visão.

O Farol de Orford Ness

Os que haviam adentrado mais profundamente na floresta – entre eles Burroughs e o sargento Adrian Bustinza -, descreveram-no como uma luz brilhante que pousou sobre um pilar de neblina amarelada e se separou como se fosse um arco-íris produzido por um prisma. O objeto, que presumiram ser uma aeronave acidentada, foi descrito como sendo “metálico na aparência e triangular no formato”, com uma “luz pulsante vermelha no topo e uma fileira de luzes azuis embaixo”. Halt e sua equipe também não demoraram a ver a luz, até que o objeto disparou rumo ao céu. Depois de um momento de silêncio, viu-se um feixe luminoso se dirigindo a terra. Halt voltou a reunir sua equipe e tomou o caminho de volta.

Esboço do OVNI por Jim Penniston.

Mais tarde, de acordo com o Memorando Halt, três luzes semelhantes a estrelas foram vistas no céu, duas ao norte e uma ao sul, cerca de 10 graus acima do horizonte. Halt disse que a mais brilhante delas pairou por duas a três horas e parecia irradiar um feixe de luz de vez em quando. Os astrônomos explicaram essas luzes como não sendo nada mais do que estrelas brilhantes.

Halt gravou os eventos em um gravador de micro-cassete. Em 1984, uma cópia do que ficou conhecido como “Fita Halt” foi liberada para os ufólogos pelo coronel Sam Morgan, que então havia sucedido Ted Conrad como superior de Halt. Esta fita narra a investigação de Halt na floresta em tempo real, incluindo leituras de radiação, o avistamento da luz piscando entre as árvores e os objetos parecidos com estrelas que pairavam e cintilavam.

O Memorando Halt foi enviado ao Ministério da Defesa Britânico junto com uma carta escrita pelo líder de esquadrão Donald Moreland, um oficial de ligação da RAF, que fazia referências a “algumas observações misteriosas”. Os cientistas que trabalhavam para o ministério disseram que não podiam oferecer qualquer explicação para o fenômeno da radiação. Gravações feitas por radar na noite em questão foram enviadas sob custódia para bases da RAF próximas para verificar se alguma evidência de invasão do espaço aéreo britânico havia sido registrada.

Carta do tenente-coronel Charles Halt para o Ministério da Defesa do Reino Unido e que ficou conhecida como o “Memorando Halt”.

Mais de dois anos depois, em 1983, o Memorando Halt foi obtido por meio da FOIA, mas ficou retido pelo Ministério de Defesa Britânico, que só o liberou ao público em meados de setembro de 2001. De acordo com esses documentos, o relato feito pelo vice-comandante da Base Nuclear Norte-Americana em East Anglia colocou o Ministério da Defesa em alerta, que já andava preocupado com os rumores de que um “pouso alienígena” poderia estar encobrindo um acidente envolvendo armas nucleares, a queda de um protótipo de aeronave furtiva stealth ou a recuperação secreta de um satélite soviético. Ficaram tão preocupados que as equipes antinucleares foram alertadas para a presença de artefatos nucleares em Bentwaters.

O incidente poderia estar encobrindo ainda outros fatos inusitados, uma vez que cinco documentos permaneceram retidos por conterem instruções confidenciais que afetam a segurança nacional e as relações dos Estados Unidos com a Inglaterra, além de levantarem questões sobre como nossas defesas podem ser enganadas e subjugadas facilmente por uma força extraterrestre.

O Ministério da Defesa do Reino Unido afirmou que o evento não representava nenhuma ameaça à segurança nacional e, portanto, nunca foi investigado como uma questão de segurança. Os cépticos explicaram os avistamentos como uma interpretação errônea de uma série de luzes noturnas: uma bola de fogo, o Farol de Orfordness e estrelas brilhantes.

As notícias do evento vazaram lentamente, finalmente chegando às manchetes em outubro de 1983: “OVNI pousa em Suffolk – e isso é oficial”, foi a manchete de primeira página do News of the World, um tabloide popular do Reino Unido que pagou £ 12.000 pela história.

A Cable News Network (CNN) fez um documentário sobre o caso no outono de 1984, e que foi exibido em fevereiro de 1985. Apareceram dando declarações o capitão Mike Verrano, o sargento Bob Ball, o sargento Ray Guylus, o aviador de 1ª classe Larry Warren e o aviador de 1ª classe Greg Bartram, além das testemunhas primárias Gerry Harris, Gordon Levett e Forrester Vince Thurkettle. Este foi, na época, um dos programas de maior audiência na CNN. Assistam abaixo:

Em 1997, o pesquisador escocês James Easton obteve as declarações originais das testemunhas feitas pelos envolvidos nos avistamentos da primeira noite. Uma das testemunhas, Ed Cabansag, disse em seu depoimento: “Imaginamos que as luzes vinham da floresta, pois nada era visível quando passamos pela floresta arborizada. Víamos um brilho próximo ao farol, mas à medida que nos aproximamos, descobrimos que era de uma casa de fazenda iluminada. Chegamos a um ponto onde pudemos determinar que o que estávamos perseguindo era apenas um farol apagado à distância.” John Burroughs referendou Cabansag: “Vimos uma luz girando, então fomos em sua direção. O seguimos por cerca de 3 km antes de podermos [ver] que vinha de um farol.”

Burroughs relatou um barulho “como se uma mulher estivesse gritando” e também que “você podia ouvir os animais da fazenda fazendo muitos ruídos”. Halt ouviu os mesmos ruídos duas noites depois. Esse barulho poderia ter sido feito por cervos Muntjac na floresta, que são conhecidos por seu latido alto e estridente quando alarmados.

Depois de se aposentar da USAF em 1991, Halt fez sua primeira aparição pública em um documentário de televisão, onde confirmou a autenticidade do Incidente na Floresta de Rendlesham. Em 1997, ele foi entrevistado por Georgina Bruni para um livro sobre o Incidente de Rendlesham, o já citado You Can’t Tell the People: The Definitive Account of the Rendlesham Forest. Ele também apareceu em vários outros documentários de televisão, o mais notório deles o da History Channel, UFO Files – Britain’s Roswell, que foi ao ar em 17 de dezembro de 2005.

Em junho de 2010, o coronel aposentado Charles Halt assinou uma declaração juramentada autenticada, na qual ele novamente resumiu o que tinha acontecido e afirmou que acreditava firmemente que o evento era extraterrestre e tinha sido encoberto pelo Reino Unido e pelos Estados Unidos “Eu acredito que os objetos que vi de perto eram de origem extraterrestre e que os serviços de segurança dos Estados Unidos e do Reino Unido tentaram – tanto naquela época como agora – subverter a importância do que ocorreu na Floresta Rendlesham e na RAF Bentwaters pelo uso de métodos de desinformação bem praticados.” Em 2016, Halt lançou um livro escrito com John Hanson intitulado The Halt Perspective (Haunted Skies Publishing).

Contradições entre esta declaração e os fatos registrados na época no memorando de Halt e na gravação da fita foram apontadas.

Em 2010, o comandante da base, coronel Ted Conrad, forneceu uma declaração sobre o incidente ao jornalista investigativo britânico David William Clarke, interessado em folclore, fenômenos forteanos e experiências pessoais extraordinárias. Conrad afirmou a Clarke, frequentemente consultado pela mídia nacional e internacional sobre lendas contemporâneas e OVNIs e que atuou como curador para o Projeto OVNI dos Arquivos Nacionais de 2008 a 2013, que “Não vimos nada que se parecesse com as descrições do tenente-coronel Halt no céu ou no solo” e que “Tínhamos pessoas em posição de validar a narrativa de Halt, mas nenhum deles podia.” Conrad criticou Halt pelas alegações em seu depoimento, dizendo que “ele deveria estar envergonhado e embaraçado por sua alegação de que seu país e a Grã-Bretanha conspiraram para enganar seus cidadãos sobre esta questão.”

O código binário recebido por Jim Penniston por “telepatia”.
A decodificação do código binário recebido por Penniston.

Conrad também contestou o testemunho do sargento Jim Penniston, que afirmou ter visto símbolos e tocado na espaçonave alienígena. Penniston afirmou ainda ter recebido uma longa mensagem em código binário daquela nave triangular pousada, por meio de telepatia mental: “Com certeza foi telepático. Era como um quadro que rodava um filme em meu cérebro. Era uma coisa do tipo ‘olho da mente’. Estava piscando zeros e uns. Mais tarde, descobrimos que (a mensagem) era algum tipo de código binário. Para ser honesto com você, tenho problemas com álgebra. Não sou uma ‘pessoa matemática’ de forma alguma, muito menos um expert em computadores. E em 1980, acho que nem tínhamos computadores que usávamos, então era estranho para mim. Penniston escreveu esse código binário em 16 folhas de papel, em um pequeno caderno, no dia seguinte. “Não consegui tirar aquelas imagens – uns e zeros, zero-zero-zero-um – da minha cabeça. Por isso, senti-me compelido a anotá-los.” Conrad, no entanto, disse quando entrevistou Penniston na época, este não mencionou tais fatos.

Conrad sugeriu, por fim, que todo o incidente pode ter sido uma farsa.

A propósito, a BBC relatou que um ex-policial de segurança dos Estados Unidos, Kevin Conde, assumiu a responsabilidade por criar luzes estranhas na floresta ao dirigir um veículo da polícia cujas luzes ele havia modificado. No entanto, não há evidências de que essa pegadinha tenha acontecido nas noites em questão.

Outras explicações para o incidente incluem um satélite espião soviético abatido, mas nenhuma evidência foi produzida para apoiar isso.

A explicação convencional mais provável é a de que o incidente envolveu um protótipo secreto de aeronave estratégica furtiva, provavelmente um Lockheed F-117 Nighthawk, ou ainda um drone. No entanto, nenhuma dessas teorias é conclusiva.

O Lockheed F-117 Nighthawk é muito semelhante, para não dizer quase idêntico, ao OVNI visto na Floresta de Rendlesham.

A explicação céptica mais plausível é que os avistamentos foram devidos a uma combinação de três fatores principais. O avistamento inicial às 3 horas de 26 de dezembro, quando os aviadores viram algo aparentemente descendo para a floresta, coincidiu com o aparecimento de uma bola de fogo brilhante sobre o sul da Inglaterra, e essas bolas de fogo são uma fonte comum de relatos de OVNIs. As supostas marcas de pouso foram identificadas pela polícia e engenheiros florestais como escavações de coelhos. Nenhuma evidência surgiu para confirmar que algo realmente pousou na floresta.

De acordo com os depoimentos das testemunhas de 26 de dezembro, a luz piscante vista da floresta estava na mesma direção do Farol de Orfordness. Quando as testemunhas tentaram se aproximar da luz, perceberam que estava mais distante do que pensavam. Uma das testemunhas, Ed Cabansag, descreveu-o como “um farol apagado ao longe”, enquanto outro, John Burroughs, disse que era mesmo “um farol”. Os tempos na gravação de Halt durante seu avistamento em 28 de dezembro indicam que a luz que ele viu, que estava na mesma direção da luz vista duas noites antes, piscava a cada cinco segundos, que era a taxa de flash do Farol de Orfordness.

O Farol de Orfordness, a leste da Floresta de Rendlesham, é comumente apontado como a fonte principal da confusão.

Os objetos parecidos com estrelas que Halt relatou pairando baixo ao norte e ao sul são considerados por alguns cépticos como sendo interpretações errôneas de estrelas brilhantes distorcidas por efeitos atmosféricos e ópticos, outra fonte comum de relatos de OVNIs. A mais brilhante delas, ao sul, combinava com a posição de Sirius, a estrela mais brilhante no céu noturno.

Em 2005, a Comissão Florestal usou os recursos da Loteria para criar uma trilha na Floresta Rendlesham por causa do interesse público e a apelidou de “Trilha UFO”. Em 2014, o Serviço Florestal contratou um artista para criar uma obra que foi instalada no final da trilha. O artista afirma que a peça é modelada em esboços que supostamente representam algumas versões do OVNI alegadamente visto em Rendlesham.

A Floresta de Rendlesham é propriedade da Comissão Florestal e consiste em cerca de 15 km2 de plantações de coníferas, intercaladas com cinturões de folhas largas, charnecas e áreas úmidas. Ele está localizado no condado de Suffolk, cerca de 13 km a leste da cidade de Ipswich. O incidente ocorreu nas proximidades de duas antigas bases militares: RAF Bentwaters, que fica ao norte da floresta, e RAF Woodbridge, que se estende para a floresta a partir do oeste e é delimitada pela floresta em suas bordas norte e leste. Na época, ambos estavam sendo usados ​​pela USAF e sob o comando do comandante de ala, coronel Gordon E. Williams . O comandante da base era o coronel Ted Conrad, e seu vice, o tenente-coronel Charles Irwin Halt. Os principais eventos do incidente, incluindo o suposto pouso, ocorreram na floresta, que começa na extremidade leste da pista de base ou cerca de 500 metros a leste do Portão Leste da RAF Woodbridge, de onde os seguranças notaram pela primeira vez luzes misteriosas parecendo descer para a floresta. A floresta se estende a leste por cerca de 1,6 km além do Portão Leste, terminando no campo de um fazendeiro em Capel Green, onde eventos adicionais ocorreram.

O portão leste na RAF Woodbridge, onde o incidente com o OVNI na Floresta de Rendlesham começou.

Em 2010, Jenny Randles, que relatou o caso pela primeira vez no London Evening Standard em 1981 e foi co-autora com os pesquisadores locais que descobriram os eventos do já citado primeiro livro sobre o caso em 1984, Sky Crash: A Cosmic Conspiracy, enfatizou suas dúvidas anteriormente expressas de que o incidente foi causado por visitantes extraterrestres. Embora sugerindo que um fenômeno atmosférico não identificado de origem desconhecida possa ter desencadeado partes do caso, ela observou: “Embora alguns quebra-cabeças permaneçam, provavelmente podemos dizer que nenhuma nave sobrenatural foi vista na Floresta de Rendlesham. Também podemos ter certeza de que o foco principal dos eventos era uma série de percepções errôneas de coisas cotidianas encontradas em circunstâncias menos que cotidianas.”

Em dezembro de 2018, David Clarke relatou uma versão de que o incidente foi armado pelo SAS (Special Air Service, a unidade de forças especiais do Exército Britânico formada em 1941) como um plano de vingança contra a USAF. De acordo com essa versão, em agosto de 1980, o SAS saltou de paraquedas na RAF Woodbridge para testar a segurança nuclear do local. A USAF havia recentemente atualizado seu radar e detectado os paraquedas pretos dos homens do SAS enquanto eles desciam para a base. As tropas SAS foram interrogadas e espancadas, com o último insulto de que foram chamadas de “alienígenas não identificados”. Para cumprir sua vingança, o SAS “deu” à USAF sua própria versão de um evento alienígena: “Com a aproximação de dezembro, luzes e sinalizadores coloridos foram instalados na floresta. Balões de hélio preto também foram acoplados a pipas de controle remoto para transportar materiais suspensos para o céu, ativados por controles remotos.”

O almirante Peter John Hill-Norton

Peter John Hill-Norton, o barão Hill-Norton (1915-2004), oficial sênior da Marinha Real, um almirante aposentado de 5 estrelas que foi ex-chefe do CDS (Chief of the Defence Staff ou Chefe do Estado-Maior de Defesa), um cargo no Reino Unido equivalente ao cargo de Presidente do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos, e ex-presidente do Comitê Militar da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), avaliou assim o caso:

“Minha posição privada e pública expressa nos últimos 12 anos ou mais é que existem apenas duas possibilidades:

a) Uma invasão de nosso espaço aéreo e um pouso de aeronaves não identificadas ocorreram em Rendlesham, conforme descrito.

ou,

b) O vice-comandante de uma base operacional da Força Aérea dos Estados Unidos, com armas nucleares, na Inglaterra, e um grande número de homens alistados, estava alucinando ou mentindo.

Qualquer um deles simplesmente deve ser ‘de interesse do Ministério da Defesa’, que tem sido repetidamente negado, exatamente nesses termos.”

Ian William Ridpath

Ian William Ridpath, escritor e radialista inglês conhecido como popularizador da astronomia, biógrafo da história das constelações e céptico ufológico, concluiu que o caso todo não passou de uma série de confusões e interpretações errôneas com objetos conhecidos (estrelas e luzes comuns, principalmente a do Farol de Orfordness). Quanto às alegações dos militares de que o objeto se afastou como se estivesse sob controle inteligente e das marcas de pouso que foram encontradas no solo, das queimaduras em árvores próximas e traços de radiação, atribuiu tudo ao exagero.

Vince Thurkettle entrevistado por Ridpath na Floresta Rendlesham para a BBC TV em outubro de 1983. O feixe do farol é visto por cima de seu ombro, acima à esquerda do relógio azul na tela.

No artigo recente que publicou em seu site, Ridpath conta ter entrevistado o guarda florestal, Forrester Vince Thurkettle, que morava a menos de um quilômetro do local de pouso do OVNI (e que agora vive em Norfolk), o qual lhe teria dito, ao ser perguntado sobre o caso: “Não conheço ninguém por aqui que acredite que algo estranho aconteceu naquela noite”. Então, o que era a luz estranha? “É o farol”, afirmou ele. O Farol de Orfordness, que os cépticos identificam como a luz piscante vista na costa pelos aviadores, está na mesma linha de visão cerca de 8 km mais a leste da borda da floresta. Naquela época, era um dos faróis mais brilhantes do Reino Unido. Thurkettle traçou em um mapa a direção em que os militares relataram ter visto seu OVNI piscando e constatou que estavam olhando diretamente para o feixe do farol.

Cortes feitos por engenheiros florestais em pinheiros da Floresta de Rendlesham dão a impressão de marcas de queimadura. Foto tirada em novembro de 1983 por Ian Ridpath.

Ridptah visitou a Floresta de Rendlesham no final de 1983 em busca de respostas e constatou que as marcas de pouso há muito haviam sido destruídas quando as árvores foram derrubadas. Vince Thurkettle as tinha visto e para ele as três depressões que eram de forma irregular e nem mesmo formavam um triângulo simétrico, não passavam de escavações para coelhos, com vários meses de idade e cobertos por uma camada de agulhas de pinheiro caídas. Quanto as marcas de queimadura nas árvores, não passavam de cortes de machado na casca, feitos pelos próprios silvicultores como um sinal de que as árvores estavam prontas para serem derrubadas. Ridptah viu vários exemplos em que a resina de pinheiro, borbulhando no corte, dava a impressão de uma queimadura. Já os policiais que visitaram o local relataram que não viram nenhum OVNI, apenas o Farol de Orfordness. Como Vince Thurkettle, eles atribuíram as marcas de aterrissagem aos animais.

Antecedente: O Incidente de Lakenheath-Bentwaters

Nas noites de 13 e 14 de agosto de 1956, ou seja, pouco mais de 24 anos antes, um incidente ufológico conhecido como o de Lakenheath-Bentwaters já ocorrido praticamente no mesmo local e envolvido militares da Força Aérea Real. O Projeto Blue Book investigou e a Comissão Condon posteriormanete analisou a série de contatos visuais e por radares, e a conclusão desta última foi a de que “a probabilidade de que ao menos um OVNI tenha realmente sido avistado é alta”, com a ressalva de que poderia ser explicada simplesmente como uma falha no radar e a identificação de um fenômeno astronômico, já que havia um grande número de estrelas cadentes associada com a chuva de meteoros Perseidas. O céptico Philip J. Klass classificou o incidente como nada mais do que uma combinação de falhas no radar e equívocos com os meteoros Perseidas.

O incidente começou na Base da RAF em Bentwaters, em Suffolk, na noite de 13 de agosto. Às 21h30, os operadores de radar da base rastrearam um alvo, aparentando ser semelhante a um retorno normal de uma aeronave, aproximando-se da base do mar a uma velocidade de vários milhares de quilômetros por hora. Eles também rastrearam um grupo de alvos movendo-se lentamente para o nordeste, que se fundiram em um único alvo muito grande antes de sair do escopo para o norte.

Um T-33 do esquadrão de interceptação, tripulado pelos primeiros tenentes Charles Metz e Andrew Rowe, foi direcionado para investigar os objetos que estavam no radar, mas não viram nada. Nenhum avistamento visual dos objetos foi feito em Bentwaters neste período, com exceção de um objeto que parecia uma estrela, mas que foi posteriormente identificado como provavelmente sendo o planeta Marte.

Às 22h55, um alvo foi detectado aproximando-se de Bentwaters vindo do leste em uma velocidade estimada em torno de 3.000 a 6.000 km/h. Desvaneceu-se do espaço quando passou sobre a base e reapareceu no oeste. O piloto de um C-47 a 4.000 metros sobre Bentwaters informou que uma luz semelhante tinha passado por baixo de sua aeronave. A esta altura, Bentwaters alertou a Base Lakenheath da RAF, 40 km a noroeste, para localizar os alvos. O pessoal em Lakenheath fez avistamentos visuais de vários objetos luminosos, incluindo dois que chegaram, fizeram uma mudança acentuada no curso, e apareceram para se fundirem antes de partir.

O último a avistar os objetos foi Forrest Perkins, que era o supervisor do radar no Centro de Controle de Tráfego Aéreo de Lakenheath, e que descreveu seu relato diretamente ao Relatório Condon em 1968. Perkins alegou que dois interceptadores De Havilland Venom DH 112 foram direcionados a um dos objetos. O piloto do primeiro Venom alcançou o objeto, mas então percebeu que o alvo manobrou atrás dele, perseguindo a aeronave por um período de cerca de 10 minutos, apesar do último tomar ação evasiva violenta; Perkins disse que o piloto estava “preocupado, agitado e igualmente consideravelmente assutado”. O segundo Venom foi forçado a retornar à sua estação de repouso devido a problemas de motor; Perkins afirmou que o alvo permaneceu nas telas dos radares por um curto período antes de sair em rumo ao norte.

Interceptador De Havilland Venom DH 112, um avião a jato britânico monomotor pós-guerra desenvolvido e fabricado pela de Havilland Aircraft Company. Muito do seu design foi derivado do De Havilland Vampire, o primeiro avião de combate a jato da empresa.

No final dos anos 1970, um artigo a respeito, intitulado “The UFO Conspiracy”, na revista britânica Sunday Times de autoria do já mencionado céptico Ian William Ridpath, produziu mais testemunhas. O tenente de vôo Freddie Wimbledon escreveu ao Sunday Times em 19 de março de 1978 contestando a declaração de Ridpath de que o incidente fora efetivamente explicado por Klass. Wimbledon tinha sido o controlador de radar de plantão na base de Neatishead na época dos avistamentos. Apesar de sua concordância com Perkins em alguns detalhes, incluindo a aeronave Venom sendo aparentemente perseguida pelo objeto, ele afirmou que tinha sido, de fato, sua equipe que dirigiu os dois Venom para a interceptação.

Quatro pesquisadores britânicos, David Clarke, Andy Roberts, Martin Shough e Jenny Randles, realizaram um estudo que indicou que o incidente, ou incidentes, eram muito mais complexos do que o Relatório Condon havia sugerido. Mais significativamente, as tripulações originalmente envolvidas no incidente, foram localizadas e entrevistadas. As tripulações disseram que as aeronaves decolaram às 2 horas e às 2h40 em 14 de agosto – cerca de duas horas depois das interceptações alegadas por Wimbledon e Perkins. Em contraste com os relatórios fornecidos na mensagem original de teletipo classificada e nos depoimentos de Wimbledon e Perkins, as tripulações de ambos declararam que os contatos de radar obtidos não eram impressionantes e que não havia “cauda” ou qualquer ação por parte do alvo. Eles também afirmaram que nenhum contato visual foi feito. O primeiro piloto, Chambers, comentou que “meu sentimento é de que não havia nada lá, foi um tipo de erro”, enquanto Ivan Logan, o segundo navegador do Venom, afirmou que “tudo o que vimos foi um erro que indicava um alvo estacionário”. Na ocasião, o Esquadrão 23 inferiu que o contato do radar tivesse sido nada mais do que um balão meteorológico.

Para agregar a natureza contraditória das entrevistas, outra equipe de Venom foi rastreada e disse que as naves tinham decolado muito mais cedo naquela noite. Os pilotos Leslie Arthur e Grahame Scofield não foram informados sobre a natureza do seu alvo e foram obrigados a retornar à base depois que os tanques de combustível da aeronave não funcionaram; Scofield lembrou-se de ouvir as comunicações de rádio dos pilotos interceptantes enquanto voltava a Waterbeach mais tarde. O relato de Scofield sobre as transmissões de rádio ouvidas é compatível, de forma enigmática, com os de Wimbledon e Perkins. A nova pesquisa, além disso, revelou que o comandante, A. N. Davis, também havia sido orientado para investigar o objeto enquanto voava em um Venom. Como a intercepção do objeto teria ocorrido ao mesmo tempo que a descrita por Wimbledon e Perkins, sugeriu-se que Davis e o outro piloto eram os dois descritos em seus relatos.

4 thoughts on “Os 40 anos do Incidente na Floresta de Rendlesham, o Roswell britânico

  • 30/12/2020 em 06:04
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    Excelente artigo suenaga.

  • 30/12/2020 em 17:38
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    Obrigado Paulo, grande abraço.

  • 01/01/2021 em 00:14
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    Feliz 2021, suenaga.

  • 01/01/2021 em 02:08
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    Obrigado, igualmente para ti.

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