Os 40 anos da busca pelas pirâmides amazônicas

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Há pouco mais de 40 anos, a edição de 1º de agosto de 1979 da revista Veja trazia uma reportagem de cinco páginas, em cores, mostrando três estruturas em forma de pirâmide cobertas por espessa vegetação, a mais alta delas com cerca de 200 metros de altura. As fotos haviam sido batidas no final de julho por uma equipe da Veja que, seguindo as indicações do arqueólogo e explorador Roldão Pires Brandão, fundador e presidente da ABEPA (Associação Brasileira de Estudos e Pesquisas Arqueológicas), sobrevoara de helicóptero a Serra do Gupira. Brandão, por sua vez, se encontrava na ocasião em Manaus buscando uma cidade perdida que ele achava existir às margens de um dos afluentes do Amazonas.

Aziz Nacib Ab’Saber

Contudo, a própria reportagem encarregou-se de desfazer o mistério ao incluir o categórico parecer do geógrafo Aziz Nacib Ab’Saber (1924-2012), diretor do Instituto de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), dando conta de que as “pirâmides” não passavam de um dos inumeráveis agrupamentos de morrotes formados por antigos restos de erosão não só no Alto Rio Negro, mas em outros pontos da Amazônia, no bordo do Planalto das Guianas, e na região Nordeste.

Ab’Saber qualificou aqueles morrotes piramidais como “importantíssimos” documentos geológicos: “Isso mostra de maneira irrefutável”, explicou ele, “que durante o período quaternário (de 1 a 3 milhões de anos atrás), desde o fim do terciário (de 5 a 10 milhões de anos atrás) e por todos os períodos glaciais, aconteceram climas secos na Amazônia”. Esses morrotes em formato de pirâmides seriam bastante comuns em toda ponta de serra: “O Nordeste está pleno desses tipos de inselbergs” (termo científico não traduzido, embora se use a expressão monte-ilha), só que no meio de uma paisagem mais próxima daquela em que aconteceram os processos, quer dizer, em condições ‘semi-áridas’.”

Ab’Saber citou, para reforçar seu parecer, o serrote existente no município paraibano de Patos ou o que está retratado na bandeira de Alagoas: “Aquela feição é tão simbólica para o povo de toda a região que até foi usada como símbolo.” A diferença, com relação aos morrotes fotografados no Alto Rio Negro, é que houve, nestes, “uma modificação climática brutal, abrangida pela umidificação e pelo florestamento relativamente recente. Isso aí é um documento, uma herança de uma geomorfologia de clima seco e que hoje está sob uma roupagem de clima muito úmido.”[1]

Leia abaixo a reportagem completa da Veja sobre as pirâmides amazônicas:

As Pirâmides de Pantiacolla ou Paratoari

O mito das pirâmides amazônicas, difundida pela Veja em 1979, começou em 30 de dezembro de 1975, quando o satélite Landsat II da NASA, a uma altitude de 900 quilômetros, fotografou uma área do sudeste do Peru a 13ºS latitude e 71º30”W longitude em que aparecia um grupo de doze pirâmides cobertas pelas árvores (foto C-​​S11-32W071-03).

Nesta foto (C-​​S11-32W071-03), batida pelo satélite Landsat II da NASA em 30 de dezembro de 1975, aparece um grupo do que parecem ser 12 pirâmides.

Escrevendo sob o pseudônimo de Ursula Thiermann, o jornalista e aventureiro Donald “Don” James Montague, presidente do South American Explorers Club, sediado em Denver (Nova York a partir de 1992), chamou a atenção dos pesquisadores e exploradores do mundo inteiro ao publicar três artigos sobre as “pirâmides” da Amazônia na revista South American Explorer – editada por ele mesmo – entre 1977 e 1979. O primeiro número da revista (outubro de 1977) trazia o artigo “The Dots of Pantiacolla” (“Os Pontos de Pantiacolla”). O segundo número, de março de 1978, o artigo “Dots Update”, e o quarto número, de abril de 1979, “Dots Dots Dots”. Você pode baixá-los em PDF simplesmente clicando sobre os links.

Gregory Deyermenjian junto aos petróglifos no Rio Shinkebeni (Petróglifos de Pusharo), que indicam uma antiga presença humana. Acredita-se que os aruaques (ou seus antepassados​​) migraram à região e deles se derivaram muitas etnias. Algumas tribos, como a Machiguenga, vivem lá até hoje.

Durante anos tomou-se como certa a existência dessas “pirâmides” até que, em agosto de 1996, o explorador norte-americano Gregory Deyermenjian (1949-) finalmente conseguiu alcançá-las em uma viagem em companhia de Paulino Mamani, Dante Núñez del Prado, Fernando Neuenschwander e Ignacio Mamani. Deyermenjian constatou, entretanto, que as “pirâmides” não passavam de meras formações naturais de areia dura.

As Pirâmides de Pantiacolla, também conhecidas como as Pirâmides de Paratoari, são um conjunto de doze montes naturais de cerca de 150 metros de altura localizados na Serra Baja de Pantiacolla (em língua quíchua, Pantiaj Colla significa “o lugar onde se perde a princesa”), margem esquerda do Rio Madre de Dios, no Peru, nas coordenadas 11º59’S 70º35’W.

A região que fazia parte do Império Inca, limita-se ao norte com o Brasil, a leste com o Brasil e a Bolívia, a oeste com Cusco, e ao sul com Cusco e Puno. Sua capital, Puerto Maldonado, está na confluência dos rios Madre de Dios e Tambopata. Sua geografia é das mais difíceis para a construção de estradas devido às encostas íngremes da Cordilheira dos Andes.

As “Pirâmides” de Pantiacolla vistas no Google earth.

As “Pirâmides” de Pantiacolla vistas mais de perto.

Amazônia teve uma civilização avançada com pelo menos 8 milhões de habitantes

Durante muito tempo se pensou que a Floresta Amazônica jamais poderia ter albergado uma vasta população, quanto mais uma civilização avançada. Hoje, no entanto, a arqueologia oficial reconhece que a “intocada” Amazônia, que se estende por milhares de quilômetros, foi o lar de milhões de pessoas que ocuparam enormes faixas de terra antes da chegada dos europeus, os quais causaram o colapso de suas sociedades. O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), liderou a maior parte dos estudos que comprovaram isso.

A equipe internacional de pesquisadores concluiu que a população mínima no ano de 1492 seria de oito milhões de pessoas, podendo ter chegado a 50 milhões, e que a floresta retornou ao ambiente desabitado depois que as civilizações foram dizimadas por doenças e pela chegada dos europeus. As conclusões dos cientistas são baseadas em um dos poucos sinais remanescentes das civilizações – o solo escuro e fértil produzido por terras agrícolas e resíduos. Algumas dessas regiões se tornaram acessíveis, ironicamente, apenas por causa do desmatamento.

Gaspar de Carvajal

Os relatos dos primeiros exploradores europeus que chegaram a América do Sul, tantas vezes contestados e desmentidos como meros mitos e produtos de seus imaginários, foram confirmados como relatos históricos. Em 1542, o padre dominicano espanhol Gaspar de Carvajal (1504-1584) escreveu: “Há uma cidade que se estica por 24 quilômetros sem qualquer espaço entre uma casa e outra.”

Autor chefe da pesquisa, Charles Clement, do INPA, afirmou que o bioma hoje “evoca imagens de densas florestas tropicais, nativos pintados e emplumados, fauna e flora exóticas, bem como um local de desmatamento desenfreado, biodiversidade extinta e que sofre com mudanças climáticas.” Clement indicou evidências de um considerável impacto humano. De acordo com um dos modelos considerados pela pesquisa, o solo extremamente escuro, conhecido como terra preta, teria coberto uma área de mais de 150 mil quilômetros quadrados da floresta – cerca de 3,2% de sua área total.

A ideia de uma Amazônia domesticada, a imensa diversidade de processos sociais, culturais “e históricos que moldaram o bioma durante o Holoceno, situa esta vasta área na companhia de outros áreas dominadas pelo homem”, escreveram os pesquisadores na revista Proceedings of the Royal Society B. “Isso contrasta fortemente com relatos de uma floresta vazia, que continua cativando meios científicos e populares.”

Se considerarmos que em torno de 35% da Amazônia brasileira (uma área maior do que sete estados do Sul e do Sudeste) ou 1,8 milhão de km2 de floresta que se estende do extremo oeste do Acre até o extremo norte do Amapá nunca foram devidamente mapeadas ou exploradas, achando-se destituídas de informações básicas de cartografia, altimetria de relevo, profundidade de rios e variações de cobertura vegetal, não se pode descartar que em meio a esse imenso ”vazio geográfico” remanesçam os restos de uma antiga e grande civilização, a qual teria até mesmo erguido pirâmides, afinal de contas.

A constatação de que as “pirâmides” na Serra do Gupira e na Serra Baja de Pantiacolla não passavam de meros caprichos naturais, não arrefeceram o entusiasmo pela busca das tão sonhadas pirâmides na Amazônia, pois que muitos têm como certa as suas existências, tanto quanto o de cidades perdidas escondidas sob camadas espessas de vegetação. Aventureiros ainda se embrenham no inferno verde da floresta, hoje devidamente equipados com os avançados recursos tecnológicos disponíveis, como o GPS (Global Positioning System, sistema de navegação que emite coordenadas em tempo real alimentado por informações de uma rede de 24 satélites). Ou seja, mesmo que todo o aparato moderno lhe indique o contrário, o homem ainda prefere seguir seus instintos e continuar alimentando o mesmo espírito de descoberta dos velhos exploradores do passado.

Nota:

[1] Sautchuck, Jaime & Struwe, Carlos. “O enigma da floresta”, in Veja, São Paulo, Ed. Abril, 1º-8-1979, nº 569, Ciência, p.56-60.

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