Os 60 anos da comoção em Papua Nova Guiné: contatos imediatos massivos de missão anglicana com humanoides

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Na noite de 25 de julho de 1959, três montanheses, Vera, Monten e Kute, avistaram um imenso objeto redondo se movendo vagarosamente acima dos coqueiros, que por absoluta falta de referências tiveram dificuldades em descrevê-lo com palavras. Em seu artigo Discos Voadores sobre a Papuásia, o reverendo Norman Cruttwell, do estabelecimento missionário de Menapi, esclarece como resolveu os problemas de comunicação:

“Peguei um prato e uma xícara; virando o prato para baixo, coloquei a xícara, também de cabeça para baixo, em cima dele. ‘Sim’, eles falaram, ‘exatamente assim, mas deste jeito’. E viraram meu braço até que eu ficasse com o prato no sentido vertical, apoiado na borda, com a xícara saliente lateralmente. Confirmei, fazendo um desenho num pedaço de papel. O objeto era uma nave redonda, côncava na parte de baixo, com uma cúpula em cima, mas virado de lado e voando conduzido pela cúpula iluminada.”[1]

A comoção em Papua Nova Guiné, país da Oceania que ocupa a metade oriental da ilha da Nova Guiné, bem como uma série de ilhas e arquipélagos, a leste e a nordeste, na Melanésia, gerou nada menos do que 79 visões distintas; a maioria veio de Boianai (18), Baniai (13), Ruabapain (7), Dagura (6), Dabora (5) e Giwa (4). As demais distribuíram-se pela parte oriental de Papua, nas localidades de Manapi e Ruaba Plain.

O contato principal envolveu a missão anglicana de Boianai, uma vila localizada na província de Milne Bay. Na noite de 26 de junho, depois do jantar, o reverendo William Booth Gill (1928-2007), chefe da  missão, saiu para respirar um pouco de ar fresco. Olhou para o céu e avistou Vênus acompanhada por uma luz branca intensa. Parte da observação se fez sob um céu encoberto, com os objetos subindo e descendo através das nuvens e projetando auréolas intensas ao passarem por estas. A atenção de Gill foi atraída para um objeto mais brilhante.

A luz assumiu um tom alaranjado e seu brilho diminuiu, deixando visível um engenho de formato circular que se imobilizou a cerca de 100 metros do solo. Gill chamou dois professores da missão, que se juntaram a ele e passaram também a acompanhar o objeto que tinha uma base larga, uma ponte superior mais estreita, e sob a base quatro pernas. De um lado do objeto, parecia haver quatro vigias; esse lado era mais brilhante do que o resto. A intervalos, o objeto emitia um feixe de luz azulado, direcionado para o céu, onde flutuavam outros objetos menores. Em um ponto, do interior do objeto, saíram quatro seres, cujas silhuetas eram claramente visíveis no andar superior. Os “homens” movimentavam-se ali entregues a um silencioso e minucioso trabalho. Seus contornos, assim como os do aparelho, eram rodeados por uma estranha luminosidade. Por cerca de 15 minutos, eles se moveram entre o interior e a ponte, desaparecendo de tempos em tempos de vista. Às 19h10, o céu estava coberto de nuvens. O objeto permaneceu visível por mais dez minutos e depois desapareceu entre as nuvens. Depois de uma hora, o objeto ficou visível novamente e outros objetos luminosos menores foram vistos próximos a ele.

Nesse ínterim, a população inteira de Boianai assistia a esse insólito espetáculo aéreo que duraria quase quatro horas, após as quais o engenho se afastaria lentamente, perdendo altitude. Os espectadores correram então em direção à praia, mas o engenho retomou altura e desapareceu. Logo que a atividade discológica cessou, por coincidência – ou não – começou a chover.

Supreendentemente, o disco e seus ocupantes retornariam na noite seguinte. Às 18 horas, Annie Laurie Brown, uma das nativas de Papua, entrou correndo no escritório de Gill e alertou-o sobre a nova invasão aérea. O Sol já tinha se posto mas ainda estava claro. Além do reverendo, professores da missão e nativos viram dois discos pequenos – um acima das colinas a oeste e outro sobre o estabelecimento dos missionários – e uma imensa nave, suspensa por perto, em cujo “convés” superior postavam-se quatro figuras. Eis o relato de Gill:

“Enquanto olhávamos, iam saindo homens do que parecia ser o convés de um disco gigantesco. Uma figura parecia fitar-nos. […] Havia quatro figuras humanas na parte de cima. Estendi meu braço e acenei. Para nossa surpresa, uma das figuras fez o mesmo. Ananias, um dos rapazes da missão, acenou com os dois braços, e então mais duas das figuras fizeram o mesmo. Ananias e eu começamos a acenar e todos as quatro acenaram de volta. Todos os meninos da missão ofegavam alto.”

Uma tocha foi usada para fazer sinal e depois de uns dois minutos, pareceu que o objeto respondia fazendo alguns movimentos oscilantes, para frente e para trás, como um pêndulo. O reverendo e 38 membros da comunidade missionária ficaram acenando e piscando faroletes ruidosamente. Sem que aquela comunicação evoluísse para um desembarque, às 18h30 o reverendo Gill foi jantar. Ao retornar, o objeto ainda estava presente. Finalmente, às 19 horas, quando a noite se instalou, as figuras desapareceram “no convés inferior” e todos os observadores entraram na igreja para o culto da noite. 

Após a celebração do rito religioso, o céu estava coberto de nuvens, a visibilidade era limitada e nada foi visto. Às 22h40, um ruído ensurdecedor, tal qual uma forte explosão, abalou a missão e acordou toda a ilha. Chovia, mas o estrondo foi muito maior do que o de um trovão. Os visitantes retornariam ainda na noite seguinte e no desfecho desse derradeiro contato ouviu-se novamente o barulho ensurdecedor.

Apesar do grande número de testemunhos abalizados, o Projeto Blue Book condenou o caso, considerando-o simplesmente uma “interpretação errônea de corpos astronômicos” e negligenciando o fato de muitas das observações terem sido feitas sob o céu encoberto. Como Papua e Nova Guiné estavam naquele tempo sob a administração da Austrália, a Real Força Aérea Australiana [Royal Australian Air Force (RAAF)] investigou o caso, mas não ajudou muito: “Não chegamos a qualquer conclusão definitiva sobre o caso e as nossas consultas feitas ao Reino Unido e aos Estados Unidos nada vieram a acrescentar. Assim, classificamos essas observações como fenômenos aéreos provocados por uma luz não identificada refletida nas nuvens.” Em suma, a RAAF afirmou que os pequenos objetos luminosos observados eram certamente os planetas Júpiter, Saturno e Marte, enquanto a dúvida permaneceu em relação ao objeto maior.

Desapontado com as assertivas militares, em 1974 o astrofísico e ufólogo Josef Allen Hynek (1910-1986) visitou Boianai acompanhado do reverendo Cruttwell, que serviu de intérprete junto aos nativos. Localizaram seis testemunhas que 15 anos depois ainda se lembravam perfeitamente bem do ocorrido. Em princípio, muitos julgaram que Hynek era um espião do governo – o que de certa forma era –, por isso não se abriram; mas pouco a pouco foram cedendo e começaram a falar espontaneamente. “Ao ver as expressões faciais e os gestos dos nativos, fiquei com a sensação de que o caso tinha sido real”, avaliou Hynek.

Enquanto esteve ausente, o reverendo Gill escreveu uma carta ao seu velho amigo e confidente, o reverendo D. Durry, que se encontrava em St. Aldan’s, em Dagura:

“Caro David. A vida é por vezes estranha, não é? Ontem escrevi-te uma carta (que ainda tenciono enviar-te) dando-te a minha opinião acerca dos OVNIs. Menos de 24 horas depois, eu tinha mudado de opinião. Ontem à noite, nós que estamos em Boianai, tivemos uma experiência de atividade de OVNIs durante cerca de quatro horas, e não há dúvida de que foram dirigidas por seres inteligentes. A experiência foi extasiante…”[2]

O reverendo Gill solicitou às testemunhas que elaborassem desenhos retratando os objetos. Obteve 38, dos quais 25 assinados pelos autores. Além de Gill, o grupo era formado por cinco professores papuanos e três médicos. Gill contou o caso a Hynek tanto por carta como pessoalmente, como já o tinha feito a outras pessoas. Eis o que relatara na ocasião:

“À medida que observávamos, saíram homens do interior do objeto e apareceram no topo deste, no que parecia ser um convés. Havia ao todo quatro homens, ocasionalmente dois, depois um, depois três, depois quatro. Anotamos as várias vezes em que os homens apareceram. E mais tarde, todas aquelas testemunhas que estão quase certas que os nossos registros estavam certos, e que tinham visto os homens na mesma altura que eu, assinaram os seus nomes como testemunhas do que julgamos tratar-se de atividade humana ou seres de alguma espécie no próprio objeto. Na segunda noite, ficamos a observar o que se passava ao ar livre. Apesar do Sol ter se posto atrás das montanhas, ainda houve bastante luz durante os 15 minutos que se seguiram. Vimos figuras aparecendo na parte superior – quatro ao todo – e não há dúvida de que eram humanas. Este era provavelmente o mesmo objeto que eu vi na noite anterior, e que me parece ser a ‘nave-mãe’. Foram ainda vistos dois OVNIs mais pequenos, parados, um sobre as montanhas e outro sobre nós. No grande, duas das figuras visíveis pareciam estar fazendo algo no convés. Ocasionalmente curvavam-se para frente como se estivessem ajustando ou afinando qualquer coisa. Uma das figuras parecia estar de pé, olhando para nós – éramos um grupo de doze.”

A carta do reverendo Gill a Hynek, datada de 11 de novembro de 1973.

Nesse momento, Gill estendeu o braço e acenou. Para sua surpresa, a figura acenou com os dois braços e as duas figuras ao lado fizeram o mesmo. Continuaram a acenar, e nessa altura as quatro figuras acenavam também:

“Não restam dúvidas de que os nossos movimentos eram correspondidos. […] À medida que a noite chegava, mandei Eric buscar umas tochas e acenei com elas em direção ao OVNI. Um minuto depois, o OVNI respondeu movimentando-se de um lado para o outro, como um pêndulo. Nós continuávamos a acenar e a agitar as tochas, tendo o OVNI começado a aumentar de tamanho, devagar, dirigindo-se aparentemente para nós. Após um minuto parou a sua marcha, e ao fim de vinte segundos as figuras perderam o interesse por nós e desceram para dentro do OVNI.”

Gill e todo o grupo gritaram e acenaram para que os homens descessem, mas não houve resposta nesse sentido.

O reverendo Gill dando uma palestra em 14 de junho de 2003 em Brisbane, capital do estado australiano de Queenslan. Foto de um vídeo de Bill Chalker.

As notas do reverendo que se seguem instaram inúmeras controvérsias. Às 18h30, Gill diz ter retornado à casa principal da missão para jantar. Mas como alguém conseguiria jantar calmamente em meio a tamanha agitação? Hynek postulou que Gill era um homem calmo e que além disso já estavam na segunda noite de observações. Por ocasião de uma entrevista feita em Melbourne, Hynek indagou-lhe a razão para tal comportamento, ao que Gill confessou: “Às vezes, quando me lembro do que fiz, interrogo a mim mesmo o porquê disso. Ocorre que não achava que se tratasse de um disco voador, e sim de um aparelho dos Estados Unidos.”

É interessante notar que a rotina religiosa não foi quebrada com as aparições. Gill acabara de jantar às 19 horas e o OVNI continuava no mesmo local, embora parecesse menor. Em seguida, todo o pessoal se dirigiu à igreja para cantar os hinos, como era de hábito. Para o grupo de Boianai, o jantar e os hinos faziam parte de uma rotina rígida, cumprida à risca. Devemos admitir que quando determinados rituais, sagrados ou não, estão firmemente estabelecidos, estes não podem ser facilmente quebrados por fatores externos, a menos que haja uma intervenção violenta. Nem mesmo os OVNIs foram capazes de alterar essa rotina. Hynek menciona uma carta que recebeu de um rapaz inglês em idade escolar descrevendo um caso típico, ocorrido à luz do dia. O disco desceu lentamente como se fosse uma “folha de árvore”, segundo o rapaz. “E depois chegou a hora do chá”, momento em que o rapaz recolheu-se a casa, deixando o disco voador voando sozinho do lado de fora.

Após os hinos, o céu cobrira-se de nuvens, não permitindo que nenhum objeto fosse avistado. Às 22h40, os apontamentos de Gill dizem que “houve uma enorme explosão junto à casa da missão. Não se conseguiu ver nada”. De acordo com Cruttwell, a explosão fez com que Gill saltasse da cama, assustado, e acordasse todas as pessoas da missão. Nunca se soube se o estrondo relacionava-se aos OVNIs.

Houve posteriormente um caso que serviu para reforçar as suspeitas iniciais do reverendo Gill de que aeronaves norte-americanas estariam de alguma forma envolvidas. No dia 26, exatamente na mesma época em que os discos resolveram aparecer em Boianai, Ernie Everett, um comerciante de Samurai, avistou um objeto vindo do norte em sua direção, a nordeste. Esverdeado, deixava atrás de si um rastro de chama branco: “Desceu até perto de mim, ficando cada vez maior e abrandando até que ficou pairando a cerca de 150 metros. A luz tornou-se mais fraca exceto nas janelas que se encontravam fortemente iluminadas. O objeto tinha a forma oval e uma espécie de faixa à sua volta, sob a qual havia quatro ou cinco janelas semicirculares.” No dia seguinte, Everett foi a Boianai cuidar de negócios e os nativos perguntaram-lhe se ele vira a USAF (United States Air Force) na noite anterior, pois eles o tinham visto em Boianai.[3]

Teriam os militares escolhido esta ilha remota para a execução de testes com aeronaves secretas capazes de pairar a alguns dezenas de metros do solo sem emitir o menor ruído? Teriam sido meros pilotos norte-americanos os tripulantes avistados? Ou teriam eles rumado para a ilha na intenção de investigar as aparições?

Os cépticos sempre refutaram o caso com explicações pueris e insatisfatórias.

Para Donald Menzel (1901-1967), astrofísico da Universidade de Harvard, o reverendo Gill teria simplesmente observado o planeta Vênus sem óculos e, sendo míope e astigmático, teria tido uma visão deformada; quanto aos nativos e ao pessoal da missão, eles teriam sido influenciados pelo reverendo, muito amado e popular.

Segundo outro céptico, o jornalista Philip Klass (1919-2005), o episódio teria sido simplesmente uma farsa do reverendo, estranhando que ele tivesse, no meio da cena, saído para jantar.

O caso foi revisado recentemente por Martin Kottmeyer, um céptico da linha psicossocial, autor de obras como Guache Encounters: Badfilms and the UFO Mythos, Dying Worlds, Dying Selves e Entirely Unpredispose. Kottmeyer observou que no folclore existem vários casos de navios voadores, como o famoso Flying Dutchman (Holandês Voador), um lendário navio fantasma que teria como sina vagar pelos mares até o fim dos tempos sem poder atracar em nenhum porto. À luz disso, a visão do reverendo Gill poderia ser explicada por uma miragem relativa a um tipo de barco de pesca não conhecido por Gill e pelos nativos, porque este não seria muito presente nos mares da Nova Guiné.

Para os cépticos, portanto, o reverendo Gill teria observado um fenômeno natural e a observação teria sido distorcida pelas influências inconscientes das histórias divulgadas pelos ufólogos.

O lendário Flying Dutchman

Notas:

[1] In Flying Saucer Review, Londres, edição especial nº 4, agosto de 1971.

[2] Apesar da carta não se encontrar nos arquivos da Força Aérea, exprimia, ao que parece, grandes dúvidas acerca dos OVNIs, já que, em conversas mantidas com Crutweel, este expressou a Hynek a sua relutância em relação a tais assuntos. Visitas dessa natureza não eram inteiramente aceitáveis pela teologia anglicana.

[3] Hynek, Josef Allen. OVNI: Relatório Hynek, Lisboa, Portugália, s.d., p.78-85; Emenegger, Robert. OVNIs: Presente, Passado e Futuro, Lisboa, Portugália, s.d., p.22.

Extra: O Caso Papua Nova Guiné quadrinizado pelos franceses Jacques Lob & Robert Gigi. Publicado na revista Planeta, edição de outubro de 1977.

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