Os 10 anos do Caso Tiffany Watkins: Um paradigma de marketing viral e de uso indevido de fotos na internet

Por Claudio Tsuyoshi Suenaga

Tiffany em 2007

Em maio de 2007, começou a circular a história de que uma loira chamada Tiffy Toodlepoo havia perdido sua câmera digital quando estava de férias com os amigos. Entre as dezenas de fotos, algumas em poses nuas e provocantes. Um tal de Craig Radford, que disse ter encontrado a câmera, postou todas as fotos em uma página do Facebook sob a justificativa de encontrar o dono da câmera e devolvê-la.

Não só os internautas começaram a compartilhar o post e as fotos, como tabloides do porte do britânico Daily Mail espalharam o factoide, fazendo explodir o acesso às fotos dessa garota a uma taxa exorbitante. Todos queriam ver as fotos da agora famosa Tiffy Toodlepoo e todos queriam encontrá-la.

Em menos de 24 horas, 17 mil pessoas se registraram no Facebook apenas para ver as fotos dela. Entrementes, muitos blogs e fóruns de discussão começaram a debater se aquela história era realmente verdadeira.

Em 2 de setembro de 2007, o tabloide britânico The Sun publicou um artigo no qual dizia que tudo tinha sido uma estratégia de marketing viral do Facebook para tentar aumentar o número de usuários registrados, e que a garota era uma modelo profissional chamada Wendy, que posara para um site pornô. Os responsáveis ​​por este site admitiram então que tudo não havia passado de uma “campanha de marketing viral inteligente”.

Tiffany Watkins, hoje

Bom, a verdade é que se tratou sim de um golpe viral do site pornô – não do Facebook, que apenas foi usado como plataforma –, mas a história toda é bem outra. As fotos pertenciam a uma garota chamada Tiffany Watkins, então com apenas 18 anos, que teve sua conta no Photobucket hackeada. Ela não sabia de nada até que recebeu o telefonema de seu melhor amigo certificando-a de que um amigo dele havia visto as fotos dela em um site pornô. Ali ela se deu conta de que sua vida havia sido drasticamente alterada, já que o mundo inteiro agora podia vê-la nua.

Ainda mais perturbador foi o fato de que, junto com suas fotos mais sensuais e picantes, havia uma série que contava toda a história de sua vida, e desde que ela era menina: ela no baile de formatura, festas familiares, na companhia dos pais, das irmãs, dos amigos, etc. Tiffany contatou imediatamente a Polícia local e a Internet Crime Complaint Center (IC3.gov), que é uma multi-agência de investigações de crimes na internet integrada pelo Federal Bureau of Investigation (FBI), o National White Collar Crime Center (NW3C) e o Bureau of Justice Assistance (BJA). Para sua frustração, porém, ela nunca recebeu uma resposta sequer da IC3, e a Polícia local lhe disse que não havia nada que pudessem fazer por ela.

Tiffany em 2007 e hoje

Todos os que eram próximos a ela tentaram tranquilizá-la dizendo que, passada a novidade, as fotos iriam ser esquecidas e que ela voltaria a ter uma vida normal. “Eu esperava e rezava por aquele dia, mas ele nunca vinha. Hoje reconheço que essas fotos tiveram mais impacto na minha vida do que eu temia. Sempre que eu ficava esperançosa de que o interesse pelas fotos começaria a diminuir, acontecia algo novo que voltava a chamar a atenção para elas”, desabafou Tiffany no site da fundação (http://www.tiffanywatkinsfoundation.org) que ela criou para esclarecer de vez o seu caso e evitar que suas fotos e de outras vítimas continuassem sendo usadas indevidamente. Tiffany tentou até modificar o seu rosto para que as pessoas não a reconhecessem: mudou o corte de cabelo, tingiu-o, fez tudo o que pôde, mas nada funcionou. Em todos os lugares em que ela ia, era reconhecida.

A situação chegou ao paroxismo quando um stalker de 28 anos que achava ser ela a própria personagem fake, a “prostituta” que associaram às suas fotos, ficou obcecado em matá-la e tentou invadir sua casa em San Diego, Michigan. Felizmente, nesse caso, a Polícia agiu rapidamente e conseguiu prendê-lo antes que o plano macabro fosse posto em ação. Em dezembro de 2013, Brian Hile foi condenado a cinco anos de prisão.

Tiffany não usa redes sociais e tem horror delas desde que descobriu o que estavam fazendo com suas fotos. “Tudo o que eu quero é a minha privacidade”, diz ela. As únicas contas sociais que ela usa são para a sua fundação, e isso com o único propósito de aumentar a conscientização sobre esse problema. E ela alerta: “Todos os que usam a internet para armazenar suas fotos ou para compartilhar suas fotos com amigos, corre o risco de se tornar uma vítima como eu.”

Uma das mais compartilhadas fotos de Tiffany Watkins que se tornaram virais em 2007

O caso notório e emblemático de Tiffany Watkins demonstra o quão poderosa é a técnica de marketing viral, ainda mais se vier associada ao apelo sexual. O aspecto mais grave, contudo, que quase nunca é mencionado, não é propriamente a exploração comercial e publicitária proporcionada pela geração de um mega tráfego, e sim a indevida utilização de imagens de uma garota como Tiffany, que teve a sua vida pessoal imensamente prejudicada.

É bom lembrar, a propósito, que a esmagadora maioria das informações e notícias, vídeos principalmente, atualmente circulantes sobre UFOs, aliens, ETs, reptilianos, contatismos, abduções, fenômenos paranormais, viagens no tempo, doppelgängers, criptozoologia, aparições, milagres e todo tipo de curiosidades, bizarrices e esquisitices em geral, não passa infelizmente de produtos virais feitos por empresas e estúdios especializados que lucram muito com a geração de tráfego no YouTube e outros sites. Não acredite em tudo o que você vê e que lhe pareça ser real e autêntico à primeira vista. Não há imagem hoje em dia que não possa ser criada ou manipulada com um simples software de cgi.

Bem-vindo ao deserto do real. Bem-vindo à Matrix.

 

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