Os 80 anos do pânico gerado por Orson Welles com sua versão radiofônica de A Guerra dos Mundos

Há 80 anos, na noite de 30 de outubro de 1938, à véspera do Halloween (Dia das Bruxas), o jovem Orson Welles infundia o pânico nos Estados Unidos por meio dos microfones da rede de Rádio Columbia Broadcasting System (CBS) ao interromper a programação com sucessivos boletins noticiosos, cada vez mais dramáticos, dando conta do desembarque de naves marcianas no estado de Nova Jersey. Pelo menos um em cada cinco ouvintes não notou que se tratava de uma obra de ficção baseada no livro Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, e acreditou que a Terra estava realmente sendo invadida por marcianos. A fim de reconstituir com a máxima fidelidade o que se passou naqueles momentos, vali-me, sem prescindir da audição da gravação integral do programa radiofônico, dos trechos da narrativa publicados pelo jornalista Homero Fonseca – que teve acesso ao roteiro original e a quem entrevistei – em seu livro Viagem ao Planeta dos Boatos.

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Havia um clima de insegurança e medo gerado pelos avanços das potências totalitárias, um clima bélico-invasionista que mobilizava as grandes potências e pegava desprevenida a população norte-americana, imersa na incerteza e instabilidade resultantes de uma crise econômica prolongada.

O rádio atingia todos os lugares, mas a massa ainda não estava acostumada a receber informações simultaneamente aos fatos. Os Estados Unidos, que em 1921 contava com quatro emissoras, têm 382 no final de 1922, e sete milhões de receptores em 1927. Na década de 30, os países colonizadores montam extensa programação voltada à manutenção de suas possessões africanas, e a União Soviética, a Alemanha, a Itália e o Japão, uma ofensiva de transmissões de propaganda ideológica. O período que vai de 1934 a 1941 é conhecido nos Estados Unidos como a Era de Ouro do rádio.

Vinculada a ameaça de invasão hitlerista, havia o medo do desembarque de seres de outros planetas. Na noite de 30 de outubro 1938, véspera do Halloween (Dia das Bruxas), esse medo imaginário se materializou em situação real de consequências catastróficas.

Orson Welles em 1938, aos 23 anos.

A Rádio Columbia Broadcasting System (CBS), de Nova York, efetuou com estrondoso êxito a “cobertura” de um desembarque de marcianos no vizinho estado de Nova Jersey. Em pouco mais de uma hora, Orson Welles (1915-1985), um promissor rapaz de 23 anos, convenceu os Estados Unidos de que naves cilíndricas marcianas haviam pousado na pequena cidade de Grover’s Mill. As descrições, perfeitas, desencadearam o pânico, levando quase dois milhões de pessoas a tomarem algum tipo de providência para escapar da invasão e do que parecia ser o iminente fim do mundo.

A narração teve tanto impacto que o governo chegou a abrir um inquérito para apurar responsabilidades. Mas como a CBS, previdente, forçara a substituição de nomes reais dos locais por nomes fictícios, ficou o dito pelo não dito e, graças ao sucesso da emissão, em 1939 o estúdio RKO (Radio-Keith-Orpheum), de Hollywood, ofereceu a Welles um contrato para filmar dois filmes como diretor, produtor e roteirista, com liberdade artística absoluta. No ano seguinte ele começaria a rodar o monumental clássico Citizen Kane (Cidadão Kane), considerado pelos críticos e especialistas como o melhor filme de todos os tempos.

Cena de Cidadão Kane (produzido, roteirizado, dirigido e estrelado por Orson Welles), considerado o melhor filme de todos os tempos.

Ao ensejo das comemorações do cinquentenário da transmissão, várias pessoas que a ouviram diziam ainda guardar uma lembrança viva dos fatos. Henry Sears, 13 anos, levou consigo um rádio e se refugiou num bar junto de conhecidos. As proporções do tumulto foram bem mais graves do que se mensurava, levando em conta os repetidos avisos da rádio de que a transmissão era encenada.

Guerra dos mundos: histórias reais de uma invasão

A fim de reconstituir com a máxima fidelidade o que se passou naqueles momentos dramáticos, valemo-nos, sem prescindir da audição da gravação integral do programa radiofônico, dos trechos da narrativa publicados pelo jornalista Homero Fonseca – que teve acesso ao roteiro original adaptado por Howard E. Koch (1901-1995), com a colaboração de Paul Stewart (1908-1986), baseado na obra de H. G. Wells (1866-1946) – em seu livro Viagem ao Planeta dos Boatos,[1] o primeiro no Brasil dedicado a analisar o fenômeno da propagação e aceitação de notícias falsas ou infundadas.

O jornalista e pesquisador Homero Fonseca durante a XIV Bienal Internacional do Livro no Expo Center Norte, Vila Guilherme, São Paulo, em 25 de agosto de 1996. Foto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga.

Homero Fonseca e Cláudio Tsuyoshi Suenaga na XIV Bienal Internacional do Livro no Expo Center Norte, Vila Guilherme, São Paulo, em 25 de agosto de 1996. Foto de Antonio Manoel Pinto.

O roteiro foi reescrito pelo próprio Welles que, além de diretor, foi também o produtor junto com a Mercury Players e, na dramatização, fez o papel de professor da Universidade de Princeton que liderava a resistência à invasão marciana. Welles misturou elementos específicos do rádio-teatro – ou seja, da ficção –, com os existentes nos noticiários da época – o verossímil, a realidade convertida em relato.

O roteiro original usado por Orson Welles para transmitir a sua versão de A Guerra dos Mundos pelos microfones da CBS.

Todas as técnicas e elementos do rádio-jornalismo de até então – aos quais os ouvintes estavam habituados e conferiam credibilidade – foram utilizados: reportagens externas, entrevistas com testemunhas que estariam vivenciando o acontecimento, opiniões de especialistas e autoridades, efeitos sonoros, sons ambientes, gritos, a emotividade dos envolvidos, inclusive dos pretensos repórteres e comentaristas, davam a sensação de um fato que estava indo ao ar em edição extraordinária, interrompendo outro programa, o rádio-teatro previsto. Na realidade, tratava-se do 17º programa da série semanal de adaptações radiofônicas realizadas por Welles que explorava as técnicas jornalísticas com a ambientação sonora requerida pela linguagem específica do rádio.

Às 21 horas, comandando uma cadeia de noventa emissoras, costa a costa, o locutor começou: “O elenco do Mercury Theatre, sob a direção de Orson Welles, apresenta A Guerra dos Mundos, adaptação da novela de H. G. Wells.” Ato contínuo, outro locutor, um dos atores do elenco, informava: “Passamos a transmitir do Park Plaza Hotel uma audição musical com Ramon Raquello e sua orquestra.” Entra a música e, instantes depois, o locutor corta a apresentação com um aviso: “Interrompemos nosso programa de música dançante para transmitir o boletim que acabamos de receber da Agência Internacional de Notícias.”

A “notícia” era a de que um laboratório astronômico havia detectado explosões no planeta Marte. Volta a música. O programa sofre nova interrupção para uma “entrevista” com um astrônomo. Entra novamente a música e dessa vez o “repórter” Carl Phillips anuncia a queda de um objeto flamejante, descomunal, numa fazenda de Grover’s Mill, em Nova Jersey. A música não retornaria mais.

De modo a conferir maior realismo à narrativa, ainda que ninguém na emissora achasse que os norte-americanos iriam acreditar que o país estivesse sendo realmente invadido pelos marcianos, a produção decidiu transmitir o restante do programa na forma de um boletim noticioso extraordinário. Sem demora, um repórter chega ao local da queda do objeto, um cilindro de aço, de dentro do qual saem criaturas repulsivas, portando armas condizentes com o nível tecnológico da época: uma espécie de lança-chamas mecânico e um expelidor de gases.

Sequencialmente, o repórter é pulverizado, multidões são mortas, forças do Exército e da Aeronáutica dizimadas. De Washington, o secretário de Defesa admite a derrota. Em engenhocas semelhantes a um tanque de guerra sobre pernas articuladas, os marcianos marcham em direção a Nova York arrasando tudo pelo caminho, atravessam o Rio Hudson e conquistam Manhattan. O único sobrevivente do ataque, arrastando-se entre os escombros, chega ao Central Park, onde encontra os corpos dos alienígenas em decomposição, mortos por infecções de vírus e bactérias contra as quais não tinham resistência imunológica.[2]

A “notícia” se difundiu de forma devastadora. O medo paralisou três cidades. O pânico ocorreu principalmente em localidades próximas a Nova Jersey, de onde a CBS emitia e Welles situou a história. Milhares de ouvintes histéricos contagiaram parentes e amigos, pessoalmente ou por telefone, desatando o pavor coletivo. Cenas de pânico foram registradas numa ampla faixa da costa leste, principalmente nos estados de Nova York e Nova Jersey. As pessoas da cidade fugiam para o campo e as do campo para a cidade, congestionando as estradas. Os habitantes dos arranha-céus de Manhattan refugiaram-se no subsolo ou fugiram para outros locais. O serviço telefônico entrou em colapso devido ao excesso de chamadas para a Polícia e os jornais. Nos hospitais e nas prisões, doentes, presos e funcionários exigiam que fossem liberados. Pessoas que passavam o alarma nas ruas foram presas, e a Polícia Montada empregou gás lacrimogêneo para dispersar a multidão desvairada.

Em Nova Jersey, muitos alegaram terem visto explosões de bombas, colunas de fumaça e até os marcianos em pessoa, forçando a convocação da Guarda Nacional. Em Trenton, capital do estado, os religiosos acorreram aos templos, crentes de que o fim do mundo havia chegado. Em Newark, as mulheres rezavam de joelhos no meio da rua. As igrejas foram tomadas por pessoas que queriam fazer a última confissão antes de morrer. Uma mulher da cidade de Pittsburgh, estado da Pensilvânia, preferiu a morte a ser violada pelos marcianos… Alguns corriam pelas ruas com panos e toalhas cobrindo o rosto, prevenindo-se contra gases venenosos.[3] Os moradores de Grover’s Mill acreditavam que um disco voador pousara em uma fazenda. Muitos procuraram o delegado perguntando o que deveriam fazer. Mesmo os que não tinham ouvido rádio naquele dia também fugiram. Um cidadão, apesar de rastrear as demais emissoras e constatar que seguiam sua programação normal, supôs que os locutores estavam deliberadamente tentando tranquilizar o povo.

A calma só voltou a reinar quando todas as estações de rádio passaram a divulgar insistentes informes sobre o que realmente tinha ocorrido, secundados pelos jornais que lançaram edições extras nas ruas.[4] Consta que, mesmo várias semanas após o episódio, voluntários da Cruz Vermelha tentavam convencer famílias inteiras, escondidas em refúgios, de que podiam regressar em segurança às suas casas.

A reação expôs ao menos dois aspectos profundos: o estado psicológico vulnerável – e portanto propenso a manipulações – e o medo inato dos norte-americanos de serem invadidos por “alienígenas”. A CBS calculou que dos cerca de 6 milhões de ouvintes, metade passou a sintonizar o programa quando este já havia começado, tendo perdido portanto a introdução que informava tratar-se do rádio-teatro semanal. A pesquisa do Instituto Americano de Opinião Pública [American Institute of Public Opinion (AIPO)] apontou que de 10 a 12% dos ouvintes – entre 600 mil e 700 mil pessoas –, apesar de terem escutado de que se tratava de uma novela, ficaram extremamente ansiosos. Segundo a CBS, esse percentual foi ainda maior: cerca de 20%, ou 1.200.000 pessoas. Além do aviso inicial, em dois intervalos a mensagem de que se tratava de uma ficção foi repetida. A massa, porém, predisposta a crer no pior, ignorou-as, liberando crenças atávicas e emoções reprimidas.[5]

Como bem observou o psicólogo social e ufólogo argentino Roberto Enrique Banchs em seu livro Los OVNIs: Una Vision Historica, os alienígenas transfigurados de Welles não eram outra coisa senão “estrangeiros de outros mundos, do Velho Mundo, da Europa”, tanto que em poucos meses a guerra seria precipitada.[6]

Em 15 de março de 1939, Hitler ocupou a Boêmia e a Morávia, transformando-as em protetorados. Em abril, Benito Mussolini (1883-1945) tomou a Albânia, enquanto Hitler desencadeava a “guerra de nervos” contra a Polônia. Finalmente convencidas da inutilidade de quaisquer esforços diplomáticos para conter o nazi-fascismo, as potências ocidentais ofereceram auxílio a esse país e procuraram a colaboração soviética. No entanto, em 23 de agosto era assinado em Moscou o Pacto Molotov-Ribbentrop, ou Pacto de Não Agressão Germano-Soviético, o que permitia à Alemanha levar a cabo os seus intentos sem o temor de um ataque a leste. Em 1º de setembro de 1939, os nazistas invadiram a Polônia, irrompendo a pior guerra de todos os tempos, considerada uma extensão da primeira, porquanto resultante de causas semelhantes – modernismo, nacionalismo, imperialismo, armamentismo, disputas econômicas, propaganda –, agravadas pela conjuntura que colocava na Europa, frente a frente, os mesmos adversários principais: Alemanha, contra França e Reino Unido. A primeira, junto da Itália, do Japão e de seus satélites – Hungria, Eslováquia, etc. – opunha-se às chamadas democracias ocidentais e seus aliados – a Polônia e as nações posteriormente atacadas pelo Eixo: Noruega, Holanda, Bélgica, Iugoslávia, Grécia, União Soviética, Estados Unidos, etc.

Notas:

[1] Fonseca, Homero. Viagem ao Planeta dos Boatos, Rio de Janeiro, Record, 1996.

[2] Ibid., p.36-37.

[3] Ibid., p.37-38.

[4] Ibid., p.38-39.

[5] Ibid., p.134-135.

[6] Banchs, Roberto. Los OVNIs: Una Vision Historica, Buenos Aires, nº 1, março de 1995, edição especial de Los Identificados, p.4.