50 Tons de Greys: Entrevista exclusiva com Odércia, irmã de Antonio Villas Boas

Reproduzo na íntegra a seguir, com exclusividade, a entrevista com Odércia, a irmã do abduzido Antonio Villas Boas, que infelizmente ficou de fora do apêndice de meu livro 50 Tons de Greys: Casos de Abduções com Relações Sexuais, recém-lançado pela Biblioteca UFO. Vocês terão agora a oportunidade de conferir muitas informações, bem como fotografias, que igualmente ficaram de fora, bastante pertinentes para uma compreensão e avaliação mais abrangente do caso. Um dos principais pontos a serem revistos, já revelado em meus artigos e agora no meu livro, refere-se à mulher que manteve intercurso sexual com Antonio. Ao contrário do que se propalou, ela não era propriamente uma beldade, longe disso, e sim bastante feia e até repulsiva, conforme retificaram não só Odércia, mas todos os demais familiares e amigos de Antonio, cujas entrevistas exclusivas, que também ficaram de fora do livro, irão ser publicadas aqui neste site nas próximas semanas. Odércia confirmou ainda os rumores de que Antonio teria sido levado pela NASA ou alguma agência de espionagem a uma base secreta nos Estados Unidos repleta de OVNIs acidentados ou construídos pelos cientistas terrenos aproveitando a tecnologia destes (Área 51?). Além disso, ela acrescentou uma série de detalhes, como a da irrupção de fenômenos parapsicológicos e a do assoberbamento de fenômenos fantasmagóricos e luminosos na fazenda antes e depois do episódio.

O sequestro de Antonio Villas Boas na clássica e consagrada versão dos artistas franceses Jacques Lob e Robert Gigi, in Semence pour les etoiles.

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

No decorrer de 2002, logrei localizar o paradeiro de vários parentes de Antonio Villas Boas, entre eles o de sua irmã mais velha Odércia Villas Boas (Dercinha). Após longas conversas interurbanas por telefone, ela prontificou-se a me receber em sua residência na cidade que nunca deixara, São Francisco de Sales, o palco da estranha abdução seguida de relação sexual de seu irmão que tanto marcou a vida dos moradores e que mudou a ufologia mundial para sempre.

Acompanhado do jornalista, escritor, ufólogo e explorador espanhol Pablo Villarrubia Mauso, viajamos a São Francisco de Sales e a encontramos morando sozinha em uma humilde casinha alugada e sobrevivendo com uma parca aposentadoria. Ainda se recuperando de uma operação e de um tratamento de quimioterapia para extirpar um pequeno tumor maligno no seio, Odércia, que nunca antes havia sido entrevistada por quem quer que fosse, aos poucos foi se soltando e, do alto de seus 70 anos, demonstrando uma lucidez e uma disposição invejáveis, foi nos contando tudo.

Odércia Villas Boas e o marido José Luís de Freitas, no dia do casamento. Foto do acervo pessoal de Odércia Villas Boas.

Nascida em 22 de janeiro de 1932, Odércia (chamada carinhosamente de “Dercinha”), a mais nova das seis filhas de Jerônimo Pedro Villas Boas e Enésia Cândida de Oliveira, e dois anos mais velha do que seu irmão Antonio, aos 21 anos casou-se com José Luís de Freitas – irmão de uma de suas cunhadas –, com quem teve quatro filhas. Em 1981, devido a uma forte estiagem, seu marido foi obrigado a vender todas as terras que possuía na cidade de Cardoso (SP) para pagar as dívidas que contraíra junto ao Banco do Brasil. Totalmente arruinado, sem mais nenhum bem, tomou a decisão radical de tentar a sorte em um garimpo na cidade de Redenção, no estado do Pará, onde acabou falecendo três anos depois, vítima da malária.

Em 5 de outubro de 1957, por volta das 23 horas, corroborou Odércia, Antonio e seu irmão João Villas Boas preparavam-se para dormir depois de participarem de uma festa (um “bailinho de roça”) na casa de amigos, quando viram luzes rondando a casa. Nesse dia eles viram a luz pelo telhado da casa, já que a casa não possuía forro. Perceberam a luz sobre a casa, nos espaços entre as telhas; logo depois a luz desapareceu. Odércia revelou que oito dias depois do sequestro, aquela luz voltou a circular a fazenda, e que antes mesmo de o Antonio ser sequestrado, aquela luz costumava rondar a região com certa insistência, e que ela mesma, assim como todos os que ali moravam, chegaram a ver luzes estranhas.

Vista parcial da fazenda onde Antonio Villas Boas foi abduzido em São Francisco de Sales, Minas Gerais. A casa original onde Antonio residia, no entanto, foi inundada pela Represa Água Vermelha em 1978. Foto: Cláudio Suenaga.

O motivo de Antonio preferir trabalhar à noite com a luz do trator se devia ao fato de durante o dia o calor ser muito intenso, além do que, quando criança, ter sido acometido de um problema respiratório que fazia com que não dormisse bem se tomasse muito Sol. Enquanto isso, Odércia ficava encarregada de preparar e mandar a comida, que devia ser bastante reforçada para que os homens suportassem o duro trabalho no campo. Eram cinco refeições: o café da manhã, que equivalia a um pequeno almoço, às 9 horas, o almoço ao meio-dia, uma “janta” às 13 horas, outra “janta” às 16 horas e uma outra às 19 horas. A mulher, destarte, praticamente não saía da frente do fogão.

Antonio Villas Boas em 1957, pouco antes de sofrer o sequestro. Foto do acervo pessoal de Odércia Villas Boas.

A primeira pessoa para quem Antonio teria contado o que lhe sucedera naquela madrugada de 16 de outubro de 1957 teria sido a ela, Odércia, e não à sua mãe, como comumente se propala, já que ela morava perto da sede da fazenda, a uns 800 metros, na margem do Rio Grande, e a uns 2 quilômetros do local onde a nave pousou: “Nessa época, estava grávida de minha filha caçula. Era de manhã bem cedinho, por volta das 5h30, e eu já havia levantado porque a essa hora tinha de fazer café e despachar os homens para o trabalho na roça. O meu marido ainda estava dormindo porque se recuperava de uma cirurgia que havia feito no pescoço para tirar um tique nervoso que tinha nas costas. O Antonio chegou do varjão em que trabalhava e logo notei que estava tremendo e com o rosto pálido, amarelado, com manchas roxas na fronte e no queixo. Perguntei o que tinha acontecido e em vez de responder pediu que lhe preparasse um café bem forte e mandasse meu marido tirar leite para que tomasse, pois estava se sentindo muito mal. Meio zonzo, ele deitou-se num banco grande de madeira que havia na varanda, estirando as pernas. Vendo o estado em que se encontrava, insisti para que entrasse e deitasse na cama, mas ele teimou que queria ficar ali mesmo. Meu marido foi até o curral tirar o leite que ele bebeu misturado com café bem forte, para logo em seguida vomitar uma ‘cola amarelinha’. Aí ele tomou de novo, esperou de novo, foi parando de tremer e se sentindo um pouco melhor, e aí então me contou toda aquela história.”

Antonio dormiu até às 16h30 e à noite não conseguiu dormir nem comer. Em princípio ninguém teria estranhado aquele comportamento porque, segundo Odércia, “geralmente o tratorista que trabalha à noite chega fatigado e dorme o dia todo.”

Todos os pontos do relatório do médico Olavo Fontes foram confirmados um a um por Odércia enquanto eu os lia para ela, como os de que: havia “furos vermelhos”, de ambos os lados do queixo e abaixo do lábio de Antonio, como se tivessem sido feitos por uma agulha grossa; no oitavo dia, enquanto trabalhava, Antonio ficou com uma pequena ferida no antebraço, tendo notado no dia seguinte que a ferida se convertera numa pequena cabeça de pus; o corpo dele começou a coçar, “como se lhe tivesse dado uma forte alergia”; quando essa ferida sarou, ficou uma mancha de cor “arroxeada” ao redor; entre quatro e dez dias depois, apareceram feridas similares nos seus braços e pernas (“coçava e amanhecia aquela ferida”); “todas começaram com um pequeno calombinho, com um buraquinho no meio com muita coceira, e cada um durando de dez a vinte dias” (“formava aquela bolhinha, como se fosse picada de inseto, mas não era”).

Ademais, Odércia ratificou outras sequelas advindas do contato, como o da coceira que afetou o órgão genital de Antonio a ponto de deixá-lo preocupado pensando que podia ter contraído doença venérea, daí ter procurado um farmacêutico da cidade que era descendente de espanhol ou italiano e se chamava “Joaquim Tipogra” ou “Tipógrafo”.

Alguns dias depois, para piorar, repugnou Odércia, “estouraram umas feridas, tipo uma crosta. Aquilo por baixo era meloso e criava uma casca grossa por cima. Isso nas pernas e em várias áreas do corpo. Antonio passou também a sentir uma forte dor de cabeça na região da fronte. Durante essas dores, o rosto dele contraía tanto que parecia um velho de 80 anos desidratado. Teve, ainda, infecção nos olhos, na garganta e no fígado. As lágrimas ficaram sem congestionamento, ou seja, ficavam escorrendo. Surgiram duas manchas amarelas de cada lado do nariz e na fronte também, aquelas manchas amarelas meio arroxeadas, como se tivesse sofrido uma pancada. Essas manchas no lado da fronte demoraram bem mais do que vinte dias para sumir. Ele ficou com propensão para o sono, com muita sonolência, principalmente nos dias em que estava nervoso. Ficou com dificuldades de se concentrar, tanto que teve de desistir de um curso que fazia. Ele só voltou a estudar depois que foi para Formosa. Ele dormia muito, sentia muita fadiga e foi perdendo a disposição para o trabalho. Qualquer atividade o cansava, ele que antes trabalhava com o trator, o caminhão, pegava uma carga, levava para Uberaba, vendia, e com o lucro obtido comprava sal, açúcar, querosene, essas coisas porque não havia energia elétrica por aqui, e o que sobrava doava para os pobres.”

Ao contrário do que foi propalado, o intercurso sexual com a mulher extraterrestre não deve ter sido lá muito agradável, uma vez que, longe de ser uma beldade, testificou Odércia, “Antonio dizia que ela era muito feia, que o rosto dela era triangular, comprido, um tanto desfigurado, que os olhos eram grandes e repuxados para cima, que a boca também era meio repuxada, e que o cabelo era lisinho. Essas características faziam com que ela se parecesse mais com um macaco do que um ser humano.”

A mulher que manteve intercurso sexual com Antonio Villas Boas foi invariavelmente retratada como uma beldade, graças em grande parte à concepção artística dos franceses Jacques Lob e Robert Gigi. A descrição fiel de Antonio, no entanto, difere muito dessa característica segundo Odércia e outros parentes e amigos de AVB, conforme vemos no retrato falado à direita.

Insisti que todas as versões do caso davam conta de que ela era formosa, mas Odércia renitiu que Antonio jamais a descreveu dessa forma. Sugeri então que talvez tivesse sido aquele líquido aplicado pelos seres no corpo de Antonio que o teria feito se sentir excitado e apto a consumar o ato, no que Odércia concordou.

Indivíduos envergando “farda verde-azeitona”, uns falando em inglês e outros em português, tornaram-se uma presença constante na fazenda logo depois do sequestro e ao longo de quase dez anos, asseverou Odércia, que confirmou que “cientistas da NASA” (ou, quiçá, funcionários de alguma agência de espionagem?) teriam ido à fazenda e levado Antonio a uma base secreta (Área 51?) nos Estados Unidos repleta de discos voadores acidentados ou construídos pelos cientistas terrenos aproveitando a tecnologia destes.

Flávio Cavalcanti

Em 1978, Antonio foi entrevistado por Flávio Cavalcanti (1923-1986) em seu prestigiado programa na extinta Rede Tupi, que naquele ano dedicava uma série de reportagens aos discos voadores. Após reconstituir diante das câmeras e em cadeia nacional a sua aventura (levada ao ar pela Tupi nos dias 10 e 17 de setembro daquele ano), o apresentador perguntou se porventura mantivera algum contato com o suposto filho gerado. Eis a instigante resposta de Antonio: “Peço licença, mas prefiro não responder a essa pergunta.” O próprio Cavalcanti, recorda-se Odércia, esteve na fazenda pessoalmente a fim de convidar o Antonio: “Veio numa caminhonete junto com vários cães enormes, e pelo que fiquei sabendo ele sempre andava com aqueles cães. Queria falar com o Antonio, mas nessa época ele já não morava mais aqui.”

Mas chega de preâmbulos e vamos à entrevista:

P – O Antonio preferia trabalhar à noite com a luz do trator porque durante o dia o calor era muito intenso.

Antonio Villas Boas ainda criança. Foto do acervo pessoal de Odércia Villas Boas.

R – Era muito intenso, além do que, quando criança, o Antonio teve um problema respiratório que fazia com que não dormisse bem se tomasse muito sol, então ele evitava. Mas não era só ele que preferia trabalhar à noite, a maioria dos homens da fazenda emendavam dia e noite. Enquanto tinha chão para arar eles ficavam lá, e eu só mandava a comida. Na manhã que antecedeu a madrugada do sequestro, aconteceu uma coisa engraçada. Eu havia matado um frango grande, um desses frangos índios, que eu preparei do jeito que ele gostava, com bastante molho. Fiz uma salada de alface e ainda coloquei carne de porco que fritávamos e guardávamos em conserva, ovos grandes, fritos e estalados, mandioca, arroz, feijão, ou seja, uma refeição muito reforçada. Por volta das 6h30, mandei um menino chamado Veridiano levar toda aquela comida para o Antonio, que abriu a vasilha e comeu o arroz, o feijão, a carne de porco e a mandioca, mas rejeitou o frango pois achou que aquilo era carne de peru. Contaram-me que ele olhou para o frango e disse exatamente assim: “Eu não vou comer isso não, porque isso é carne de peru.” E ele não quis comer. Em matéria de comida ele era um tanto enjoado. Aí quando ele chegou em casa passando mal de manhã, brinquei dizendo que apesar de ter rejeitado a carne de peru, havia tido uma indigestão assim mesmo. Aí ele respondeu que não, que ele estava daquele jeito por outro motivo, e mandou que chamasse meu marido para tirar o leite para que ele tomasse. Quando o Antonio melhorou, assegurei-lhe que aqueles ovos não eram de peru, e que aquela carne não era de peru. Mostrei até as penas do frango, mas ele continuou desconfiado.

P – A comida era abundante lá…

R – Para fortificar, porque no campo o trabalho é pesado. Então eles têm o café da manhã, que é um almoço, às 9 horas, o almoço ao meio-dia, uma janta às 13 horas, outra janta às 16 horas e uma outra às 19 horas.

P – Tudo isso?

R – Para aguentar, senão não aguenta. A mulher quase não saía da frente do fogão.

A captura de Antonio Villas Boas pelos seres quando arava o trator de madrugada, na concepção artística de Jacques Lob e Robert Gigi, in Semence pour les etoiles, p.103.

P – Por que se difundiu a versão de que o Antonio contou o caso primeiro para a sua mãe?

R – A segunda pessoa pode até ter sido a nossa mãe, mas a primeira pessoa para quem ele contou depois que voltou do sequestro fui eu, tanto que depois eu o acompanhei até os currais da fazenda, e ao chegar lá na porteira, brinquei com ele, dizendo: “Tá entregue”.

P – Depois que ele contou o caso para a senhora, ao que parece não quis falar com mais ninguém.

R – Só depois de alguns dias é que ele começou a comentar.

P – O Antonio lhe narrou a história com naturalidade?

R – Com naturalidade, apesar de que naquele momento ele parecia que estava meio anestesiado. Narrou tudo, o aparelho onde ele ficou, o jeito daquelas pessoas, da mulher que teve relação com ele, etc.

P – Ele detalhou como era  o interior do disco?

R – Ele falou que tudo era bem organizado, metálico, brilhoso. Mas sobre cama, piso, não comentou nada.

Desenho de Jacques Lob e Robert Gigi, in Semence pour les etoiles, p.105.

P – Os seres esfregaram uma esponja molhada no corpo de Antonio. O líquido não era gorduroso e também não tinha cheiro, era transparente como água, porém mais grosso, lembrando a consistência do óleo.

R – Não tinha cheiro. E perfuraram-lhe na fronte, dos dois lados assim no queixo, abaixo do lábio, dos dois lados havia furos.

P – A senhora viu os furos nitidamente?

R – Eram vermelhos, como se tivessem sido feitos por uma agulha grossa.

P – Na sala onde foi deixado, ele teria visto uns tubos metálicos logo abaixo do teto de onde saía uma fumaça ou um gás que o fez vomitar.

R – Ele vomitou e vomitou muito. E quando chegou em casa também vomitou. Assim que ele tomou o primeiro copo de leite, vomitou. Parecia uma baba, uma coisa esquisita.

P – O que ele falava daquela mulher? Que era bonita?

R – Não, pelo contrário, ele dizia que ela era muito feia, que o rosto era triangular, comprido, um tanto desfigurado, que os olhos eram grandes e repuxados para cima, que a boca também era meio repuxada, e que o cabelo era lisinho. Essas características faziam com que ela se parecesse mais com um macaco do que um ser humano.

Diversos retratos falados de alienígenas com base em descrições de testemunhas e abduzidos em comparação aos seres descritos por Antonio Villas Boas (6), incluindo a “mulher feia” com quem disse ter mantido relações sexuais.

P – Então não foi algo lá muito agradável, não é?

R – Não, não foi não.

P – Mas todas as descrições que li diziam que ela era formosa…

R – Não, ele jamais disse isso.

P – Talvez tenha sido aquele líquido que os seres aplicaram no corpo dele que fez com que conseguisse praticar o ato…

R – Isso, exatamente.

Desenho de Jacques Lob e Robert Gigi, in Semence pour les etoiles, p.106.

P – É verdade que ela, ao final da relação sexual, apontou para o céu com o dedo?

R – É, ela indicou o céu. Ele diz que tentou conversar com ela bem como com os demais seres, perguntou de onde vinham, onde moravam, mas eles só falavam emitindo ganidos ou latidos de cães.

P – O Antonio teria dito uma frase que ficou bastante marcada: “Eles queriam um bom reprodutor para melhorar a sua espécie.” Ele repetia essa frase com insistência?

R – Repetia sim.

P – Ele achava que havia sido usado?

R – É, usado, porque os seres o tinham levado à força para dentro do aparelho e o obrigado a fazer aquilo.

P – Então ele se sentiu uma verdadeira cobaia?

R – Uma verdadeira cobaia, isso era o que mais o revoltava, até que por fim ele não queria nem falar mais no assunto.

P – Por que os seres teriam escolhido justamente o Antonio e não um dos irmãos dele, como o José, por exemplo?

R – Porque ele foi o único que eles conseguiram pegar, já que ele estava dirigindo o trator de madrugada, enquanto os outros não saíam com medo daquela luz.

P – O Antonio teria tentado levar um objeto de dentro da nave como prova, mas os seres não deixaram.

R – Não deixaram ele levar nada, e quando terminaram de usá-lo, não quiseram mais nada com ele e o largaram do lado de fora. O Antonio ainda estava muito fraco, mal aguentava andar, tanto que antes de voltar para casa se deitou ao lado de um tambor de gasolina e ficou ali por alguns minutos.

Antonio Villas Boas tentou levar um objeto de dentro da nave com prova, mas foi impedido pelos seres. Desenho de Jacques Lob e Robert Gigi, in Semence pour les etoiles, p.107.

P – O Antonio disse que um isqueiro da marca Homero sumiu do bolso dele.

R – Isso não quer dizer que foram os seres que pegaram, uma vez que o Antonio pode ter perdido enquanto lutava para não ser capturado.

P – Ele teria chegado em casa enfraquecido e dormido até às 16h30, e à noite não conseguiu dormir nem comer.

R – Em princípio ninguém estranhou aquele comportamento porque geralmente o tratorista que trabalha à noite chega fatigado e dorme o dia todo.

P – Como eram as marcas deixadas pelo disco voador?

R – O varjão era na beira de rio, um lugar baixo aonde a água vinha e inundava, uma terra muito boa para se plantar arroz. Onde a nave pousou ficaram quatro buracos, não muito profundos, a uma distância aproximada de cerca de um metro entre um e outro, como se a nave tivesse fincado uns ganchinhos na hora em que aterrissou.

P – Ali perto guardavam uns tambores…

R – É, guardavam três ou quatro tambores de gasolina de 500 litros que eles usavam para abastecer o trator.

P – O trator teria parado de funcionar com a aproximação da nave.

R – É, parou. E só voltou a funcionar no outro dia de tarde, quando o Damião, um dos empregados da fazenda, e o José, foram lá.

P – A senhora foi ao local onde o disco pousou depois do fato?

R – Fui, aliás todos da fazenda foram. Ali era um varjão, um pântano cheio de água. Eles abriam uma valeta e depois punham o trator para arar e fazer plantação de arroz. A vegetação estava amassada naquele turrão. E como o terreno era mole, ficaram lá as marcas do disco durante algum tempo.

P – E essa história de que não teria voltado a crescer mais nada lá?

R – Isso é mentira, porque a água vinha e inundava, e ali nascia vegetação nova, como o capim navalha, que é um capim miudinho, típico de pântano. A vegetação continuou crescendo normalmente.

P –  Voltaram a plantar ali novamente?

R – Logo em seguida passaram trator por cima. Quebraram os turrões e araram a terra. De modo que a lavoura continuou sendo cultivada, mas depois de alguns anos transformaram aquilo em pastagem. O varjão secou e virou pasto.

O irmão de Antonio, João Villas Boas, ainda jovem. Foto do acervo pessoal de Odércia Villas Boas.

P – Em 5 de outubro de 1957, por volta das 23 horas, Antonio e seu irmão João Villas Boas preparavam-se para dormir depois de participarem de uma festa na casa de amigos. Isso confere?

R – Confere. Foi uma das primeiras ocasiões em que eles viram luzes rondando a casa.

P – Mas que festa era essa?

R – Festinha de roça mesmo, esses bailinhos de roça.

P – Nesse dia eles viram a luz pelo forro da casa, já que a casa não tinha forro. Perceberam a luz sobre a casa, nos espaços entre as telhas; logo depois a luz desapareceu.

R – No quarto do Antonio havia uma janela que dava para a parte da frente da casa, onde o mato era cerrado e havia algumas árvores. Aquela luz se aproximou até perto dos currais.

P – Depois do sequestro aquela luz voltou a ser vista?

R – Oito dias depois a luz voltou a circular a fazenda. Eu não cheguei a ver, mas de manhã, quando fui buscar o leite na fazenda, meus pais e o meu sobrinho João Neto me contaram que durante a noite uma luz ficou rondando ali. O João era medroso, ficava cismado com essas coisas.

P – Antes de o Antonio ser sequestrado, aquela luz costumava rondar a região?

R – Sim, várias vezes. Voava por cima da sede da fazenda, por sobre uns pastos, para sumir na direção do cerrado. Ficava circulando a casa, e o Antonio não gostava de ver aquilo, tanto que fechava a porta e as janelas. Minha mãe nessa altura já andava muito doente, então meu irmão trancava tudo e ficava caladinho, se escondendo daquela luz, como se soubesse que andavam atrás dele. O irmão mais velho, o João Villas Boas, foi um dos que viram essa luz circular a casa. Ele morava perto do Antonio, já era casado, mas toda noite vinha a casa de nossos pais. Poucos dias antes do sequestro ele viu uma luz estranha durante várias noites seguidas, uma luz que não chegou a pousar. As pessoas tinham medo, bastava que se mencionasse a palavra disco voador para que todos ficassem apavorados.

P – A senhora chegou a ver luzes estranhas na fazenda?

R – Tanto eu como todo mundo que morava lá víamos muitas luzes. No Morrinho do Engenho de Serra, perto da fazenda, víamos baixar muitas luzes. Por volta de 1941 ou 42 estudávamos numa escolinha que era uma casinha velha que ficava na parte de baixo da cidade, num brejinho, perto da casa de um tio. E desse brejinho ficávamos observando, nos finais de tarde, aquela luz baixando e pousando em cima do morro. No final de 1942 observamos um aparelho muito estranho passar pela região como se fosse uma bola de fogo. Como naquele tempo ninguém falava em disco voador, ficou por isso mesmo.

P – Esse morro ainda existe?

R – Não, porque também foi coberto pelas águas.

P – A senhora chegou a ver algum outro objeto estranho no céu?

Cláudio Suenaga e Odércia Villas Boas. Foto de Pablo Villarrubia Mauso.

R – Certo dia, num final de tarde, estávamos na casa desse tio brincando de amarelinha quando surgiu um enorme aparelho prateado no céu fazendo muito barulho e que voava rapidamente na direção desse morro. Aí uma de minhas irmãs falou que era disco voador, porque estava se começando a falar em disco voador, embora não soubéssemos direito o que era. Em meados dos anos 60, morávamos na cidade de Cardoso, no interior de São Paulo, e minhas quatro filhas estudavam na Escola Luís Nunes Ferreira Filho. Elas tinham aulas de educação física de manhã bem cedo, porque havia só uma professora, a Vani Nogueira, para centenas de alunos. Conforme as turmas iam cumprindo seus horários, iam sendo dispensadas. Nós morávamos dezesseis quarteirões distantes da escola. Numa manhã dessas, minhas filhas chegaram em casa esbaforidas e quase roxas de tanto que correram devido a aparição de um enorme objeto que parecia que ia descer no pátio da escola, mas que na verdade caiu no meio do pasto da Fazenda Ponte Grande, de um tal de Antonio Soares, cujo apelido era Taboca. Pelo que fiquei sabendo, militares fardados vieram e recolheram as partes desse aparelho. O mesmo disco foi visto depois em Tanabi, também no interior de São Paulo, perto de São José do Rio Preto. Lá também os OVNIs costumavam aparecer. Inclusive levou um rapaz que era irmão de um colega meu. Esse rapaz ficou trinta dias desaparecido, e quando voltou estava muito fraco e magrinho. Ele sempre me contava isso por carta, e quando veio morar em Cardoso, muitos anos depois, me contou essa história pessoalmente.

P – Esse aparelho que caiu em Cardoso era tripulado?

R – Não, não tinha ninguém dentro.

P – Era metálico?

R – Meu cunhado falava que era metálico.

P – Deu para discernir a forma exata dele?

R – Não, porque ele bateu e se fragmentou.

P – Foi o Antonio quem procurou o João Martins?

R – Ele fez uma escultura num pedaço de madeira, numa raiz de uma árvore que tinha na frente de minha casa, uma raiz macia e leve como cortiça chamada tamburil. Ele esculpiu e cobriu aquilo de papel metálico, tirado do maço de cigarros Liberty. Botou a escultura dentro de uma caixinha e mandou para o João Martins no Rio de Janeiro.

As esculturas em madeira feitas por Antonio, que as entregou para João Martins, que as publicou (sob o pseudônimo de Heitor Durville) na reportagem “Detras de la cortina de silencio – parte IV”, in Ediciones O Cruzeiro, Maipú, Buenos Aires, 1965, p.18.

P – Em 1978, Antonio teria sido entrevistado no Programa Flávio Cavalcanti, da extinta Rede Tupi, que naquele ano dedicava uma série de reportagens aos discos voadores. Após confirmar diante das câmeras e em cadeia nacional a sua aventura, o apresentador perguntou se porventura mantivera algum contato com o suposto filho gerado. Eis a instigante resposta de Antonio: “Peço licença, mas prefiro não responder a essa pergunta.” Como se deu o convite para o Antonio participar do Programa Flávio Cavalcanti?

R – O próprio Flávio Cavalcanti chegou a vir aqui na fazenda, ele pessoalmente. Veio numa caminhonete junto com vários cães enormes, e pelo que fiquei sabendo ele sempre andava com aqueles cães. Queria falar com o Antonio, mas nessa época ele já não morava mais aqui.

P – É verdade que NASA veio ao Brasil e levou o Antonio aos Estados Unidos?

R – É verdade. Vieram umas pessoas uniformizadas que falavam inglês, acompanhado de um intérprete, que o levaram de avião para o Rio de Janeiro, onde ficou vários dias sendo submetido a exames e proibido de dar entrevistas. De lá ele foi levado para o estado da Califórnia, a uma base militar secreta onde o fizeram ver os restos de um disco voador. Ele permaneceu lá por três dias, após os quais deram-lhe de presente dois lotes na cidade de São Francisco, na Califórnia. Mas ele nunca se interessou por aquelas propriedades porque foi ficando cada vez mais nervoso, desgostou de tudo e por fim não queria nem mais falar naquilo. Coleções de livros ele recebia demais. Aqui na fazenda minha irmã recebia e mandava para ele em Formosa.

P – Quer dizer que se ele quisesse poderia ir morar lá?

R – Poderia, porque até escritura tinha. A escritura ficou com minha irmã mais velha, que no fim das contas também abandonou tudo.

P – Quais eram os tipos de pessoas que vinham procurar o Antonio na fazenda?

Pablo Villarrubia Mauso e Odércia Villas Boas. Foto de Cláudio Suenaga.

R – Vinha muito pessoal de farda verde-azeitona na fazenda. Eu acredito que era pessoal da NASA mesmo. Eu nunca cheguei a conversar com eles porque mulher naquela época não tinha liberdade para falar com gente estranha. Eles traziam enormes coleções de livros, tudo em inglês, para dar de presente ao Antonio. Às vezes mandavam os livros pelo correio. Mas como ninguém na fazenda entendia inglês…

P – Esses homens fardados falavam em inglês ou em português?

R – Alguns falavam em inglês, outros em português.

P – Eles vinham na mesma época em que aconteceu o caso?

R – Naquela mesma época e durante uns oito ou dez anos continuaram vindo.

P – Como era a casa de seus pais na fazenda, a casa onde o Antonio morava quando foi sequestrado?

R – A casa era bastante grande, tinha oito quartos, sala, cozinha, dispensa e mais uns cômodos onde guardávamos mantimentos e fazíamos queijo. As paredes eram feitas de um tijolo e meio, ou seja, botavam aquele tijolinho virado assim e botavam um outro tijolo. Foi um português que fez essa casa pro meu pai. Só o banheiro que era precário porque não havia água encanada, só água de poço. O chuveiro era um balde cheio de furos onde se colocava água dentro. O teto era coberto de telhas feitas na olaria da fazenda. O assoalho era de madeira comum, madeira daqui mesmo, não envernizada, mas era lisinha porque queríamos a casa limpa, de modo que íamos ao cerrado e pegávamos as folhas de uma árvore chamada Lixeira, cujas folhas, como o nome diz, eram ásperas feito lixas. Com aquelas folhas lixávamos o assoalho até deixá-lo bem branquinho e lisinho.

P – Portanto essa versão de que a casa de seus pais, a casa em que o Antonio vivia era humilde, e que ele dormia no mesmo quarto do irmão, não corresponde à verdade.

R – Não, porque a casa era um casarão.

P – Há uma figueira enorme lá na fazenda.

R – Essa foi a única coisa que sobrou, porque a casa e outras construções foram inundadas. É uma figueira centenária.

A figueira centenária, um dos poucos remanescentes originais da época do sequestro, na fazenda onde Antonio Villas Boas foi abduzido. Foto de Cláudio Suenaga.

P – Segundo o seu sobrinho João Neto, a fazenda era mal-assombrada, talvez por ter sido uma antiga aldeia indígena.

R – Muito antes de desmatar, de beneficiar tudo, os índios tinham uma aldeia lá sim. Tanto que logo que meu pai comprou a fazenda e nos mudamos pra lá, costumávamos encontrar pedaços de vasilhas e potes de barro enterrados na beira do córrego. Bastava arrancar uns pés de mandioca ou cavoucar a terra.

P – O João Neto contou que lá na fazenda tinha um monjolo que batia sozinho.

R – Isso sempre acontecia logo depois que socávamos farinha de milho. O milho era socado no monjolo, abanávamos, retirávamos aquele farelo e o púnhamos de molho. Então aquilo ficava ali durante uns quatro ou cinco dias até amolecer, após os quais lavávamos muito bem lavado e socávamos de novo. Por fim escoávamos a água, deixávamos secar e obtínhamos aquele fubá ideal para fazer os beijus de farinha. E quando não estava socando arroz à noite, quando ficava parado, para evitar que se quebrasse, tampávamos o monjolo e púnhamos uma peça de ferro. Mas mesmo assim ouvíamos o monjolo socar. E minha mãe me chamava: “Menina, vai parar o monjolo.” Nós íamos, às vezes inocentemente, e quando chegávamos lá, o monjolo estava quietinho.

P – A senhora chegou a ver o monjolo se mexer sozinho?

R – Não, porque conforme íamos chegando perto, ele parava.

P – Havia alguma outra assombração?

R – Minha irmã Delidia Villas Boas, nascida em 1918, e seu marido Aristeu Correia de Queiroz, pais do João Neto, da Dirce, da Gilse e da Aparecida, se suicidaram em 23 de dezembro de 1947, quando ela estava grávida de quatro meses do quinto filho. A Aparecida, a filha caçula, estava com apenas sete meses. A nossa mocidade acabou ali, ficamos impedidas de estudar e passear, porque tivemos de criá-los como se fossem nossos filhos, já que nossa mãe já estava muito velha e doente. Cozinhar, lavar roupa, dar banho, curar dor de dente, tudo isso nós é que tínhamos que fazer. Eu enchia aquelas bacias enormes de louça com roupas sujas e ia com as crianças lavar aquilo na beira do rego d’água, que era longe. Havia uma moita de taboca no fundo. Eu não chegava na beira do rego d’água de medo, porque eu via os pais deles lá, não era ilusão não, eu os via lá. Mas quando estava sozinha, sem as crianças, eu não os via. E naquele tempo não tínhamos nem berço. Mas como a casa de meu pai era enorme, amarramos duas cordinhas e improvisamos um berço de taboca, e a Aparecida dormia ali. Por mais de uma semana essa menina chorava e acordava aos gritos porque sentia falta da mãe, até que vinha uma pessoa invisível, que devia ser o espírito da mãe dela, balançava o berço e ela se acalmava. Certa noite esse espírito veio, e quando me levantei, meu corpo todo adormeceu. Os corpos dos meus pais também adormeceram, e eles não conseguiram se levantar. O espírito pegou então o bercinho dela, balançou, balançou, e a menina se acalmou. Eu conto isso e as pessoas não acreditam.

P – Qual foi o motivo do suicídio dos pais de João Neto?

R – A suspeita é a de que o Aristeu estava com maleita e havia sido desenganado pelos médicos, mas nunca chegamos a saber exatamente porque eles não deixaram nada escrito. Naquele dia eles tomaram veneno e depois ficaram andando no quintal abraçados. Capinaram um pouco, deram uma volta no quintal, entraram na casa, ela se sentou no chão, abeirando a porta, e ele se deitou no colo dela. Primeiro ele atirou no ouvido dela, depois atirou em si mesmo. Um senhor que morava ali perto escutou, soltou um grito, e a mulher da outra casa veio avisar. Meus pais e uma outra irmã estavam em Urucanha naquela época. Eu não acreditei quando a mulher me contou. Quando cheguei lá ergui o corpo de minha irmã, e ela ainda gemeu. Meu cunhado chegou daí a pouco e em seguida minha irmã. O chão estava inundado de sangue, tanto que fiquei mais de seis meses com o sangue impregnado em meus pés. Montei em um cavalo e corri para o centro de São Francisco de Sales para providenciar o enterro, enquanto meu cunhado foi avisando toda a vizinhança.

P – O João Neto também contou que na fazenda aparecia uma assombração que era um homem coberto por uma capa preta.

R – Isso eles falavam mas eu não cheguei a ver.

P – Quem eram seus antepassados?

R – A minha avó por parte de pai era cigana da Nova Zelândia. Dizem que ela mexia com raizada para curar as pessoas, porque a medicina daqui era muito atrasada, e que ela curava muitas pessoas que se transformavam em lobisomem após serem mordidas por cães. Meus pais é que contavam isso, mas eu não acredito. Meu avô paterno veio da França quando criança e foi criado em Lençóis Paulista, interior de São Paulo, e só depois é que veio para cá. Meu pai foi criado na localidade de Duplo Céu, e que naqueles tempos chamava-se Macuco, perto de São José do Rio Preto.

Jerônimo Pedro Villas Boas (1887-1963) e Enésia Cândida de Oliveira (1897-1963), pais de Antonio e Odércia Villas Boas. Foto do acervo pessoal de Odércia Villas Boas.

P – Do que falecerem seus pais?

R – Minha mãe de câncer na garganta, em maio de 1963. Meu pai se desesperou e perdeu a razão, tanto que teve o que os médicos disseram que era amolecimento cerebral, não comia nem bebia nada, e exatamente um mês depois veio a falecer também.

P – A altura do Antonio era 1,64 m?

R – É, mais ou menos isso. Ele não era muito alto.

P – Como era o Antonio antes do sequestro?

R – Ele era alegre e brincalhão, apesar de que brigava muito com os irmãos. Viviam igual gato e cachorro, viviam brigando. Depois que voltou do sequestro ele foi ficando cada vez mais triste e fechado.

P – Na época em que foi sequestrado ele já lia algo sobre discos voadores?

R – Não, porque por aqui não tinha banca de jornal, e as poucas revistas que chegavam não falavam do assunto.

P – Ele ouvia rádio?

R – Ele ouvia a Rádio Tupi do Rio de Janeiro.

P – E televisão, ele assistia?

R – Não, porque só bem mais tarde é que viemos a comprar televisão.

P – O Antonio era religioso?

R – Não só religioso como muito devoto da Igreja Católica. Ele carregava medalhinha no pescoço, gostava muito de frequentar o Mosteiro da Medalha Milagrosa de Nossa Senhora das Graças, no centro de Uberaba, e as irmãs enclausuradas de lá gostavam muito dele porque sempre que podia levava para elas carnes de porco e frango da fazenda. Logo na entrada do mosteiro havia um ralinho giratório em que a pessoa colocava o seu donativo e em seguida recebia a medalhinha com óleo bento. Nas procissões da Igreja Católica, o Antonio carregava o andor com o santo até a velha Igreja Matriz.

P – A senhora também ia às procissões?

R – Nossa, como ia. E ia descalça, para cumprir promessa.

P – Funcionava?

R – Funcionava. Fazia o pedido, botava muita fé naquilo, e acontecia.

P – A personalidade do Antonio teria mudado muito depois do acontecido. Dizem que antes era alegre, gostava de festas, brincadeiras, reuniões divertidas, mas depois do contato mudou completamente.

R –  É, mudou. Passava a maior parte do tempo isolado no quarto. Assim que terminava de dar o almoço pros companheiros, eu ia visitar meus pais, e quando chegava lá na casa, perguntava: “Cadê o Antonio?” E me respondiam que ele estava fechado no quarto. Eu batia na porta e perguntava se ele queria alguma coisa. Ele só dizia: “Não, eu tô bem.” A fisionomia dele ficou mais séria, carrancuda. Nos dias em que estava com dor de cabeça então, seu mau humor aumentava ainda mais.

P – Depois do sequestro ele não ficou amedrontado, com medo de sair à noite?

R – Medo não. Ele foi é ficando muito nervoso e muito doente.

P – Antes de se casar, o Antonio já havia mantido relação conjugal com alguma mulher?

R – Quando ele foi para Ituiutaba (MG) estudar, ele conheceu na zona de meretrício uma moça chamada Rosana, por quem se apaixonou. Ele a tirou da zona e a levou para morar junto com ele em um hotel de Campina Verde (MG). O dono desse hotel, Pedro Caetano, e a esposa deste, que eram ligados a Igreja, tentaram arranjar um casamento, mas o padre, conhecendo a nossa família, não quis fazer a cerimônia devido ao passado dela. O Antonio então a trouxe para a fazenda, meus pais não gostaram dela, e o padre daqui também não quis fazer o casamento. Daí foram para Uberaba, e dali para Campina Verde, onde finalmente o padre de lá concordou em fazer o casamento. Mas ela não o respeitava, de modo que o casamento não durou nem seis meses.

P – Ela era bonita?

R – Ela era morena, magra, alta, e tinha um corpo muito bonito.

P – Por que o Antonio mudou tantas vezes de cidade?

R – Quando a Companhia Energética de São Paulo (CESP) inundou tudo aqui, ele vendeu a parte dele da fazenda para um rapaz de Cardoso. O nosso irmão mais novo, o José, assim que se casou foi para Fernandópolis. Perto dessa cidade, em Macedônia, o José tinha um sítio, e convidou o Antonio para ficar lá. Ele foi, mas a tendência dele não era aquela. Ele gostava mesmo é de estudar. Ficou por uns tempos, e quando a esposa estava grávida do terceiro filho, resolveram ir para Uberaba. Meu cunhado que tinha uma serraria em Formosa, convidou o Antonio para ir trabalhar com ele lá. A serraria, entretanto, um dia acabou pegando fogo, e como não tinha seguro, ambos ficaram sem nada.

Antonio Villas Boas, já formado, envergando a beca de advogado. Foto do acervo pessoal de Odércia Villas Boas.

P – De que maneira o Antonio concluiu os estudos?

R – Quando ele foi trabalhar nessa serraria, uma freira que estudava na Universidade de Brasília (UnB) resolveu ajudá-lo e o levava todo dia de carro até lá. Foi assim e com a ajuda de uma irmã mais velha que ele conseguiu se formar.

P – Segundo o relatório que o médico Olavo Fontes fez na época, logo depois que examinou o Antonio no Rio de Janeiro, “no oitavo dia, enquanto trabalhava, ficou com uma pequena ferida no antebraço. E no dia seguinte ele notou que a ferida se converteu numa pequena cabeça de pus.” A senhora confirma?

R – Cabeça de pus que eles falavam, que cria um cascão, uma casca grossa, e pus por baixo.

P – E depois, ainda segundo Fontes, o corpo dele começou a coçar.

R – Deu uma alergia louca no corpo dele.

P – “E quando essa ferida sarou, ficou uma mancha de cor púrpura ao redor.”

R – Aquilo ficou meio arroxeado.

P – “Entre quatro e dez dias depois, apareceram feridas similares nos seus braços e pernas. Entretanto, estas se apresentavam espontaneamente sem traumatismo prévio.”

R – Coçava e amanhecia aquela ferida.

P – “Todas começaram com um pequeno calombinho, com um buraquinho no meio com muita coceira, e cada um durando de dez a vinte dias.”

R – Formava aquela bolhinha, como se fosse picada de inseto, mas não era.

P – Ele teria ficado com coceira no órgão sexual, ficou até preocupado, pensou que era doença venérea. Por isso procurou um farmacêutico aqui da cidade.

R – O farmacêutico se chamava Joaquim Tipogra. Ele tinha vindo da cidade de Paulo de Faria, interior de São Paulo, e parecia ser espanhol ou italiano.

P – Ele reclamava de muitas dores de cabeça e náuseas.

R – Ele passou a sofrer de uma dor de cabeça terrível depois disso. E anos depois teve aneurisma cerebral.

P – Ele passou a sentir fadiga?

R – O fôlego dele ficou curto e a respiração abafada.

P – Ele teve infecção nos olhos?

R – Nos olhos, no fígado, na garganta.

P – As lágrimas ficaram sem congestionamento?

R – As lágrimas ficavam escorrendo.

P – Surgiram duas manchas amarelas de cada lado do nariz.

R – Do nariz e na fronte também, aquelas manchas amarelas meio arroxeadas, como se tivesse sofrido uma pancada.

P – E essas manchas sumiram depois de uns vinte dias…

R – Esse no lado da fronte demorou bem mais.

P – O doutor Olavo Fontes constatou que ele ficou com propensão para o sono.

R – Ficou com sonolência. Principalmente nos dias em que estava nervoso. Ele sentia que a cabeça dele ficava mais pesada.

P – Ele dormia muito?

R – Dormia bastante. Ele foi perdendo a disposição para o trabalho. Ele trabalhava com o trator, o caminhão, pegava uma carga, levava para Uberaba, vendia, e com o lucro obtido comprava sal, açúcar, querosene, essas coisas porque não havia energia elétrica por aqui, e o que sobrava doava para os pobres.

P – Ele sonhava ou tinha pesadelos com esses homens e essa mulher da nave?

R – Pesadelos ele teve por muito tempo. Gemia muito dormindo. Às vezes falava, mas era uma fala mastigada que nós não entendíamos.

P – Fontes constatou também que ele teve de desistir de um curso que fazia por não conseguir mais se concentrar. Ele tinha muita fadiga e se cansava com qualquer atividade. Confere?

R – Sim. Depois que ele foi para Ituiutaba, não conseguia mais se concentrar. Ele só voltou a estudar depois que foi para Formosa.

P – Sentia falta de apetite às vezes?

R – Às vezes. Não era qualquer coisa que ele comia, parecia que tinha nojo das coisas.

P – Quando criança ele sofreu de alguma doença grave?

R – Não. Afora problemas respiratórios e de coração, a única doença grave que ele teve quando criança foi crupe (obstrução laríngea aguda devida a processo inflamatório, corpo estranho ou neoplasma, que pode levar à sufocação). Mas foi tratado a tempo, não precisou fazer operação na garganta não.

P – A senhora chegou a constatar alguma outra sequela advinda do sequestro?

R – Alguns dias depois estouraram umas feridas, tipo uma crosta. Aquilo por baixo era meloso e criava uma casca grossa por cima.

P – Isso no corpo todo?

R – Nas pernas e em várias áreas do corpo dele. Daí que ele foi ficando muito doente, muito fraco, e no final de 1957 foi internado no Hospital de Uberaba.

P – O que mais a senhora poderia acrescentar a respeito do estado de saúde do Antonio?

R – Ele procurou um médico de Campina Verde, e de lá o encaminharam para o Hospital de Uberaba, onde ficou internado para desintoxicar o fígado. Ele passou a sentir uma forte dor de cabeça na região da fronte. Durante essas dores, o rosto dele contraía tanto que parecia um velho de 80 anos desidratado. Ele teve um problema no cérebro e daí o levaram  para São Paulo, mas os médicos de lá se recusaram a operá-lo. Aos poucos seus membros foram paralisando e atrofiando. A última vez em que o visitei, cerca de um ano antes de falecer, ele já não conseguia mais falar e só andava cambaleando. Para se comunicar, ele escrevia as coisas num papel. Ele se sentava, levantava, um já vinha, pegava o braço dele, senão saía derrubando tudo o que estava na frente.

P – Quais foram os médicos que trataram dele?

R – De Frutal, o doutor Eduardo, que trabalhou aqui na cidade e que aliás gosta muito de ler matérias sobre ufologia. De Cardoso, o doutor Everaldo Rico Ferreira, já falecido, que nasceu em Pernambuco e estudou em São Paulo. Ele era muito amigo de Roberto Fioravante, de São Paulo. O Fioravante enviava muitos recortes de revistas e jornais com notícias de aparições de discos voadores para ele. Em Uberaba, o doutor José Bilarinho, que tratou do Antonio quando o estado de saúde dele se agravou e teve de passar trinta dias internado no Hospital São Lucas.

P – O que esses médicos diziam?

R – Todos diziam a mesma coisa, que aqueles problemas de saúde com o Antonio talvez se devessem ao líquido que os seres aplicaram nele.

P – A morte dele então teria sido em decorrência das sequelas do contato.

R – Segundo os médicos com os quais conversamos, sim, que talvez pudesse ter sido o líquido que aplicaram nele.

P – O Antonio continuou confirmando aquela história até o fim da vida?

R – Continuou confirmando, até que ele foi ficando muito doente, foi internado no Hospital São Judas Tadeu em Uberaba, passou uma temporada muito mal, e depois foi piorando, correndo até risco de vida. Quando teve uma melhora, voltou a trabalhar, se casou, morou por uns tempos aqui na região mesmo, depois morou em Fernandópolis, daí foi para Formosa, estudou, mas sempre com uma dor de cabeça terrível que quase o enlouquecia. Seus membros foram paralisando e ele foi fazer exames em São Paulo, onde diagnosticaram que era aneurisma cerebral.

Odércia Villas Boas ladeada pelos pesquisadores e entrevistadores Cláudio Tsuyoshi Suenaga e Pablo Villarrubia Mauso.

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