Os 90 anos de O Cruzeiro, a revista que inaugurou a Era Moderna dos Discos Voadores no Brasil

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

A revista semanal de maior circulação e de maior sucesso em todos os tempos no Brasil, O Cruzeiro, está completando 90 anos. Primeira a abranger todo o território nacional, sua tiragem atingia espantosos 750 mil exemplares num país que contava com cerca de um terço da população do final do século XX – pelos dados do senso de 1950, 51.944.397 habitantes. O estado da Guanabara, então Distrito Federal, contava com pouco mais de dois milhões de habitantes.[1]

O Cruzeiro foi criado em 1928 por Carlos Malheiro Dias [também grafado como Carlos Dias e como Carlos Malheiros Dias (1875-1941)], passando posteriormente a integrar com A Cigarra, o império de comunicações Diários Associados, fundado em 1924 pelo jornalista e megaempresário Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, mais como conhecido como Assis Chateaubriand ou Chatô (1892-1968) – o “Cidadão Kane” brasileiro –, ganhando circulação nacional, no que foi pioneira, e chegando a possuir uma edição internacional, em língua espanhola, que circulava até no sul dos Estados Unidos.

O primeiro número de O Cruzeiro, publicado no dia 10 de novembro, trouxe inovações gráficas e editoriais, como a indicação do tempo que seria gasto pelo leitor para a leitura de cada texto. À época surgiam os primeiros conglomerados da imprensa nacional e o jornalismo tinha um caráter acentuadamente sensacionalista, para agradar as massas.

Capa do primeiro número de O Cruzeiro, publicado em 10 de novembro de 1928.

Em outubro de 1943, a revista passou a publicar as histórias do Amigo da Onça, criadas pelo cartunista Péricles de Andrade Maranhão (1924-1961), personagem que se transformaria em um dos mais populares, representativos e emblemáticos do país, por encarnar a figura do malandro carioca que não perdoava nada com sua mordacidade e cinismo e fazia críticas ácidas a muitas situações como o casamento, a política, o exército e a hipocrisia social.

O grupo Diários Associados chegou a reunir 90 empresas – incluindo 9 emissoras de televisão e 28 emissoras de rádio.

Na década de 50, a empresa se transformou no que se transformaria a Rede Globo – do jornalista e megaempresário Roberto Pisani Marinho (1904-2003) – no início dos anos 70, faturando bilhões. Assim, o apoio desse órgão de comunicação era muito importante para os governos do período.

Com o Regime Militar e a ascensão de outros conglomerados, como a já citada Organizações Globo, os Diários Associados começaram a perder terreno. O desuso de suas fórmulas e o surgimento de novas publicações mais modernas e ousadas como Manchete e Fatos & Fotos, também contribuíram para o fim da revista em julho de 1975. A última edição trouxe na capa o jogador Pelé, então jogador do Cosmos, vestido de Tio Sam.

Em 1980, o presidente João Batista de Oliveira Figueiredo (1918-1999) decretou a liquidação de 7 emissoras de televisão. Em 1997, ainda era o sexto maior grupo na área de comunicação, reunindo 6 emissoras de televisão, 13 de rádio e 12 jornais, entre eles o Correio Braziliense, o Estado de Minas e o Diário de Pernambuco.

A equipe de jornalistas, repórteres, ilustradores e humoristas do Cruzeiro criou vários mitos naqueles tempos; alguns não foram longe, mas muitos permanecem até hoje.

As fotos do disco voador obtidas na Barra da Tijuca, zona sul do Rio de Janeiro, pelo fotógrafo Ed Keffel e pelo repórter João Martins, por exemplo, são o marco inicial da história dos OVNIs no Brasil. Obviamente não foi o primeiro caso ufológico ocorrido nestas terras, de seculares manifestações, mas foi o que teve o mérito de despertar, pelas páginas da revista mais badalada e de maior circulação à época, O Cruzeiro, a atenção da população e dos pesquisadores para o enigma que até hoje continua a desafiar a humanidade.

O Cruzeiro, 20 de novembro de 1954. Dos Arquivos de Cláudio Suenaga.

A partir daquele 7 de maio de 1952, os casos, muitos dos quais viriam a se tornar “clássicos” mundiais, começaram a se avolumar em escala geométrica, em quantidade apenas menor que a dos Estados Unidos. E de lá para cá, os ufólogos brasileiros não têm se cansando de perguntar e investigar quem ou o que são eles, de onde vêm, como funcionam suas máquinas e quais são suas intenções.

Diante de algo tão inédito, fascinante e misterioso, os “crentes” da década de 50 sentiram a necessidade de convencer os que relutavam em aceitar a existência dos discos voadores, embora estivessem muito distantes do mais pueril entendimento. Para tanto, faltava uma “imagem” primordial. Dois repórteres foram responsáveis diretos por isso – cumpre lembrar que nos Estados Unidos os repórteres desempenharam um papel indireto, mas preponderante, ao divulgarem o relato de Arnold –, sem que previssem a dimensão histórica que o episódio tomaria.

David Nasser
Jean Manzon

As fotos do disco voador na Barra da Tijuca congregaram os pioneiros de uma “ciência” embrionária, predestinada a enraizar-se no seio da sociedade. Segundo consta, a armação foi ideia da dupla, igualmente célebre, David Nasser [repórter (1917-1980)] e Jean Manzon [fotógrafo francês (1915-1990)], que costumavam inventar reportagens fictícias quando faltava assunto e, por extensão, para aumentar as vendas. E como quase todos possuíam uma câmera, o volume de fotos não parou de crescer. A sofisticação dos equipamentos favoreceu as trucagens. Só umas poucos fotos se salvaram, e dentre elas certamente não estão às tiradas na Barra da Tijuca.

Millôr Fernandes por José Medeiros / Acervo IMS

O escritor, jornalista, cronista, chargista, desenhista, poeta e teatrólogo Millôr Fernandes (1923-2012), no programa Cara a Cara, da Rede Bandeirantes de Televisão, levado ao ar em 18 de outubro de 1994, ao ser perguntado pela jornalista Marília Gabriela qual o maior “furo” de reportagem de que tinha conhecimento, respondeu que era o “disco voador” da Barra da Tijuca. De acordo com Fernandes – que ao ensejo trabalhava na redação de O Cruzeiro –, Ed Keffel era “técnico fotográfico” e portanto perito em trucagens fotográficas, no que costumava atirar calotas de pneus para o ar. Com as fotos falsas do disco, obteve um “furo” sensacional de reportagem.

Faz-se mister acrescentar que João Martins não ficava atrás nem de seu parceiro Keffel nem de seus colegas Nasser-Manzon quando se tratava de urdir notícias para aumentar as vendas de O Cruzeiro. Basta lembrar que foi ele quem, em julho de 1954, inventou a célebre e até hoje exaustivamente repetida lenda de que a nossa representante no concurso de Miss Universo daquele ano, a fervilhante e encantadora baiana de cabelos dourados, olhos azuis e beleza estonteante Maria Martha Hacker Rocha (1936-), teria perdido o título para a norte-americana Miriam Stevenson por causa de “duas polegadas” a mais nos quadris.

Diretor de redação de O Cruzeiro por mais de quarenta anos, o médico e jornalista Accioly Netto revelou em seu livro O Império do Papel: Os Bastidores de O Cruzeiro, que tudo foi combinado entre Martins e os demais jornalistas brasileiros que estavam em Long Beach a fim de consolar o orgulho nacional, abalado por um novo segundo lugar, essa sina que parecia nos perseguir desde a perda da Copa do Mundo de 1950 para o Uruguai em pleno Maracanã. Tal como naquela vez, a vitória do Brasil era dada como certa.[2] Apesar de ter admitido que nunca soube se “essa história de duas polegadas teria sido verdade mesmo”, a própria Martha autorizou a versão, conforme consta de sua autobiografia.[3] O segundo lugar, consagrado com a lenda das “duas polegadas” – se outros fatores, como sociais e políticos, estavam por trás do boicote ao Brasil no concurso, pouco importava –, deu a Martha Rocha a fama absoluta, transformando-a num mito, uma referência nacional de beleza.

O Cruzeiro, 16 de outubro de 1954, p.110-111. Dos Arquivos de Cláudio Suenaga.

O Cruzeiro, 30 de outubro de 1954, p.6-7. Dos Arquivos de Cláudio Suenaga.

Notas:

[1] Instituto Brasileiro de Estatística, Departamento de Censos.

[2] Netto, Accioly. O Império do Papel: Os Bastidores de O Cruzeiro, Porto Alegre, Sulina, 1998.

[3] Pessoa, Ida. Martha Rocha: Uma Autobiografia, Rio de Janeiro, Objetiva, 1999.

Minhas edições encadernadas de O Cruzeiro, de setembro a dezembro de 1954.