O grito de Munch, a perturbada arte moderna e o arquétipo alienígena

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Edvard Munch por Anders Beer Wilse, 1921.

Expoente do simbolismo e precursor do expressionismo, a vida familiar do pintor e artista gráfico norueguês Edvard Munch (1863-1944) foi claustrofóbica e opressiva. Doente desde criança, passou quase toda a juventude confinado no apartamento junto com seu pai, cujo fervor religioso, que aumentara com a morte da esposa, levava-o à beira da insanidade.

Por horas seguidas, ele andava de um lado a outro de seu quarto, rezando. Munch escreveria mais tarde que “Doença, loucura e morte foram os anjos negros que ficavam de vigília sobre meu berço e me acompanharam pela vida afora.”[1]

Mathilde “Tulla” Larsen

Inicialmente influenciado pelos impressionistas, as viagens a Paris levaram-no a aproximar-se dos simbolistas. Tornou-se conhecido em 1892, quando sua obra foi exposta em Berlim, causando muito escândalo e polêmica. Fixando-se na Alemanha, iniciou o Friso da Vida, um conjunto de obras que expressa sua visão de mundo, marcada pelo impacto do amor, da morte, da sexualidade e da solidão.

O tiro que lhe foi desfechado pela amante Mathilde “Tulla” Larsen (1869-1942), mais o excesso de álcool, o cansaço e a depressão, abalaram-no. Munch começou a alimentar sentimentos de perseguição, agravados pela crítica negativa que seus contemporâneos faziam à sua arte. Em 1908, depois de beber três dias seguidos, sofreu um colapso nervoso e foi internado na clínica de Daniel Jacobson, em Copenhague, onde permaneceu oito meses em tratamento psicoterápico. Munch reconheceu que devia sua arte atormentada à neurose que o consumia: “Não me livraria de minha doença”, escreveu ele, “pois devo a ela muito de minha arte”. Chegou a um ponto, contudo, que o obrigou a abandonar as imagens obsessivas do passado. Dali em diante resolveu ater-se apenas ao que via, obliterando as emoções. Voltou à Noruega, dedicando seus últimos anos a pintar murais públicos.[2]

O bizarro emprego da cor e os motivos escolhidos visavam materializar nas telas os sofrimentos gerados pela solidão, angústia, depressão e desespero.[3]

Em O Grito,[4] de 1893, sua obra mais célebre, Munch reproduziu inconscientemente o arquétipo do humanoide extraterrestre da segunda metade do século XX: criatura pequena, delgada, de cabeça grande e olhos em forma de bulbo, sem outros traços faciais perceptíveis, vestindo uma peça inteiriça, de tecido cinzento, sem botões ou zíperes. Milhares de relatos sobre contatos imediatos de terceiro grau provenientes de todas as partes do mundo, mencionariam alienígenas com essas características.

“Certa noite”, escreveu Munch, “eu caminhava por uma via, a cidade de um lado e o fiorde embaixo. Sentia-me cansado, doente… O Sol se punha e as nuvens tornavam-se vermelho-sangue. Senti um grito passar pela natureza; pareceu-me ter ouvido o grito. Pintei esse quadro, pintei as nuvens como sangue real. A cor uivava.”[5]

O Sol,  executado entre 1909 e 1911 – parte dos imensos murais de Munch no Salão Nobre da Universidade de Oslo, que foram o maior encargo público de sua carreira –, representa as poderosas forças da natureza. O Sol é retratado como a fonte da vida, seus raios iluminando o mar e a paisagem rochosa do fiorde de Kragero.[6]

Notas

[1] Os Grandes Artistas: Modernos (vol. II), São Paulo, Nova Cultural, 1989, p.146.

[2] Ibid., p. 151.

[3] Ibid., p. 155.

[4] Pertencente a Galeria Nacional de Oslo. Pude contemplar esse quadro quando esteve exposto no Museu de Arte de São Paulo (MASP) no período de 8 de agosto a 8 de setembro de 1991.

[5] Os Grandes Artistas: Modernos (vol. II), São Paulo, Nova Cultural, 1989, p.160.

[6] Ibid., p.164-165.

 

Galeria

Auto Retrato com Cigarro Aceso, 1895.
A versão mais conhecida de O Grito, pintada em 1893 em óleo e pastel sobre cartão. Exposta na Galeria Nacional de Oslo.
O Sol, 1909.
A Dança da Vida, 1900.
Dança na Praia, 1904. Museu de Munch, Oslo.
Abraço na Praia, 1904.
Ansiedade, 1894.