O futuro a Star Trek pertence: O que esperar de Discovery

Por Claudio Tsuyoshi Suenaga

O Olho de Hórus sobre a pirâmide invertida. É Illuminati, fazer o quê?

Acabei de assistir aos seis primeiros episódios de Star Trek: Discovery, a nova franquia de Jornada que estreou no último 24 de setembro na Netflix e na CBS Television Studios. STD não segue os reboots de Abrams e se situa em 2256 (data estelar 1207.3), 10 anos antes do universo clássico, a série original de Kirk, Spock e cia., seguindo a tendência de explorar e reatualizar o passado consagrado.

Os dois primeiros são um primor, perfazem um longa, visual acurado, produção caprichadíssima. Só a presença da atriz malaia Michelle Yeoh (a bond girl de 007 O Amanhã Nunca Morre e que estrelou O Tigre e o Dragão, de Ang Lee, por curiosidade casada com Jean Todt, o presidente da FIA), perfeita como a capitã Philippa Georgiu, da nave Shenzhou (“Embarcação Divina”, nome da nave chinesa que em 15 de outubro de 2003 colocou em órbita o primeiro chinês, Yang Liwei, no espaço), já vale. Mas ela morre (spoiler) logo no segundo episódio ao lutar com o líder klingon que se autoproclama o novo Kahless, o messias de seu povo.

Michelle Yeoh como a capitã Philippa Georgiu e Sonequa Martin-Green como a primeira-oficial Michael Burnham

Quem assume a frente é a ótima Sonequa Martin-Green, a Sasha Williams de The Walking Dead, que faz uma órfã humana (seus pais foram mortos por klingons!) criada e educada por vulcanos, ninguém menos do que os pais de Spock, Sarek e Amanda! Promovida a primeira-oficial, Michael Burnham cai em desgraça ao ver seu plano para capturar o líder dos klingons T’Kuvma fracassar e ainda ser culpada pela morte das 8.186 pessoas na batalha – incluindo a sua capitã, amiga e mentora por 7 anos – que inicia a guerra aberta e total com os imperialistas e belicosos de Kronos.

Chris Obi como T’Kuvma

Com uma premissa e um início tão entusiasmantes, a ponto de muitos trekkers saudarem a série como a melhor desde a clássica (lembrando que desde 2005, com o fracasso da Star Trek: Enterprise, a franquia estava fora da TV), fiquei um tanto frustrado com os episódios seguintes por não ver tantas referências e elementos familiares quanto gostaria – se bem que a presença de um tribble (pingo) sobre a mesa do Capítão Gabriel Lorca (Jason Isaacs) e a aparição de Harcourt Fenton “Harry” Mudd (Rainn Wilson) até que compensaram –, e explico os motivos.

“Context Is for Kings” (Episode #103) — Um tribble (pingo)! sobre a mesa do capitão Gabriel Lorca (Jason Isaacs), ao lado da primeira oficial Michael Burnham (Sonequa Martin-Green). Apenas para lembrar, os klingons detestam pingos e são alérgicos a eles! Será que os pingos acabarão sendo usados como armas biológicas contra os klingons? [Photo Cr: Jan Thijs/CBS 2017 CBS Interactive. All Rights Reserved]
Rainn Wilson como Harcourt Fenton “Harry” Mudd

Ora, a série se passa no tempo do capitão Christopher Pike, e o que esperava era mais fidelidade a essa linha do tempo, mas, como sempre, para agradar a juventude atual que, presumivelmente (será?) só se liga em modernetes, a timeline foi rompida com a inserção de muitos elementos que não existiam originalmente, como projeções holográficas, telas de toque, etc. Sim, pode-se alegar, já havia a sugestão da existência disso tudo na série clássica, e o uso de teletransportes, sintetizadores e replicadores de matéria, cartões de memória, armas phaser e comunicadores antigos (Georgiu usa um quase igual aos originais, com aquela tampinha que se abre, e que serviram de modelo e inspiração para o primeiro celular da Motorola), mantém a fidelidade.

Por outro lado, o design das naves e do interior delas, embora até façam força para parecerem como as da época pré-Kirk (falo dos filmes, principalmente), são indubitavelmente contemporâneos e dão a impressão de serem mais avançados, o mesmo tipo de desconforto visual que sentimos ao ver os filmes de Star Wars que se passam antes do episódio IV. A seção disco da nave Discovery, por exemplo, gira em torno de seu eixo, e os uniformes usados estão mais para uma época pós Nova Geração, sem falar que a nave, graças a um motor experimental movido a esporos de cogumelos (sic!), é capaz de saltar instantaneamente de uma região a outra da galáxia! Como foi explicado pelo oficial de ciência especializado em astromicologia Paul Stamet (Anthony Rapp), “no nível quântico, não há diferença entre biologia e física. Os esporos são os progenitores da panspermia. São os pilares da energia em todo o universo. Física e biologia? Não. Física como biologia.”

Minha maior frustração foi não ver tantas citações e explicações quanto gostaria, e a inserção, desnecessária a meu ver, de tantos elementos novos e discrepantes, em nada ou pouco acrescenta. Sim, claro, ainda é cedo e a série está só no início.

Espero que os próximos episódios, num total de 15 até o momento (já foi confirmada uma segunda temporada para 2018), façam todas as pontes e ligações que, estou certo, os antigos fãs da série gostariam de ver.

Minha maior expectativa é: será que eles vão explicar de vez a mudança na fisiologia e anatomia dos klingons (ver anexo abaixo que trata especialmente dessa questão, que talvez venha a ser um dos pontos-chave), que na série clássica são quase iguais aos humanos, em referência aos cossacos e aos guerreiros mongóis?

Michael Ansara como o comandante Kang no episódio “Day of the Dove”, o sétimo do terceiro e último ano da série clássica, levado ao ar em 1º de novembro de 1968

De qualquer forma, STD trouxe de volta aquilo que foi deixado de lado nos filmes de Abrams: a metáfora política, pois o conflito Federação x Klingons é o retrato do atual momento EUA x Estado Islâmico e Coreia do Norte.

Quanto ao futuro pertencer a ST, explico: ST é a humanidade que deu certo, um futuro sem fome, doenças, dinheiro, disparidades sociais, preconceitos, um futuro brilhante em que o ser humano se dedica a busca do conhecimento e da verdade, ao seu aperfeiçoamento pessoal, em que a tecnologia é só um meio para chegar aos melhores fins. Um futuro muito humano em convivência honrosa e dignificante com infinitas possibilidades e diversidades, um futuro que, infelizmente, nos parece cada vez mais distante nos tempos atuais.

Ou nos tornamos como em ST ou sucumbiremos aos pesadelos de Blade Runner.

Ponte da USS Shenzhou
Michelle Yeoh como a capitã Philippa Georgiou
Sonequa Martin-Green como a primeira-oficial Michael Burnham
Jason Isaacs como o capitão Gabriel Lorca
Doug Jones como o tenente e depois primeiro oficial Saru
James Frain como o embaixador Sarek
Como ficaria Michelle Yeoh na série clássica (montagem)
Philippa Georgiu em seu uniforme azul e dourado

Extra: A mudança fisionômica dos Klingons

Pelo Capitão Avelino Pereira, da Divisão de Ciência da Federação da Frota Estelar de São Paulo (em 11 de setembro de 1998)

Sempre pensei que tinha muito clara a questão da alteração da aparência Klingon. Eles se alteraram para poder se infiltrar na Federação mais facilmente…

No entanto, ao me deparar com uma palestra a respeito desse assunto, pretensiosamente engraçada ,  totalmente fútil e até mesmo racista quanto ao povo cubano (o qual além de merecer todo nosso respeito, possui uma etnia praticamente idêntica a nossa), resolvi pesquisar um pouco mais o assunto donde concluí que a matéria é mais complexa do que eu pensava!

Apresento aqui algumas ideias minhas e do Sr. McReynolds, do qual  tomei a liberdade de traduzir suas linhas.

Desta forma, todos os créditos são do autor do texto, o Sr. McReynolds, o qual se baseou no livro Star Trek Science Logs (1998), de Andre Bormanis, consultor científico das séries Deep Space Nine e Voyager.

Notas:

  • o termo crânio rugoso foi uma tradução livre minha para bumpy-heads
  • o termo crânio liso foi uma tradução livre minha para smooth-heads
  • Kahless foi um homem que unificou os Klingons, formando o Império. Após várias guerras (os klingons eram divididos em várias tribos e grupos diferentes), Kahless, “O Inesquecível”,  se tornou o primeiro Imperador de um povo unificado e forte.

Introdução

Desde que Star Trek: The Motion Picture foi lançado em 1979, fãs de Star Trek têm se perguntado: “o que aconteceu com os klingons?” Durante o seriado original, os klingons apareciam como humanoides com uma pele escura, mas em The Motion Picture, ele possuem uma crista de coluna vertebral no topo de sua cabeça meio calva, encontrando-se com a ponta do nariz, com apenas uma franja do cabelo na parte traseira do crânio. Imediatamente fãs começaram a enviar perguntas para os produtores. A única resposta que eles tiveram foi um comentário de Gene Roddenberry afirmando que os klingons nunca tinham mudado, mas os interesses orçamentários sim.

Infelizmente, isto não foi suficiente para os fãs. Pessoas começaram a fabricar suas próprias teorias e conceitos, que iam desde ideias com os tribbles até manipulação genética, e quase tudo mais! Uma das teorias que mais teve efeito foi proposta pela FASA (Freedonian Air and Space Administration), a qual tinha adquirido o direito de criar dados trekkers para seu RPG. Já outros não deram atenção ao problema e se contentaram com as palavras de Gene.

No entanto, a indiferença se tornou impossível em 4 de novembro de 1996, quando “Trials and Tribble-ations”, o episódio 6 do quinto ano de Deep Space Nine, finalmente reconheceu as diferenças. A tripulação da DS9 viajou de volta no tempo para o episódio 13 do segundo ano da série clássica “The Trouble with Tribbles” (que foi ao ar em 29 de dezembro de 1967), e enquanto estavam em um bar, se surpreenderam com o fato dos humanoides de pele escura que estavam ao redor serem klingons. Todos os olhos se voltaram para Worf, que por sua vez respondeu simplesmente: “Nós não discutimos isso com quem não é klingon” (outsiders).

A evidência

Há muitos pontos que temos que considerar nesta questão. Primeiramente, existe o faro de que Klingons como Kor, Koloth e Kang apareceram em TOS com o crânio liso e em DS9 com o crânio rugoso. Existe uma razão para isto e deve ter ocorrido antes de 2293. Em “Flashback” (episódio 2 do terceiro ano de Voyager, que foi ao ar em 11 de setembro de 1996), podemos ver Kang em 2293 e ele possui uma testa rugosa. Portanto algo ocorreu a estes três klingons entre 2269 e 2293 que alterou suas aparências.

Kahless em The Savage Curtain

Em segundo lugar, existe Kahless : Enquanto a imagem de Kahless que é vista em “The Savage Curtain” (22º episódio do terceiro ano de TOS, que foi ao ar em 7 de março de 1969) é facilmente explicada como sendo tirada da mente de Kirk, existiram outras aparições desta figura histórica em ST.

Worf possuía uma estátua de Kahless lutando com seu irmão Morath e ambas as figuras possuem crânios rugosos, tendo a luta ocorrido a 1.500 anos atrás.

Kahless, mais tarde, foi clonado e nomeado imperador, e este clone possuía um belo conjunto de sulcos.

Por fim, existe o sempre esquecido fato de que os klingons vistos em The Motion Picture tinham cristas vertebrais no centro de seus crânios lisos, enquanto os klingons que apareceram mais tarde possuíram designs muito variados cobrindo suas testas e, de fato, seus narizes também.

Soluções possíveis

Existe um número muito grande de ideias possíveis, mas a maior parte são variações sobre algumas teorias básicas. A primeira ideia foi a de um vírus. Algumas versões desta ideia tem os tribbles como vetores de um vírus o qual provocaria mudanças físicas e genéticas, as quais, portanto, se propagariam nas próximas gerações. Esta teoria tem algum suporte no fato que os tribbles foram uma ameaça erradicada pelos klingons no final do século 23, época na qual se formaram as cristas vertebrais.

O Capitão Benjamin Sisko (Avery Brooks) e a conselheira Jadzia Dax (Terry Farrell) na ponte da Enterprise da série clássica em companhia de pingos no episódio “Trials and Tribble-ations”

Uma outra variação, ainda na teoria do vírus, é que o tratamento para deixar um klingon menos suscetível a um vírus, tinha o efeito colateral de, por alteração genética, mudar o formato do crânio de rugoso para liso, e quando a cura foi definitivamente descoberta, a característica de rugosidade pela crista reemergiu.

Embora não relacionado a um vírus, uma ideia similar foi que a explosão de Praxis causou a mutação, mas isso não explicaria crânios rugosos 20 anos antes do incidente.

Outra explicação comum é, na realidade, muito simples: Existem duas etnias de klingons. Esta teoria seria capaz de explicar muitas coisas e poderia ser até a ideal, no entanto o escritor e produtor de DS9 Robert Wolfe tem declarado abertamente que a existência de duas etnias klingons é uma ideia totalmente errada.

Um terceiro tema de discussão gira em torno da ideia dos klingons terem se alterado durante a metade do século 23 para se parecerem mais com os humanos, tipicamente com o propósito de infiltração e espionagem, ou ainda para tornar mais fácil o relacionamento com humanoides do tipo terráqueo. A alteração poderia ter sido cirúrgica ou genética, mas sempre com os mesmos resultados: alisar o crânio, deixando os klingons não alterados na proteção da privacidade do Império.

Mais tarde, as alteração perderam o sentido e a crista foi mostrada para quem quisesse ver. Mais uma vez essa teoria vai de acordo com os fatos, mas, no entanto, novamente, Robert Wolfe se põe contra dizendo que esta ideia é “um pouco menos errada” que a que colocamos anteriormente. Desta forma, vamos ao que interessa:

A palavra oficial!

Nós finalmente temos uma explicação conjectural de uma fonte oficial de ST: Andre Bormanis. Bormanis trabalha como consultor de ciências tanto para DS9 quanto para Voyager, numa posição similar àquela ocupada por Rick Sternbach e Mike Okuda.

Bormanis recentemente lançou o livro Star Trek Science Logs, o qual discorre sobre o grande ideal científico apresentado em ST. Como um membro oficial da equipe de ST, o livro de Andre Bormanis pode ser considerado no mesmo patamar dos trabalhos de Rick Sternbach e Mike Okuda nos livros Technical Manual, Chronology e Encyclopedia. Em Science Logs, na parte de xenobiologia, Bornamis diz o seguinte sobre os klingons: “Eu gostaria de oferecer a engenharia genética como a melhor teoria: Os klingons reconheceram, em alguma parte do final do século 23, que uma classe de guerreiros melhorados pela engenharia genética seriam mais efetivos em batalhas, e então produziram e criaram uma classe de guerreiros superior.”

E é isto. Este é nosso único lampejo de explicação oficial sobre a mudança na aparência dos klingons.

Infelizmente, esta teoria não foi mais elaborada no restante do livro Science Logs, e ela falha em explicar porque Kor, Koloth e Kang tem crânios lisos durante TOS e crânios rugosos em DS9. Falha, também em explicar como Kahless possui um crânio rugoso 1.500 anos antes da engenharia genética tomar lugar.

Mas é claro que estas falhas não superam a teoria em si, como também não a deprecia em sua validade.

Uma história conjectural sobre a aparência klingon

Usarei a “liberdade artística” para expor a explanações abaixo. Assim, o que segue, não deve ser tomado como oficial ou autorizado, mas esteja claro que tudo é baseado tanto em evidências dos seriados e filmes, quanto em afirmações de membros da produção e do roteiro de ST, os quais são Robert Wolfe e Andre Bormanis. Posto isso, aqui vamos nós…

Originalmente, a raça klingon era muito parecida com os humanos. Existia uma diversidade de tons de pele e cabelo (muito embora o predominante fosse o escuro), bem como uma variedade de subculturas.

Em torno dos 35 ou 40 anos, klingons começam a desenvolver uma série de cristas ósseas em suas testas. As cristas eram consideradas como sinais de honra e sabedoria, pois somente após 50 anos as cristas se desenvolviam completamente.

No começo do século 23, os líderes do Império faziam experimentos com engenharia genética. Seu objetivo final era o desenvolvimento de um “super soldado”, o qual, basicamente, formava uma Casta de Guerreiros. Os guerreiros eram mais fortes e mais habilidosos que seus criadores e entre outras distinções, eram os únicos a nascerem com suas “cristas de sabedoria” já desenvolvidas.

Infelizmente, no seu esforço de criar uma máquina de guerra klingon, os criadores também dotaram os guerreiros com muito pouco sentimento de compaixão e com um substancial apetite sexual. O resultado foi o genocídio. Literalmente, bilhões de Klingons “naturais” foram massacrados no final dos anos 2260. Guerreiros modificados procriaram com a raça original, produzindo uma geração miscigenada. O Império mergulhou no caos durante os anos de 2270.

Finalmente, nos anos 2280, os dois grupos se reconciliaram. Seu ponto comum era o trabalho de Kahless, e através de sua disciplina, Dahar Master, o Caminho da Honra salvou a raça klingon da extinção.

No entanto, o dano já havia sido feito. Praticamente toda a raça original tinha morrido e muitos dos que sobreviveram eram mulheres carregando crianças miscigenadas. Com um novo código de honra firmado em 2300, os guerreiros perceberam quão desonrados tinham sido atacando seus criadores, mas seus próprio sangue e carne puseram um ponto final no conflito.

Desta forma existe um grande sentimento de embaraço e rejeição a respeito deste assunto.

Conclusão

Antes nós a tivéssemos. O mistério da aparência klingon foi oficialmente explicada, embora alguns não a aceitem ou não se deem com satisfeitos.

O único mistério que permanece fica por conta dos detalhes, detalhes estes que eu tenho tentado elaborar coerentemente.