O fiasco de 2012: Nibiru, Hercólubus e Profecias Maias

2012 passou e, mais uma vez, assistimos ao fiasco de previsões apocalípticas. O tempo passa, e mesmo com todo o progresso científico e tecnológico a humanidade continua atrelada às mais ingênuas superstições.

Texto de Cláudio Suenaga, extraído de seu livro inédito DISCOS VOADORES & SOCIEDADES SECRETAS – HISTÓRIA DA ILUSÃO ILLUMINATI PARA O CONTROLE TOTAL DA HUMANIDADE

Nos primeiros anos do século XXI, praticamente não havia quem já não tivesse lido ou ouvido em algum lugar a predição catastrófica de que o gigantesco planeta Hercólubus aproximava-se da Terra, devendo trazer consigo, quando de seu perigeu (o ponto da órbita no qual esse astro se encontrará mais próximo do centro do nosso planeta) no final de 2012, o caos e a destruição, assim como já o teria feito em suas passagens periódicas anteriores. O eixo da Terra mudaria. A Lua se extraviaria. Os mares subiriam. Terremotos e maremotos se desencadeariam. Vulcões adormecidos acordariam. A humanidade seria quase que totalmente extinta. Em tais dias, Jesus Cristo voltaria e Maitreya viria. A Frota Estelar do Comando Ashtar iniciaria a “Operação Resgate”. Logo após o respectivo resgate, ainda nas naves, os agraciados da Frota Estelar seriam beneficiados (se solicitassem) com seus clones, os quais incorporariam, tomando posse definitiva dos novos “biocorpos”. Os indivíduos não resgatáveis desencarnariam, e sua encarnação seguinte seria em Hercólubus, para onde também iriam os demônios, espectros e vampiros. A Terra ficaria desabitada (“Período de Recuperação Ecológica”) durante séculos. A “Nova Humanidade” seria formada por descendentes de ETs e terráqueos aprovados pelo Comando Ashtar e pela Grande Fraternidade Branca.

Nibiru -Sistema Solar TILAR

Hercólubus, conforme detectado e perscrutado por sensitivos, é um astro avermelhado, gasoso e primitivo, com muitos pântanos, vulcões, furacões, terremotos, gases tóxicos e áreas radioativas, habitado por monstros mutantes, feras enormes, hordas de bárbaros, fantasmas e os já mencionados demônios, espectros e vampiros. Lá, como aqui, os demônios controlam as mentes humanas. Da superfície de Hercólubus não se pode ver as estrelas, devido à sua espessa e densa atmosfera. Considerando seu notável achatamento, alguns calcularam seu diâmetro equatorial em 720 mil quilômetros, isto é, cinco vezes maior do que Júpiter (que por sua vez tem 1/10 da largura do Sol, diâmetro 11 vezes superior o da Terra e uma massa 318 vezes maior), ou seja, a metade do tamanho do Sol, o que corresponde ao de uma estrela anã superdensa. Se fosse mais maciço, teria reações termonucleares e começariam a brilhar com luz própria. Ele giraria ao redor de uma estrela normal escura chamada Tyla, perfazendo uma órbita dupla em forma de 8 (“amarra gravitacional”).

PLANETA X

A astronomia, como é sabido, tem buscado o misterioso “Planeta X”, pré-descoberto em 1846 pelo matemático e astrônomo francês Urbain Jean Joseph Le Verrier (1811-1877), que pesquisava as “anomalias orbitais” de Netuno. Em 1983, o Satélite Astronômico Infravermelho [Infrared Astronomical Satellite (IRAS)] observou um “enorme objeto” nas imediações do sistema solar, mais precisamente no Hemisfério Celeste Sul e na direção de Órion. Em 8 de janeiro de 2005, o astrônomo norte-americano Michael E. Brown (1965-) professor de astronomia planetária e chefe do Departamento de Astronomia do Instituto de Tecnologia da Califórnia [California Institute of Tecnology (Caltech)], em Pasadena, descobriu o “10º planeta do sistema solar” a cerca de 15 bilhões de quilômetros da Terra. Batizado de 2003-UB313, era o corpo celeste mais distante já descoberto gravitando em torno do Sol, estando situado a 97 UA (Unidades Astronômicas, sendo que cada UA equivale à distância da Terra ao Sol, ou seja, cerca de 150 milhões de quilômetros), ou 14,4 bilhões de quilômetros da Terra. Maior que Plutão (o 9º planeta do sistema solar descoberto em 1930), o 2003-UB313, composto basicamente de rocha e gelo (tal como Plutão), foi fotografado por uma câmera extremamente possante por intermédio do telescópio Samuel Oschin, do Monte Palomar, no sul da Califórnia. Brown lembrou que, se o 2003-UB313, um típico corpo do Cinturão de Kuiper, mas grande o bastante para ser classificado de planeta, não viesse a ser reconhecido como tal, Plutão também não poderia ser. Precipitadamente, muitos pseudoprofetas, esotéricos e ufólogos misticoides saudaram o 2003 UB313 como sendo Hercólubus, ignorando que se tratava de um “planeta-anão”. Em abril de 2006, astrônomos da NASA conseguiram observar o enigmático Planeta X por meio do Telescópio do Pólo Sul [South Pole Telescope (SPT)], montado na Antártida.

Concepção artística do planeta X

Textos gnósticos indicam que a estrela de Barnard ou o cometa conhecido como Barnard 1, seria na verdade um planeta com cerca de 600 vezes o tamanho da Terra e que a Bíblia descreve como “Absinto”: “Tendo (o Cordeiro) aberto o sétimo selo, fez-se silêncio no céu, quase por meia hora. […] O terceiro anjo tocou a sua trombeta, e caiu do céu uma grande estrela, ardendo como uma tocha, e caiu sobre a terça parte dos rios, e sobre as fontes das águas. O nome da estrela era Absinto; e a terça parte das águas tornou-se em absinto, e muitos homens morreram das águas, porque se tornaram amargas. O quarto anjo tocou a sua trombeta, e foi ferida a terça parte do Sol, a terça parte da Lua, e a terça parte das estrelas; para que a terça parte deles se escurecesse, e a terça parte do dia não brilhante, e semelhantemente a da noite” (Apocalipse 8:1, 10-12).

Antigos registros sumérios dão conta de um astro, Marduk (ou Nibiru, para os babilônios), o planeta dos “nefilins” (segundo Zecharia Sitchin), cujo período orbital e de seus perigeus é de 3.600 anos, de modo que as duas aproximações anteriores teriam sido há 3.600 e 7.200 anos. Entre os perigeus, Marduk se mantém longe da Terra o suficiente para não provocar o aumento substancial de terremotos e outros fenômenos telúricos, catástrofes que, devido à sua nova aproximação, voltam a ocorrer com intensidade. Seu apogeu (o ponto da órbita no qual esse astro se encontra mais distante do centro do nosso planeta) seria de até 500 UA, e seu perigeu de até 4 UA.

Há os que, no entanto, desassociam Marduk de Hercólubus, pois este teria um período de exatos 666 anos, além do que seu apogeu e afélio (o ponto da órbita em que a sua distância ao Sol é máxima) não seria tão distante, e seu perigeu e periélio (o ponto de menor afastamento no seu movimento de translação em torno do Sol, e que ocorre em janeiro) seriam menores do que 1 UA. Destarte, o número de anos (da Terra) que duraria uma translação do planeta Hercólubus, ou seja, o número de anos (da Terra) que um ser humano viveria em Hercólubus em várias encarnações e respectivos intervalos astrais, no caso infeliz de ele ir para aquele mundo primitivo e infernal, entre seus dois próximos perigeus (entre 2012 e 2678), seria, justamente, o famoso “número da Besta”: 666. Em 4654 a.C., os antigos gregos teriam visto aquele planeta gigante que dali a pouco iria causar o Dilúvio e lhe dado o nome de “Hercólubus”. Em relação aos nove perigeus seguintes, não há registros, parecendo, assim, que foram distantes e imperceptíveis. Levando em conta que o período orbital de Hercólubus seria de 666 anos e que nos últimos dois milhões de anos a Terra teria alterado de posição angular, ou inclinação, umas 300 vezes, a cada 10 perigeus teríamos: 300 x 666 x 10 = 1.998.000, ou quase 2 milhões de anos.

Registros de passagens catastróficas anteriores do Hercólubus seriam raros devido à amplitude temporal e à falta de testemunhos escritos. Ademais, teriam sido tão grandes os terrores dessas épocas e tão ardente o desejo coletivo de esquecê-los, que simplesmente teriam sido apagados de nossas mentes conscientes e jogados no fundo de nossos inconscientes, para daí nos instar medo, neurose, agressão e manifestações sociais como a guerra. Mas os poucos dados disponíveis seriam condizentes com os dados astronômicos de Hercólubus. Na região central do México, por exemplo, sacerdotes da civilização de Teotihuacán – cujo campo de pirâmides cobre uma planície de quase 20 km2 –, que teria existido ao longo de 17 mil anos (entre 16000 a.C. e 1000 d.C.), relataram que, periodicamente, apareceram (um por vez) “sóis intrusos e ameaçadores” cujos perigeus teriam ocorrido em 12630 a.C., 8970 a.C., 5310 a.C. e 1650 a.C.; portanto, o quinto deveria ser em 2012 d.C. Os teotihuacanos, porém, teriam trocado os efeitos pelas causas, registrando que os quatro “sóis intrusos” haviam sido expulsos, ou destruídos, por um terremoto, uma explosão vulcânica, um violento furacão e uma grande inundação. A próxima passagem de Hercólubus deveria ser muito mais catastrófica do que as quatro anteriores devido à proximidade maior no perigeu do astro.

À medida que se aproxima rapidamente, os efeitos do “Drenador Planetário”, “atraindo” almas negativas e diabólicas, se fariam cada vez mais sentir. Devido à sua forte ação gravitacional é que o número de terremotos e erupções vulcânicas estariam aumentando substancialmente, e esse aumento devia ser homogêneo ao longo de cada ano, caso Hercólubus estivesse chegando “verticalmente”. Na Península de Kamchatka (leste da Rússia), nos últimos dias de 2008, um vulcão entrou em erupção depois de estar, segundo os geólogos, inativo por 3.500 anos, ou seja, aproximadamente o período orbital de Hercólubus. Supondo-se ainda que possua muitos satélites, inclusive a mais de 1 UA de distância, e nem todos no mesmo plano orbital, com a aproximação à Terra seriam inevitáveis o aumento das colisões de meteoros e meteoritos. Além disso, a criminalidade e outros grandes males apocalípticos vinham piorando aceleradamente.

APOCALIPSE MAIA E CÓDICE DE DRESDEN

A boataria sobre o fim do mundo alegadamente profetizado pelos maias para 2012, previa que o ponto crítico da mudança era 21 de dezembro, o que coincidia com o período do anunciado perigeu de Hercólubus. Que os maias, apesar de sanguinários, eram excelentes matemáticos e astrônomos e tinham profundo conhecimento da contagem e sincronização do tempo, não há dúvida, mas, como ficou atestado, para decepção de muitos, não podiam saber a data exata do fim do mundo, já que nem sequer puderam prever o seu próprio fim.

Certos de terem encontrado numa civilização há muito extinta o código que faltava para decifrar o Dia de Deus, isto é, do Juízo Final, os milenaristas recrudesceram o afã apocalíptico ainda mais por se tratar de um ano terminado em 12, número simbólico que tem por fatores o quadrado do número perfeito, recorrente em inúmeras tradições religiosas e que coincide e é correlacionado com tragédias como, por exemplo, o naufrágio do Titanic, que por ter ocorrido em 1912, soa, à sua maneira, profético. Além disso, a soma do dia (21) e mês (12) resulta na idade de Cristo (33), e 2012 remete ao capítulo 20, versículo 12, do Livro das Revelações (Apocalipse).

Baseados no Códice de Dresden, considerado o mais importante dos documentos maias, e em outras fontes abstrusas como o zodíaco e o Livro dos Mortos dos antigos egípcios, os profetas do início do século XXI alegavam desta vez estarem certos por contarem com os recursos científico-tecnológicos mais avançados e com o arcabouço das mais recentes pesquisas e descobertas histórico-arqueológicas. O Códice de Dresden, pelo que interpretavam, assinalaria para o final de 2012 um período fatal quando o campo magnético do Sol oscilaria novamente ao mesmo tempo em que uma onda de partículas carregadas, o chamado vento solar, atingiria a Terra. Quando isso acontecesse, alertavam, os pólos magnéticos da Terra se inverteriam, o campo magnético se fenderia e a crosta terrestre deslizaria, provocando terremotos excepcionalmente violentos, erupções vulcânicas e maremotos gigantescos (tsunamis), tal como já teria ocorrido tantas vezes no passado, como sugerem os mitos do afundamento do continente de Atlântida e do Dilúvio.

Codice Dresden

A concepção de tempo dos maias, assim como de outros povos antigos que viam a natureza como uma permanente regeneração cósmica, era a de um eterno retorno ou recomeço, ou seja, um ciclo que temiam pudesse a qualquer momento ser rompido, daí que vivessem permanentemente sobressaltados com eventos naturais desfavoráveis (por exemplo, períodos prolongados de seca que resultavam em más colheitas) e “sinais” celestes que pareciam indicar o colapso do Universo. Justamente por isso realizavam tantos rituais e sacrifícios humanos em épocas determinadas na esperança de que os deuses, saciados com o sangue jorrado do coração ainda pulsante arrancado de jovens virgens, adiassem a catástrofe. Previam, no entanto, uma destruição inevitável do mundo ao final do 13º ciclo, quando então um novo mundo nasceria reiniciando os 13 ciclos da longa contagem de seu “calendário longo”, que teve início na Era dos Deuses em 4 Ahau 8 Cumkun, ou exatamente 11 de agosto de 3.114 a.C. Enquanto o nosso sistema de contagem de séculos não prevê um fim, o calendário de longa contagem maia termina após 1.872.000 dias, ou 5.200 anos, e se encerra na data de 13.0.0.0.0 (Katun Ahau 13), que para muitos corresponderia ao nosso 21-12-2012 no calendário gregoriano.

Tendo em vista que o Códice de Dresden contém tábuas lunares utilizadas para calcular possíveis eclipses solares, as quais, conforme se descobriu, são acuradas a ponto de apresentarem um desvio mínimo em relação aos valores atuais, os sagazes profetas aproveitadores da fama dos maias extrapolaram alegando que o Códice de Dresden mencionaria o ciclo de manchas solares e que, a determinada altura, quando o magnetismo solar atingisse um nível crucial, uma gigantesca catástrofe destruiria a Terra quase que por completo. O Códice de Dresden revelaria ainda, segundo esses mesmos profetas, que outros movimentos planetários podiam ser calculados de modo preciso com base no de Vênus. É certo que todas as construções maias estão orientadas segundo as estrelas e o calendário, tal qual a Estela de El Castillo, em Santa Lucia Cotzumahualpa, na Guatemala, que representa o trânsito de Vênus pelo disco solar em 25 de novembro de 416. Se os maias, portanto, sabiam fazer cálculos precisos sobre o comportamento do Sol, também sabiam, conforme sugeriam os profetas, que uma intensa atividade solar ocorreria. Como sua preocupação com os números era obsessiva, pois não ignoravam que muitos segredos da natureza podiam ser explicados graças a eles, tinham a certeza de que, uma vez compreendidos suficientemente os números originais dos eventos, era possível prever com exatidão a data em que ocorreriam.

A verdade é que o “calendário profético” dos maias reflete antes a sua concepção de tempo cíclica marcada por grandes destruições e recomeços do que propriamente um conhecimento efetivo de destruições passadas ou vindouras. Isso não significa que eles esperassem pelo fim do mundo para 21-12-2012, já que os povos ameríndios não possuíam uma concepção linear de tempo que os fizesse pensar em um fim absoluto com o encerramento da história. Ademais, os maias jamais afirmaram que o ciclo que estamos vivendo seria o último. Quando muito, após a data final, o calendário se reiniciaria. Assim como para nós o 31 de dezembro é sucedido pelo 1º de janeiro, para os maias o 22 de dezembro corresponderia ao dia 0.0.0.0.1.

MUNDOS EM COLISÃO, ASTRO INTRUSO, NIBIRU, HERCÓLUBUS E OUTROS MITOS

Immanuel Velikovsky

Se não podemos saber – e isso na verdade ninguém pode, como bem esclareceu Jesus, a não ser o Pai – o dia exato do Apocalipse, podemos ao menos retraçar a origem do mito de Hercólubus. Basta estar minimamente familiarizado com algumas crenças não ortodoxas da ciência moderna para identificar que seus antecedentes “teológicos”, por assim dizer, estão na teoria cataclísmica da história humana, mais precisamente naquela proposta pelo “cientista” independente russo naturalizado norte-americano Immanuel Velikovsky (1895-1979), autor de numerosos livros controversos, em particular seu best-seller Worlds in Collision (Mundos em Colisão), publicado em 1950 e que continua gerando intenso debate e uma série de questões periféricas.

A principal tese de Velikovsky é que os maiores eventos na história da Terra e dos planetas do sistema solar foram dominados pelo catastrofismo em vez do uniformitarismo. Para ele, todas as observações fenomênicas diretas relatadas nas crônicas antigas são estritamente verdadeiras – se a Bíblia relata que o Sol parou, então isso se deveu a um “puxão” que Vênus exerceu brevemente sobre a rotação da Terra –, para as quais procura encontrar alguma explicação física consistente, ou seja, exatamente o oposto do que faria a maioria dos cientistas ortodoxos. Velikovsky encontrou uma causa comum para os eventos cataclísmicos como enchentes, terremotos, vulcões, elevação de montanhas, extinções em massa e mudanças climáticas que sacudiram o nosso planeta nos últimos milênios: forças eletromagnéticas de corpos celestiais. Contrariando as leis de Newton, que não permitiriam que planetas grandes vagueassem livremente por aí, ele propôs uma nova física de forças eletromagnéticas para corpos grandes, uma que se ajustou com precisão literal às lendas antigas. Essas forças, argumentou ele, perturbam a rotação da Terra a ponto de virar o seu eixo, invertendo a posição dos equadores e dos pólos. Em seu livro Earth in Upheaval (Terra em Motim), de 1955, argumentou que nos últimos 3.500 anos planetas vagantes teriam passado pelos arredores da Terra pelo menos duas vezes provocando uma série de catástrofes e mudanças bruscas. Não obstante, entre tantos erros, descuidos e exageros que comete, um dos mais gritantes é tomar como eventos globais o que não passaram de catástrofes locais.

Ramatis

Em 1956, em sua obra Mensagens do Astral, o médium Hercílio Maes (1913-1993), psicografando o espírito de Ramatis, já alertava para a passagem cíclica, a cada 6.666 anos, de um astro intruso pela Terra que “viria a provocar, até o ano 1999, grandes cataclismos globais”. O astro intruso insurgiria para fechar um ciclo evolutivo e iniciar outro, “uma Nova Era para o bem da humanidade”. Por meio do estudo de outras correntes espirituais, de acordo com a mentalidade e as necessidades de cada época, Maes – que antes de se tornar espírita havia sido teosofista, maçom, rosacruz e umbandista – visava “aprofundar” a doutrina de Kardec, trazendo ao repositório de conhecimentos básicos ensinamentos que permitissem ao homem alcançar a espiritualidade. A corrente espírita inaugurada por Maes, que seria chamada “espiritismo de Ramatis” e, mais tarde, “espiritualismo universalista”, também porque concebia a doutrina espírita como síntese em constante atualização do conhecimento extraído das religiões e filosofias espiritualistas criadas pela humanidade, o que, para ele, serviria para aproximar, de modo ecumênico, as culturas do Ocidente e Oriente, é tida como uma dissidência do espiritismo tradicional.

No ano seguinte, como já vimos, seria a vez do contatado Aladino Félix, repassando as informações que teriam lhe sido transmitidas pelo comandante do disco voador com quem mantivera várias conversas, alertar em seu livro Contato com os Discos Voadores para a incursão de um “outro sol” em nosso sistema solar, um astro gigantesco que em breve – até o final do século – poderia ser visto na direção de Câncer, de luz apagada, e que emitiria, de início, uma luz avermelhada, e depois azul. “A sua luz brilhando e o volume de sua massa descomunal” fariam o Sol atual “deslocar-se das proximidades do centro magnético, situando-se mais longe”. Em consequência, “todos os planetas teriam suas órbitas modificadas. A Terra, por exemplo, sob a pressão combinada de dois sóis, iria ocupar a zona onde hoje se encontra o cinturão de asteroides, entre Marte e Júpiter.” Com um novo sol assim a lhe iluminar, seria inaugurada uma Nova Era, um Novo Milênio em que os poucos escolhidos viveriam sem sofrimento, “em paz e abundância, justiça e misericórdia”, enquanto o restante pereceria. Esse novo astro seria chamado de o “Sol da Justiça” e configuraria o sinal precursor da vinda “daquele que brilha ainda mais que o próprio Sol”, um novo Messias, que não seria outro senão o próprio Aladino Félix, conforme viria a reivindicar anos depois.

Zecharia Sitchin

Misturando Velikovsky com altas doses de Erich von Däniken, Zecharia Sitchin insurgiu na segunda metade da década de 70 arvorando-se como sendo o primeiro e único a ter “provado” historicamente que astronautas de um planeta perdido (Marduk) do nosso próprio sistema solar se estabeleceram na Terra e engendraram o Homo sapiens por meio de avançadas técnicas de engenharia genética. Sitchin vaticinou ainda que quando o tal planeta (o 12o, conforme os sumérios) voltar a aproximar-se da Terra, provocará catástrofes e destruições em sua passagem, completando um ciclo de cerca de 6.000 anos. Nascido no Azerbaijão e educado na Palestina, para onde sua família emigrou nos anos 20, Sitchin graduou-se em história econômica e ciências políticas na Universidade de Londres. Versado em línguas semíticas, era uma das 250 pessoas no mundo capazes de traduzir as escritas cuneiformes sumérias. Atuou como jornalista e editor em Israel e consultor da NASA. The 12th planet (O 12o planeta), de 1976, é o primeiro da trilogia Earth Chronicles (Crônicas da Terra), seguido por The Stairway to Heaven (Os Astronautas do Passado) e Genesis Revisited (Gênesis Revisitado).

A tese central de Sitchin é a de que uma “raça superior”, a dos nefilim, vinda de Marduk (para os sumérios) ou Nibiru (para os babilônios), o tal 12º planeta (os sumérios consideravam o Sol e a Lua como sendo planetas e sabiam da existência de um corpo celeste além de Plutão, daí que, somado aos outros nove, seria o 12º), aterrissou na Terra e engendrou a civilização humana. Atacando os pontos frágeis da obra de Däniken, embora sem citá-lo diretamente, pretendeu revestir o assunto com uma aura erudita, tanto que classifica os demais partidários da teoria dos deuses astronautas como “escritores popularescos”, apesar de invocar os mesmos argumentos e igualmente carecer de provas tangíveis: “Enquanto nós próprios nos aventuramos pelo espaço, um olhar novo e a aceitação das antigas escrituras é mais do que oportuno. Agora que os astronautas pisaram na Lua e missões não tripuladas exploram outros planetas, deixou de ser possível não acreditar que uma civilização de outro planeta mais avançado não tenha estado na Terra, algures no passado.”

Um episódio de infância levou-o a mergulhar na história, mitologia e arqueologia dos povos da Ásia Menor. Aos 9 anos de idade, um de seus professores repreendeu-o por uma observação que fizera à tradução da palavra hebraica nefilim:

“O Antigo Testamento habita minha vida desde a infância. Quando foi plantada a semente deste livro, há quase cinquenta anos, eu não tinha nenhum conhecimento dos fervilhantes debates evolução versus Bíblia. […] Um dia, estávamos lendo o capítulo VI do Gênesis, onde se registra a destruição da humanidade por Deus. O original hebraico chamava os homens da época de nefilim; o professor explicou que nefilim significava ‘gigantes’, e eu discordei; literalmente não significaria ‘aqueles que foram lançados’, que desceram à Terra? Fui repreendido e disseram-me que aceitasse a interpretação tradicional. Nos anos que se seguiram, à medida que aprendia a língua, a história e a arqueologia do antigo Oriente Médio, os nefilim tornaram-se uma obsessão. Os achados arqueológicos e a decifração de textos sumérios, babilônicos, assírios, hititas, cananitas e outros textos antigos e contos épicos foram progressivamente confirmando a precisão das referências bíblicas a reinos, cidades, governantes, praças, templos, rotas de comércio, artefatos, ferramentas e vestuários.”

Anunnaki

Os anunnaki (anunna, anunnaku ou ananaki, “aqueles que vieram do céu à Terra”), os nefilim da Bíblia, na acepção de Sitchin, seriam seres antropomórficos que comiam e bebiam e estavam sujeitos a todas as emoções humanas. Proviriam de Nibiru, o 12º planeta, e teriam aterrissado na África do Sul há cerca de 450 mil anos em busca de minérios. Decorridos 50 mil anos, os anunnaki, cansados de trabalhar nas minas de ouro, rebelaram-se, forçando o seu líder Enki a criar, através de avançadas técnicas de inseminação artificial, uma raça de escravos a partir das primitivas criaturas que habitavam a região. Fertilizaram o óvulo de uma fêmea terrena com o esperma de um nefilim e o implantaram no útero de uma das chamadas “deusas do nascimento”. Surgia assim, à imagem e semelhança dos deuses, o homo sapiens ou a raça adâmica (adapa, “modelo de homem” em sumério), condenada a servir de escravo nas minas. Após milhares de anos de incessante labuta, o homem foi levado pelo deus Enlil (meio-irmão de Enki, e seu rival) a Edin (o Éden da Bíblia), na Mesopotâmia, onde sofreu nova intervenção eugênica, deixando de ser híbrido, o que o habilitou a procriar entre os membros de sua espécie.

Nibiru seria bem maior do que a Terra e sua órbita, que se completaria a cada 3.600 anos, englobaria a de todos os outros planetas. Em seu perigeu, passaria nas imediações de Marte e Júpiter. Para Sitchin, o cinturão de asteroides, as extravagantes órbitas dos cometas e as perturbações nas órbitas de Urano e Netuno, apontavam firmemente para a existência desse que para nós seria o 10º planeta, o tão buscado Planeta X. Os nefilim, assegurou Sitchin, nunca deixaram de descer à Terra, o que fazem principalmente nas fases de maior aproximação de Nibiru. Muitos dos OVNIs observados seriam naves nefilim.

HERCÓLUBUS: UMA BOBAGEM SEM NENHUM FUNDAMENTO

A literatura apocalíptica do final de milênio foi consideravelmente enriquecida – ou depauperada, dependendo do ponto de vista – em 1998 com o lançamento do livro Hercólubus o Planeta Rojo: La Tíerra en Pelígro! (Hercólubus ou Planeta Vermelho: A Terra Está em Perigo!), assinado por um tal de V. M. Rabolú (note que o sobrenome não passa de uma corruptela de Hercólubus), pseudônimo do agricultor e místico descendente de índios colombianos Joaquin Enrique Amortegui Valbuena (1926-2000), discípulo de seu conterrâneo Samael Aun Weor [pseudônimo de Victor Manuel Gómez Rodríguez (1917-1977)], escritor, doutrinador, professor de ocultismo e fundador da Gnose contemporânea, na qual mistura ensinamentos budistas, hinduístas, rosacrucianos e teosóficos. Foi em 1952, aos 26 anos, na região de Sierra Nevada de Santa Marta (cadeia montanhosa que alcança 5.775 metros de altura e que corre pela Colômbia, isolada dos Andes por zonas planas e semi-áridas), que Rabolú teria se encontrado com Weor e por meio dele o “verdadeiro conhecimento espiritual a que tantos seres humanos aspiram”. “Com vontade e tenacidade”, pôs então em prática os ensinamentos que adquirira, e que consistiam na aplicação da técnica do “despertar da consciência”. A partir dos anos 70, “sempre de forma altruísta e desinteressada”, Rabolú passou a viajar pela América Latina dando cursos e conferências, e mais tarde dirigiu o Movimento Gnóstico Cristão Universal, organizando este movimento na América Latina, Canadá, Europa e Estados Unidos. Finalmente, em 1998, já com 72 anos de idade, fez um último esforço para “ajudar” a humanidade, escrevendo, “com grande sacrifício pessoal”, Hercólubus ou Planeta Vermelho. Sem ver a chegada de seu querido planeta, nem mesmo como uma estrela do amanhecer, Rabolú faleceu no dia 8 de janeiro de 2000 em Bogotá, capital da Colômbia.

Cartazes alarmantes com a propaganda do livro, cuja venda era feita preferencialmente por um site na internet (hospedado em um servidor de Moçambique, país da costa oriental da África Austral) especialmente criado para efetuar a sua divulgação e comercialização, foram espalhados pelos quatro cantos do planeta. Era muito comum, pelo menos no Brasil, vê-lo afixado em aeroportos, rodoviárias, estações de trem, terminais de ônibus, pontos de táxi, hotéis, repartições públicas, faculdades, escolas, livrarias, bancas de jornal, papelarias, lojas de conveniência, restaurantes, padarias, bares e pelo comércio em geral. É de supor que um esquema publicitário tão massivo tenha demandado tremendas despesas, só minimizadas caso contasse com a cooperação de voluntários simpatizantes ou seguidores em prol da causa.

A linguagem do livro é pueril e os dados científicos apresentados são escassos, para não dizer nulos, não ultrapassando em muito o que se lê neste trecho de apresentação que se segue: “Vamos falar sobre Hercólubus ou Planeta Vermelho, que se aproxima da Terra. Os cientistas, conforme algumas versões, já até o pesaram, que tem tantas toneladas e diâmetro, como se fosse um brinquedo de crianças; mas não é assim. Hercólubus é cinco ou seis vezes maior do que Júpiter, é um gigante, e não há nada que o afaste.” O “mérito” de Rabolú, que deve ser creditado muito mais aos seus divulgadores, foi o de ter “simplificado” a questão para as massas, batizando o tal planeta gigante com um nome impressionante e de fácil assimilação, evitando as discussões teóricas e pulando diretamente da crença para o alarmismo catastrofista.

V.M. Rabolú

Pelos cálculos de Rabolú, Hercólubus teria penetrado na órbita terrestre pela última vez há treze mil anos, quando causou o fim da Atlântida, no que acabou oferecendo, de quebra, mais uma explicação “definitiva” para o fim desta tão decantada e pungente civilização. O autor do apocalíptico livro prenuncia que “no ano de 1999, Hercólubus poderá ser vista por todos os seres humanos como uma grande estrela ao amanhecer. No ano de 2045, todos o verão em pleno meio-dia, como outro sol.” Alguém já viu esta “grande estrela” ao amanhecer? Obviamente que não. Segundo Rabolú, Hercólubus estaria de novo se aproximando da Terra com uma missão tão definitiva quanto nobre: purificar sua “aura” (não seria o campo magnético?) das energias maléficas. De que maneira a atração gravitacional de Hercólubus poderia purificar o campo magnético da Terra, só esotéricos e misticoides poderiam dizer. Contudo, ainda restaria uma maneira – a única – de evitar a catástrofe: bastaria que a humanidade mudasse seu comportamento e passasse a trilhar “o caminho da luz”.

Para derrubar o mito de Hercólubus sem que seja necessário rebater uma por uma todas as loucuras e insanidades coetâneas, basta a aplicação da Lei de Newton, senão vejamos. Conhecendo a distância da Terra ao Sol, a massa do Sol, a massa da Terra, a suposta massa de Hercólubus (que seria cerca de seis vezes maior do que a de Júpiter) e a suposta distância da Terra a Hercólubus, devemos concluir que este não provocaria nenhum dos cataclismos anunciados. Isso porque se a gravidade que o Sol exerce sobre a Terra é muito maior à que pretensamente poderá provocar Hercólubus, e não observamos até hoje nenhuma catástrofe provocada pela atração gravitacional do Sol, podemos perfeitamente descartar qualquer problema que venha a ser gerado pelos seus supostos efeitos gravitacionais caso venha a se aproximar da Terra, uma vez que nem tornados, nem vulcões, nem terremotos, tampouco tsunamis, tem algo a ver com a força de atração gravitacional do Sol.

Logicamente não faltarão aqueles renitentes desvairados que apelarão à visão esotérica atribuindo a Hercólubus não uma natureza sólida e material – neste caso, as leis da mecânica clássica seriam inúteis –, e sim etérea e invisível (físico-sutil). Por esse prisma, Hercólubus estaria de fato se aproximando, mas só os sensitivos seriam capazes de vê-lo, enquanto nós, pessoas comuns, apenas o conheceríamos indiretamente pelos seus efeitos deletérios. Insistindo em suas apologéticas fundamentalistas, pseudoprofetas, esotéricos e ufólogos misticoides seguem vendendo a velha ideia da iminente falência global do sistema e consequente “Operação Resgate”, afinal, nas passagens anteriores de Hercólubus nos últimos quinhentos mil anos ou desde mais tempo, a Frota Estelar (não a de Star Trek, mas da Milícia Celeste), jamais deixou os seres humanos na mão, regatando-os e levando-os a convenientes astrobiosferas, onde construíram outras civilizações. Tudo o que fizermos agora, portanto, deve ser projetado em função do atual “encerramento das atividades apocalípticas” e da futura “civilização definitiva”.

Ashtar Sheran

Sentados ao redor de suas velas e incensos, milhares de pessoas continuam acreditando nessas estapafúrdias promessas esperando que um vago “Comando Ashtar” extraterrestre venha e os arrebatem para fora deste condenado planeta em uma espaçonave. Todavia, Ashtar não passa de uma mistura, um jogo de palavras com deidades antigas como Ashteroth e Ishtar (a Vênus dos caldeus), outro nome para Semíramis, bela rainha mitológica que segundo lendas gregas e persas reinou sobre a Pérsia, Assíria, Armênia, Arábia, Egito e toda a Ásia. Parece derivar também de astar (“céu” em etíope). Inscrições que remontam à época do Império de Axum (Etiópia, séculos III a V d.C.) se referem a ele como o “deus dos céus”. O nome é etimologicamente ligado ao do Attar da Arábia Meridional. Assim como a crença em Ashtar Sheran foi inventada e fomentada por mentes gnósticas, satânicas, excêntricas e peculiares para escarnecer o cristianismo e instaurar a Nova Era como parte do programa de implantação de um governo único mundial, a crença em Hercólubus parece ser o resultado de quantidades doentias de distorção, engano e pura desonestidade da maioria de seus proponentes.

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