O fenômeno da abdução: trauma de nascimento?

Muitos relatos de abdução podem ser atribuídos ao que os psicólogos denominaram de “trauma de nascimento”, ou também experiências explicáveis, como paralisia do sono e criação de memórias que nunca existiram.

Texto de Cláudo Suenaga

Susan Clancy, psicóloga de Harvard, que estudou os abduzidos, acha que o meio científico deveria prestar mais atenção a esse tema, não porque as histórias sejam verdadeiras, mas porque elas dizem algo sobre o ser humano e sobre a psicologia do homem em particular. Apesar de não me filiar a corrente a qual ela pertence e de discordar de muitas das proposições e conclusões dos psicólogos, concordo inteiramente com o que ela diz a esse respeito. Os meios científicos e acadêmicos em geral deveriam prestar mais atenção à Ufologia, não a encarando meramente como um fenômeno físico ou não-físico, mas como um fenômeno psicológico, social, cultural, religioso e até político-ideológico, já que sempre serviu e tem servido de instrumento para a conquista e manutenção do poder. Susan concluiu que os abduzidos – em sua maioria – não são loucos nem mal-intencionados, mas que passaram por experiências explicáveis, como paralisia do sono e criação de memórias que nunca existiram. Na Ufologia não há uma panaceia, uma explicação única que sirva para tudo, como pretendem aqueles que defendem esta ou aquela teoria ou posição. Penso que esses diagnósticos explicam uma boa parcela dos casos, mas não todos. Vou citar alguns exemplos.

Na década de 70, Alvin H. Lawson ministrava aulas sobre o pensamento crítico na Universidade Estadual da Califórnia, valendo-se dos UFOs como tema central. Ele resolveu então realizar ali uma experiência interessante: induziu, por meio da hipnose, 10 mulheres e seis homens, entre 12 e 65 anos, a acreditarem terem sido raptados por UFOs. Os relatos que forneceram não diferiam em nada daqueles colhidos espontaneamente: o objeto voador foi descrito como tendo a forma aproximada de um disco em torno do qual giravam anéis como os do planeta Saturno; no interior da nave havia painéis de controles, luzes muito fortes e telas de televisão; os tripulantes eram humanoides, robôs ou animalescos; estes paralisaram o sequestrado e o examinaram numa mesa de operações; as mensagens eram de cunho pacifista e ecológico; os sequestrados receberam ordens para esquecer a experiência; efeitos físicos descritos: cansaço, bem-estar, inquietude e excitação; efeitos psicológicos descritos: perplexidade, ansiedade e paranormalidade.

A hipnoterapeuta Sharon Filip, de Seattle, recordava-se perfeitamente bem de um contato imediato que tivera na infância. Chris ainda guardava recordações do trauma que sofrera aos cinco anos de idade quando se perdera dos pais num shopping center. Ambos estavam convencidos de que suas memórias eram reais. Mas podiam ser totalmente falsas. Sabe-se hoje que o cérebro humano possui a faculdade de criar falsas memórias de incidentes traumáticos como abusos sexuais, por exemplo. “Desde que o sugestão seja eficiente, é possível fazer com que as pessoas acreditem que viveram experiências que jamais aconteceram”, afirmou a psicóloga Elisabeth Loftus, da Universidade de Washington, em Seattle. No caso de Chris, sua memória foi implantada numa experiência de laboratório em que a equipe de Loftus aplicou perguntas chave de modo a sugerir que o incidente havia realmente ocorrido. Chris passou não só a acreditar na existência do fato, mas também a inventar novos detalhes. Mesmo quando a equipe revelou que havia forjado o fato, o adolescente não quis acreditar. As crianças são especialmente vulneráveis às técnicas de sugestão. Não por acaso, a maioria dos abduzidos alega ter sofrido o primeiro sequestro ainda na infância.

Psicólogos como Robert Baker, da Universidade de Kentucky, vêem nas histórias de abdução sintomas de doenças físicas ou psíquicas. Já outros como o já falecido John Mack, da Universidade de Harvard, insistem em tomá-las como fatos concretos. Para Baker, a chamada paralisia ou apneia do sono, por exemplo, pode desencadear alucinações aparentemente reais: “Quando se hipnotiza as pessoas, a imaginação delas é acionada. E quando imaginação é acionada, tudo se torna possível. As experiências parecem reais. Se não parecessem reais, não seriam alucinações”. Os raptados costumam referir-se a um período de tempo do qual não conseguem extrair lembranças: “Eles não conseguem lembrar-se de nada simplesmente porque nada aconteceu”, arrematou Baker. Susan Blackmore, psicóloga da Universidade do Oeste da Inglaterra, em Bristol, referendou-o dizendo que “todos nós queremos acreditar que aquilo de que nos lembramos realmente aconteceu”.  As falsas memórias podem ser reconfortantes, pois através delas as pessoas atribuem a culpa dos seus problemas a outros.

Muitos relatos de abdução podem ainda ser atribuídos ao que os psicólogos denominaram de “traumas de nascimento”. O que os abduzidos comumente reportam: túneis, portas e salas em forma de útero, luzes brancas e difusas, instrumentos cirúrgicos. Façamos a correlação: o feto se move ao longo de um canal – túnel –, até sair pela vagina – porta – e ver-se dentro de uma sala branca – hospital –, onde é manipulado por estranhas criaturas – médicos e enfermeiras – que lhe espetam e cutucam instrumentos. O psicólogo e ufólogo argentino Roberto Banchs em seu ensaio intitulado “Abduções: A Experiência Traumática e o Caminho Regressivo” [Perspectivas Ufológicas, México, nº7, fevereiro de 1996, p.12 e 15], assevera que “O nascimento, como recordação ou recriação, constitui um dos momentos mais dramáticos na vida de todo indivíduo. Angústia e prazer. Êxtase místico, consciência cósmica ou transcendental, estados alterados de consciência ou ‘experiência oceânica’ como alegremente se chamou a esse gozo, antessala, ventre materno, ‘rito de iniciação’, de passagem, de angústia, que deixará sua marca”. Para Banchs, os extraterrestres não vêm do espaço, mas constituem uma realidade intra-humana: “Há episódios com alto conteúdo simbólico que, claramente, guardam uma estreita relação com a vida das testemunhas e seu entorno”. O interior do disco voador afigura-se, pois, como um útero materno quente e protetor.

Houve casos de abduzidos que apareceram em posição fetal no interior da nave, iluminado por uma luz difusa. Entre as sensações comumente experimentadas, estão a paralisia, a absorção, o desvanecimento e a perda de consciência. Em um outro ensaio intitulado “Engenheiro White: Um Caso de Fantasia Pré-natal” [Ibid.,p.22-23], Banchs assinalou que dentro do ventre materno há presença de luz; a mãe transmite não só certas imunidades, como também fortes emoções que provocam contrações no útero, determinando a paralisação momentânea do feto; no final da gravidez, o bebê vira-se de cabeça para baixo e a pressão na parte superior do abdômen da mãe desaparece, permitindo que ele respire com maior facilidade – daí a sensação de ser absorvido; ao sair para o ambiente externo, o bebê vê uma luz intensa, muito mais do que aquela que havia dentro do útero; devido a grande quantidade de energia desprendida no nascimento, o bebê pode perder as forças e desvanecer.

 

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