No Museu de Imagens do Inconsciente: O Fenômeno OVNI como desencadeador de distúrbios psiquiátricos

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga     

A sociedade costuma recorrer a atributos considerados normais para categorizar seus membros. Aqueles que destoam de alguma maneira ou de algum modo dos padrões estabelecidos vigentes são relegados a uma escala decrescente de prestígio. Estigmatizados, sofrem a rejeição por não corresponderem aos modelos impostos. Dependendo das condições, acabam afastados, marginalizados e segregados, enfrentando a crueldade alheia.

O doente mental faz parte do grupo dos indesejáveis, destinado a tratamentos ordinários e ao descaso da maioria. Infelizmente, os métodos adotados por muitas instituições psiquiátricas continuam praticamente inalterados desde o século XIX. Manipulam-se identidades, deteriorando-as. Para o sociólogo norte-americano Erving Goffman, “um indivíduo que poderia ter sido facilmente recebido na relação social cotidiana possui um traço que pode-se impor à atenção e afastar aqueles que ele encontra, destruindo a possibilidade de atenção para outros atributos seus. Ele possui um estigma, uma característica diferente da que havíamos previsto. Nós e os que não se afastam negativamente das expectativas particulares em questão serão por mim chamados de normais.[1]

Ao estudarmos casos de pacientes diversos, notamos a recorrência a elementos arquetípicos semelhantes aos encontrados nas narrativas envolvendo discos voadores e seres extraterrestres. Distúrbios mentais manifestados por alegados contatados e abduzidos também sugerem uma ligação intrínseca, não abordada anteriormente devido em parte aos preconceitos que pairam tanto sobre a loucura quanto sobre o fenômeno dos OVNIs.

Casos Clássicos de “Loucura”

Daniel Paul Schreber (1842-1911), juiz-presidente da Corte de Apelação na cidade de Dresden, Alemanha, aos 51 anos foi acometido por uma grave crise psicológica acompanhada de delírios que custaram 9 anos consecutivos de internações em sanatórios psiquiátricos. Schreber era um homem de sólida formação cultural que dominava grego, latim, italiano e francês, conhecia História, Ciências Naturais e Literatura Clássica, e para completar era um exímio pianista, sem mencionar os conhecimentos jurídicos, sua especialidade. Ele negava com veemência ter perdido a razão, admitindo somente padecer dos nervos. “Minha mente é tão clara quanto a de qualquer outra pessoa”, dizia. Resolveu assim escrever o livro Memórias de um doente de nervos,[2] esperando que o leitor confiasse na honestidade de suas palavras e na seriedade de suas intenções.

Ao publicá-lo em 1903, Schreber acreditava sem modéstia que o livro figuraria entre as “obras mais interessantes que já foram escritas desde que o mundo existe”. Ele estava certo. Freud devotou-se ao livro, analisando-o como se tratasse de um de seus pacientes. Schreber sentia-se em permanente “conexão nervosa” com Deus e todas as suas instâncias intermediárias: raios, luzes, almas, vozes. Deus fazia a ele basicamente duas exigências: que desse provas de integridade intelectual, coagindo-o a pensar sem cessar e que desenvolvesse no seu corpo a “volúpia da alma” (um estado de sensualidade radical), transformando-se num corpo feminino. Uma vez transformado em mulher, Schreber seria fecundado por Deus e geraria uma nova humanidade.

Jakob Mohr, 1910, Prinzhorn Collection.

Em certos trechos do livro, sugere que o poder de Deus imbrica-se a “outros planetas habitados”: “Não me atrevo a decidir se devemos afirmar diretamente que Deus e o firmamento são uma e a mesma coisa ou se é necessário representar o conjunto dos nervos de Deus como algo situado além e aquém das estrelas e por conseguinte as nossas estrelas e em particular o nosso Sol como meras estações através das quais o poder criador milagroso de Deus percorre o caminho até a nossa Terra (eventualmente até a outros planetas habitados).”[3]

Descreve ainda aparições de seres estranhos da mesma forma que os contatados por alienígenas: “…os fenômenos luminosos não se mantiveram ao meu redor de maneira mais duradoura. Graças a estes fenômenos vi Ariman de noite, não em sonho, mas em estado de vigília, e em vários dias subsequentes vi Ormuzd de dia, durante minha permanência no jardim.”[4]

No rol dos artistas brilhantes que passaram pela atroz experiência da internação em hospitais psiquiátricos, figura o do escritor, ator e teatrólogo Antonin Artaud. Poucos meses depois de deixar o hospital de Rodez, em maio de 1946, visitou em Paris a exposição das obras de Van Gogh, identificando-se imediatamente com este seu irmão de gênio e  sofrimento. Em fevereiro de 1947, Artaud afirmou com a veemência costumeira que não era o homem mas o mundo que havia se tornado anormal. Uma sociedade tarada teria inventado a psiquiatria para defender-se das investigações de certos indivíduos de lucidez superior, cujas faculdades de percuciência a incomodavam. Para Artaud, Van Gogh não se suicidou, e sim foi “suicidado”.

A vida para o pintor impressionista holandês Vincent van Gogh (1853-1890) foi uma sombria e desesperada luta contra a pobreza, a fome, a rejeição e a loucura. No famoso quadro Noite estrelada (1899), retratou praticamente a mesma paisagem do Campo de milho e ciprestes, tomada de outro ângulo e agora sob o céu noturno. A luz das estrelas enormes e da Lua crescente é representada por halos em amarelo e branco; estes círculos mandálicos em expansão, compostos por traços vigorosos de tinta, aparecem com frequência nos últimos trabalhos do pintor. Não por acaso, assemelham-se sobremaneira a OVNIs.

Museu de Imagens do Inconsciente

Visando resgatar o significado das expressões aparentemente alucinadas e desconexas de psicóticos e esquizofrênicos e suas vivências particulares, a psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999), pioneira dos estudos junguianos no Brasil, fundou em 1952, quando dirigia a Seção de Terapêutica Ocupacional do Hospital Pedro II, no Rio de Janeiro, o Museu de Imagens do Inconsciente. Em 1956, juntamente com outros entusiastas das mesmas ideias, fundou a Casa das Palmeiras, uma clínica para o tratamento de egressos de instituições psiquiátricas, onde o ex-internado passa por um processo que suaviza o choque do reingresso numa sociedade, segundo Nise, “um pouco mais louca que o hospital”.[5]

Nise da Silveira e C. G. Jung na inauguração da exposição do Museu do Inconsciente, por ocasião do II Congresso Internacional de Psiquiatria em Zurique, 1957. Foto de Almir Mavignier.

Ela se encontrou com Jung na manhã de 2 de setembro de 1957, ao participar de um congresso mundial de psiquiatria em Zurique. Paralelamente havia uma exposição de pinturas de pacientes esquizofrênicos de dezessete países, incluindo o Brasil. Recebeu a recomendação do próprio Jung para que se dedicasse ao estudo da mitologia, chave de acesso ao universo psíquico de seus pacientes. Ao retornar ao hospital carioca, Nise reconhece na seqüência de desenhos e pinturas de Adelina, psicótica, uma perfeita similitude com o mito de Dafne, a ninfa grega que rejeita Apolo e, ao ser perseguida pelo Deus, pede à mãe-terra que a transforme numa flor. A problemática de uma doente, no final dos anos 1940, imbricava-se com uma lenda de eras remotas.

As artes plásticas cumpririam, portanto, a função de expressar as emoções e os conteúdos internos dos pacientes. O alentado livro Imagens do inconsciente,[6] de autoria de Nise, documenta e analisa as obras dos internos que durante 30 anos frequentaram o ateliê de terapêutica ocupacional do Hospital Pedro II, no bairro de Engenho de Dentro.

O Museu reúne hoje o maior e mais impressionante acervo de arte de doentes mentais do mundo. Contrária aos métodos violentos usados nos manicômios, como a lobotomia e os choques elétricos, Nise desenvolveu sua proposta humanista de terapia. As obras testificam o resultado de uma experiência singular de substituir a violência e os maus tratos por pincéis, tintas e massas de modelar. Entretanto, ainda hoje seu trabalho não encontra a devida ressonância nas demais instituições psiquiátricas, verdadeiras prisões infectas. E embora já tenha corrido o mundo, o acervo do Museu do Inconsciente permanece praticamente desconhecido no Brasil.

Um estranho no ninho: o dia em que convivi com os “loucos”

Ansiando conhecer de perto o trabalho destacado de Nise – então com 91 anos de idade – e passar algumas horas com os internos, no dia 23 de fevereiro de 1996 dirigimo-nos a Engenho de Dentro em companhia do pesquisador, explorador, escritor e jornalista atuante na Espanha Pablo Villarrubia Mauso. Logo ao chegar, deparamo-nos com uma cena constrangedora, mais condizente com um hospício tradicional. Seguranças corriam atrás de um paciente que tentava escapar do local. No transcurso da visita constatamos com tristeza as precárias condições de algumas instalações e a falta de recursos. Soubemos depois que isso se devia ao fato de que a instituição não contava com a ajuda governamental e nem mantinha convênios de qualquer espécie.

Excetuando o panorama um tanto quanto desalentador, cumpre reconhecer os esforços para levar adiante um trabalho realmente diferenciado. Os internos têm  liberdade para circular pelo local, aliás, repleto de felinos. Segundo Nise, os gatos transmitem carinho e serenidade, ajudando na recuperação. Ela mesma admite que aprendeu “mais com os animais e pouco com os psiquiatras”.

Fernando Diniz. Foto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga.

Ficamos particularmente emocionados ao conhecer Fernando Diniz, então o paciente mais antigo do centro – ele se encontrava internado desde 1949 – e também o mais prolixo. Os milhares de quadros que produziu transformaram-no num pintor reconhecido. Visitamos seu ateliê exclusivo de escultura – um quarto forrado de argila –, em que passa metade do dia. Apesar de  articular frases com uma certa dificuldade, ia tentando explicar-nos o que pretendia representar nas obras. Na conversa que travamos, soube que seus quadros se transformaram num filme, sendo que cada pintura corresponderia a um fotograma.

Fernando Diniz em seu ateliê de escultura. Foto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga.

Experiência impactante tivemos ao adentrar as dependências do Hospital Psiquiátrico Pedro II, onde são internados os doentes em surto psicótico. Deitados ou caídos nos corredores, muitos se encontravam em estado terminal. Tal qual zumbis, eram apenas pálidas sombras de seres humanos.

Não obstante, conhecemos em outras alas internos com um ótimo grau de lucidez, diríamos até maiores de muitos que se consideram normais. Um deles, Ênio Sérgio de Carvalho, guiou-nos até seus aposentos, que dividia com outros pacientes, entre eles o pintor iniciante e igualmente lúcido Geronildo do Nascimento. Lá, mostrou-nos com um certo orgulho as paredes que cobriu de pinturas representando povos de diferentes países, ambientes exóticos, seres mitológicos e entidades extraterrestres. Dele adquiri uma tela, toda em tons de azul, em que retratara a imagem de um alienígena com quem sonhara.

Ênio Sérgio de Carvalho e Geronildo Nascimento diante da parede coberta de pinturas de autoria de Ênio. Foto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga.

Pinturas de Ênio Sérgio de Carvalho nas paredes de uma ala do Hospital Psiquiátrico Pedro II. Fotos de Cláudio Tsuyoshi Suenaga.
O “ET” retratado por Ênio Sérgio de Carvalho. Foto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga.

A visita a esse espaço em que todos os conceitos tradicionais se alteram, completou-se com um detido exame dos milhares de desenhos, quadros e esculturas depositados no Museu do Inconsciente. Nas obras, é possível discernir a descida íngreme às profundezas do inconsciente, morada de deuses pagãos e refúgio dos personagens que compõe “os dramas eternos da alma humana”, nas palavras de Artaud. Dos “perigosos estados do ser” nasceu uma infinidade de unicórnios, serpentes, águias, monstros, demônios, deuses, deidades e outras figuras. Em frente às estantes abarrotadas de esculturas, não pudemos deixar de notar as semelhanças das imagens com as estatuetas de barro descobertas em Acambaro, México, datadas de 3600 a.C.[7]

Esculturas de internos no Museu de Imagens do Inconsciente. Foto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga.

Três esculturas falam por si próprias. A primeira é a de um disco voador típico, dotado de cabine e janelinhas, provavelmente de autoria do interno Carlos Pertuis.

Cláudio Suenaga segurando uma escultura de disco voador no Museu de Imagens do Inconsciente. Foto de Pablo Villarrubia Mauso.
Foto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga. Acervo do Museu de Imagens do Inconsciente.

As outras duas, de autorias desconhecidas, representam seres assustadores, disformes e demoníacos.

Esculturas de seres disformes e demoníacos no Museu de Imagens do Inconsciente. Fotos de Cláudio Tsuyoshi Suenaga.

No que se refere às pinturas, logramos encontrar uma série de telas com motivos bastante sugestivos. Eis uma breve descrição das principais:

__ Vinte objetos voadores esféricos pairam sobre casarões. Embaixo, quarenta e oito vultos negros andam pelas ruas, perfazendo um desfile tétrico (óleo sobre tela, 29-9-1952).

Carlos Pertuis. 20 esferas sobre casarões. Foto de Cláudio Suenaga. Acervo do Museu de Imagens do Inconsciente.

__ Um homem vestindo camisa listrada “pilota” um disco voador (4-8-1955).

Carlos Pertuis. Homem de camisa listrada pilota um disco voador. Foto de Cláudio Suenaga. Acervo do Museu de Imagens do Inconsciente.

__ Um OVNI com formato de diamante, ostentando três janelinhas e três pés de aterrissagem, repousa sobre uma plataforma que termina numa escadaria (25-7-1962).

Carlos Pertuis. OVNI diamante. Foto de Cláudio Suenaga. Acervo do Museu de Imagens do Inconsciente.Hospital Psiquiátrico Pedro II.

__ Ao lado de corpos planetários, paira no céu noturno um objeto discoide. Embaixo, duas figuras altas e seis minúsculas caminham em fila indiana (16-4-1971).

Carlos Pertuis. Objeto discoide. Foto de Cláudio Suenaga. Acervo do Museu de Imagens do Inconsciente.

__ No céu, um disco voador flutua entre corpos planetários (8-10-1971).

Carlos Pertuis. Disco voador entre corpos planetários. Foto de Cláudio Suenaga. Acervo do Museu de Imagens do Inconsciente.
Carlos Pertuis. Auto-retrato. Foto de Cláudio Suenaga. Acervo do Museu de Imagens do Inconsciente.

Viemos a saber que todos eram de autoria de Carlos Pertuis, um ex-interno falecido em março de 1977. Sempre predominou nele um sentimento de interligação com o espaço cósmico. Em outros quadros ele é um andarilho do espaço cósmico. Em outro ele viaja em navios entre as estrelas. Em outro constrói naves para viagens cósmicas. Dentro da cápsula alongada, um homem observa o exterior por meio de um instrumento ótico. A cápsula está provida de cinco hélices e aparelhos de propulsão. Em outro quadro retratou um foguete espacial prestes a ser acionado pela energia emanante dos olhos do Sol ou da Lua. Este último foi pintado logo depois do lançamento do primeiro Sputnik, em outubro de 1957.[8]

 Vida e Obra de Carlos Pertuis

A história de vida de Pertuis poderia ser confundida com a de qualquer outro alegado contatado por extraterrestres. Durante vários anos ele vinha sendo dilacerado por conflitos pessoais que drenavam a energia contida no ego. Enfraquecido, sua personalidade ameaçava implodir. Numa fatídica manhã de setembro de 1939, raios de Sol incidiram sobre o pequeno espelho de seu quarto. Brilho extraordinário deslumbrou-o e surgiu diante de seus olhos uma visão cósmica, o “planetário de Deus”, como intitulou. Gritou chamando a família, pois queria que todos também presenciassem aquela maravilha que só ele estava vendo. Acabou internado no mesmo dia no velho hospital da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Pertuis contava então 29 anos de idade e nunca mais recuperou-se.

Carlos Pertuis. O Planetário de Deus.

Melhor sorte teve Jacob Boehme (1575-1624). Sapateiro de profissão como também o era Pertuis, um dia estava em sua modesta oficina quando, sem razão aparente, mirou seus olhos num prato de estanho que refletia intensamente a luz do Sol. Boehme entrou em êxtase, estado no qual “pareceu-lhe que havia penetrado nas origens e na mais profunda e básica estrutura das coisas’. Depois de outros êxtases, Boehme passou a escrever suas experiências e a desenhar suas visões. Continuou a ser um homem simples, não abandonando o ofício de sapateiro. Era respeitado por seus contemporâneos e entrou para a história como um homem religioso e filosófico.[9]

A respeito de Pertuis, Nise da Silveira concluiu que “a visão da imagem vinda das profundezas da psique foi forte demais para o ego desamparado conseguir suportar. Cindiu-se o ego em pedaços, pensamentos e linguagem dissociaram-se, a realidade externa perdeu o sentido pragmático que tem para o comum dos homens. […] As experiências imediatas que tocam o arquétipo da divindade representam impacto tão violento que o ego corre sempre o perigo de desintegrar-se.”[10]

A visão do “planetário de Deus” ficou para sempre gravada. Em 1947, quando finalmente teve oportunidade de pintar, Pertuis, movido por uma irresistível pulsão interna, retratou-a sobre o papel com os meios precários de que dispunha, ele um sapateiro que jamais havia pintado. Eis como Nise interpretou o desenho: “O centro da imagem é uma flor cor de ouro, símbolo do Sol e da divindade. Do gineceu da flor partem quatro grande pétalas dirigidas em sentidos opostos, ficando assim nitidamente marcada a estrutura quaternária dessa imagem. Em torno agrupam-se seis campânulas iguais, outros tantos mundos. E, expandindo-se para o alto uma campânula maior, a flor branca, que representaria um mundo superior. Embaixo cruzam-se duas serpentes negras, símbolos da escuridão e do mal. A visão de Carlos é uma espantosa mandala macrocósmica, uma imagem do Universo. A mandala não é unicamente expressão de forças ordenadoras mobilizadas quando a psique está em perigo de dissociar-se. Surge também marcando as etapas evolutivas do processo de individuação. Mas, se o simbolismo da mandala for aprofundado, e se forem pesquisados seus paralelos na filosofia antiga e na história das religiões, verificar-se-á que a mandala representa Deus e a unidade do cosmos subjacente à multiplicidade das coisas apreensíveis pelos sentidos. Vivências semelhantes à experiência de Carlos acontecem com frequência nos estados esquizofrênicos. J. W. Perry encontrou em nove dos doze casos de jovens esquizofrênicos, durante o curso do processo de renovação por ele estudado, visões alucinatórias mandálicas do mundo (‘mundo quadrangular’).”[11]

Em O Segredo da flor de ouro: um livro de vida chinês, escrito em parceria com Richard Wilhelm, Jung pontifica: “A flor de ouro é a luz, e a luz do céu é o Tao. A flor de ouro é um símbolo mandálico que já tenho encontrado muitas vezes nos desenhos de meus pacientes. Ela é desenhada a modo de um ornamento geometricamente ordenado, ou então como uma flor crescendo da planta. Esta última, na maioria dos casos, é uma formação que irrompe do fundo da obscuridade, em cores luminosas e incandescentes, desabrochando no alto sua flor de luz…”

O Sol e sua luz constituíam motivos de constantes cogitações para Pertuis. Preocupava-se com “trabalhos” concernentes à luz do Sol. Refere-se a “um aparelho de repetição que faz ele sumir em ponto pequeno e aparecer em ponto grande para o Sol.”[13] Segundo Nise, “O Sol aparece como símbolo da imagem de Deus, não só na Antigüidade pagã mas também no cristianismo. No Cântico das Criaturas de S. Francisco de Assis, o Sol é louvado: ‘Ele é belo, e irradiando com grande esplendor; de ti, Altíssimo, ele é a imagem’. Para o cristianismo primitivo ‘Hélios é o Cristo’ ”[14]

Entre 1975 e janeiro de 1977, último período da vida de Carlos, suas pinturas girariam cada vez mais em torno do tema mítico do Sol. Destacam-se entre estas imagens, figuras masculinas de grandes proporções portando coroa e outros atributos divinos que as aproximam de Mithra, deus indo-persa. “As experiências místicas dos adeptos de Mithra os levavam a identificar-se com estrelas, manifestações daquele Deus ou seus atributos.” Nise prossegue dizendo que “sendo Mithra, na sua origem, uma divindade cósmica, suas relações com o Sol são muito estreitas. O mito, narra que foi Mithra quem instituiu Sol governador do mundo entregando-lhe o globo, símbolo de poder que ele próprio trazia na mão direita desde o instante de seu nascimento. Uma pintura de Carlos mostra majestosa figura com coroa de raios, sustentando grande globo. Por que Mithra emergiria, de tão longínquas distâncias, na pintura de Carlos?”[15]

Considerações Finais

Encerro citando uma passagem do livro O sagrado e o profano, de Mircea Eliade, que não só responde a pergunta anterior, como também lança luz sobre os mistérios contidos nos trabalhos dos pacientes analisados: “Um homem unicamente racional é uma abstração; jamais o encontramos na realidade. Todo ser humano é constituído ao mesmo tempo pela sua atividade consciente e pelas suas experiências irracionais. Ora, os conteúdos e as estruturas do inconsciente apresentam similitudes surpreendentes com as imagens e as figuras mitológicas. Não queremos dizer que as mitologias sejam o ‘produto’ do inconsciente, porque o modo de ser do mito é justamente que ele se revela como mito, quer dizer que ele proclama que qualquer coisa se manifestou de uma maneira exemplar. […] Todavia, os conteúdos e as estruturas do inconsciente são o resultado das situações existenciais imemoriais, sobretudo das situações críticas, e é por essa razão que o inconsciente apresenta uma aura religiosa. […] na medida em que o inconsciente é o resultado das inúmeras experiências existenciais, ele não pode deixar de assemelhar-se aos diversos universos religiosos. Porque a religião é a solução exemplar de toda a crise existencial. Solução exemplar, não somente porque é indefinidamente repetível, mas também porque é considerada de origem transcendental e, por consequência, valorizada como revelação recebida de um outro mundo, trans-humano.”[16]

Notas

[1] Goffman, Erving. Estigmas: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada, 4a edição. Rio de Janeiro, Guanabara, 1988, p. 14.

[2] Schreber, Daniel Paul. Memórias de um doente de nervos . Rio de Janeiro, Graal, 1984.

[3] Ibid., p. 42-43.

[4] Ibid., p. 54.

[5] Camargo, Pedro & Horta, Bernardo. “Do caralampismo à emoção de lidar”, in Ano Zero, Rio de Janeiro, setembro de 1991, no 5, p. 33.

[6] Silveira, Nise da. Imagens do Inconsciente,  4a edição, Brasília (DF), Alhambra, 1981.

[7] Estatuetas que parecem ter sido fabricadas há milênios, representando homens, animais pré-históricos e espécies totalmente desconhecidas. Em julho de 1945, Waldemar Julsrud, um comerciante de Acambaro (em Guanajato), no México, percorria a cavalo uma colina que domina a cidade, quando notou alguns fragmentos de cerâmica que haviam aflorado durante a estação das chuvas. Interessado em antiguidades mexicanas, pediu a um pedreiro do local, Odilon Tinajero, para ir ao local e trazer-lhe o que encontrasse. Tinajero recolheu muitos objetos, dando início a coleção de Julsrud, que entre 1945 e 1952 ajuntou mais de trinta mil peças. A maioria dos arqueólogos não considera os achados verídicos. Entretanto, a coleção não deixa de ser uma fascinante curiosidade arqueológica. Um dos aspectos mais fantásticos da coleção é a sua extraordinária variedade. Não há nenhuma duplicata entre as milhares de peças. Algumas são semelhantes, mas nenhuma é idêntica. Algumas dessas desconcertantes estatuetas representam dinossauros e  plessiossauros. A teoria corrente, segundo a qual os grandes répteis desapareceram há cerca de 70 milhões de anos e que o homem é de origem mais recente, condena automaticamente, para a maioria dos cientistas, as estatuetas e as placas que mostram homens em companhia dessas criaturas (Willis, Ronald J. “As estatuetas de Acambaro”, in O livro do inexplicável: a volta dos mágicos, de Jacques Bergier. São Paulo, Hemus, s.d., p. 17-30).

[8] Silveira, Nise da, op. cit., p. 322-323.

[9] Ibid., p. 311.

[10] Ibid., p. 311-312.

[11] Ibid., p. 313.

[12] Jung, Carl Gustav & Wilhelm, Richard. O segredo da flor de ouro: um livro de vida chinês, 5a ed., Petrópolis, Vozes, 1988, p. 39.

[13] Silveira, Nise da, op. cit., p. 313.

[14] Ibid., p. 315.

[15] Ibid., p. 330.

[16] Eliade, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões, Lisboa, Livros do Brasil, s.d., p. 216-217.

Esta matéria foi primeiramente publicada pela Revista Universa (Universidade Católica de Brasília, outubro de 1996, vol. 4-3, p.531-542) sob o título “Pacientes de Centros Psiquiátricos convivem com o fenômeno OVNI” [http://www.oei.es/historico/na2073.htm]

Publicada sob o título “Vítimas de aliens em hospitais psiquiátricos” na revista UFO, Campo Grande (MS), Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores (CBPDV), fevereiro 1997, nº 49, ano 12, estudos, p.28-30. Capa: “Revelação: Vítimas de ETs em hospitais psiquiátricos”

Publicada sob o título “OVNIs e distúrbios psiquiátricos” na revista Sexto Sentido, São Paulo, Mythos Editora, dezembro 2003, nº 47, ano 4, p.12 a 18.

Extra: Os manuscritos ocultos e indecifráveis de Carlos Pertuis