Entrevista com o ufólogo veterano Nelson Pescara

Nesta muito aguardada entrevista recém concedida a Cláudio Tsuyoshi Suenaga, o veterano técnico industrial, jornalista e estudioso da ufologia – como prefere ser designado – Nelson Pescara, do alto de seus 80 anos, reforça e justifica a sua visão de que os ufonautas são hostis e lesivos à humanidade, pois que têm praticado contra nós uma “ação deliberada e implacável de extermínio”, e que as seitas ufológicas, escoradas por misticóides, tolos crédulos, canalizadores messiânicos e “baba-ovos de alienígenas”, são “destituídas de bom senso”. A sua irrevogável opinião sobre o Fenômeno OVNI é a de que “Se alguém entra em nossa casa sem ser convidado; senta-se à nossa mesa sem pedir licença; serve-se de nossa comida sem que alguém lhe ofereça, e depois de tudo, desaparece sem sequer agradecer ou dizer quem é: Nós estamos em apuros!” Da primeira geração de ufólogos, da velha guarda que foi despertada para o assunto pelas fotos do “disco voador na Barra da Tijuca” tiradas pelo repórter João Martins e pelo fotógrafo Ed Keffel e publicadas na edição extra de 17 de maio de 1952 da revista O Cruzeiro, marco inicial da história dos OVNIs no Brasil, Pescara, de lá para cá, jamais cessou de estudar e perguntar quem ou o que são eles, de onde vêm, e quais são suas intenções. Pescara nos fala ainda de seu rápido encontro com o contatado, escritor, líder messiânico e terrorista Aladino Félix (o Dino Kraspedon ou Sábado Dinotos) e seu grupo no Prédio Martinelli em 1968, que quase lhe custou o emprego, de vários casos ufológicos que recolhera, de suas experiências paranormais, de sua paixão pelo Palmeiras, e muito, muito mais.   

C.T.S. — Em primeiro lugar, meu caro Nelson, fale-nos de suas origens, de sua infância e juventude.

N.P. — Tanto minha infância quanto a juventude foi de um menino muito pobre. Filho de camponeses, embora tenha nascido na Rua do Oratório, 308 – Bairro da Mooca, SP. Meus pais eram recém-chegados da roça, de São João da Boa Vista. A partir dos quatro anos de idade eu já ajudava minha mãe numa roça de japoneses na periferia de Santo André.

C.T.S. — Possui alguma formação religiosa? Qual? Pratica ainda hoje alguma crença ou religião?

N.P. — Não. Não pratico nenhuma religião, embora tenha sido crismado e batizado na religião católica.

C.T.S. — Fale-nos de sua família, de seu casamento, filhos, etc.

N.P. — Sou casado há 56 anos. Temos um casal de filhos. Minha filha é professora da rede pública, tem duas filhas, e duas netas. O filho é músico, escritor e jornalista, tem uma filha, é nossa neta caçula, está cursando engenharia química na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

C.T.S. — É nostálgico? Tem saudades de alguma época em particular? Por quê?

N.P. — Diria que vez por outra vem aquele vago sentimento de alguma coisa que em certa época era melhor ou funcionava melhor, não sei. Mas é sempre algo indefinido, muito difícil de fazer um juízo de valor mais objetivo. É isso.

C.T.S. — Como surgiu sua paixão pelo Palmeiras?

N.P. — Surgiu com o título Internacional de 1951, para cristalizar-se com o gol do Romeiro naquele abençoado terceiro jogo da disputa de três partidas do Paulista de 1959.

C.T.S. — Você reconhece o título da Copa Rio de 1951 do Palmeiras como o primeiro título mundial (ou intercontinental) conquistado por um clube brasileiro na história?

N.P. — Sem dúvida nenhuma. Não é um título de campeão do mundo nos moldes atuais. Nem poderia ser. Mas negar que aquele título do Palmeiras tem a grandiosidade de um título mundial é pura má fé.

No dia 22 de julho de 1951, em um Maracanã lotado por mais de 100 mil pessoas, a Sociedade Esportiva Palmeiras empatava com a poderosa Juventus da Itália por 2 a 2, mas por ter vencido a primeira partida por 1 a 0 em São Paulo, sagrou-se Campeão da assim chamada Taça Rio, ou, como querem os mais fanáticos, Torneio Internacional de Clubes Campeões, ou ainda Campeonato Mundial de Futebol, também chamado de Torneio Mundial de Campeões… A Gazeta Esportiva, 21 de julho de 1951.
A Gazeta Esportiva, 25 de julho de 1951.

Edição especial inteiramente dedicada ao Palmeiras da revista Grandes Clubes Brasileiros, Rio Gráfica e Editora, número 14, 1972. Arquivos de Cláudio Suenaga.

C.T.S. — Qual o melhor Palmeiras que você viu jogar?

N.P. — As duas academias. A de Osvaldo Brandão (do título de 59), e a de Nélson Ernesto Filpo Núñez. Tviemos ainda o Campeão de 1951, o timaço de 1993 e o Campeão da Libertadores de 1999.

C.T.S. — Como você encarou aquele período de 1976 a 1993, 17 anos do Palmeiras na fila?

N.P. — Muito difícil, realmente. Mas acontece. São circunstâncias adversas, não se pode responsabilizar este ou aquele. Tanto quanto as conquistas de títulos, que nunca é mérito de um só ou mesmo de poucos, geralmente é de todos, também a ausência de títulos é circunstancial.

C.T.S. — E o Palmeiras de hoje? O que ele deveria fazer para voltar a conquistar títulos internacionais?

N.P. —Vejo com extrema dificuldade para nossos clubes, qualquer deles, conquistas realmente de peso na Europa ou qualquer outro centro esportivo de ponta.

C.T.S. — Qual sua inclinação política? Já militou por alguma causa ideológica?

N.P. — Não sei como me situar politicamente. O que sei é que não apoio a esquerda. Quanto a uma causa ideológica, pela resposta acima, obviamente, sou anticomunista ferrenho.

C.T.S. — Teve alguma participação nos eventos que levaram à tomada de poder pelos militares em 1964?

N.P. — Nenhuma. Mas aconteceu algo realmente inusitado, que vou antecipar aqui. Naquela época eu já estava entrando de cabeça na ufologia, como vou provar mais à frente. O Sábado Dinotos era um nome em evidência. Não sei como fiquei sabendo que ele poderia ser contatado no Edifício Martinelli. Lá fui eu numa bela tarde ao sair do trabalho, na Barra Funda, e de fato, lá chegando, já noite, topei com um grupo e o Sábado, se não me engano, no terceiro andar do prédio. Não lembro tudo o que conversavam, exceto que o Sábado falava de contatos na Serra da Cantareira. Quem quisesse ver disco voador, bastava ir com o grupo até a serra. Neste ponto vou resumir porque o desfecho foi quase uma catástrofe para mim. Acontece que na semana seguinte, não sei por que diabos eu não fui. Pois bem, no final da semana veio a bomba nos jornais. Última Hora, Notícias Populares, Diário da Noite e sei lá mais quem noticiavam: “Sábado Dinotos, o homem do disco voador, foi preso.” Adivinhem o mico que paguei. Adivinhem se não estive em vias de perder o emprego. Todos na empresa sabiam que eu andava atrás de disco voador e tinha encontrado o Sábado Dinotos na semana anterior. Fui alvo, por uma semana ou duas, das mais acachapantes gozações. E mais não digo!

Aladino Félix, também conhecido por Dino Kraspedon ou Sábado Dinotos, autor do clássico Contato com os discos voadores, de 1957. Foto: jornal Última-Hora, 21-09-1968.

C.T.S. — Qual a sua formação? Que áreas mais o interessavam?

N.P. — Técnico Industrial. Mas de formação bastante irregular. Não sou acadêmico. Cheguei a fazer, sim, um curso de engenharia por correspondência da ICS (International Correspondence Schools) americana, sem valor legal aqui. Os cursos técnicos que fiz aqui no Brasil, por frequência, inclusive no Mackenzie, na Rua Maria Antonia, foram pagos pela empresa. As áreas de interesse, por necessidade de sobrevivência, foram sempre três: ciência, tecnologia e matemática.

C.T.S. — Quais foram os pensadores, filósofos, cientistas, escritores, etc., que se tornaram uma referência para você?

A História da Civilização, de Will Durant.

N.P. — São inúmeros. Tenho em minha estante obras dos grandes pensadores da humanidade, de homens que revolucionaram nossa ciência e nossa tecnologia. De Galileu a Newton, de Newton a Einstein, de Einstein a Linus Pauling, de Linus Pauling a Stephen William Hawking, de Hawking a Hubert Reeves e, óbvio, também alguns brasileiros. Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, Marcelo Gleiser, Huberto Rohden, Padre Roberto Landell de Moura e outros. Na literatura tenho centenas de nomes. Das obras completas de Dante às obras completas de Goethe. Das obras completas de Émile Zola, a 55 obras ricamente encadernadas de portugueses, russos, ingleses, americanos, espanhóis e outros, além de centenas de avulsos, para culminar com a monumental obra de Will Durant, que demanda uma vida apenas para lê-la na íntegra, A História da Civilização, em 18 volumes, também ricamente encadernados.

C.T.S. — Você também é poeta, e dos mais inspirados e prolíficos. Fale-nos de onde vem tanta inspiração e quais foram os poetas e as escolas poéticas que lhe serviram de modelo.

N.P. — Vontade de pular. Mas vamos lá. Certa vez li de alguém, talvez fosse um poeta, que disse estar a poesia em que lê. Acredito nisso. Já no que diz respeito à inspiração e às influências recebidas, deve ter sido uma colcha de retalhos. Li e leio todos que posso. De Casimiro de Abreu a Olavo Bilac, de Bilac a Vicente de Carvalho, de Vicente de Carvalho a Raimundo Correia, de Raimundo Correia a Carlos Drummond de Andrade, de Carlos Drummond de Andrade a João Cabral de Melo Neto, de João Cabral de Melo Neto a Antero de Quental, e por aí vai.

C.T.S. — Quais seus gêneros literários, autores e livros preferidos?

N.P. — Todos os bons autores, todos os bons livros. Todos. Romances, poesia, contos, novelas e teatro. Nunca filtrei demais. Se não gosto da obra ou se o autor não me agrada, leio e encosto. Por outro lado, obras como Dom Casmurro, do Machado, São Bernardo, do Graciliano, e outras. Li e reli não sei quantas vezes.

C.T.S. — E no campo da música e das artes em geral, quais são suas preferências?

N.P. — No gosto sou promíscuo. No entendimento sou alienígena. Vou da música nativa, da roça, ao samba de roda, do samba de roda aos gêneros latino-americanos.

C.T.S. — Quais filmes considera os melhores de todos os tempos? E quais seus favoritos?

N.P. — Cinema! Quem não gosta de cinema bom sujeito não é. Não me atrevo a apontar os melhores, tantos foram os bons filmes que vi. Quanto ao gênero, aponto dois ou três: faroeste, ficção científica, a saga do Rei Artur e documentários. No faroeste cito dois nomes, por inteira justiça: John Ford na cadeirinha e John Wayne a cavalo.

C.T.S. — De onde vem seu interesse pela ufologia?

A edição extra de 17 de maio de 1952 da revista O Cruzeiro, marco inicial da história dos OVNIs no Brasil.

N.P. — Lá atrás, adolescente ainda, 1952, maio ou junho, provavelmente, eu estava na casa de meu padrinho lendo a revista O Cruzeiro. Lá eu ia aos fins de semana para ler, porque em casa não entrava leitura. Foi lá que topei com aquele encarte no meio daquele exemplar, que nunca mais saiu de minha cabeça: “disco voador na Barra da Tijuca”. Menino ainda, eu não tinha nenhuma condição de elaborar um juízo racional sobre aquilo. Assim, com o passar tempo, outras publicações surgiram falando de discos voadores. Uma dela chamava-se Ciência Popular, editada por Ary Maurell Lobo, adversário figadal da comunidade ufológica. Tempos depois eu viria a ler sobre o cel. João Adil de Oliveira, a quem se deve a desassombrada fala sobre os discos voadores na Escola Superior de Guerra do Exército, em 1954.

C.T.S. — Como foi o início de suas pesquisas?

N.T. — Não faço pesquisas. Faço estudos de gabinete, que não podem ser chamados de pesquisas. À exceção de uma ou outra vez, isso ainda lá nos anos 1960, quando fui a campo com o grupo do grego Iraklis Rafail Hatziefstratiou, na Rua Vital Brasil, 536 – Butantã. Nós nos deslocávamos pela periferia da região, Parelheiros, por exemplo, mas nunca vimos nada. Fora isso, uma única vez, com esse mesmo grupo, fomos até o Rio para escalar a Pedra da Gávea e fazer vigília. Deu em nada. Estávamos ainda no portal quando desabou um temporal danado gorando nossa vigília. De outra feita, em reunião com o pessoal da Associação de Pesquisas Exológicas (APEX), na companhia do prof. Flávio A. Pereira, dr. Max Berezovsky, Willi Wirz, e outros, conheci o contatado Tiago Machado, de Pirassununga, e o tratorista da prefeitura de Lins, Toríbio Pereira. Tanto o Tiago quanto o Toríbio foram agredidos por uma luz paralisante, e agora estavam sendo tratados pelo dr. Max. Conheci também o dr. Walter Karl Bühler. Ele queria alguém para acompanhá-lo por São Paulo para umas entrevistas. Willi Wirz me recomendou, e lá fomos nós rodar São Paulo, o dr. Walter e eu.

C.T.S. — Quais são seus ufólogos e livros de ufologia de referência?

N.P. — Vou citar alguns, com cuidado para não cometer injustiça. Por ética, não posso citar o autor desta entrevista, mas todos sabem bem de suas qualificações. Falo dos antecessores, dos anos 1940, 50, 60 em diante. O primeiro, meu paradigma, professor Flávio Augusto Pereira. Outro nome, Fernando Cleto Nunes Pereira, por sinal o único estudioso que esteve presente na fala do cel. João Adil de Oliveira. Do Rio de Janeiro há um nome pouco citado, trata-se do médico dr. Olavo Teixeira Fontes, baiano, filho de um senador da República. Ao dr. Olavo devemos o primeiro estudo sério da teoria ortotênica de Aimé Michel. Quanto aos livros que recomendo, destaco com cinco estrelinhas O Livro Vermelho dos Discos Voadores, 486 pg., 1966, do prof. Flávio. Tenho um exemplar com dedicatória do autor. Outro livro que recomendo é o do comandante Auriphebo Berrance Simões, Discos Voadores: Fantasia e Realidade, 390 pg., 1959. Se alguém quiser saber mais sobre o que penso sobre livros e autores, podem acessar meu blog.

C.T.S. — O que você destacaria em seu arquivo ufológico?

N.P. — Uma raridade. Talvez uma verdadeira relíquia da ufologia nacional. As ampliações 6×6 (quatro chapas) dos originais do disco de Trindade fotografado por Almiro Baraúna de bordo do navio-escola Almirante Saldanha, às 11,00 h da manhã do dia 16 de janeiro de 1958, Ano Geofísico Internacional. Ampliações estas que estiveram em mãos do presidente Juscelino Kubitschek e que, por volta de 1990, viriam ter em minhas mãos por intermédio de meu filho, que as recebera de um empregado de um banqueiro, cujo nome não me convém declinar. Quanto ao conteúdo documental que possuo, não é exageradamente volumoso, mas é considerável: APRO-NICAP-NUFORC-MUFON-FILER’S FILES-COMDABRA-SBEDV-JORNAL UFO HISTORY-Revista UFO até 2015 na totalidade desde os números uns de quando encerrou e recomeçou -, além de centenas de avulsos entre jornais, fascículos, publicações esparsas e outros.

As tão famosas – e outrora aceitas como verídicas – quanto controversas – contestadas que foram por cépticos e pesquisadores – fotos obtidas pelo fotógrafo Almiro Baraúna de bordo do navio-escola Almirante Saldanha às 11 horas da manhã do dia 16 de janeiro de 1958.

C.T.S. — Qual caso você considera o melhor, o mais abalizado da ufologia mundial?

N.T. — O caso das bases gêmeas Bentwaters e Woodbridge, sem dúvida nenhuma, salvo eventual caso que ainda persista no mais absoluto sigilo. O caso das bases gêmeas, testemunhado, investigado e relatado por militares. Os relatos dos envolvidos são todos dignos de crédito: cel. Charles I. Halt, seg. em comando; sg. Jim Penniston (fez um relato pormenorizado dos fatos.); John Burroughs (aviador, e suspeito de ter sido abduzido); Ed. Cabansag (aviador); ten. Bruce Englund; cel. Ted Conrad (comandante da base); Gordon Williams; Ray Gulyas (fotógrafo) e um considerável número de praças.

C.T.S. — Qual foi o melhor caso que você pesquisou? Poderia falar mais dele?

Uma visão da barraca ao ser encontrada pelas equipes de busca em 26 de fevereiro de 1959. A barraca foi aberta por dentro e a maioria dos esquiadores fugiu de meias ou descalça. Foto tirada pelas autoridades soviéticas no campo do incidente de Dyatlov Pass e anexada ao inquérito legal que investigou as mortes.

N.P. — Está indelevelmente gravado em minha consciência! Rússia, Ural do Norte, Sibéria central, 1º de janeiro de 1959, nove formandos do UPI, Instituto Politécnico do Ural, impiedosamente trucidados aos pés do Monte Ortotén. “Somos de opinião que o estado em que os jovens estudantes foram encontrados já é suficiente para conjecturarmos sobre o que aconteceu com eles. E o que aconteceu com eles não foi um acidente natural. Foi, sim, uma ação de extermínio, deliberada e implacável.” O texto grifado foi o que concluí depois de um longo e laborioso estudo que fiz do trágico acontecimento que vitimou os sete rapazes e as duas jovens na Cordilheira do Ural. “Se alguém entra em nossa casa sem ser convidado; senta-se à nossa mesa sem pedir licença; serve-se de nossa comida sem que alguém lhe ofereça, e depois de tudo, desaparece sem sequer agradecer ou dizer quem é: Nós estamos em apuros!” Esta é minha irrevogável opinião sobre esse fenômeno.

C.T.S. — Com quem ou quais grupos de ufologia você manteve intercâmbios?

N.P. — Apenas alguns, e só um deles por duas décadas mais ou menos. Quando me dei conta de estava perdendo minha identidade me afastei. O intercâmbio é sutil e insidioso. Com o tempo você percebe que já não consegue pensar unicamente por sua cabeça, suas decisões viram um “mix” consensual das decisões de todos, quando não apenas do “manda-chuva” do grupo, o que de certo modo é até pior. Quando você não sabe se o que você está dizendo saiu de sua cabeça ou das “vozes” que tumultuam seu cérebro, você perde suas convicções. Lá atrás, anos 1960, conheci ligeiramente o dr. Walter Karl Bühler, fundador da Sociedade Brasileira de Estudos de Discos Voadores (SBEDV). Conheci também os fundadores da APEX, antes ainda de sua existência: dr. Max Berezovsky, prof. Flávio A. Pereira e Willi Wirz, principalmente este, educado, atencioso e de infinita generosidade. Conheci, en passant, a contatada Alex Madruga, que relatava sua abdução acontecida em Angra dos Reis. Também o contatado espanhol, o moço da pedra do espaço, Alberto Sanmartin, no mezanino do Willi Wirz, onde este exercia a função de correspondente do Herald Tribune. Não conheci o Centro de Investigação sobre a Natureza de Extraterrestres (CISNE), apenas sua fundadora, d. Irene Granchi, ligeiramente. Participei também do CBPDV onde fui consultor por um período. De resto, dou-me muito bem com o pessoal do EXO-X, GUCIT, mas não sou filiado. Por fim, tenho um ótimo relacionamento com Claudio Roberto Iatauro, moço de refinada educação. Claudio teve a gentileza de agraciar-me com um diploma por participar de suas palestras no Projeto X. Atualmente sou consultor de OVNI Pesquisa desde sua fundação, convidado que fui por Paulo H. B. Werner, seu fundador. Na OVNI Pesquisa tive a honra de estar em seu número inaugural com a matéria: “A bússola da ufologia enlouqueceu?”

C.T.S. — Já teve algum contato imediato? Se sim, pondere a respeito.

N.P. — Não. Mas tenho algo para contar, resumidamente: a) Tempo de moço ainda, década de 1960, à noitinha, ao chegar do trabalho, minha mãe me diz, ligeiramente agitada: “Aconteceu alguma coisa estranha hoje. O Brás te conta, ele viu.” O Brás ou (Braz) era um vizinho de mais idade que eu, e tinha sido testemunha de que dois objetos prateados fizeram ligeira evolução na vertical da casa em que eu morava, na tarde daquele dia. Por ser um rapaz sério, não duvidei dele. Também algumas mães e suas crianças que brincavam em frente de casa viram. b) Segunda vez (década de 1970), novamente na vertical da casa em que eu morava, um objeto apareceu, pela hora do almoço, brilhava, e logo sumiu. Desta vez eu vi, mas não sei o que vi. Hipótese: poderia ter sido um balão sonda, mas teria de ser prateado para refletir tanto a luz solar e estar subindo na vertical muito rapidamente. Não sei. c) Até que enfim eu vi. Duas sondas, em ocasiões distintas. Cada uma delas seguindo um avião de carreira, de dia, por volta de 2012, e separadas por um tempo de dois meses entre si. d) Minha mulher e minha filha, ambas viram sem nenhuma dúvida uma esquadrilha de pontos luminosos, sem reflexos, deslocando-se a uma posição de uns 50 graus acima da linha do horizonte, bem distante. e) Novamente minha mulher, na vertical de casa, onde moramos hoje, uma visão tão estranha quanto inexplicável. Ela viu três imagens, de considerável tamanho, que a deixaram assustada, tanto que adentrou a casa sem sequer tentar discernir o que estava vendo. Uma delas lembrava a estrela de Davi, luz fosca, sem muito brilho e sem reflexos. A outra, uma espécie de âncora de navio, também fosca, sem brilho, e na horizontal. E a outra, que compunha o grupo de três figuras, tal como ela me descreveu, um delta (letra grega) ou phi, pois ela não soube me dizer se a linha cortava o círculo na vertical ou na horizontal. O fato é que minha mulher de imediato se recolheu, tal o estado de aflição em que ficou. E, por fim, alguns casos de que tomei conhecimento por relatos das testemunhas. Todas confiáveis, de pessoas próximas e até de parentes. 1) Meu primo Valter, com um grupo de pescadores num barco em alto mar, de repente, sem que eles mal se apercebessem, viram no horizonte um objeto imenso, em velocidade vertiginosa, sem qualquer ruído, avançando e passando por sobre o barco causando um alvoroço em todo o grupo, quase a ponto de jogá-los na água. De imediato ancoraram o barco e se puseram no rumo de casa. 2) Outra vez na casa em que eu morava quando rapaz. Um amigo de infância, Carlos, um jovem alemão, atlético, altas horas da noite, indo para casa, justamente quando passava defronte a minha, recebe de cima para baixo um jato de luz que ameaçava puxá-lo para o alto. O que meu amigo fez foi dar um grito medonho acompanhado de um pulo gigantesco, e em seguida disparar no rumo de casa em desespero de causa. Passou pelo portão de madeira, que habitualmente ficava trancado, sem saber como. Bateu na porta gritando, praticamente em estado de pânico. O pai, a mãe e três irmãos acudiram à porta, também eles em estado de pânico. Carlos só sabia dizer que uma luz queria agarrá-lo. Só anos mais tarde eu viria a saber por meio de leituras e relatos confiáveis que a tal luz realmente tem o poder de agarrar e levantar objetos mesmo pesados, até mesmo pessoas e animais. 3) Um borracheiro, moço do interior, simples e sincero. Ele espalhava jornais pelo chão para reparar a roda do meu carro. O que vejo eu? Uma notícia de disco voador. De imediato me abaixei, pedi licença e peguei o jornal para ler. Também ele, de imediato, perguntou: “O senhor já viu disco voador?” Respondi seco: “Não, eu nunca vi.” “Pois eu já, e de pertinho!”, respondeu ele. Resumindo: Estavam em um grupo de moças e rapazes, atravessando uma roça a caminho de uma festinha. Na roça, contornando um barranco que lhes cobria a visão do outro lado, dão de cara com um objeto enorme, arredondado, com um punhado de homenzinhos em volta, que pareciam colher algo da roça. 4) O mais assustador. Sr. José, pessoa próxima da família, numa pescaria à noite e à beira-mar, com outros três. Contou-me ele que a certa altura uma estranha luz surgiu ao longe, na barra, e a flor d’água. Acontece que, de repente, a luz emergiu d’água como um sol de meio dia e avançou por sobre eles. Aturdidos, petrificados, incapazes de qualquer reação, assim permaneceram por longos e angustiantes minutos enquanto a luz cegante contornava-os numa trajetória circular, regressava ao ponto de onde emergiu para ali submergir. Tal como no caso com meu primo, também o sr. José e seus companheiros não puderam continuar pescando. Regressaram assim que se recuperaram do susto.

C.T.S. — Desde quando você passou a acreditar que os ufonautas são hostis?

N.P. — Desde que passei a tomar conhecimento dos casos apavorantes. Luzes cegantes, luzes que deixam sequelas, luzes que perseguem e ameaçam pessoas e animais de abdução e, por fim, luzes que matam. Ameaças inquietantes nos céus, nos mares e em terra. Assim tem se desenrolado as ações dos alienígenas em nosso planeta. Qualquer um que se detenha a analisar tudo o que tenho estudado, ao longo do tempo, em centenas e centenas de casos, senão de milhares, não tem como fugir desta realidade: são hostis à nossa gente!

Cenas do filme Communion (Estranhos Visitantes), dirigido por Philippe Mora em 1990, baseado no best-seller homônimo de Witley Strieber, publicado em 1987.

C.T.S. — Você tem escrito panfletos e verdadeiros manifestos de alerta quanto à hostilidade desses seres. Fale-nos mais sobre seus manifestos.

N.P. — Sim, tem sido uma tentativa infrutífera de alertar a comunidade ufológica brasileira. Não alimento ilusões quanto ao resultado de minha cruzada. A credulidade dos tolos, os baba-ovos dos alienígenas, as canalizações messiânicas, os movimentos raelianos dos destituídos de bom senso, tudo isso junto me faz ver, sem dúvida, que sou o bem-te-vi apagando o fogo na mata com uma gotícula de água no bico.

C.T.S. — Possui alguma teoria própria que pudesse explicar a origem, motivação e finalidade dos ufonautas?

N.P. — Infelizmente não! E não creio que alguém a tenha. Existem muitas teorias divulgadas por aí sim, mas tal como a minha, “nômades do sistema solar”, não dizem o que são nossos visitantes, de onde vêm e o que querem aqui. Apenas escancaram suas ações, o que fazem, como fazem, onde fazem. Mas é só.

C.T.S. — Considera possíveis as viagens no tempo? Se sim, considera que os ufonautas possam ser viajantes temporais?

N.P. — De acordo com a teoria da relatividade geral, da mecânica quântica e a nova geometria quadridimensional de Bolyai, Riemann e Lobachevski, a dilatação do tempo e a contração do comprimento, a resposta é sim. Na prática a resposta não é bem isso. A energia necessária para se acelerar uma máquina considerável em peso a 2/3 de c, por exemplo, para que se pudesse avançar no tempo, seria impraticável. Quanto a certas teorias heterogêneas, buracos de minhocas, teoria das cordas e outras, tanto quanto serem os ufonautas viajantes temporais, ficam no campo das especulações. Na viagem no tempo eu fico com Stephen Hawking e não abro.

C.T.S. — E quanto à hipótese interdimensional? Acredita que os ufonautas possam vir de outras dimensões?

N.P. — Também aqui acredito estarmos argumentando no campo das especulações. A ideia de outras dimensões além das três dimensões euclidianas é bastante sugestiva. Assim, eu complemento a resposta desta questão com a questão anterior, e deixo-as em aberto.

C.T.S. — Haveria alguma relação entre o ocultismo, o satanismo e o Fenômeno UFO?

N.T. — Não creio nisso. O Fenômeno UFO é essencialmente material. Ainda que certas ações desses objetos e seus ocupantes dêem-nos a inequívoca impressão de bruxaria. Contudo, tais ações ou desdobramentos não devem desviar o foco do estudioso daquilo que pode ser apenas atividade material de nossos visitantes.

C.T.S. — Como encara o fenômeno das aparições marianas?

N.P. — Apoio a tese das “santas ufológicas”. a) A história do índio Juan Diego e suas visões da Virgem de Guadalupe no Monte Tepeyac, México, e o milagre das flores diante do bispo da Cidade do México, Juan de Zumárraga, revelando o manto da Virgem; b) a história dos pastorinhos Lúcia de Jesus Rosa e seus primos Francisco Marto e Jacinta Marto, que juravam ver uma santa com o esplendor do Sol na Cova da Iria, Portugal; c) A vidente Bernardette Soubirous, sua irmã Toinette e sua amiguinha Jeanne Abadie, também afirmavam terem visto a Virgem de Lourdes na Gruta de Massabielle em 11 de fevereiro de 1858, e mais 18 vezes em ocasiões subsequentes; d) Também a vidente Mirjana Dragivic, sua amiguinha Ivanka Ivankovic, posteriormente mais quatro crianças da vila de Medjugorje, tiveram visões da Virgem Maria no Monte Podbrdo, na Bósnia Herzegovina, antiga Iugoslávia. e) Ainda na França temos o caso, não tão famoso da noviça Catarina Labouré e suas visões da Virgem Maria. Detalhe, não sou um estudioso das aparições marianas, mas não posso deixar de observar estranhas relações entre eles. Vozes nas cabeças das testemunhas, sem som audível, mas perfeitamente perceptível no cérebro, convidando-as a comparecer a um determinado local. E ali algo sempre acontece.

C.T.S. — Como encara os fenômenos forteanos?

N.P. — O que sei deles é que são estranhos, realmente. Mas tanto quanto nos fenômenos citados acima, também neste caso eu não sou a pessoa mais habilitada a falar deles. Que Charles Hoy Fort foi um pioneiro na compilação e divulgacão de tais fenômenos, não temos dúvida alguma. The Book of the Damned prova isso. É o que posso dizer sobre isso.

C.T.S. — Já teve alguma experiência paranormal, parapsicológica?

N.P. — Já. Duas ou três. Mas não sei como classificá-las. Curiosamente, quando eu era ainda criança, e bem antes de estar completamente letrado. Vou começar por uma que me marcou muito na infância. O tal do sono paralisante. Eu me lembro muito bem, invariavelmente eu estava preso em um paredão íngreme, literalmente na vertical, de costas ou de frente para o paredão, os braços sempre em cruz, sabia que estava numa altura indescritível, mas não sabia onde terminava o paredão, nem o topo nem o fundo. Estranho é que esse sonho se repetiu por vezes sem conta. Ainda mais, ocasiões houve em que minha mãe estava comigo, eu não a via, mas sabia que ela estava presa no paredão, e nessas ocasiões eu entrava em total desespero. Queria ajudar minha mãe, mas não conseguia sequer piscar os olhos. Outro sonho, uma única vez na vida, foi uma espécie de adivinhação. Mesma época. Falecimento de meu avô materno, que eu já tinha conhecido por duas vezes em São João da Boa Vista. Minha mãe recebera um comunicado. Creio ter sido um telegrama, mas eu era muito criança para saber. O que sei é que minha mãe viajou de imediato para São João da Boa Vista, e com ela viajou a irmã mais velha. Pois bem, naquela noite eu tive o mais longo sonho de que me lembro. Lembro-me de ver minha mãe chegando ao sítio. Um mundaréu de gente. Minha mãe é conduzida para o interior da casa e lá está um corpo sobre uma mesa. Era meu avô. Naquele tempo se velava em casa o falecido. Lembro-me de ver minha mãe chorando abraçada ao corpo do pai. Lembro-me também de ver sair o cortejo, estrada afora, o corpo numa cabriolé, mas não me lembro do cemitério. Pois bem, quando minha mãe regressou, vim a saber, tempos depois, por relatos dela em casa, que tudo o que eu tinha visto no sonho tinha se dado na prática. Nessa mesma época eu tive sonhos gratificantes. Também estes, ainda bem, por um longo tempo. Eu simplesmente sonhava que voava, e como eu voava!

C.T.S. — Chegou a ver algum fantasma ou espírito?

N.P. — Não. Algumas coisinhas esquisitas, mas nada que valha a pena gastar tinta.

C.T.S. — Como avalia os contatismos e as abduções?

N.P. — Não consigo dar crédito aos relatos dos contatados por meios psíquicos, mediúnicos ou não. Minha argumentação é simples, não tem dois iguais. Ora, se existem milhares deles espalhados pelo mundo, aqui no Brasil algumas centenas, como pode cada um deles ter uma mensagem diferente? Cada um deles recebe mensagem de um planeta diferente? Cada um deles tem um mentor diferente? Cada um deles conhece uma história da humanidade diferente? Como assim? A matemática é ciência e é sempre a mesma, a derivada de segunda ordem é de segunda ordem aqui no Brasil, na China, no planeta Marte e alhures. A velocidade da luz é de 3.0 x 10^5 km x s em todo o cosmos, com imperceptível variação em meios translúcidos. As leis da física idem. Por que então não temos duas mensagens congruentes dos tais contatados? Como pode cada um deles preconizar acontecimentos díspares de seus pares? Quanto às abduções, estas me parecem um lado preocupante do fenômeno. Temos alguns estudiosos sérios cuidando disso, e eu torço para que essa gente possa levar a bom termo seus estudos. Quem sabe então, se possa dar um passo a mais no entendimento do que possa vir por aí.

C.T.S. — Houve algum interesse seu pelas canalizações?

N.P. — Não. Ver resposta anterior. Desde o início procurei focar o lado material do fenômeno. Dediquei-me a analisar os fatos pelo viés da tecnologia, da ciência e da matemática, só aí eu me sinto bem.

C.T.S. — Considera válida a hipótese reptiliana?

N.P. — Reptilianos, grays, chupa-cabras! Onde está a verdade? Quem são os ocupantes do disco voador? De onde se originam? O que buscam no planeta Terra? Até quando? As perguntas acima já estavam na pg. 4 do livro Os Discos Voadores… de A. B. Simões de 1959, e na pg. 474 do Livro Vermelho… do prof. Flávio A. Pereira. Portanto, são perguntas centenárias! Só não as reproduzi ipis litteris. Tem alguma já respondida? Não! Sendo assim, enquanto não tivermos respostas conclusivas, todas as hipóteses são válidas.

C.T.S. — As sociedades secretas estariam de algum modo em conluio com os ufonautas?

N.P. — Com ufonautas, não creio. Não vejo como poderia haver um entendimento sério e compreensível entre os possíveis e prováveis ocupantes do disco voador e nossa gente. A natureza enigmática do fenômeno e as gritantes discrepâncias entre nós e eles são empecilhos intransponíveis, acredito eu.

Nelson Pescara em uma de suas muito concorridas palestras.

C.T.S. — Haveria um meio de a humanidade escapar da manipulação a que vem sendo submetida há milhares de anos?

N.P. — Boa pergunta, mas como responder? Fosse eu um Tomás de Aquino, um Thomas More, ou então um Bacon, o Francis ou o Roger. E que resposta não daria! Mas não sou. Aquino era um santo, o Roger era um monge e eu sou ateu. More foi decapitado, só para ficar combinado que quem manda é o rei! E, por fim, o Francis era um Lorde, eu sou plebeu. Então vamos ver se dá pra consertar isso. Ao meu modo de ver, a dominação começou com o deus bíblico. Disse ele a Abraão: “Ide e tomai toda criação que puderes cuidar, toma-a para ti e os teus, tomai toda terra que puderes medir, toma-a e ela será tua. Ide e tomai toda gente que puderes escravizar, e a que não puderes escravizar, deixe-a entregue a sua própria sorte, porque de nada te servirá.” Assim foi feito, assim continua sendo feito, e assim será feito até o final dos tempos. Quem viver, verá!

C.T.S. — As seitas ufológicas e o fanatismo religioso no âmbito ufológico são questões que o preocupam?

N.P. — Preocupam-me, e muito! Não creio que haja um mal maior que se volte contra quem faz um estudo sério de um fenômeno, do que o fanatismo desmedido. Não há limites para os crédulos, para essa gente que instiga, apoia e propaga tais correntes. E não há contra-argumentos possíveis, por mais sensatos e verossímeis que sejam, que os afastem um milímetro de suas absurdas e questionáveis convicções. Nosso trabalho, por si só estéril e ingrato dada as adversas condições em que é praticado, encontra a cada passo a muralha instransponível de um obscurantismo medieval… Fico por aqui. Se eu abrir a caixa de Pandora, posso me exceder.

C.T.S. — Quais foram seus principais trabalhos e realizações na área ufológica?

N.O. — Antes de responder, convém fazer um reparo. Sou um estudioso acanhado, retraído. Trabalho só e recolhido em meu gabinete (biblioteca) de estudos. Na verdade, não sei sequer como vender meu peixe. Mas tenho feito um trabalho interessante, e quem se apercebe dele, textos que divulgo e palestras que faço, invariavelmente me elogia. Mas tem quem torce o nariz!

C.T.S. — Já conseguiu obter algum documento ufológico oficial?

N.T. — Não. Na verdade nunca me ocorreu ter que reclamar das autoridades, civis ou militares, por não ter acesso a um ou outro caso. Em casos externos sempre duvidei que fosse atendido se recorresse a tal expediente. Nos casos internos, o que mais demorou para vir a público, excetuando-se o caso Antonio Villas Boas, foi o Caso Chupa-Chupa (Operação Prato) no Norte do país, durante o período militar. A Operação Prato esteve a cargo do I COMAR da FAB, sediado em Belém, capital do Pará, e foi levada a cabo sob o comando do então cap. Huyrangê de Hollanda Lima (falecido). Acontece que tais casos nem sempre são do conhecimento dos ufólogos. O caso A.V.B., por exemplo, foi mantido em segredo por sete anos por iniciativa do médico Olavo Teixeira Fontes e seu parceiro no caso, o repórter da revista O Cruzeiro, João Martins. Assim é que não acredito muito nas histórias destes ou daqueles ufólogos tecendo loas sobre este ou aquele documento que conseguiram às turras. Setenta anos de ufologia fartamente documentada e até hoje não temos uma única resposta conclusiva sobre qualquer questão já levantada sobre o fenômeno. A equação não bate.

C.T.S. — Como encara a ufologia praticada hoje?

N.P. — Sob a perspectiva de alguém que faz estudos de gabinete e, portanto, se vê na necessidade imperiosa de filtrar 100% de tudo que ouve, lê ou toma conhecimento de uma forma ou de outra, a situação hoje é simplesmente lamentável. Nos anos de 1950, 60, 70 e, até meados dos anos 80, ou seja, antes da internet em nosso país, e dessa parafernália tecnológica, tudo era feito com mais humildade, prudência, moderação e cuidados. Hoje impera a mediocridade, blablablá, corre-corre, exibicionismo e egos exaltados. É inacreditável como temos gente na ufologia com tanto espaço para ocupar e tão pouco para dizer.

C.T.S. — Sente-se satisfeito com tudo que fez na ufologia ou lhe falta algo?

N.P. — Ninguém que estuda seriamente esse fenômeno pode estar satisfeito com os resultados obtidos. Não temos uma única resposta conclusiva sobre coisa alguma. Logo, fico com minha assertiva: “O tempo passa, nós vamos embora, e o mistério continua…”

C.T. S — Quais orientações e conselhos que você daria aos jovens que estão iniciando as pesquisas ufológicas hoje?

N.P. — Só uma dica: Mantenham os pés pregados no chão, custe o que custar. Quem tira os pés do chão levanta voo e nunca mais aterrissa.

C.T.S. — Nelson, espaço para suas conclusões finais.

N.P. — Vamos lá.  Quando teorizamos sobre os alienígenas na tentativa de compreendermos sua presença em nosso planeta, três são os pontos básicos que norteiam nossas dúvidas e atormentam nosso espírito, não necessariamente pela ordem: a) Quem ou o que são? b) De onde vêm? c) O que querem aqui e, d) Quando vai terminar isso? Estas são as dúvidas que permeiam todo nosso trabalho levado a efeito sobre a presença alienígena entre nós. Contudo, a despeito de cinco ou seis décadas de enorme esforço despendido em nossos estudos, não temos avançado muito sobre o tema. A manifestação peculiar do fenômeno é um sério obstáculo interposto entre o estudioso e o objeto de seus estudos. Tudo porque não temos como colocar em prática um processo efetivo de abordagem sobre nossos hóspedes para conduzir um trabalho aprofundado de sua natureza. A investigação científica, qualquer que seja, para ser levada a cabo com proficiência, requer uma condição básica, imperativa, que é a de poder isolar seu objeto de estudo. Sem isto, sem abranger amplamente seu campo de ação, sem ter como pesar, medir, classificar, quantificar e qualificar, o estudioso poderá, quando muito, emitir um juízo parcial sobre seu trabalho, nunca conclusivo. O disco voador é assim, seu comportamento imprevisível não nos permite observá-lo sob condições de um amplo domínio de suas variáveis. Em suma, o quadro é desalentador! O que nos propomos fazer então, contando com uma boa dose de sorte, é tentar surpreendê-los em suas ações, registrá-las na casuística (isso tem sido feito ao longo do tempo em todos os recantos do planeta), estudá-la e teorizar sobre o que o futuro nos reserva. Golias contra o rei Davi! Pena que, neste caso, Davi está desarmado. Golias tem a força, a funda e a pedra.

O entrevistado Nelson Pescara nasceu em 17 de novembro de 1939 no bairro da Mooca, Zona Leste de São Paulo. Além de técnico industrial, é jornalista credenciado pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ). Cursou tecnicamente eletrônica, eletricidade, desenho mecânico e inglês. Tem como hobby o jogo de xadrez e a prática de astronomia amadora. É leitor voraz e cultiva o gosto de escrever. Têm contos e crônicas premiados no circuito Rio-São Paulo, consta de antologias e foi delegado de Literatura representando a Zona Oeste do Rio de Janeiro no Fórum Cultural de 1991 naquela cidade. Nelson é um obcecado estudioso do fenômeno ufológico desde a década de 70, tempos depois de se deparar com artigos publicados em série na extinta revista O Cruzeiro abordando casos da época. Posteriormente, dado seu interesse nos discos voadores, veio a conhecer o prof. Flávio Augusto Pereira, autor de O Livro Vermelho dos Discos Voadores, de cuja obra tem em sua estante um exemplar com dedicatória do autor. Embora faça um estudo sério e meticuloso da presença alienígena na Terra e seja o autor da teoria “nômades do sistema solar”, Nelson não tem livros publicados sobre o assunto. Modesto, considera que há muita gente boa e melhor preparada que ele para isso. Nelson tem um blog sobre Ufologia, Ciência & Tecnologia onde se pode consultar grande parte do seu trabalho na área: http://www.nelsonpescara.blogspot.com.br/

Nelson Pescara com seu telescópio diante de sua biblioteca.

7 thoughts on “Entrevista com o ufólogo veterano Nelson Pescara

  • 29/10/2019 em 23:33
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    Meu prezado amigo Cláudio T. Suenaga, você é, sem dúvida, merecedor de toda credibilidade que desfruta. E eu, agora, estou em dívida com você. Seu trabalho é sempre objetivo, sóbrio e voltado pra o interesse de seus leitores. Devo confessar que quando conversamos sobre a entrevista que você acaba de concluir e publicar, eu já esperava algo assim, que você iria indagar de mim não só o que venho fazendo na ufologia, mas também aspectos de minha vida pessoal, e até familiar. Ou seja, um retrato de corpo inteiro do entrevistado. Com isso, deu-me a oportunidade de apresentar-me diante do público em geral que acompanha a presença alienígena na Terra para falar um pouco do meu trabalho, e tornar-me um pouco mais conhecido. Sou-lhe grato por tudo.

  • 30/10/2019 em 09:54
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    Não se pode atribuir a um evento isolado ou uma determinada raça alienígena, um conceito generalizado de que é uma característica comum aos alienígenas, partindo da premissa falsa e equivocada de que todas elas são malignas.

  • 30/10/2019 em 10:00
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    Sem dúvida, caro Antonio Carlos. Mas o entrevistado Nelson Pescara, que certamente tem uma noção clara disso, quis relevar esse aspecto, que eu mesmo reforcei em vários artigos na revista UFO, Sexto Sentido, em outras publicações e aqui neste site. É a linha de Salvador Freixedo, que aliás insinuava que mesmo os aliens que pareciam “bonzinhos”, como nos casos de contatismos, não estariam na verdade agindo subrepticiamente, nos prejudicando e semeando a confusão.

  • 30/10/2019 em 10:03
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    Sou eu quem lhe agradece por conceder a entrevista, caro Nelson. E acho que os leitores também estão gratos, pois há muito queriam conhecer mais sua história e suas ideias. Grande abraço.

  • 07/12/2019 em 08:50
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    Deixa eu te contar uma coisa a título de esclarecimento: ao longo de décadas o fotógrafo Almiro Baraúna fez várias cópias impressas de suas fotografias e as distribuiu a variadas pessoas. Não há nenhuma garantia de que o ufólogo Pescara possua justamente aquelas que passaram pelas mãos do presidente Juscelino Kubitschek, como dito aqui e em suas palestras. Há várias cópias impressas do negativo circulando por aí.

  • 30/04/2020 em 13:37
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    Admirável trabalho, Suenaga. Continue com a pena afiada. E foi uma grande honra encontrar, por meio da entrevista, o legado do sr. Nelson Pescara. A sensação é dum coleguismo admirável, de que não estamos totalmente sozinhos nesses estudos, e é sempre bom encontrar veteranos que estiveram, pasmem, próximos em sua juventude ao sr. Aladino Félix! Sr. Pescara, sua sobriedade é contagiante. Belo espaço mantém aqui Suenaga, até mesmo o colega Alexandre Borges, que fez excelente e detalhada, a mais completa até então, pesquisa sobre o caso da Ilha da Trindade, aparece para tecer comentários. Seu sítio é muito bem povoado. Mantemos a luta e, quem sabe, encontremos as perguntas e respostas corretas para decifrar o enigma que nos une. Saudações a todos!

  • 27/05/2020 em 23:38
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    Obrigado caro Schramm. Abraços.

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