A queima de arquivo do Museu Nacional: o passado para sempre perdido e o futuro comprometido

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

O Fórum de Ciência e Cultura do Museu Nacional em foto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga.

O Museu Nacional na Quinta da Boa Vista, em São Cristovão, Rio de Janeiro, a primeira instituição científica do Brasil, fundada há pouco mais de 200 anos por Dom João VI em 6 de junho de 1818, e que abrigava vastas coleções de História Natural, Etnologia, Antropologia e Arqueologia, foi destruído por um incêndio de grandes proporções na noite de domingo, 2 de setembro de 2018.

A quase totalidade de seu acervo histórico, que abrangia cerca de vinte milhões de itens catalogados, virou cinzas, e com eles as respostas de nossas origens, das de outros povos e de nosso passado desconhecido. Jamais teremos acesso aos registros que por falta de recursos sequer chegaram a ser digitalizados: palavras, conversas, cantos e rituais indígenas ancestrais, de línguas extintas que não existem mais, restos de fósseis, cerâmicas e espécimes raros que ainda aguardavam testes e exames laboratoriais – como análise de isótopos e sequenciamento do genoma -, negativos originais, cadernos de campo e outros manuscritos raros, um patrimônio natural e social único e insubstituível.

Não bastasse a contínua perda diária da diversidade biológica e cultural da Terra pelos efeitos devastadores da globalização em paralelo a um déficit permanente de pesquisa, investigação e documentação sobre tal patrimônio, o que resulta no empobrecimento das condições de nossa vida e na desintegração de nossas bases em comum, a falta das coleções científicas, das amostragens da realidade biológica e sociocultural que era preservada no Museu Nacional a servir como fonte primária para estudos sobre a compreensão dessa intrincada teia de conhecimento sobre a Natureza e as Sociedades Humanas, certamente atrasará em décadas, para não dizer séculos, se é que poderão ser de alguma forma compensadas, o avanço do conhecimento e o conhecimento da verdade.

Cláudio Tsuyoshi Suenaga diante de um esqueleto de preguiça-gigante e de um tigre-dente-de-sabre. Foto de Pablo Villarrubia Mauso.

Estive no Museu Nacional na Quinta da Boa Vista em 23 de fevereiro de 1996, acompanhado do jornalista, escritor e explorador espanhol Pablo Villarrubia Mauso. Examinamos parte de seu inigualável e imenso acervo, em que se destacavam peças marajoaras, artefatos pré-históricos diversos – como os instrumentos de corte datados de 300 mil anos, considerados os exemplares mais antigos da indústria lítica brasileira, encontrados na Toca da Esperança, próximo à cidade de Central, sertão da Bahia -, além das importantes coleções andina, egípcia e greco-romana.

Instrumentos de corte datados de 300 mil anos, considerados os exemplares mais antigos da indústria lítica brasileira, encontrados na Toca da Esperança, próximo à cidade de Central, sertão da Bahia. Foto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga.

Da coleção egípcia, a maior parte das peças remonta a 1826, quando o comerciante italiano Nicolau Fiengo ancorou no cais do porto do Rio de Janeiro onde expôs peças egípcias e de antiguidades clássicas, causando um enorme alvoroço na cidade. O Imperador Dom Pedro I arrematou-as em leilão e as doou ao Museu Nacional (então Museu Real). Em 1876, Dom Pedro II visitou o Egito, sendo presenteado pelo governo local com o sarcófago de Sha-amun-em-su – um dos poucos do mundo que ainda não foram abertos. Mais tarde, outros itens foram incorporados por doações e compras.

Maria da Conceição de Moraes Coutinho Beltrão segurando os instrumentos de corte datados de 300 mil anos. Foto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga.
Maria da Conceição de Moraes Coutinho Beltrão e Cláudio Tsuyoshi Suenaga. Foto de Pablo Villarrubia Mauso.

Entrevistamos a grande arqueóloga Maria da Conceição de Moraes Coutinho Beltrão, chefe do setor de Arqueologia do Museu e especialista em astroarqueologia, área na qual foi pioneira no Brasil. Beltrão nos esclareceu que ao contrário do que foi afirmado na matéria de Luís Pellegrini publicada na edição nº 38 da revista Planeta em novembro de 1975 (ver matéria completa no final do artigo), a múmia da princesa egípcia de 17 anos não tinha nenhuma maldição que provocava transes e alterava o estado das pessoas: “Isso é um mito que inventaram. Um dia apareceu aqui um rapaz, bem apessoado, de terno e gravata, em pleno verão, o que não é comum, e disse que tinha ficado noivo da múmia e trouxe um retrato para eu botar debaixo dela. O que existe é um erro grosseiro, e eu já avisei todo mundo que aquele sarcófago onde ela se encontra é de um sacerdote que viveu mil anos antes dela. Mas apesar disso ainda não tiraram a princesa de lá.”

A múmia da princesa egípcia de 17 anos com sua máscara de ouro. Foto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga.

O fogo: instrumento primitivo de destruição usado para apagar o conhecimento proibido

A biblioteca de Alexandria, a mais célebre, completa e frequentada da Antiguidade, destruída pelo fogo em 46 a.C., quando da conquista da cidade pelo general e ditador romano Caio Júlio César (102-44 a.C.), é apontada por Jacques Bergier como um dos primeiros alvos dessa conspiração.

Demétrio de Falera (nascido em Atenas entre 354 e 348 a.C.), foi o principal promotor de sua fundação, a pedido de Ptolomeu I, general de Alexandre Magno ou Alexandre, o Grande (356-323 a.C.), filho de Filipe II, educado por Aristóteles, tornado rei da Macedônia aos 20 anos e falecido precocemente aos 33 depois de, em rápidas campanhas, submeter a Grécia, atravessar o Helesponto e derrotar os persas de Dario III, assenhoreando-se da Ásia Menor e da Síria, conquistar Tiro e ocupar o Egito, onde fundou Alexandria (em 332 a.C.) no local onde existia a antiga Raconda dos egípcios, destroçar em Gaugamela (331 a.C.) um último exército que Dario III conseguira reunir e apoderar-se de todo o Império Persa, conquistando Babilônia, Susa, Persépolis e Ecbátana, atravessar a cordilheira do Hindocuch e penetrar na Índia, onde bateu o rei Porus, atingir o oceano Índico e regressar à Babilônia, escolhendo-a para capital do império. Procurou, então, consolidar, conquistar e organizar esse vasto império, tentando conciliar e fundir as culturas grega e persa. Traçava planos grandiosos, quando faleceu, vítima de febres. Deixou uma obra civilizadora de incalculável valor pelo desenvolvimento e intercâmbio das ciências, comércio, indústria e navegação. A biografia de Alexandre encontra-se em uma das célebres Vidas Paralelas, de Plutarco.

Fundador da Dinastia dos Lágidas, cujos membros usaram sucessivamente a dupla coroa do Egito durante quase três séculos após a morte do conquistador macedônio, Falera governou Atenas, partindo em seguida rumo a Tebas onde escreve vários livros, entre eles o que talvez seja “a primeira obra ufológica”, dezenas de séculos antes do surgimento dessa disciplina, intitulada Sobre o feixe de luz no céu. Em 297 a.C., com a ajuda de Ptolomeu I, instala-se às margens do Mediterrâneo, em Alexandria, onde pretende armazenar todos os livros até então conhecidos.

Pelos dados da época de César, a biblioteca chegou a contabilizar setecentos mil volumes – a maioria em folhas de papiro, um monopólio egípcio, sendo que Alexandria exportava tanto a matéria prima, o papiro virgem, como as cópias fiéis de obras do acervo – distribuídos em duas seções: uma, no bairro de Bruchion e outra, no Serapeion. A primeira pereceu nas chamas de César em 46 a.C., e a segunda, que se havia enriquecido com a bibliografia dos reis de Pérgamo, foi destruída no ano de 390.

Dentre as mais preciosas estava a de Beroso, um sacerdote babilônio refugiado na Grécia que descreveu o encontro que mantivera com os akpalus, deuses semelhantes a peixes. A História do Mundo – da qual restaram apenas alguns fragmentos – registrava em minúcias os ensinamentos dos seres provenientes do céu. Outras obras versavam sobre as origens do Antigo Egito, alquimia, sobre as obras de Pitágoras, Salomão, Hermes e Mocus (historiador fenício que, antecipando-se aos gregos, concebeu a teoria atômica). No tempo dos Ptolomeus, Alexandria chegou a ter 900 mil habitantes, entre gregos, egípcios e judeus, constituindo o empório comercial de todo o mundo conhecido e o centro mais notável da cultura antiga. A cidade estava ligada à ilha Pharos, na qual se erguia o célebre farol, uma das sete maravilhas da Antiguidade. Em Alexandria se reuniram os maiores cientistas e filósofos da época, que congregaram a afamada escola neoplatônica, na qual se procurou harmonizar as idéias do Oriente e do Ocidente.

Organizações paramilitares de início subterrâneas e mais tarde oficiais como os Freikorps (Corpos de Voluntários) do Reichswehr (Exército alemão) Negro ou a Jungdo (Jung Deutscher Orden – Ordem dos Jovens Alemães), criada em 1920 que combatia ao lado dos Freikorps e transformou-se depois em movimento político de inspiração mística e feudal, alcançando grande influência sobre o eleitorado jovem, fomentadoras e sustentadoras do movimento nazista, célebre pelos autos-de-fé, cerimônias públicas de queima de livros considerados hostis e perniciosos ao regime nazista (judeus, comunistas, pacifistas), as quais remetiam a caça às bruxas e ao ritual do exorcismo católico[1], contribuíram sobejamente para difundir o temor e a suspeita de que o saber vem sendo manipulado ao longo dos séculos. Seriam os incêndios causados por sicários dos mais variados centros de poder?

Queima de livros durante um auto de fé nazista em 10 de maio de 1933.

Os roteiristas do célebre e emblemático seriado Arquivo X até nisso revelaram que sabiam mesmo das coisas, daquelas verdades que estavam lá fora. Em vários episódios o fogo é usado por Canceroso e pelos conspiradores como instrumento de queima de arquivo. Vide o vigésimo e último do quinto ano, aquele que antecedeu e deu o mote para o primeiro longa (The X-Files: Fight the Future, de 1998), intitulado “O Fim – The End”. Nele, um membro da Agência Nacional de Segurança mata um russo jogador de xadrez durante uma partida contra um garoto com capacidade de ler os pensamentos das pessoas. No Canadá, nas montanhas de Quebéc, o Canceroso é perseguido e capturado por Krycek. Durante a observação da fita do crime, Mulder tenta provar sua teoria de que o alvo do atirador era o adversário do russo, o garoto Gibson Praise, que é seqüestrado pelo Canceroso, que o entrega ao Homem das Unhas Bem Feitas e Krycek. De volta ao prédio do FBI, o Canceroso, impiedosamente, para literalmente queimar o arquivo, põe fogo na sala do Arquivo X.

A sala do Arquivo X em chamas no final do episódio “The End”, levado ao ar pela primeira vez em 17 de maio de 1998.

Nota:

[1] Lenharo, Alcir. Nazismo: “O triunfo da vontade”, 4ª ed., São Paulo, Ática, 1994, p. 12 e 89.