Os 90 anos de A Filha do Inca e os 80 de Kalum, de Menotti del Picchia

Um dos mais completos, originais e versáteis intelectuais de seu tempo, Menotti del Picchia é mais lembrado como autor do poema Juca Mulato, que o consagrou para as letras em 1917, bem como por ter sido precursor dos movimentos modernista e integralista. Poucos se lembram, no entanto, que ele foi um dos pioneiros da ficção científica brasileira, forjador mesmo desse gênero tupiniquim, já que publicou, há exatamente 90 e 80 anos, respectivamente, A República 3000 (rebatizada depois como A Filha do Inca) e Kalum, duas obras que evocavam o progresso técnico-científico universal, na linha de autores como Arthur Conan Doyle e Henry Hider Haggard. Em A Filha do Inca, exploradores em plena selva com destino ao Alto Araguaia, no cerrado de Goiás, se deparam com uma cidade metálica, a República 3000, habitada por robôs anões ciclopes e com hélices nas costas, dirigidos por um chefe, o primeiro de uma raça totalmente lógica, descendente dos cretenses (da ilha de Creta, no Mediterrâneo) e dos incas de Manco Capac! E em Kalum, uma expedição descobre uma cidade futurista habitada por mulheres pequeninas, da estatura de crianças, lindas, louras e idênticas, que não eram senão descendentes de viajantes cretenses que naufragaram na Ilha de Marajó, os mesmos navegantes, cujo outro ramo havia fundado, em local mais favorável, a mítica República 3000!

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Menotti del Picchia lendo seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1942.

De extraordinária relevância para a ficção científica brasileira, forjador mesmo desse gênero tupiniquim, é Paulo Menotti del Picchia (1892-1988), um filho de imigrantes italianos nascido na capital paulista que de poeta parnasiano passou a precursor do movimento modernista, tendo participado em fevereiro de 1922 da Semana de Arte Moderna no Theatro Municipal de São Paulo e sido um dos fundadores da revista modernista Klaxon, muito embora, paradoxalmente, fosse um grande opositor desse movimento em termos estéticos e ideológicos, tanto que, juntamente com Plínio Salgado (1895-1975), Cândido Mota Filho (1897-1977), Cassiano Ricardo (1894-1974) e Alfredo Ellis (1850-1925), formou em 1926 o grupo puramente nacionalista Verde-Amarelo, que sustentava a exaltação das tradições culturais brasileiras em dissonância com o criticismo antropofágico do grupo Pau-Brasil liderado por Oswald de Andrade (1890-1954), Mário de Andrade (1893-1945) e Raul Bopp (1898-1984).

O grupo Bandeira, inspirado nas ideias do político, jornalista, bacharel em direito e pensador fluminense Alberto Torres (1865-1917), grupo esse que proclamava a necessidade de um governo forte, capaz de assegurar a coesão e a hierarquia sociais e de promover o culto às tradições nacionais e que foi o embrião político e ideológico do integralismo, foi formado justamente por egressos do Movimento Verde-Amarelo, entre eles Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo, Cândido Mota Filho e outros intelectuais. Menotti del Picchia, porém, cabe assinalar, jamais quis fazer parte da Ação Integralista Brasileira (AIB).

Naquele mesmo efervescente ano de 1922, Menotti del Picchia tornou-se redator político do jornal A Gazeta, órgão do Partido Republicano Paulista (PRP), do qual era membro e pelo qual se elegeu deputado estadual em julho de 1926 e se reelegeu em fevereiro de 1928. Quando em 1924 irrompeu na capital paulista o movimento revolucionário tenentista, liderado pelo general Isidoro Dias Lopes (1895-1949), Menotti del Picchia deixou o jornal e se uniu às forças legalistas, mantendo-se fiel ao governo do estado. Menotti del Picchia participou da Revolução de 1932 como ajudante de ordens do governador Pedro de Toledo (1860-1935) e escreveu um livro sobre 32 chamado A Revolução Paulista. Dos vários cargos públicos que exerceu, cabe destacar sua atuação como o primeiro diretor do Departamento de Imprensa e Propaganda (o famigerado DIP, órgão criado em dezembro de 1939 por decreto do ditador Getúlio Vargas) do Estado de São Paulo.

A versatilidade dos temas e da técnica refletem sua contínua inquietação ante os “dramas cósmicos” de seu tempo, que se manifesta desde o romance Flama e Argila (1920), apontado por Alceu Amoroso Lima (1893-1983), também conhecido como “Tristão de Athayde”, como o “dealbar do novo romance brasileiro”, até o Homem e a Morte (1922), que Mário de Andrade incluiu entre as obras fundamentais da Semana de Arte Moderna. Após 1922, renova completamente sua poesia com Chuva de Pedra (1925) e envereda por outras diretrizes como a música, a escultura, a pintura e o cinema, tendo fundado ainda nos anos 20 uma empresa produtora, a Independência Filmes. Paralelamente, era diretor de revistas populares de grande circulação, como a de variedades A Cigarra.

A sobrecapa de A Filha do Inca na Coleção Saraiva.

A República 3000, movimentado e surpreendente romance publicado em 1930, teve o título mais tarde alterado para A Filha do Inca pelo próprio Picchia, já que, segundo ele, República 3000 certamente confundiria o público, que o tomaria como um livro político. O progresso técnico universal é aqui maravilhosamente evocado. O sucesso da primeira edição do livro foi tamanha que se esgotou em curto espaço de tempo. O êxito no exterior não foi menos auspicioso. Na França teve a honra de instar uma comunicação à Societé d’Études Atlantiques e ser traduzida para o francês pelo notável escritor Pierre-Manoel Gahisto (1878-1948).

A capa de A Filha do Inca pela editora Civilização Brasileira.

A Filha do Inca segue a trilha aberta por autores clássicos como o novelista e historiador inglês Arthur Conan Doyle (1859-1930), autor de O Mundo Perdido [The Lost World (1912)][1] e criador do célebre detetive Sherlock Holmes, e do romancista inglês Henry Hider Haggard (1856-1925), autor de Ela, A Feiticeira [She (1887)][2] e As Minas do Rei Salomão [King Solomon’s Mines (1885)].[3]

Uma expedição, partindo do Rio de Janeiro, comandada por Paulo Fragoso, um erudito capitão do Exército, incursiona pelas selvas com destino ao Alto Araguaia, no cerrado de Goiás. Através dos sertões goianos, febres, feras e índios vão dizimando a caravana, restando apenas o Capitão e Maneco, um cabo simplório, uma espécie de Sancho Pança. Nos recônditos da selva, esbarram em uma imensa barreira de ossos de animais e de gente de todos os tempos, um potente “campo energético mortal”: “Eles estavam fechados dentro do anel de morte. Aquela barreira de esqueletos era uma misteriosa fronteira elétrica, riscada no coração do sertão brasileiro por mãos invisíveis e prodigiosas.”[4]

O semanário Die Zeit, de Hamburgo, em sua edição de 16 de abril de 1998, estampou uma notícia que nos trouxe imediatamente à memória essa inventiva do escritor. Durante a Primeira Guerra Mundial, o governo alemão construiu, na fronteira da Bélgica com a Holanda, uma cerca eletrificada de 180 quilômetros de extensão que acabou matando cerca de 3.000 pessoas. De acordo com Alex Vanneste, gramático e linguista da Universidade de Antuérpia que elaborou o relatório divulgado pelo Die Zeit, a função da cerca, pela qual circulava uma corrente de 2.000 volts, era a de impedir a entrada de espiões na Bélgica, então ocupada pelos alemães, e coibir o tráfico de mercadorias. A cerca eletrificada foi construída em 1915 e consumia uma quantidade enorme de energia, vinda de fábricas e geradoras locais. Muitas autoridades duvidavam da existência da cerca. Vanneste, porém, que escutou a história sobre a cerca eletrificada de um de seus parentes, localizou documentos e fotos comprovando que ela realmente fora construída. A cerca esteve viva na memória da população belga até os anos 60.

No romance, esse óbice carboniza os que tentam transpô-lo. Mas, por uma defasagem da barreira, a dupla ultrapassa-a e se depara com uma cidade metálica, a República 3000, habitada por robôs anões ciclopes e com hélices nas costas, dirigidos por um chefe, o “primeiro” de uma raça totalmente lógica, descendente dos cretenses (da ilha de Creta, no Mediterrâneo) e dos incas de Manco Capac:

“O monstro não disse palavra. Com a mão feita com dois membros longos, apertou um pequeno botão metálico de uma estranha caixa que trazia no peito. Ouviu-se no ar um pequeno silvo. Bruscamente voltou-se. Fragoso reparou que, nas pernas, atrás, as membranas dobradas não eram mais que duas asas articuladas com barbatanas e cartilagens. Viu-se desdobrarem-se dando ao monstro um aspecto de gaúcho com bombachas. Mais espantado ainda ficou quando notou que, nas costas, o estranho ser possuía uma caixa circular, metálica, dentro da qual se movia uma hélice. Sem que esperassem, a fantástica criatura deu um salto, a hélice vibrou, zunindo numa rotação incrível. Seu corpo alongou-se, vibrátil, afunilado e, desdobradas as asas tal qual as rêmiges de um aeroplano, librou-se no ar, horizontalmente, com o bico da testa feito proa ou leme. E, num relâmpago, sumiu-se no espaço.”

Ao final de A Filha do Inca, os robotoides ascenderam em revoada para as estrelas, em cena emocionante e poética, décadas mais tarde explorada por Steven Spielberg.

Nas palavras do jornalista e escritor Léo Godoy Otero (1927-2017), “eram a esses seres de poderes extraordinários, capazes de destruir, pela vontade, qualquer coisa, desprezando o homem comum, que se sacrificariam dois filhos de incas ali prisioneiros: uma linda jovem e seu irmão. Porém, o milagre da ciência há muito esperado acontece, isto é, a descoberta do domínio da antigravidade e o uso da energia cósmica, temas que a ficção científica explorará exaustivamente. Os homúnculos que andejavam pelos ares com hélices nas costas voam para o espaço, sem artefatos espaciais, eles próprios as naves, como Arthur C. Clarke um dia sugeriria. Os remanescentes humanos finalmente escapam para a civilização, encerrando essa bela aventura ‘premonitória’ cheia de força descritiva e lirismo.”

Exatamente dez anos depois de A Filha do Inca, Menotti Del Picchia retomou o gênero e retornou às selvas brasileiras pela segunda e última vez em Kalum, no qual valeu-se das mesmas fórmulas, embora optasse por uma história mais sombria e sanguinária.

Em Kalum, uma expedição alemã, científica e cinematográfica, chefiada pelo bravo e atlético Karl Sopof, parte para filmar os rituais canibalescos de uma tribo isolada de índios ferozes da Amazônia, os kurongangs (em japonês, curiosamente, kurô significa “preto”), cujo cacique é o psicopata Kalum. A expedição é aprisionada pelos kurongangs e Karl encontra vivendo em meio deles o padre D. Rui Colaço, ou melhor, o agora pajé Bogum, que só sobreviveu porque enganou os silvícolas com seus truques de mágica, enquanto seus companheiros de catequese haviam sido todos mortos.

Depois de várias peripécias, Sopof e Bogum empreendem uma fuga por uma passagem secreta sob as montanhas, mas já próximos do paredão de rocha, o velho padre é morto por uma flexada, ao passo que Karl, ao tropeçar numa pedra, aciona o mecanismo que abre o portal secreto na parede montanhosa, em cena que antecipou-se em décadas às dos filmes de Indiana Jones.

Aí é que começa a ficção científica, pois milhares de metros abaixo do solo, Sopof descobre uma cidade futurista habitada por mulheres pequeninas, da estatura de crianças, lindas, louras e idênticas e que, por conveniência, falam o bom português. A única de altura normal é a encantadora Elinor, que lhe conta que os habitantes daquela cidade, também chamada Elinor, não eram senão os descendentes de viajantes cretenses que naufragaram na Ilha de Marajó, os mesmos navegantes, cujo outro ramo havia fundado, em local mais favorável, a mítica República 3000!

Naquele reino subterrâneo, dotado de sofisticados sistemas de iluminação e circulação de ar, o povo de Elinor mantinha-se à salvo dos kurongangs. E era por meio de avançados receptores de rádio-televisão, que acompanhava a evolução dos povos do mundo. Devido ao isolamento, e sem a luz natural do sol, sua estatura foi se reduzindo ao longo das gerações.

Menotti del Picchia

A esperança de Elinor era, com a ajuda dos últimos homens remanescentes, à beira da extinção por terem se suicidado aos milhares, terminar de escavar uma passagem para o exterior que os levassem para bem longe dos temidos kurongangs. Será que Elinor conseguirá terminar essa empreitada a tempo de escapar da invasão e do ataque mortífero dos kurongangs?

Apesar do pessimismo e da fartura de sangue em Kalum, como escreveu o próprio Menotti del Picchia no prefácio, ele se entregou “à volúpia de imaginar coisas absurdas que fizessem sentido pelo menos como hipóteses de um futuro maravilhoso”.

Menotti del Picchia era ao mesmo tempo um homem de seu tempo – sobretudo, pois tomou parte em quase todos os eventos relevantes, muitas vezes de maneira destacada e influente – e um homem deslocado no tempo, sempre à sua frente, como se fosse uma espécie de guia antecipador.

Notas:

[1] Doyle, sir Arthur Conan. O Mundo Perdido, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1982.

[2] Haggard, Henry Rider. Ela, São Paulo, Círculo do Livro, s.d.

[3] IDEM, As Minas do Rei Salomão; trad. Eça de Queirós, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1992.

[4] Picchia, Menotti del. A Filha do Inca, São Paulo, Edição Saraiva, 1949.

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