Matriz de Matrix: As origens da ideia de que vivemos em uma realidade simulada

Quem não passou a questionar, depois de ter assistido Matrix, se o Universo inteiro não é uma mera ilusão projetada por um supercomputador em uma realidade na qual não temos acesso? A física quântica já demonstrou que o tempo e o espaço são ilusões perceptivas geradas pela mente em suas relações com a matéria e vem confirmando a cada dia que poderíamos estar vivendo de fato em uma Matrix criada por uma força divina ou uma supercivilização milhares ou milhões de anos à nossa frente

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Desde o sucesso do filme inaugural da trilogia Matrix, dos irmãos Wachowski, em 1999, não só físicos teóricos, mas também aquela porção majoritária da população que nunca antes discutira ou sequer havia ouvido falar em conceitos como realidade virtual, simulacro e simulação, nirvana, maya, transcendência, etc., passou a questionar a realidade tal qual vivemos e concebemos, despertando do transe e do sono letárgico tal como o personagem Thomas A. Anderson, programador da companhia de software Metacortex. Apelidado de Neo nos meios hacker, Keanu Reeves é um dos bilhões de seres humanos adormecidos e neuralmente conectados à Matrix, que é exatamente este nosso mundo simulado e feito de simulacros em que vivemos ou pensamos viver.

É de um paralelismo e ironia desconcertantes que um filme de ficção, um produto virtual, se tornasse o estopim e o principal veículo para a retomada daquela vaga intuição gnóstica que sempre tivemos de “que há algo de errado com o mundo”. A explanação de Morpheus (Laurence Fishburne) ao aturdido Neo, começa justamente por reforçar essa intuição: “Vou te dizer por que está aqui. Você sabe de algo. Não consegue explicar o quê. Mas você sente. Você sentiu a vida inteira: há algo errado com o mundo. Você não sabe o que, mas há. Como um zunido na sua cabeça te enlouquecendo.”

Em seguida, Morpheus descreve a Matrix como um sistema onipresente, que está “em todo lugar, à nossa volta. Mesmo agora, nesta sala. Você pode vê-la quando olha pela janela ou quando liga a televisão. Você a sente quando vai para o trabalho, quando vai à igreja, quando paga seus impostos. É o mundo que foi colocado diante dos seus olhos para que você não veja a verdade.” E “a verdade” é que “você é um escravo. Como todo mundo, você nasceu num cativeiro, nasceu numa prisão que não consegue sentir ou tocar. Uma prisão para a sua mente.”

Se a quase totalidade da humanidade prefere aceitar a Matrix como a realidade absoluta e inquestionável, é porque “a maior parte dos seres está tão inerte, tão arrebanhada, tão massificada, tão dependente do sistema, que não está pronta para acordar e fará tudo para proteger o sistema.”

As pessoas costumam agrupar-se em torno de modelos comuns na família, na religião, na política, na ciência, na escola, no trabalho, etc., instituições às quais vão se sujeitando para se configurarem apenas como uma simples peça para o funcionamento da máquina.

O enredo de Matrix é centrado na convicção gnóstica de que o mundo existente é estrutural e funcionalmente errado e que todas as criaturas se encontram escravizadas e aprisionadas, sob o domínio e o influxo de demiurgos, demônios e espíritos perversos. Em vão elas tentam rebelar-se, mas o falso deus deste mundo as sujeita continuamente à corrupção e à morte. A elevação do espírito, acima deste mundo, por meio do conhecimento superior, é a única chance de escape, sumamente dificultada pelos desejos humanos. E ainda que consiga superá-los, o homem não consegue fazer todo o bem necessário, já que não é o senhor absoluto de suas próprias ações. Como reconhecem os cristãos, todos são pecadores, e portanto não é possível ao homem libertar-se por conta própria, tendo o pecado incrustado na carne. A escravidão externa, sob o jugo da natureza, é agravada pela escravidão interna sob o jugo do pecado, sinônimo de morte.

Os budistas, por sua vez, acreditam que a libertação do sofrimento só pode dar-se pela extinção dos desejos, a que se chegaria pela compreensão de que eles não passam de ilusões dos sentidos. Sem desejo, o homem estaria pronto para o nirvana (“apagamento”, em sentido literal), o estado perfeito de suprema liberação e paz mental, livre de todo ódio, rancor, mágoa, medo, ignorância, inveja, vaidade, orgulho e outros estados aflitivos. A suprema felicidade humana consistiria, assim, na perda da individualidade, no mergulho na inexistência, no nada, o que significaria também o fim do ciclo samsárico de eternas reencarnações, em que nenhuma identidade pessoal ou limites da mente permanecem.

Jean Baudrillard

Além das fontes religiosas, os roteiristas de Matrix recorreram a estudos antropológicos, mitológicos, psicológicos e filosóficos diversos, mormente às ideias do filósofo francês Jean Baudrillard (1929-2007), que, mesmo à sua revelia, forneceu a maioria dos elementos do filme. Na acepção de Baudrillard, autor de livros referenciais como Simulacres et Simulation (Simulacro e Simulação, escrito ainda na década de 1970) e A L’Ombre des Majorités Silencieuses ou la Fin du Social; L’ extase du Socialisme (À Sombra das Maiorias Silenciosas: O Fim do Social e o Surgimento das Massas), “fazer advir um mundo real já é produzi-lo, já é algo como um simulacro”. Para ele, “o real nada mais é do que uma forma de simulação. O princípio de realidade é uma primeira fase, por assim dizer, do princípio de simulação. Meu postulado seria que não há real, o real não existe. Podemos objetivamente enquadrá-lo, fazer com que existe um efeito de real, de verdade, de objetividade, mas eu não creio no real. O virtual, nesse sentido, é apenas uma espécie de extrapolação extraordinária dessa tendência, que já é passar do simbólico, bem rapidamente, do simbólico ao real. Ao real que, de certa forma, é o grau zero do simbólico. O virtual, para mim, é um pouco o hiper-real, que foi meio recortado com a noção de hiper-realidade. Isto é, o mais real do que o real, no sentido de realidade virtual mesmo, aquela que seria perfeitamente homogeneizada, numerada, operacionalizada, aquela tomaria o lugar de outra parte porque é perfeita. Virtualmente perfeita. Podemos controlá-la totalmente, pois ela se torna digital. Não é mais uma realidade contraditória, é uma realidade perfeitamente controlável. Ela é, num certo sentido, mais objetiva do que a realidade, mais real do que o real. De fato, há uma ambiguidade, pois o termo realidade virtual é, ele próprio, muito ambíguo. […] Trata-se de um modo de desaparecimento do real, como o horizonte dos fenômenos da física. O virtual é o horizonte do real no sentido de que, no virtual, nada mais toma o lugar do real.” (Mots de Passe, film conçu par Leslie F. Grunberg et realisé par Pierre Bourgeois, Montparnasse Productions, Centreville Telévision, 1999).

Jordan Maxwell

Quanto ao apropriado termo Matrix, este teria sido retirado do documentário Matrix of Power, de 1989, escrito, produzido e apresentado pelo scholar norte-americano Russell J. Pine, mais conhecido como Jordan Maxwell (1940-), que também foi a fonte principal para o documentário Zeitgeist, escrito, dirigido e produzido por Peter Joseph em 2007 e que esteve no topo da lista dos vídeos mais assistidos no YouTube, com trinta milhões de acessos, bem como para o cultuado e premiado filme The Man from Earth (O Homem da Terra), do mesmo ano, roteirizado por Jerome Bixby [(1923-1988), mais conhecido por ter escrito os episódios “Mirror, Mirror” (1967) e “Requiem for Methuselah” (1969) para a série clássica Star Trek], dirigido por Richard Schenkman e estrelado por David Lee Smith, no papel do professor de história John Oldman.

Conspiracionista de maior peso e influência nos últimos quarenta anos e com amplo domínio em história das religiões, teologia, mitologia e etimologia, Maxwell vem se dedicado a desvendar os fundamentos e significados ocultos das religiões e das sociedades secretas bem antes que as teorias conspiratórias entrassem em voga nos anos 90. Suas explanações, espalhadas em dezenas de livros, centenas de palestras, conferências, programas de rádio e documentários televisivos, incluindo três especiais de duas horas para a CBS, têm servido de inspiração e orientação para inúmeros autores, entre eles David Icke, Dan Brown e Michael Tsarion.

Tecnologias cibernéticas e computacionais, softwares, Internet e realidade virtual andavam entrelaçadas com as religiões e seitas em geral, mormente com aquelas afinadas ao movimento New Age (Nova Era), ao ressurgimento místico-esotérico do final do milênio e a demanda desesperada por transcendência espiritual e salvação messiânica. Aparentemente antitético, esse casamento era em todo ideal pela total quebra de barreiras propiciada pela alta tecnologia que pela primeira vez na história humana oferecia a possibilidade de autênticas experiências espirituais. Modelos computacionais passaram a servir de base para o desenvolvimento de técnicas motivacionais e de auto-ajuda, com o cérebro e o próprio self sendo encarados como softwares reprogramáveis. A Internet, por si mesma, pela sua característica onipresente, sem um centro definido – o que corresponde à velha noção de divindade, um círculo cujo centro está em todas partes e cuja circunferência é nenhuma –, não deixava de configurar uma espécie de rede espiritual, uma religião das máquinas, ciberdivina.

Tanto que no mesmo ano de 1999 foi lançado um outro filme a ir até mais fundo do que Matrix em certos questionamentos – mas que devido ao sucesso retumbante deste e por não apelar a efeitos especiais “bullet-time” mirabolantes, acabou passando totalmente despercebido – ao pôr em cheque a condição humana e sugerir que não somos mais do que seres simulados eletronicamente (electronic simulated characters): The Thirteenth Floor (13º Andar), com direção e roteiro de Josef Rusnak, adaptado do livro Simulacron 3 (1964), de Daniel Francis Galouye (1920-1976).

Hannon J. Fuller (Armin Mueller-Stahl), presidente fundador da Intergraph Computer Systems, uma mega empresa de vanguarda em inteligência artificial que desenvolve um projeto de realidade virtual dentro de um ambiente de sistema computacional inovador capaz de sustentar um mundo simulado totalmente autônomo e que recria de forma realista a Los Angeles de 1937, época da juventude de Fuller, é assassinado logo no início. O detetive Larry McBain (Dennis Haysbert), interroga o sócio e melhor amigo de Fuller, Douglas Hall (Craig Bierko), bem como a jovem e linda filha de Hannon, Jane Fuller (a talentosíssima Gretchen Mol), que surge do nada como única herdeira da companhia. Ao vê-la, Hall se sente imediatamente atraído por ela e lhe pergunta de chofre se já não se conheciam de algum lugar, indicando ter experimentado um déjà vu. Era a segunda vez que não conseguia acessar suas memórias, pois não se lembrava também do que fazia no momento em que Fuller era assassinado.

Principal suspeito do crime, Hall já não tem certeza de sua inocência e resolve ir atrás da verdade mergulhando no mundo virtual criado por Fuller com a ajuda do programador Jerry Ashton (Vincent D’Onofrio), que de início reluta em transferir a consciência de Hall a esta realidade virtual onde os usuários acessam os seus avatares e interagem com outros seres virtuais sencientes, autônomos e autodidatas (fully formed self-learning cyber beings) que pensam e reagem como pessoas do mundo real sem saberem, no entanto, que vivem em um mundo virtual, que são apenas dados e impulsos elétricos em um computador.

A transferência se dá com a consciência do usuário sendo projetada no ciberespaço até incorporar-se ao seu avatar, que é a imagem e semelhança dele mesmo, um reflexo do seu caráter. Avatar (avatara, em sânscrito), aliás, é um conceito hindu que significa “descida de uma divindade do paraíso a terra” e a consequente aparência terrena desse ser celestial – em referência particular às dez formas de representação de Vishnu. Nesse processo de transferência, o usuário experimenta um outro fenômeno transcendente, o da bilocação, que é aquele quando uma pessoa é transferida em corpo e alma para um outro lugar longe da sua residência habitual até que a sua missão esteja cumprida, e regressa instantaneamente ao lugar onde habita, sem que os que convivem com ela percebam. Mas a pessoa que faz esta viagem conserva a lembrança do local onde esteve, assim como de todos aqueles que, vivendo lá onde esteve, viram-na e conviveram com ela, exatamente o mesmo que ocorre no filme.

A cada incursão, Hall se arrisca neste mundo simulado até que descobre que ele próprio estava vivendo em um mundo simulado surgido de dentro de outro mundo simulado. Uma simulação dentro de outra simulação, dentre milhares de outros mundos simulados! No final, ao ascender para um mundo superior, mais tranquilo, espiritual e etéreo, situado em 2024, ficamos sem saber se aquele era o mundo real ou apenas outra simulação.

Já em 1952, bem antes de Baudrillard e Maxwell, o norte-americano Philip Kindred Dick (1928-1982) fazia a sua estreia literária mergulhando no tema dos universos alternados e da realidade virtual – quando sequer se falava nisso – de forma magistral e empolgante. Em Os Olhos do Céu (Eye in the Sky), narra os acontecimentos passados na tarde de 2 de outubro de 1959, quando o engenheiro eletrônico Jack Hamilton e sete outras pessoas, incluindo sua bela esposa, sofrem um acidente em um acelerador de partículas na Califórnia, construído pela Comissão de Energia Atômica e destinado à investigação no campo dos fenômenos de raios cósmicos. Ao acordarem – quando na verdade encontravam-se ainda estendidos no chão de Belmont Bevatron à espera de socorro – veem-se em um mundo aparentemente em tudo igual ao nosso, a não ser pelo fato das neuroses, psicoses, crenças e dos desejos ocultos dos diversos personagens se tornarem “reais”, começando pelo fanático religioso que concebe a Terra como o centro do Universo, passando pelo racista, pelo purista e pelo comunista, em referências veladas porém explícitas às crenças irracionais, à Guerra Fria, ao macartismo – então em voga –, ao totalitarismo, etc. O problema é que não há maneira de identificar a priori quem dentre eles é o responsável em cada “realidade” pela exteriorização de suas ansiedades, condição premente para que o pesadelo acabe.

A questão instigante que se coloca é: não estaríamos também vivendo, sem saber, em uma espécie de realidade alternada, como no mito da caverna de Platão, aceitando as leis e as injunções de um mundo que por vezes nos parece absurdo mas que, sem questionarmos o âmago de nossas existências, aceitamos como natural e inerentes às nossas condições? Não seríamos, também, prisioneiro de um mundo de loucos?

As drogas consumidas por Dick desencadearam-lhe visões religiosas e colapsos nervosos. Os 35 romances e os seis livros de contos que escreveu, repletos de ambiguidades, paradoxos e personagens atormentados, subverteram as regras da ficção científica moderna, renovando-a. Dick antecipou um novo filão, o cyberpunk, que surgiria no início dos anos 80. No lugar de impérios alienígenas e monstros horripilantes, o que vemos agora é um futuro plausível, em que multinacionais mastodônticas e tentaculares controlam a humanidade. Em plena onda mística, naturalista e anticonsumista hippie de 1968, Dick lançou Sonham os Androides com Carneiros Elétricos? (Do Androids Dream of Eletric Sheep?), que seria filmado em 1982 com o título de Blade Runner (traduzido no Brasil como O Caçador de Androides, mas que literalmente significa O que Corre ao Fio de uma Navalha) pelo diretor britânico Ridley Scott (1937-). Dentre outros contos de Dick, destacam-se A Formiga Elétrica (The Electric Ant) e Recordamos pra Você por Atacado (We Can Remember it for You Wholesale), também levado ao cinema sob o título de O Vingador do Futuro (Total Recall), dirigido por Paul Verhoeven (1938-) em 1990.

Sob os efeitos do LSD, Dick resolveu viver dentro de uma obra de ficção científica a partir de 1974, certo de que o Império Romano não havia acabado e que vivíamos num mundo completamente falso e ilusório. A humanidade sempre teria estado sob o domínio de Roma e todos aqueles que percebiam essa realidade cruel era jogado aos leões. De certa forma, Dick antecipou em 25 anos o plot de Matrix.

Em O Maior Segredo: O Livro que Mudará o Mundo (The Biggest Secret: The Book That Will Change the World), de 1999, o inglês David Icke (1952-) lançou a mirabolante teoria – expandida em Filhos da Matriz: Como uma Raça Interdimensional Tem Controlado o Mundo Durante Milhares de Anos – E Ainda o Faz (Children of the Matrix: How an Interdimensional Race has Controlled the World for Thousands of Years-and Still Does), de 2001 – de que a elite religiosa, política e financeira mundial, os Illuminati, que também chama de Fraternidade Babilônica – por descender consanguineamente dos primeiros monarcas babilônios, cujos descendentes foram faraós egípcios, líderes da Grécia antiga e imperadores romanos –, é composta em sua maioria por seres híbridos humano-reptilianos que necessitam ingerir sangue humano (de preferência de bebês ou crianças loiras de olhos azuis e/ou cabelos ruivos, que teriam maior “energia”) para que o seu DNA híbrido não sofra mutação e vire humano em definitivo.

Para Icke, os reptilianos dominam o mundo utilizando-se de frequências distintas de nossa realidade, aprisionando-nos em nós mesmos (Realidade Matrix) em uma “volta” de tempo fabricada na qual o “tempo” é um círculo constantemente se repetindo, um ciclo interminável, um “eterno retorno”, impedindo-nos de ver a verdadeira realidade, fragmentando nossas mentes e reprogramando os fragmentos, utilizando as linhagens sanguíneas Illuminati para ativar, por meio de diversos canais (rádio, televisão, cinema, rituais, orações, competições esportivas, etc.) os programas mentais do fragmento que desejarem, a fim de levarem a cabo uma agenda mundial. Ao encontrar pontos fracos em nossa mente, eles conseguem “tomar o controle”. Uma vez possuída, aquela mente deixa de ser humana para ser totalmente reptiliana, tornando-se mero veículo para que essas entidades manipulem esta realidade.

Icke explica que a Matrix ganhou vida própria quando acessou uma fonte de energia própria: o medo gerado pelas mentes consciente e inconsciente aprisionadas em uma ilusão que acreditam ser “real”. Esta Matrix estaria gerando esta estreita faixa de frequência chamada luz visível, a falsa realidade que está sendo decodificada para o que parece ser a verdadeira e única realidade.

Em todos os planos da Matrix, cada um age conforme “seus sistemas de mundo”, que acabam gerando suas crenças e seus comportamentos. Tudo o que observamos não são mais do que nossas criações mentais, ilusões que nós mesmos criamos e pensamos ser reais. Em última instância, nós mesmos estamos criando ilusões ou tendo a ilusão programada para acreditar que elas sejam reais. Se o real tomado como imperativo categórico de real absoluto nada mais é do que aquilo “que você pode sentir, cheirar, provar e ver”, então o “real” não passa de “sinais elétricos interpretados pelo cérebro”.

Max Planck (1858-1947), o pai da física quântica, já havia chegado à conclusão de que “não existe o que chamamos de ‘matéria’. Toda matéria surge e existe apenas em virtude de uma força que leva as partículas de um átomo a vibrar e manter equilibrado esse diminuto sistema solar que é o átomo. Temos de aceitar a existência de uma mente consciente e inteligente por trás dessa força. Essa Mente é a matriz de toda a ‘matéria’.”

Posto que os sistemas quânticos são inerentemente indeterminísticos, a descrição mecânica de todos os sistemas físicos, inclusive o cérebro, torna-se imprecisa. O princípio da incerteza formulada em 1925 pelo físico alemão Werner Karl Heisenberg (1901-1976), permite usualmente uma gama de resultados possíveis para qualquer estado físico dado, de modo que a consciência, ou a mente, é quem, em última instância, decide qual das alternativas disponíveis se leva realmente a cabo.

Na acepção de William A. Tiller (1955-), professor emérito de Ciência Material e Engenharia da Universidade de Stanford, não existem “leis”, apenas possibilidades infinitas: “Quando chegamos nas fronteiras de nossa compreensão, podemos de fato deslocar as leis de tal forma que nós estamos criando a física enquanto caminhamos.” A realidade, assim, nada mais seria do que aquilo que você pensa que é ou aquilo que você foi programado para acreditar que seja, nada mais do que o acionamento das possibilidades quânticas em eventos reais da experiência.

Vemos apenas o que estamos condicionados a ver e moldamos de acordo com nossas crenças tudo aquilo o que contradiz esse condicionamento. Implantar crenças, aliás, é tudo o que os manipuladores têm feito ao longo da história para dominar, controlar e escravizar a massa, pois é por meio da crença que definimos a nossa realidade.

O físico teórico norte-americano Michio Kaku (1947-) analisou o comportamento da matéria em escala subatômica e percebeu que a parte afetada pelo semi-raio primitivo de táquions, um minúsculo ponto do espaço, estava totalmente livre de qualquer influência do Universo, matéria, força ou lei: “Cheguei à conclusão que estamos em um mundo feito por regras criadas por uma inteligência, não muito diferente do seu jogo preferido de computador, mas, claro, impensavelmente mais complexa. Acredite, tudo que nós chamávamos de casualidade até hoje, não fará mais sentido. Para mim, está claro que estamos em um plano regido por regras criadas, e não moldadas pelo acaso universal.”

Um dos pioneiros da física digital, o norte-americano Edward Fredkin (1934-), físico do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), está certo de que o universo inteiro que percebemos não passa de um programa de computador, mais precisamente um tipo de programa conhecido como “autômato celular”, no qual os padrões se formam e evoluem em uma grade segundo uma regra simples. Se pudermos determinar qual é o tipo de grade correta e a regra correta, segundo Fredkin, poderemos ser capazes de moldar o Universo e toda a sua física.

O pesquisador das religiões, literato, escritor, publicitário, cartunista, artista plástico e editor Bira Câmara (1950-), por sua vez, alerta para que tenhamos cuidado com toda essa confiança que se deposita na física quântica “pois suas conclusões podem nos levar facilmente a aderir a uma nova forma de pensamento mágico, que também não leva a nada.” Câmara desenvolveu um raciocínio próprio e chegou a uma conclusão estarrecedora: “Não vivemos na Matrix, pois viver significa sermos reais, essência vivente e pensante; mas nossa essência (consciência) está eclipsada, soterrada, e somos apenas aquelas imagens criadas artificialmente na tela do computador (como peças no tabuleiro do xadrez). Quando um dos jogadores (nossos manipuladores, Deus ou entidades) perde, somos varridos para a lixeira do HD, reciclados, repaginados, e devolvidos para cá para continuarmos a ser manipulados por estas… coisas que não sabemos o que são, e às quais damos os nome de deuses, espíritos, anjos ou demônios. E a cada reciclagem esquecemos de tudo, e tudo o que fizermos nesta vida não significará nada. Nossos nomes, individualidades, personalidades, serão meras ilustrações para lendas que se perpetuarão na memória programada dos avatares que desempenham o jogo disputados por ELES (que provavelmente jamais saberemos quem são). O buraco é muito mais em baixo do que sonham os escritores de ficção científica.”

O autor deste artigo em uma conversa animada com Bira Câmara (à esq.) em seu ateliê no centro de São Paulo.

Depois de ter tomado umas “canas” para relaxar, conforme brincou, o cérebro de Bira Câmara disparou e foi muito mais além do que qualquer pensador ao depreender que “O hardware é finito e não pode ser reciclado, mas o software (alma ou consciência) sobrevive e é reescrito para ser gravado sobre outro disco rígido zerado e recomeçar tudo de novo (o eterno retorno, o vir-a-ser contínuo)… ‘Eles’ (quem são?) precisam de nossa fagulha (alma ou consciência) para dar continuidade ao video game, distribuindo-nos papéis, para desempenharmos nessa comedia del l’arte, que chamamos de vida. Para nos manipular melhor, inventaram mentiras como ‘céu’, ‘paraíso’, ‘evolução’; contos de fada que a humanidade tem engolido desde que levantou a cabeça para o céu e começou a fazer perguntas.”

O ser humano, para Câmara, está irreversivelmente imerso em uma tragédia inata como foi percebida e encarnada pelo escritor italiano Italo Calvino (1923-1985) em seu personagem amorfo de O Cavaleiro Inexistente (1959): “embora dotado de consciência, não tem qualquer personalidade ou identidade: o mundo é seu espelho, transforma-se em tudo o que ele vê, numa panela, numa árvore, num porco, e segue sua (não) existência, vivendo através dos outros, dos animais, das coisas inanimadas. É o coadjuvante do cavaleiro inexistente, uma armadura sem nada dentro…” Um dos pensamentos mais famosos de Calvino complementa o mote de O Cavaleiro Inexistente: “Não podemos conhecer nada de exterior a nós próprios que nos supere (…) o universo é o espelho em que podemos contemplar apenas o que aprendemos a conhecer em nós.”

Ante minhas insistências quanto a fornecer uma saída para esse deprimente estado em que o ser humano se encontra, Câmara, como um legítimo avatar, respondeu: “Se eu tivesse resposta pra isso, já teria resolvido todos os meus problemas… Mas tenho a impressão que a solução já foi encontrada por Buda: o desapego, a cessação de qualquer tipo de desejo. É o desejo que cria todas as nossas desgraças e gera o karma, mantendo-nos presos na roda da reencarnação. Como o universo que conhecemos é uma simulação, um jogo de eterno vir-a-ser, o único jeito de escapar dele (me parece) é permanecer totalmente alheio ao jogo, não participar dele, não alimentar desejo algum, não se envolver com nada e, também, não alimentar nenhum tipo de sentimento.”

Por fim, Câmara nos acena com uma perspectiva nada animadora: “Os niilistas na verdade são otimistas. O nada, a extinção total seria melhor do que as trevas de ignorância e ilusão que nos aguardam do outro lado.”

Nick Bostrom (1973-), filósofo sueco da Universidade de Oxford, considera a probabilidade de estarmos vivendo em uma Matrix ou realidade simulada criada pelos seres humanos do futuro em supercomputadores (com o mesmo poder de processamento do cérebro humano) para simular a vida de seus ancestrais. Desta Matrix, no entanto, ao contrário da de Neo, não seria possível sair, já que nossos corpos não existiriam e não passariam de meros impulsos eletromagnéticos em um computador vivendo com uma noção de realidade completa e fechada. Bostrom chama essa raça avançada de “pós-humanos”, que tanto pode estar vivendo cinquenta anos como cinco mil anos no futuro. Nesta simulação estaria a resposta para a velha pergunta de por que Deus permitiria tanto mal no mundo. No final das contas, não seria Ele cuidando de nós, e sim meros seres humanos apenas mais avançados tecnologicamente. Sendo Deus um ser ilimitado, causa estranheza que tenha criado para nós um mundo tão limitado, o que seria explicado pelo limite do poder computacional para a criação de tais simulações. A mensagem de erro, de falha na Matrix, seria afinal um apocalipse muito menos escatológico e mais plausível do que o Armageddon.