O desconcertante enigma do Navio de Pedra de Masuda

Destoante dos padrões e estilos xintoístas e budistas, Masuda-no-iwafune (“Navio de Pedra de Masuda”), no topo de uma colina em meio a um bairro residencial na vila de Asuka, no distrito de Takaichi, província de Nara, é um dos monumentos megalíticos mais estranhos e misteriosos do Japão. Esculpido em um único bloco de granito de cerca de 800 toneladas, aplainada na parte superior, onde há duas cavidades quadradas escavadas, e com recortes em alto-relevo em forma de treliça nas laterais, evoca uma alta civilização desconhecida que desapareceu sem deixar rastros e até visitantes de outros mundos, como querem os adeptos da teoria dos deuses astronautas. Este autor conseguiu localizar o “Navio de Pedra de Masuda” e lá esteve, no que traz a partir de agora todos os detalhes recolhidos nessa inebriante aventura.  

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga (texto e fotos) e Alexandre Akio Watanabe (fotos com a presença de CTS)

Asuka é uma vila localizada no distrito de Takaichi, na província de Nara, que era a capital e o centro político do Japão no século VIII e por isso possui muitos túmulos imperiais e é um dos sítios arqueológicos mais ricos do país. Asuka pode ser alcançado de carro pela Rota 169 ou a partir da estação de Asuka, pela linha Kintetsu Yoshino Line.

Partimos da estação de Fukumachi, em Osaka, e dali fomos de Nishikujo a Namba, de Namba a Tsuruhashi, e com rápido expresso de Tsuruhashi a Yamato Yagi, e finalmente de Yamato Yagi a Asuka. Para chegar mais próximo de Masuda-no-iwafune, tivemos ainda de percorrer uma estação até Okadera. Muitas baldeações, uma rotina um tanto maçante com que todo viajante e aventureiro tem de se habituar aqui no Japão devido a sua intrincada malha ferroviária que se espraia para todos os cantos e direções como uma emaranhada teia de aranha.

A chegada na estação de trem de Asuka, a primeira parada rumo ao misterioso desconhecido.

Asuka ganhou o status de “cidade histórica” em 1966 junto com Quioto, Nara e Kamakura. Conforme definido pelo Acordo Nacional de Preservação de Locais Históricos, restringe-se construções e outras operações de engenharia civil nas áreas de preservação. Ao mesmo tempo, para efeito de melhor administração dos sítios arqueológicos e estabelecimento de regras adequadas de visitação, o governo começou a construir o Parque Histórico Nacional de Asuka, concluído somente em 1994.

Aninhada entre as colinas de Nara, Asuka remonta ao período Kofun ou Tumulus (250-552 d.C.)uma era da história japonesa caracterizada por um tipo particular de túmulo em forma de buraco de fechadura, cercado por fossos – e abriga algumas das esculturas de pedra mais intrigantes do Japão. A área atrai turistas por seus muitos templos xintoístas, budistas, santuários e estátuas, mas é um monumento de pedra em uma das colinas que cercam Asuka que se sobressai por não se encaixar nos padrões e estilos xintoísta e budista. Ignora-se completamente, portanto, quem o construiu ou quando.

Masuda-no-iwafune, que literalmente significa “Navio de Pedra de Masuda” (em inglês, “Rock Ship of Masuda”), como é chamado, fica no topo da encosta de uma colina em meio a um bairro residencial, a poucas centenas de metros a oeste da estação Okadera e defronte a um conjunto habitacional de prédios populares. O nome é devido à sua semelhança com um navio, um singular navio, diga-se de passagem.

Ao sairmos da estação Okadera, tivemos de margear uma avenida sem calçadas por um longo trecho, arriscando-nos a ser atropelados por veículos que passavam triscando. Já era o final da tarde e antes que escurecesse de vez não tínhamos tempo a perder, daí que seguíamos em passos rápidos e fomos cortando um conjunto habitacional popular, semelhante aos das periferias do Brasil, mas bem diferente no que tange a limpeza, organização, conservação, placidez e quietude, o que lhe dava ares nobres. A caminhada por uma densa floresta de bambus para chegar à pedra contribuiu para aumentar a estranheza da experiência.

Uma placa indicava a direção de Masuda-no-iwafune. Uma ilustração em forma de pictograma não deixava dúvidas quanto a isso.

Passando por um conjunto habitacional popular a caminho de Masuda-no-iwafune.
Uma pintura no asfalto do “navio de pedra” indicava a proximidade do monumento…
E o coelho de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, nos convidava a subir a trilha rumo ao fantástico…

E depois de enfrentarmos a íngreme subida, ao final da trilha…
…eis que surge o colossal monumento de Masuda-no-iwafune em meio a uma floresta de bambus!

Cláudio Suenaga apontando para o monumento megalítico de Masuda-no-iwafune.

Feito de granito sólido e pesando algo em torno de 800 toneladas, Masuda-no-iwafune mede 11 metros de comprimento, 8 metros de largura e 4,5 metros de altura. A parte superior foi totalmente aplainada e nela se escavaram duas cavidades quadradas com cerca de um metro quadrado cada um, recortadas por uma linha de cumeeira paralela aos dois orifícios. Na base da pedra, há recortes em alto-relevo em forma de treliça que, acredita-se, estão relacionados ao processo usado pelos construtores para achatar os lados da rocha.

Cláudio Suenaga diante do monumento megalítico de Masuda-no-iwafune, rodeado por uma floresta de bambus.

Os recortes em forma de treliça na lateral do monumento de Masuda-no-iwafune, remanescentes do processo de desbastamento da pedra, vistos mais de perto.

Como, por que e para que essa pedra colossal foi esculpida permanece um enigma total. Nada tem ele a ver com as esculturas budistas posteriores dos templos e santuários nos arredores, mas talvez tenha conexão com os vários kofuns ou túmulos próximos, como o kofun de Takamatsuzuka (“Monte de enterro antigo de pinheiros altos”), um antigo túmulo circular de duas camadas na vila de Asuka, dentro do Parque Histórico Nacional e Governamental de Asuka, onde também estivemos. Você pode conferir a matéria completa a respeito aqui.

Uma pista é que Masuda-no-iwafune tem uma certa semelhança em sua construção, não propriamente em seu formato [que lembra o de uma televisão antiga de tubo CRT (Cathode Ray Tube)], com outro enigma de pedra no Japão, no qual também estivemos e cujos detalhes revelaremos em breve: Ishi-no-Hōden, na cidade de Takasago (na província de Hyogo, região de Kansai), que embora esteja sob a jurisdição do templo xintoísta Oshiko Jinja, nada tem a ver com ele e ninguém sabe na verdade quem o esculpiu, por que e para que, mas o fato é que, tal como Masuda-no-iwafune, possui sulcos semelhantes nas laterais e duas cavidades no topo da rocha, mesmo que eles não sejam visíveis, ocultos que estão sob árvores que cresceram nelas. O bloco de pedra de Ishi-no-Hōden mede 6,45 m x 5,7 m x 5,45 m e pesa 500 toneladas, tendo sido esculpido direto na rocha bruta com ferramentas desconhecidas, em um processo de desbaste.

Cláudio Suenaga diante de Ishi-no-Hoden.

Por qual motivo esculpiram a rocha de Masuda-no-iwafune e para que propósito? Quem, quando e por que? Teria tido alguma finalidade cerimonial? Poderia ter sido usada para ritos de fertilidade ou sacrifícios animais e até humanos? Infelizmente, não há respostas definitivas para essas perguntas, mas inúmeras sugestões foram apresentadas para explicar essa estrutura única e incomum.

Visto aqui mais do alto, de outro ângulo, podemos discernir a precisão e o capricho com que o granito foi cortado, como se fosse manteiga, para dar forma de “navio” ao monólito. Não se trata propriamente de um navio, obviamente, mas de algo possuidor de linhas aerodinâmicas, um veículo antigravitacional, talvez, para os propensos a extrapolações.

Por esse ângulo na parte posterior, pode-se ver como a pedra foi “alisada”, tanto que só foi possível escalá-la com o auxílio de uma vara de bambu.

Com o auxílio desta vara de bambu, escalei a pedra e cheguei ao topo do monumento, totalmente alisado e aplainado.

Lá no topo, pude fotografar bem de perto os cortes e as ranhuras na pedra. Teria sido Masuda-no-iwafune usado para fins rituais, cerimoniais e sacrificiais? Teriam sido essas cavidades usadas para armazenar e fazer escorrer o sangue dos imolados? Ou simplesmente esses “tanques” foram usados para produzir saquê, a bebida tradicional do Japão à base de arroz?

Alguns sugeriram que o local tenha sido um ponto de observação astronômica. É interessante notar que a depressão central e os buracos quadrados em Masuda-no-iwafune estão alinhados e correm paralelos ao cume da montanha em que se assenta, o que indicaria que essa pedra específica pode estar relacionada ao desenvolvimento do calendário lunar japonês. Além disso, o cume do topo da rocha está alinhada com o pôr do sol em um determinado dia do ano chamado “Entrada da Primavera”, que ocorre 13 dias após o solstício da Primavera e é chamado de “Brilho Puro”. Esse dia era importante no calendário lunar e na agricultura japonesa, pois assinalava o início da estação agrícola.

Minha bússola sobre o monumento, apontando para o Norte e indicando possíveis correlações astronômicas.

Já outros aventaram que a rocha se constituiria nos restos de uma tumba projetada para membros da família real, ou apenas a entrada de uma tumba inacabada. Isso, no entanto, não explica os orifícios quadrados na parte superior.

Houve quem sugerisse que a estrutura possa ter sido feita para comemorar a criação do lago Masuda, que mais tarde foi drenado, ou seja, não passaria de um monumento memorial.

Apesar do nome, Masuda-no-iwafune não está relacionado, indubitavelmente, à navegação fluvial ou marítima.

Quanto mais se observa Masuda-no-iwafune, vislumbrando-o de outros ângulos, mais hipóteses fantásticas são sugeridas…

Muitos astroarqueólogos e adeptos da teoria dos antigos astronautas, como Takeharu Mikami e Giorgio A. Tsoukalos, visitaram o local recentemente e aventaram que Masuda-no-iwafune seria a representação de um disco voador ou veículo assemelhado.

As dificuldades para a obtenção de dados mais detalhados sobre o monumento residem no fato de a região ser de clima subtropical, o que oferece problemas com técnicas padrão de datação radiométrica, bem como a ausência de história escrita nas áreas rurais.

Sakahuneishi em 1916.

A resposta para o enigma de Masuda-no-iwafune pode estar nas vizinhanças e ser surpreendentemente simples, como o de Sakafune-ishi (também grafado como Sakahuneishi), a poucos quilômetros dali, na mesma vila de Asuka.  Igualmente situada no topo de uma colina em meio a uma floresta de bambus, Sakafune-ishi é uma laje de granito com 5,5 metros de comprimento, 2,3 metros de largura e 1 metro de espessura. Sua superfície superior é marcada com entalhes e ranhuras circulares. Perto dali, há uma estrutura de pedra em forma de tartaruga, que aparentemente foi usada para reter e liberar água. A água entra na cabeça da tartaruga, é mantida na seção da concha e flui para fora da cauda. A laje lisa de granito apresenta ranhuras e cavidades em seu topo aplainado que facilitavam a produção de saquê (aguardente fermentada tradicional do Japão, produzida à base de arroz), conforme ficou comprovado pela descoberta de drenos de pedra e tubos de madeira nas suas imediações. Teria tido Masuda-no-iwafune a mesma finalidade, ou seja, a produção de saquê?

O monumento de Sakahuneishi, usado na produção de saquê. Fonte: romaniamegalitica.blogspot.com
Estes sulcos ou “canaletas”, pelos quais líquido poderia escorrer, indicariam que o monumento de Masuda-no-iwafune, tal como o de Sakahuneishi, também teria sido usado para a produção de saquê?

Talvez não encontremos respostas para mistérios como esse porque tendemos a olhar tudo com os olhos do século XXI, sobretudo com o olhar ocidental. A nossa falta de familiaridade com as antigas práticas culturais japonesas nos mantém míopes aos verdadeiros propósitos e significados potencialmente óbvios por trás deles.

Embora grande parte do nosso entendimento de hoje venha do trabalho de pesquisadores e arqueólogos nativos do Japão, esse aspecto pode não ter muito peso, já que a arqueologia praticada nessa parte do mundo não se coaduna com a de outros lugares. A rápida mudança dos sistemas linguísticos e o hábito inicial da história revisionista e religiosa politicamente motivada, adicionada à relutância dos habitantes locais em confiar em pessoas de fora, dificultam sobremaneira os esforços para explicar ipso facto o real significado desses artefatos antigos.

No final, a verdadeira origem e história podem ser perdidas com o passar do tempo. Podemos aprender muito com o estudo de tradições, costumes e idiomas antigos, mas nem tudo sobrevive à longa marcha dos tempos.

Meu colega de explorações pelo Japão, Alexandre Akio Watanabe, ao lado de Masuda-no-iwafune.

2 thoughts on “O desconcertante enigma do Navio de Pedra de Masuda

  • 17/03/2020 em 13:02
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    Boa tarde.
    Descobri o seu site à pouco tempo. Estou maravilhado com tanto conhecimento, tudo feito de maneira séria e profissional.
    Mais pessoas precisam conhecer seu trabalho. Acaso nunca cogitou em levar esse conhecimento ao YouTube?
    Grande abraço.

  • 17/03/2020 em 16:01
    Permalink

    Caro Daniel, agradeço imensamente por suas palavras. Sem dúvida gostaria de ampliar e divulgar muito mais este trabalho que faço solitariamente e sem remuneração, mas tenho de me dedicar a outro trabalho, este sim para sobreviver, que me ocupa a quase integralidade de meu tempo. Só posso contar com a ajuda, a boa vontade e o denodo de outros para fazer esta divulgação. Conto com seu apoio também. Abraços.

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