Os 180 anos do Manuscrito 512 e da busca incessante de sua cidade perdida

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Uma das mais procuradas cidades perdidas do Brasil até hoje é a que está descrita no documento guardado sob o nº 512 em um cofre da Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional. O documento mais requisitado de toda a instituição era encontrado há 180 anos atrás, em 1838 – já bastante corroído pela passagem do tempo –, pelo médico, biólogo e naturalista carioca Manuel Ferreira Lagos (1816-1871), chefe da Seção de Zoologia do Museu Nacional, que o entregou à tutela do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), que por sua vez o entregou à guarida da Livraria Pública da Corte, a atual Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Seguem abaixo as 10 páginas do Manuscrito 512, retiradas diretamente do PDF disponível na Biblioteca Nacional:

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Relação historica de huma oculta, e grande Povoação, antiguissima sem moradores, que se descubrio no anno de 1753, é o título do Manuscrito 512 que começa falando de uma comitiva que “havendo dez annos de que viajava pelos certões, a vêr se descubria as decantadas minas de Prata do grande descubridor Moribeca, que por culpa de hum Governador se não fizerão patentes, pois queria lhe uzurpar-lhe esta gloria e o teve prezo na Bahia até morrer, e ficarão por descubrir.” Moribeca ou Muribeca era o apelido dado pelos índios a Melchior (ou Belchior) Dias Moreyra (1540-1619), filho de um aventureiro português com uma irmã da índia Paraguassú (a Pocahontas da América do Sul), a qual havia se casado com o náufrago português Diego Alvarez (Diogo Álvares Correia, 1475-1557), alcunhado de “Caramuru” (palavra tupi que significa “moreia”, peixe do mar de mordida perigosa).

O livro A Expedição Fawcett, compilada dos manuscritos, cartas, diários e registros do Coronel Percy Harrison Fawcett (1867-1925) pelo seu filho mais novo, o engenheiro Brian Fawcett (1906-1984), autor dos magníficos desenhos que abrem cada capítulo, das notas e dos textos explicativos, começa justamente contando a saga de Robério Dias, filho de Muribeca:

“Descobridor de muitas minas de prata, ouro e pedras preciosas, Muribeca tinha um filho chamado Roberio Dias, o qual, moço ainda, conhecia as minas donde se originava a fortuna do pai. Cerca do ano 1610, Roberio Dias procurou o rei de Portugal, d. Pedro II, e ofereceu-lhe as minas em troca do título de Marquês das minas. Êle mostrou ao rei um pedaço de minério com grande teor de prata e, para tentar o soberano, prometeu entregar-lhe mais prata do que havia de ferro em Bilbau. O rei não acreditou em tudo o que disse, porém a ganância pelo tesouro foi sobremodo forte. Tratou de elaborar uma patente para o marquesado. Roberio Dias se enganou se pensava que ia deixar a côrte com o título de marquês. O velho d. Pedro II era demasiado esperto para isso. A patente foi lacrada e entregue a uma comissão com ordens de passá-la às mãos de Roberio depois que as minas tivessem sido mostradas. Êste último também teve as suas suspeitas. Não era dessas criaturas que iriam confiar cegamente na palavra do rei. Quando a expedição se achava a pequena distância da Bahia, conseguiu êle persuadir o oficial que comandava a comissão a abrir o envelope e mostrar-lhe a patente. Viu que o nomeavam para o cargo de capitão em u’a missão militar, nada mais. Não se tocava na questão do marquesado! Aquilo encerrou o assunto. Dias recusou entregar as minas. Enfurecido, o oficial levou-o, à fôrça, para a Bahia, onde o atirou numa prisão. Ali permaneceu durante dois anos. Permitiram-lhe depois que comprasse a sua liberdade por 9.000 côroas. Dias morreu em 1622, sem que o segrêdo das minas tivesse sido revelado. Diego Alvarez já havia morrido fazia muito tempo; o próprio Muribeca já havia desaparecido do cenário e nenhum índio quis falar sôbre elas, não obstante as horríveis torturas a que os submetiam. D. Pedro apenas pôde amaldiçoar o infeliz lôgro que pregara e contentar-se com a leitura dos relatórios oficiais sôbre os exames feitos na amostra do minério de Roberio Dias. Perdera-se o segrêdo da localização das minas, porém durante anos e anos várias expedições investigaram a região num esfôrço para descobri-las. Com os fracassos sucessivos, foi enfraquecendo a crença na sua existência, transformando-se esta, por fim, num mito, se bem que sempre aparecessem algumas figuras destemidas que enfrentavam os índios hostis e a morte lenta pela fome na esperança de descobrirem um novo Potosi.”

A narrativa anônima começa descrevendo uma montanha brilhante iluminada por “cristais”. Deslumbrados, os exploradores tentam escalar o lugar, e após muitos esforços, acham um caminho de pedra feito por dentro da montanha, por onde seguem. Do pico, avistam um grande povoado, tomando o cuidado de se certificarem tratar-se de um local desabitado, ao que só então passam a explorá-lo. Atravessam “três arcos de grande altura” logo na entrada e vão se deparando com edifícios de pedra (alguns desmoronados), escritas ou símbolos indecifráveis (copiados no documento e que são similares a letras gregas e a litóglifos encontrados em outras partes do Brasil) e uma grande coluna de pedra preta tendo sobre ela a estátua de um homem com uma mão na cintura esquerda e o braço direito estendido apontando para o norte. Ao final, menciona-se o achado, nas ruínas de uma casa, de uma moeda de ouro, tendo em uma face a figura de um jovem ajoelhado e em outra as imagens de um arco, uma coroa e uma seta. Reproduzo abaixo, mantendo a grafia original, as partes principais do Documento 512 que, infelizmente, desde que foi encontrado, se encontra avariado e ilegível em várias partes – por ter sido atacada por insetos – e não traz o nome do chefe da expedição nem tampouco indicações de como se chegar ao local:

“…Veio esta noticia ao Rio de Janeiro em principio do anno de 1754. Depois de huma longa, e inoportuna perigrinação, incitados da incaciavel cobiça de ouro, e quazi perdidos em muitos annos por este vastissimo certão, descubrimos huma cordilheira de montes tão elevados, que parecia chegavão a Região etheria, e que servirão de throno ao vento as mesmas estrellas; o luzimento que de Longe se admirava, principalmente quando o Sol fazia impressão ao Cristal de que era composta e formando huma vista tão grande e agradavel, que ninguem daquelles reflexos podia afastar os olhos: entrou a chover antes de entrarmos a registrar esta christallina maravilha e viamos sobre a pedra escalvada correr as agoas precipitando-se dos altos rochedos, parecendo-nos como a neve, ferida dos raios do sol, pelas admiraveis vistas daquelle chris [ilegível] chegando-nos no pé dos Montes, sem embaraço Algum de Matos, ou Rios, que nos difficultasse o trânsito, porem, circulando as Montanhas, não achamos pasio franco para executar-mos a rezolução de accommeter-mos estes Alpes e Pyrineos Brasílicos, rezultando-nos deste desengano huma inexplicavel tristeza. Abarracados nós, e com o dezignio de retrocedermos no dia seguinte, sucedeo correr hum negro, andando à lenha, a hum veado branco, que vio, e descobrir por este acazo o caminho entre duas serras, que parecião cortadas por artificio, e não pela Natureza: com o alvoroço desta novidade principiamos a subir, achando muita pedra solta, e amontoada por onde julgamos ser calçada desfeita com a continuação do tempo. Gastamos boas tres horas na subida, porém suave pelos christaes que admiravamos, e no cume do Monte, fizemos alto, do qual estendendo a vista, vimos em hum Campo razo maiores demonstracoes para a nossa admiração.[…] Estivemos dois dias esperando aos exploradores para o fim que muito desejavamos, e só ouviamos cantar gallos para ajuizar que havia alli povoadores, até que chegarão os nossos desenganados de que não havia moradores, ficando todos confuzos: Resolveo-se depois hum índio da nossa commitiva a entrar a todo risco, e com precaução, mas tornando assombrado, afirmou não achar, nem descobrir rastro de pessoa Alguma: este cazo nos fez confundir de sorte, que não o acreditamos pelo que viamos de domecilios, e assim se arranjarão todos os exploradores a ir seguindo os passos do índio. Vierão, confirmando o referido depoimento de não haver povo, e assim nos determinamos todos a entrar com armas por esta povoação, em huma madrugada, sem haver quem nos sahisse ao encontro a impedir os passos, e não achamos outro caminho senão o unico que tem a grande povoação, cuja entrada he por tres arcos de grande altura, o do meio he maior, e os dois dos lados são mais pequenos: sobre o grande, e principal devizamos Letras, que se não poderão copiar pela grande altura Faz huma rua da largura dos três arcos, com cazas de sobrados de huma, e outra parte, com as fronteiras de pedra lavrada, e já denegrida. [ilegível] inscripções, abertas todas [truncado] ortas são baxas defei- [ilegível], notando que pela regularidade, e semetria em que estão feitas, parece huma só propriedade de cazas, sendo em realidade muitas, e Algumas com seus terraços descubertos, e sem telha, porque os tetos são de ladrilho requeimado huns, e de lajes outros. Passada, e vista a rua de bom cumprimento, demos em huma Praça regular, e no meio della huma collumna de pedra preta de grandeza extraordinária, e sobre ella huma Estatua de homem ordinário, com huma mão na ilharga esquerda, e o braço direito estendido, mostrando com o dedo index ao Polo do Norte: em cada canto da dita Praça está huma Agulha a immitação das que usavão os Romanos, e mais algumas já maltratadas, e partidas, como feridas de Alguns raios. Pelo lado direito desta Praça esta hum soberbo edifício, como casa principal de Algum senhor da Terra, faz hum grande sallão na entrada e ainda com medo não corremos todas as casas, […] Os morcegos erão tantos, que investião as caras das gentes, e fazião uma tal bulha, que admirava: sobre o pórtico principal da rua está huma figura de meio relevo talhada da mesma pedra e despida da cintura para cima, coroada de louro: reprezenta pessoa de pouca idade, sem barba, com huma banda atraveçada, e hum fraldelim pela cintura: debaixo do escudo da tal figura tem alguns characteres já gastos com o tempo, […] Da parte esquerda da dita Praça esta outro edifício totalmente arruinado, e pelos vestígios bem mostra que foi Templo, porque ainda conserva parte de seu magnífico frontespicio, e Algumas naves de pedra inteira: ocupa grande territorio, e nas suas arruinadas paredes, se vem obras de primor com Algumas figuras, e retratos embutidos na pedra com cruzes de vários feitios, corvos, e outras miudezas que carecem de largo tempo para admira llas. Segue-se a este edificio huma grande parte de Povoação toda arruinada e sepultada em grandes, e medonhas aberturas da terra, sem que em toda esta circunferencia se veja herva, arvore, ou planta produzida pela natureza, mas sim montões de pedra, humas toscas outras lavradas, pelo que entendemos ha as fronteiras de [ilegível] […] Defronte da dita Praça corre hum caudalozo Rio, arrebatadamente largo, e espaçoso com Algumas margens, que o fazem muito agradavel a vista, terá de largura onze, até doze braças, sem voltas concideraveis, limpas as margens de arvoredo, e troncos, que as inundações costumão trazer: sondamos a sua Altura, e achamos nas partes mais profundas quinze, até dezesseis braças. Daparte dalém tudo são campos muito viçosos, e com tanta variedade de flores, que parece entoar a Natureza, mais cuidadoza por estas partes, fazendo produzir os mais mimozos campos de Flora: admiramos tambem algumas lagôas todas cheias de arrôs: do qual nos aproveitamos e também dos innumeraveis bandos de patos que se crião na fertilidade destes campos, sem nos ser deficil cassa-llos sem chumbo mas sim as mãos. Tres dias caminhamos Rio abaixo, e topamos huma catadupa de tanto estrondo pela força das agoas, e rezistencia no lugar, que julgamos não faria maior as boccas do decantado Nillo: depois deste salto espraia de sorte o Rio que parece o grande Oceano: He todo cheio de Peninsulas, cubertas de verde relva: com Algumas arvores disperças, que fazem [ilegível] hum tiro com davel. Aqui achamos [ilegível] a falta delle de noss [ilegível] ta variedade de caça [ilegível] tros muitos animais criados sem cassadores que os corrão, e os persigão. Daparte do oriente desta catadupa achamos varios subcavões, e medonhas covas, fazendo-se experiência de sua profundidade com muitas cordas; as quais por mais compridas que fossem, nunca podemos topar com o seu centro. Achamos também Algumas pedras soltas, e na superfície da terra, cravadas de prata, como tiradas das minas, deixadas no tempo Entre estas furnas vimos huma coberta com huma grande lage, e com as seguintes figuras lavradas na mesma pedra, que insinuão grande mistério ao que parece. Sobre o Portico do Templo vimos outras da forma seguinte dessignadas. Afastado da Povoação, tiro de canhão, está hum edificio, como caza de campo, de duzentos e sincoenta passos de frente; pelo qual se entra por hum grande portico, e se sobe, por huma escada de pedra de varias côres, dando-se logo em huma grande salla, e depois desta em quinze cazas pequenas todas com portas para a dita salla, e cada huma sobre si, e com sua bica de agoa [ilegível] qual agoa de ajunta [ilegível] mão no pateo externo [ilegível] columnatas em cir-[ilegível] dra quadrados por arteficio, suspensa com os seguintes caracteres: Depois destas admirações entramos pelas margens do Rio a fazer experiencia de descobrir ouro e sem trabalho achamos boa pinta na superficie da terra, prometendo-nos muita grandeza, assim de ouro, como de prata: admiramo-nos ser deixada esta Povoação dos que a habitavão, não tendo achado a nossa exacta diligencia por estes certões pessoa Alguma, que nos conte desta deploravel maravilha de quem fosse esta povoação, mostrando bem nas suas ruínas a figura, de grandeza que teria, e como seria populosa, e oppulenta nos séculos em que floreceu povoada; estando hoje habitada de andorinhas, Morcegos, Ratos e Rapozas que cebadas na muita creação de galinhas, e patos, se fazem maiores que hum cão perdigueiro. Os Ratos tem as pernas tão curtas, que saltão como pulgas, e não andão, nem correm como os de povoado. […] Hum nosso companheiro chamado João Antonio achou em as ruinas de huma caza hum dinheiro de ouro, figura esferica, maior que as nossas moedas de seis mil e quatrocentos: de huma parte com a imagem, ou figura de hum moço posto de joelhos, e da outra parte hum arco, huma coroa e huma setta, de cujo genero não duvidarmos se ache muito na dita povoação, ou cidade dissolada, por que se foi subversão por Algum terremoto, não daria tempo o repente a por em recato o preciozo, mas he necessario hum braço muito forte, e poderozo para revolver aquele entulho calçado de tantos annos como mostra.”

Assim termina o relatório da expedição que teria localizado a velha cidade perdida “romana” abandonada. Defensor da teoria de que o “Império Romano em sua época de máxima expansão atingiu o Brasil atual graças a sua frota naval e aqui se instalou com o objetivo de explorar as jazidas de ouro e prata, permanecendo em solo brasileiro até pouco antes da queda do império em 476 d.C.”, o pesquisador Diomário Gervásio de Paula Filho, da Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional, identificou as ruínas descritas no Documento 512 como sendo inconfundivelmente romanas. Os arcos, por exemplo

“são sem dúvida um arco do triunfo. Inicialmente o Arco do Triunfo só possuía uma passagem central e em cada lugar que Roma conquistava era erguido um Arco deste. Os arcos foram a marca registrada da arquitetura e presença romana, não havia uma só posse que não tivesse um Arco do Triunfo. Os últimos arcos construídos pelo Império Romano possuíam três aberturas, sendo que a abertura central era maior e sobre ela havia muitas inscrições narrando fatos. A cidade de Timgad na África possuía também um arco deste feitio. Estes arcos foram construídos até o fim do Império Romano do Ocidente em 476 d.C., e o último deles foi o Arco de Constantino. O arco ficava sempre na entrada da cidade a exemplo de Timgad. Dele saía uma rua da largura das três passagens.”

A estátua de pouco mais de 2 metros de altura de Caio Júlio César Octaviano Augusto (63 a.C.-14) exposta no Museu do Vaticano, mostra o fundador e o primeiro imperador do Império Romano (de 27 a.C. até sua morte) com a mão na cintura esquerda e o braço direito estendido e o dedo indicador apontando para frente, o que corresponde exatamente à descrição da estátua vista na Cidade Perdida. O documento menciona que “em cada canto da dita praça está uma agulha à imitação das que usavam os romanos, mas algumas já maltratadas pela ação do tempo e outras partidas”, não deixando dúvidas de que se tratavam do mesmo tipo de agulhas que os romanos erguiam em suas cidades. O “soberbo edifício” no “lado direito da dita praça”, com “um grande salão na entrada”, parece corresponder aos edifícios públicos das cidades romanas, talvez um fórum. Paula Filho disse ter visto no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro uma escultura “desenterrada nos arredores de Roma em escavação realizada a custeio da Princesa Isabel” praticamente idêntica à “pessoa de pouca idade coroada de louro e sem barba com uma banda atravessada e um fraldelim pela cintura” descrita no documento como estando sobre o “pórtico principal da rua”.

Após exaustiva pesquisa em museus e órgãos especializados em numismática e consulta a um infinito número de catálogos sobre moedas, Paula Filho conseguiu descobrir que a moeda de ouro encontrada, tendo de um lado a imagem de “um moço posto de joelhos” e de outro a de “um arco, uma coroa e uma flecha”, era utilizado em portos fenícios dominado por romanos na época de Lúcio Septímio Severo (imperador de 193 a 211).

Pedro Calmon (1902-1985) e outros historiadores que estudaram as bandeiras da época, acreditavam que o Manuscrito 512 tinha sido redigido pelo tenente-general e mestre-de-campo João da Silva Guimarães, bandeirante português que percorreu os sertões da Bahia entre 1752 e 1753. Já outros acreditavam que havia sido escrito por Antonio Lourenço da Costa, que em 1757 chegou ao distrito diamantino de Tijuco (atual Diamantina) em Minas Gerais dizendo ter passado dez anos no interior em uma bandeira e que esta tinha feito descobertas surpreendentes na Serra Dourada da então capitania de Goiás. Diomário Gervásio de Paula Filho disse em seu consubstanciado relatório (com correções e acréscimos de Abdias Flauber Dias Barros) ter “encontrado apenas dois manuscritos que fazem referência a este sertanista no Arquivo Nacional, nos quais é analisado umas amostras de material semelhante a prata, tendo o exame dado negativo. Desta mesma época existem algumas cartas que são datadas do mesmo local de onde foi escrito o relatório, ou seja, do Rio Paraguaçu na Bahia”. Uma das cartas, datada de 24 de maio de 1754, é de Lourenço Antonio Bragança, cabo e mestre-de-campo da bandeira de João da Silva Guimarães “que remeteu amostras de um metal muito semelhante à prata. Contudo, as amostras analisadas na Casa da Moeda do Rio de Janeiro deram negativas quanto à prata.”
Guimarães era em 1720 capitão-mor na província de Ouro Preto quando eclodiu o movimento chefiado pelo português Filipe dos Santos Freire (1680-1720), que instigou a Revolta de Vila Rica, atual Ouro Preto (episódio também conhecido como A Revolta de Filipe dos Santos), em 28 de junho de 1720, uma das primeiras reações nativistas contra a exploração colonial portuguesa e uma das precursoras da Inconfidência Mineira. Felipe dos Santos acabou morto e esquartejado, e as partes de seu corpo (cabeça, pernas e braços) foram espalhadas pela cidade. Com o fracasso do movimento, Guimarães fugiu para a Bahia, onde posteriormente conseguiu o perdão graças à influência de sua família. Em 1752, ao retornar de uma bandeira nas cabeceiras do Rio Paraguaçu, diz ter visto as Minas de Prata. No ano seguinte, na Vila de Nossa Senhora do Bom Sucesso das Minas Novas (atual Minas Novas), “Pedro Leonimo Maris, amigo pessoal do general Guimarães, apressou-se em convencer o vice-rei à época, Conde de Autougia, de que o general finalmente chegara ao maravilhoso local que tantos outros tinham tentado chegar em vão.” Diante do resultado negativo das amostras emitido pela Casa da Moeda, o general Guimarães retomou suas buscas pelas Minas de Prata, e tal como aconteceria com Fawcett e tantos outros, desapareceu sem deixar vestígios em 1764.

O mito da Cidade Perdida da Bahia talvez tivesse morrido aí, mas em 1838 Manuel Ferreira Lagos encontrou o manuscrito nos Arquivos da Biblioteca da Corte e o entregou ao cônego, orador sacro, historiador, jornalista, poeta, biógrafo e político carioca do Primeiro Reinado (1822-1831) Januário da Cunha Barbosa (1780-1846), que o estampou no Tomo I da Revista do IHGB, desencadeando a corrida pela Cidade Perdida que prossegue incontinenti até hoje.

A primeira e única iniciativa oficial de localizar as Minas de Muribeca foi feita em 1841, ou seja, dois anos após a publicação do documento. Em 24 de fevereiro, o padre Benigno José de Carvalho encontrava-se na capital da Bahia quando foi incumbido pelo IHGB de procurar a Cidade Perdida. Em sua primeira carta endereçada ao IHGB, datada de 20 de agosto, ele dá a conhecer que

“Encarregado pelo IHGB para indagar sobre a cidade abandonada, obtive informações de muitas pessoas e em especial a do Sr. Remigio Pereira de Andrade, natural de Minas, idade 73 anos e do Sr. Desembargador Mascarenhas, que desde o município do Rio das Contas, onde foi ministro, tinha atravessado a Serra do Sincorá e as terras do Rio Paraguaçu e Una (citado no manuscrito). Diria eu, que escreveram entre o Rio Una e o Rio das Contas e não do Una e Paraguaçu, procurei informar-me sobre a serrado Sincorá e soube o seguinte:

1º- que é talvez a mais alta e inacessível serra que tem no sertão da Bahia, vista da parte norte, eriçada por grandes penhas em que brilham muitos cristais e seu cume está sempre coberto de nuvens até as 11 horas e que não tem mais que uma tromba (caminho aberto na rocha até o cume) na parte norte, pela qual só faz acessível ao seu cume;
2º- que esta tromba aberta desde a raiz até o alto da montanha tem a forma de zigue-zague, e que se leve três boas horas para subir;
3º- que desde a tromba a povoação do Sincorá vão 2 léguas e não há mata ou rio que impeça o trajeto, são campos gerais e tudo isto confirma com a relação dos aventureiros de 1753.
[…] pretendo examinar a catadupa (cachoeira) do braço do Sincorá, contudo se o tempo e as condições meteorológicas permitirem, contaram-me e em especial o sr. Antonio Joaquim Cruz marchante de profissão, que tinha viajado por todos os vales e por aquelas terras vizinhas do Sincorá e ao braço do Sincorá e a dois dias acima da dita cachoeira e pelas suas informações soube que a cidade está encoberta por matas e que o braço do Sincorá se despenca por uma elevada cachoeira por bocas diferentes, fazendo um enorme ruído e forma várias penínsulas de verde relva e que nas margens oriental desta cachoeira há muitas minas profundas e algumas abertas em penhas em forma de abóbada e resultam em furnas insondáveis.”

Baseando-se em relatos de viajantes, bem como nas poucas descrições geográficas existentes no manuscrito, como vimos, Carvalho concluíra que o local se situava a leste da Serra do Sincorá. Entretanto, em 3 de fevereiro de 1842, Carvalho adoeceu gravemente, atacado por uma “febre maligna” que o reduzira a um “esqueleto” e o debilitara até o final de junho, conforme relatou por carta. Todos os sete homens que o acompanhavam também padeceram da mesma febre. Só em agosto é que se pôs em condições de realizar a viagem, porém o auxílio financeiro que requisitara do governador da Bahia lhe foi negado. Carvalho passou o primeiro semestre de 1844 novamente atacado pela febre, sendo sua intenção retomar as buscas “depois de São João”. Em carta datada de 23 de janeiro de 1845, dirigida ao governador da Bahia, Carvalho garantia ter localizado a Cidade Perdida pelas informações que lhe haviam sido trazidas por um escravo, e voltava a solicitar auxílio para continuar a jornada, auxílio este que lhe foi novamente negado.

Em 1848, o major do Exército Manoel Rodrigues de Oliveira acusou Carvalho de haver deliberadamente ocultado a localização da cidade e rumado a lugares opostos aos que o manuscrito indicava com o intuito de apossar-se do ouro e da prata. Oliveira declarou ter encontrado ruínas semelhantes às descritas no manuscrito em uma fazenda denominada Provisão, situada às margens do Rio de Contas, a 150 km da Vila Camamu, e que lá havia desenterrado fragmentos de louças finas e moedas romanas, fato testemunhado por Cypriano Antonio Gusmão, juiz da Vila Belmonte. Diomário Gervásio de Paula Filho apurou junto a Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) que existia uma fazenda chamada Provisão no local indicado por Oliveira e que lá haviam sido encontrados fragmentos de louças e utensílios em geral com uma idade de no mínimo 1.500 anos. É interessante frisar que Camamu em tupi significa “lugar onde se guarda ou conserta barcos”, pelo que se depreende que o local tenha sido um porto na Antiguidade.

Com delírios de que estava perto de chegar às Minas de Muribeca sem no entanto dispor dos meios para atingi-las, Carvalho, já bastante debilitado pelos vários surtos de febre maligna, faleceu em 1849 em Salvador em decorrência de uma insuficiência hepática. A região apontada por Carvalho, a Chapada Diamantina, era uma das mais difíceis do país em termos de deslocamento e sobrevivência como relatou o general Miguel Pereira da Costa, que durante sua jornada foi atacado por uma doença e acabou paralítico:

“…contêm a travessia léguas de horroroso caminho, por que parece que a natureza se empenhou em fazer-se trânsito difícil, sendo não só serrania continuada, mas como montões de serras umas sobre as outras, cujo vértice há de se avançar, subindo vértice sobre vértice. É raro o dia que a chapada esteja clara sem nuvens, está quase ali sempre a chover sendo que esta neblina e chuva miúda maltratam homens e cavalos, pois não há lenha para acrescentar fogo e é preciso ajudar os cavalos na travessia da serra. Às vezes arrebentam seus peitorais e caem as cargas, outras, os cavalos voltam-se para trás e despencam-se pelos precipícios. É tal a ossaria de cavalos mortos por esta serra e chapada que se poderia chamá-la de serra dos ossos. O incrível desta chapada é que se poderiam consumir exércitos inteiros que tentassem passar por ela utilizando uns poucos defensores.”

Conclui o general Pereira da Costa: “Este lugar é forte por natureza e inconquistável.”

Paula Filho lamentou que o IHGB, órgão mantido pelo próprio imperador Dom Pedro II, tenha abandonado Carvalho e sua missão: “O fato é que o descaso e a incúria das autoridades da época transtornou e impediu as buscas de tal forma que não se localizou a tal cidade apesar dos fortes indícios de sua localização, e até mesmo o IHGB abandonou inexplicavelmente Benigno no meio do caminho colocando em perigo toda a expedição.”

Desde então, nenhuma outra tentativa oficial para encontrar a Cidade Perdida foi realizada, e todas as expedições que se seguiram ficaram por conta de exploradores solitários ou de grupos isolados. “Impressiona a incúria e o descaso dos representantes dos órgãos científicos e das autoridades pelo patrimônio histórico-arqueológico do Brasil”, desabafou Paula Filho, que como se não bastasse isso ainda procuram colocar “toda sorte de obstáculos” aos que se dispõem a pesquisar o assunto, “talvez com um objetivo de quem sabe esconder algo”, insinuou.

Enquanto a lenda da Cidade Perdida alimentava o imaginário dos povos das lavras diamantinas, os centros de garimpo cresciam em progressão geométrica e cidades surgiam em torno. A Serra do Sincorá, distrito de Andaraí, a 114 km de Lençóis, foi invadida em meados do século XIX por garimpeiros que por lá edificaram várias construções em pedra. Foi um século de exploração e riquezas até a decadência no século XX, quando a maioria das casas foi abandonada. Os próprios garimpeiros chegaram a destruir ruas inteiras em busca dos últimos diamantes, o que deu início aos cerca de 7 quilômetros de ruínas que, apesar de nem de longe se assemelharem às incaicas, são por vezes tomadas como tais por exploradores afoitos. Se o Manuscrito 512 não passa de uma peça ficcional elaborada por um arguto erudito com vistas a atrair incautos aventureiros àquela desolada região do sertão da Bahia para que viessem a ocupá-la e explorá-la, pode-se dizer que cumpriu com sobras seu objetivo.

Após ter consultado o Manuscrito 512 no Rio de Janeiro, Fawcett passou a acreditar nele “implicitamente” e ficou convencido de que aquela expedição de 1753, segundo ele liderada por um bandeirante português chamado “Francisco Raposo” e composta por dezoito homens, incluindo índios e negros, havia tomado o rumo norte, para onde caminharam durante nada menos do que dez anos para na reta final se desviarem ligeiramente para o leste. Na volta, após alguns meses de árdua viagem, alcançaram as margens do Rio São Francisco, atravessaram-no, atingiram o Rio Paraguassu e chegaram, por fim, a Bahia. Dali Raposo enviou ao vice-rei Luis Pedro Peregrino de Carvalho e Menezes de Ataíde, 10º conde de Atouguia (1700-1758), o documento com o relato da Cidade Perdida. O vice-rei, no entanto, nada fez.

Reivindicando ser o único conhecedor deste segredo, o qual obteve “na árdua escola da luta nas florestas, graças também ao escrupuloso exame que fiz em todos os documentos existentes nos arquivos da República e a informações que recebi de algumas fontes não sem grandes dificuldades”, Fawcett presumia que a Cidade Perdida não se achava à margem do Rio Xingu nem em Mato Grosso, mas a nordeste do Xingu – a caminho do qual havia uma “antiga torre de pedra que é o terror dos índios vizinhos, porque à noite ela fica iluminada pela porta e janelas” –, entre os estados da Bahia e do Piauí, para além do Rio São Francisco.

Sobre essas lendárias “luzes eternas” que nunca se apagavam, Fawcett acrescentou que lhe contaram

“na fazenda do coronel Hermenegildo Galvão que um chefe índio da tribo Nafaqua (hoje grafado como Nahukuá), cujo território ficava entre os rios Xingú e Tabatinga, afirma conhecer uma ‘cidade’, onde moravam índios e onde havia templos e cerimônias de batismo. Os indígenas ali falavam de casas com ‘estrêlas que as iluminavam e nunca se apagavam’. Foi a primeira vez e também não foi a última em que ouvi falar dessas luzes permanentes que tinham sido encontradas em casas antigas construidas por aquela antiga civilização então esquecida. Eu sabia que certos índios do Equador tinham o costume de alumiar suas cabanas à noite por meio de plantas luminosas, porém, isso devia ser cousa bem diferente, pensei. Devia haver algum meio secreto de iluminação que os antigos conheciam e que ainda ficou para ser posto novamente a descoberto pelos cientistas de hoje – algum método de se aproveitar a energia que nos é desconhecido.”

Também referidas no Manuscrito 512, essas “luzes eternas” provavelmente nada tinham de misteriosas, assim como a folha cujo suco podia amolecer rochas de que Fawcett ouvira falar no Peru. Em seus manuscritos redigidos por volta de 1570, o agricultor, político, explorador e historiador português Gabriel Soares de Sousa (1540-1591), autor de Noticia do Brasil ou Tratado Descritivo do Brasil (publicado em 1587), esclareceu que havia um bicho que os índios chamavam de “Mamoa” ou “Mama” que emitia uma forte claridade. Tais bichos entravam no interior de casas abandonadas e lá faziam a sua morada, e durante a noite a claridade que emitiam era tão intensa que lá parecia haver muitos lampiões acesos.
Gabriel Soares de Sousa, aliás, pode ter sido a principal fonte do redator do Manuscrito 512 para a criação de sua mítica história da Cidade Perdida de 1753, amálgama das miragens que se intensificavam com o incentivo dos reis de Portugal às incursões nos territórios mineiros a partir de 1650 dados aos crescentes os boatos da existência de verdadeiros Eldorados no interior do País. Ele veio ao Brasil em 1565 e se estabeleceu na Bahia, fazendo fortuna como senhor de um engenho de açúcar e exercendo influência política como vereador da Câmara de Salvador. Seu irmão João Coelho de Souza havia feito explorações na Chapada da Diamantina, próximo ao Rio São Francisco, e relatado ter lá descoberto uma “Serra de Esmeraldas” pouco antes de ser atacado por uma febre maligna que assolava a região.

A lenda da Serra de Esmeraldas remonta a bandeira de 1551 chefiada por Sebastião Fernandes Tourinho que partiu de Porto Seguro, na Bahia, subiu até as nascentes do Rio Doce (que os índios chamavam Mandij), passou pela região de Ponte Nova e de Vila Rica, e de lá seguiu em direção ao atual estado do Espírito Santo, onde os índios diziam que havia uma “mboab” (aldeia calçada), perto do qual Tourinho diz ter visto uma Serra de Esmeraldas.

Em 1574, o governador-geral Luis Brito de Almeida enviou a bandeira chefiada por Antonio Dias Adorno à procura da Serra de Esmeraldas. Essa bandeira tentou seguir o mesmo itinerário de Tourinho mas não conseguiu encontrar a tal serra. Em compensação, na altura do Pico da Bandeira, descobriu as ruínas de uma antiga cidade desconhecida. A bandeira seguiu em direção ao Rio São Francisco, atravessou a Chapada Diamantina e dissolveu-se na Bahia no sítio de Gabriel Soares, que após o falecimento de seu irmão João Coelho, pretendeu tomar posse da Serra de Esmeraldas. Em 1584, Soares retornou à Europa para requisitar à Corte de Madri autorização e recursos para o seu empreendimento de procura e exploração de tais minas. Nomeado capitão-mor e governador da conquista que fizesse das minas que viesse a descobrir, Gabriel Soares voltou ao Brasil em 1591 com uma expedição de 360 colonos e quatro frades.

A expedição já prenunciava terminar em desastre, pois logo ao chegar seus navios afundaram nas costas de Sergipe. Com os homens e provisões que conseguiu salvar do naufrágio, Gabriel Soares internou-se nos sertões da Bahia à procura das minas e acabou falecendo no final de 1591, perto das cabeceiras do Rio Paraguaçu. Seus ossos foram sepultados na capela-mor da igreja do Mosteiro de São Bento, tendo sobre a lápide que os recobre o seguinte epitáfio: “Aqui jaz um pecador.”

Fawcett acreditava “implicitamente” que a cidade perdida descrita no Manuscrito 512 era exatamente de onde tinha vindo o ídolo de basalto negro coberto de inscrições que lhe havia sido presenteado pelo escritor Henry Rider Haggard (1856-1925), autor de King Solomon’s Mines (As Minas do Rei Salomão, 1882) e She (Ela, 1887). Ela, o mais bem sucedido romance de Haggard, narra as aventuras de Leo Vincey e Horace Holly numa região inexplorada do interior da África, onde encontram o reino perdido de Kôr, habitado pelo povo primitivo Amahagger, súdito de uma misteriosa rainha e feiticeira branca a que chamam de Ela (Ayesha era o seu nome), cuja beleza hipnotizava a todos os homens.

Haggard lhe dissera que o ídolo tinha vindo do Brasil e ele passou a acreditar piamente que proviria de uma das cidades perdidas, ainda mais depois de constatar que 14 dos 24 caracteres nele inscritos eram encontrados, separadamente, em várias peças antigas feitas de barro no Brasil, e de encontrar no Documento 512, entre os símbolos desenhados, alguns idênticos aos do ídolo e aos que ele próprio encontrara no Ceilão.

No dia 29 de maio de 1925, antes de seguir rumo a região do Alto Xingu, Fawcett enviava sua última carta à esposa de um ponto na selva que apelidara de “Campo do Cavalo Morto” (11o43’S e 54o35’O), próximo a Serra do Cachimbo e do Rio das Mortes, norte de Mato Grosso, carta esta trazida pelos peões que ali se desligaram da expedição. Desde então, nunca mais se tiveram notícias dele, tampouco de seus dois companheiros, o filho Jack e o amigo deste, Raleigh Rimmell. Fawcett, no entanto, não foi o primeiro nem o último a desaparecer em busca de uma cidade perdida em nosso país, busca essa que redundou em um sem número de mortes e desaparecimentos inexplicáveis e que prossegue até hoje.

A despeito de Fawcett ter deixado expresso que “Se não voltarmos […] não quero que expedições de salvamento nos venham procurar”, pois “Corre-se muito risco” e  “Se com toda a minha experiência não puder levar a cabo a empresa, poucas esperanças poderão ter os outros nesse particular”, daí não ter dito exatamente para onde iam, durante as décadas seguintes foram organizadas várias expedições de resgate, tendo muitas delas, como previra Fawcett, sucumbido ao mesmo fim trágico.

Ao todo, cerca de cem exploradores morreram e três expedições de resgate desapareceram tentando encontrar Fawcett. Tudo o que as expedições – a primeira delas organizada pelo pioneiro da aviação britânico George Miller Dyott (1883-1972) – trouxeram, isto é, as que conseguiram retornar, foram as mais disparatadas versões ouvidas de nativos e de outros viajantes, entre elas a de que o grupo foi morto por índios ou animais selvagens, a de que Fawcett estava sendo mantido prisioneiro ou que tinha perdido a memória e estava vivendo como chefe de uma tribo de canibais, ou mesmo que eles realmente encontraram a Cidade Perdida de “Z” mas foram impedidos de retornar pelos seus habitantes para que não revelassem ao mundo o segredo de sua localização. Até hoje o jornal londrino The Times oferece um prêmio a quem prestar informações válidas sobre o destino do explorador.

A busca pela Cidade Perdida do Documento 512 confunde-se com a busca pelo próprio Eldorado, mito originado do rito no qual o cacique Dourado (“Zipa”) chibcha ou muísca, do planalto central da Colômbia, cobria seu corpo com ouro em pó e, desde a sua jangada de junco, se banhava no lago Guatavita, ao mesmo tempo em que seus súditos lançavam oferendas de ouro e pedras preciosas a Guatavita, deusa do lago sagrado. Nos primeiros anos do século XX, a localização de Eldorado variava desde o Orinoco, na fronteira entre o Brasil e a Venezuela, descoberto pelo explorador espanhol Diego de Ordás (1480-1532), que ali situava sua capital Manoa, a “Cidade da Porta de Ouro”, submetida à autoridade do Grande Paititi, até as selvas do Mato Grosso, na Chapada Diamantina (nas proximidades das coordenadas 11º30’lat. e 42º30’lon.), não muito distante do lugar onde o padre Benigno José de Carvalho pensava estar as Minas de Muribeca, onde Fawcett desapareceria em 1925 procurando pela Cidade Perdida do Manuscrito 512.

O sonho de acesso a riquezas miraculosas que viceja de modo obsessivo e patológico na cultura popular da América do Sul desde a época da conquista, mantém-se vivo em pleno século XXI. Legiões de cobiçosos aventureiros se embrenham diariamente no interior da selva amazônica ou nos sertões de Goiás, Mato Grosso ou da Bahia com o objetivo de chegar a uma das tantas cidades perdidas que, conforme acreditam, remanescem ocultas sob camadas espessas de vegetação. A despeito dos tantos e retumbantes fracassos pregressos, as expedições e os aventureiros solitários que partem em busca do Eldorado continuam desfrutando de enorme prestígio, ainda mais se equipados com os avançados recursos tecnológicos disponíveis, como o GPS. Ao que parece, não se esgotam na reiteração dos esquemas e das estruturas originais, ao contrário: há sempre um acréscimo de forças que os revivificam e lhes proporcionam o tônus necessário para o recomeço e o arranque.

 

Este texto foi retirado do livreto inédito de Cláudio Suenaga sobre a vida e as aventuras de Fawcett intitulado Coronel Fawcett: Agente secreto do reino oculto, que faz parte da série O Culto da Verdade, concebida para revelar como o mundo de fato funciona e não do jeito que as pessoas pensam que funcionam, bem como todo o aparato e o conhecimento oculto que vêm sendo mantido em segredo pelas sociedades secretas e religiões há milênios.