Os 50 anos de Passaporte para Magônia, de Jacques Vallée

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Jacques Vallée

O Fenômeno OVNI passou a ocupar um escopo muito mais amplo com profundas repercussões e implicações no imaginário e no campo social com a publicação, em 1969, de Passaporte para Magônia,[1] livro em que o astrofísico e ufólogo francês Jacques Vallée (1939-) opõe-se às idealidades da representação e vai muito além do quadro específico de referência que envolve os OVNIs explorando os mecanismos geradores de visões religiosas, êxtases místicos, aparecimentos de criaturas sobrenaturais e discos voadores, todos apoiados nos mesmos processos e estruturas e causadores dos mesmos efeitos nos observadores humanos.

Vallée inferiu que os eventos modernos classificados sob a alcunha de ufológicos nada mais são do que o reaparecimento de uma corrente profunda da cultura humana, conhecida nos tempos antigos por vários nomes, uma sequência dos relatos de encontros de seres humanos com seres extraordinários através da história, um movimento contínuo que, por meio de experiências místicas e religiosas, “leva diretamente da magia primitiva aos modernos discos voadores e até à prática da magia negra, ao longo dos séculos”.

Ao romper as barreiras artificiais que vigoravam entre esses campos, Vallée pôde aduzir que “os mecanismos que deram origem a essas várias crenças são idênticos”. Os fenômenos superficiais nesses campos variam, disse ele, “em função do ambiente cultural no qual eles se projetam”. Mas, atrás do fluxo havia “características estáveis e invariáveis” de um fenômeno mais amplo que gerava tecnologia. A aparência tecnológica não passaria de uma formalidade, uma espécie de “fachada” para uma interação mais ampla e disfarçada da humanidade com uma fonte progenitora. Essa fonte empenha-se há séculos em moldar lenta, imperceptível e subliminarmente o imaginário humano por meio da projeção de eventos-imagem com coerência suficiente para serem notados, mas complexos a ponto de não serem compreendidos em sua totalidade. Era esse o contexto que Vallée queria explorar, não os significados dos discos voadores numa categoria, por eles mesmos.

A mitologia e o folclore de quase todos os povos estão organizados ao redor de um tema central: seres sobrenaturais que vêm ao nosso mundo para roubar nossas colheitas, nossos produtos, nossos animais e inclusive para sequestrar pessoas. As lendas se referem insistentemente à visita de seres aéreos procedentes de um ou vários países lendários e remotos. Variam os nomes e as peculiaridades, mas a ideia central permanece. Chama-se Magônia, Céu, Inferno, País das Fadas…

Todos esses lugares têm uma característica comum: nenhum ser humano pode penetrar neles, exceto em ocasiões excepcionais. Como são capazes de alterar a sua forma à vontade assumindo a que bem quiserem, os emissários desses lugares fabulosos chegam à Terra às vezes sob a forma de deidades, outras sob a forma humana e em outras sob a aparência de monstros. Uma vez aqui, operam maravilhas. Servem aos homens ou os combatem. Alteram o curso da história das civilizações por meio de revelações místicas. Eles podem “levar” homens e mulheres à sua terra como consortes, criados ou ainda para realizar tarefas especiais. Eles podem viver entre os homens por um tempo, mas ao final são chamados de volta à sua pátria. Eles podem ter interesse em assuntos individuais, familiares ou nacionais, seja para ajudar ou prejudicar. Seduzem as mulheres, e os poucos heróis que se atrevem a tentar travar amizade com eles descobrem que os desejos sexuais dos seres do País das Fadas pelas donzelas não são de natureza puramente etérea, e sim carnal. Aqueles seres podiam paralisar as testemunhas de suas aparições e transportá-las através do tempo-espaço. Sua organização tinha um nome: “Comunidade Secreta”.[2]

O satanista Anton Szandor LaVey (1930-1997), fundador em 1966 da Igreja de Satã (centro), ladeado pelos ufólogos franceses Jacques Vallée (esq.) e Aimé Michel (dir.). Foto extraída do livro The Secret Life of a Satanist: The Authorized Biography of Anton Szandor LaVey (Feral House, 2014), de Blanche Barton. Não sei o que os distintos ufólogos estavam fazendo em companhia do satanista, mas quero supor que era apenas uma visita de cortesia…

Um dos mitos mais pujantes é o da virgem divina que seduz os homens e os leva a um país desconhecido onde lhes transmitem mensagens de grande importância. Esta donzela é, simultaneamente, uma figura de sereia-nereida e uma deusa do sol. Invariavelmente dissimulados, esquivos e fugidios em seu modus operandi, sempre procurando encobrir suas verdadeiras faces e intenções e assim gerar mais dúvida e confusão, as entidades extraterrestres igualmente são capazes de assumir as mais diversas formas e criar suas próprias leis quando aparecem – leis divergentes daqueles que governam o nosso mundo.

As conclusões de Vallée não se basearam em divagações ou em especulações pessoais, mas resultaram de centenas de entrevistas feitas com testemunhas abalizadas, as quais não alegaram terem sido abduzidas por naves espaciais vindas do céu, e sim que haviam visto algo aparecer instantaneamente, assumir uma forma física, às vezes trocando de forma, e desaparecer em seguida, algumas vezes mais rápido do que um piscar de olhos. Em certa ocasião, esse algo desapareceu num local fechado, começou a ficar transparente e depois desvaneceu ou se concentrou apenas em um ponto, como quando a TV é desligada e a imagem dá um “zoom”, transformando-se num simples ponto.

Retrato falado da “Virgem de Fátima”.

Esse algo, de maneiras e formas desconhecidas, usa preferencialmente as imagens que se encontram em nosso próprio inconsciente. Há casos em que o fenômeno se inicia amorfo e vai se compondo de acordo com as expectativas das testemunhas, como que a preenchê-las. É como se a matriz das imagens fosse sendo retirada de nossas mentes. Um bom exemplo são as aparições da Virgem de Fátima que culminaram em maio de 1917 mas se iniciaram dois anos antes. As crianças de início viram um globo de luz com um tipo de ser dentro, que foi por elas chamado de Anjo. O Anjo dialogou com elas e lhes forneceu uma prece. Durante todo o transcorrer das aparições, só os videntes viam e conversavam com a Virgem, que não foi vista por nenhum dos demais presentes aos eventos (em meu livro ainda inédito Aparições da Mãe de Deus Contra o Antricisto: Fenômenos Paranormais, Milagres e Profecias, trago detalhes e análises pormenorizadas a respeito). Em muitos casos ufológicos, os OVNIs e seus tripulantes também foram vistos apenas por algumas testemunhas, enquanto que o restante da multidão não os percebeu.

À época em que Jacques Vallée lançou essas ideias, a comunidade ufológica não estava preparada para aceitá-las, como tampouco está hoje. A reação foi de indiferença e rechaço, conforme reportou Vallée: “Nos Estados Unidos, muitos ufólogos simplesmente ignoraram ou negaram os fatos. Em 1988, Budd Hopkins rejeitou sumariamente os dados de Magônia, classificando-os como ‘folclore de autenticidade duvidosa’. Se o pesquisador está profundamente comprometido com a noção de que os OVNIs trazem extraterrestres para missões científicas na Terra, fica mesmo difícil aceitar tais proposições.”[3] A new age e as correntes esotéricas as interpretaram como se referisse aos mundos das fadas ou dos sonhos, que não são físicos, e os ufólogos como se estivesse desprezando o aspecto físico como algo não relevante.

Na verdade, Vallée propunha que encarássemos o Fenômeno OVNI como algo ao mesmo tempo tecnológico e psíquico que possui a capacidade de manipular a mente humana.  De qualquer forma, a publicação de Passaporte para Magônia em 1969 elevou o Fenômeno OVNI ao patamar dos estudos acadêmicos e fez com que passasse a ocupar um escopo muito mais amplo com profundas repercussões e implicações no imaginário e no campo social.

Para Magônia, sem passaporte

Magônia era um país situado no céu ou em uma dimensão paralela de onde os camponeses da Alta Idade Média (séculos V ao X) acreditavam e sustentavam que vinham os “tempestários”, seres que, no meio das tormentas, navegavam em “barcos” ou “navios aéreos” e roubavam suas colheitas. Tantos foram os relatos de encontros com esses “feiticeiros do céu” e suas “naves  aéreas”, que nos livros das leis incluíram determinações que puniam com tortura e morte os que se transportassem nessas naves. No início do século IX, em Lyons, três homens e uma mulher desembarcaram de uma dessas famigeradas naves aéreas. A população acercou-os gritando que eram mágicos enviados pelos inimigos do imperador Carlos Magno [Carolus Magnus (747-814)] para que destruíssem suas colheitas. Agobardo, arcebispo de Lyons, desagravou-os e a multidão finalmente liberou os pretensos embaixadores.

Arthur Hugh Clough

O poeta inglês Arthur Hugh Clough (1819-1861) em seu livro Introduction to Plutarch’s Lives, forneceu um registro detalhado do episódio:

“Certo dia, aconteceu que, em Lyons, três homens e uma mulher foram vistos descendo de uma das naves aéreas, cujos esquadrões voavam ao sabor dos zéfiros. A cidade toda se reuniu em volta deles, acusando-os de serem mágicos enviados por Grimaldo, duque de Benevento (comuna italiana da região da Campânia), inimigo de Carlos Magno, para que destruíssem as colheitas da França. Em vão, os quatro inocentes se defenderam explicando que eram camponeses da área rural da cidade, arrebatados há pouco tempo por homens miraculosos que lhes haviam mostrado maravilhas nunca dantes vistas… O povo, frenético, não deu atenção ao que afirmavam e estava prestes a jogá-los na fogueira, quando o conceituado Agobardo, arcebispo de Lyons, que gozava de uma autoridade considerável, chegou correndo e depois de ouvir as acusações do povo e a alegações  dos acusados, sentenciou solenemente que não era verdade que tivessem descido do céu ou visto o que diziam, pois se tratavam de coisas impossíveis. O populacho confiou nas palavras de Agobardo, libertando finalmente os quatro embaixadores do céu…”

Segundo Clough, o povo acreditava que feiticeiros navegavam pelos ares com o propósito de provocar tempestades de granizo e assim estragar as plantações:

“Sábios, teólogos e juristas não tardaram a compartilhar da mesma opinião. Até o imperador Carlos Magno acreditou nessa ridícula quimera, a tais extremos que ele e seu sucessor Ludovico Pio impuseram graves penas aos suspeitos de serem ‘tiranos do ar’. […] As pessoas que os viam descer do céu acorriam imediatamente de todas as partes, convencidos de antemão que eram bruxos incumbidos de envenenar as colheitas. Dominados pelo frenesi, prendiam esses inocentes e os submetiam à tortura. Um número incrível de pessoas pereceu queimadas ou afogadas.”[4]

Agobardo (Agobardus Lugdunensis) nasceu na Espanha em 779, mas viveu na França desde os 3 anos de idade. Aos 37 anos, foi nomeado arcebispo de Lyon. Morreu em 840, reconhecido como um dos mais célebres e sábios prelados racionalistas. No capítulo XI de seu livro Liber de Grandine et Tonitruis, analisado por Vallée em Passaporte para Magônia, deixou um relato extremamente significativo: “Temos visto e ouvido muitos homens tomados por grande estupidez e loucura, até o ponto de crerem que barcos navegam através das nuvens a fim de levar os frutos roubados da terra a uma região celestial conhecida como Magônia; […] Três homens e uma mulher asseguravam ter descido de uma dessas naves, depois de alguns dias em cativeiro…”[5]

Uma passagem do livro Religiosidad Popular en la Alta Edad Media, de Oronzo Giordano,[6] citada pela historiadora Laura de Mello e Souza, registra:

“Na Alta Idade Média, as populações rurais da Europa tinham pavor dos malefícios acarretados pela ação dos tempestários, seres que, no meio das tormentas, navegavam os ares em barcos e roubavam colheitas. Dos camponeses, dizia Agobardo: ‘Creem e sustentam que existe um país chamado Magônia, de onde vêm naves através das nuvens’. Agobardo chama-os de ‘marinheiros do ar’.”[7]

Notas

[1] Vallée, Jacques. Passport to Magonia: From Folklore to Flying Saucers, Chicago, Publ. Henry Regnery Co., 1969.

[2] IDEM, Pasaporte a Magonia, 2ª ed., Barcelona, Plaza & Janes, 1975, p.16.

[3] IDEM, Confrontos, São Paulo, Best Seller, s.d., p.195-196.

[4] IDEM, Pasaporte a Magonia, 2ª ed., Barcelona, Plaza & Janes, 1975, p.30.

[5] Ibid., p.27.

[6] Giordano, Oronzo. Religiosidad Popular en la Alta Edad Media, Madrid, Editorial Gredos, 1983, p.142-278.

[7] Mello e Souza, Laura de. O Diabo e a Terra de Santa Cruz: Feitiçaria e Religiosidade Popular no Brasil Colonial, São Paulo, Companhia das Letras, 1986, p.30.

Extras

Baixe aqui a versão em inglês de Passaporte para Magônia (Passport to Magonia: From Folklore to Flying Saucers)

E aqui, a versão em espanhol da Plaza & Janes (Pasaporte a Magonia)

Jacques Vallée fazendo o “Olho de Hórus”