Formas de Humanidade: um registro do acervo do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP

Cláudio Suenaga no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da Universidade de São Paulo (USP)

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga (texto e fotos) e Pablo Villarrubia Mauso (fotos com a presença de CTS)

O Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da Universidade de São Paulo (USP) realizou na segunda metade da década de 1990, uma exposição de longa duração intitulada Formas de Humanidade. Atrelada à  natureza e abrangência do rico acervo etnográfico de que dispunha o MAE, dividiu-se em três setores, a saber: Brasil indígena, África e Mediterrâneo e Médio Oriente na Antiguidade. Concentraremo-nos aqui nos dois primeiros, já que as peças do último – deidades femininas, sinetes cilíndricos e carimbos de controles de contabilidade sumerianos, etc. – já são bem conhecidas.

A exposição procurou abarcar as variadas dimensões da realidade etnográfica,  reunindo objetos que possibilitassem conhecer, por essa via, aspectos configuradores das sociedades indígenas e africanas. Essas sociedades, embora compartilhem elementos culturais básicos comuns – que as distinguem de outros tipos de sociedades -, expressam-se segundo modos peculiares de lidar com a natureza, com o social e o sobrenatural. Refletem igualmente experiências históricas únicas. Não constituem, assim, um bloco homogêneo, ao contrário; caracterizam-se por constituírem um grande leque de universos sócio-culturais específicos.

Os artefatos em questão são essencialmente simbólicos, configurando-se como poderosos instrumentos de comunicação de ideias. Dotados de padrões estéticos que lhes conferem sentidos, refletem sobretudo a relação do homem com o sobrenatural. Alguns possuem propriedades mágicas capazes de produzir resultados que atendam a várias necessidades e finalidades coletivas. Para que se possa definir o que representam, cumpre, portanto, levar em conta fatores sociais, religiosos e cosmológicos.

Muitos foram usados em rituais, cujo papel sempre foi o de dramatizar episódios míticos, revelando o constante inter-relacionamento entre os domínios cósmico e social e entre os mundos natural e sobrenatural. Propiciam momentos de encontro entre os construtores do cosmos: homens e ancestrais e outros seres mitológicos de diferentes naturezas. Os rituais visam ainda ordenar e reordenar relações sociais e práticas cotidianas, assegurando simultaneamente a manutenção e a renovação da sociedade.

No caso da sociedade tradicional africana, em particular, o mundo é um todo integrado em que se relacionam não só aspectos sociais mas também o tempo e o espaço em que se vive. Para o africano, a vida social na sua totalidade insere-se numa constante busca de equilíbrio entre um sistema de forças que se expressam desde os tempos primordiais. Deuses ancestrais e mortos das linhagens até à sociedade nos diversos grupos sociais  (mais velhos, homens e mulheres adultas, e jovens) formam um contínuo que coexistem no dia a dia. Tal sistema, de cunho ontológico, estabelece uma hierarquia de estruturas baseadas em critérios de ancianidade. Assim, a comunidade africana é constituída de vivos e antepassados entre os quais há uma constante relação recíproca explicitada no culto aos antepassados. Um dos aspectos mais relevantes reside no papel desempenhado pelo chefe da comunidade nesta relação. Ele é o intermediário obrigatório entre o mundo visível e o invisível, intercedendo junto aos ancestrais, e é através dele que os vivos recebem o fluxo vital. O chefe é, por conseguinte, considerado um gerador de vida e fecundidade que transmite a toda a comunidade.

Exposições como essa reafirmam mais uma vez que o imaginário comum nas suas origens são aspectos de uma história cultural a ser preservada e conhecida com urgência pelo presente.

Feitos os esclarecimentos iniciais, passaremos agora a analisar as peças que encontramos na exposição em 28 de janeiro de 1997, começando pelo setor Brasil Indígena:

  • Zoólito representando um “pássaro” datado de 4 mil anos, muito semelhante a outro que está exposto no Museu Arqueológico de Sambaqui, na cidade de Joinville, Estado de Santa Catarina, e que foi fotografado por minha mãe Miwa Suenaga quando lá esteve em duas ocasiões, em 1º de junho de 2002 e 10 de abril de 2007. Confeccionados pelo chamado “homem do sambaqui”, grupos pescadores-coletores que se destacaram pela sofisticada indústria baseada em artefatos de pedra polida e sobretudo pelos sambaquis (samba = concha; qui = monte), montículos de conchas e restos de alimentos que chegavam a atingir mais de 30 metros de altura e 500 metros de comprimento, são uma obra de arte sofisticada, de fino polimento e acabamento.
O zoólito em forma de pássaro no MAE-USP…
..e o zoólito em forma de pássaro no MAS de Joinville. Foto de Miwa Suenaga.
  • Boneco representando o ser sobrenatural Topy. Relaciona-se às crenças mágico-religiosas dos Tapirapé, tribo do nordeste do Mato Grosso. As imagens de Topy são modeladas pelos Tapirapé sob a forma de bonecos de cera preta de abelha. Apresentam, com pequenas variações, as características anatômicas imaginárias mostradas neste exemplar da exposição: cabeça achatada, pescoço bastante comprido, tronco esférico, membros inferiores e superiores alongados e representação dos órgãos genitais masculinos. Alguns podem não possuir vestuário (estojo peniano) e ornamentação. Outros ainda possuem o corpo parcial ou totalmente coberto por fina camada de algodão, à exemplo dos cabelos brancos e macios que recobrem o corpo deste exemplar. Topy, considerado o princípio do mal, integra o elenco de seres que funcionam como força sobrenatural adversa aos vivos, morando num “morro cheio de fogo” na extremidade da terra habitada pelos homens. Atravessa, de canoa, o céu durante as tempestades, causando o estrondo do trovão e provocando, junto com outras entidades malignas, a destruição da casa de Imaraí, o princípio do bem. Pela sua tipologia (físico diferente dos humanos), modo de locomoção (canoa voadora) e comportamento (provocando barulho e destruição), não é difícil depreender que trata-se de uma entidade sobrenatural.

  • Réplica miniatura em madeira de um avião com hélice, feita pelos índios Waurá, da região central de Mato Grosso. Eis um bom exemplo do chamado “culto cargo”, ou seja, a divinização de elementos tecnológicos avançados até então desconhecidos por parte dos indígenas. É sabido que confeccionam tais modelos – assim como constroem aeroportos artificiais, erguem estátuas, sacrificam animais, etc. -, na esperança de que o “pássaro mágico” volte trazendo a carga preciosa, ou seja, produtos industrializados.

  • Máscara de culto aos ancestrais, de uma tribo africana com um nome bastante sugestivo: Senufo. Trata-se de um rosto envolto por um capacete dotado de chifres, mangueiras, tubos e proteção para as orelhas. Na boca, destaca-se algo sem dúvida singular: uma espécie de respiradouro, semelhante ao usado pelos mergulhadores. No alto, há uma pequena escultura de um homem sentado, representando provavelmente algum parente morto. Da mesma tribo, há também uma máscara miniatura representando um ser mítico, dotado de dois chifres, muito parecida com a figura do “demônio”.

  • Máscara ritual da tribo dos dogons, habitantes da República do Mali, África Ocidental, usada por ocasião da festa de Sigui, celebrada somente de 50 em 50 anos. A máscara traz uma cruz dupla que representa o equilíbrio entre o céu e a Terra, simbolizando a ordem sagrada. Dizem os mitos dos dogons que, de 50 em 50 anos, Digitaria (estrela do Sigui) completaria a sua órbita em torno de Sírius, estrela gigante de intensa luminosidade, enquanto esta, mera acompanhante, ficaria invisível. Outrossim, afirmam os dogons que Digitaria seria a estrela mais pesada, a qual determinaria a posição de Sírius, ao orbitar em seu torno. Conforme mostraram Robert Temple, em O Enigma de Sírius, e Erich von Däniken, em Provas de Däniken,  os dogons possuem, desde tempos imemoriais, um conhecimento detalhado sobre as estrelas Sírius e Sírius B, que só obtivemos nos séculos XIX e XX.

  • Máscara Tsiwara usada em rituais agrários, da tribo Bambara.

  • O artefato mais notável de todos, sem dúvida, é o Adjelê-Ifá, da tribo Yorubá, da África Ocidental, que compreende as etnias Nagô, Ketu e Egbá. Trata-se uma escultura explícita de um OVNI com o típico formato discóide. Na parte superior, ostenta traços uniformes em ângulo reto que lembram janelas. É semi-aberto na metade, permitindo uma visão parcial do seu interior, onde podemos entrever uma espécie de plataforma. Da parte inferior partem dois pés de aterrissagem ou talvez a emanação de algum tipo de “luz sólida”. No topo, há uma protuberância à guisa de cúpula. E, sustentando o disco, não poderia haver nada mais significativo. Um pássaro transmite a sensação de que o objeto vai alçar voo. O artista, obviamente, procurou incluir o pássaro de modo a atribuir ao objeto a propriedade de voar.          

Outras peças da exposição

Brasil indígena:

Máscara Tukuna
Estátua amazônica do século XII
Vasos de cariátides e de gargalo e cachimbos
Raríssimos muiraquitãs, amuletos de jade que eram dados como lembrança das icamiabas, mulheres sem marido, aos homens que as visitavam e com quem se acasalavam anualmente, ou, segundo outras versões, somente àqueles com quem tinham concebido filhas. Saiba mais sobre os muiraquitãs no artigo de minha autoria “Existiram de fato as amazonas?”, publicado neste site.

África:

Bonecas de fertilidade Akuabá
Máscara feminina e máscara para a ordem social
Estatuetas de base semilunar
Estatuetas de culto à fertilidade

Mediterrâneo e Médio Oriente na Antiguidade:

Divindades femininas ligadas ao culto da fertilidade
Controle de contabilidade
Sinetes cilíndricos

Cláudio Suenaga no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da Universidade de São Paulo (USP)

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