A lenda da cidade subterrânea do povo lagarto de Los Angeles

Nas profundezas do coração do distrito financeiro de Los Angeles, centenas de metros abaixo dos enormes edifícios do centro da cidade que abrigam bancos, escritórios corporativos e agências governamentais, haveria uma cidade subterrânea construída há cinco mil anos por um povo desaparecido extremamente avançado conhecido como “povo lagarto. O que haveria de verdade nessa história contada em 1933 por um geofísico e engenheiro de minas chamado George Warren Shufelt? É o que você irá conferir a partir de agora.

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Em 1933, em plena Grande Depressão, o geofísico e engenheiro de minas George Warren Shufelt (nascido em Waterville, Lucas County, Ohio, em 1886), começou a disseminar uma das lendas urbanas mais atrativas de Los Angeles: a do Povo Lagarto (Lizard People). Segundo Shufelt, quando estava em uma farmácia no Arizona, um índio hopi chamado Chefe Green Leaf, também conhecido como L. Macklin, contou-lhe a história da civilização perdida do Povo Lagarto.

Esse povo lagarto, que não era propriamente reptiliano alienígena, mas uma super raça de seres humanos excepcionais relacionada aos maias que adorava o lagarto como um símbolo de longevidade, teria criado uma incrível rede de 285 túneis e 13 instalações subterrâneas em Los Angeles há cerca de 5.000 anos e nela depositado riquezas incalculáveis, entre elas 37 tábuas de ouro de 1,50 metros de comprimento cada contendo o registro da história dos antigos maias e a origem da própria raça humana.

O que teria forçado o povo lagarto a criar essa vasta rede ao longo da costa do Pacífico, incluindo a de L.A., foi uma chuva de meteoros catastrófica que se desencadeou na forma de uma enorme língua de fogo com centenas de quilômetros de largura que veio do sudoeste varrendo toda a vida em seu caminho. A famosa Cratera Winslow do Arizona foi considerada o marco zero desse dilúvio ardente.

De modo a proteger a tribo contra futuros desastres, no temor de que a catástrofe se repetisse, o povo lagarto cavou 13 assentamentos subterrâneos ao longo da Costa do Pacífico. Essas cidades subterrâneas podiam abrigar mil famílias cada uma, junto com estoques de comida e água, além do tesouro de tábuas de ouro que narravam a história da tribo, a origem da humanidade e a história da criação do mundo. O povo lagarto era tão intelectual e tecnologicamente avançado que teria usado uma “solução química” desconhecida capaz de derreter rochas e sólidos e assim escavar os túneis e as salas de seus abrigos subterrâneos.

O engenheiro de minas G. Warren Shufelt em Los Angeles em 1934 ou 1935 com seu dispositivo de raios X de rádio para detecções subterrâneas. Fonte: UCLA, Library Special Collections, Charles E. Young Research Library.

Shufelt ficou tão obcecado com a história contada pelo chefe índio hopi que passou a dedicar sua vida para confirmá-la. Inventou o que chamou de “radio X-ray machine”, com o que acreditava poder localizar os túneis subterrâneos. Um repórter descreveu o dispositivo como uma “caixa cilíndrica de vidro dentro da qual um prumo preso a um fio de cobre mantido pelo engenheiro oscila continuamente, apontando em direção a minerais ou túneis abaixo da superfície do solo”.

De posse de um mapa antigo desenhado em pele de carneiro que mostrava o caminho para o tesouro localizado embaixo da antiga colina de Fort Moore Hill, Shufelt convenceu o Conselho de Supervisores da cidade a deixá-lo procurá-lo, e as duas partes concordaram que cada qual ficaria com a metade das riquezas caso viessem a ser encontradas.

Em 3 de março de 1933, um poço de 6 metros de profundidade foi escavado no quintal da outrora grandiosa Mansão Wills, na 518 North Hill Street, que havia sido recentemente condenada pela cidade e ficava quase diretamente sobre o túnel da Broadway, com vista para Sunset, Spring e North Broadway. A escavação foi dificultada por rochas densas e muita lama, já que os poços passavam pelo lençol freático. “Com todas as marcações românticas de mapas do tesouro, cruzes, símbolos e figuras misteriosas”, relatou o jornal Los Angeles Times em 5 de março de 1933, “o pergaminho antigo era consultado de tempos em tempos enquanto os trabalhadores entravam na parede lateral do poço”. E em 9 de março, a máquina de raios X de Shufelt, que era mais uma espécie de haste de radiestesia, entrou em operação ao ser baixada na cavidade. 

3 de março de 1933: Escavação diretamente sob o túnel da Broadway, um antigo centro histórico que ficava ao norte do Palácio da Justiça.

Quando o inverno chegou, as escavações cessaram, ao mesmo tempo em que o dinheiro secava e o interesse do público e por conseguinte dos jornais diminuíam, até que por fim, foram dadas como encerradas, sem que nada tivesse sido encontrado. 

Alguns meses depois, Shufelt ressurgiu, desta vez com uma história ainda mais mirabolante e um mapa desenhado à mão. Suas reivindicações foram cobertas em detalhes pelo Los Angeles Times e pela agência noticiosa Associated Press, que espalharam a retomada da busca de Shufelt pelas cidades perdidas e pelo tesouro do povo lagarto por toda a América. A extensa matéria de autoria do repórter Jean Bosquet publicada com chamada na primeira página do Los Angeles Times de 29 de janeiro de 1934, fixou de vez a lenda do povo lagarto no imaginário do povo norte-americano. 

Nela, Shufelt garantia que seu dispositivo de raios X o teria levado da Biblioteca Central do centro da cidade até o Museu Sudoeste na base do Monte Washington. “Eu sabia que estava sobre um padrão de túneis”, disse ele, “e eu havia mapeado o curso dos túneis, a posição de grandes salas espalhadas ao longo da rota dos túneis, bem como a posição dos depósitos. Minhas imagens radiográficas de túneis e salas, que são vazios subterrâneos com cantos, lados e extremidades perfeitas, são provas científicas de sua existência. No entanto, a história lendária deve permanecer especulativa até ser desenterrada por escavação.”

A cidade subterrânea, com o formato apropriado de um lagarto gigante, ia do Elysian Park, com a cabeça nas proximidades de Chavez Ravine (a localização atual do Dodger Stadium), até a Biblioteca Central, a ponta da cauda. A “sala das chaves”, a câmara que continha o mapa da cidade e a indicação das tábuas de ouro, ficava a várias centenas de metros abaixo do local atual da Times-Mirror Square. Shufelt também afirmou que havia traçado passagens que se estendiam até a área em torno do Museu do Sudoeste e disse que os túneis de ventilação se estendiam para o oeste, terminando no Oceano Pacífico. Eis a reportagem de Jean Bosquet e o mapa do sistema de túneis do povo lagarto elaborado por Shufelt publicado no Los Angeles Times de 29 de janeire 1934:

Logo após o surgimento da história do Los Angeles Times, o projeto, que havia sido autorizado pelo Conselho de Supervisores da cidade mais de um ano antes, cessou repentinamente e Shufelt e seus companheiros desapareceram no ostracismo. Todo esse negócio misterioso e improvável foi descartado como uma farsa e rapidamente esquecido. Desde então, túneis inexplicáveis foram sendo desenterrados no centro de Los Angeles, mas geralmente explicados como o trabalho de contrabandistas que escondiam trabalhadores ilegais chineses no século XIX.

Todo o alvoroço em torno do mito do povo lagarto de Shufelt e como as próprias autoridades puderam tê-lo levado a sério a ponto de autorizar escavações, é um tanto fácil de entender e decifrar. Como todo mito, este também foi baseado em fragmentos razoáveis de verdade, e ainda tinha como base um outro mito poderoso de Los Angeles: a de que ali uma pessoa pode enriquecer fácil e rapidamente.

O caldo de cultura já vinha sendo alimentado pelos impulsionadores do progresso de Los Angeles desde o final do século XIX, quando precisavam criar uma versão romântica da cidade para vendê-la ao resto do país. Nesta atmosfera inebriante, lendas de tesouros espanhóis e riquezas perdidas enterradas nas colinas se espalhavam.

Boatos persistentes de um tesouro enterrado sob Fort Moore Hill, exatamente onde Shufelt escavou, já tinham levado muitos a se aventurarem ali em busca de tesouros escondido por soldados americanos em 1847.

O fato desconcertante de que o Conselho de Supervisores da cidade tenha assinado um contrato com Shufelt é facilmente compreensível considerado que Fort Moore Hill já vinha sendo perfurado para dar lugar a estradas e túneis. Destarte, o que custava deixar aquele cara escavar?

George Warren Shufelt passou o restante de sua vida na obscuridade nos arredores de Los Angeles e finalmente morreu em North Hollywood em 17 de novembro de 1957 aos 71 anos, sendo enterrado no Valhalla Memorial Park em Burbank, um cemitério com origens sombrias.

Com a popularização dos reptilianos de David Icke no século XXI, a lenda do povo lagarto reviveu na internet e se tornou uma profecia auto-realizável.

4 thoughts on “A lenda da cidade subterrânea do povo lagarto de Los Angeles

  • 11/01/2020 em 20:42
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    Excelente pesquisa. Parabéns. Seria muito muito ingênuo considerar a raça humana a única no espaço infinito.

  • 12/01/2020 em 00:36
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    Obrigado Jayme Savite, quanta honra. Um grande abraço.

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