O kofun circular de Takamatsuzuka na vila de Asuka em Nara

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga (texto e fotos) e Alexandre Akio Watanabe (fotos com a presença de CTS)

Estive no monte funerário (kofun) de Takamatsuzuka (que em japonês significa “Monte de enterro antigo de pinheiros altos”), um antigo túmulo circular de duas camadas na vila de Asuka, dentro do Parque Histórico Nacional e Governamental de Asuka, na província de Nara, a capital do Japão durante o século VIII.

Descoberta acidentalmente por um fazendeiro local na década de 1960 quando cavava um buraco para armazenar raízes de gengibre, a tumba de Takamatsuzuka foi construída em algum momento entre o final do século VII e o início do século VIII, dentro, portanto, do chamado período Asuka (de 538 a 710 d.C. ou 596 a 645 d.C.), que recebeu esse nome justamente da região de Asuka, a cerca de 25 quilômetros ao sul da atual cidade de Nara. O período Asuka ficou marcado pelas suas significativas transformações sociais e políticas, pelo vicejamento das belas artes e da arquitetura, e por ter sido bastante influenciado pela chegada do budismo da China através da Península Coreana – os estudiosos sabem há muito tempo que o Japão antigo emprestou grande parte de sua filosofia e religião da China e da Coreia. Foi no período Asuka que o país mudou de nome de Wa (Yamato) para Nihon (Japão) e a filosofia de Confúcio se tornou predominante.

O kofun de Takamatsuzuka, com seus cerca de 5 metros de altura, uma camada inferior com 23 metros de diâmetro e uma superior com 18m de diâmetro, atualmente recoberto de grama, foi erigido com camadas alternadas de argila e areia.

Escavado na década de 1970 por uma equipe liderada pelo arqueólogo natural de Asuka, Aboshi Yoshinori (1927-2006), professor associado da Universidade de Kansai e pesquisador do Instituto Arqueológico de Kashihara em Nara, finas pinturas ricamente coloridas foram desveladas nas paredes de gesso da câmera funerária em 1972 e logo viraram uma sensação. Designadas como Tesouros Nacionais, a fim de protegê-las, a tumba foi selada e somente se pode ver réplicas no vizinho Museu Mural Takamatsuzuka, construído especialmente para exibir as reproduções dos afrescos em larga escala da cripta, juntamente com vários artigos funerários, como um caixão de madeira lacado (medindo 199,5 cm de comprimento por 58 cm de largura), pregos de metal, um ornamento de florais de bronze e um espelho chinês da dinastia Tang. Alguns ossos também foram encontrados, e as análises atestaram que pertenciam a um homem em idade madura.

Não se sabe exatamente para quem o kofun Takamatsuzuka foi construído ou quem foi ali enterrado, já que foi saqueado, mas as decorações sugerem que teria sido para um membro da família real japonesa ou para um nobre de alto escalão, provavelmente para o príncipe Osakabe, um dos filhos do imperador Tenmu, para o filho do último rei de Baekje ou Isonokami Ason Maro (640-717), um importante oficial e parte do clã Mononobe:

  1. Príncipe Osakabe (falecido em 705), filho do imperador Tenmu.
  2. Príncipe Yuge (falecido em 699), também filho do imperador Tenmu.
  3. Príncipe Takechi (654-696), também filho do imperador Temmu, general da Guerra de Jinshin, Daijō Daijin.
  4. Isonokami Ason Maro (640–717), um descendente do clã Mononobe e encarregado de Fujiwara-kyo após a mudança da capital para Heijo-kyo.
  5. Kudara no Konikishi Zenkō (617-700), filho do último rei de Baekje, um dos Três Reinos da Coreia.

Há quatro espíritos guardiões guardando as quatro direções pintados nas paredes da cripta, algo um tanto comum em túmulos desse período encontrados na China e na Coreia. Estes são Genbu, uma tartaruga-cobra preta no norte,  (Black Tortoise), Suzaku, um pássaro vermelho no sul (Vermilion Bird), Seiryu, um dragão azul no leste (Azure Dragon), e Byakko, um tigre branco no oeste (White Tiger).

Genbu, a tartaruga-cobra preta, ou a tartaruga entrelaçada com uma cobra circundante, na face norte
Suzaku, o pássaro vermelho na face sul
Seiryu, o dragão azul na face leste, fotografado em fevereiro de 2017. Photo courtesy of the Nara National Research Institute for Cultural Properties.
Byakko, o tigre branco na face oeste
Esquema geral dos murais

As referências astronômicas são nítidas. Vêem-se imagens do sol (na parede leste), da lua (na parede ocidental) e de constelações (no teto). A imagem do sol está coberta de folhas de ouro e a imagem da lua, de folhas de prata. O mapa astronômico no teto foi afixado com círculos uniformes cortados de uma folha grossa de ouro para representar as estrelas, conectadas com linhas vermelhas para incluir constelações. 

Em cada caso, os desenhos foram feitos através de um processo de primeiro cobrir a superfície da pedra com gesso e, em seguida, desenhar os contornos preliminares com tinta fina, seguidos de uma coloração brilhante em azul, vermelho e verde, etc.

Desses murais emergem uma impressão vívida da cultura e da história japonesa daquele tempo: grupos de figuras humanas (quatro homens e, separadamente, quatro mulheres) da corte, ricamente vestidas com mantos coloridos no estilo Goguryeo (um dos Três Reinos da Coreia, juntamente com Paekche ou Baekje e Silla). As mulheres são vistas segurando leques, prendedores de cabelo e cetros, enquanto os homens seguram guarda-sóis de seda (kinugasa) de cabo longo, uma espada, uma lança, uma cadeira e um gitchō (item semelhante a um taco de hóquei). A mulher vestida de vermelho e carregando um cajado é chamada de “Asuka Bijiin, ou “Beleza de Asuka”.

Um dos murais policromáticos retratando mulheres ricamente vestidas e segurando um leque e um cajado.

O povo de Asuka estabeleceu as fundações do Japão como um estado-nação, adotando as mais recentes influências culturais por meio de trocas com as nações do leste asiático. Os muitos túmulos, templos e estruturas de pedra restantes na área atestam a força dessas influências. O estilo Asuka incorporado pelos templos da cidade e pelas esculturas budistas, representa a base sobre a qual a cultura japonesa foi construída.

Um lugar de rica história e beleza natural, Asuka, centro político, econômico e cultural do país por cerca de um século, cercado pelos inúmeros palácios e templos budistas, é merecidamente conhecido como o lar espiritual do povo japonês.

Muito mais se poderia saber sobre os kofuns do Japão se a Agência Imperial do Japão, que controla rigorosamente a investigação dos mesmos, permitisse o acesso de mais arqueólogos e pesquisadores, sem os inconvenientes de praxe, alegadamente para preservar a santidade e a integridade dos locais. Pensemos no quanto ainda subjaz enterrado à espera de finalmente ser conhecido, aspectos de uma civilização tão avançada que nos deixa estupefatos.

Há um paralelismo transcontinental inegável entre o monte circular de Takamatsuzuka e as mamoas ou tumulus, o montículo artificial circular ou oval que cobre as câmaras dolmênicas europeias. Essas tanto podem ser de terra, revestida por uma couraça de pequenas pedras imbricadas, ou ser apenas constituída por pedras, sendo então designada usualmente por cairn, do escocês càrn (que se pronuncia ‘kern’). Na Escócia, os cairn encontram-se sobretudo sobre relevos de terreno e no alto das montanhas. E, como existe o costume de transportar uma pedra até ao alto da colina para a colocar sobre eles, estes vão ficando cada vez mais altos. Um ditado antigo escocês diz “Cuiridh mi clach air do chàrn”, ou seja “Colocarei uma pedra sobre o teu cairn”. É interessante que ainda hoje há uma tradição judia que recomenda que se ponham pequenas pedras em cima de um túmulo que se visite.

As mamoas (nome dado pelo romanos quando da sua chegada à Península Ibérica, que chamaram de mammulas a estes monumentos, pela sua semelhança com o seio de uma mulher), tinham a finalidade de esconder e proteger o dólmen ou a sepultura, recobrindo-o completamente e conferindo-lhe, ao mesmo tempo, maior monumentalidade. O dólmen, sob uma colina artificial (a mamoa), afigurava-se como um “útero” abrigado do olhar, onde se colocavam relíquias “no seio da terra”. Em termos de significação simbólica, essa deposição era como que um regresso de um humano ao útero do ventre materno da Terra Mãe.

As mamoas eram estruturas de tamanho variável, podendo atingir quarenta metros, e que tapavam completamente a câmara e o corredor, quando este existia. É possível que tivesse também, em certos casos, proporcionado um plano inclinado para o transporte da tampa da câmara até a sua posição definitiva.

A técnica de construção das mamoas demonstra geralmente uma hábil solução arquitetônica feita para durar, sem usar argamassa. Encontram-se pedras especialmente cortadas para melhor se inserirem no espaço que preenchem e interstícios preenchidos por pequenas pedras angulosas, partidas intencionalmente, para reforçar a estrutura.

Representação esquemática do processo de construção de uma mamoa. Desenho de Dulcineia Pinto.

Estas sepulturas megalíticas monumentais eram destinadas a abrigar antepassados importantes e não pessoas comuns, com cada grupo correspondendo aos antepassados míticos de uma determinada família ou linhagem.

Fotos extras do kofun circular de Takamatsuzuka

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