Os 65 anos da KGB, a maior agência de espionagem de todos os tempos

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Em março de 1954, surgia a maior, mais ramificada e poderosa agência de espionagem de todos os tempos, o Comitê de Segurança do Estado [Komitet Gosudartsvennoi Besorpasnosti (KGB)], derivada de departamentos como a NKGB (Comissariado do Povo para Segurança do Estado) que tinham se originado a partir da Comissão Extraordinária de Combate à Contrarrevolução e à Sabotagem, a temida Cheka [de cujas iniciais das duas primeiras palavras de seu título em russo – Chrezvychaynaya Komisiya (Ch-k) – foi tirada o diminutivo Cheka], criada em dezembro de 1917, logo após a Revolução Russa, para controlar as atividades contrarrevolucionárias e estabelecer um Serviço de Inteligência para fazer frente aos agentes estrangeiros. A KGB acumulou tarefas de inteligência, contra-espionagem, polícia secreta e controle de fronteiras, gulags, prisões e sanatórios psiquiátricos para dissidentes.

A KGB, ao contrário do que muitos pensam, não parou de agir após o desmantelamento do Império Soviético, mas continua tão ativa quanto sempre foi, ainda que sob outras denominações ou pulverizada em dezenas de departamentos. Só na Rússia ainda emprega cerca de quinhentos mil funcionários, sem contar os mais de dez milhões de agentes e informantes disfarçados e infiltrados em todas as áreas em vários países do mundo.

Anatoliy Mikhaylovich Golitsyn (1926-2008), desertor da KGB que forneceu uma ampla gama de informações à CIA sobre as operações e os métodos da KGB, em 1984, pouco antes portanto da glasnot e da perestroika, publicou o livro New Lies for Old (Novas Mentiras no Lugar das Velhas), no qual alertou sobre a estratégia de engano a longo prazo do movimento comunista que, conforme esmiuçou, consiste em fingir debilidade e enfraquecimento, transmitindo assim uma falsa sensação de segurança ao Ocidente para finalmente paralisá-lo e isolá-lo econômica e diplomaticamente.

Golitsyn esclareceu que já em 1959 a KGB tramava a perestroika para manipular a opinião pública estrangeira em uma escala global. O plano era de certa forma inspirado nos ensinamentos do general, estrategista e filósofo chinês do século VI a.C. Sun Tzu (544 a.C.-496 a.C.), que em seu livro A Arte da Guerra, recomendava “levar o inimigo a transformar a sua fraqueza em sua maior força”.

Golitsyn estava certo, já que a KGB foi a principal beneficiária das mudanças políticas na Rússia.

A perestroika abriu o caminho para a KGB avançar em direção ao coração do poder na Rússia.[1] A propósito, Olavo de Carvalho, o primeiro a divulgar o livro de Golytsin no Brasil, escreveu:

“Quando nos anos 80 o desertor da KGB, Anatolyi Golytsin, revelou ao governo dos Estados Unidos o mega-projeto estratégico com que a KGB planejava consolidar seu poder e ampliar seu raio de ação em escala mundial por meio de um engodo denominado ‘perestroika’, as implicações dessa informação eram óbvias e escandalosas: ela provava que os serviços de inteligência do Ocidente estavam enganados em praticamente tudo e que, movendo-se no escuro como cabras-cegas, vinham servindo de instrumentos inconscientes para a realização do mais ambicioso plano estratégico comunista de todos os tempos. […] Os fatos acabaram demonstrando que Golytsin estava certo em praticamente tudo (a própria CIA reconhece que 96% de suas previsões se realizaram).”[2]

Em seu livro The Perestroika Deception, Golitsyn alertou que “A KGB continua a ser tão poderosa quanto antes. Quem se deixa enganar pelas mudanças cosméticas da KGB, apoia o mito da ‘democratização do sistema político soviético’.”[3]

As táticas subversivas da KGB para destruir o mundo ocidental

Em entrevista concedida ao produtor, conferencista e escritor norte-americano G. Edward Griffin (1931-) – autor, entre outros, de The Creature from Jekyll Island: A Second Look at the Federal Reserve[4] – em 1984, o desertor da KGB e ex-funcionário da agência de informação russa NOVOSTI Yuri Bezmenov (1939-1997), expôs as táticas subversivas do Serviço Secreto Soviético contra a sociedade ocidental, explicando como a ideologia marxista estava destruindo os valores norte-americanos, desestabilizando a economia e provocando crises para que o sistema totalitário comunista fosse implantado no mundo livre. O processo de subversão ideológica, conforme esmiuçou Bezmenov, é “legítimo” e aberto e não tem nada a ver com a espionagem que se vê em filmes de James Bond.

Na realidade, a ênfase principal da KGB não é a área de inteligência. A KGB só trabalha em “espionagem” tradicional (como a CIA, por exemplo) usando 40% dos seus recursos. O restante é de um outro tipo de ação, de implementação muito mais lenta e de resultados idem, chamado de “medidas ativas” e de “influência”, um processo de desmoralização e lavagem cerebral feito de forma tão sutil, gradual e ininterrupta que, ao fim do processo, as pessoas submetidas a ela agem como se fossem agentes anticapitalistas ou ao menos antiamericanos. Trata-se basicamente de uma mudança de percepção ou realidade de cada cidadão, pois apesar da quantidade de informações, ninguém consegue chegar a conclusões certas de como se defender, defender suas famílias, suas comunidades e seu país. O processo levaria no mínimo três gerações para dar resultado. O “dar resultado” significa cooptar um número tão grande de militantes e simpatizantes – conscientes ou não – que, quando esta geração galgasse posições de poder e controle dentro da sociedade, o processo se auto-alimentaria, criando mais e mais militantes e simpatizantes.

A profundidade da lavagem cerebral obtida seria tal que, conforme as palavras de Bezmenov, “argumentos, nem mesmo a verdade serviria para abrir os olhos desses indivíduos. Mesmo que se mostrasse um campo de concentração em pleno funcionamento a toda esta gente, eles nem assim iriam acreditar.” Ou seja, a KGB jamais foi um órgão meramente de espionagem, e sim de subversão político-ideológica, de penetração profunda nos meios de comunicação do país adversário, na mídia, cinema, show business, etc.

No Brasil, o processo de criação de “inimigos internos”, “alienados” e “idiotas úteis” já foi há muito completado, tanto que assumiram a governança, mudaram as leis e estão aos poucos implementando um regime totalitário disfarçado de democracia, “um sistema repressivo tão perfeito como jamais houve no mundo”, como vem alertando Olavo de Carvalho desde meados dos anos 90. Os que foram convertidos e tiveram suas mentes lavadas continuam, por sua vez, tal como zumbis ou robôs pré-programados, a pôr em prática as “medidas ativas” de “influência” e “propaganda ideológica”.

O que as pessoas recebem hoje como mainstream, como opinião dominante, foi criado pela KGB. Pelo que vemos no mundo e no Brasil de hoje, a tal máquina continua a fabricar mais e mais idiotas, principalmente na América Latina. A KGB, ao contrário do que muitos pensam, não parou de agir mesmo depois de sua extinção oficial (apenas no papel) em 6 de novembro de 1991, pouco mais de um mês antes da implosão da União Soviética, mas continua tão ativa hoje quanto nos tempos da Guerra Fria, levando a contento suas campanhas de guerras culturais, de difamação e de distribuição de dinheiro para corromper consciências.

Sob outros nomes, entre eles o Serviço Federal de Segurança da Federação Russa (FSB, o seu maior sucessor), ou mantendo o mesmo nome, como na Bielo-Rússia, cujo serviço de inteligência continua sendo chamado de KGB, só na Rússia ainda emprega cerca de quinhentos mil funcionários – pouco antes do desmantelamento do Império Soviético, esse número chegava a mais de um milhão –, sem contar os mais de dez milhões de agentes disfarçados e infiltrados em todas as áreas em vários países do mundo. Segundo Yuri Valentinovich, funcionário da KGB de 1967 a 1987, a agência chegou a possuir mais de vinte milhões de informantes só nas repúblicas soviéticas.[5]

Notas:

[1] Golitsyn, Anatoliy. New Lies for Old: The Communist Strategy of Deception and Disinformation, New York, Dodd, Mead and Company, 1984.

[2] Carvalho, Olavo de. “A desinformação da desinformação”, in Diário do Comércio, São Paulo, 12-7-2011.

[3] Golitsyn, Anatoliy. The Perestroika Deception, London, Edward Harle, 1995.

[4] Griffin, G. Edward. The Creature from Jekyll Island: A Second Look at the Federal Reserve, Westlake Village (CA), American Media, 1994.

[5] Petit, D. Pastor. Diccionario Enciclopédico del Espionaje, Madrid, Editorial Complutense, 1996, p.223-230.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *