Os 60 anos de “Um mito moderno sobre coisas vistas no céu”, de Carl Jung

“A Idade Média, a Antiguidade e a Pré-História ainda não estão extintas, como muitos ‘esclarecidos’ pensam, mas continuam alegremente vivas, em segmentos significativos da população. As mais antigas mitologias e magias continuam, como sempre, prosperando em nossos meios e só são ignoradas por alguns poucos que se distanciaram do seu estado original, através da sua educação racionalista.” (Carl Gustav Jung in Um mito moderno sobre coisas vistas no céu, Vozes, p.55)

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Carl Jung em 1910.

O psiquiatra e psicanalista suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), filho de um pastor protestante e de uma mãe afeita ao espiritismo, de 1895 a 1899 praticou experimentos espiritualistas com uma prima materna que costumava cair em transes. Sua dissertação de conclusão do curso de Medicina, sob a orientação deu conterrâneo, o psiquiatra Eugen Bleuler (1857-1939), intitulada Sobre a psicologia e a patologia dos assim chamados fenômenos ocultos, publicada em 1902, versava sobre esses experimentos. Talvez este teria sido o gérmen para o seu interesse pelo Fenômeno OVNI que culminaria, em 1958, apenas três anos antes de sua morte, com o livro Um mito moderno sobre coisas vistas no céu, um marco para a ufologia, bem como para suas especulações místicas e religiosas.

Foi em 1900 que pela primeira vez entrou em contato com a obra de Freud por meio da leitura de A Interpretação dos Sonhos, mas só sete anos depois é que o conheceria pessoalmente. Conversaram animadamente durante nada menos do que treze horas seguidas, ao que se seguiu uma intensa colaboração científica. Juntos, desbravaram os campos inexplorados do inconsciente para estabelecer as primeiras teorias psicológicas a respeito. Freud o considerava seu sucessor, sem saber que Jung ia cada vez mais além e se distanciava em conceitos básicos, como a religião e a sexualidade, mormente no que tangia à teoria da libido.

Sigmund Freud, G. Stanley Hall, C.G. Jung, A.A. Brill, Ernest Jones e Sándor Ferenczi posam para foto na Clark University, Worcester, Massachusetts, em setembro de 1909. Fonte: Library of Congress/Smithsonian.

A inevitável e dolorosa ruptura com o seu “pai adotivo” e pai da psicanálise ocorre em 1912, um ano depois de Jung publicar seu Transformações e símbolos da libido, mais tarde revisada e intitulada Símbolos de transformação, no qual interpreta as fantasias de Miss Miller, uma jovem norte-americana que sofrera um surto psicótico. O conteúdo mitológico das fantasias de Miss Miller acabou servindo de base à teoria de Jung para a existência de um psiquismo impessoal e universal: o inconsciente coletivo, concebido como um repositório de todas as experiências humanas desde as origens. Essas forças inconscientes ou tendências instintivas formariam representações, os arquétipos, “imagens primordiais” que, atinou Jung, existem pré-conscientemente e compõem as “dominantes estruturais” de todos os seres vivos a determinar a sua “índole específica”.

Freud sente-se traído e Jung fica literalmente sem chão e em apuros, vendo conhecidos e amigos o abandonarem. Inicia-se aí o período mais difícil e delicado de sua vida, repleto de incertezas e desorientações que o levaram a abandonar as atividades acadêmicas e partir para uma jornada solitária terrível em busca do autoconhecimento, a um decisivo confronto com o inconsciente que se estenderá por seis anos, durante os quais tudo de essencial lhe seria decidido.

Possuído por imagens profundas e premido por um intenso tumulto interior, sonhos de morte e renascimento o perturbavam. Foi então que pela primeira vez pintaria uma mandala, uma representação circular do cosmos em conexão com os poderes divinos, que Jung reconhece como uma representação do processo psíquico de individuação, regido pelo self, um princípio ordenador central e total, capaz de reintegrar a personalidade.

Richard Wilhelm

O isolamento de Jung só seria interrompido quando o sinólogo, teólogo e missionário alemão Richard Wilhelm (1873-1930), tradutor e introdutor no Ocidente do antiquíssimo oráculo chinês I Ching – O Livro das mutações, entregou a Jung um exemplar do manuscrito O Segredo da Flor de Ouro, acompanhado do pedido para que escrevesse um comentário psicológico sobre o texto. Wilhelm, convicto de que Jung mobilizara conceitos que se aproximavam daqueles da sabedoria chinesa, pretendia estabelecer paralelos entre a psicanálise e os ensinamentos do oráculo. Jung passou então a estudar também a tradição alquímica e a sua imagem central, a do opus, que representa a busca sagrada de um valor supremo. Jung via no esforço da individuação a mesma busca dos alquimistas em desvendar o segredo capaz de transformar a matéria grosseira em ouro, ou encontrar a “pedra filosofal”.

A proposta analítica-terapêutica de Jung, por sua notável abrangência e alcance, se afigura como um desafio pessoal ao autoconhecimento e à autotranscendência, um desvelamento ao profundo mistério da existência, um chamado da jornada interior para o reencontro consigo mesmo e à realização pessoal. O legado de Jung, reunido em 18 volumes, expandiu exponencialmente o conhecimento sobre o homem e a natureza humana, sendo referência na arte, história, religião, mitologia, filosofia, espiritualidade e até na física quântica. Contudo, compreensivelmente, Jung sempre foi considerado um tanto místico por grande parte dos psicólogos, e suas ideias, ainda mal digeridas, são renegadas e relegadas a uma importância secundária nas cátedras acadêmicas.

Sincronicidade: Um princípio de conexões acausais, 2a ed., Petrópolis, Vozes, 1985.

Um dos conceitos mais notáveis cunhados por Jung, ele que já havia nos legado os de self, individuação, sombra, anima e animus, é o de sincronicidade, acontecimentos que se relacionam por significado e não por causalidade, referendado pela primeira vez em 1929, embora só 21 anos depois concluísse a obra Sincronicidade: um princípio de conexões acausais.

Comuns a todos, tais coincidências, bastante significativas e absolutamente únicas e efêmeras, não podem ser compreendidas dentro do princípio da causalidade, situando-se dentro dos limites da probabilidade, assim como os OVNIs.

OVNIs que, para Jung, eram projeções inconscientes motivados por um intenso anseio coletivo de salvação num momento crucial de desespero, uma compensação pela unilateralidade de nossa era tecnológica de tendência preponderadamente cientificista. As luzes e imagens circulares no céu seriam a mais antiga e acabada representação simbólica do arquétipo da unificação, equilíbrio e totalidade psíquica: o círculo mandálico, evocação do mito do salvador, do próprio Messias.

Visões antigas analisadas por Jung

Um folheto proveniente de Nuremberg, analisado por Jung,  conta a notícia de uma “visão muito apavorante”, no horário da aurora, em 14 de abril de 1561. Foi vista “por muitos homens e mulheres”. Eram esferas de cor vermelha como sangue, azulada e preta e discos em grande número, perto do sol, “mais ou menos três enfileirados, às vezes quatro formando um quadrado, também vários soltos e, entre essas bolas, foram vistas, também, várias cruzes cor de sangue”. Também foram vistos “dois tubos grandes (respectivamente três), tubos pequenos e grandes, nos quais havia três, também quatro ou mais bolas. Tudo isso começou a brigar entre si”. Isso durou aproximadamente uma hora. Depois, “tudo caiu do céu, como que ofuscando pelo sol, sobre a terra, como se tudo estivesse queimando e desapareceu como uma grande nuvem de vapor, lentamente, sobre a terra”. Da mesma forma, foi vista entre as bolas uma forma longitudinal, “igual a uma grande lança preta”.

A “visão” foi tomada como um aviso divino. Como podemos notar, esse registro contém detalhes bastante significativos. Em especial, aparecem aí os “tubos”, que são análogos às figuras cilíndricas ou naves em forma de “charutos”. Em linguagem ufológica, as “naves-mãe”, que transportam OVNIs menores, lenticulares, através de grandes distâncias. O desenho as mostra em ação, ou seja, expelindo ou acolhendo OVNIs. Para Jung,

“De especial importância são as quaternidades evidentes, mas que faltam na literatura moderna dos OVNIs, e que foram ligados em forma de cruz, ou seja, como verdadeiras mandalas. Casualmente, são quatro cruzes simples, e quatro mandalas. […] Da mesma forma que a interpretação tecnológica é adequada para a nossa época, assim, também, era a bélica, para o século XVI. As formas redondas são bolas, os  ‘tubos’ são canhões, e a disparada de bolas, de um lado para o outro, uma luta de artilharia. A grande ponta de lança preta, como também os cabos de lança (?), parecem representar o masculino, e, especialmente, o penetrante. Coisas parecidas também são relatadas na literatura moderna dos OVNIs. A acentuação do tema da cruz chama a atenção. A significação cristã da cruz quase não deveria entrar em cogitação, já que se pode dizer que aqui se trata de uma manifestação da natureza, ou seja, de um enxame de seres redondos, em violento movimento de agitação desordenada, que lembra o narrador de uma batalha. Se os OVNIs fossem seres vivos, então, poder-se-ia pensar numa nuvem de insetos, que se eleva com o sol, não para lutar, mas para se acasalar, isto é, para comemorar uma festa nupcial. Neste caso, a cruz é uma união de opostos (verticais e horizontais), um ‘cruzamento’ e, como símbolo de soma, uma junção e adição. Nas quaternidades onde se deu a copulação, trata-se claramente de um acasalamento em cruz, ou seja, do assim chamado quatérnio nupcial […] Ele forma o modelo do ‘cross-cousin-marriage’ primitivo, mas, também ao mesmo tempo, um símbolo de individuação, a unificação do ‘quatro’. As duas ‘estrias cor de sangue’ parecidas com quartos de lua, que passam através do sol, não podem ser explicadas de forma simples. No lugar onde as bolas caíram, elevam-se sobre a terra colunas de fumaça, o que lembra o quadro de Tanguy, como também a quaternidade. O momento do nascimento do sol, a aurora consurgens (Tomás de Aquino, Jacob Böhme), é sugestivo como revelação da luz. Ambos os relatos não estão somente em clara analogia um com o outro, mas também com os relatos modernos sobre discos voadores, e com as figurações individuais do inconsciente de nossa época”.[1]

Outro caso clássico analisando por Jung ocorreu na cidade de Basiléia,[2] Suíça, em 7 de agosto de 1566. Samuel Coccius, estudioso das artes e escrituras sagradas, redigiu um folheto relatando que “no horário da aurora, muitas bolas grandes e pretas foram vistas no ar; com grande velocidade rumaram rapidamente em direção ao sol. Voltaram-se, também, umas contra as outras, como se disputassem uma luta; várias delas ficaram vermelhas e incandescentes, depois foram devoradas (pelas chamas) e se apagaram”. Um desenho da época mostra objetos escuros e claros sobre a praça de Münsterplatz e o Antistitium.[3]

OVNIs em pinturas

Em Um mito moderno de coisas vistas no céu, Jung analisa pinturas de artistas antigos e modernos aquilatando a antítese mundo superior enigmático versus mundo humano ordinário. Essa polaridade é tomada como fundamento das motivações que levam à criação do Fenômeno OVNI. A oposição entre os dois mundos, incomensuráveis entre si apenas em parte, não chega a ser absoluta, pois existe algo comum entre eles. A ponte que os liga é o “número”, ou o “grande mediador”, válidos em ambos os mundos como um arquétipo em sua própria essência. Retomemos os significados atribuídos por Jung a cada quadro:

A animação da criança no ventre materno, de Hildegarda von Bingen (1098-1179), também conhecida como Sibila do Reno, monja beneditina, mística, teóloga, compositora, pregadora, naturalista, médica informal, poetisa, dramaturga, escritora alemã e mestra do Mosteiro de Rupertsberg em Bingen am Rhein, na Alemanha, no século XII: Representa a vivificação, isto é, a animação da criança em formação no ventre da mãe. Do mundo superior, o influxo penetra no feto. O mundo superior possui, inusitadamente, uma forma quadrada, dividida em três partes correspondentes à Santíssima Trindade. Mas diferentemente desta, não é constituída de três partes iguais. Aqui, o espaço central contêm formas arredondadas, enquanto os outros dois caracterizam-se pelo tema dos olhos. Como nas rodas de Ezequiel, as rotundas estão associadas aos olhos. Os dois grupos de pessoas representam destinos aos quais a alma que desperta será entregue. As esferas representam almas.[4]

O peregrino espiritual descobre um outro mundo, autor desconhecido, século XVII: O peregrino, em meio a uma pèlerinage de l’âme (peregrinação da alma) transpõe o limite noturno do mundo conhecido, do lado direito, e vislumbra um universo sobrenatural apinhado de camadas de nuvens, montanhas e outros elementos. Aparecem aí as rodas de Ezequiel, figuras em forma de disco e arco-íris aludindo a “esferas celestes”. Depreende-se nesses símbolos um quadro primitivo da visão dos OVNIs propiciado aos “iluminados”. As “rotunda” são projetadas do mundo interno ou quadridimensional.[5]

O peregrino espiritual descobre um outro mundo, autor desconhecido, século XVII.
Fire sower, de Erhard Jacoby.

Fire sower (O semeador de fogo), de Erhard Jacoby (1898-1980), século XX: Deduz-se pela preexistência do arquétipo do ego, que assume a forma tradicional de uma epifania cuja natureza é acentuadamente antitética. O pintor reconheceu a existência de um medo geral e profundo, expressando-o através de sua arte. O tema, o desejo consciente ou inconsciente de destruição, de desagregação que termina no caos, consubstanciou-se na imagem gigantesca de um fantasmagórico “semeador que saiu para semear”. Ele semeia com chamas, não com água. O fogo cai do céu. Seria um fogo invisível, um “fogo de filósofos”, pois não provoca nenhum incêndio. Como um ser imaterial, a figura perambula entre as casas da cidade – dois mundos que mutuamente se penetram mas não se tocam. A figura se revela arquetípica em todos os seus traços. O espírito é um peregrino que anda sobre a terra semeando fogo, comparável aos deuses e homens-deuses que peregrinavam fazendo milagres, destruindo ou curando. O salmo 104 compara os “servos” de Deus a “chamas de fogo”. O próprio Deus é um “fogo devorador”. “Fogo” é a intensidade de qualquer afeto e símbolo do Espírito Santo, que no milagre de Pentecostes se derrama, em forma de chamas individuais. Daí resultam as figuras de um homo maximus, um anthropos e um filius hominis (homem e filho do homem), de naturezas incandescentes, evocando figuras parecidas com Enoc, Elias e Cristo. Considerando que o fogo de Javé castiga, mata e devora, deixa-se ao critério do observador pensar no “fogo da ira” de Jacob Boehme, que contém o próprio inferno, incluindo Lúcifer (portador ou carregador da luz). A figura do fogo é dúbia, por isso une os opostos. É um “símbolo unificante”, isto é, uma totalidade, superior à consciência humana, que complementa, em todos os sentidos, o estado fragmentário do homem única e pretensamente consciente. É ao mesmo tempo salvador e destruidor. O que quer que aconteça, se haverá prosperidade ou destruição, dependerá da compreensão e da decisão ética do indivíduo. O quadro seria o delineamento da visão de um único escolhido, que tem o dom de ver e de entender de uma forma especial o que os deuses fazem secretamente na terra. A interpretação que o pintor conferiu ao fenômeno distanciava-se da opinião geral de que os OVNIs fossem máquinas espaciais dirigidas.[6]

A quarta dimensão, de Peter Birkhäuser.

A quarta dimensão, de Peter Birkhäuser (1911-1976), século XX: Um traço horizontal atravessa a skyline (silhueta) de uma cidade. Enquanto Jacoby coloca a cidade embaixo, na terra, em contraste com o amplo e alto céu noturno, Birkhäuser empurrou a linha do horizonte para cima de modo a insinuar que a natureza do fundo desce através das profundezas da terra. Nesse fundo aparecem quatorze formas arredondadas, algumas umas mais claras e outras mais escuras. Dez delas representam olhos de rostos humanos ou animais só parcialmente insinuados. Os quatro restantes parecem nós de madeira, ou corpos redondos, escuros, flutuantes, alguns com uma espécie de halo. Da boca do rosto maior, que domina o quadro, jorra água que se derrama sobre a cidade abaixo. Um rosto não toca o outro, sugerindo assim que se trata de algo incomensurável que se passa em dois níveis completamente diversos, parte na horizontal, parte na vertical. Na horizontal há uma cidade tridimensional, que do lado esquerdo recebe uma luz e não interfere no fundo, o qual remete à quarta dimensão. As linhas de interseção dos dois mundos formam uma cruz (cidade e cachoeira). A única relação perceptível entre os dois mundos está no olhar do grande rosto em direção à cidade. Os orifícios nasais pronunciados e os olhos anormalmente separados insinuam que o rosto é só parcialmente humano. O céu não é aquele espaço aéreo azul ou estrelado, mas uma quarta dimensão que contém superanimais, super-homens, discos escuros e buracos redondos. O fundo tem um caráter fluente, “aguado”, por isso está em total oposição à natureza do quadro de Jacoby. O fogo é a alegoria da paixão e da emoção; a água, ao contrário, devido à sua frieza e substancialidade, representa o patients (tudo o que padece), o objeto passivo, a contemplação distante, em suma, a aqua doctrinae, a que mata a sede, e o refrigerum, o que apaga o fogo, ou seja, a “salamandra” da alquimia.[7]

O quadro de Yves Tanguy (1900-1955), finalizado em 1921, mais de 10 anos antes da época dos grandes bombardeios às cidades: Levando em conta que geralmente um quadro moderno apresenta um mínimo de compreensão e um máximo de abstração porque suprime o sentido e a forma eliminando-os ou substituindo-os pelo fator estranheza, Jung seguiu o método de aplicação de um teste de Rorschach.[8] A maioria das pessoas para as quais mostrou o quadro interpretou o seu fundo, em preto e branco, como uma planície; outros, por sua vez, reconheceram desde um mar, coberto de blocos de gelo, passando por uma cidade grande, como São Francisco ou Nova York, situada ao longo de baías e mergulhada numa penumbra noturna, até uma superfície de um planeta deserto, distante do sol, como Urano ou Netuno. Alguns viram bombas caindo e provocando explosões. Na figura central viram de um animal marinho, passando por uma flor, a um rosto demoníaco. De qualquer maneira, as figuras lançam sombras sobre uma superfície que se encontra abaixo delas. Jung comparou o desenho com uma metrópole noturna à beira-mar, pressupondo um ponto de observação elevado, como, por exemplo, de um avião. O artista era originalmente um marinheiro, e, como tal, tivera oportunidade de colher tais impressões. O horizonte se perde sob formações nebulosas, sobre as quais paira uma luminosidade redonda, indeterminada, que se choca com uma formação de nuvens, em forma de charuto, fracamente iluminada. O quadro se destaca por uma linha horizontal acentuada. A vertical aparece claramente no aspecto dramático, da origem celeste do fogo. A comparação com um bombardeio não deve ser descartada, pois, na época em que o quadro foi pintado, havia essa possibilidade, se não como lembrança, talvez como pressentimento.[9]

O quadro de Yves Tanguy

Conforme assinalou Jung, os pintores modernos captaram a destruição das formas e abstraíram o significado e o sentimento de sua época. Pode-se dizer que entregaram-se totalmente ao elemento destrutivo e criaram um novo conceito de beleza: a beleza do caos. Tudo é constituído de cacos, destroços inorgânicos, buracos, distorções, emaranhados, rabiscos, infantilismos e formas grosseiras. É isso que essa arte preconiza e prega: um monte ostensivo de cacos da nossa cultura.[10]

Sigmund Freud

Jung chamou a atenção também para os relatos de sonhos de seus pacientes, nos quais comumente aparecia a costumeira forma lenticular ou de charuto, que aludia à dos primeiros dirigíveis. A interpretação psicanalítica correlacionou a forma de gota dos OVNIs a um símbolo feminino, e a do charuto a um masculino. Os substratos psíquicos arcaicos traduzem o desconhecido ou o incompleto por vias instintivas, o que levou Freud a propor que as formas redondas ou ocas são de cunho feminino, e as longitudinais, masculino. Jung procurava analisar os símbolos oníricos como mecanismos psíquicos regulatórios e até mesmo premonitórios, portadores de mensagens e avisos.

Se as teorias junguianas por si mesmas são insuficientes para explicar o Fenômeno OVNI como um todo, por outro lado alargaram sobremaneira o seu campo epistemológico e o equipararam a um fenômeno religioso e místico, uma das manifestações mais pungentes das profundezas do inconsciente coletivo.

Os OVNIs como um fenômeno concreto e real

Em seu Um mito moderno sobre coisas vistas no céu, Jung não se restringe, porém, ao caráter metafísico de tais “coisas vistas no céu”, pois reconhece a materialidade e a inteligência atribuída a esses objetos numinosos providos de forças míticas, especialmente quando reportados por testemunhas abalizadas como pilotos, controladores de voo e oficias de alto escalão.

Uma carta escrita por Jung em 1957, posta em leilão pela Swann Auction Galleries no início de 2013, revela que o psicanalista suíço estava pessoalmente interessado no Fenômeno OVNI, e não apenas do ponto de vista profissional. A carta foi encaminhada ao jornal New Republic de Washington e é uma resposta ao pedido de Gilbert Harrison, o editor do jornal, para que escrevesse um artigo sobre os OVNIs a propósito do livro Um mito moderno do próprio Jung, que estava preste a ser lançado.

Dadas as fortes implicações psicológicas do fenômeno na mitologia moderna, Jung lamenta que, “afinal, os OVNIs pareçam reais”.

Em vez de especular sobre sua suposta origem extraterrestre, Jung se pergunta qual o significado desses fenômenos, reais ou imaginários, para a humanidade em um momento como este, quando se sente ameaçado como nunca antes em sua história. De acordo com Jung, os OVNIs devem ser considerados como um fenômeno descrito na forma do “mito moderno”.

Eis a íntegra da carta:

“Caro Sr. Harrison,

O problema dos OVNIs é, como você disse com razão, muito fascinante, mas ao mesmo tempo também é desconcertante, pois, apesar de todas as observações que me são conhecidas, não há certeza sobre sua natureza.

Por outro lado, há um material esmagador que aponta para sua natureza mítica ou mitológica. É um fato que o aspecto psicológico do fenômeno é tão fundamental, que é quase lamentável que os OVNIs pareçam reais, afinal de contas.

Acompanhei o fenômeno o máximo possível e, na verdade, parece que algo foi visto e confirmado também por radares, mas ninguém sabe exatamente o que está vendo.”

Como indicado na carta, embora Jung estivesse interessado principalmente no aspecto psicológico do problema, ele havia feito extensas pesquisas para entender se o fato mitológico era baseado em um evento físico.

A partir de uma revisão dos dados objetivos disponíveis sobre o fenômeno e da análise de seus traços nos sonhos e obras dos artistas, Jung conclui que são imagens unificadoras produzidas pelo inconsciente com uma função de reafirmação diante de um estado de perplexidade coletiva nos anos do pós-guerra.

Mas isso não excluiria a hipótese – apoiada pela teoria da sincronicidade – da percepção de realidades físicas concretas ainda não demonstráveis ​​com instrumentos científicos.

Em 1955, Jung já havia escrito um artigo em uma revista britânica sobre OVNIs, a Flying Saucer Review, na qual afirmava:

“Ao longo dos anos, colecionei uma quantidade considerável de observações, incluindo os relatos de duas testemunhas oculares que eu conhecia pessoalmente. Eu também li sobre o assunto. No entanto, só posso dizer com certeza: estas coisas não são apenas ‘rumores’, algo foi visto.”

Embora Jung admitisse que os OVNIs pudessem ser reais e mostrasse o seu interesse pelo fenômeno dos discos voadores para além de suas implicações psíquicas, o fato de ter usado o termo “mitológico” em seu livro deu força aos céticos para pugnarem pela imaterialidade dos OVNIs.

Para tirar qualquer dúvida, Jung escreveu um relatório que foi distribuído pela Associated Press e impresso em 30 de julho de 1958 no New York Herald Tribune, no qual se lê:

“O Dr. Carl Jung, um psicólogo suíço, diz em um relatório publicado ontem que objetos voadores não identificados são reais e mostram sinais de comando inteligentes, provavelmente por pilotos quase humanos. Segundo o estudioso, o fenômeno é muito mais do que uma simples sugestão.

Uma explicação puramente psicológica é excluída. O Dr. Jung, que iniciou seu estudo sobre OVNIs em 1944, divulgou sua declaração através do Centro de Filtragem de OVNIs da Organização de Pesquisa sobre os Fenômenos Aéreos [Aerial Phenomena Research Organization (APRO)], fundada em Tucson, no Arizona, pelo casal Jim e Coral Lorenzen em 1952.”

Notas:

[1] Jung, Carl Gustav. Um mito moderno sobre coisas vistas no céu, Petrópolis, Vozes, 1988, p. 85-86.

[2] Fundada por Valentino I; fez parte do reino de Borgonha, esteve sob a suserania alemã, e em 1501 reuniu-se à Confederação Helvética. Aí se realizou um concílio que durou de 1431 a 1449 e assinaram dois tratados de paz: França-Prússia e França-Espanha, ambos em 1795.

[3] Jung, Carl Gustav, op. cit., p. 84.

[4] Ibid., p. 87-90.

[5] Ibid., p. 86.

[6] Ibid., p. 67-74.

[7] Ibid., p. 74-78.

[8] O teste psico-diagnóstico de Rorschach, concebido por Hermann Rorschach (1884-1922), psiquiatra suíço, consiste na feitura incidental de um borrão de tinta com propriedades de estimular a livre associação de idéias. Na verdade, esse processo associativo é válido para qualquer formação acidental (nuvens, líquidos derramados, manchas na parede, etc.).

[9] Jung, Carl Gustav, op. cit., p. 78-84.

[10] Ibid., p. 67.

Livros recomendados

Jung, Carl Gustav. O espírito na arte e na ciência; trad. de Maria de Moraes Barros, revisão técnica de Jette Bonaventure. Petrópolis, Vozes, 1985; (Obras completas de Jung, v. 15).

            . Memórias, sonhos e reflexões; compilação e pref. de Aniela Jaffé; trad. de Dora Ferreira da Silva. 2a ed., Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1975.

            . Um mito moderno sobre coisas vistas no céu; trad. de Elva Bornemann Abramowitz; revisão técnica de Jette Bonaventure. Petrópolis, Vozes, 1988; (Obras completas de Jung, v. 10/4).

            . A prática da psicoterapia: contribuições ao problema da psicoterapia e à psicologia da transferência; trad. de Maria Luiza Appy; revisão técnica de Dora Ferreira da Silva. Petrópolis, Vozes, 1985; (Obras completas de Jung, v. 16).

            . Psicologia e Religião Oriental; trad. de Mateus Ramalho Rocha; revisão téc. de Dora Ferreira da Silva. Petrópolis, Vozes, 1982; (Obras completas de Jung, v. 11/5).

            . Psicologia do inconsciente; trad. de Maria Luiza Appy. Petrópolis, Vozes, 1980; (Obras completas de Jung, v. 7, t.1).

            . Sincronicidade; trad. de Mateus Ramalho Rocha. 2a ed., Petrópolis, Vozes, 1985; (Obras completas de Jung, v. 8).

             & Wilhelm, Richard. O segredo da flor de ouro: um livro de vida chinês; trad. Dora Ferreira da Silva e Maria Luíza Appy. 5a ed., Petrópolis, Vozes, 1988.