50 Tons de Greys: Entrevista com João Neto, sobrinho de Antonio Villas Boas

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Bisneto de índios, filho de Aristeu Correia de Queiroz e Delidia Villas Boas (que se suicidaram em 23 de dezembro de 1947) e sobrinho de Antonio Villas Boas, João Neto nasceu em São Francisco de Sales em 12 de dezembro de 1940. Desde 1966 é casado com Maria Olímpia de Queiroz, com quem teve três filhos. De instrução primária, sempre foi homem do campo, do sertão, nunca tendo deixado a sua cidade natal. É quem cuida do que restou da fazenda da família Villas Boas, parte inundada pela Represa Água Vermelha e parte transformada em pasto.

Ao chegarmos a casa de João Batista de Queiroz (João Neto) no final daquela tarde de 8 de novembro de 2002, Pablo Villarrubia Mauso e eu o encontramos sentado tranquilamente na varanda ao lado da esposa. Logo de cara ele saudou-me pelo nome como se fosse um velho conhecido, tanto tempo havíamos passado conversando por telefone.

Um daqueles caipiras típicos do interior mineiro, João Neto foi logo esclarecendo que na época do sequestro de AVB era um “rapazinho” (de 16 anos) que auxiliava o Antonio com o trator: “Eu queria aprender a guiar trator para depois aprender a guiar carro. Então eu o ajudava no interesse de aprender a guiar trator, ainda que não fosse remunerado. Além disso, todo mundo na fazenda tinha também de tirar leite, tanger gado, consertar cerca, roçar pasto, etc.” João Neto morava a uns 5 quilômetros de distância da fazenda dos Villas Boas numa fazenda antiga chamada Fazenda Velha, Fazenda da Aldeia ou ainda Fazenda da Mata.

João Batista Queiroz (João Neto) aponta para o local (coberto pelas águas da represa Água Vermelha) na fazenda onde Antonio Villas Boas foi abduzido.

Revezando-se com Antonio em turnos de seis horas no trabalho de aragem da terra, àquela hora da madrugada era a sua vez de descansar, de modo que se encontrava dormindo na cama que ficava em um ponto estratégico dentro da carreta do trator, daí não ter visto nada: “Só fiquei sabendo do que tinha acontecido depois que acordei de manhã, quando ele me contou. Por pouco não me levaram também, já que estava a apenas uns 200 metros do ponto onde pousou o disco voador.” Eram por volta de 8 horas quando João Neto soube por Antonio, mas muito superficialmente, que ele havia sido “capturado na marra” por uns seres de um disco voador que o puseram junto com uma mulher com quem mantivera relações sexuais. Só bem mais tarde, quando Antonio reuniu a família, é que João ficou a par dos detalhes.

Perguntei a João Neto se seu tio usara o termo “disco voador” ou algum outro, ao que ele confirmou que usara exatamente o termo “disco voador”. João Neto desmentiu que Antonio tivesse alguma vez descrito a mulher extraterrestre como sendo bonita. Insisti que ela devia ser de fato bonita, pois era assim que todas as publicações ufológicas a pintavam, ao que ele rebateu com veemência: “Não, ao contrário, ele dizia que ela era feia, baixinha e zoiuda.” João Neto lembrou-se de ter visto Antonio confeccionando uma escultura do disco voador onde esteve: “Ele gostava de esculpir em madeira, então com uma faquinha ou um canivetinho ele fez um disco voador semelhante ao que ele viu e mandou para o João Martins, no Rio de Janeiro. Eu o vi no quarto fazendo a escultura, porque ele ficava o dia inteiro trancado no quarto, tão abalado que estava.”

Cláudio Suenaga diante do exato local onde Antonio Villas Boas foi abduzido e forçado a manter relações sexuais, coberto pelas águas da represa Água Vermelha. Foto de Pablo Villarrubia Mauso.

Para João Neto, seu tio teria mudado para melhor depois do contato, “porque antes era um pouco sem juízo, gostava muito de festas, de farra e de sexo. Ele era muito farrista. Porque naquele tempo não tinha esses namoros de hoje, então ele era invocado com zona. Hoje em dia não se fala mais de zona porque todo mundo transa. Inclusive ele até morou e se casou com uma mulher que ele tirou da zona. Só depois que ele se casou de verdade é que tomou jeito e virou gente.” Ao ouvir isso, perguntei se ele achava que seu tio, tendo propensão a furores sexuais, poderia ter simplesmente fantasiado a experiência: “Eu não duvido que ele possa ter fantasiado. Daí que eu digo que ao mesmo tempo em que acredito, também desacredito. Mas o fato é que no fim ele morreu com uma doença esquisita que o deixou dois anos de cama, entrevado, até falecer. Ele não se sentava, não falava, só ouvia.”

Sobre os rumores dando conta de que Antonio teria sido levado a uma base nos Estados Unidos, João Neto confirmou que isso teria ocorrido uns seis meses depois do sequestro: “Ele foi levado meio detido, à força. Ele não gostou muito dessa viagem não. Não chegaram a maltratá-lo, mas ele não gostou porque foi meio que forçado. Lá ele viu um aparelho semelhante ao que ele viu aqui. Pelo menos assim ele dizia.”

Antigamente as pessoas tinham medo de entrar na mata dos arredores para caçar devido à fama de ser mal-assombrada, garantiu João Neto, que falou de uma “porteira que se abria sozinha”. A falta de energia elétrica, numa época em que só havia lamparina e candeia, segundo ele, contribuía para aumentar o medo. João Neto lembra-se também das pessoas mencionarem um tal de “cavaleiro invisível” que vinha pela estrada fazendo barulho de cavalgada: “O pessoal da Fazenda Velha é que contava. Eu mesmo não cheguei a presenciar isso. É que tinha morrido muita gente ali, então o povo tinha medo.” Havia ainda um tal de “monjolo fantasma”: “À noite escutávamos o monjolo fantasma. O monjolo era uma máquina de limpar arroz. A água vinha e tocava. Então à noite, quando não tinha arroz pra limpar, o monjolo funcionava sozinho, embora estivesse travado. Ia lá ver, e o monjolo tava parado. Só podia ser assombração. Voltava a deitar, e o monjolo começava a funcionar de novo.” Uma fantasmagoria correlacionada aos OVNIs é a da “luz que aparecia, sumia e entrava dentro das casas. Era a luz assombrada. As pessoas achavam que era alma penada”.

Gentilmente, João Neto se dispôs a nos levar em sua caminhonete cinza até a fazenda onde ocorreu o famoso sequestro de seu tio em 16 de outubro de 1957. Percorremos um trajeto de cerca de 5 quilômetros até divisarmos aquele cenário de estranha beleza, ao mesmo tempo plácido e macabro.

Vistas parciais da fazenda onde Antonio Villas Boas foi abduzido. Fotos de Cláudio Tsuyoshi Suenaga.

Infelizmente a casa em que residiam Antonio junto com seus pais e irmãos havia sido coberta pelas águas em 1978, assim como o local do pouso do disco voador. De original da época do sequestro, restara somente uma enorme e frondosa figueira centenária como testemunha muda do mistério.

A figueira centenária, um dos poucos remanescentes originais da época do sequestro, na fazenda onde Antonio Villas Boas foi abduzido. Foto de Cláudio Suenaga.

Remanesce ali um clima bastante pesado, diria mesmo arrepiante, como se ufonautas ainda permanecessem rondando a área. Ou talvez fossem os espíritos dos índios, já que a área da fazenda era englobada por dois aldeamentos de índios caiapós, sendo uma no lugar denominado Água Amarela, e outra em Aldeia Nova. As enfermidades trazidas pelos homens brancos e suas perseguições e matanças os dizimaram quase que por completo. Em 1910 restavam pouco mais de trinta índios caiapós perto de Salto Vermelho, às margens do Rio Grande, dos quais todos vieram a morrer. 

João Neto lembrou-se então da ocasião no final de agosto de 1977 em que estiveram na fazenda Willi Wirz e Álvaro Fernandes: “Lembro do velhinho suíço e desse outro.” Como Fernandes havia afirmado em seu livro Casos de Contatos Sexuais com Ufonautas que a vegetação nunca mais voltara a nascer no local do pouso, indaguei a João Neto se isso correspondia à verdade, ao que ele igualmente desmentiu, já que o cultivo e a colheita vieram a ser efetuados ali normalmente. Na volta, já quase ao cair da noite, como João Neto dera carona aos trabalhadores da fazenda, tive de me segurar na caçamba da caminhonete com dois pedreiros, o mais velho dos quais me contou que antigamente o local ali era mesmo mal-assombrado. “As pessoas viam o ‘cavaleiro fantasma’, ou pelo menos pressentiam sua chegada pela estrada de terra”, assegurou-me.

Segue abaixo a transcrição completa da entrevista com João Neto que foi cortada do apêndice do meu livro 50 Tons de Greys: Casos de Abduções com Relações Sexuais, recém-lançado pela Biblioteca UFO.

A casa que aparece na foto não é a mesma onde Antonio Villas Boas e sua família residia na época do sequestro, já que a original foi inundada pelas águas da represa Água Vermelha. Foto de Cláudio Tsuyoshi Suenaga.

P – O que o senhor fazia na fazenda?

R – Eu era um rapazinho novo e auxiliava o Antonio com o trator, que pertencia a ele. Eu queria aprender a guiar trator para depois aprender a guiar carro. Então eu o ajudava no interesse de aprender a guiar trator, ainda que não fosse remunerado.

P – O que o senhor fazia além de dirigir trator?

R – Todo mundo na fazenda tinha também de tirar leite, tanger gado, consertar cerca, roçar pasto, etc.

P – O Antonio gostava de trabalhar na fazenda?

R – Não, ele gostava mais de passear e estudar por correspondência. Nesse tempo era difícil estudo por aqui porque não tinha colégio, só escolinha de fazenda. Ele era muito esforçado.

P – Chegavam jornais e revistas por aqui na época?

R – Por aqui quase não chegavam.     

P – Onde o senhor se encontrava quando o seu tio foi sequestrado?

R – Eu morava ali perto, a uns 5 quilômetros, numa fazenda antiga chamada Fazenda Velha, Fazenda da Aldeia ou ainda Fazenda da Mata. Naquela época arávamos a terra e nos revezávamos em turnos de seis horas seguidas. Só que no momento do sequestro era a minha hora de dormir, de modo que me encontrava dormindo na cama que ficava em um ponto estratégico dentro carreta do trator e acabei não vendo nada. Só fiquei sabendo do que tinha acontecido depois que acordei de manhã, quando ele me contou.

P – A quantos metros o senhor se encontrava do ponto onde pousou o disco voador?

R – A uns 200 metros.

P – Então poderiam ter levado o senhor também, não poderiam?

R – Poderiam, mas eu não vi nada.

P – A que horas o Antonio lhe contou?

R – Por volta das 7h30, 8 horas da manhã.

P– Ele contou o fato em detalhes?

R – A mim ele só contou os fatos por cima, de que tinha baixado um disco voador, que vários seres o haviam capturado na marra e que estes o puseram junto com uma mulher com quem mantivera relações sexuais, sendo horas depois devolvido. Só quando reuniu a família é que fiquei a par dos detalhes.

P – Ele usou a palavra disco voador?

R – Usou a palavra disco voador.

P – Como o Antonio descreveu a mulher? Ela era bonita?

R – Não, ao contrário, ele dizia que ela era feia, baixinha e zoiuda.

P – Então não foi uma experiência muito agradável.

R – Não foi não.

P – Depois de quanto tempo ele voltou a trabalhar com o senhor?

R – No dia seguinte ele já estava trabalhando.

P – A vegetação então voltou a nascer normalmente no local do pouso?

R – Voltou a nascer.

P – O Antonio tinha algum problema psicológico?

R – Não, ele era uma pessoa normal.

P – Ele bebia?

R – Não.

P – Então tudo indica que ele viveu mesmo aquilo.

R – Tudo indica que sim.

P – O Antonio fez algum desenho do disco e dos seres que ele viu?

R – Ele gostava de esculpir em madeira, então com uma faquinha ou um canivetinho ele fez um disco voador semelhante ao que ele viu e mandou para o Rio de Janeiro.

P – O senhor o viu fazendo a escultura?

R – Eu o vi no quarto fazendo a escultura, porque ele ficava o dia inteiro trancado no quarto.      

P – O Antonio teria mudado muito depois do acontecido.

R – É, e mudou para melhor, porque ele era um pouco sem juízo.

P – Ele gostava muito de festas?

R – De festas, de farra. Ele era muito farrista. Porque naquele tempo não tinha esses namoros de hoje, então ele era invocado com zona. Hoje em dia não se fala mais de zona porque todo mundo transa. Inclusive ele até morou e se casou com uma mulher que ele tirou da zona. Só depois que ele se casou de verdade é que ele tomou jeito e virou gente.

P – Então o senhor está sugerindo que ele pode ter fantasiado tudo aquilo?

R – Eu não duvido que possa ter sido uma fantasia.

P – Na avaliação do senhor, tudo poderia não ter passado de alucinação?

R – Eu não acredito e ao mesmo tempo acredito, porque no fim ele morreu com uma doença esquisita que o deixou dois anos de cama, entrevado, até falecer. Ele não se sentava, não falava, só ouvia.

P – O que o povo dizia do caso na época?

R – Uns acreditavam e outros não, como hoje.          

P – As pessoas caçoavam dele, faziam troça?

R – Alguns sim.

P – Ele ficava nervoso com isso?

R – De tanto o povo perguntar, chegou uma hora em que ele não queria mais falar no assunto.

P – Havia alguma assombração na fazenda?

R – À noite escutávamos o monjolo fantasma. O monjolo era uma máquina de limpar arroz. A água vinha e tocava. Então à noite, quando não tinha arroz pra limpar, o monjolo funcionava sozinho, embora estivesse travado. Ia lá ver, e o monjolo tava parado. Só podia ser assombração. Voltava a deitar, e o monjolo começava a funcionar de novo.

P – Os dois pedreiros que estão trabalhando na casa me disseram que antigamente um deles ia caçar muito ali, e o pessoal tinha medo de ir lá porque era assombrado.

R – Tinha essa história de assombração, de porteira que se abria sozinha…

P – Não tinha energia elétrica na época, o que contribuía para aumentar o medo.

R – Não tinha luz, nem lanterna nós tínhamos, só lamparina, candeia.

P – E sobre o cavaleiro invisível que vinha pela estrada?

R – Escutava até o barulho, tóc, tóc, tóc. O pessoal da Fazenda Velha é que contava. Eu mesmo não cheguei a presenciar isso. É que tinha morrido muita gente ali, então o povo tinha medo.

P – Havia índios lá na Fazenda Velha?

R – No meu tempo de criança era comum encontrarmos uns cacos de cerâmica e botijas de barro. Até hoje se cavar é possível encontrar ossos de índios.

P – Não havia por aqui a história de que aparecia uma luz que mostrava onde havia uma botija escondida que guardava tesouro?

R – De luz tinha, agora de tesouro mesmo não. Tinha a história de uma luz que aparecia, sumia e entrava dentro das casas.

P – Essa luz tinha nome?

R – Luz assombrada. As pessoas achavam que era alma penada.

P – É verdade que o Antonio ele teria sido levado a uma base nos Estados Unidos?

R – Ele falava isso.

P – Quando ele teria sido levado?

R – Uns seis meses depois do acontecido.

P – Alguém daqui foi com ele?

R – Não, ele foi sozinho. Ele foi levado meio detido, à força, assim ele dizia. Ele não gostou muito dessa viagem não. 

P – Chegaram a maltratá-lo?

R – Maltratá-lo não, mas ele não gostou porque foi meio que forçado.

P – O que ele viu lá nos Estados Unidos?

R – Um aparelho semelhante ao que ele viu aqui. Assim ele dizia.

P – O senhor se lembra quando, no final de agosto de 1977, estiveram aqui o Willi Wirz, um senhor suíço, e o Álvaro Fernandes?

R – Lembro do velhinho suíço e desse outro. Eles bateram uma foto comigo perto do local do pouso.

João Batista Queiroz (João Neto) e Cláudio Suenaga. Fotos de Pablo Villarrubia Mauso.

Fotos extras inéditas da fazenda em São Francisco de Sales (MG) onde Antonio Villas Boas foi sequestrado e forçado a manter relações sexuais a bordo de um disco voador. Fotos de Cláudio Tsuyoshi Suenaga, com a gentileza de João Batista Queiroz (João Neto), então o dono e administrador da fazenda que havia pertencido ao seu tio AVB.

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