De como a Igreja Católica vem sendo transviada desde dentro

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

“…o demônio usará de toda a sua malícia para introduzir nas ordens religiosas pessoas dadas ao pecado, pois as desordens e o amor aos prazeres da carne estarão espalhados por toda a Terra.” (Profecia de Nossa Senhora de La Salette, 1846)

“Satanás reinará mesmo nos lugares mais altos. Ele até entrará na posição mais elevada da Igreja”. (Profecia de Nossa Senhora de Fátima, 1917)

“A Igreja é o ingrediente indispensável para a chegada da Nova Ordem Mundial”. (Padre Malachi Martin, SJ)

A Igreja Católica está enfrentando a pior crise desde a Reforma (1517-1648). Não bastasse a sua debilitação moral-teológica e a decaída de sua condição de “alma do Ocidente”, nestes últimos meses novas denúncias de abusos sexuais envolvendo altos membros do clero vieram à tona. Um relatório de um Grande Júri dos Estados Unidos detalhou os casos de 1.000 crianças abusadas por 300 padres somente no Estado da Pensilvânia ao longo de sete décadas. A persistência dos abusos e seu acobertamento é o que mais choca.

Esta foto de 1974 foi fornecida pela Associated Press por um homem que concordou em ser identificado apenas por seu primeiro nome, James, e que aparece ao lado do cardeal Theodore McCarrick.
Cardeal Theodore McCarrick

O cardeal Theodore McCarrick, ex-arcebispo de Washington que desempenhou um papel fundamental na arrecadação de fundos para a Santa Sé por ricos doadores norte-americanos, já havia renunciado ao Colégio dos Cardeais em julho de 2018, acusado de ter abusado sexualmente de um menor e assediado os seminaristas que ele supervisionava. No final de agosto, o arcebispo Carlo Maria Viganò, ex-diplomata papal, publicou uma carta acusando o Papa Francisco de estar ciente dos abusos sexuais de McCarrick há anos e de ajudar a encobri-los. No dia 10 de novembro último, o Vaticano divulgou um relatório de 450 páginas, feito a pedido do Papa Francisco, em que nega ter acobertado o abuso sexual de menores praticado por McCarrick, alçado ao cargo de cardeal um ano depois de ter sido nomeado arcebispo de Washington pelo Papa João Paulo II, que sabia dos rumores sobre sua conduta.

Como a pedofilia não é propriamente um problema que se restringe à Igreja Católica, muito pelo contrário, os escândalos sexuais são invariavelmente tratados como desvios isolados de conduta, colocados à parte e abafados. Permanentemente exposta é a divisão nas fundações da Igreja, nitidamente rachada entre alas progressistas e conservadoras. Enquanto as progressistas procuram avançar junto com o mundo moderno, fazendo-lhe todo tipo de concessões, as neotradicionalistas – com suas próprias paróquias e seminários – continuam em um curso diferente do restante da Igreja, em uma tentativa quixotesca de restaurar o catolicismo romano e a teologia católica a um modelo anterior ao Concílio Vaticano II e até mesmo anterior ao século XX.

Por muitos caminhos tortuosos, o embate dos primeiros tempos cristãos e da Idade Média com os inimigos da Igreja continuaram durante a Idade Moderna e a Época Contemporânea, mas agora seus ataques passaram da guerra aberta para a penetração pacífica, o que estava mais de acordo com o espírito da época. A diretiva da Maçonaria e da complexa rede de sociedades secretas sinistras sempre foi a de que “Satanás deve reinar no Vaticano e que o Papa deve ser seu escravo”.

No século XX, niilistas e ateus foram exortados para que provocassem deliberadamente uma catástrofe social formidável que, em todo o seu horror, mostrasse claramente às nações o efeito do ateísmo absoluto, da selvageria original e da turbulência mais sangrenta. Arrastadas pelos líderes revolucionários mundiais e destruidores de civilizações, as multidões, desiludidas com o cristianismo e cujos espíritos deístas estariam desde então sem bússola, ansiosas por um novo ideal, mas sem saber onde prestar sua adoração, receberiam a “verdadeira” luz através da manifestação universal da pura doutrina de Lúcifer, trazida finalmente à vista do público, uma manifestação que resultaria do movimento revolucionário geral que se seguiria à destruição do cristianismo e da Igreja Católica, ambas ao mesmo tempo.

Se a inteligência clama pelo reconhecimento de um deus, elas encontrariam um em Lúcifer, filho da manhã e portador da luz, o mais brilhante dos arcanjos que liderou a revolução celestial na tentativa de se tornar igual a Deus. O credo luciferiano foi altamente desenvolvido, promulgado e disseminado, sob diversos aspectos e nomes, em espectros multiculturais.

Os objetivos finais dessa elite ocultista macabra, isto é, da Maçonaria e dos Illuminati, consiste no estabelecimento de uma Nova Ordem Mundial, de um Governo Único Mundial e de uma Religião Mundial. A primeira meta, a de uma Nova Ordem Mundial, se consolida agora com o engodo do novo coronavírus, que estendeu o controle totalitário aos recônditos mais distantes e isolados do planeta, engolfando desde a economia aos últimos recintos da vida privada e até o âmago dos próprios pensamentos. E os clamores pela dissolução ou destruição de nações individuais, o estabelecimento de uma economia única e harmonicamente abrangente, “no interesse da paz e da conservação da humanidade”, já se fazem sentir por todos os lados. Logo, um Governo Mundial e, para completar, uma Religião Mundial, um culto unificado acessível apenas a uns poucos eleitos das camadas superiores que por fora mantém uma aparência de religião tradicional, mas por dentro é puro ocultismo e satanismo comandado pelos altos iniciados, os próximos passos que faltam para o domínio total, não demorarão a ser implementados.

A Igreja Católica (do grego katholikos = universal), pelo seu poder e influência que vieram com a promulgação do Édito de Milão em 313 (que garantiu a liberdade de culto para os cristãos, restituiu-lhes os bens confiscados, aboliu o suplício na cruz e os combates de gladiadores) por Constantino [Flavius Valerius Constantinus (272-337), cognominado o Grande, Senhor do Ocidente], sem o qual certamente o paganismo teria triunfado e a religião cristã sido extinta (coroado imperador, Constantino fez do cristianismo a religião oficial do Estado romano, quase 300 anos depois da crucificação de Cristo), como não poderia deixar de ser vem sendo usada, ainda mais nos últimos anos, como um dos instrumentos mais eficazes e de maior abrangência pela elite ocultista macabra para atingir esses seus intentos, e para tanto nela tem infiltrado muitos de seus agentes.

O autor católico Piers Compton (1901-1986), que durante 14 anos foi editor da publicação semanal católica The Universe, em seu livro The Broken Cross: The Hidden Hand in the Vatican,[1] explica que o Vaticano foi infiltrado pelos Illuminati e que o símbolo luciferiano do “olho que tudo vê” é largamente utilizado por autoridades religiosas católicas e jesuítas, como foi, por exemplo, no logotipo do 41° Congresso Eucarístico Internacional da Filadélfia de 1976, sobre o selo do Vaticano de 1978 e sobre a cruz pessoal do Papa João XXIII (1881-1963, eleito em 1958). De acordo com Compton, João XXIII foi o primeiro Papa Illuminati.

Um símbolo sinistro usado por satanistas no século VI, e que foi reavivado na época do Concílio Vaticano II, conforme explica Compton, “é o crucifixo vergado, uma cruz vergada ou quebrada, na qual era exibida uma figura repulsiva e distorcida de Cristo, que os magos e bruxos de magia negra da Idade Média criaram para representar o termo bíblico da ‘marca da besta’. Entretanto, não somente Paulo VI, mas seus sucessores João Paulo I e João Paulo II, carregaram esse objeto e o exibiam para ser reverenciado pelas multidões, que não tinham a menor ideia de que ele representa o Anticristo.”[2]

Em A Crucificação de São Pedro: A Paixão da Igreja” (2009), Pascal Bernardin, autor de Maquiavel Pedagogo (1995) e O Império Ecológico ou a Subversão da Ecologia pelo Globalismo (1998), demonstra que o Concílio Vaticano II pôs em marcha um processo de autodestruição da Igreja, que a abalou desde seus fundamentos. Como consequência, todos os países católicos e todas as nações foram gravemente afetados. Bernardin conclui que o Concílio Vaticano II e a Nova Teologia inspiraram-se na doutrina panteísta da Maçonaria, que confunde o Criador e a criatura, a natureza e a graça. Esta “Espiritualidade Global” será a Religião Global, indissoluvelmente ligada ao Governo Global. Compreendemos melhor, nessa perspectiva, porque a igreja Conciliar tinha necessidade do Concílio Vaticano II e porque esta igreja apóstata – que não tem mais nada a ver com a autêntica Igreja Católica – deve se fundir à Religião Universal em curso de edificação. Bernardin mostra ainda porque o espírito maçônico soprou sobre o Vaticano II: “A História da Humanidade é a história da salvação e da luta entre as Duas Cidades pela conquista das almas, única questão que vale a pena. De essência diabólica, a Revolução é uma revolta contra Deus, inspirada constantemente por Satã. Seu fim último é a destruição da Igreja e a edificação da Contra-Igreja. Com esta verdade elementar esquecida, o fio condutor partido, a História se obscurece, perde seu sentido e se torna um mistério incompreensível.”

Bella Dodd denuncia a infiltração comunista na Igreja desde os anos 1930

Douglas Hyde

A infiltração do comunismo (que nada mais é do que satanismo) na Igreja Católica e em outras religiões é algo por demais evidente. Douglas Hyde (1860-1949), secretário do Partido Comunista Britânico [Communist Party of Britain (CPB)], revelou que nos anos 30 os chefes comunistas enviaram uma diretiva para a escalada mundial da infiltração na Igreja Católica. Como diretor do jornal The Daily Worker, Hyde tinha que refutar escritores católicos como Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), e cada vez que fazia isso ficava impressionado pelo confronto das ideias. Em certa ocasião, ao entrar numa igreja, num recanto escuro, defronte à imagem da Virgem Santíssima, foi profundamente tocado: “Era feliz. Dei-me conta de que minha dolorosa peregrinação terminara. Murmurei: ‘Senhora tão meiga e tão boa, sê boa para mim!’.”

Bella Dodd

Bella Dodd (1904-1969), agente soviética e assessora jurídica do Partido Comunista Americano [Communist Party of America (CPUSA)] nos anos 30, no início de 1953, em pleno macartismo, período marcado pelas ações de caça aos comunistas conduzido pelo senador Joseph Raymond McCarthy (1909-1957) e sua Comissão de Atividades Anti-Americanas,[3] consentiu em dar, pela primeira vez, informações pormenorizadas acerca da infiltração comunista nas instituições dos Estados Unidos. E essas foram de tal magnitude, que nem mesmo um jornal esquerdista como o The New York Times pôde deixar de noticiá-las, tanto que destacou na primeira página de sua edição de 11 de março de 1953 que Bella havia jurado no dia anterior, perante a Subcomissão do Senado de Segurança Interna (Senate Subcommittee on Internal Security), “que os comunistas tinham se infiltrado em muitos escritórios do Congresso e agiam disfarçados de assessores do próprio presidente dos Estados Unidos”. O mesmo jornal reportou em sua edição de 8 de março de 1954, que Bella “advertiu ontem que a ‘filosofia materialista’ que agora orientava a educação pública, acabaria por desmoralizar a nação”.

Logo depois, naquele ano, Bella lançou o livro The School of Darkness,[4] no qual detalhava que a infiltração comunista na Igreja estava sendo feita por milhares de agentes encarregados de colocar em seminários e outras instituições religiosas o maior número possível de “adormecidos”, isto é, agentes que de imediato não desempenhariam nenhum papel ativo, mas que ficariam aguardando que fossem ordenados e subissem até ocupar posições de influência e autoridade como monsenhores e bispos. Bella confessou que ela mesma teria ajudado a colocar, nos anos 30, mais de 1.100 homens no sacerdócio para destruir a Igreja a partir do seu interior, muitos dos quais, naquele momento, já ocupavam os mais altos cargos da Igreja. A ideia geral era a de destruir antes a fé do povo usando a própria instituição da Igreja, que para tanto deveria se converter em uma pseudo-religião, qualquer coisa parecida com o catolicismo, mas que já não seria mais o autêntico catolicismo:

“Assim que a fé fosse destruída”, explicou ela, introduzir-se-ia na Igreja um complexo de culpa“ para estigmatizar a ‘Igreja do passado’ como opressiva, autoritária, cheia de preconceitos, arrogante ao afirmar-se como única possuidora da verdade, além de responsável pelas divisões das comunidades religiosas através dos séculos. Isto seria necessário para que os responsáveis da Igreja, envergonhados, adotassem uma ‘abertura ao Mundo’ e uma atitude mais flexível para com todas as religiões e filosofias. Os comunistas explorariam então essa abertura para enfraquecer insidiosamente a Igreja e implementar mudanças que de tão radicais não mais reconheceríamos a Igreja Católica.”[5]

Tudo o que Bella disse cumpriu-se ao pé da letra – não que ela fosse uma profetisa, visto que apenas expôs um plano macabro do qual tomara parte e se arrependera – menos de uma década depois com aquele que até o momento é o último Concílio Ecumênico, o Vaticano II, que se reuniu de 1962 a 1965 no próprio Vaticano, sob a presidência dos papas João XXIII (1881-1963, eleito em 1958) e Paulo VI (1897-1978, eleito em 1963), e que foi e continua sendo elogiado por muitos como o concílio que promoveu “a abertura para os grandes temas da atualidade no mundo”, mas que não foi senão um deliberado e devastador assalto à Igreja e à fé católicas.

Os “reformistas” ou “neomodernistas” lograram destruir todo e qualquer vestígio da Igreja e da fé tradicionais ao orientarem a Igreja para uma direção completamente nova, no que a atualização do rito da Missa, que passou a ser rezada não mais em latim (que sempre foi odiado pelos inimigos da Igreja), mas em língua vernácula, constitui um tímido exemplo quando comparada às nefandas resoluções de se estabelecer um “diálogo” com comunistas e maçons, seus inimigos declarados, e de se abandonar o ensinamento de que a Igreja Católica Romana é exclusivamente a única e verdadeira Igreja de Cristo, dispensando-a assim de procurar a reconversão e o regresso dos hereges e cismáticos.

Desfile de moda satânico organizado pela Igreja Católica Moderna do Reino Unido.

Como se não bastasse tamanhos disparates de tão novas e estranhas ideias, a Igreja pós-Vaticano II incorreu na demolição da Liturgia, da Teologia e da própria Alma da Igreja. O filósofo, historiador e cientista político alemão Eric Voegelin (1901-1985) assinalou esse enfraquecimento da Igreja, “abalada por uma crescente inquietação no seu interior” e que cada vez mais assumia uma posição meramente defensiva “contra os movimentos intelectuais dominantes do nosso tempo”.[6]

O padre Paul Kramer, em seu abalizado e alarmante livro O Derradeiro Combate do Demônio, denuncia que ainda antes da abertura do Concílio, na primavera de 1962, em Metz, cidade no nordeste da França, “o cardeal Eugène Tisserant encontrou-se, nada mais nada menos, com o bispo metropolitano Nikodim, da Igreja Ortodoxa Russa – um agente do Serviço Secreto Soviético, o Comitê para Segurança do Estado [Komitet Gosudartsvennoi Besorpasnosti (KGB), a maior e mais poderosa agência de espionagem de todos os tempos)], tal como o eram os outros prelados ortodoxos. Nesse encontro, Tisserant e Nikodim negociaram o que viria a ser conhecido como o Pacto de Metz, ou, mais popularmente, o Acordo Vaticano-Moscou. A existência desse Acordo Vaticano-Moscou é um fato histórico irrefutável, atestado em todos os seus pormenores por monsenhor Roche, secretário particular do cardeal Tisserant. O acordo era substancialmente o seguinte: o papa João XXIII, de acordo com o seu ardente desejo, seria ‘favorecido’ com a presença de dois observadores ortodoxos russos no Concílio; em troca, a Igreja Católica concordava que o Concílio Vaticano II não condenaria o comunismo soviético nem a Rússia soviética. Significava isto, em essência, que o Concílio iria comprometer a liberdade moral da Igreja Católica ao fingir que aquela forma mais sistemática do Mal humano na História da Humanidade (o Comunismo) não existia – apesar de, na mesma altura em que o Concílio iniciava os seus trabalhos, os soviéticos perseguirem, prenderem e assassinarem milhões de católicos.”[7]

O papa João Paulo II (1920-2005, eleito em 1978), que se de um lado engajou-se pessoalmente para livrar o Leste Europeu e a sua terra natal, a Polônia, das garras do comunismo, do outro pouco fez para deter o avanço das correntes ditas “progressistas” como a Teologia da Libertação na América Latina, mormente no Brasil, deixando, por exemplo, de extirpar os quadros assumidamente marxistas, limitando-se a aplicar-lhes tímidas recomendações e reprimendas. No início de 1981, ainda praticamente no início, portanto, de seu pontificado, descreveu com dramaticidade a crise e o paroxismo a que chegara a Igreja e os católicos pós-Vaticano II, dando-nos a esperança de que pudesse modificar tal situação que, no entanto, para nos causar ainda mais espécie, só se agravou nos últimos anos:

“Temos que admitir realisticamente e com sentimentos de intensa dor que hoje os Cristãos, na sua grande parte, sentem-se perdidos, confusos, perplexos e mesmo desapontados; abundantemente se espalham ideias contrárias à verdade que foi revelada e que sempre foi ensinada; heresias, no sentido lato e próprio da palavra, propagaram-se na área do dogma e da moral, criando dúvidas, confusões e rebelião; a liturgia foi adulterada. Imersos num relativismo intelectual e moral e, portanto, no permissivismo, os Cristãos são tentados pelo ateísmo, pelo agnosticismo, por um iluminismo vagamente moral e por um Cristianismo sociológico desprovido de dogmas definidos ou de uma moralidade objetiva.”[8]

A casa varrida pelo vento

Malachi Brendan Martin, SJ (1921-1999), foi um padre jesuíta irlandês, professor de Paleontologia no Pontifício Instituto Bíblico do Vaticano e escritor católico, graduado em teologia e doutorado em línguas semíticas, arqueologia e história oriental, com especialidade nos Manuscritos do Mar Morto.

A partir de 1958, Martin passou a atuar como consultor teológico do cardeal jesuíta Augustin Bea, SJ (1881-1968), durante os preparativos para o Concílio Vaticano II. Profundamente desiludido com as reformas na Igreja e com a Ordem Jesuíta, em 1964 obteve do Papa Paulo VI a dispensa dos votos de pobreza e de obediência à Companhia de Jesus, mas manteve o voto de castidade e tornou-se sacerdote leigo. Em 1965 mudou-se para Nova York onde inicialmente trabalhou como lavador de pratos e taxista, e mais tarde tornou-se escritor em tempo integral e cidadão norte-americano. Seus 17 romances e livros de não-ficção se dedicam quase todos a denunciar a infiltração de maçons, comunistas e satanistas na Igreja Católica.

O destaque fica para o seu romance Windswept House (A Casa Varrida pelos Ventos),[9] de 1996, no qual relata que em 29 de junho de 1963, no Vaticano, mais precisamente na Capela Paulina, foi oficiado um ritual satânico com a participação de altos prelados, bispos, simples clero e leigos. Segundo Martin, tratava-se de cumprir uma profecia do satanismo moderno, que anunciava o início da Era de Satanás no momento em que um Papa tomasse o nome de Paulo. O último Papa Paulo foi Camillo Borghese, ordenado em 1605 e que morreu em 1621. Em 21 de junho de 1963, por sua vez, o Cardeal Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini foi eleito Papa, tomando o nome de Paulo VI. Martin detalha então que esse ritual satânico foi realizado na Capela Paulina (Cappella Paolina, uma famosa capela que serve como igreja paroquial no Palácio do Vaticano), na noite entre 28 e 29 de junho de 1963, uma semana após a eleição de Paulo VI, a fim de entronizar Satanás no coração da Cristandade.

Martin denuncia ainda que pelo menos em três grandes cidades dos Estados Unidos, membros do clero têm à sua disposição pelo menos um coven (local de encontro para o ritual satânico) pedófilo, frequentado e mantido exclusivamente para membros do clero. “De repente, tornou-se indiscutível que agora durante este papado, a Igreja Católica Romana organizou uma presença permanente de clérigos que adoravam Satanás”, escreve Martin. “Havia bispos e sacerdotes e meninos se unindo uns com os outros; realizavam os ‘Rituais negros de Wicca’, e havia relações lésbicas todos os dias, incluindo domingos e dias santos, atos de heresia e blasfêmia, indignação e indiferença foram cometidos e permitidos em altares sagrados por homens que haviam sido chamados de sacerdotes. As ações de sacrílegos e seus rituais foram não só realizados em altares de Cristo, mas teve a conivência ou pelo menos a permissão tácita de certos cardeais, arcebispos e bispos. No total eram uma minoria qualquer, cerca de um para dez por cento do pessoal da Igreja. Mas dessa minoria, muitos ocupantes possuíam espantosamente altos cargos…” [10]

Cena da missa negra de Eyes Wide Shut (De Olhos Bem Fechados), filme de 1999 dirigido por Stanley Kubrick.

Não é à toa, portanto, que tantos casos de pedofilia envolvendo desde padres a bispos e cardeais, têm sido trazidos à tona nos últimos tempos.

Uma das discussões mais marcantes do livro é a respeito do papa eslavo (supostamente João Paulo II). Este se apresenta como um campeão da vida, lutando com todas as suas forças contra o aborto, a eutanásia, contra a ruína da estrutura familiar. Entretanto, ele abandonou a tarefa de vigiar pela ortodoxia dos fiéis e do clero, e promoveu um ecumenismo insano e insensato. Ao longo do livro, Malachi Martin oferece diversas opiniões a respeito do Sumo Pontífice e sobre toda a sua ambiguidade, revelando ao final do livro o que entende ser o pensamento do Papa e porque ele age de maneira tão heterodoxa em assuntos cruciais da Igreja, e ainda, porque ele se recusa a punir bispos e teólogos rebeldes e hereges.

Malachi Martin conta ainda em seu livro que na Rússia existe uma indústria de aborto que processa fetos abortados como se fossem uma matéria-prima qualquer. O Papa teria visto um vídeo no qual os bebes são abortados e colocados numa linha de produção industrial onde são esquartejados (alguns ainda vivos), empacotados e remetidos a várias partes do mundo para indústrias de cosméticos e centros de pesquisa.

Segundo Martin, a elite oculta macabra teria engendrado a Guerra da Bósnia, e também teriam decretado o fim da existência da União Soviética. A Guerra da Bósnia foi planejada para que o mundo se acostumasse com a ideia de que uma forca multinacional pode agir em conflitos nacionais, dando assim mais autonomia e direitos de ação à ONU. De acordo com Martin, não existe coincidência no fato do aborto, da eutanásia e da destruição da estrutura familiar através da promoção do homossexualismo e da libertinagem estarem na ordem do dia de vários países ao redor do mundo. Ele alega que o que existe é um esforço coordenado. O que é feito localmente, e feito para atender ao interesse de tal grupo de pessoas que controlam a política internacional.

O grande objetivo da elite oculta macabra, segundo Martin, é implantar o “Processo” ou, melhor dizendo, “The Craft” (ou a “obra”) como é conhecido nos ambientes maçônicos. O processo consiste em unificar o mundo econômica, política, social e principalmente religiosamente, de forma a se atingir uma Nova Ordem Mundial (New World Order), ou seja, a implantação prática da Utopia. Este objetivo é partilhado pelos maçons e pelos satanistas, que é fazer toda a humanidade adorar a Lúcifer como Único deus.

Este processo possui quatro etapas distintas:

  1. Congelamento (freezing) – o agente de mudanças ‘congela’ a atenção e a experiência do grupo em seu próprio isolamento e vulnerabilidade.
  2. Descongelamento ou desagregação (unfreezing) – o agente distancia os membros da audiência dos valores “velhos” nos quais eles confiavam. Isto, em suma, significa que os valores anteriores são mostrados como não mais apropriados e desejáveis.
  3. Reagregacao (reagregation) – Segue com a aceitação da nova estrutura de pensamento proposta pelo agente (facilitador).
  4. Rotinizacao (routining) – As novas estruturas de pensamento são incorporadas no fluxo diário normal.

Conforme assinalou Malachi Martin, nós, de fato, já vivemos sob a égide de uma Nova Ordem Mundial, onde os principais acontecimentos nacionais atendem a interesses globalistas, e onde uma pequena minoria de pessoas que controlam as finanças mundiais, também controlam e manipulam a política internacional, tal é a dependência dos estados modernos do sistema financeiro internacional.

 O cumprimento das profecias de Nossa Senhora de La Salette

A fim de alertar a humanidade para os terríveis acontecimentos que adviriam a partir da segunda metade do século XIX com as pesadas investidas do demônio e seus asseclas para corroer a Igreja Católica desde dentro e erradicar Deus das almas dos homens através das linhas mestras do liberalismo e do comunismo, em La Salette Nossa Senhora antecipou-se a Lourdes e Fátima e deu a conhecer as suas primeiras profecias de cunho apocalíptico, as quais vêm se cumprindo de maneira insofismável e assustadora a indicar a culminação da crescente violência temporal em uma escatológica batalha final entre o Bem e o Mal. Pode-se afirmar que é em La Salette que começa a ser escrita, por antecipação e profeticamente, a trágica história do século XX e deste já mais do que trágico início de século XXI.

Os escolhidos para transmiti-las foram a menina Françoise Mélanie Calvat e Pierre Maximin Giraud, dois pobres pastorinhos de La Salette, encravado nas montanhas alpinas a 1.800 metros de altitude e a 70 quilômetros de Grenoble, no povoado de Les Ablandins, capital do departamento de Isère, sudoeste da França.

Na manhã de sábado, 19 de setembro de 1846, os partorinhos viram uma bola luminosa que se entreabriu e deixou transparecer uma outra luz ainda mais intensa e que se movia. De dentro dela saiu uma “senhora resplandecente”, como que sob um “diadema refulgente” ou “vestida de sol, e que lhes transmitiu diversas profecias ou segredos, os quais foram proibidas de serem divugadas. Em 9 de maio de 1923, a edição completa do Segredo, em brochura, com imprimátur de Dom Zola, bispo de Lecce, datado de 15 de novembro de 1879, foi inscrito no Index de livros proibidos.

A interdição à difusão pública dos Segredos de La Salette remanesceria até hoje não fosse pelo padre francês Michel Corteville, que no dia 2 de outubro de 1999, quando realizava pesquisas para sua tese de doutorado cujo tema não era outro senão as aparições em La Salette, encontrou nos Arquivos do Vaticano o dossiê completo com os documentos oficiais de La Salette encaminhados a Pio IX (1792-1878, eleito em 1846) e à Santa Sé em diversas datas. Intitulada La “Grande Nouvelle” des Bergers de La Salette,[11] a tese de mais de mil páginas, defendida com sucesso na Faculdade de Teologia Angelicum, da Ordem Dominicana em Roma, foi em seguida resumida por Corteville – que na tarefa contou com a ajuda do padre e teólogo francês René Laurentin (1917-2017), versado em marionologia – e publicada sob o título Découverte du Secret de La Salette (Descoberta do Segredo de La Salette).[12]

Nas profecias, Nossa Senhora começa alertando para a infiltração de liberais, maçons e satanistas na alta hierarquia eclesiástica. A profecia também poderia referir-se às perseguições que o comunismo iria deflagrar contra a Igreja no século XX atacando-a por todos os lados e infiltrando elementos para corroê-la e destruí-la desde dentro.

Sacerdote satanista em cena de Rosemary’s Baby (O Bebê de Rosemary), filme de 1968 dirigido por Roman Polanski.

Chega a ser estupefaciente a maneira como a Virgem prevê os estragos que seriam causados por sacerdotes homossexuais e pedófilos, essas “pessoas dadas ao pecado, […] aos prazeres da carne…” O papa João Paulo II é referido como “O Santo Padre que sofrerá muito”, em decorrência de atentados contra sua vida, tal como se vê na revelação do Terceiro Segredo de Fátima. A Virgem o protegerá, porém certifica que nem ele, nem o seu sucessor, o papa Bento XVI – “que não reinará por muito tempo” – “verão o triunfo da Igreja de Deus”.

O que mais assusta em La Salette, é que o aviso de Nossa Senhora de que Lúcifer seria solto do Inferno em 1864 por causa dos pecados do clero e iria corromper até almas consagradas a Deus. No contexto da mensagem de La Salette – aprovada pelo Vaticano –, Lúcifer, assim como no Livro de Jó, age com o consentimento de Deus. O Livro de Jó ensina que em certas ocasiões até Lúcifer trabalha para Deus – vide que o querubim caído testa Jó com o consentimento de Deus. O ano de 1864, citado por Nossa Senhora num contexto de “multiplicação de maus livros sobre a terra” e de “pregação de um evangelho contrário ao de Jesus Cristo negando a existência do Céu e do Inferno”, foi o da fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), ou I Internacional Comunista, bem como o do lançamento do livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec (1804-1869), que pregava exatamente as mesmas abominações e relatava os mesmos “prodígios” contra os quais Nossa Senhora alertou.

Esses “prodígios extraordinários” que os demônios e os espíritos maus iriam realizar transladando as pessoas “de um lugar a outro”, poderiam referir-se igualmente aos OVNIs ou discos voadores que a partir da segunda metade do século XX passariam a “brindar” certos contatados com breves passeios por nossa atmosfera – e em casos excepcionais, até mesmo a planetas próximos, como Marte – e a sequestrar ou abduzir outros tantos, submetendo-os a experiências dolorosas e traumatizantes e os devolvendo repletos de ferimentos, mutilações e traumas quase sempre em locais bem distantes (centenas de quilômetros) de onde os haviam originalmente retirados.

Discerne-se em duas passagens um viés de alerta ecológico ao mencionar situações tais como: “A natureza clama por vingança contra os homens…”, e “As estações mudarão…”

A Virgem de La Salette nos projeta, por fim, em altíssima definição, o filme apocalíptico que estamos vivenciando plenamente com a instauração da Nova Ordem Mundial, o próprio Reino do Anticristo. A Europa em particular, varrida nos últimos séculos pela Revolução Protestante liberal, pela Revolução Francesa maçônica, pelas duas guerras mundiais e ultimamente pela péssima administração da União Europeia, vive hoje sob o temor e pânico de atentados terroristas islâmicos orquestrados pelo próprio Ocidente, sem contar a imigração descontrolada, o descalabro das drogas, da libertinagem e da violência urbana gerados pelo liberalismo. O nível de escravidão do europeu de hoje pode ser equiparado ao dos tempos do estalinismo com seus gulags. À época da união da cristandade católica, antes do século XVI, ao menos os governantes defendiam seu povo legitimamente de seitas e terroristas bárbaros, livrando a Europa e o mundo da tirania e dos traidores, mas hoje proteger seu povo e sua família do agressor é considerado politicamente incorreto graças à propaganda da mídia liberal.

A história completa das aparições da Virgem de La Salette, bem como de dezenas de outras desde o início do cristianismo até o século XX, estão reunidas em meu livro inédito A Mãe de Todos os Povos: Aparições, Mensagens, Milagres e Profecias da Virgem Co-Redentora e Medianeira de Todas as Graças.

O domínio do mal

A disseminação do mal por toda parte, dominando a tudo e a todos, é a realidade no qual nos encontramos mergulhados neste início de século XXI. Afinal, o mundo de hoje, mais do que nunca, não é daqueles que praticam o mal em micro ou macro escala? E não estamos vendo acontecer, todos os dias, todas as horas, bem diante de nós, todas essas cenas de horror descritas por Nossa Senhora?

Os que combatem o mal de frente e não ficam meramente na defensiva, sempre foram e continuam sendo muito poucos, e estes por vezes são até combatidos por aqueles que só ficam na defensiva, e que se não combatem o mal, seja por fraqueza, covardia ou até por interesses mesquinhos em obter desses que praticam o mal alguma vantagem, o que os tornam tão piores quanto, combatem os que combatem o mal. A maioria prefere mesmo praticar o mal, já que aí se junta à maioria, e as pessoas, na dúvida, optam por seguir o rebanho. Entre o bem e o mal, a opção preferida é quase sempre o mal, que traz de imediato e até a médio e longo prazos, em se referindo a esta vida e a esta época de injustiças, todo tipo de benefícios, já que seus adeptos, além de não serem combatidos, considerando serem cada vez em menor número os que ainda insistem em continuar combatendo o mal, contam com os préstimos, a proteção e os favores de Satanás.

Ora, cinco séculos de modernidade com o seu primado da “razão iluminada”, reforçados pelo laicismo, pelo cientificismo, pelo positivismo e pelo materialismo que vieram em seu bojo, acabaram por fazer com que a maioria passasse a duvidar da existência de Satanás e das demais potências divinas e espirituais, colocando o homem no centro de tudo, substituindo o teocentrismo pelo antropocentrismo, atribuindo, pois, aos homens e somente aos homens, a causa, as consequências e toda a obra que se ergueu neste mundo. Não haveria nem mesmo, portanto, vida após a morte, Céu, Purgatório ou Inferno, quanto mais um Juízo Final. E o que temos e vemos hoje é exatamente isto, ou seja, a valorização excessiva desta vida, a busca incessante da “reconciliação com o mundo” – conforme orientou o infame Concílio Vaticano II, em contraposição ao próprio Cristo que concitou para que voltássemos as costas para este mundo dominado por Satanás, pois Seu Reino “não é deste mundo” –, a prevalência do imediatismo e do hedonismo, afinal, não haveria nada mais além desta vida, e só o que nos restaria seria aproveitá-la ao máximo.

Até mesmo certas correntes “cristãs” e seitas evangélicas cismáticas e heréticas adotaram essa filosofia do “vale tudo” pelo aqui e agora, esbaldando-se no engodo, pregando que o que vale são as “bênçãos” proporcionadas pela riqueza imediata, que o que vale é gozar esta vida, não importando se para isso tenham que flertar e compactuar com os poderes terrenos, estabelecendo acordos espúrios com comunistas e todo tipo de bandidos e obliterando e distorcendo os ensinamentos do próprio Cristo, comercializando dentro do templo de Deus, vendendo falsos milagres, ultrajando, enfim, de todas as maneiras, como só o demônio faria, os nomes de Deus e de Cristo.

Notas:

[1] Compton, Piers. The Broken Cross: Hidden Hand in the Vatican, Channel Island, Neville Spearman, 1981.

[2] Ibid., p.72.

[3] O termo macartismo virou sinônimo de “caça às bruxas” e “perseguição de inocentes”, mas com a divulgação em 11 de julho de 1995 pelo Birô Federal de Investigações [Federal Bureau of Investigations (FBI)] das decodificações de telegramas passados pelo Serviço Secreto Soviético, o Comitê para Segurança do Estado [Komitet Gosudartsvennoi Besorpasnosti (KGB)], a seus agentes nos Estados Unidos, por eles se constatou que não apenas os 57 acusados por McCarthy, com exceção de um, eram espiões soviéticos, como havia outros 300.

[4] Dodd, Bella V. School of Darkness: The Record of a Life and of a Conflict Between Two Faiths, New York, P. J. Kenedy, 1959.

[5] Kramer, Pe. Paul. O Derradeiro Combate do Demônio, Coimbra (Portugal), Associação Missionária/edição on-line, 2009.

[6] Palavras proferidas por Eric Voegelin na abertura de sua conferência intitulada “The Gospel and Culture”, editada em 1971 em Jesus and Marys Hope (Pittsburgh Theological Seminary Press, p.59-101) e mais tarde sob o título Evangelho e Cultura, in “The Collected Works of E. Voegelin”, vol. 12, Published Essays, 1966-1985 (Louisiana State University PressBaton Rouge/London, 1988, p. 172-212; trad. de Mendo Castro Henriques, Luís Salvador, M.ª Eduarda Barata, Mário Jorge e Nuno Bettencourt).

[7] Kramer, Pe. Paul, op.cit.

[8] Citado em L’Osservatore Romano, 07-02-1981.

[9] Martin, Malachi. Windswept House: A Vatican Novel, New York, Doubleday, 1996.

[10] Ibid., p.492-93.

[11] Corteville, Michel. La “Grande Nouvelle” des Bergers de La Salette, vol.I, L’Apparition et les Secrets. Pars Dissertatio ad Lauream Facultatis S. Theologiae apud Pontificiam Universitatem S. Thomae de Urbe, Roma, 2000; Téqui, Paris, 2001.

[12] Laurentin, René & Corteville, Michel. Découverte du Secret de la Salette, Paris, Fayard, 2002.

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