Os Megálitos do Hebizuka Kofun em Uzumasa, Quioto

Você irá conferir agora as gigantescas pedras do Hebizuka Kofun, na cidade de Quioto, onde estive para pesquisá-lo. Erguido no século VI pelo clã imigrante Hata, o kofun fica escondido em meio a um bairro residencial e possui uma grande câmara de pedra, que mede cerca de 17 metros. Os megálitos que compõem a estrutura são rochas sedimentares toscamente cortadas mas cuidadosamente ajustadas. A crença de que o clã Hata era uma das Tribos Perdidas de Israel, é central para diversas novas religiões ultranacionalistas e messiânicas do Japão.

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga (texto e fotos) e Alexandre Akio Watanabe (fotos com a presença de CTS)

Construído no século VI, o Hebizuka Kofun, na cidade de Quioto (fundada no século I e que foi a capital do Japão Imperial até 1868, quando foi substituída por Tóquio), é um kofun (túmulo) localizado próximo a estação de trem de Uzumasa (Uzumasa-eki) na Linha Sagano em Ukyo-ku, operada pela West Japan Railway Company (JR West).

A estação de trem de Uzumasa.

O nome do kofun, Hebizuka (Hebi = Cobra + Zuka ou Tsuka = Monte), significa “lugar onde as cobras se escondem”. As cobras são comumente odiadas como ameaçadoras e tenazes, mas na cultura japonesa, marcadamente reptiliana, são consideradas “mensageiras dos deuses” e “deidades guardiãs da casa”. 

O maior kofun da área de Quioto tem o formato típico de buraco de fechadura (o que só pode ser visto do alto), tal como o maior de todos, aliás o primeiro em que estivemos, o Daisenryō-Kofun, na cidade de Sakai, estação de trem de Mozu, em Osaka, construído no século V em forma de fechadura em honra a Nintoku, o 16º Imperador do Japão (entronado em 313, aos 24 anos, e que reinou por 86 anos até sua morte em 399, com 110 anos de idade). Apenas para lembrar, os kofun são túmulos megalíticos para membros da alta nobreza construídos na segunda metade do século III até a primeira metade do século VII durante o chamado Período Kofun, pertencente ao Período Yamato.

O Hebizuka Kofun fica escondido em meio a um bairro residencial e se encontra cercado em toda a sua volta por uma grade de ferro. Não chega a ser muito difícil de encontrar, ainda mais se você dispõe de um GPS, graças ao qual nem foi preciso que recorrêssemos a orientações de moradores. 

O Hebizuka Kofun, escondido em meio a um bairro residencial.

Depois de circundar o kofun cercado, um senhor de idade, morador de um sobrado bem defronte, notou nosso interesse em examinar o monumento mais de perto e, detentor que era da chave do portão da grade, o abriu para que nele pudéssemos adentrar, com a condição de que o trancássemos novamente quando saíssemos. Só não avisou que não era permitido subir no topo do monumento, e quando o fiz, fui severamente repreendido por ele, que se encontrava no andar superior de sua casa nos observando. Claro que, além de zelar pela integridade do kofun, cuidava para que ninguém sofresse ali um acidente que o obrigaria a chamar uma ambulância e lhe renderia alguma admoestação por parte das autoridades locais.

O Hebizuka Kofun, cercado por uma grade.

Ali dentro, talvez porque as enormes rochas obstruíam a visão do seu interior, o conjunto parecia maior do que do lado de fora. Circundei todo o entorno pela estreita faixa de terra que restara e depois passei a examinar a parte interna, por onde se chega por uma passagem linear baixa.

A passagem baixa para a câmara interna, sustentada por vigas de aço.

Infelizmente, a maior parte de sua forma original foi perdida e só o que se pode ver agora são os restos de sua grande câmara de pedra, que mede de 17 a 18 metros. Os megálitos que compõem a estrutura, sustentada por vigas de aço, são rochas toscamente cortadas mas cuidadosamente ajustadas. A seção mais longa do conjunto atinge 75 metros. A área do piso da sala de entrada (a sala onde os corpos são colocados) mede 25,6 .

As rochas que compõem a estrutura são do tipo sedimentar, formadas no leito oceânico da parte norte de Quioto entre o Período Permiano e o Jurássico (1,45 bilhão-2,9 bilhões de anos atrás). Por serem típicas da antiga província de Tanba, atualmente equivalente à parte central de Quioto e ao centro-leste de Hyogo, são chamadas de Tanba, mas é um mistério como essas rochas gigantes foram transportadas para esse local naquele período antigo. 

Supõe-se que o Hebizuka Kofun tenha sido erguido pelo clã imigrante Hata, ativo no Japão desde o Período Kofun, segundo o épico histórico Nihon Shoki. Hata é a leitura japonesa do nome chinês 秦 dado à Dinastia Qin (o nome real era Ying). De acordo com o Nihon Shoki (traduzido como Crônicas do Japão, o segundo livro mais antigo sobre a história do Japão), o primeiro líder dos Hata a chegar ao Japão, isso no século II, foi Uzumasa-no-Kimi-Sukune, daí o nome do bairro e da estação de trem. Ele e seus seguidores foram muito bem recebidos durante o reinado do Imperador Chūai, e Uzumasa recebeu uma grande posição no governo.

O Nihon Shoki (Crônicas do Japão), o segundo livro mais antigo sobre a história do Japão.

Os Hata teriam aprimorado a administração financeira e introduzido a produção de seda no Japão. Durante o reinado do Imperador Nintoku, os membros do clã foram mandados a diversas partes do país para difundir a prática da sericultura. Membros do clã também serviram como conselheiros financeiros para a Corte de Yamato (250-710), período que englobou os períodos Kofun e Asuka, por alguns séculos. Originalmente vivendo nas regiões de Izumo e San’yo, os Hata se instalaram em cidades que viriam a ser as maiores do Japão e ajudaram a estabelecer Heian-kyō (atual Quioto) e diversos santuários xintoístas e templos budistas.

A crença de que o clã Hata era uma das Tribos Perdidas de Israel, é central para diversas novas religiões ultranacionalistas e messiânicas do Japão. O problema é que há poucas indicações de que os Hata tenham sido originalmente semitas. Yoshiro Saeki (1871-1965), um estudioso japonês de religião, direito e língua inglesa especialista em Cristianismo Oriental, conhecido por suas teorias sobre nestorianismo e cultura judaica no Japão, foi um dos primeiros a propor a teoria de que os Hata eram semíticos na origem, praticantes de um antigo tipo de judaísmo, e que eles teriam grande impacto na cultura japonesa.

Endereço do Hebizuka Kofun: Uzumasa Omokagecho, Ukyo Ward, Kyoto, 616-8153

Fotos Extras:

 

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