Sociedade do Espetáculo de Debord completa 50 anos mais atual do que nunca

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

A espetacularização das próprias vidas é condição obrigatória hoje para ser minimamente notado e prestigiado, submetido que estamos às “normas espetaculares”, como previu o filósofo francês Guy Debord (1931-1994). Cada ato do cotidiano, por mais banal e corriqueiro, tem de ser cada vez mais revestido daquele glamour fashion e hollywoodiano, como se fossem manifestações autênticas de uma existência plena e luxuriante, ainda que ao preço do fingimento e do apagamento da personalidade e de preferências individuais.

O indivíduo, paradoxalmente, deve portanto negar-se permanentemente se pretende ser ao menos um pouco considerado nesta sociedade cujo status se mede pelas curtidas no Facebook. A verdade se tornou variável, intercambiável, uma série interminável de adesões enganosas a comportamentos e produtos falaciosos para não acabar depreciado como um ator sem cartaz. A espetacularização da vida, enfim, nunca esteve tão em voga, especialmente com as redes sociais que levam seus usuários a transformar suas existências em verdadeiros realities shows.

A origem do termo ou expressão “sociedade do espetáculo” se encontra no título de um livro de Debord publicado na França em 1967 e que se tornou inicialmente um libelo da ala mais extremista do movimento parisiense de Maio de 1968.[1]

O “espetáculo” de que fala Debord vai muito além da onipresença dos meios de comunicação de massa, que se constituem apenas como seu aspecto mais visível e superficial. Para esse filósofo e profeta, “toda a vida nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se afastou numa representação.”

Valendo-se de uma cortante e ferina linguagem aforística, com múltiplas alusões ocultas a pensadores famosos, Debord denuncia o espetáculo como uma “ideologia por excelência”, uma forma de manipulação em que os indivíduos são obrigados a contemplar e a consumir passivamente as imagens de tudo o que lhes falta em sua existência, num processo de “empobrecimento, submissão e negação da vida real”: “O espetáculo, compreendido na sua totalidade, é ao mesmo tempo o resultado e o projeto do modo de produção existente. Ele não é um suplemento ao mundo real, a sua decoração. É o coração da irrealidade da sociedade real. Sob todas as suas formas particulares, informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto de divertimentos, o espetáculo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante. Ele é a afirmação onipresente da escolha já feita na produção, e o seu corolário o consumo. Forma e conteúdo do espetáculo são identicamente a justificação total das condições e dos fins do sistema existente.”

Em suma, a realidade torna-se uma imagem, as imagens tornam-se realidade, e o espetáculo instaura-se como o reinado soberano do aparecer. As relações sociais já não são mediatizadas apenas pelas coisas, mas diretamente pelas imagens: “O conceito de espetáculo unifica e explica uma grande diversidade de fenômenos aparentes. As suas diversidades e contrastes são as aparências desta aparência organizada socialmente, que deve, ela própria, ser reconhecida na sua verdade geral. Considerado segundo os seus próprios termos, o espetáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de toda a vida humana, isto é, social, como simples aparência. Mas a crítica que atinge a verdade do espetáculo descobre-o como a negação visível da vida; como uma negação da vida que se tornou visível.”

Em Comentários sobre a Sociedade do Espetáculo,[2] de 1988, Debord teve de admitir que o domínio espetacular conseguiu aperfeiçoar-se e vencer todos os seus adversários, de modo que agora é a sua própria dinâmica, a sua desenfreada loucura econômica a arrastá-lo em direção à irracionalidade total e à ruína: “O governo do espetáculo, que presentemente detém todos os meios de falsificar o conjunto da produção assim como da percepção, é senhor absoluto das recordações tal como é senhor incontrolado dos projetos que modelam o mais longínquo futuro. Ele reina só em todo o lado; ele executa os seus julgamentos sumários.”

Proclamando-se oficialmente espetacular, a sociedade considera como inimigo e exclui por completo aqueles que se insurgem à margem das relações espetaculares. Quem se nega a fazer parte de redes sociais como o Facebook ou quem dele é adepto mas não obtém curtidas, que o diga.

Notas:

[1] Debord, Guy. A Sociedade do Espetáculo, Rio de Janeiro, Editora Contraponto, 1997.

[2] IDEM, Comentários sobre a Sociedade do Espetáculo, Rio de Janeiro, Editora Contraponto, 1998.