Os 300 anos das Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift

Escrita há exatos 300 anos, em 1720, e editada seis anos depois, a obra Viagens de Gulliver, do escritor satírico irlandês Jonathan Swift (1667-1745), foi precursora da ficção científica e da ufologia ao fazer o relato da “Ilha Volante ou Flutuante” de Laputt, em forma de disco voador, habitada por seres estranhos que a controlavam por meio de um “imã de grandes dimensões”, já adiantando os princípios do eletromagnetismo. Contudo, o que mais espanta no livro é a menção feita aos dois satélites de Marte, descobertos “graças aos elevados conhecimentos dos astrônomos da ilha voadora”. Todos sabem que Marte possui dois satélites, Fobos e Deimos (“Medo” e “Terror” em grego), ambos descobertos pelo astrônomo norte-americano Asaph Hall (1829-1907), do Observatório de Washington, em 11 e 17 de agosto de 1877. Ocorre que Swift escreveu o livro 157 anos antes da descoberta oficial dos dois satélites.

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

“Tão substancialmente se confunde, em Swift, a obra com o homem, que os seus escritos olham para a posteridade como máscaras modeladas no rosto de um vivo”, escreveu o jurista, político, diplomata, escritor, literato e filólogo Rui Barbosa de Oliveira (1849-1923)[1] na introdução da edição brasileira de Viagens de Gulliver.[2]

Na acepção do escritor e crítico literário carioca Eugênio Gomes (1897-1972), “a obra de Swift acha-se tão entrelaçada com os acontecimentos capitais de sua vida solitária, que seria francamente inútil querer apreciá-la apenas pelo prisma estético”.[3]

Jonathan Swift

Jonathan Swift nasceu em Dublin, capital da Irlanda, em 30 de novembro de 1667. Filho póstumo de pai pobre, foi criado por um tio. Aos 14 anos, após ter concluído penosamente os estudos na Escola de Kilkenny, ingressou na Universidade de Trinity, por onde passou sem deixar mostras de inteligência excepcional ou meramente brilhante. Muito pelo contrário. Entregue a jogos de cartas e à poesia, não manifestou interesse por quaisquer outras coisas. Esse aluno desabusado, que não queria entender de lógica, metafísica, filosofia, matemática e outras matérias do currículo, no breve espaço de dois anos sofreu mais de setenta punições por irregularidades de conduta. A concessão do grau de bacharel só foi deferida por uma condescendência especial (speciali gratia) da Congregação. Em 1688, com a morte de seu tio e as devastadoras consequências da Revolução Irlandesa, Swift transferiu-se para Leicester, a maior da região de East Midlands, na Inglaterra, onde já se encontrava sua mãe, também acossada pela necessidade. De 1689 a 1695, Swift serviu como uma espécie de secretário particular de Sir William Temple (1628-1699), ilustre estadista e literato da época, com o qual seus tios maternos mantinham antigas relações.

Seu orgulho não permitia que se conformasse com a situação subalterna. Devorado pela ambição, aderiu à Igreja Anglicana, ordenou-se sacerdote e ingressou na política, pondo a pena a serviço sucessivamente dos whigs (membros do Whig Party, partido que reunia as tendências liberais) e dos tories (membros do Tory Party, antigo partido de tendência conservadora que reunia a aristocracia britânica) na esperança de obter um bispado. No cargo de diretor do jornal Examiner, torna-se temido e chega a exercer influência decisiva na fase pós Revolução Gloriosa, mas não alcança o cargo almejado e tem de contentar-se com o lugar de decano da Catedral de San Patrick, em Dublin, onde, depois de anos de atrozes sofrimentos físicos infligidos por uma doença incurável, em 19 de outubro de 1745 “morre como um rato envenenado em seu buraco”.

Não obstante a existência de uma correspondência de fundo autobiográfico, o Diário a Stella, a vida íntima de Swift continua um mistério; certas explicações de caráter fisiológico a que vários biógrafos recorrem para elucidar as estranhas relações do escritor com Stella e Vanessa, duas de suas amigas, ainda aguardam por confirmação. De qualquer modo, a ironia do destino transformou em clássico um dos maiores sátiros de todos os tempos, aquele que escreveu: “Odeio e detesto cordialmente este animal que se chama homem.”

Escrito em 1720 e editado seis anos depois, Viagens de Gulliver, seu maior livro, pertencente a um gênero clássico, o das viagens imaginárias, parte dos recursos tradicionais – aventuras, naufrágios, ilhas estranhas – e nos conduz a um mundo “irreal” repleto de monstros terríveis, anões e gigantes. Sem querer despertar no leitor uma credibilidade que torne o medo e a angústia possíveis, pretendeu, antes de tudo, explorar a defasagem que subsiste entre o mundo normal e o desconhecido, afinar nosso espírito crítico e nos fazer refletir. A sua descrição obedece a intuitos de sátira e sob esse disfarce Swift vilipendia não só os costumes da Inglaterra, como também os de toda a sociedade humana. Os relatórios de viagens detalham pormenores que parecem completamente naturais e exatos, embora não passem de transições sabiamente dosadas às regiões criadas pela sua imaginação.

Quatro foram as viagens de Gulliver: a primeira à Ilha de Lilliput, o país do anões, onde Gulliver é venerado e temido como um deus; a segunda à dos gigantes, onde a mesmíssima pessoa se vê reduzida à estatura de um ridículo inseto; a terceira à dos sábios, onde descobre a pequenez da inteligência humana e de seus ideais; por fim à dos cavalos, onde se depara com criaturas nobres e em tudo superiores à miserável humanidade. O gênio do autor não deixou inexplorada nenhuma das possibilidades oferecidas por um assunto tão rico e sugestivo.

A parte notável que desafia o juízo do leitor moderno é o relato da “Ilha Volante ou Flutuante” de Laputt, contida no capítulo Travels into Several Remote Nations of the World, in four parts, by Lemuel Gulliver, firft a surgeon, and then a captains of feveral ships (Viagens em Diversos Países Remotos do Mundo em quatro partes, por Lemuel Gulliver, a princípio cirurgião, e depois capitão de vários navios).

Depois que retorna do país dos gigantes, Gulliver faz outras expedições a várias ilhas desconhecidas. Numa delas, vê o céu nublar-se. Negras sombras parecem envolvê-lo quando, subitamente, aparece a silhueta desmesurada de uma plataforma suspensa no espaço. Com auxílio de uma luneta, observa os habitantes da misteriosa ilha, de formato circular. Imensos terraços circundavam o “disco”, do qual uma gente completamente desconhecida lhe acenava.

Gesticulando sempre, conseguiu Gulliver aproximar-se discretamente. O idioma dos ilhéus soava semelhante ao italiano. As vestes eram da cor do Sol e da Lua. Usavam instrumentos diferentes dos nossos. Sobre a superfície inferior, erguia-se o casario e o palácio do rei. A ocupação maior do soberano era a de travar relações comerciais com os povos das outras ilhas. No centro ficava a cabine dos astrônomos, que regulavam os movimentos do imenso disco. A ilha aérea se movia com uma rotação sobre um eixo de diamante. Uma verdadeira navegação, que permitia aos seus habitantes defender-se dos rigores das intempéries. No caso de uma desavença com os inimigos, poderia o rei ordenar que a ilha ficasse suspensa sobre uma determinada cidade ou zona, privando-a do Sol ou da chuva, causando, desta maneira, graves prejuízos à agricultura; durante as guerras, bombardeava-as com grandes blocos de rocha. Nunca o gigantesco disco baixava à terra. Sempre no espaço, a ilha de Gulliver foi o precursor admirável, dois séculos antes, do maior e mais discutido enigma do século XX.

Acompanhemos a descrição que Swift faz da aproximação e abordagem da ilha:

“Caminhei durante algum tempo entre as rochas; estava o céu perfeitamente claro, e o Sol tão quente, que tive de voltar o rosto para outro lado: quando, improvisadamente, se obscureceu, segundo julguei, de maneira muito diversa da que provoca a interposição de uma nuvem. Voltei-me e percebi um vasto corpo opaco entre mim e o Sol, que se movia para a frente, na direção da ilha; parecia estar a cerca de 350 quilômetros de altura, e escondeu o Sol durante seis ou sete minutos […] À medida que se avizinhava do sítio em que eu me achava afigurou-se-me tratar de uma substância firme, de fundo chato, liso e muito brilhante, à conta do reflexo do mar, embaixo. Eu estava em pé num outeiro, a uns 180 metros da praia, e vi descer aquele vasto corpo, até ficar numa posição paralela a mim, a menos de 2 quilômetros de distância. Saquei a luneta de bolso e divisei perfeitamente grande número de pessoas que subiam e desciam pelos seus bordos, aparentemente em declive; mas não pude distinguir o que fazia aquela gente. O amor natural à vida despertou em mim um movimento interior de alegria, e não tardei a alimentar a esperança de que essa aventura poderia, de uma forma ou de outra, ajudar a libertar-me do lugar desolado e da triste condição em que eu me achava. Ao mesmo tempo, no entanto, dificilmente poderá conceber o leitor o meu assombro ao contemplar uma ilha suspensa no ar, habitada por homens, capazes (segundo parecia) de fazê-la subir ou baixar, ou de imprimir-lhe um movimento progressivo, a seu bel prazer. Mas como eu não estivesse, naquela ocasião, disposto a filosofar sobre o fenômeno, preferi observar o curso que tomava a ilha, que pareceu estacionar durante algum tempo. Logo depois, contudo, aproximou-se um pouco mais, e eu pude ver-lhe os bordos circundados de várias séries de escadas e galerias, a intervalos iguais que desciam de uma para a outra. Na galeria inferior, vislumbrei algumas pessoas que pescavam com varas compridas, e outras, que olhavam. Agitei o gorro (pois havia muito que se me estragara o chapéu) e o lenço na direção da ilha; e quando ela chegou ainda mais perto, chamei e gritei o mais alto que pude; olhando, em seguida, atentamente, notei uma multidão reunida no lado que defrontava comigo. Vendo que todos apontavam para mim uns para os outros, depreendi que me haviam descoberto, se bem que não respondessem aos meus gritos. Mas pude notar quatro ou cinco homens que subiam à pressa, as escadas e até o cimo da ilha, desaparecendo em seguida. Sucedeu-me conjeturar com acerto que haviam sido mandados à procura de alguma pessoa de autoridade que lhes desse instruções para o caso. O número de gente aumentou e, em menos de meia hora, a ilha se moveu de tal maneira que a galeria inferior assumia uma posição paralela, a menos de 90 metros de distância, à eminência em que eu me achava. […] Conferenciaram gravemente umas com as outras, fitando em mim frequentemente os olhos. Uma delas, afinal, falou num dialeto claro, agradável e suave, não muito diverso, no som, do italiano; e eu, consequentemente, respondi nessa língua, esperando, pelo menos, que a cadência lhes fosse mais agradável aos ouvidos. E se bem nenhum de nós entendesse o outro, foi claramente compreendido o significado das minhas palavras, pois todos viam a aflição em que eu me encontrava. Fizeram sinais para que eu descesse do rochedo e me dirigisse à praia, o que fiz; e, elevada a ilha volante a uma altura apropriada, ficando o bordo exatamente sobre mim, foi descida uma corrente da galeria inferior, com um assento preso à extremidade, ao qual me segurei, e fui, destarte, puxado para cima por meio de polés.”[4]

Ao descer da cadeira, Gulliver é cercado por uma multidão de pessoas que indubitavelmente não eram oriundas da Terra: “Contemplavam-me com todas as mostras e expressões de assombro: nem eu, em realidade, lhes ficava muito a dever, pois nunca vira uma raça de mortais de formas, vestes e feições tão singulares. Tinham a cabeça inclinada, ou para a direita, ou para a esquerda; um dos olhos era voltado para dentro e o outro, diretamente para o zênite. Adornavam-lhes os trajes exteriores figuras de sóis, luas e estrelas, entremeadas de representações de violinos, flautas, harpas, trombetas, guitarras, cravos, e muitos outros instrumentos musicais, desconhecidos na Europa.”[5]

Entraram afinal no palácio e passaram à sala de audiências, onde viu o rei assentando em seu trono, e defronte dele “havia uma mesa grande cheia de globos e esferas, e instrumentos matemáticos de toda a sorte”. Mostraram-lhe num dos livros, “as figuras do Sol, da Lua e das estrelas, o zodíaco, os trópicos, os círculos polares, com a denominação de muitos planos e sólidos”. Um professor explicou-lhe “que o povo da ilha tinha os ouvidos adaptados para ouvir a música das esferas, que soava sempre em certos períodos”. O conhecimento que tinha da matemática ajudou Gulliver “no aprendizado da fraseologia daquele povo, que depende em grande parte dessa ciência e da música, em que eu também não era leigo. As ideias deles se referem perpetuamente a linhas e figuras. Quando, por exemplo, querem exaltar a beleza de uma mulher, ou de outro animal qualquer, descrevem-na por meio de rombos, círculos, paralelogramos, elipses e outros termos geométricos, ou por meio de palavras de arte, tiradas da música…”

As paredes das casas eram “esguelhadas, por maneira que se não encontra um único ângulo reto em nenhuma habitação; e esse defeito nasce do desdém que consagram à geometria prática, menosprezada por vulgar e mecânica…”[6]

Desejando saber, em especial, a que “causa artística ou natural devia os seus diversos movimentos”, Gulliver pediu permissão ao monarca para ver as curiosidades da ilha, descrita da seguinte forma: “A Ilha Volante ou Flutuante é exatamente circular; o seu diâmetro é de 7.180 metros, mais ou menos, e contém, por conseguinte, 4.000 metros, com uma grossura de 275 metros. O fundo, ou superfície inferior, que aparece aos que a veem de baixo, é uma placa lisa e regular de diamante, que mede uns 180 metros de altura. Sobre ela jazem os diversos minerais em sua ordem habitual e, acima de tudo, há um manto de terra vegetal muito rica, de 3 ou 4 metros de profundidade. O declive da superfície superior, da periferia para o centro, é a causa natural de ser convertido o orvalho e a chuva que cai sobre a ilha em pequenos riachos que correm para o meio, onde desembocam em quatro bacias grandes, cada qual de meia ilha de circunferência, mais ou menos, a 180 metros do centro. […] No centro da ilha há uma abertura de uns 50 metros de diâmetro, por onde descem os astrônomos a uma grande cúpula, que é, por isso, denominada Flandona Gagnole ou Cova dos Astrônomos, situada a uma profundidade de 100 metros da superfície superior do diamante. Ardem nessa cova, continuamente, vinte lâmpadas que, refletidas no diamante, projetam uma luz forte para todos os lados. Encontra-se armazenada nesse lugar variedade de sextantes, quadrantes, telescópios, astrolábios e outros instrumentos astronômicos.”[7]

A ilha circular voadora, controlada por um imã de grandes dimensões, lembra um gigantesco disco voador acionado por eletromagnetismo: “Mas a maior curiosidade da qual depende o destino da ilha, é uma pedra-ímã de tamanho prodigioso, semelhante, no formato, a uma lançadeira de tecelão. Mede 5 metros de comprimento e, na parte mais grossa, pelo menos mais 2. Esse imã é sustentado pelo fortíssimo eixo de diamante, que lhe passa pelo meio, sobre o qual joga, estando equilibrado com tamanha exatidão que pode virá-lo a mais fraca das mãos. É rodeado por um cilindro oco de diamante, de 1 metro de profundidade, outros tantos de grossura e 10 metros de diâmetro, colocado horizontalmente, e sustentado por 2,5 metros, também de diamante, com 5 metros de altura cada um. No meio do lado côncavo há um encaixe de 30 centímetros de profundidade, no qual se encasam as pontas do eixo, que giram quando se faz mister. A pedra não pode ser mudada de lugar por força nenhuma, porque o aro e os pés são uma continuação do corpo de diamante que constitui o fundo da ilha. Por meio dessa pedra-ímã faz-se com que a ilha suba e desça, e se mova de um lugar para outro. Pois, no tocante à parte da terra a que preside o monarca, a pedra é dotada, num dos lados, de uma força atrativa e, do outro, repulsiva. Colocado o imã em pé, com a ponta atrativa voltada para a terra, a ilha desce; mas quando a extremidade repulsiva aponta para baixo, a ilha sobe. Quando é oblíqua a posição da pedra, o movimento da ilha é oblíquo também; pois nesse imã atuam sempre as forças em linhas paralelas à sua direção.”[8]

O magnetismo que determina o movimento da “ilha voadora” é o mesmo princípio que rege o funcionamento dos OVNIs, pelo menos segundo o relato da maioria dos contatados e abduzidos. O magnetismo no sentido cósmico é determinado pelas forças de gravitação dos astros e planetas: é a interação mútua das mesmas que mantêm o equilíbrio cósmico. No aproveitamento dessas forças parece estar baseada a técnica motriz dos OVNIs. O governo norte-americano concedeu subvenções a numerosos centros científicos destinadas à investigação dos efeitos e do domínio (da contrarrestação) da força da gravidade, já que o domínio do estado da falta de gravidade pode ser a chave do segredo dos discos voadores.

Contudo, o que mais espanta no livro é a menção feita aos dois satélites de Marte, descobertos “graças aos elevados conhecimentos dos astrônomos da ilha voadora”. Construíram eles poderosíssimos telescópios, com os quais pesquisaram os confins do Universo e descobriram os satélites do planeta. Todos sabem que Marte possui dois satélites,  Fobos e Deimos (“Medo” e “Terror” em grego), ambos descobertos pelo astrônomo norte-americano Asaph Hall (1829-1907), do Observatório de Washington, em 11 e 17 de agosto de 1877. Ocorre que Swift escreveu o livro em 1720, ou seja, 157 anos antes da descoberta oficial dos dois satélites.

Há ainda um outro enigma, bem mais intrigante. Ao referir-se aos dois satélites de Marte no terceiro capítulo da terceira parte de seu livro, Swift disse: “Descobriram outrossim duas estrelas menores, ou satélites, que giram à volta de Marte; a mais interna das quais dista do centro do planeta primário exatamente três anos dos seus diâmetros, e a mais externa, cinco; gira a primeira no espaço de 10 horas, e a segunda, de 21 e meia; por maneira que os quadrados dos seus tempos periódicos estão quase na mesma proporção dos cubos de sua distância do centro de Marte; o que mostra evidentemente serem eles governados pela mesma lei de gravitação que rege os outros corpos celestes. Observaram os astrônomos 93 planetas diferentes e calcularam os seus períodos com suma precisão. Se isto for verdade (e eles o afirmam com grande segurança), fora muito para desejar se publicassem as suas observações, pelas quais a teoria dos cometas, ainda incipiente e defeituosa seria levada à mesma perfeição que atingiu outras partes da astronomia.”[9]

Fobos e Deimos constituem verdadeiras raridades em nosso sistema solar, tanto por seu tamanho como pela curta distância do planeta principal e pelo período de revolução, também pequeno. O diâmetro de Fobos, a maior das duas luas, é de cerca de apenas 16 quilômetros. Situa-se a uns 9 mil quilômetros da superfície de Marte. Em 1944, no Observatório Naval dos Estados Unidos, B. P. Sharpless descobriu que Fobos apresenta uma aceleração secular.[10] De fato, Fobos constitui o único caso conhecido de satélite cujo período de revolução em torno do planeta (7 horas, 39 minutos e 14 segundos) é mais curto do que o período de rotação deste ao redor de seu próprio eixo (24 horas, 37 minutos e 23 segundos). Isso faz com que, em um dia de Marte, Fobos dê três voltas ao seu redor, nascendo no oeste e morrendo no leste. O outro satélite, Deimos, de brilho mais fraco ainda, tem um raio que parece não ser maior do que 3,5 quilômetros, e sua distância do planeta é de cerca de 23 mil quilômetros. Efetua uma revolução sideral em 30 horas, 17 minutos e 55 segundos, e por conseguinte, embora se atrase em relação ao movimento de rotação do planeta e seu ocaso se dê a oeste, sua passagem por um determinado meridiano é lenta e o intervalo entre duas passagens consecutivas é de umas 130 horas. As órbitas realizadas pelos dois satélites são quase exatamente circulares. Swift previu, portanto, não só a existência deles como também forneceu quase que exatamente suas distâncias de Marte e seus períodos de revolução.[11]

Notas:

[1] Nascido na Bahia, era um visionário, poliglota e literato. Ministro da Fazenda do Governo Provisório do marechal Deodoro da Fonseca, intentou fazer do Brasil uma potência industrial, adotando uma política de emissões de dinheiro exageradas, que levou ao descontrole econômico e à especulação. Embora tenha promovido inicialmente o desenvolvimento de alguns negócios e o crescimento do número de empresas industriais, a política emissionista e de crédito aberto resultou numa crise inflacionária e de especulação na Bolsa de Valores que ficou conhecida com o nome de Encilhamento. A especulação caracterizou-se pela venda e revenda de ações por preços acima do valor real. Grande parte das ações vendidas eram de “empresas fantasmas”, isto é, de empresas que só existiam no papel mas que incorporavam seus títulos na Bolsa de Valores. Barbosa, querendo multiplicar o número de indústrias do país recém-saído da escravidão, fracassou porque não havia ainda uma infra-estrutura capaz de sustentar esse industrialismo. A inflação galopou tanto que a crise passou a ser chamada de Encilhamento. Local de apostas: o Jóquei. Durante o governo do presidente Afonso Pena (1906-1909), Rui Barbosa representa o Brasil na famigerada Conferência de Haia (1899), daí seu apelido, “Águia de Haia”. A campanha sucessória, iniciada antes da morte de Afonso Pena, provocou o rompimento temporário das relações café com leite. Afonso indicou o ministro da Fazenda Davi Campista, que não foi aceito pela maioria do Partido Republicano Mineiro (PRM) e do Partido Republicano Paulista (PRP). PRM e PRP rompem. Os mineiros se aliaram às oligarquias gaúchas e escolheram o alagoano Hermes da Fonseca. São Paulo, por sua vez, aliou-se às oligarquias baianas e lançou Rui Barbosa, que desenvolveu uma campanha antimilitarista conhecida como Campanha Civilista, na qual defendia a moralização política e o afastamento dos militares da vida política nacional. A vitória de Hermes em 1910 foi a vitória da situação, já que era apoiada por Nilo Peçanha.

[2] Swift, Jonathan. Viagens de Gulliver, Rio de Janeiro, Tecnoprint, s.d., p.13.

[3] Ibid., p.43.

[4] Swift, Jonathan. Viagens de Gulliver, Rio de Janeiro, Globo, 1961, p.130-131.

[5] Ibid., p.132.

[6] Ibid., p.133-136.

[7] Ibid., p.139-140.

[8] Ibid., p.140-141.

[9] Ibid., p.141-142.

[10] Sharpless, B. P. “Secular accelerations in the longitudes of the satellites of Mars”, in Astronomical Journal, v.51, 1945, p.185-186.

[11] As duas luas ganharam notoriedade em 1960, quando o astrofísico russo Iosif Samuilovich Shklovsky (1916-1985), após examinar a aceleração secular de Fobos, concluiu que nenhuma força celeste conhecida poderia explicá-la, comparando seu comportamento orbital ao dos satélites artificiais da Terra. Fobos, portanto, seria um satélite artificial construído e lançado por uma civilização marciana avançada, agora extinta. Essa declaração, partindo de um eminente astrofísico, eletrizou o imaginário dos ufólogos. Tão confiantes ficaram alguns deles que elaboraram teorias sobre a origem dos “satélites artificiais” marcianos. Outros simplesmente mencionavam isso como prova de seus argumentos a favor da existência de seres extraterrestres. Tais especulações ruíram abruptamente apenas 11 anos depois, quando a sonda Mariner 9 enviou fotografias de Fobos à Terra. Constatou-se que as luas possuíam “marcas de varíola” e crateras. As órbitas incomuns deviam-se às suas dimensões e tamanhos irregulares.

[12] Durrant, Henry, Informe UFO: O Livro Negro dos Discos Voadores, 4a ed., São Paulo, Difel, 1983, p.55-56.

[13] Strehl, Rolf. O Céu Não Tem Fronteiras: A Grande Aventura da Astronáutica, São Paulo, Melhoramentos, 1965, p.25.

[14] Ojea, Emilio Alvarez. “Como tudo começou”, in Planeta Ufologia: Os OVNIs Chegaram-I, São Paulo, Ed. Três, nº 120-A, setembro de 1982, p.58.

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