O bizarro caso dos anões que queriam comer os bolos de Geni Lisboa

O caso da boleira Geni Lisboa é um dos mais bizarros e exóticos da ufologia. Na madrugada de domingo, 27 de maio de 1973, Geni fazia bolos de casamento por encomenda em sua casa em São José do Preto, cidade na fronteira noroeste do estado de São Paulo, quando foi assediada por três anões morenos, parecidos com crianças asiáticas, que de bordo de um disco voador a atingiram com fachos de luz que a deixaram com muitas dores nos membros inferiores, especialmente nas articulações dos joelhos e nas regiões ilíaco-femurais. O engenheiro José Wilson Ribeiro e o médico e ufólogo Walter Karl Bühler pesquisaram o caso in loco e apuraram que em decorrência do contato, Geni teve a sua saúde tremendamente abalada, tendo até sofrido um prolapso uterino. Um coqueiro anão  e uma jabuticabeira do quintal também foram afetados. Você irá conhecer todos os detalhes deste caso clássico e esquecido da ufologia a partir de agora.

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

Geni Lisboa, nascida em 1916, residia no bairro Santa Cruz, em São José do Rio Preto, cidade na fronteira noroeste do estado de São Paulo, a 451 quilômetros da capital paulista. Muito conhecida por sua atividade como doceira, fazia bolos de casamento por encomenda. A fim de garantir aos seus produtos uma boa qualidade, Geni sempre os confeccionava à noite ou na madrugada que antecedia à festa.

Planta da casa de Geni Lisboa, com a seta indicando a localização do coqueiro. Croqui de José Wilson Ribeiro. Fonte: Boletim da SBEDV, nº 121-125, 1978-03 a 12.

Na tarde de sábado, 26 de maio de 1973, Geni ajudou na ornamentação da igreja para um casamento que se realizaria no dia seguinte. Após essa tarefa, à noite, ela deu início à confecção de três bolos, para esta e outras festas de casamento. Entre 2 e 2h30 da madrugada já do domingo, ela estava ainda ocupada na preparação do terceiro bolo encomendado. Para tanto, utilizava um forno elétrico localizado numa sala contígua a uma varanda toda envidraçada, varanda essa que ficava de frente para o sul e para um quintal cheio de plantas ornamentais, todo murado, com dimensões aproximadas de 12 metros x 12 metros. Visto da varanda, o muro lateral esquerdo englobava um pequeno quarto alugado para um casal: um vigia noturno e sua esposa, Dona Luísa. Nos fundos, no canto direito, junto ao muro, havia ainda um outro quarto no qual dormia uma jovem chamada Jobe.

No horário mencionado, Geni teve a sua atenção despertada para um reflexo luminoso que percebeu através das vidraças da varanda. Ao mesmo tempo, o papagaio, deixado no quintal, gritou: “Geni, estou com medo… Geni, estou com medo…” Era um velho refrão decorado e repetido pelo animal. Geni associou o reflexo luminoso avistado com algum curto-circuito na vizinhança ou com o trabalho do guarda noturno, de acender uma lâmpada externa, como era de costume. Geni lembrou-se então de que havia se esquecido de trazer a ave para dentro da varanda, ao anoitecer, conforme fazia. Quis fazê-lo nessa hora e abriu a porta da varanda.

Da porta, Dona Geni viu, na direção sudoeste, a aproximação de um pequeno objeto, pelo ar. Esse aparelho estacionou acima do telhado do quarto de Jobe, nos fundos do quintal. Estava aproximadamente a uns 15 metros de Geni e a uns 5 metros do chão, e portanto a uns 2 metros do telhado do quarto de Jobe. Por ser uma noite de céu escuro, a testemunha pôde distinguir apenas a parte iluminada do objeto, que tinha um aspecto branco metálico, não enxergando seus verdadeiros contornos, que permaneceram ignorados. Media de 2 metros a 4 metros de largura por 1 metros a 2 metros de altura; apresentava uma espécie de varanda, com balaustrada, ao longo da qual encontravam-se distribuídas, igualmente, três personagens com as dimensões de anões.

As criaturas apresentavam desproporção entre a cabeça, os braços e as mãos. As cabeças eram comparáveis, em tamanho, às das pessoas adultas, ou até um pouco maiores, enquanto que os braços eram bem pequenos, semelhantes aos de crianças. As mãos, entretanto, eram grossas. Não se podia avaliar o tamanho do corpo inteiro dos seres porque apenas o busto, ombros e cabeça apareciam acima da balaustrada. Ao todo, a parte visível de cada um media aproximadamente 60 centímetros. O resto do tronco e as pernas não estavam à mostra. Cada uma das criaturas segurava, com as duas mãos, uma lanterninha ou farolete que emitia um facho luminoso diferente. Da esquerda para a direita, verde, vermelho e laranja. Geni, do ponto onde se encontrava, observou que os fachos luminosos varreram o chão do quintal, da esquerda para a direita. O aparelho voador emitia um ruído semelhante ao de um helicóptero ou de uma cigarra, só que mais intenso, e oscilava de um lado para o outro. O interessante era que tais oscilações do veículo pareciam sincronizadas com o movimento dos fachos de luz dos faroletes. Geni pensou: “Será que esse povo perdeu alguma coisa aqui? E eu, que não tiro nada de ninguém…”

Os peculiares seres, idênticos entre si e parecidos com crianças asiáticas, que assediaram a exímia boleira Geni Lisboa na madrugada de 27 de maio de 1973. Desenho de Wilma Romito. Fonte: Boletim da SBEDV, nº 121-125, 1978-03 a 12.

Como nesses primeiros momentos os fachos de luz se dirigiram apenas para as proximidades imediatas do objeto e não ofuscaram Geni, ela pôde observar os pormenores já citados, além de outros detalhes. Os três personagens eram muito parecidos entre si, como se fossem trigêmeos. Sua pele era de um vermelho moreno, “como de baiano queimado de Sol”. As cabeças apresentavam um contorno arredondado. Os queixos fugiam para trás. Os olhos eram grandes e “um pouco rasgados, como de asiáticos”. As bocas eram grandes, de lábios grossos, e nas extremidades curvavam-se para baixo. As orelhas pareciam pequenas, enquanto os narizes eram compridos e achatados. Não usavam barbas. Na cabeça, os seres traziam uma espécie de capacete semelhante a um gorro, com uma bolinha no centro. As criaturas pareciam não possuir pescoço, pois a cabeça repousava nos ombros, cuja largura era normal, comparada a humana terrestre. A roupa apresentava um aspecto semelhante a da cor da pele e tinha uma pequena gola, do tipo chinês.

Entrementes, o episódio tomou outra feição quando os fachos de luzes emitidos pelos faroletes visaram Geni, que se sentiu ofuscada e quis evadir-se do local mas não conseguiu fazê-lo, pois era como se “afundasse” ou estivesse “pregada ao chão”, tanto que chegou a dobrar os joelhos. Geni procurou proteger-se das luzes colocando os braços e as mãos sobre os olhos, enquanto gemia: “Ai, o que é isso?” Alarmada, chamou por sua inquilina que dormia no quarto dos fundos: “Jobe, me acuda!” Porém, não obteve resposta.

Geni Lisboa dando explicações de seu caso ao engenheiro José Wilson Ribeiro. Fonte: Boletim da SBEDV, nº 121-125, 1978-03 a 12.

O engenheiro José Wilson Ribeiro, que em 27 de janeiro de 1976 começou a pesquisar o caso in loco junto com o médico e ufólogo pioneiro Walter Karl Bühler, entrevistou Jobe na presença de Geni. A moça confirmou que, realmente, naquela noite havia acordado com o ruído que se fazia ouvir e com a intensa claridade que penetrava pelas telhas de vidro espelhadas na cobertura de seu quarto. Entretanto, não respondeu aos apelos de Geni porque estava impossibilitada de fazê-lo, não conseguindo sequer se movimentar. Jobe achou que tal reação fosse produto do medo que experimentou naquela hora.

Na última viagem que Bühler realizou a São José do Rio Preto em 5 de novembro de 1977, um sábado, tentou entrevistar Jobe, o que não foi possível porque ela havia se mudado para outra cidade. Por sua vez, Geni garantiu-lhe que Jobe havia mesmo ficado atordoada com a forte luz que penetrava através das telhas de vidro de seu quarto e que chegou a produzir calor, fazendo-a sentir como se estivesse dentro de um forno. Dez minutos após o desaparecimento dessa luz, o calor também desapareceu e Jobe pôde levantar-se e prestar socorro a Geni, a qual contou ainda que, antes de Jobe socorrê-la, havia chamado a vizinha do quarto à esquerda, mais longe do local em que tais fatos aconteceram, dizendo: “Luiza, Luiza, que é isto?” Luiza, simplesmente, respondeu: “Não é nada, Geni, é a luz da Lua”, e voltou a dormir.

O episódio todo durou de três a quatro minutos, após o que o objeto começou a afastar-se. Os faroletes dos tripulantes, no entanto, permaneceram acesos. Geni retomou suas atividades, embora com tremendas dificuldades, pois sentia muitas dores nos membros inferiores, especialmente nas articulações dos joelhos e nas regiões ilíaco-femurais. Na verdade, seu corpo inteiro doía e foi sofregamente que se movimentou para apanhar os comprimidos de Cibalena que desejava tomar. Geni teve, também, a sensação de estar com a cabeça maior – “como a de um elefante”, disse ela. Jobe teve a oportunidade de verificar, parcialmente, essas alterações fisiológicas em Geni. Cerca de dez minutos após o episódio, quando foi socorrê-la, notou que Geni tinha a face edemaciada (em que se produziu edema, acúmulo anormal de líquido em espaço intersticial extracelular) e os olhos injetados de sangue. As dores no corpo e os olhos injetados permaneceram por três dias. Três horas após os acontecimentos, ou seja, às 5 horas da manhã, Geni sofreu um prolapso (queda ou deslocamento de um órgão de seu lugar normal do útero) de 2º grau, conforme posteriormente lhe explicou a seu médico especialista.

Walter Karl Bühler

Bühler observou que geralmente se estabelece um prolapso uterino em pessoas de idade avançada, de modo que seria perfeitamente compreensível essa afecção em uma multípara (mulher que já teve muitos filhos) cinquentona, como era o caso de Geni. No caso em apreço, Geni havia consultado um médico especialista seis meses antes do incidente, e nessa ocasião lhe fora informado que tudo estava normal. A coincidência desses fatos e o repentino prolapso uterino sugeriam, segundo Bühler, que durante a noite a testemunha procurava cobrir o ouvido direito com o travesseiro, isso porque acreditava ouvir ainda o zumbido que fazia o objeto voador. Aliás, ela percebeu que seu ouvido direito piorou nos dias subsequentes ao episódio. Geni atribuiu isso ao fato de que esse ouvido estivesse mais voltado para o aparelho espacial, na noite do episódio. Embora até aquela data a testemunha possuísse audição perfeita, quatro anos depois ela quase nada podia mais escutar com o ouvido direito.

Sua visão também fora bastante afetada. Até a noite em que o objeto voador surgiu em seu quintal, Geni gozava de perfeita visão, não precisando usar óculos. Após o episódio, entretanto, houve uma brusca diminuição de sua visão, obrigando-a a usar óculos para perto, aproximadamente três dioptrias (medida de convergência de uma lente), conforme constatou pessoalmente Bühler, comparando-os visualmente com os seus próprios óculos. Além disso, Geni informou que, durante algum tempo após o episódio, surgiram manchas escuras em sua pele. As dificuldades de locomoção da testemunha melhoraram gradativamente.

Desde os 40 anos de idade, Geni sofria de pressão alta. Por diversas vezes ela já havia sido socorrida por causa de edema pulmonar agudo ou falta de ar. Assim, ela vivia sob o uso constante de remédios anti-hipertensivos (Entonyl, Higroton e Lasix). Naturalmente, os médicos incumbidos de prepará-las para a operação restauradora do prolapso uterino, realizada em 8 de junho de 1973, sabiam que Geni possuía esse problema de pressão arterial elevada. Todavia, qual não foi a surpresa desses médicos ao verificarem que a pressão arterial da testemunha havia alcançado cifras melhores, espontaneamente. O médico incumbido de prepará-la clinicamente para a operação cirúrgica do prolapso teria pronunciado as seguintes palavras, segundo Geni: “Que remédio a senhora tomou para o coração? Está curada, sarou de vez!” Esse médico estava a par do estado orgânico de Geni e de seu aparelho cardiovascular desde longa data.

Ao tomar conhecimento disso, Bühler, na condição de médico e ufólogo, procurou, naturalmente, entrar em contato com o colega clínico-cardiologista a fim de comparar entre si os estados cardiovasculares de Geni antes e depois do episódio. Porém, e ainda que encorajado pela própria paciente em suas intenções, todos os esforços para localizá-lo foram em vão. De qualquer modo, Bühler verificou que as cifras tensionais sistêmicas da testemunha eram realmente altas, além do que sua área cardíaca estava visivelmente aumentada numa radiografia feita em 17 de fevereiro de 1966, cerca de sete anos antes do episódio ufológico. Em 7 de novembro de 1977, Bühler mediu a pressão arterial da paciente, constatando que estava praticamente normal. Isso quando Geni, quatro anos e meio depois do seu contato, não usava mais os remédios anti-hipertensivos que tomava antes (Higroton de 100 mg, Lasix, Entonyl – Abbot de 25 mg).

A hipótese de Bühler era a de que o relaxamento do tecido conjuntivo dos ligamentos uterinos – que causara o repentino prolapso três horas depois do episódio – estava relacionado com as influências das energias emanadas do disco voador ou das lanterninhas dos ufonautas. As mesmas energias que fizeram murchar o coqueiro e a jabuticabeira, causando além disso os olhos injetados da paciente e suas dores articulares, poderiam bem ter causado, na acepção de Bühler, um relaxamento do tecido conjuntivo dos vasos sanguíneos de Geni, nas suas artérias ou arteríolas, modificando assim as cifras tensionais.

Visão da casa de Geni e do coqueiro que murchou. Fonte: Boletim da SBEDV, nº 121-125, 1978-03 a 12.

No quintal da casa de Geni havia um coqueiro anão, de cerca de 1,50 metros de altura, situado a cerca de 5 metros do muro e, aproximadamente, a 7 metros do local onde o disco voador havia estado. Nas proximidades, a cerca de 4 metros desse mesmo local, havia uma jabuticabeira também. A partir do dia do incidente, as folhas tanto do coqueiro anão como da jabuticabeira começaram a cair, e só voltaram a se recuperar um ano e meio depois.

Um detalhe interessante é que Geni passou a interessar-se por ufologia e chegou a pesquisar, junto com Bühler, o caso de Antônio Carlos Ferreira,[1] vigia noturno que a partir da madrugada de 28 de junho de 1979 viria a manter contatos seguidos com extraterrestres – inclusive de natureza sexual – na cidade vizinha de Mirassol, igualmente inserida em uma das regiões – que abrange o noroeste de São Paulo e o sudoeste de Minas Gerais – de maior incidência ufológica do Brasil.[2]

Notas:

[1] Confira a reconstituição e análise completa do Caso ACF em meu livro 50 Tons de Greys: Casos de Abduções com Relações Sexuais – Experiências Genéticas, Rituais de Fertilidade ou Cultos Satânicos? (Campo Grande, CBPDV, Coleção Biblioteca UFO, 2018).

[2] Bühler, Walter Karl & Ribeiro, José Wilson. “Caso dos anões de São José do Rio Preto”, in Boletim da SBEDV, Rio de Janeiro, nº 121-125, dezembro de 1978, p.15-19.

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