OVNIs e ETs no folclore nacional dos Tavares de Lima

Por Cláudio Tsuyoshi Suenaga

William John Thoms

Neste 22 de agosto celebra-se o Dia do Folclore, pois o termo “folklore” foi inventado pelo escritor, antiquário, arqueólogo e folclorista britânico William John Thoms (1803-1885) justamente neste dia, quando enviou uma carta ao periódico inglês Athenaeum em 22 de agosto de 1846, na qual sugeria que todo o conjunto de práticas, saberes, tradições ou “antiguidades” populares – o que abrange comidas e festas típicas, cantos, lendas, superstições, crendices e sincretismos – poderia ser definido por “folklore”, termo que une os radicais ingleses “folk” (povo) e “lore” (instrução, aprendizado, sabedoria), ou seja, “sabedoria popular”. O termo pegou e se tornou ele mesmo folclórico.

No Brasil, o Dia do Folclore foi oficializado em 1965 por meio de um decreto federal. Em 1951, realizou-se o I Congresso Brasileiro de Folclore, quando se elaborou a Carta do Folclore Brasileiro, um documento de suma importância que reconhecia o estudo folclórico “como integrante das ciências antropológicas e culturais, condena o preconceito de só considerar como folclórico o fato espiritual e aconselha o estudo da vida popular em toda sua plenitude, quer no aspecto material, quer no aspecto espiritual.”

No aspecto das lendas, destacam-se no Brasil o Saci-Pererê, Lobisomem, Mula-sem-cabeça, Curupira, Iara, Boto e Mãe do Ouro, interpretadas pelos ufólogos como estando dentro do repertório do Fenômeno OVNI, não passando, portanto, de discos voadores e alienígenas mal compreendidos.

O nosso país possui sem dúvida o mais rico repertório folclórico do mundo com resquícios de mitologias europeias, asiáticas e africanas revestidos de traços únicos e originais.

Inezita Barroso

Os maiores folcloristas despontaram no Brasil, como não poderia deixar de ser, com destaque para Alexandre José de Melo Morais Filho (1844 -1919), Sílvio Romero (1851-1914), Basílio de Magalhães (1874-1957), Mário de Andrade (1893-1945), Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), Alceu Maynard Araújo (1913-1974), Rossini Tavares de Lima (1915-1987) e Inezita Barroso (1925-2015), com quem tive o imenso privilégio de conviver no início dos anos 90 e até de acompanhar atenta e apaixonadamente, na primeira carteira, logo à sua frente, uma de suas brilhantes aulas de folclore. Símbolo e defensora intransigente da “música caipira” de raiz, como ela preferia chamar o que se denomina hoje, genericamente, de “sertanejo”, geralmente vulgar e de má qualidade, entre tantos epítetos foi ganhadora do prêmio de melhor atriz pelo filme Mulher de Verdade, dirigido por Alberto Cavalcanti em 1956.

Também tive a imensa honra de conhecer, por intermédio do jornalista, escritor e explorador espanhol Pablo Villarrubia Mauso, a grande folclorista Maria do Rosário de Souza Tavares de Lima (falecida em maio de 2011), viúva do lendário pianista e professor Rossini Tavares de Lima, presidente da Associação Brasileira de Folclore (ABF), diretora-executiva do Museu de Folclore Rossini Tavares de Lima e membro da Comissão Paulista de Folclore. Mantive longas e saborosas conversas com ela, sempre na residência de Pablo na Zona Norte de São Paulo, e em 20 de fevereiro de 1996, juntamente com este e com o historiador Antonio Manoel Pinto, da Universidade de São Paulo (USP), realizei uma entrevista com ela.

Uma de suas grandes paixões e especialidades era a lenda do lobisomem, em particular o que aparecia com frequência em Joanópolis (nos contrafortes da Serra da Mantiqueira, divisa com Minas Gerais, a 118 km da capital), conhecida como a “capital mundial do lobisomem”.

Autora da tese de mestrado Lobisomem: Assombração e Realidade, defendida em 1983 no Museu do Folclore com banca examinadora composta por membros da Escola de Sociologia e Política de São Paulo e que se transformou em livro no mesmo ano,[1] o lobisomem, conforme explicou, “é o bode expiatório social, é aquele que transgrediu leis morais e que portanto deve ser punido, é um mito universal. No Brasil é sempre a mesma estória: uma mulher se casa com um homem sem saber que ele é lobisomem, o sétimo filho dos sete homens de um casal, o caçula, não batizado. Então ela sai com a criança no colo, ou ela está grávida, e vão pela estrada visitar um parente, geralmente a mãe dela. No meio da estrada o marido some. E nesse meio tempo aparece um cachorrão, dando botes nela, então ela sobe numa porteira, numa árvore, num lugar mais alto. E o cachorro dá botes e arranca pedaços da baeta, que é uma flanela vermelha antiga onde se enrolava a criança, se ela está com a criança no colo, ou da saia dela. E a certa altura o cão vai embora e daí o marido reaparece. Ela conta a história ao marido, que fica muito assustado. E no dia seguinte, no momento em que o marido fala com ela e ri, ela vê nos dentes dele os fiapos da roupa, no que descobre que ele era o lobisomem.”

Maria do Rosário acrescenta que havia um encontro – que os ufólogos classificariam de 3º Grau – com uma entidade no meio da floresta, o “Senhor da Floresta”, uma personificação do diabo, que transformava o homem no animal ele queria ser: “Na Europa geralmente era lobo, então se transformava em lobo. Bebiam uma poção. E havia uma poção que o fazia voltar ao normal. Ele tinha de lembrar onde havia deixado aquela poção para poder voltar ao normal, caso contrário permanecia naquele estado pelo resto da vida. No Brasil, o homem se despe, geralmente em frente a um cruzeiro ou dentro de um galinheiro, nas regiões onde não há proximidade com o mar. Já nas regiões litorâneas, como nas praias do Nordeste, se rebola em cima de cascas de marisco para se transformar. Em São Paulo e em Minas Gerais, se rebola em um galinheiro. E ele deixa a roupa em determinado lugar. Ele tem que lembrar onde deixou a roupa para voltar a vesti-la, isso até às 3 horas da madrugada, que é o segundo canto do galo (o primeiro é à meia-noite), como no nascimento de Cristo, quando o galo cantou às 3 para avisar os pastores para que eles fossem adorá-lo. Por isso a Missa do Galo, pois o galo cantou à meia-noite. Se até às 3 ele não voltar a se vestir, ele vai aparecer nu no lugar em que estiver.”

Por falar em cristianismo, Mario do Rosário pontifica que esta religião “absorveu todos os elementos dos rituais pagãos. As festas foram associadas e só foram mudando de nome. O Carnaval e a procissão de santos nada mais são do que uma reinterpretação dos ritos agrários, daqueles desfiles, cortejos, dos restos daqueles ritos agrários, que era uma questão de sobrevivência. Ou a terra fornecia o que eles precisavam ou todo mundo morria, porque até hoje nós vivemos do que a terra dá. Fabricamos, fazemos, poluímos, pintamos e bordamos, mas vivemos em princípio do que a terra dá, porque a terra é que fornece.”

“A mulher”, segundo ela, “só passou a ser símbolo do mal após a Inquisição. Nas culturas matriarcais, a mulher era dona da terra, era quem plantava e colhia, era quem entendia de ervas, era quem curava. E na Inquisição, o clero e a nobreza, na sociedade machista, não podia admitir o poder da mulher, porque era inadmissível que uma mulher recebesse a graça divina. Não era crível que Deus escolhesse a mulher, um ser inferior. Joana D’Arc foi queimada pelo simples fato de ser mulher. A contrapartida disso é Nossa Senhora, que é aquela deusa muito antiga, a mãe-terra, a Ísis, todas as deusas femininas que acabaram sendo reinterpretadas como Nossa Senhora Mãe de Deus. Mas veja bem: para ela ser a mãe de Cristo, tinha de ser a mulher de Deus. Até Deus precisou de uma mulher para gerar um filho.”

Perguntei a Maria do Rosário se ela achava possível que seres extraterrestres tivessem originado alguns mitos, ritos e manifestações folclóricas, e ela confessou que tinha o “pressentimento” de que haviam ocorrido visitas de tais seres na Antiguidade, conforme atestava a própria Bíblia: “A visão do profeta Ezequiel fala em 7 céus, são 7 câmaras. E nenhum humano verá a face de deus e permanecerá vivo, porque é um clarão. Zeus era um clarão. Os extraterrestres deviam ser um clarão quando apareceram aqui… Essa coisa de auréola dos santos, do clarão, o divino aparece no clarão e ninguém suporta. Zeus também aparecia no clarão. Isso tem que ter vindo de algum lugar, você não acha? Agora, o criador, a criação do mundo, aquele Deus que existe lá na abóbada do Vaticano, é o Zeus, até o nome é o mesmo, mudaram só o Z para D. Isso então vem de um conhecimento muito mais antigo. Zeus é um clarão, Deus é o clarão, o nome não é Deus, é Elohim, é Jeová, mas virou Deus a partir de Zeus. E é exatamente igual.”

Rossini Tavares de Lima

O marido de Maria do Rosário, Rossini Tavares de Lima, foi aluno de Mario de Andrade e fundador do Museu do Folclore de São Paulo, além de fundar e dirigir a extinta revista Folclore. Participou ainda da criação do Centro de Pesquisas Folclóricas Mário de Andrade, vinculado ao Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, e do Museu de Artes e Técnicas Populares Mário de Andrade.

Entre suas inúmeras obras, pelo interesse de seu conteúdo para nós ufólogos, transcreverei a seguir, mantendo a grafia original, várias partes do seu Folclore Nacional, resultado de um inquérito sobre mitos do estado de São Paulo, realizado em setembro e outubro de 1947, ou seja, logo depois do início da Era Moderna dos Discos Voadores, e publicado pelo Centro de Pesquisas Folclóricas Mário de Andrade em 1948.[2]

Objetos Voadores Não Identificados que são indubitavelmente tomados como discos voadores nos dias de hoje, eram chamados antigamente de vários nomes, um mais sugestivo do que o outro, como que numa tentativa de aproximação com coisas conhecidas por parte das confusas e atônitas testemunhas da Era Pré-Espacial.

Air Wonder Stories, Vol.1, Nº 5, November 1929.

Vide por exemplo alguns dos relatos acerca da Mãe de Ouro: “É uma mulher encantada que como uma tocha ardente anda voando pelo espaço a espalhar com sua enorme cauda milhares de faúlhas que clareiam tudo. […] É uma bela mulher de cabelos doirados que vive numa montanha. Quando ela abandona a montanha esta produz formidável estrondo, assustando os caipiras.”

E sobre o pilão de fogo: “É um pilão que anda à noite pelas ruas a queimar os homens que saem para passear”.

Discos voadores pousados eram chamados apropriadamente de Mula-sem-cabeça, “um animal sem cabeça que anda pelas matas a soltar fogo pela boca”, e Cavalo de Três Pés, “um cavalo sem cabeça, com asas e três pés que aparece à noite nas encruzilhadas, correndo, dando coices e voando.” O Três Pés era assim chamado por imprimir no barro três pegadas fundas, ou seja, como os trens de pouso ou tripods dos modernos discos voadores!

Havia uma vasta tipologia de criaturas humanoides horrendas e assustadoras, de comportamento assaz violento, tais como a maioria dos ETs com quem as testemunhas e os abduzidos se defrontam.

O “Cresce-Míngua” eram “dois homens pequeninos que ficam nas estradas junto às porteiras. Quando alguém deles se aproxima eles aumentam de tamanho, chegando a atingir oito metros de altura, e desaparecem nas curvas.”

O Pai do Mato “é um homem gigantesco que vive no mato: tem barba e cabelos compridos como folhas; corre atrás de quem invade os seus domínios.”

O Mão do Cabelo “é uma assombração esguia, vestida de branco, que tem as mãos em forma de feixes de cabelo.”

O Boitatá é “um homem peludo que aparece geralmente à beira dos rios que põe fogo pelos olhos e costuma matar quem dele se aproxima, torcendo o pescoço e jogando na correnteza.”

Propaganda da Light publicada na página 2 da revista “Grandes Clubes Brasileiros: Palmeiras”. Rio de Janeiro, Rio Gráfica e Editora, 1972.

O Curupira “é um tapuio pequeno que tem os pés voltados para trás e não tem boca, nariz e orelhas”, ou “um menino peludo com os pés virados para trás”.

O saci “é o diabo em miniatura, com uma perna só, um barrete vermelho e um olho no meio da testa.”

O Caipora “é m anãozinho de cabelos vermelhos que tem os pés virados para trás; mora no mato e é inimigo dos caçadores, matando-os todos.”

ETs devoradores, e seu apetite é insaciável até os dias de hoje, eram chamados de “Papa-Fígado”, “um animal horrendo que amedronta as crianças, matando-as e comendo-lhes o fígado”.

Mitos do Estado de S. Paulo – registrados pela classe de Folclore Nacional de 1947 e colecionados por Rossini Tavares de Lima.

Mãe de Ouro

É um passarinho amarelo que quando canta esparrama ouro em seu redor, paralisando as pessoas que por ali passam (Ribeirão Preto-SP).

É um passarinho cor de ouro que vive em lugares onde existe esse metal precioso (Taiúva-SP).

É um fio de ouro que aparece em certos lugares, atraindo os homens para os precipícios (Colina-SP).

É uma réstia de fogo que tem a toca nas montanhas e vive mudando de lugar (Guaratinguetá-SP).

É um facho de luz que brota das montanhas avisando aos homens que ali existe ouro (Guararema-SP).

É um facho de luz que aparece na água; quem o vir ficará rico (Mogi-Mirim-SP).

É uma pedra de fogo que vai de uma estrela à outra, deixando uma tênue faixa de luz em seu caminho; quem contar que a viu fica linguarudo (São Simão-SP).

É uma formosa mulher de longos cabelos que aparece à beira dos rios, e que sob a forma de uma tocha ardente desaparece quando alguém dela se aproxima (Mococa-SP).

É um lagarto de ouro que aparece saltando de cá para lá; o lugar onde ele toca há tesouro (Brotas-SP).

É o ouro e a prata, enterrados há longo tempo, que de sete em sete anos mudam de lugar explodindo de encontro às rochas  (São Bernardo-SP).

É um lagarto que chora lágrimas de ouro e que, quando muda de um lugar para outro estoura, transformando-se numa menina ou menino de cabelos crespos cor do sol e pés bem pequeninos (Jaraguá-SP).

É uma bola de fogo que aparece nas encruzilhadas ou junto às cruzes da beira das estradas; outros dizem que ela aparece nas nascentes d’água e procura outra nascente, fazendo um barulho semelhante ao de uma estrela que se desprende. Quem tiver coragem de acompanhá-la por certo encontrará um tesouro (Bernardino de Campos-SP).

É uma mulher sem cabeça que mora embaixo de uma serra, guardando minas de ouro (Presidente Prudente-SP).

É uma mulher encantada que como uma tocha ardente anda voando pelo espaço a espalhar com sua enorme cauda milhares de faúlhas que clareiam tudo. Ela só se desencantará no dia em que, no momento que a virmos, cortarmos o dedo, jogando sobre a massa incandescente um pouco do nosso sangue. Esta circunstância, porém, apresenta uma porção de obstáculos pois ela sempre passa voando muito alto (Botucatu-SP).

É uma deusa que governa as serras e que a elas atrai os raios e as tempestades. Às vezes, ouve-se na calada da noite um estrondo lá do lado das serras e uma chama crepitante eleva-se e caminha: é mãe de ouro que muda de morada. Há ocasiões em que se ouve o estrondo ao meio dia e, então, pressente-se apenas o rumo ignorado que a deusa tomou (Presidente Venceslau-SP).

É um fogo verde que aparece nos lugares em que há ouro ou pedras preciosas (São João da Boa Vista-SP).

É uma tocha de fogo que nasce no meio da água ao meio dia (Capivari-SP).

É uma bela mulher de cabelos doirados que vive numa montanha (Marília-SP). Quando ela abandona a montanha esta produz formidável estrondo, assustando os caipiras (mesmo local).

É uma bola de fogo que fica nas proximidades de um riacho. Quem a vir põe sobre uma pedra junto ao riacho, uma toalha, uma escova e um pente. Se essa bola de fogo encostar nesses objetos, ela se transformará numa bola de ouro (Divisa de MG e SP).

Lobisomem

É o último filho de um casal que não foi batizado com o nome de Custódio; morde tudo o que encontra, de preferência seres humanos; se um homem o ferir ele deixará de ser lobisomem (São Bernardo-SP).

É um homem que se transforma num enorme cachorrão nas quintas-feiras à noite; ataca toda a pessoa que encontra em seu caminho (Santos-SP).

É o sétimo filho de um casal; sai todas as sextas-feiras e numa encruzilhada tira a roupa e vira lobisomem; depois de percorrer sete vilas volta para casa, perde o encanto e sentir-se-á doente no dia  p .7  seguinte, ficando bastante pálido; para que perca o encanto de uma vez o irmão mais velho deverá batizá-lo (Limeira-SP).

É o sétimo filho de um casal; sai todas as sextas-feiras à noite transformado num perfeito lobo com o pêlo para dentro e a carne para fora; ataca os galinheiros, assalta e devora os cães e as crianças que encontra pelo caminho; se alguém o ferir, cortando-lhe uma das patas, ele se desencantará mas ficará aleijado para o resto da vida (São José dos Campos-SP).

É um ser fantástico que tem a forma de um cachorrão; sai do cemitério à meia-noite, soltando fogo pelas quatro patas e assustando os moradores da vila (Buquira-SP).

É um homem que todas as sextas-feiras à meia-noite transforma-se num cachorro, saindo para o mato à procura de alimento; segundo contam, ele é casado com uma mulher corcunda que tem um buraco nas costas; este buraco lhe foi feito pelo marido que, pegando de surpresa quando se ia transformando em homem, lhe deu uma facada nas costas (Capital-SP).

É um enorme cão com enormes orelhas e mãos mais curtas do que as pernas (Capital-SP).  É o último varão dos sete filhos de um casal que se transforma em cão nas noites de São João; come excrementos humanos e lambe os recém-nascidos (São Vicente-SP).

É um homem que se transforma em cão; tem os braços como patas de cachorro; morde as pessoas que encontra com o objetivo de obter cura para o seu mal (Colina-SP).

É gente que se transforma em bicho; come crianças enterradas no cemitério e também gordura de sabão (Tatuí-SP).

É um homem que se transforma em lobo, perseguindo à noite quem encontrar; perderá o encanto caso seja ferido por uma pessoa que não se amedronte (Capital-SP).

É o sétimo filho de um casal que, à meia-noite das sextas-feiras, depois de rolar nos excrementos das galinhas transforma-se em lobo, atacando os animais e as crianças e evitando ser ferido, porque caso o seja voltará ao estado normal e será reconhecido (Salto Grande-SP). Esta sua sina, porém, terá fim no dia em que for batizado pelo irmão mais velho (mesmo local).

É um homem que se transforma em cão ou porco e ataca todas as pessoas que encontra pelo caminho: no seu estado natural é reconhecido pelos fiapos de baeta vermelha que se vê em seus dentes quando ele ri (Taubaté-SP).

O sétimo filho homem de um casal deve ser batizado pelo mais velho, porque caso contrário ele se transformará em lobisomem, sob a forma de um porco, cão ou bode, durante 7 anos (São José do Rio Pardo-SP).

É um homem que se transforma em lobo todas as sextas-feiras de luar e só volta ao normal quando alguém o ferir com objeto de prata; ataca os indivíduos que se lhe depararem, ferindo-os mortalmente (São Carlos-SP).

É um grande cão preto com orelhas e patas enormes; suas patas detrás são mais altas do que as da frente; aparece à noite nos galinheiros, espantando as galinhas; gosta de visitar os engenhos para comer melado (Santa Cruz do Rio Pardo-SP).

É um homem que se transforma num cachorro e sobe nos muros e telhados, soltando fogo pela boca (M’Boi-SP).

É um homem que nas sextas-feiras à noite transforma-se em animal quadrúpede (como cavalo, burro, cachorro, etc.), assombrando os que o vêem (Assis-SP).

É o caipira magro, amarelo e de barba muito rala que se transforma na noite de sexta-feira da quaresma em lobisomem; para isso ele sai de casa à meia-noite, procurando o lugar onde se espojam cachorros ou porcos; aí, sob o calor do corpo dos animais, ele também se espoja, transformando-se, então, em porco ou cachorro; sai depois em busca de excremento de galinha para comer; às três horas da madrugada depois de muito perambular, ele volta ao mesmo lugar, espojando-se para retornar ao estado natural; no dia seguinte, o caipira aparece muito abatido e trêmulo; se for visto por alguém quando estiver voltando ao seu estado natural terá morte instantânea (Lins-SP).

Mula Sem Cabeça

É uma mulher que vive com padre e que na Sexta-Feira Santa transforma-se nesse animal. Corre sete freguesias até que alguém lhes toque com um pedaço de ferro. Transforma-se então novamente em gente (Santo André-SP).

É uma rainha má que se encontra assim encantada e come crianças (Capital-SP).

É o compadre e a comadre que se desrespeitaram em vida e que se encontram agora nas encruzilhadas distribuindo coices (Bauru-SP).

É uma mula branca sem cabeça que aparece debaixo das pereiras, correndo e dando coices em quem encontra (São Silvestre-SP).

Mulher de senhor de engenho que comia crianças recém-enterradas virava mula sem cabeça, quando surpreendida exercendo sua criminosa atividade; essa mulher ainda hoje assim encantada galopa à noite pelas estradas, enlouquecendo os que a vêem (Santa Adélia-SP).

É um animal sem cabeça que anda pelas matas a soltar fogo pela boca (Guararema-SP).

É a mulher que tem a sina de ser mula sem cabeça, quando viva e depois de morta; a viva briga com as mortas nas encruzilhadas e para não morrer deve levar sempre consigo uma criancinha (Capital-SP).

Duas comadres que vivem brigando, quando morrem viram mulas sem cabeça, aparecendo no lugar das cabeças uma lanterna; vivem à noite pelos campos e quem por ali passar deve esconder as unhas dos pés e das mãos, porque se elas as farejarem avançarão incontinenti sobre a pessoa, arrastando-a com elas (Capital-SP).

É um fantasma-animal que tem três pés, um na frente e dois atrás; ataca quem se aproxima dele (Capital-SP).

Dizem que havia um rei cuja esposa tinha o misterioso hábito de passear à noite pelo cemitério, não consentindo que ninguém a acompanhasse. Certa noite o rei resolveu segui-la e viu-a devorando o cadáver de uma criança que havia sido enterrada na véspera. Apavorado deu um grito, vendo-se descoberta deu um grito ainda maior, transformando-se imediatamente numa mula sem cabeça que, desde então, passou a galopar pelo mundo, sem cessar, espalhando loucura por onde passa (São José dos Campos-SP).

São as almas dos compadres que aparecem sob a forma de mulas sem cabeça; estão sempre juntas nas quintas e sextas-feiras depois da meia noite, fazendo um enorme clarão; suas patas são ferros compridos como fusos que fazem tróque-tróque, quando elas andam (Sorocaba-SP).

É uma mulher casada que mora com o compadre e depois que morre transforma-se numa mula que tem por cabeça um grande facho de fogo; costuma aparecer no lugar em que se encontrava com o compadre (Santa Cruz do Rio Pardo-SP).

São duas comadres que brigam e que alta noite vão às pedreiras e ficam a rinchar e a soltar fogo pelas patas (Cachoeirinha/Casa-Branca-SP).

É a comadre que briga muito com o compadre e sob esta forma nas sextas-feiras vagueia pelos campos e cidades, transformando-se numa tocha ardente, quando chega na frente da casa em que mora (Capivari-SP).

É uma assombração vista por toda mulher de sacerdote católico que anda à procura do lobisomem para se entregar e, quando não o acha, vai aos pastos e cavalariças entregar-se aos cavalos (Ribeirão Preto-SP).

É uma mula sem cabeça e com patas muito grandes que mora nas florestas; vem à noite buscar as crianças desobedientes e as que não querem dormir (São Carlos-SP).

É a sétima filha mais nova de um casal que à meia noite dá três saltos de costas no quintal e se transforma nesse animal; corre pelo mundo assustando quem ela encontra (Mococa-SP).

É um animal que aparece nas sextas-feiras soltando fogo pelos olhos (Cruzeiro-SP).

É uma assombração que faz as maiores malvadezas; quando os caipiras escutam seu trote, ajoelham-se e pedem proteção a Deus; entretanto inesperadamente incendeia-se uma casa aqui, outra ali; é assim a malvada mula sem cabeça (Itapecerica-SP).

Saci

É o escravo do Coisa-ruim que sempre aparece para fazer mal (Guaratinguetá-SP).

É uma criança pagã com uma perna só que carrega consigo todas as outras crianças não batizadas. Anda também sempre com um barrete e quem o conseguir pegar terá grande fortuna (Vila Juqueri-SP).

É um moleque preto de uma perna só que anda de vermelho e monta nas costas das pessoas que passam na estrada. Quem quiser impedir que ele faça isso deve colocar um pau atrás do pescoço e segurá-lo com os braços abertos em forma de cruz (Cubatão-SP).

É um pretinho de uma perna só que gosta de crianças, carregando-as para o mato; para pegá-lo atira-se uma peneira num redemoinho de folhas formado pelo vento; preso, coloca-se-lhe um rosário no pescoço, voltando a ser uma criança normal (São José do Rio Pardo-SP).

É um negrinho de uma perna só que anda em cima das árvores à beira do rio; quando alguém passa por ali, ele dá uma cambalhota e a pessoa cai na água (Taipas-SP).

É um vultozinho negro que acompanha as pessoas à noite, fazendo tudo o que elas fazem, imitando-lhes até os menores ruídos; chega a aborrecer tanto os pescadores, que, às vezes, eles desistem da pesca por sua causa (M’Boi-SP).

É um pretinho de uma perna só com um gorrinho na cabeça que assobia constantemente, pulando grandes extensões e fazendo diabruras, como montar e trançar o rabo dos cavalos (Itapira-SP).

É um pretinho orelhudo, com dentes verdes, uma perna só, uma ferida no joelho e uma carapuça vermelha na cabeça que aparece nos redemoinhos de vento e castiga as crianças malcriadas (Botucatu-SP).

É um pássaro de cor castanha ou cinzenta que se encarna num negrinho que aborrece os viajantes pelas estradas pulando de galho em galho (Capital-SP).

É um moleque de uma perna só e gorrinho vermelho que vive assobiando e atirando pedras em quem passa; costuma esconder os cachimbos que encontra (Casa Branca-SP).

É um negrinho de uma perna só com um barrete vermelho na cabeça e a palma da mão furada; não deixa ninguém sossegado; monta na garupa dos cavalos, assobia fininho, dá gargalhadas, vira cambalhotas, trança a crina dos animais, põe cinza nas panelas e faz outras mil diabruras (Atibaia-SP).

A criança que morre sem ser batizada, depois de sete anos aparece sob a forma de um menino de uma perna só e boné vermelho; entre outras coisas que faz, ela amarra a cauda dos cavalos, tira o cachimbo dos velhos, joga terra nos telhados, descobre as casas de sapé (Capivari-SP).

Os caboclos dizem que ele é o diabo em miniatura, com uma perna só, um barrete vermelho e um olho no meio da testa; quem conseguir roubar-lhe o barrete ficará muito rico (Piedade-SP).

É um moleque preto de uma perna só, com cavanhaque e uma baeta vermelha que lhe cobre o corpo; à noite dá gargalhadas, afugentando os animais; faz tranças nas caudas e crinas dos cavalos; assobia e seu assobio parece dizer: sa-ci; o caboclo que o encontra, faz com uma faca uma cruz na terra e diz em voz alta: saci-pererê (Morro Agudo-SP).

Bruxa

É uma moça que tem a sina de ser bruxa e sai pelo mundo, chupando sangue de crianças (Guaratinguetá-SP).

É a sétima filha mais velha ou mais nova de um casal que se transforma em pássaro e chupa sangue de crianças (São Simão-SP).

É uma moça pagã que se transforma em pata, velha, etc., fazendo desordem na casa do moço de quem ela gosta (Vila Juqueri-SP).

É uma mulher que a certa hora da noite sai e fica andando pelas matas; terá que voltar para casa antes do galo romano (galo de crista chata) cantar; se ele cantar antes, onde ela estiver as suas roupas desaparecerão (Capital-SP).

É uma mulher que tem a sina de andar sobrevoando pelas matas sob a forma de uma borboleta negra (São José do Rio Pardo-SP).

É a sétima filha de um casal que rouba crianças; gosta de vinho e não pode ver igrejas; para evitá-la deve-se colocar uma tesoura aberta do lado, que ela foge (Piracicaba-SP).

É uma moça que se torna invisível, entrando pelas fechaduras das portas e dando risadas; atormenta tanto as crianças que estas só podem dormir de braços e pernas cruzadas (Capital-SP).

É uma solteirona que vira borboleta; suga sangue de gente, principalmente de estrangeiros, porque bebem mais vinho (São João da Boa Vista-SP).

É uma mulher alta, magra, corcunda, queixo fino, cheia de sinais e manchas; rouba crianças e chupa-lhe o sangue (Capital-SP).

É uma moça vestida de branco que às quintas-feiras, às três horas da madrugada, vai ao cemitério, desenterrando as pessoas e comendo-lhes as carnes (Capital-SP).

É toda mulher que nasce à meia noite do dia de natal; surge sob a forma de borboleta que vai à casa onde há crianças, chupando-lhes o umbigo (Capital-SP).

É uma moça bonita que entra à noite num bar pedindo cerveja ou vinho e depois sai voando e a falar sozinha; sempre aparecem duas bruxas juntas e depois da meia noite (Sorocaba-SP).

É a sétima filha de um casal que tem o poder de se transformar em qualquer coisa, judiando de crianças (Palmital-SP).

É uma velha cabocla, descendente de guaranis e macumbeiros africanos que carrega as crianças e suga-lhes o sangue (Capital-SP).

É a sétima filha de um casal que não se chama nem Benta nem Benedita; e tem o poder de encantar e desencantar-se (São Bernardo-SP).

É uma mulher que tem a mão em forma de gancho e com esta estraga todas as árvores; transforma-se em mulher carinhosa, agrada as crianças e depois leva as crianças para o mato e manda os cachorros comê-las (Jaú-SP).

É uma velha montada num cabo de vassoura que viaja pelo espaço e penetra nas adegas, embriagando-se (Pinhal-SP).

Currupira ou Curupira

É um menino peludo com os pés virados para trás que monta num veado com uma vara na mão (Jundiaí-SP). Toma conta da caça e das florestas (mesma localidade).

É um homem que habita as matas e tem os calcanhares voltados para frente. Traz desgraça e infelicidade (Barretos-SP).

É um gênio invisível que habita as matas desertas e os bosques; bate nas árvores para ver se estão suficientemente fortes para não sofrerem a ação de uma tempestade que se aproxima (Capital-SP).

É um ente fantástico que tem os calcanhares voltados para frente e os dedos dos pés para trás (Faxina-SP).

É um tapuio pequeno que tem os pés voltados para trás e não tem boca, nariz e orelhas; bate nas árvores para ver se estão fortes para resistir tormentas (Ibitiúva-SP).

É uma assombração que vive numa montanha e grita para assustar os viajantes e espantar as aves (Sorocaba-SP).

É um menino de corpo cabeludo que tem os pés voltados para trás e pede fogo aos viajantes que passam pela estrada (Assis-SP).

É um menino de olhos de vidro que arranca os olhos dos que não acreditam em seu poder (Sertãozinho-SP).

É um menino com uma perna de pau que usa um chapeuzinho de palha; assusta os viajantes obrigando-os a lhes darem tudo o que pedir (Itaquera-SP).

É um homenzinho com o corpo coberto de pêlos vermelhos e pés virados para trás; disfarça-se em caça e ilude os caçadores, fazendo-os perderem-se na mata (Ribeirão Preto-SP).

É um anão de barbas longas que anda montado num porco do mato; vai às casas pedir fogo para acender o cachimbo, assustando as pessoas (Campinas-SP).

É um monstro perverso que possui duas cabeças; acorda os que dormem com o seu assobio fino e estridente (Bauru-SP).

É um monstro com uma cabeça grande e apenas um olho a altura do nariz e uma perna só e um gorro na cabeça; dança, pula, ri e assusta os viajantes gritando com o polegar à altura do nariz: fiau! fiau! (Indianópolis-SP).

É um menino peludo com cabelos vermelhos e pés virados para trás que toma conta da floresta e só consente que os caçadores matem para comer. Os que matam por matar ele persegue sem piedade: transforma-se em caça e não se deixa pegar até que o caçador se perca no mato e morra de fome. Transforma a mulher e os filhos  p. 16  do caçador em caça para que sejam mortos. Anda montado num veado, com uma vara na mão e acompanhado de um cachorro chamado Papa Mel (São João da Boa Vista-SP).

Caipora ou Caapora

É um homem peludo que mora nas matas, perseguindo as moças solteiras que saem à noite de casa (Ribeirão Preto-SP).

É um duende peludo meio homem meio macaco que cavalga num porco do mato e pede fumo aos viajantes (Capital-SP).

É um homem peludo que anda montado num grande porco do mato e protege as caças do mato (Taiaçu-SP).

É um bicho, peludo até os pés, que anda apoiado em pedaços de pau; mata todos os que dele se aproximam (Guaratinguetá-SP).

É o dono da caça, tem boné encarnado e marca os bichos com um furo na testa ou na orelha; é bondoso, ajudando os viajantes a encontrar o caminho (Lorena-SP).

É um homenzarrão peludo que anda montado num porco do mato e que protege as caças e assombra os que à noite viajam pelas matas (Piracicaba-SP).

É um anãozinho de cabelos vermelhos que tem os pés virados para trás; mora no mato e é inimigo dos caçadores, matando-os todos (Cunha-SP).

É um bicho do mato com barbas de cipó e olhos que parecem lanternas, que assombra os viajantes (Irapuã-SP).

É um porco do mato que anda sempre com o saci no lombo, fazendo as maiores traquinagens (Canindé-SP).

É um bicho muito peludo, parecido com um cachorro, que anda gritando pelas matas e cafezais (Serra Negra-SP).

É uma mulher muito bonita que vive na mata tendo a faculdade de aparecer e desaparecer quando bem deseja; atormenta os caçadores transformando-se em caça e desaparecendo às gargalhadas, quando eles atiram (Urupês-SP).

É a rainha dos porcos do mato; quando passa uma vara de muitos porcos ela sempre vem montada no último; o caçador matando este ela salta para cima do porco da frente; não há bala que mate a caapora (Botucatu-SP).

É um caboclinho muito feio que pede fumo e fogo aos viajantes em meio do caminho; quando fica descontente lhes faz cócegas até matá-los de tanto rir (Piedade-SP).

É um homenzinho peludo que anda no meio das queixadas; monta numa queixada até matá-la, depois monta noutra e assim por diante; se ele avistar uma pessoa persegue-a até matá-la (Pederneiras-SP).

Boitatá

É o espírito de gente ruim que vaga pela terra, tocando fogo nos campos ou saindo que nem um rojão ou tocha de fogo (Guaratinguetá-SP).

É uma tocha de fogo de diversas cores que, às vezes, em forma de bola persegue as pessoas até fazê-las cair de cansaço (Lorena-SP).

É um monstro que só tem olhos grandes de fogo, que aparece à noite, – porque de dia ele não enxergava – para perseguir a gente pelas estradas a fora (Brotas-SP).

É o espírito do compadre ou da comadre que viveram amasiados; dizem que se eles não se desapartarem aqui na terra no prazo de quatro anos ambos virarão boitatás (São Bernardo-SP).

É um homem peludo que aparece geralmente à beira dos rios que põe fogo pelos olhos e costuma matar quem dele se aproxima, torcendo o pescoço e jogando na correnteza (Cunha-SP).

É uma bola de fogo que corre atrás das pessoas, às vezes transformada em duende que solta grandes gargalhadas (São Vicente-SP).

É uma bola de fogo que aparece à noite perseguindo os que têm ouro na boca (São João da Boa Vista-SP).

É um fogo que sai dos túmulos à noite e a pessoa que o avistar deve rezar um rosário se não quiser perder a vista (Descalvado-SP).

É um touro que à noite em lugares ermos solta fogo pela boca, assustando os que o vêem (Santo Amaro-SP).

É a transformação da mula sem cabeça numa tocha de fogo; as pessoas que a vêem devem baixar a cabeça e esconder as mãos, pois as unhas, olhos e dentes o atraem e por ele são queimados (Capital-SP).

É uma cobra de fogo que persegue os viajantes e estes para se livrarem dela devem atirar um laço para trás sem olhar; o laço a afugentará (Capital-SP).

É uma cobra que durante o dilúvio se esconde nas cavernas; tem os olhos muito arregalados; persegue os viajantes e lhes pede fogo (Capital-SP).

Pisadera

É um fantasma que sufoca as pessoas quando estão para morrer, indo-se embora e voltando várias vezes (Guaratinguetá-SP).

É uma mulher grande, com saia comprida e os pés redondos, que se assenta sobre as pessoas que estão dormindo de costas, aí ficando desde à meia-noite, até o galo cantar, causando-lhe grande aflição. Ela aparece geralmente nas casas isoladas de outras (Prata-SP).

É uma coisa que pisa na gente e que faz com que se tenha o maior mal-estar possível (Mogi-Mirim-SP).

É um homem (pisadero) que entra nas casas e põe o peso de suas mãos no peito da pessoa que estiver dormindo, trazendo-lhe terrível pesadelo. Ele tem a mão furada (Franco da Rocha-SP).

É mão forte que oprime o coração (Casa Branca-SP).

É uma mulher magra de dedos compridos e pernas curtas que se senta sobre as pessoas que dormem viradas de costas (Capital-SP).

É um vulto preto que ocasiona os maus sonhos, pisando no peito das pessoas para que não gritem (Colina-SP).

São dois olhos arregalados que a pessoa vê quando dorme depois de ter comido bastante e que fazem pressão sobre o seu peito (Capivari-SP).

É uma bruxa que chupa o sangue das crianças (Pindamonhangaba-SP).

É uma bruxa de olhos grandes e unhas compridas que chupa o sangue das crianças (Aparecida do Norte-SP).

É uma velha esquelética de enormes garras que está sempre trepada nos telhados pronta para pular em cima das pessoas que dormem de barriga para cima (Birigui-SP).

Canhambora

É o escravo fugido que virou fantasma (São Bernardo-SP).

É a fumaça de fogo feito pelos escravos que, fugindo ao cativeiro, escondiam-se no mato (Guaratinguetá-SP).

É um homem coberto de pêlos que ataca as mulheres (Mogi-Mirim-SP).

É um bicho metade homem e metade cavalo que agride os caçadores e dá vida aos animais mortos (Capital-SP).

É um negro fugido da escravidão que assusta as crianças (Capital-SP).

É um homem preto muito grande e feito que rouba as crianças das casas dos pais e as esconde (Espírito Santo do Pinhal-SP).

É um bicho com forma de gente com cabelos compridos até os pés que sai à noite pelas matas a gritar: “ai! ai! ai!” (Capital-SP).

É uma assombração de negros escravos mortos a pancadas (Assis-SP).

É uma velha feiticeira que amedronta as crianças, rouba-lhes as mãozinhas, furta tocos de vela e recolhe a terra do cemitério para fazer mal (Capivari-SP).

É um homem alto de cabelos e barbas compridas, chapelão e cachimbo; vive no mato, fazendo com que os viajantes aí se percam e dando depois grandes gargalhadas (Limeira-SP).

Bradador

É um homem que anda no mato, à cavalo, armado de espada, cetro, cimo e armadura de aço, matando quem encontra; rezando, ele desaparece (Estrada de Ferro Paulista-SP).

É um cachorro que late e grita a um só tempo; num instante parece estar longe e logo muito perto; ouve-se-o nas matas e cafezais e segundo dizem é ele o espírito do primitivo senhor da terra que vem fiscalizar (Santa Cruz do Rio Pardo-SP).

É uma assombração que não tem forma definida, aparecendo todas as sextas-feiras à meia-noite; fica gritando a noite toda, afugentando seus moradores (Capital-SP).

Também chamado “louco do mato”, é um cavaleiro que anda pelas matas a galopar desenfreadamente, gritando e atacando os viajantes e deixando de persegui-los assim que eles alcançam o campo livre (M’Boi-SP).

É um fantasma que cumpre o seu fadário gritando ao redor das casas das zonas rurais (Tucuruvi-SP).

Caboclo D’Água

É um bicho que habita os rios; quando os pescadores estão pescando ele puxa as redes, os anzóis e até os pescadores para o fundo da água (Capital-SP).

Também chamado “negrinho d’água” é um negrinho visto pelos pescadores do Rio Mogi-Mirim que costuma virar as barcas para se divertir (Jaboticabal-SP).

São homens e mulheres que vivem na profundidade dos rios e mares; a uma certa hora do dia eles vêm à tona e se virem um barco não demoram a afundá-lo. Os “caboclos” salvam da correnteza os homens e matam as mulheres; as “caboclas” salvam as mulheres e estraçalham os homens (Guararema-SP).

Também conhecido como “caboclinho d’água” é um menino de cor parda e olhos vermelhos que vive no fundo das águas, atacando os navegantes durante a noite (Jaú-SP).

Mãe D’Água

É uma mulher-peixe muito bonita que atrai as pessoas para o fundo d’água (Rancharia-SP).

Também chamada “sereia” é uma mulher-peixe que canta à noite e engole as pessoas pela cauda (Pinhal-SP).

É animal da água doce que pesa aproximadamente trezentos quilos; ele ataca as embarcações dos pescadores, fazendo-as virarem; estes para se livrarem dela (mãe-d’água) cortam-lhe as mãos; também é conhecido pelo nome de “mondará” (Rio Paranapanema-SP).

É uma linda moça que surge à flor d’água com os seus longos cabelos negros; persegue os moços e as lavadeiras (Botucatu-SP).

É uma velha alta e feia, metade gente e metade peixe, que assusta as pessoas que passeiam à noite pela praia (Litoral de SP).

É a rainha das águas que atrai as pessoas para o fundo do rio, quando estas vão buscar água no momento em que surge o arco-íris (Araras-SP).

É uma moça muito bonita que vive nas margens do rio; quem a vir nadando fica cego ou morre (Atibaia-SP).

Pilão de Fogo

Conta-se que certa vez foi encontrado por um casal de fazendeiros uma criança, abandonada. Acolheram-na, mas, logo que a puseram na carroça, os cavalos negaram-se a andar. Voltando a deixá-la no chão, ela se transformou num pilão de fogo e foi rolando pela estrada a fora (Campinas-SP).

Também se chama “pilão rolante” que sob a forma de um pilão que vai rolando, assusta as pessoas pelos caminhos (Vila do Juqueri-SP).

É um pilão que aparece nas estradas todo em chamas (Capital-SP).

Também chamado “pilão branco” ou “mão de pilão” aparece sempre depois da meia-noite de quinta para sexta-feira; rola atrás das pessoas que passam pelas estradas, fazendo um barulho medonho (M’Boi-SP).

É um bloco de fogo que sai à noite das grutas, espantando os animais que por ali vierem (Lindoia-SP).

É um pilão de fogo que anda à noite pelas ruas a queimar os homens que saem para passear (Joanópolis-SP).

Mãozinha Preta

É uma pequena mão que a tudo atende com rapidez; faz qualquer serviço caseiro como limpar, varrer, etc. Também dá palmadas em crianças desobedientes (Taiaçu-SP).

É um negrinho de uma perna só que assusta as crianças (Pinhal-SP).

É a criança mal batizada que assobia, quebra lenha e mata cavalo (São Bernardo-SP).

É uma jovem que foi morta no cafezal e virou alma penada, transformando-se numa luz etérea; não se deve apontá-la, porque quem a aponta é por ela visado e onde ela bate fica a marca de uma mão preta (Cravinhos-SP).

Uma mulher criava uma pretinha mas judiava-lhe tanto que certo dia ela pereceu; desde aí as mãozinhas da pretinha andam vagando pelo mundo; toda vez que uma mulher ruim vai bater numa criança a mãozinha aparece para defendê-la (Campinas-SP).

Mão Pelada

É um pequeno urso de olhos misteriosos que tem uma das patas dianteiras pelada; aparece nos campos e nas matas; ataca e devora os caçadores (Capital-SP).

É um fantasma que só é visível à noite numa das mãos (Socorro-SP).

É um cachorro do mato, com a pata pelada, que come a criação (São Simão-SP).

É um gato com a pata ou mão pelada que se alimenta de pássaros; a ele também é atribuído o nome de “irara” (Jaboticabal-SP).

Assombração que aparecia quando os filhos dos escravos tentavam furtar qualquer coisa do senhor (Norte do Estado de SP).

É um macacão que queimou uma de suas mãos; vai à casa das lavadeiras e das donas de casa para roubar-lhes o álcool e a cachaça (Presidente Prudente-SP).

É um ser que quando as pessoas menos cuidadosas abandonam seus objetos de uso em determinado lugar, trocam os objetos de lugar só para fazerem as pessoas procurá-las (Cajurú-SP).

Chibamba

É um negro velho que morreu no tronco de tanto apanhar, na época da escravidão; chama para si todo sofrimento, auxiliando os seus companheiros, quando são açoitados (Socorro-SP).

É um ser fantástico que ronca como porco e é coberto com folhas de bananeira (Capital-SP).

É um fantasma que vive envolvido em folhas de bananeira e ronca como um porco e dança compassadamente; é utilizado para amedrontar as crianças que choram (Palmital-SP).

É um saci ou um cabrito que aparece em determinadas festas, causando terror (Bocaina-SP).

Cavalo de Três Pés

É um cavalo sem cabeça, com asas e três pés que aparece à noite nas encruzilhadas, correndo, dando coices e voando (Bauru-SP).

É um cavalo sem a pata dianteira que imprime no barro três pegadas fundas; ataca os viajantes pelas estradas e aquele que pisar em seu rastro será imensamente infeliz (Capital-SP).

É uma das transformações do saci, em forma de um cavalo de três pés que corre pelas estradas assustando todos os que encontra (Ribeirão Preto-SP).

Mão do Cabelo

É assombração. Aparece nas janelas das casas das fazendas velhas do tempo do cativeiro pondo medo nas pessoas que gostam de andar pelas estradas altas horas da noite (Santa Cruz do Rio Pardo-SP).

É uma assombração esguia, vestida de branco, que tem as mãos em forma de feixes de cabelo (Capital-SP).

Bicho Comedor de Língua ou Come Língua

É um menino que ao levar a comida ao pai comeu toda a carne, deixando só o feijão e disse ao pai que a mãe só havia mandado aquilo. Chegando à casa, o pai, enraivecido, deu uma surra na mulher e esta inconsolável com a atitude do filho, afirmou que ele havia de passar o resto da vida a comer língua e tudo o que encontrasse. E assim é que ele se transformou no “bicho comedor de língua” (Mococa-SP).

Cobra Grande

É uma cobra que se encolhe ficando do tamanho de um toro de madeira. Pula de uma serra a outra e come um boi inteiro (São Bernardo-SP).

É uma cobra misteriosa que mora nas margens dos grandes rios e lagoas. Tem raiva das mulheres e quando estas se aproximam da sua morada a cobra as ataca, levando-as para o fundo da água (Palmital-SP).

É uma cobra que se transforma em toro de madeira e leva embora a cangalha dos burros que nela depositaram os tropeiros (Ubatuba-SP).

Canoa Fantasma (Anhembi)

As almas dos bandeirantes que morreram afogados nas águas do Anhembi costumam aparecer nas margens do rio Tietê envoltas em mortalhas; embarcando numa canoa, descem o rio à procura dos tesouros perdidos, para visitar os amigos e obter notícias dos parentes. Aparecem sempre pela manhã e quem vir a “canoa fantasma” ficará mudo e trêmulo (Caçapava-SP).

Pai do Mato

É um homem gigantesco que vive no mato: tem barba e cabelos compridos como folhas; corre atrás de quem invade os seus domínios (Agudos-SP).

Também chamado “homem macaco” é um homem peludo que vive no mato e entra pelas roças a dentro em busca de coisas para roubar; quando encontra gente, começa a rir e assobiar; se pegar a pessoa mata logo (Casa Branca-SP).

Fogo Corredor

É a assombração do compadre e da comadre que se casaram, que à noite sai do cemitério (Jaú-SP).

É um foguinho que aparece à noite sob a forma de um velho barbudo que vai voando e gritando. Queima as pessoas nas fazendas e florestas (Zona Noroeste-SP).

Cresce-Míngua

São dois homens pequeninos que ficam nas estradas junto às porteiras. Quando alguém deles se aproxima eles aumentam de tamanho, chegando a atingir oito metros de altura, e desaparecem nas curvas. Consta que as pessoas que os vêem terão má sorte (Capital-SP).

Papa-Fígado

É um animal horrendo que amedronta as crianças, matando-as e comendo-lhes o fígado (Ribeirão Preto-SP).

É um negro velho que anda vestido de farrapos com um saco nas costas; rapta as crianças para comer-lhes o fígado (Capital-SP).

Notas

[1] Lima, Maria do Rosário de Souza Tavares. Lobisomem: Assombração e Realidade, São Paulo, Editora Escola de Folclore, 1983; São Paulo, Ferrari Editora e Artes Gráficas, 2004.

[2] Lima, Rossini Tavares de. Folclore Nacional (Resultado de um inquérito sobre mitos do Estado de São Paulo, realizado em setembro e outubro de 1947 __ Duas congadas de S. Paulo e uma de Minas Gerais __ “Festa do Santo Rei”, de Minas Gerais). São Paulo, Centro de Pesquisas Folclóricas “Mário de Andrade”, Separata da Revista do Arquivo Municipal, Divisão do Arquivo Histórico, Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, 1948, no CXVII.